A Morte de Ivan Ilitch, O Senhor dos Anéis: Expedições pelo Mundo da Cultura
12 Professor José Monir Nasser
A Morte de Ivan Ilitch
Palestra do professor José Monir Nasser em Curitiba em 24 de maio de 2008. Os trechos transcritos são da 1ª. edição de A Morte de Ivan Ilitch da editora 34, 2006, São Paulo, tradução de Boris Schnaiderman.
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A Morte de Ivan Ilitch
PROF. MONIR: Este livro é uma novela. Nós aqui temos dificuldade em ler esta palavra, porque em espanhol a palavra romance diz-se novela. A estrutura do romance é a mais complexa de todas as formas literárias. É um conjunto paralelo de histórias que se interpenetram, com diversos núcleos de ação que têm ligação entre si. Isso é um romance.
A novela, em português, como este livro A Morte de Ivan Ilitch, é a narrativa centrada numa única ação. Portanto, a novela tende a ser menor do que o romance. De modo geral, são. Não que não possa haver exceções. Um romance pequeno pode às vezes ser menor do que uma novela longa. Mas isso não é comum. O normal é que a novela seja uma história curta, centrada numa única ação, do começo até o fim, enquanto o romance é centrado em diversas ações que se interpenetram. É por isso que essa dramaturgia popular chamada de novela de televisão é, na verdade, tecnicamente um tele-romance. E a razão pela qual inventamos esse nome é porque copiamos
14 Professor José Monir Nasser dos espanhóis que já tinham isso lá, e copiamos o nome sem saber o que estávamos copiando. Então, telenovela, em princípio, não tem muito cabimento, mas o próprio produto também não tem, quer dizer, nada mais adequado do que o roto casando com o esfarrapado.
Temos poucas novelas aqui no nosso programa. Consigo me lembrar aqui, à primeira vista, apenas de O Coração das Trevas e de O Estrangeiro, acho que só. Tivemos apenas estas duas novelas até agora. Uma novela é sempre uma história muito mais simples, muito mais simplificada, porque não contrapõe planos de ação, não estabelece coisas que são independentes entre si.
A Morte de Ivan Ilitch tem no mercado duas traduções. Uma é essa aqui feita pelo Boris Schnaiderman e uma outra editada pela LPM, feita pela Vera Karam. Qualquer uma das duas que você tenha escolhido vai estar muito boa. Não há nenhum problema nas duas, são traduções boas. O Bruno Tolentino, que morreu há pouco tempo – era quase o maior poeta brasileiro vivo – dizia que você sabe quando uma tradução é boa quando você não consegue reconhecer a língua a partir da qual ela foi feita. Que essa era a única medida prática, pragmática, concreta de medir qualidade de tradução. Essas, tanto uma quanto a outra – eu li ambas – são de boa qualidade, não têm nenhum problema, então aqueles que pretendem ler o livro em seguida irão ter sucesso de um jeito ou de outro.
Quanto a este indivíduo chamado Lev Tolstói, já há uma polêmica logo de início, porque Lev em russo significa Leão e, por alguma estranha razão, tudo quanto é nome Tolstói escrito por aí vem precedido de um castelhano “Leon”, que não parece ser justificado de modo nenhum. Então, todo mundo chama o homem de Leon Tolstói, sem nenhum sentido. Porque, afinal de
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 15 contas, ou chamamos pelo nome russo Lev, que é leão, ou chamamos pelo Leão português, já que temos a palavra Leão. Leão Tolstói é raro. De modo geral, quando se tenta traduzir do russo, escreve-se Leon Tolstói.
Muito bem! Este escritor é contemporâneo de Dostoievski. Cansei de dizer para vocês que se vocês quiserem estudar literatura russa, basta estudar os escritores do século XIX, porque a maior parte dos escritores russos que têm realmente valor são do século XIX: Turgueniev, Gogol, Tolstói, Dostoievski. Entre esses autores, Lev Tolstói é uma personagem extraordinariamente única. Vocês receberam uma pequena cronologia, queria passar os olhos nela com vocês. Não dá para a gente debater muito Tolstói agora, porque senão não teremos tempo de estudar o livro. Mas no final, no nosso encontro de hoje, queria muito considerar com vocês alguns aspectos de Tolstói muito importantes, sobretudo porque estes aspectos que serão levantados aqui já são uma preparação para o livro Confissões de Santo Agostinho, que é nosso próximo livro. Há um casamento, uma interação, entre o livro de hoje e o próximo livro chamado Confissões. De modo geral, tenta-se fazer isso. Nem sempre é possível, porque às vezes as interações só aparecem na última hora. Mas nesse caso aí, vai ser possível discutir Tolstói em comparação com Santo Agostinho, porque eles têm alguma coisa muito semelhante e alguma coisa muito dessemelhante.
Lev Tolstói |Cronologia
Então, olhando para o nosso autor, ele nasce em 1828. É um pouquinho mais novo do que Dostoievski, sete anos mais jovem.
16 Professor José Monir Nasser “Nasce Lev Nikolaievitch Tolstói.” Todo mundo sabe o nome do pai dele, não é? Como é que é chama o pai dele? Nicolau, muito bem! Todo mundo aqui aprendeu a falar russo, essa é uma das virtudes, um dos efeitos colaterais desse curso aqui. Nasceu em Iasnáia-Poliana, propriedade da família na região de Tula, centro da Rússia. A cidade mais importante ali deve ser Kazan, provavelmente.
“É o quarto filho da condessa Maria Volkonsky e do conde Nicolai Tolstói, que havia recebido comenda da Ordem de São Vladimir por heroísmo.” São Vladimir é o homem que cristianizou a Rússia, no ano 1000, mais ou menos. Esse Vladimir foi um governante que virou santo. São Vladimir, por favor, no critério do cristianismo ortodoxo. Não esquecer que o cristianismo que está o tempo todo presente nesta história não é o nosso cristianismo católico, nem o protestante – é o ortodoxo. Significa que há várias diferenças em relação ao nosso cristianismo. É cristianismo também, mas não é exatamente a mesma coisa.
Ele “teria tido quatro irmãos legítimos: Nikolai (que tem o nome do pai), Sergei, Dimitri e Maria, e um ilegítimo, Michenka”, que é um diminutivo. Michel certamente é o nome do Michenka.
“O ambiente familiar é culto: havia uma biblioteca com vinte mil livros em várias línguas.” Não sei se vocês imaginam quanto isso representa um patrimônio extraordinário. Quantas pessoas que vocês conhecem têm vinte mil livros? Hoje em dia ninguém mantém biblioteca nenhuma. Esse homem tinha vinte mil, o pai do Tolstói, quando os livros eram caríssimos. Hoje os livros são caros, mas acessíveis. Mas no tempo de Tolstói os livros eram caríssimos, porque eram todos encadernados com algum luxo; o papel era muito caro.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 17 Então, é preciso entender isso aqui como sinal de um enorme gosto por cultura, e em várias línguas. Quer dizer, era uma família poliglota.
ALUNO: (Faz comentário.)
PROF. MONIR: Devia haver pouquíssima gente na Rússia naquela época que tivesse vinte mil livros. E esses livros estão conservados. Essa propriedade onde nasceu Tolstói é hoje uma espécie de parque nacional, e lá existe a biblioteca intacta.
“O pai de Lev o fazia decorar poesias de Pushkin”, que era o maior poeta da Rússia, “e era generoso com os servos.” Ainda nesta época existia um sistema de servidão, que na prática era um sistema de escravidão. Ele era absolutamente generoso com os servos, não os castigava. Um sujeito de um nível muito alto, este pai do Tolstói.
ALUNO: (Faz comentário.)
PROF. MONIR: O pai do Dostoievski parecia ser o contrário. Tanto é que foi morto pelos servos, por ser um sujeito com oscilação de humor. Hoje os psicólogos o chamariam de bipolar. O pai de Dostoievski bebia muito e fazia coisas terríveis. E esse aqui é o contrário.
Em 1830 morre a mãe de Leão Tolstói, “Maria Volkonski, seis meses depois do parto de Maria, a última filha. Lev, com menos de dois anos, nunca se lembraria da mãe.”
18 Professor José Monir Nasser Em 1837 “a família muda-se para Moscou, para as crianças poderem estudar”, e morre o pai, subitamente, muito jovem ainda, de derrame. “É enterrado em Tula. Lev passa aos cuidados de sua tia Aleksandra”, apelidada de Aline.
Em 1941 morre Aline, a sua tutora, e “Tolstói muda-se para Kazan, onde fica sob a guarda dos tios Yuskof.” Ele, jovem, com 16 anos, alguma coisa assim, “entra na universidade de Kazan para estudar literatura turco-árabe, tendo se preparado intensamente, aprendendo árabe, turco, latim, alemão, inglês e francês, além de história.”
ALUNA: (Faz comentário.)
PROF. MONIR: Tolstói era poliglota. Tinha uma facilidade enorme com as línguas. Em 1847, a experiência universitária já não deu certo. Ele não gostava do regime universitário, não se adaptava àquilo e “deixa a universidade sem completar o curso. Recebe como parte da herança quatro mil acres e trezentos e cinquenta servos na propriedade de Iasnáia-Poliana.” Trezentas e cinquenta “almas”, como se dizia naquela época. Os servos eram parte da propriedade. Não eram escravos como eram os escravos aqui, mas não podiam se destacar da propriedade. Então os servos, os ditos “almas”, eram sempre herdados ou vendidos com a propriedade. É como se fosse assim um plantel de cabeças de gado, de galinha, do que for.
Em 1848 Tolstói “começa uma vida mundana entre Moscou e São Petersburgo, viciando-se em jogo, comprometendo o patrimônio e andando em más companhias.”
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 19 ALUNA: (Faz comentário.)
PROF. MONIR: É a mesma coisa. Aliás, ambos são viciados em jogo. Tolstói não era alcoólatra; Dostoievski era alcoólatra também. Em 1850 sua herança está praticamente comprometida com dívidas de jogo.
Em 1851 o seu irmão Nikolai, mais velho que ele, está no exército, e ele então “adere ao exército do Cáucaso e participa da Guerra da Crimeia”, uma guerra contra os turcos.
Em 1852 escreve a primeira obra, Infância, publicada numa revista, como era muito comum naquela época – naquela época se publicavam em revistas e jornais, aos capítulos, as obras que depois viravam livros.
Em 1853, escreve o segundo livro, Adolescência.
Em 1855, “na Revista Contemporânea, publica Narrativas de Sebastopol, onde narra as batalhas que presenciou e vivenciou, como o cerco à cidade de Sebastopol.”
Em 1855 “demite-se do exército chateado com a profissão das armas” e em 1856 “morre de tuberculose o seu irmão Dimitri.” Escreve o terceiro e último pedaço da trilogia Juventude.
Em 1858 “é quase morto por um urso numa caçada.”
20 Professor José Monir Nasser Em 1859 “tem um filho ilegítimo com Axínia Bazikin, uma camponesa casada que se tornou sua amante.” Faz parte ainda da vida mundana de Tolstói, porque ele passou uma época de desregramento absoluto.
Em 1861 há a data quase mais importante da história da Rússia, que é a libertação dos servos no dia 19 de fevereiro pelo czar Alexandre II.
Em 1862 Tolstói dá a primeira endireitada na cabeça, casando-se com uma moça muito mais jovem que ele, Sófia Andréievna Bers. Essa Sófia também é às vezes chamada de Marsha, tinha esse apelido – e esse é um problema dos livros russos, porque cada personagem tem uns 12 apelidos, e nenhum dos 12 tem muita ligação com o nome original. E têm 12 filhos, que estão aí citados. Então, não vamos ler1. Desses filhos, cinco morreram ainda crianças. Então teve 12 filhos com esta mulher, além daquele filho ilegítimo, que teve antes, o mais velho.
Em 1863, para pagar uma dívida de jogo, ele entrega a obra Os Cossacos para publicação no Mensageiro Russo.
Em 1864 começam os cinco anos que levou escrevendo Guerra e Paz, a sua obra mais importante, que narra a guerra napoleônica – a invasão de Napoleão na primeira guerra napoleônica, que ele fez logo depois de tornar-se imperador. Depois fez uma segunda, quando fugiu de Elba e retomou o poder, com a ajuda do general Ney.
1 Nota do transcritor - O trecho da cronologia omitido na leitura em voz alta é o seguinte: 1862 Tolstói casa-se com Sófia (Sônia) Andréievna Bers, com quem terá doze filhos: Serguei (1863), Tatiana (1864), Ilia (1866), Leo (1869), Maria (1871), Pétia (1872), Nicolas (1874), uma menina sem nome que morreu após o parto, Andrei (1877), Alexis (1881), Alexandra (1884) e Ivan (1895).
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 21 Então ele faz uma segunda tentativa de conquistar a Europa. A primeira vez, de 1812 – a tentativa de conquistar a Rússia – é o episódio militar contado por Tolstói em Guerra e Paz.
Em 1869 “começa a publicação no Mensageiro Russo de Guerra e Paz (Voina i Mir, em russo), um romance histórico narrando o destino de três famílias aristocráticas durante o confronto entre o exército de Napoleão com o exército de Alexandre I, em 1812” . Nenhum livro de Tolstói é tão famoso quanto este. É um livro quase ilegível porque é enorme, tem três volumes, alguma coisa como 1.600-1.700 páginas. Sofre do mesmo mal de À la recherche du temps perdu, com a diferença de que o livro de Proust é um conjunto de livros separados. Você pode ler um por um, mesmo em épocas muito espaçadas, que irá entender o conjunto. Esse não; é uma história completa que é difícil de ler na prática – pouquíssima gente leu Guerra e Paz inteiro. Há uma possibilidade de ele entrar aqui no programa, não sei. O que está garantido no programa é Ana Karênina, para o ano que vem. Mas este, não sei se dá para fazer o resumo do livro na prática, mesmo. Então, está em estudo.
Em 1869, nesse mesmo ano, “Tolstói vivencia a famosa ‘noite de Arzamas’”. Aqui começa a modificação espiritual de Tolstói. Ele até então era um aristocrata de pai e mãe, com propriedades, dono de um monte de gente, que frequentava os lugares mais glamurosos, que jogava a sua fortuna fora e que tinha uma vida muito desregrada... De repente, ele já famoso por ter publicado um livro, vai comprar terras em um lugar chamado Arzamas, e tem uma espécie de transe místico. Ele depois tentou explicar, num livro que escreveu e não conseguiu editar. Diz ele que foi atingido por uma “estranha ansiedade, um medo, um terror”, que nunca antes havia experimentado. Essa vivência mística mudou completamente a vida de Tolstói. Em seguida começa a
22 Professor José Monir Nasser escrever o romance Ana Karênina, que é inspirado em Flaubert, nitidamente em Madame Bovary. E ele termina dois anos depois, e quando termina vai pela primeira vez ao monastério de Optina, que é um lugar sagrado para o cristianismo ortodoxo – também Dostoievski andou por lá. Há uma boa chance de que aquela personagem dos irmãos Karamázov, chamada staretz Zózima seja inspirada num velhinho - staretz significa ancião, mas não um ancião qualquer; é um ancião com uma sabedoria excepcional, uma espécie de guia espiritual de quem ele aceitar. Esse ancião, que é Santo Ambrósio – hoje se chama Santo Ambrósio, é um santo da igreja oriental, não da igreja ocidental –, Tolstói conheceu muito bem. Era o principal ancião lá daquele mosteiro. Ele também foi visitado por Dostoievski em 1878 e Gógol já fizera a mesma visita em 1850. Quer dizer, certamente esse senhor não aguentava mais a romaria de literários e escritores que iam lá o tempo todo para ver se pediam conselhos a ele. É uma dessas figuras espirituais extraordinárias e diz aqui: “Em Optina, Tolstói conhece o staretz Amvrosi”. Amvrosi é Ambrósio em russo. Então Amvrosi é Santo Ambrósio, que foi canonizado pelo cristianismo oriental.
Em 1878, “Tolstói publica Ana Karênina, sua segunda obra mais conhecida depois de Guerra e Paz.”
Em 1879 “conclui que apenas ‘os perseguidos estão na verdade’ e resolve aliar-se aos ‘hereges e adversários da Igreja’. Neste ano, numa missa, antes da comunhão, vira as costas e sai da Igreja para nunca mais voltar. Tolstói vê nisso a sua conversão ao ‘verdadeiro cristianismo’”. Começa aí uma existência absolutamente original, essa que Tolstói terá daí para a frente. De um sujeito aristocrático e mundano, tem aquela experiência mística durante aquela viagem e vai a um mosteiro. Começa então, aos pouquinhos, a contradizer,
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 23 ou pelo menos a não aceitar mais a religiosidade tal como expressa na religião ortodoxa. Não que ele gostasse de outra – também nenhuma outra servia. Tolstói vai criando um cristianismo para si próprio, que ele chama de cristianismo fundamental, cristianismo básico ou simples. Ele vai criando uma espécie de seita, muito parecido com o que fizeram os protestantes no renascimento. Criaram então uma maneira de ver o cristianismo que independia da estrutura burocrática da Igreja, que não tinha sustentação nem apoio de uma instituição. É isso que Tolstói começa a criar aí nessa época. Diz ele que é o verdadeiro cristianismo.
“Escreve Minha Confissão, obra que só seria publicada em 1882, em que condena a sua vida pregressa, incluindo toda a sua atividade literária.” Essas obras todas, tanto Ana Karênina quanto Guerra e Paz, são obras do tempo em que ele ainda não tinha se redescoberto verdadeiramente como cristão.
“Tolstói decide não escrever mais ficção, mas dedicar sua vida ao ‘verdadeiro cristianismo’ e a uma espécie de ‘socialismo agrário.’” A concepção que ele tinha da vida é de que tudo que fosse cerimonial religioso era pervertido, porque no fundo, no fundo, só interessava o fato de que somos todos filhos de Deus e que, se somos todos filhos de Deus, somos todos iguais. Então, essa história de que tem um padre que é mais importante do que você, isso é besteira. Ele achava que não tinha que cultuar nem Jesus Cristo, nem Nossa Senhora, nem santo nenhum, nem ter ícone nenhum, e que no fundo era uma coisa de simplicidade absoluta, e como somos todos iguais, porque somos todos filhos do mesmo Pai, então, todos tínhamos que ter a mesma coisa. Ele vai para aquela fazenda, Iasnáia-Poliana, onde nasceu, e transforma aquele negócio numa espécie de centro de experimentação social, em que os servos tinham poder também. Já havia acontecido a libertação dos servos.
24 Professor José Monir Nasser Ele começa a criar ali uma espécie de socialismo agrário. Um negócio muito parecido com isso que hoje em dia está na cabeça de alguém como Frei Beto, coisas desse gênero. A diferença é que Tolstói não tinha uma proposição revolucionária, ele não associava isso a nenhuma entidade revolucionária. Ele não era marxista, ao contrário, achava Karl Marx um idiota completo. Não era um socialista moderno, mas um sujeito que tinha essa ideia de socialismo cristão. Quem tem a mesma ideia é esse procurador orelhudo, esse Luís Francisco, que desapareceu. Depois que o PT virou réu, ele sumiu. Lembram, um sujeito vistoso, que andava por aí? Esse sujeito escreveu um livro de 1.100 páginas dizendo que o comunismo é uma utopia cristã. Pois essa é mais ou menos uma ideia tolstoiana. Muito parecido com o que Tolstói pensava do mundo.
“Volta para Optina, em 1881, e apresenta ao staretz Amvrosi, Santo Ambrósio, a sua nova versão do Novo Testamento,” - que ele acha que é a certa – “dita Combinação e tradução dos quatro Evangelhos, em que expurga toda a referência à divindade de Cristo, aos milagres, ao sobrenatural, à redenção e à imortalidade.” O velhinho pega um cacete e o expulsa a cacetadas do mosteiro. Santo Ambrósio corre com ele do mosteiro e ele sai furioso, achando que o velhinho tinha uma fé cega. E ele achava inacreditável que alguém pudesse ter fé cega, que a fé tinha que ser uma coisa racional. Esse Tolstói não bate bem, sabe, depois a gente volta a falar um pouquinho dele. Mas ele tinha essas coisas assim.
Começa a escrever em 1882 “o artigo Por ocasião do Censo de Moscou onde afirma: ‘é impossível viver deste modo – impossível, impossível, impossível’, referindo-se às disparidades de renda entre ricos e pobres. Muda-se para
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 25 Moscou para os filhos poderem estudar, e fica mais impressionado ainda com as desigualdades entre os homens (que são irmãos, logo iguais, segundo a sua visão.)”
Em 1884, “começa a escrever Diário de um Louco, para descrever a noite de Arzamas. Tenta aprender, aos 56 anos, o ofício de sapateiro e começa a ler filosofia chinesa”. Quem era sapateiro também era Jacob Boehme, um místico alemão do séc. XV, que embora não tivesse nenhuma formação filosófica, era capaz de explicar coisas extraordinárias. Talvez tenha sido esta a inspiração de Tolstói. Ser como Jacob Boehme.
Em 1886, “publica A Morte de Ivan Ilitch (Smert Ivana Ilicha)”, esse é o nome em russo do livro que vamos ler hoje.
Em 1890 “publica Sonata a Kreuzer, em que condena as relações sexuais até mesmo no casamento, salvo para efeitos de reprodução.” Bom, ele já tinha 13 filhos...
ALUNOS: (Risos.)
PROF. MONIR: Em 1891 “publica Crítica à Teologia Dogmática, em que ataca as igrejas em geral. Decide doar todos os seus bens aos pobres.” A família obviamente não acha uma boa ideia, e pressiona Tolstói. Ele então passa todos os bens para a família e fica sem nada. Abre a mão de todas as coisas, propriedade e tudo.
26 Professor José Monir Nasser Em 1894 “publica O Reino de Deus está Dentro de Você, síntese do seu pensamento espiritual e social, que teria influenciado o pacifismo de Gandhi”. O pacifismo era uma das regras básicas da filosofia moral de Tolstói.
Em 1897 – aqui tem uma calúnia – escrevi isso aqui e hoje de manhã eu descobri que a sua mulher Sófia não teve por amante Sergei Tanaiev – tinha certo cabimento, já que ele tinha decretado que não era mais para ter sexo a não ser para reprodução e ela já tinha 12 filhos, então parece até legítimo que ela tivesse arrumado um amante – mas ao que tudo indica essa foi uma paixão platônica, embora tenha de fato existido. Então, por favor, corrijam a calúnia. Aparentemente, ao que tudo indica, esta paixão foi platônica, embora tenha sido verdadeira, real e concreta.
“Publica em 1898 O que é Arte?”, um livro muito interessante - essa tradução aqui no Brasil é feita do inglês, quer dizer, tem alguma dificuldade por causa disso – em que ele diz que arte só serve para divulgar a verdade cristã. E que todos os tipos de arte, inclusive os livros que ele escreveu, são uma belíssima porcaria, e isso inclui também Shakespeare, Da Vinci, Dante Alighieri e todo o mundo. E ele diz assim no livro, literalmente: “A descrença das altas classes do mundo europeu criou uma situação em que a atividade artística cujo objetivo era transmitir os mais elevados sentimentos que a humanidade atingiu em sua consciência religiosa – foi substituída por outra cujo objetivo era proporcionar o maior prazer para um certo grupo de pessoas.” A tese desse livro O que é Arte? é de que se perdeu, na medida em que o mundo foi vivendo, a ideia de que a arte servia, como no início dos tempos, apenas para apresentar a verdade religiosa. É quando uma determinada classe ociosa, rica, europeia, já descrente, tendo apenas um cristianismo de fachada, então resolve transformar a arte na busca do prazer. A ideia de que
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 27 a arte serve para que haja um estímulo, digamos, sensorial, é, na opinião dele, uma ideia pervertida. É um livro que vale a pena ler, porque é muito bem feito. É claro que você não precisa concordar com a tese, a tese não está certa na sua totalidade. Mas é um livro muito interessante porque revela tudo o que Tolstói é. Se você quer entender como funciona a mente do Tolstói, leia este livro O que é a Arte?.
ALUNO: (Faz comentário.)
PROF. MONIR: É, ele é um sujeito ranzinza. Parece que o sujeito passou a noite em claro com dor de dente e escreveu o livro de manhã. Mais ou menos assim. (Risos). Deve ter sido este o caso, provavelmente.
E publica, em 1899, “Ressurreição, de caráter messiânico.”
Em 1901 abandona a família em Moscou para se isolar em Iasnáia-Poliana, que se torna lugar de romaria de tolstoianos, adeptos de uma espécie de ‘comunismo místico’ associado à teoria da não-resistência ao mal. Faz a última viagem a Optina.” Chesterton goza de Tolstói dizendo assim: “para o pessoal do Tolstói São Jorge não matou o dragão, mas amarrou uma fita cor-de-rosa no focinho dele e lhe deu um pratinho de leite”. A ideia fundamental do cristianismo de Tolstói é exatamente aquilo que está no Sermão da Montanha, de que você deve dar a outra face ao seu agressor. Então é a ideia da não-violência, da extinção de todo o processo jurídico, legal; que não se deve de modo nenhum perseguir os criminosos, que isso não se faz, que não vai resolver nada. A gente volta a Tolstói depois.
28 Professor José Monir Nasser E “no dia 28 de outubro de 1910, com 82 anos, foge da sua propriedade buscando ‘isolamento e silêncio’ e morre de pneumonia na estação de Astapov no dia 20 de novembro, depois de vagar entre vários mosteiros.”
Essa é a história de Tolstói. Depois que decidiu que não ia mais escrever ficção, escreveu A Morte de Ivan Ilitch, que tem uma conotação nitidamente ficcional. Mas ela já não é como os livros anteriores, porque se os livros anteriores eram, na opinião dele, livros em que ele estava mais ou menos iludido com as coisas do mundo, esse aqui não é mais um livro assim. Vocês verão que esta obra é maravilhosa. Um livro extraordinário! Diz Paulo Ronái que é a melhor novela já escrita. É um modelo de novela – se alguém quiser saber como é que se escreve uma novela, pegue este livro para ler. É uma obra extraordinária, que você lê numa tensão dramática enorme – é quase impossível parar de ler – e que conta a história de um sujeito chamado Ivan Ilitch.
Esse Ivan Ilitch é um advogado, de certo modo bem-sucedido, a quem o destino produz um atrapalho enorme. É a história dessa transição entre uma situação de extraordinário conforto e enorme tranquilidade para uma situação dramática que a novela nos conta. Quando Tolstói escreveu este livro, ele já estava dentro desta vida espiritual. É preciso dizer que, seja quanto discordemos de Tolstói (e depois vamos tentar isso no final), não se pode dizer que ele não tenha sido um sujeito coerente. Ele foi absolutamente coerente. É uma dessas almas que passam a vida fazendo apenas as coisas que acham que são justas. Não se pode, portanto, acusá-lo de ser um farsante, de ser um fingido, de ser um publicitário de si mesmo, de
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 29 ser alguém que faz só marketing. Não é alguém que finge que é uma coisa e é outra. Ele era de fato assim. Podia estar errado, mas era verdadeiro. Isso já é uma grande virtude de Tolstói.
Este livro não é um livro em que se possa discutir nenhuma ideia religiosa - é um livro completamente ação pura, pura, pura. Representa mais ou menos o próprio progresso que, simbolicamente, Tolstói estava vivendo. Vamos, então – se vocês não têm dúvidas, depois a gente volta a falar de Tolstói no final - à Morte de Ivan Ilitch. Temos a nossa leitora oficial de volta hoje, que é a Clarinha, que vai nos ajudar a ler para ganharmos um pouco de tempo e poupá-los do esforço. Lembrem que, a qualquer momento, estou aqui para resolver pedaços obscuros e palavras difíceis, embora ache que não há neste aqui. Começo sempre lendo o resumo da narrativa.
Resumo da Narrativa
Membro da aristocracia russa, o conde Lev Tolstói nasceu em 1828 na propriedade Iasnáia-Poliana na Rússia Central. De certo modo, a vida aristocrática permeia as grandes obras Guerra e Paz e Ana Karênina, até a crise religiosa de 1879, seguida da conversão ao “cristianismo primitivo” e da obra Minha Confissão. A partir daí a obra de Tolstói direcionou-se para temáticas cada vez mais espirituais. Tolstói acabou inaugurando um “campesinato evangélico” e a propriedade de Iasnáia tornou-se destino de romarias. Nenhuma obra de Tolstói reflete a transição da própria vida do autor tão bem quanto a novela A Morte de Ivan Ilitch, publicada em 1886. Essencialmente, a doutrina de Tolstói é uma forma de anarquismo cristão, baseado no princípio do amor fraterno e em certos preceitos do Sermão da Montanha: não ser colérico, não cometer adultério; não fazer juramentos, não
30 Professor José Monir Nasser oferecer resistência ao mal; amar os inimigos. O bem, acreditava ele, conduziria afinal à sociedade agrária, igualitária, livre de estados, composta de vegetarianos abstêmios e não fumantes que se vestiriam como camponeses e praticariam a castidade antes e depois do casamento.2
PROF. MONIR: Esse é o modelo existencial de Tolstói. Isso parece assim estranho mas, enquanto esteve vivo, durante 20 anos houve centenas de pessoas que moraram na propriedade de Tolstói tentando botar isso na prática. Chesterton chama a turma de Tolstói de “os novos quakers”. Ele teria criado então uma seita de quakers, teria se resumido fundamentalmente a isso.
Paulo Ronái acha a novela A Morte de Ivan Ilitch a mais perfeita que já se escreveu e Otto Maria Carpeaux considera “uma das obras mais comoventes e mais pungentes da literatura universal” e que “Tolstói foi, sem dúvida, um homem que durante a vida inteira procurou, com zelo fanático, a verdade”.
PROF. MONIR: Não se pode dizer que ele tenha sido um tapeador. Pode ter se autoenganado, mas que era um sujeito desonesto, não era. Há milhões de linhas escritas para explicar Tolstói, que é uma personagem muito estranha, e há uma aposta maior que está ligada aí aos seus complexos de culpa, apesar de que a família dele não era uma família exploradora dos outros, como eram os outros aristocratas russos. O pai dele era um sujeito absolutamente humano e generoso.
Ninguém sabe muito bem o que é. A verdade é que ele passou por uma experiência mística e desde então, foi se tornando cada vez mais aquilo
2 Nota do resumidor – Extraído do prefácio de O que é Arte, Leon Tolstoi, São Paulo, 2002, pp. 13/14.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 31 que ele concebia como sendo um cristão primitivo, antes de aparecer essa “desgraça” chamada Igreja, antes de aparecer a autoridade, aparecer a burocracia, aparecer o dízimo, aparecerem todas essas relações de poder associadas à Igreja.
Confirmando a tese, no seu Goethe e Tolstói, Thomas Mann afirma que “as obras literárias de Tolstói no fundo não são mais que fragmentos de um imenso diário mantido durante cinquenta anos, uma confissão detalhada e sem fim”. Em outra obra, Minha Confissão, escrita em 1879, Tolstói se pergunta “Há na minha vida um sentido que não será aniquilado por minha morte que me espera inevitavelmente?” Esta pergunta talvez seja a chave do enigma Lev Tolstói.
PROF. MONIR: Bom, vamos ler a história do Ivan Ilitch, então. Começa a história com a revelação da morte de Ivan Ilitch. Clarinha, por favor, vamos lá.
Dois juízes e um promotor, num intervalo de um julgamento, conversam sobre casos jurídicos quando um deles, Piotr Ivânovitch, que passava os olhos por um jornal, alerta os colegas:
– Senhores! – disse ele. – Morreu Ivan Ilitch.
– Será possível?
– Aqui está, leia – disse ele a Fiódor Vassílievitch, entregando-lhe o jornal fresco, ainda cheirando a tinta.
Havia ali a seguinte notícia, envolvida por uma tarja preta: Prascóvia Fiódorovna Golovina comunica, com dor na alma, a seus parentes e conhecidos o falecimento do seu amado esposo, o juiz Ivan Ilitch
32 Professor José Monir Nasser
Golovin, ocorrido em 4 de fevereiro do corrente ano de 1882. O féretro sairá sexta-feira, à uma da tarde.
Ivan Ilitch era colega dos cavalheiros ali reunidos, e todos gostavam dele. Estivera doente algumas semanas; dizia-se que a sua doença era incurável. Não fora substituído no cargo durante a moléstia, mas sugeria-se que, no caso da sua morte, seria provavelmente substituído por Aleksiéiev, e este, no seu cargo, por Vínikov ou Stábel. De modo que, ao ouvirem a notícia da morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um dos que estavam reunidos no gabinete teve por objeto a influência que essa morte poderia ter sobre as transferências ou promoções tanto dos próprios juízes como dos seus conhecidos. (págs. 7 e 8)
PROF. MONIR: Então, esse início é muito bom, porque estão os colegas do Ivan Ilitch Golovin – ele não vai mais ser chamado de Golovin, porque o autor só o chama de Ivan Ilitch, só o nome e o patronímico: Ivan, filho de Iliá (Ilitch é filho de Iliá), que é o primeiro nome do pai dele. Então, aquele fato da morte de Ivan Ilitch motiva discussões sobre quem é que vai pegar aquele lugar, que era um lugar bom, provavelmente, relativamente aos outros. É interessante que em todos os livros russos você encontra muitas personagens com nome alemão. Isso é normal porque houve uma emigração da Alemanha para a Rússia por obra de Catarina II, que queria melhorar o padrão cultural da Rússia, pois achava que a Rússia era muito bárbara. Então ela incentivou e entregou terras em enormes quantidades
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 33 para alemães. Tanto é que tem muito alemão que hoje mora no Brasil que veio para o Brasil da Rússia, e não da Alemanha. Os alemães do Volga aqui em Entre Rios, por exemplo. Então, há muitas colônias alemãs no Brasil que têm origem russa, embora sejam alemãs em termos étnicos. E foi a Catarina que fez esta distribuição de terras lá, então é muito comum encontrar personagens com nome alemão em histórias russas – Dostoievski tem o tempo todo, o tempo todo.
Vejam que a morte de Ivan Ilitch significa para esses conhecidos, colegas, sobretudo uma oportunidade profissional e não mais outra coisa do que isso.
Mais chegado ao falecido que os outros, Piotr Ivânovitch, depois do jantar, vai ao velório e, sem saber bem o que fazer, “escolheu uma solução intermediária: entrando no quarto, começou a persignar-se e como que a inclinar-se um pouco”.
PROF. MONIR: Persignar-se é fazer o sinal da cruz. Esse Piotr Ivânovitch é aquele que leu a notícia do jornal, que era o único que tinha alguma ligação maior com Ivan.
Sente certo odor de cadáver em decomposição. Encontra o criado Guerássim que havia feito as vezes de enfermeiro a Ivan Ilitch, que “gostava particularmente dele”. Piotr Ivânovitch julga que seu amigo, “como todos os defuntos, tinha o rosto mais belo e, sobretudo, mais significativo do que fora em vida.” Depois das exéquias, quando o advogado está saindo, Schwartz, um dos presentes, e “que não se entregava às impressões acabrunhantes”, o convida para jogar cartas mais tarde na casa de Fiódor Vassílievitch.
34 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Esse Fiódor Vassílievitch é um daqueles que estavam conversando com Piotr lá no escritório, quando se descobre a morte do Ivan Ilitch.
Antes que Piotr possa responder, a viúva, Prascóvia Fiódorovna, estende o braço e o leva para outro aposento, para tratar de certo assunto com ele.
– Mas eu tenho um caso a tratar com o senhor. Piotr Ivânovitch inclinou-se, e procurou evitar que se separassem as molas do pufe, o qual imediatamente se mexeu debaixo dele.
– Nos últimos dias, ele sofreu horrivelmente.
– Sofreu muito? – perguntou Piotr Ivânovitch.
– Ah, foi terrível! Nos últimos não digo minutos, mas horas, ele não parou de gritar. Gritou sem cessar três dias seguidos. Era intolerável. Não consigo compreender como suportei isto; ouvia-se tudo, atrás de três portas. Ah! O que tive de sofrer! (pág. 14)
Piotr Ivânovitch, misturando sentimentos de horror ao sofrimento do amigo com curiosidade mórbida, procura obter detalhes do passamento de Ivan “como se a morte fosse uma aventura inerente a Ivan Ilitch apenas, e de modo nenhum a ele também”. A conversa progride para assuntos pecuniários e a viúva quer saber como “obter dinheiro do Tesouro, em consequência da morte do marido”, (Piotr percebe que ela já tinha todas as informações, até mais que ele, mas investigava como podia “abocanhar mais”). Finalmente, de saída para jogar cartas com Schwartz e companheiros, Piotr encontra os dois filhos de Ivan, uma mocinha
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 35 “de cintura fina”, Ielisavieta, e Vladimir, um moleque ginasiano, “tremendamente parecido com o pai”.
PROF. MONIR: Se para os colegas de Ivan Ilitch a morte dele representa uma oportunidade profissional, para a mulher dele, Prascóvia, representa uma maneira de arrumar uma boa pensão do Estado. E era essencialmente este o assunto que Prascóvia tinha com Piotr naquela noite. Esse Piotr vai desaparecer da história agora. Nunca mais ouviremos falar dele, porque ele é apenas um pretexto que o autor usou para nos contar que Ivan Ilitch tinha morrido. Daqui para a frente, o que vai acontecer é, em linguagem moderna, um flashback de toda a vida de Ivan Ilitch até o momento da morte. Essas pessoas que até então apareceram, como Schwartz, Piotr, Vassílievitch, não terão mais papel na história. É uma técnica de escrever moderna. É muito comum no cinema, no cinema funciona muito bem. Tem um filme chamado Crepúsculo dos Deuses – em inglês chama-se Sunset Boulevard – que começa com um sujeito morto na piscina e o mesmo sujeito ao lado dizendo assim: “Olha, aquele ali sou eu, eu morri, como vocês podem perceber” e aí começa a contar a história toda a partir da conclusão da sua morte. A mesma coisa faz Paulo Honório do São Bernardo, que também começa a história contando que está completamente derrotado e que, embora fosse analfabeto... a única parte inverossímil do livro é essa, não é? Não se concebe que um sujeito tão analfabeto quanto Paulo Honório pudesse escrever aquele livro. Então errou mesmo, o Graciliano Ramos. Faltou aí um pouco de competência artística. E também é o caso das Memórias Póstumas de Brás Cubas, que é assim: “Olha, eu já morri, então vou contar a história”. Esse é um truque narrativo que vai muito, muito bem no cinema. No cinema, a cada cinco filmes, acho que dois são assim. Começa com um fato consumado logo de cara e aí o resto do filme é para explicar como as coisas acabaram daquele jeito. Talvez tenha sido
36 Professor José Monir Nasser até mesmo Tolstói quem inventou isso. Não posso garantir. Mas, sem dúvida nenhuma, é um recurso muito hábil. Agora sabemos que Ivan Ilitch morreu, que ele era advogado, que portanto vai ser substituído, e a mulher dele irá cuidar para que aquele fato, embora lamentável, não a deixe na miséria, não é isso? Agora o autor vai nos contar quem é a nossa personagem, Ivan Ilitch, desde o início. A única personagem que continua daqui para a frente, das personagens aí mencionadas, é Prascóvia.
A história pregressa da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples e comuns e, ao mesmo tempo, das mais terríveis. (pág. 17)
Ao morrer, Ivan Ilitch tinha quarenta e cinco anos e era juiz do Foro Criminal.
PROF. MONIR: O sistema jurídico russo não é como o nosso. Lá existe a figura do juiz de instrução, que é um juiz que comanda o inquérito – aqui no Brasil não é assim. Aqui é a polícia quem faz o inquérito e o juiz apenas recebe os autos, mas na França é assim e na Rússia também é assim. Se vocês se lembram de Crime e Castigo, aquele juiz que desmascara Raskólnikov, Porfiri Pietróvitch, era um juiz de instrução também. O juiz de instrução é uma pessoa que comanda um inquérito, faz a investigação e todos os interrogatórios, para enfim chegar à conclusão ou não da culpa de alguém.
Filho de Iliá Iefímovitch Golovin, “funcionário inútil de diversas repartições desnecessárias”, destacava-se na família de que se podia dizer:
(Iliá) teve três filhos. Ivan Ilitch era o segundo. O primogênito fazia carreira idêntica à do pai,
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apenas em outro ministério, e já estava chegando à idade funcional em que se atinge esta inércia dos vencimentos. O terceiro filho era um fracassado. Prejudicara-se em diferentes repartições, e agora estava servindo na administração das estradas de ferro: tanto o seu pai como os irmãos, e particularmente as mulheres destes, não gostavam de se encontrar com ele e até não se lembravam, sem uma necessidade extrema, da sua existência. A irmã estava casada com o barão de Graff, um funcionário de Petersburgo idêntico ao seu sogro. Ivan Ilitch era ‘le phoenix de la famille3, como se dizia. Não era frio e meticuloso como o mais velho, nem temerário como o caçula. Constituía o termo médio entre eles: uma pessoa inteligente, viva, agradável e decente. Cursou a Faculdade de Direito junto com o irmão mais moço. Este foi expulso do quinto ano e não terminou o curso, enquanto Ivan Ilitch brilhava nos estudos, recebendo depois o diploma. Na Faculdade, ele já era aquilo que seria no decorrer de toda a existência: um homem capaz, alegre, bonachão, comunicativo, mas um severo cumpridor daquilo que considerava seu dever; e considerava como seu dever tudo aquilo que consideravam como tal as pessoas mais altamente colocadas. (pág. 18)
(...)
3 Nota do resumidor – “Phoenix de la famille” significa aproximadamente “orgulho da família”.
38 Professor José Monir Nasser
Cometeu na Faculdade algumas ações que, antes, pareciam-lhe grande ignomínia e que suscitaram nele asco por si mesmo, no momento em que as cometia;
PROF. MONIR: Tipo “colar na prova”.
mas, percebendo ulteriormente que essas ações eram cometidas também pelas pessoas altamente colocadas e não eram consideradas por elas como ações más, não é que ele as tivesse considerado boas, mas esqueceu-as de todo e não se entristecia um pouco sequer ao lembrá-las. (pág. 19)
PROF. MONIR: A impressão que vocês têm do Ivan Ilitch é boa? Da família, é o mais bem-sucedido dos filhos, é um sujeito sério, estudou, teve notas brilhantes. Acho que podemos concluir que a impressão que Ivan dá é boa, não é? Repararam que todo mundo aqui é funcionário público? Isso é uma característica da Rússia Imperial, que não tinha atividade econômica que não fosse a agricultura. Havia fundamentalmente uma estrutura agrária, baseada em oligarquias, com fazendas muito grandes, porque é muita terra – apesar de que um bom pedaço disso é inabitável, na região siberiana. Não dá para fazer nada lá, até hoje não se habita lá porque é inóspito, realmente inóspito. A gente não tem ideia do que é frio, a não ser quando vai para um lugar desses.
A Rússia é muito grande, então as propriedades eram muito grandes. Havia um sistema social baseado na servidão: uma família era dona da propriedade,
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 39 da dacha ou da fazenda que tinha lá 2 mil, 4 mil, 10 mil almas. Os servos eram chamados de mujiques. Não que mujique signifique servo; mujique significa agricultor. O mujique ucraniano é considerado o melhor agricultor do mundo. E essa gente então vivia em regime de semi-escravidão, como se fossem propriedade física, ativos físicos da fazenda. Nas cidades não havia indústria nenhuma, só comércio. Uma pequena classe média comerciante – muito pequena, de modo geral –ocupada por alemães. Os alemães dominavam o pequeno comércio, a pequena indústria – como aconteceu aqui também. Quando o Paraná se tornou independente de São Paulo, em 1853, Curitiba era uma cidade alemã. Das cinco padarias que tinha, quatro eram de alemães. Dos cinco ferreiros, três eram alemães, e assim por diante. A mesma coisa aconteceu em Joinville. Quando chegaram lá os colonos, havia uma sociedade de famílias portuguesas que aos pouquinhos foram sendo substituídas pelos alemães, que faziam as coisas industriais. Então a Rússia nesse tempo é uma sociedade em que os cargos de que a vida social depende fundamentalmente estavam ligados ao Estado. Havia uma prioridade total do emprego público. Estar ligado ao Estado é tudo que alguém podia imaginar como sendo bom. Havia um pequeno comércio, uma pequena quantidade de empregados na cidade, muito pequenininha, e a economia básica era a agrícola, com o regime de servidão. Quase todo mundo era funcionário público. Você não encontrava ninguém que não fosse isso. Todos trabalhavam no governo e, sobretudo, em assuntos associados ao jurídico. As personagens mais ambiciosas queriam ser juízes, advogados, procuradores, enfim.
Depois de formado, Ivan Ilitch dirigiu-se à província para ocupar o cargo de adido ao governador, para encargos especiais, posto que lhe fora arranjado pelo pai. Na província, comportava-se com dignidade, “quer com os superiores, quer
40 Professor José Monir Nasser com os inferiores, e com exatidão e uma honestidade incorruptível...” Ivan ficou cinco anos no seu primeiro posto. Foi promovido a juiz de instrução em outra província, posto que ele aceitou, apesar de ter de “deixar as relações estabelecidas e criar novas”. Neste novo cargo, Ivan comportou-se com igual seriedade, apesar de sentir que estavam todos “nas suas mãos” em função de sua condição de juiz: “Ivan Ilitch jamais abusou desta sua autoridade e a possibilidade de atenuá-la constituía para ele o interesse principal do seu novo encargo”. Nesta nova cidade, conheceu Prascóvia Fiódorvna Michel, sua futura mulher, “a moça mais atraente, brilhante e inteligente do círculo de relações de Ivan Ilitch”.
PROF. MONIR: Mais uma vez notamos aqui uma demonstração de que se trata de uma pessoa muito boa. É um sujeito que tinha um poder extraordinário e, no entanto, não usufruía dessa prerrogativa para ser injusto e nem estabelecer nenhuma injustiça, e que tentava diminuir o próprio poder que tinha para não parecer excessivamente poderoso. Tratava-se de alguém decente, esse Ivan Ilitch, vocês não têm essa impressão? Bem, então vamos ver agora o casamento de Ivan Ilitch.
E Ivan Ilitch casou-se.
O processo do matrimônio como tal e os primeiros tempos de vida em comum, com os carinhos conjugais, a mobília nova, a prataria nova, as roupas de baixo novas, decorreu muito bem até a gravidez da mulher, de modo que Ivan Ilitch já começava a pensar que o casamento não só não infringiria o caráter de vida leve, agradável, alegre e sempre decente e aprovada pela sociedade, que ele considerava inerente à existência em geral,
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mas ainda o reforçaria. No entanto, a partir dos primeiros meses de gravidez da mulher, surgiu algo novo, inesperado, desagradável, penoso e inconveniente, que não se podia esperar e de que não havia nenhum meio de se livrar.
A mulher, sem qualquer motivo, conforme pareceu a Ivan Ilitch, de gaité de coeur4, como ele dizia a si mesmo, começou a infringir o encanto e a decência da vida: sem nenhuma causa para tanto, tinha ciúme dele, exigia que lhe fizesse a corte, implicava com tudo e fazia-lhe cenas grosseiras e desagradáveis. (págs. 23-24)
PROF. MONIR: Então, reparem aqui, voltem essa página. Eu queria muito que vocês prestassem atenção que ele percebeu que o casamento “não infringiria o caráter de vida leve, agradável, alegre e sempre decente aprovada pela sociedade”. O que Ivan Ilitch queria era uma vida assim. Uma vida que fosse normal, fosse boa, fosse decente, que ele se sentisse honesto e decente. Era só o que ele queria da vida. É um objetivo muito exótico, esse? Não. Parece uma coisa normal que alguém queira isso. Continuamos.
Ivan tentou lidar com aquela dificuldade com uma atitude “leve e de bom tom” mas, como o humor da mulher piorava constantemente, Ivan “transferia cada vez mais para o serviço o centro de gravidade de sua vida. Passou a gostar mais do serviço e tornou-se mais ambicioso”. Por causa disso, passados três anos, Ivan tornou-se suplente de promotor e foi sendo cada vez mais envolvido pela vida funcional.
4 Nota do resumidor – “Gaité de coeur” significa “por capricho”.
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Vieram filhos. Sua mulher ficava cada dia mais resmungona e zangada, mas as relações com a vida doméstica elaboradas por Ivan Ilitch tornavam-no quase impenetrável aos resmungos dela.
Depois de sete anos de serviço na mesma cidade, Ivan Ilitch foi transferido para um cargo de promotor em outra província. Eles mudaram-se, o dinheiro era escasso e o lugar onde se instalaram não agradou a Prascóvia Fiódorovna. O ordenado era maior, mas a vida mais cara; morreram dois filhos e, por isto, a vida de família fez-se ainda mais desagradável para Ivan Ilitch. (págs. 25-26)
A mulher atribuía ao marido todos os infortúnios ocorridos no novo local de residência e “a maioria dos assuntos de conversa entre marido e mulher, sobretudo a educação dos filhos, levava a questões sobre as quais havia lembrança de dissensões, e a cada momento podiam deflagar-se brigas”. Os pequenos momentos de paixão “eram ilhotas, às quais eles atracavam por algum tempo, mas depois novamente se lançavam ao mar da hostilidade oculta, que se manifestava no afastamento entre eles”. Ivan passava cada vez menos tempo com a família e assim ele viveu “mais sete anos”.
PROF. MONIR: Então, o que aconteceu na vida de Ivan Ilitch que atrapalhou um pouquinho as coisas? Ele casou e depois do casamento a mulher demonstrou ter um gênio difícil. Ele acabou mudando para outro lugar, o que não agradou à mulher. Ela perdeu dois filhos. Atribuiu estas mortes ao lugar, às circunstâncias, etc. Portanto, culpou o marido. Ele então se deixou abalar por isso? Não, porque ele não prestava muita atenção na reclamação e ia
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 43 trabalhar mais. Começou a botar a vida mais voltada para a vida profissional. Isso também não parece uma coisa muito incomum, não é? Não é muito estranho. Isso talvez, às vezes, não tenha muito jeito mesmo. Talvez o único jeito de um cônjuge se livrar do outro seja desaparecer um pouco, sei lá se isso não é um instrumento normal de viabilização das relações conjugais... Às vezes deve ser, não é? Mas até agora você vê alguma coisa estranha no Ivan Ilitch? Não. Quem era Ivan Ilitch? Era o filho mais bem-sucedido de uma família. Um sujeito esforçado, que estudou de verdade, que tem boa índole. Um sujeito honesto, sério, que cumpre as suas obrigações... Em nenhum momento o autor nos diz que ele é alguém que se valha de algo do seu privilégio profissional. É um sujeito, portanto, até muito melhor do que a média. Pensando bem, a gente quase não imagina uma pessoa tão boa assim na média. Quer dizer, é uma coisa incomum, poucas pessoas são assim. E ele fez um bom casamento, com a moça mais bonita da cidade. Mas depois que casou com ela, as coisas não funcionaram tão bem, a relação é ruim. Ele, no entanto, não se incomodou muito com isso, porque conseguiu botar o trabalho no lugar e foi mais ou menos continuando a viver mais sete anos. Essa história é extremamente bem contada. É uma história muito, muito bem feita. Uma grande habilidade literária tem esse Tolstói. Alguma dúvida até agora, pessoal? Não? Muito bem!
III
Assim viveu Ivan Ilitch dezessete anos casado. Ele já era um promotor experiente, que recusara algumas transferências, na expectativa de um lugar mais interessante, quando ocorreu inesperadamente uma circunstância desagradável, que alterou completamente a tranquilidade da sua vida. Ivan
44 Professor José Monir Nasser
Ilitch esperava receber o cargo de juiz presidente numa cidade universitária, mas Hoppe conseguiu passar-lhe à frente e ocupar esse cargo. Ivan Ilitch irritou-se, começou a censurá-lo e brigou com ele e com os chefes imediatos; passou a ser tratado com frieza e, por ocasião das designações seguintes, foi novamente prejudicado. (pág. 27)
PROF. MONIR: O que acontece é que a carreira de Ivan Ilitch começa a patinar um pouquinho. Ele não consegue progredir na carreira conforme esperava poder fazer.
Deste modo, o ano de 1880 foi o mais penoso até então da vida de Ivan Ilitch. Achava-se abandonado e injustiçado. Os outros consideravam a sua vida satisfatória e feliz, mas “ele era o único a saber que, com a consciência das injustiças que sofrera, com as eternas amofinações da mulher, com as dívidas que passara a contrair, vivendo acima de seus meios, a sua situação estava longe de ser normal”. No ano seguinte, Ivan Ilitch decidiu ir a Petersburgo procurar colocação em outro ministério ou, em outras palavras, arrumar um ordenado de cinco mil rublos (Ivan ganhava três mil e quinhentos). Ilitch obteve sucesso imediato. Ainda no trem, encontrou seu conhecido F. S. Ilin que lhe acenou com um posto a vagar proximamente, no próprio Ministério de Justiça em Petersburgo.
PROF. MONIR: Essa é uma situação anormal? Quer dizer, ele tem dois filhos, nesta altura, acha que já não está ganhando o suficiente, está se endividando, e acha que mereceria mais... Resolve então pedir um emprego melhor, uma colocação melhor. Parece alguma coisa estranha que alguém
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 45 faça isso? Não. Isso é completamente normal. É quase uma obrigação dele fazer: “Escuta, estou aqui há cinco anos esperando promoção. Vocês não me promovem, o que é que há?” Até agora normal, não é? Continuamos.
Graças a esta alteração em determinados postos, Ivan Ilitch recebeu inesperadamente, no ministério em que servia, uma designação pela qual ficou duas classes acima dos seus colegas, com cinco mil rublos de ordenado e uma ajuda de custas de três mil e quinhentos. Completamente feliz, Ivan Ilitch esqueceu toda a mágoa contra os seus inimigos anteriores e contra todo o ministério. (pág. 29)
PROF. MONIR: Viu só? Deu certo! Ele foi lá e conseguiu finalmente o tal do emprego. Vai ganhar cinco mil. Está dentro das suas despesas. E agora vai morar em Petersburgo, que é a mesma coisa que você sair de Ribeirão do Pinhal e ir morar em Curitiba. Para alguém que pretende ter uma carreira na administração pública, é muito importante – apesar de que Júlio César dizia que era “melhor ser peixe grande em lagoa pequena, do que peixe pequeno em lagoa grande.” (Na verdade, Júlio César falava diferente, mas eu adaptei aqui.) Ivan não era um peixe tão pequeno. Foi servir em um lugar melhor, em São Petersburgo. Quer dizer, está dando certo o planejamento de carreira dele. Você tinha sonhado em ser desembargador com 50 anos, está quase conseguindo. Alguma coisa equivalente ao que alguém aqui sonharia na carreira jurídica. Está dando certo. Foi para a capital.
Com a nova situação, foi estabelecida uma trégua entre ele e a mulher. Ivan contou-lhe que todos na capital gostavam muito dele. No dia 10 de setembro
46 Professor José Monir Nasser daquele ano, 1881, Ivan tomaria posse na capital e então partiu sozinho para Petersburgo para as providências da mudança, deixando a família com sua irmã e cunhado.
PROF. MONIR: Isso é uma coisa que acontece nos livros russos, que nunca aconteceria aqui – a ideia de que o marido vai lá arrumar uma casa, escolher móveis, e tal. Alguma coisa que não passa na cabeça de uma família brasileira, por exemplo, porque é um assunto da mulher. Mas é muito comum nas histórias russas acontecer isso. Os maridos é que tomam as providências práticas assim. A isso se atribui o péssimo gosto das residências russas daquela época.
Depois que partiu, a alegre disposição de ânimo, suscitada pelo êxito e pela concórdia com a esposa, uma dessas circunstâncias fortalecendo a outra, não o deixou o tempo todo. Encontrou um lindo apartamento, aquilo mesmo com que marido e mulher sonhavam. As salas de recepção espaçosas, altas, de estilo antigo, o escritório confortável e grandioso, os quartos da mulher e da filha, o de estudos para o filho, tudo isto parecia ter sido inventado para eles especialmente. Ivan Ilitch ocupou-se pessoalmente da instalação, escolheu o papel de parede, comprou mobília que faltava, geralmente de segunda mão, mas que ele enquadrava num estilo peculiarmente comme Il faut, forro para móveis, e tudo crescia, crescia e atingia aquele ideal que ele formara para
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si. Quando a instalação ia em meio, já superava a sua expectativa. Compreendeu o caráter comme Il faut, elegante, nada vulgar, que tudo assumiria depois de pronto. Antes de adormecer, imaginava como seria o salão. Olhando para a sala de visitas, ainda inacabada, ele via já a lareira, o guarda-fogo, a estante, cadeirinhas espalhadas aqui e ali, pratos e travessas pregadas nas paredes, bronzes. Alegrava-se com o pensamento de como surpreenderia Pacha e Lísanka5, que também tinham gosto por essas coisas. (págs. 30-31)
PROF. MONIR: Parece estar no máximo a felicidade de Ivan Ilitch, não é? Até o apartamento dos sonhos ele conseguiu em Petersburgo. Então ele ia ser agora um burocrata de alto nível, na capital, perto do poder, ia ganhar os cinco mil rublos e mais uma ajuda de custo lá, ia poder morar num apartamento bacanérrimo que ele tinha imaginado... Tudo deu certo. Os móveis deram certo. Até a briga com a mulher diminuiu, com essas perspectivas então as brigas ficaram menores, etc. A vida de Ivan Ilitch está no máximo, não está? Esse é o momento mais alto da felicidade dele. No entanto, as coisas mudarão rapidamente a partir do próximo parágrafo.
(...)
De uma feita, subiu numa escadinha, a fim de mostrar ao forrador de paredes, que não o estava compreendendo, como ele queria o serviço, tropeçou e caiu, mas, sendo forte e ágil, conseguiu
5 Nota do resumidor – Pacha e Lísanka são diminutivos familiares respectivamente de Prascóvia e Ielisavieta.
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segurar-se e chocou-se apenas de lado com o ressalto de uma moldura. O machucado lhe doeu, mas a dor passou logo. Durante todo esse tempo, Ivan Ilitch sentia-se particularmente alegre e com saúde. Escrevia: sinto que uns quinze anos me pularam da cacunda. Pensava acabar a arrumação da casa em setembro, mas o trabalho arrastou-se até meados de outubro. Em compensação, tudo ficara lindo: não só ele o dizia, mas diziam-lhe isso todos os que viam o apartamento. (pág. 31)
(...)
Quando ele encontrou os seus na estação ferroviária, trazendo-os para o apartamento já pronto e iluminado, quando um lacaio de gravata branca abriu a porta para a ante-sala, enfeitada de flores, e eles entraram na sala de visitas, no escritório, e ficaram soltando exclamações de prazer, ele se sentiu muito feliz, mostrou-lhes todo o apartamento, embebendo-se dos elogios deles e resplandecendo de prazer. (págs. 31-32)
Questionado sobre a queda que sofrera, Ivan desconversou com comicidade: “Não é à toa que pratico a ginástica. Um outro estaria morto, mas eu só me machuquei um pouco aqui; quando se toca, dói, mas já está passando; só ficou uma simples equimose.”
PROF. MONIR: Vocês estão conseguindo perceber a felicidade pela qual está passando Ivan Ilitch. Tudo o que ele queria da vida estava se realizando. Tinha melhorado de relações com a mulher, tinha dois filhos jovens. Ele tem 17 anos de casado, então a mocinha deve ter uns 16 e o menino, uns
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 49 10-12, sei lá quanto. Teve dois filhos que morreram talvez no meio, então provavelmente o menino é o mais jovem. Ele traz a família da estação ferroviária, abre a casa, tem um lacaio de libré com flores. Ele mostra o apartamento que ele mesmo mobiliou. Aquilo parecia ser o máximo dos máximos. O único senão que havia era que ele havia ficado um pouco machucado com aquela queda que sofreu quando caiu da escada, tentando mostrar ao sujeito do papel de parede como é que era para fazer. Tá certo. Até agora, todo mundo entendeu a história? Não é uma história muito bem contada? É maravilhosa esta história, não é? Isso é aquilo que tem o grande escritor. Chama-se vis narrandi em latim. Em português significa “força para contar”. É o grande escritor que sabe contar bem a história. Escritor ficcional, não é? Claro.
A nova vida do casal como que recuperou a relação conjugal e, “ainda que surgissem algumas desavenças entre marido e mulher, ambos estavam tão contentes, e havia tanto a fazer, que elas terminavam sem grandes brigas”. Na verdade, tudo ganhava aos poucos um aspecto rotineiro:
Quando não havia mais nada a arrumar, tudo ficou um tanto cacete e sentiu-se falta de algo, mas então já se fizeram algumas relações, estabeleceram-se hábitos, e a vida se encheu.
Depois de passar a manhã no tribunal, Ivan Ilitch voltava para almoçar e, nos primeiros tempos, ficava de bom humor embora este sofresse um pouco, justamente em consequência do apartamento. (Irritavam-no cada mancha sobre a toalha, sobre um damasco, cada cordão de cortina
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roto: a instalação custara-lhe tanto trabalho que lhe doía qualquer estrago). Mas, de modo geral, a vida de Ivan Ilitch correu da maneira pela qual, segundo a sua concepção, devia correr: leve, agradável e decentemente. Erguia-se às nove, tomava café, lia o jornal, depois vestia o uniforme e ia para o tribunal. Ali já estava pronta a canga sob a qual trabalhava; num instante, atrelava-se a ela. (págs. 32-33)
PROF. MONIR: É uma vida um pouco pragmática: estava pronta a canga a que ele se atrelava, quer dizer, aquele trabalho era uma espécie de rotina o tempo todo. Reparem que nessa época, os funcionários públicos russos usavam uniforme. Então o juiz usava uniforme, o meirinho usava uniforme, o secretário... Todo mundo tinha uma espécie de uniforme. Lembram quando vocês viram O Idiota? Os cargos civis eram equivalentes aos cargos militares. Então o general nem sempre era um sujeito do exército. “General” também se aplicava a certo funcionário civil. Havia uma equiparação muito grande entre o mundo civil e o mundo militar naquela época.
A vida da família Golovin passava-se assim, sem distúrbios maiores: “depois do jantar, se ninguém os visitava, Ivan Ilitch lia às vezes algum livro muito falado, e de noite sentava-se para estudar os seus casos, isto é, lia papéis, lidava com leis: confrontava depoimentos e enquadrava-os nas leis. Isto não era para ele cacete nem divertido”. As únicas verdadeiras alegrias de Ivan Ilitch vinham das partidas de uíste6 sobretudo se tivesse tido um ganho modesto (“se este era 6 Nota do resumidor - “Uíste” é um jogo de cartas, considerado o ancestral do “bridge”.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 51 grande, tinha uma sensação desagradável”). Frequentava a sua casa a “melhor sociedade” e “tudo corria assim, sem alteração, e tudo estava muito bem”.
PROF. MONIR: A opinião sobre o Ivan Ilitch continua boa? Ou vocês já mudaram?
ALUNO: Um pouco vaidoso...
PROF. MONIR: Mas também não é um defeito tão grande. Ele não é certamente perfeito. Mas não é uma pessoa com um quadro geral muito bom? Fica chateado quando ganha demais no jogo, acha que isso é uma injustiça. É um sujeito que não tem amante nenhuma. Chega em casa e, no máximo, joga uma partida de uíste com os amigos. Parece ser, na média, uma pessoa positiva e boa ou uma pessoa má e problemática?
ALUNOS: (Fazem comentários.)
PROF. MONIR: É uma vida normal. Quer dizer, não é uma vida que possa ser muito brilhante. Talvez ele perca um pouco de tempo cuidando de verificar se está tudo certinho... Deve ser um sujeito chato, não é? Certamente deve ser um chato. Aí se explica um pouquinho porque a mulher mudou depois do casamento, talvez ele seja um sujeito insuportável, em ultima análise. Meticuloso, complicado, aquele sujeito que quando escolhe feijão, fica fazendo montinhos com a mesma quantidade...
ALUNOS: (Risos.)
52 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Tem uns tipos malucos que fazem coisas desse gênero... Deve ser uma pessoa assim, mas fora isso, não temos má impressão dele. É um sujeito tipicamente como são as pessoas, digamos assim, na classe média. Tem uma família, a sustenta, tem uma responsabilidade familiar, não é uma pessoa irresponsável. Tem uma vida normal, no sentido bom da palavra. Como a maioria das pessoas. Muito bem! Vamos ver para onde vai esta história do Ivan Ilitch.
IV
Gozavam todos de boa saúde. Não se podia chamar de doença o fato de Ivan Ilitch dizer às vezes que tinha um gosto esquisito na boca e certa sensação desagradável no lado esquerdo do estômago. Mas aconteceu que esta sensação desagradável começou a aumentar e a transformar-se não ainda em dor, mas na consciência de um peso permanente do lado e em mau humor. Este mau humor, que crescia continuamente, começou a estragar o caráter da vida leve e decente que se instaurara um dia na família Golovin. Marido e mulher puseram-se a brigar cada vez com maior frequência, e logo desapareceu o leve e agradável, ficando apenas a decência. As brigas novamente se tornaram frequentes. E novamente ficaram apenas umas ilhotas, e assim mesmo em número reduzido, sobre as quais marido e mulher podiam reunir-se sem uma explosão. (págs. 35-36)
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 53 PROF. MONIR: Começa a haver agora um problema que é o fato de que a saúde de Ivan Ilitch parece que não vai bem. Ele transformou-se numa pessoa mal-humorada porque tem algum incômodo de saúde permanente.
Por causa deste desconforto permanente, agora era Ivan que iniciava as brigas por pequenas contrariedades, como o cotovelo do menino sobre a mesa. Prascóvia Fiódorovna, ao perceber naquela irritação uma “condição enfermiça”, parou de retrucar e considerou sua resignação “um grande mérito de sua parte” e acabou decidindo que o seu marido “tinha um gênio horrível e que fizera a vida dela infeliz...” No entanto, depois de uma briga “em que Ivan fora particularmente injusto”, Prascóvia obrigou o marido a consultar um médico famoso.
PROF. MONIR: E a Prascóvia? Qual é a impressão que vocês têm sobre a Prascóvia? Sabemos que quando ele morreu, ela estava interessada em saber como é tirar mais dinheiro do governo. Apesar de já saber tudo, só queria saber como é que sofisticava o processo. Sabemos que ela era muito bonita, que perdeu muito o humor depois do casamento, que responsabilizou o marido pelos infortúnios, entre eles a perda de duas crianças, talvez por aborto. E Prascóvia, aqui e agora, quando a fonte de mau humor não é mais ela, mas o marido, põe-se um pouco em posição de vítima: “Ele estragou a minha vida.” Isso é uma pessoa normal? Mais ou menos, não é? Não é um caso muito anormal, parece ser uma pessoa encontradiça, pelo menos. Não temos uma impressão muito boa da Prascóvia. Ela não parece ser uma pessoa excepcional, mas não deixa de ser um pouco normal, comum. Vamos prestar atenção na Prascóvia e mais tarde vamos saber mais sobre ela.
O diagnóstico de Ivan ficou entre “o rim móvel”, o “catarro crônico” e uma “afecção no ceco”7: “não se tratava da vida de Ivan Ilitch, o que existia era uma discussão 7 Nota do resumidor – O ceco é a primeira parte do intestino grosso, do lado direito. 54 Professor José Monir Nasser entre o rim móvel e a afecção no ceco”. O médico decidiu em favor do ceco resumindo suas razões e Ivan concluiu daquele resumo “que as coisas iam mal, embora isto fosse indiferente ao médico e talvez a todos os demais”. Ivan Ilitch
perguntou diretamente ao médico se se tratava de doença perigosa, mas ele não respondeu. No trenó, a caminho de casa, teve a impressão “de que o sentido das palavras do médico era que estava muito doente. Nas ruas, tudo lhe pareceu triste”.
PROF. MONIR: Nesse momento, o autor faz com que apareça uma nuvem escura sobre essas pessoas, sobre as personagens, como se houvesse a transformação de um dia de primavera num dia triste de inverno. Mais ou menos esse é o clima literário que Tolstói faz muito bem! Começa a mudar o tempo dentro daquela pequena primavera Ivan Ilitchiana. Começa a mudar o tempo e a ficar tudo muito sombrio. A coisa vai ficando cada vez mais sombria. Reparem como isso vai acontecendo com clareza.
Apesar de todos os cuidados prescritos pelo médico e tomados por Ivan, a dor não diminuía: “a sua piora desenvolvia-se com tamanha regularidade que ele podia enganar a si mesmo, fazendo uma comparação entre os dias consecutivos”8. O advogado foi consultar outra celebridade médica e esta segunda celebridade apenas reforçou a dúvida e o medo de Ivan Ilitch. Consultou um homeopata que fez um diagnóstico “de todo diferente dos demais” e, “às escondidas de todos, Ivan Ilitch tomou durante cerca de uma semana o remédio que ele receitara”.
8 Nota do resumidor – O sentido desta frase fica mais claro na tradução de Vera Karam para a edição da L&PM: “O progresso de sua doença era tão mínimo que, ao comparar um dia com outro, seria capaz de enganar-se, tão sutil era a diferença”.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 55 PROF. MONIR: Essa técnica chamada homeopatia – na verdade, o problema disso começa a partir de que eles não sabem escrever o próprio nome, porque em português a gente falaria homopatia – não há nenhuma razão para ser homeo, não tem nenhum cabimento linguístico. Então esta técnica homopatia, que todo o mundo insiste em chamar homeopatia, é uma técnica inventada há não muito tempo, mas que é considerada medicina alternativa. É a ideia de que similia similibus curantus9, quer dizer, de que a reprodução do efeito que está presente numa certa doença, por meio de um determinado componente em que esse efeito tenha sido elevado a uma diluição absolutamente grande, produz a cura. Isso significa o seguinte, que ele já estava procurando alternativas à medicina comum e tradicional porque não encontrava solução nos médicos. É isso que se quer dizer aqui.
Resistiu, no entanto, a fazer-se tratar por “ícones”10, embora piorasse sempre.
PROF. MONIR: Não chegou a entrar numa tentativa de cura mística. Era muito para ele.
A dor do lado não cessava de atormentá-lo, parecia cada vez mais forte, tornava-se permanente, o gosto na boca era cada vez mais esquisito, estava com a impressão de ter hálito asqueroso, e cada vez tinha menos apetite, menos forças. Não podia mentir a si mesmo: acontecia nele algo terrível, novo e muito significativo, o mais significativo que lhe acontecera na vida. E era o único a sabê-lo,
9 O semelhante seja curado pelo semelhante.
10 Nota do resumidor – Ícones são imagens sagradas do cristianismo ortodoxo com suposto poder curativo.
56 Professor José Monir Nasser
todos os que o cercavam não compreendiam ou não queriam compreender isto, e pensavam que tudo no mundo estava como de costume. (pág. 41)
Na verdade, cada vez mais alheio ao mundo externo que interpretava seu comportamento como hipocondria, Ilitch fica sozinho “com a consciência de que a sua vida está envenenada, que ela envenena a vida dos demais e que este veneno não se enfraquece, mas penetra cada vez mais todo o seu ser.”
E era preciso ir para a cama com a consciência disso, acrescida de dor física e horror, e frequentemente passar sem dormir a maior parte da noite, devido à dor. E de manhã, era preciso levantar-se de novo, vestir-se, ir para o tribunal, falar, escrever, ou então permanecer em casa, com as mesmas vinte e quatro horas de um dia, cada uma das quais era uma tortura. E sozinho tinha que viver assim à beira da perdição, sem nenhuma pessoa que o compreendesse e se apiedasse dele. (págs. 43-44)
PROF. MONIR: Mudou a vida de Ivan Ilitch? Muito. Daquela situação de sonho, o clímax talvez tenha sido na hora em que ele levou a família para o apartamento e abriu a porta. A família viu um empregado vestido a caráter, viu aquelas flores todas, aquele apartamento na capital e a perspectiva, portanto, de uma carreira muito bem-sucedida. Ele tinha as condições para isso, tinha aparentemente as características de competência profissional. E a vida dele agora é um encontro, hora após hora, com o sofrimento motivado
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 57 por uma dor que nenhuma ação da medicina conseguira até então descobrir como resolver. E ele então se encontra quase na antípoda: a situação de viver uma vida muito ruim, uma vida dolorosa. É preciso lembrar também que estamos em 1872 ou 73, por aí; portanto numa época em que não havia a medicina que há hoje; os meios e os instrumentos são muito diferentes dos que atualmente existem. E a vida de Ivan Ilitch encontra-se agora estragada por uma doença. Doença essa que ainda é apenas uma doença. Aos poucos ele vai desconfiar que essa doença irá conduzi-lo à morte. Esse crescendo de horror e infelicidade é que vai constituindo a espinha dorsal do livro.
V
Antes do ano novo de 1882, chegou um hóspede, o cunhado de Ivan, que ficou assustado com a aparência do advogado. Impressionado com a reação do irmão de Prascóvia, Ivan, depois de todos saírem, “passou a chave na porta e ficou olhando-se no espelho: de frente, depois de lado. Apanhou seu retrato com a mulher e comparou-o com o que via no espelho. Era enorme a mudança. Depois, desnudou os braços até o cotovelo, olhou, desceu as mangas, sentou-se numa otomana11 e ficou mais negro que a noite”. PROF. MONIR: “E ficou mais negro do que a noite.”
Mais tarde, naquele dia, ouve escondido uma conversa em que o cunhado diz à irmã: “Você não vê, mas ele é um homem morto, veja os seus olhos. Não têm luz.” À noite, sozinho no quarto solitário para onde se mudara desde o início da doença, Ivan Ilitch, torturado por uma dor que não lhe dava trégua, chegou
11 Nota do resumidor – Otomana é uma espécie de sofá largo e sem costas.
58 Professor José Monir Nasser à conclusão: “Existiu luz, e agora é a treva. Eu estive aqui, e agora vou para lá. Para onde?”... “Eu não existirei mais, o que existirá então? Não existirá nada. Onde estarei então, quando não existir mais? Será realmente a morte? Não, não quero.”
Para quê? Tanto faz – disse a si mesmo, perscrutando a treva, os olhos abertos. – A morte. Sim, a morte. E nenhum deles sabe nem quer saber, e nem lamenta isso. Ocupam-se de música. (Ouvia, atrás da porta, distantes, o retumbar de uma voz, acompanhado de ritornelos.) Para eles, tanto faz, mas também eles hão de morrer. Bobalhões. Eu vou primeiro, eles depois; hão de passar pelo mesmo que eu. E, no entanto, estão alegres. Animais! Sufocava de raiva. Teve uma sensação penosa, torturante, intolerável. Não podia ser verdade que todos estivessem condenados para sempre a este medo terrível. Levantou-se.
Alguma coisa não está certa; tenho que me acalmar, tenho que pensar em tudo desde o começo. E ele se pôs a pensar. Sim, o início da doença. Dei uma batida de lado, mas não percebi grande mudança em mim, nem aquele dia, nem no seguinte; doeu um pouco, depois mais, depois os médicos, depois o humor tristonho, a angústia, de novo os médicos; e eu estava caminhando cada vez mais perto, mais perto do abismo. As forças diminuíam. Estava cada vez mais perto, mais perto. E eis que me consumi,
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não tenho mais luz nos olhos. E aí está a morte, e eu só penso no meu ceco. Penso em consertar o ceco, mas isto aqui é a morte. Será mesmo? Novamente, o pavor apossou-se dele, ficou ofegante, inclinou-se, começou a procurar os fósforos, apertou o cotovelo contra o criado-mudo. Este era um estorvo e causava-lhe dor; enfureceu-se contra ele, pressionou-o com mais força e derrubou-o. E desesperado, perdendo o fôlego, caiu de costas, esperando a morte naquele instante. (págs. 47-48)
PROF. MONIR: Então... Qual é o sentimento predominante no Ivan Ilitch nesse momento da história?
ALUNA: Desespero.
PROF. MONIR: Desespero... Mas além de desespero, há outro componente.
ALUNA: Revolta.
PROF. MONIR: Revolta! Ele no fundo acha-se injustiçadíssimo com aquilo, porque os outros todos não estão vivendo o que ele está, os outros estão ouvindo música, há uma festa na casa dele, e ele está lá no quarto, no lugar onde ele mora desde que começou a dor, separado dos outros, sofrendo aquela coisa toda, sem saber por que aconteceu isso com ele.
Ele de fato se parece muito com Jó nesse momento. Se vocês lembrarem a história de Jó – que foi analisada aqui no ano passado –, ele era assim
60 Professor José Monir Nasser também. Era um sujeito decente, muito bom. Aliás, até melhor do que ele, porque Jó era cumpridor de todos os seus deveres religiosos, era um fulano que tinha uma vida exemplar. E Jó de repente perdeu todos os filhos, morreram todos. Perdeu todos os seus servos, que foram mortos ou fugiram. Perdeu todos os animais que tinha e, não bastasse isso, foi acometido de uma doença, uma praga, uma peste, uma afecção que o tornou chagásico da sola dos pés à raiz dos cabelos. E Jó então é resumido a um fulano que está em cima de um monturo usando cacos de telha para raspar as feridas. Aí ele pergunta: “Deus, o que eu fiz para merecer isso? Eu não fiz nada de errado e, no entanto, estou aqui nessa situação...”
A situação em que está aqui o Ivan Ilitch não é equivalente à de Jó? Tolstói procura não fazer muita comparação, não compara diretamente, mas, se você pensar bem, é uma situação parecidíssima. A mesma rebelião que Jó tem em relação a Deus, Ivan Ilitch sente com relação ao mundo, à vida, a Deus, enfim, a todas as circunstâncias que o puseram naquele lugar. Situação essa de que ele não se acha merecedor de modo nenhum. Até onde sabemos, contanto que não inventemos defeitos imaginários para a personagem, Ivan Ilitch não tem nenhuma culpa no cartório, não parece uma pessoa merecedora dessa situação. É claro que se alguém recebe o que merece ou não, isso é uma outra questão, depois a gente vai estudar um pouquinho isso. Mas em princípio não há uma espécie de fenômeno causal aqui. Ivan está lá achando que ele não tinha nada que se transformar nisso, nessa pessoa destruída e com perspectiva de morte. Ele agora sabe que está morrendo. Tem, pelo menos, uma desconfiança forte disso. É o que ele vai nos dizer no próximo capítulo. Filha, por favor...
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 61
VI
Ivan Ilitch via que estava morrendo, e o desespero não o largava mais. Sabia, no fundo da alma, que estava morrendo, mas não só não se acostumara a isto, como simplesmente não o compreendia, não podia de modo algum compreendê-lo.
PROF. MONIR: É Jó. Exatamente isso.
O exemplo do silogismo que ele aprendera na Lógica de Kiesewetter:
PROF. MONIR: Kiesewetter deve ser provavelmente o autor de um manual de filosofia da época, não é nenhum filósofo importante. Devia ser um manual de filosofia usado nas escolas russas, portanto é citado aqui por Tostói.
Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, correto somente em relação a Caio, mas de modo algum em relação a ele.
PROF. MONIR: Silogismo é uma invenção de Aristóteles. Está na Lógica. Esse modo de pensar é aristotélico, então ele foi incorporado em tudo quanto é livro de filosofia. Então, já que ele não é o Caio, o que é que ele tem a ver com esse negócio de morte? Parece irreal, o Caio é que morre, ele não.
62 Professor José Monir Nasser
Tratava-se de Caio-homem, um homem em geral, e neste caso era absolutamente justo; mas ele não era Caio, não era um homem em geral, sempre fora um ser completa e absolutamente distinto dos demais; ele era Vânia, com mamãe, com papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a babá, depois com Kátienka, com todas as alegrias, tristezas e entusiasmos da infância, da juventude, da mocidade.
PROF. MONIR: Quando diz “ele era Vânia”, não quer dizer que ele fosse travesti no carnaval, por favor. Vânia é apelido de Ivan em russo. É um nome masculino, tá certo?
Existiu porventura para Caio aquele cheiro da pequena bola de couro listrada, de que Vânia gostara tanto?! Porventura Caio beijava daquela maneira a mão da mãe, acaso farfalhou para ele, daquela maneira, a seda das dobras do vestido da mãe? Fizera um dia tanto estardalhaço na Faculdade de Direito, por causa de uns pirojki? Estivera Caio assim apaixonado? E era capaz de conduzir assim uma sessão de tribunal? (pág. 49)
PROF. MONIR: É, nada indica que ele seja Caio. Esse é um pedacinho magistral, muito bem escrito! Nada indica que ele seja Caio; no entanto, apesar de não ser Caio, estava morrendo como Caio. É nessa absurdidade, nessa falta de coincidência que está a injustiça de que ele se sente vítima.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 63 Por que logo eu que não sou o Caio? Muito bem!
Todos os pensamentos que Ivan antes invocava para anular, ocultar e esconder a consciência da morte não faziam mais este efeito. Ir para o tribunal não adiantava mais, porque, “no meio à sessão, a dor do lado iniciava, sem dar nenhuma atenção ao desenvolvimento do caso judiciário...” Cada vez que a dor vinha, Ivan perguntava-se: “Será possível que somente ela seja verdade?”
Ele se sacudia, esforçava-se em voltar a si, conduzia sessão de qualquer maneira até o fim e regressava para casa, com a triste consciência de que a sua função judiciária não podia mais, como outrora, esconder dele aquilo que ele queria esconder; que não podia livrar-se dela por meio da função judiciária. E o pior de tudo era que ela o atraía para si, não para que fizesse algo, mas unicamente para que a olhasse, bem nos olhos, olhasse-a e se atormentasse indescritivelmente, sem fazer nada. (pág. 51)
PROF. MONIR: Aquele método que ele tinha de se ocupar no trabalho está funcionando ainda? Não. Quer dizer, cada vez mais a doença transforma-se num monstro que vai ocupando e tomando conta de toda a vida de Ivan Ilitch. Esse monstro é a única coisa que é verdade nesse momento da vida dele. As outras coisas vão cada vez parecendo mais irreais e distantes. E esse monstro, então, ocupa todo o espaço que a vida dele permite. Ele não tem mais mente para lidar com o trabalho, com a família. Ele só pensa nesta dor, que é a única coisa que parece ser verdade na sua existência.
64 Professor José Monir Nasser
VII
Não se poderia dizer como foi que isso aconteceu no terceiro mês da doença de Ivan Ilitch, porque isto se deu passo a passo, imperceptivelmente, mas aconteceu que a mulher, a filha, o filho, os criados, os conhecidos, os médicos, e sobretudo ele mesmo, souberam que todo o interesse que ele apresentava para os demais consistia unicamente no seguinte: se não demoraria muito a desocupar finalmente o seu lugar, a livrar os vivos da opressão causada pela sua presença, e a livrar-se ele mesmo dos seus sofrimentos. (pág. 52)
Ópio e morfina não pareciam fazer mais efeito com Ivan Ilitch. Os alimentos especiais prescritos pelos médicos tornavam-se “cada dia mais insípidos, mais abjetos”.
No meio deste sofrimento, apareceu inesperado consolo na vida de Ivan, o ajudante de copeiro Guerássim, que tinha a tarefa desagradável de lidar com os seus excrementos. O criado com um “rosto fresco, bondoso, singelo, jovem, em que a barba mal despontava” ocupava-se das mais “repugnantes tarefas” com “simplicidade e uma bondade que deixava Ivan Ilitch comovido”.
A saúde, a força, a vitalidade de todas as demais pessoas ofendiam Ivan Ilitch; somente a força e a vitalidade de Guerássim não o entristeciam, e sim acalmavam-no.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 65
O sofrimento maior de Ivan Ilitch provinha da mentira, aquela mentira por algum motivo aceita por todos, no sentido de que ele estava apenas doente e não moribundo, e que só devia ficar tranquilo e tratar-se, para que sucedesse algo muito bom. Mas ele sabia que, por mais coisas que fizessem, nada resultaria disso, além de sofrimentos ainda mais penosos e morte. E esta mentira atormentava-o, atormentava-o o fato de que não quisessem confessar aquilo que todos sabiam, ele mesmo inclusive, mas procurassem mentir perante ele sobre a sua terrível situação, e obrigassem-no a tomar também parte nessa mentira. A mentira, essa mentira que lhe era pregada nas vésperas da sua morte, a mentira que devia abaixar esse ato terrível e solene da sua morte até o nível de todas as suas visitas, das cortinas, do esturjão no jantar... era horrivelmente penosa para Ivan Ilitch. (pág. 55-56)
(...)
Guerássim era o único a compreendê-la e a compadecer-se dele. E por isso Ivan Ilitch sentia-se bem unicamente na presença de Guerássim. Sentia-se bem quando Guerássim segurava-lhe os pés, às vezes noites a fio, e recusava-se a ir dormir, dizendo: ‘Faça o favor de não se inquietar, Ivan Ilitch, eu vou ter tempo de dormir’; ou então quando ele, passando ao ‘tu’, acrescentava: ‘Ainda
66 Professor José Monir Nasser
se não fosses doente, mas, do jeito como estás, por que não ajudar um pouco?’. Guerássim era o único a não mentir, tudo indicava que era também o único a compreender do que se tratava, e que não considerava necessário escondê-lo, e simplesmente tinha pena do patrão fraco, em vias de se acabar. (págs. 55-56)
PROF. MONIR: E então a vida de Ivan Ilitch está piorando ou melhorando? Piora muito, não é? Daquela situação de revolta, evoluiu para outra situação, não sei se vocês perceberam... Qual é agora, nesse momento, o sentimento predominante em Ivan Ilitch?
ALUNA: Desânimo.
PROF. MONIR: Mais do que desânimo, talvez. Tem desânimo também, uma certa desilusão, uma certa depressão. Definindo muito grosseiramente, a depressão é o estado mental que atinge uma pessoa quando ela desembarca de alguma fantasia. Imaginem uma pessoa que depois de muito tempo descobriu que é adotada, que não é filho de quem achava que era. Essa é uma situação profundamente deprimível, não é? A sua vida toda passa a ter a aparência de uma fraude, de uma mentira da qual você foi uma espécie de vítima, um palhaço, porque não contaram pra você. Ou então o sujeito que achava que era importante, depois perdeu o emprego e viu que não era importante, o que era importante era o cargo que ele ocupava e que ele não valia nada sem aquele cargo. Todas essas situações da vida são de depressão. A depressão é o desembarcar, a saída da pessoa de uma situação de ilusão fantasiosa. É isso que está acontecendo um pouco com Ivan Ilitch,
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 67 de alguma maneira. Na medida em que a dor – e a morte que ela implica – estão tomando conta da sua vida, ele não tem mais laços afetivos. A relação com as pessoas está distante, com exceção desse Guerássim, que é um empregado, um criado, que ele vê como a única pessoa realmente sensível ao problema dele, a única pessoa que o entende e que de fato se importa com ele. As relações afetivas de Ivan Ilitch reduziram-se simplesmente a essa pessoa. Por aí o autor quis até agora nos mostrar a enorme mudança de situação que vive a personagem. Daquela situação de uma vida alegre, decente, honesta, certa e garantida que ele desejava ter e que estava prestes a obter com o novo cargo em São Petersburgo, na capital, para uma situação em que ele se defronta crescentemente com a possibilidade da morte, e só com essa. Sendo que só sobrou das suas relações pessoais o apreço por um criado chamado Guerássim, que é a única pessoa que o entende em primeiro momento. Como isso vai acabar, saberemos daqui a uns 15 minutos, depois do café. Vamos parar um pouquinho, tomamos um café e já voltamos. Que tal?
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PROF. MONIR: O autor não nos mostrou nenhum defeito grave de Ivan Ilitch – ele não bate na mulher, não é estelionatário, não é pedófilo, não superfatura para o Estado... Bem, essa de superfaturar para o Estado não é tão grave assim. Podem tirar da lista. Ele não é chefe do PCC, não organiza roubos, é um sujeito que não tem defeitos maiores, além de ser uma pessoa que tem uma vida meio rotineira. Ele é um sujeito que acredita muito na forma das coisas... No entanto, não é uma má pessoa, até onde nós sabemos. Como não sabemos mais nada sobre a personagem, não fomos nós que a inventamos, também não temos o direito de ficar imputando à personagem
68 Professor José Monir Nasser defeitos imaginários, dizendo assim: “Não, mas ele deve participar de um grupo, sei lá o quê, de orgias com freiras...”
ALUNOS: (Risos.)
PROF. MONIR: Quer dizer, não posso pôr isso lá dentro do texto, não posso pôr uma coisa dessas, entendeu?
Nossas acadêmicas de Medicina aqui são unânimes em dizer que o tal do ceco fica do lado contrário ao que Tolstói nos diz. O ceco é do lado direito, e a batida havia sido do lado esquerdo. Então, a hipótese de ser o ceco seria um mau diagnóstico desde o início. As quatro acadêmicas de medicina aqui presentes investigaram o assunto, fizeram uma junta médica no intervalo...
ALUNOS: (Risos.)
PROF. MONIR: Elas chegaram à conclusão de que o diagnóstico de que se trata de um problema com o ceco é errado desde o início.
ALUNO: (Faz comentário.)
PROF. MONIR: No entanto, essa pessoa que aparentemente não tem grandes defeitos é vítima de uma situação grave, da situação muito desesperançada de estar muito doente, a ponto de estar com a morte praticamente garantida. Muito bem! Quando paramos, estávamos no início do capítulo VIII. É isso? Então, por favor, Clara.
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