A Morte de Ivan Ilitch, O Senhor dos Anéis: Expedições pelo Mundo da Cultura

Capítulo XI

Nestas duas semanas, Fiódor Piétrischev, um jovem juiz de instrução, fez o esperado pedido formal pela mão de Lisa. No dia seguinte, Ivan teve nova piora. A mulher começou a falar de remédios e Ivan lhe disse: “Pelo amor de Jesus Cristo, deixe-me morrer em paz”. Veio o médico que foi recebido com indiferença pelo doente e que, depois da consulta, comunicou a Prascóvia Fiódorovna “que as coisas iam muito mal e que só havia um recurso, o ópio, para aliviar o sofrimento, que devia ser terrível”.

O doutor dizia que os sofrimentos físicos dele eram terríveis, e dizia a verdade; mas os seus sofrimentos morais eram mais terríveis que os físicos, e nisso consistia a sua tortura maior.

Os seus sofrimentos morais consistiam em que, aquela noite, ao olhar o rosto sonolento, bonachão, de maçãs salientes, de Guerássim, acudiu-lhe de súbito à mente: ‘E o que será se realmente toda a minha vida, a minha vida consciente, tiver sido outra coisa?’

PROF. MONIR: Quer dizer, a perspectiva de aquela vida que estava se acabando não ter tido sentido nenhum. É esse o pior de todos os sofrimentos que ele sente. Imagine uma pessoa que tenha morrido por uma causa, que tenha morrido para que outros tivessem sobrevivido. Nada disso parece presente aqui. Então, ele fica imaginando se tudo isso não foi jogar a vida toda fora. É isso que o está torturando agora, crescentemente, mais no fim.

 

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Veio-lhe à mente: podia ser verdade aquilo que lhe parecera antes uma impossibilidade total, isto é, que tivesse vivido a sua existência de maneira diversa da devida. Veio-lhe à mente que as suas veleidades quase imperceptíveis de luta contra aquilo que as pessoas mais altamente colocadas consideravam correto, veleidades quase imperceptíveis que ele imediatamente repelia, podiam ser justamente as verdadeiras, e tudo o mais ser outra coisa. O seu trabalho, o arranjo da sua vida, a sua família, e esses interesses da sociedade e do serviço, tudo isto podia ser outra coisa. Tentou defender tudo isto perante si. E de repente sentiu toda a fraqueza daquilo que defendia. E não havia o que defender. ‘E se isto é assim’ – disse ele consigo – ‘e eu parto da vida com a consciência de que destruí tudo o que me foi dado, se não se pode mais corrigi-lo, que fazer então?’ Deitou-se de costas e pôs-se a examinar toda a sua vida de maneira completamente diversa. Quando ele viu de manhã o criado, depois a mulher, em seguida a filha, o médico, cada um dos movimentos deles, cada uma das suas palavras confirmavam para ele a terrível verdade que se revelara naquela noite. Via neles a si mesmo, tudo aquilo de que vivera, e via claramente que tudo aquilo era o que não devia ser, mas um embuste horrível, descomunal, que ocultava tanto a vida como a morte. A consciência

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disso aumentou, decuplicou os seus sofrimentos físicos. Ele gemia, revolvia-se e repuxava a roupa, tinha a impressão de que ela o apertava e sufocava. E ele odiava-os por isso. (págs. 71-72)

A mulher suplica ao marido que receba a comunhão, sem falar diretamente em extrema-unção. Ivan resiste, mas ela chora e ele aceita receber o padre: “Depois que veio o sacerdote e confessou-o, ele amoleceu, sentiu uma espécie de atenuamento de suas dúvidas e, consequentemente, dos seus sofrimentos, e desceu sobre ele um minuto de esperança. Pôs-se novamente a pensar sobre o ceco e a possibilidade de consertá-lo. Comungou com os olhos rasos d’água.”

Depois que o sacerdote sai, Prascóvia lhe dá parabéns e lhe pergunta se está melhor. Ele diz que sim, mas, na verdade, teve vontade de lhe dizer “Não é isso. Tudo aquilo de que vivestes e de que vives é uma mentira, um embuste, que oculta de ti a vida e a morte.”

A expressão do seu rosto quando dissera ‘sim’ fora terrível. Tendo dito aquilo, e fitando-a bem no rosto, ele virou-se de bruços, com um gesto incomum para o seu estado de fraqueza, e gritou:– Vão embora, vão embora, deixem-me! (págs. 73-74)

PROF. MONIR: Na próxima etapa do processo de morte de Ivan Ilitch, ele acha que talvez tudo aquilo que parecia valioso não é mais e, portanto, muito embora ele tenha percebido isso, todas as pessoas em volta dele continuam fazendo aquilo tudo. E ele sabe que a morte dele em nada impedirá que elas continuem a fazer as mesmas coisas sem sentido, como

82 Professor José Monir Nasser ele fez durante a vida inteira. Vejam, não se está falando aqui de coisas más. Ninguém está fazendo coisas más, ele não fez coisas más. Não se trata de ações más, condenáveis. Trata-se de ações comuns que foram feitas apenas por serem feitas, como todo mundo faz. Portanto, não é uma pessoa má chegando à conclusão sobre a sua maldade. Não. Ele é uma pessoa comum chegando à compreensão da falta de sentido que a sua vida representa naquele momento.

Podemos dizer que agora ele está um andar acima, um degrau acima na compreensão das coisas, apesar da sua desesperança, e apesar da sua dor. Já nesse momento ele enxerga alguma coisa além do que ele enxergava antes em relação aos que não estão doentes como ele. Não é isso? Agora vamos para o último capítulo, que foi transcrito integralmente. O último capítulo está todo aqui transcrito no resumo de vocês. É o capítulo, então, em que as coisas finalmente se definem.