A Morte de Ivan Ilitch, O Senhor dos Anéis: Expedições pelo Mundo da Cultura

Capítulo VIII

Sozinho, sente uma angústia terrível, dá vontade de chamar alguém, mas sabe de antemão que, em presença de outras pessoas, é pior ainda. ‘Seria bom tomar ainda morfina, alcançar o esquecimento. Vou dizer ao médico que invente mais alguma coisa. Assim é impossível, impossível.’ (pág. 59)

PROF. MONIR: Lembram que ele tinha dito “isso é impossível, impossível” também no artigo do jornal? Muito bem!

Prascóvia, de certo modo por obrigação conjugal, manda vir nova celebridade médica que chegou às onze e meia.

O médico famoso despediu-se com ar sério, mas não sem esperança. E quando Ivan Ilitch lhe perguntou timidamente, os olhos dirigidos para ele e brilhantes de medo e esperança, se havia uma possibilidade de cura, respondeu que não se podia garantir, mas era possível. O olhar esperançoso com que Ivan Ilitch acompanhou o médico era tão lastimável que, vendo-o, Prascóvia Fiódorovna até chorou, quando passava pela porta do escritório, a fim de pagar os honorários do médico famoso. Durou pouco a elevação de ânimo provocada pelas esperanças incutidas pelo médico. De novo, eram o mesmo quarto, os mesmos quadros,

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cortinas, papel de parede, vidros de remédio, aquele mesmo corpo seu, dolorido e sofredor. E Ivan Ilitch pôs-se a gemer; deram-lhe uma injeção e ele perdeu a consciência. (pág. 62)

Naquela noite, Prascóvia ia ao teatro ver Sarah Bernhardt, por insistência do próprio Ivan, mas antes de partir com a família, visitou o doente.

Prascóvia Fiódorovna entrou no quarto, satisfeita consigo mesma, parecendo, porém, culpada. Sentou-se um pouco, perguntou pela sua saúde, mas, conforme ele via, unicamente por perguntar e não para se informar, pois sabia que não havia do quê, e começou a dizer aquilo que precisava: que ela não iria de jeito nenhum, mas que o camarote já estava reservado, que iriam Helen, a filha deles e Piétrischev (o juiz de instrução, noivo da filha), e que não se podia deixá-los irem sós. E que para ela seria muito mais agradável ficar com ele. E que não deixasse de seguir, na sua ausência, as prescrições do médico. (pág. 63)

Ao ver seu filho que se esgueirou no quarto atrás da mãe, Ilitch teve a impressão de que “Vássia12 era o único a compreender e ter pena: “O filho sempre lhe parecia lastimável. E dava medo o seu olhar assustado e compadecido.” Todos se levantaram, despediram-se e partiram.

12 Nota do resumidor – Vássia e Volódia são apelidos familiares de Vladímir, nome de batismo do menino.

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Quando eles saíram, Ivan Ilitch teve a impressão de estar aliviado: a mentira desaparecera, saíra com eles, mas ficara a dor. Sempre a mesma dor, sempre o mesmo medo, faziam com que nada fosse mais pesado nem mais leve. Tudo era pior. (pág. 65)

IX

Prascóvia volta do teatro tarde da noite, oferece ópio ao marido e vai dormir, mas Ivan não consegue dormir de dor. O incansável Guerássim vela o seu sofrimento.

Até umas três horas, (Ivan) permaneceu num penoso esquecimento. Tinha a impressão de que o estavam empurrando, causando-lhe dor, para dentro de certo saco estreito, negro, profundo, que o empurravam cada vez mais longe e não conseguiam acabar de fazê-lo. E esta operação, terrível para ele, era acompanhada de sofrimento. Ao mesmo tempo, tinha medo, queria cair lá, lutava e ajudava a manobra. Mas eis que, de repente, ele se arrancou dali, caiu e voltou a si. Sempre o mesmo Guerássim está sentado na cama, aos seus pés, cochilando tranquila e pacientemente. E ele está deitado, mantendo sobre os ombros do criado os seus pés emagrecidos, envoltos em meias; estava ali a mesma vela com abajur, e a sua dor incessante era sempre a mesma.

– Vá dormir. Guerássim – murmurou ele.

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– Não é nada, vou ficar aqui.

– Não, vá embora.

Tirou os pés da posição elevada, deitou-se de lado sobre o braço e teve pena de si mesmo.

PROF. MONIR: A única posição que doía menos era com os pés altos nos ombros de Guerássim.

Esperou apenas que Guerássim saísse para o quarto vizinho, deixou então de se conter e chorou como uma criança. Chorava a sua impotência, a sua terrível solidão, a crueldade dos homens, a crueldade de Deus, a ausência de Deus.

Para que fizeste tudo isto? Para quê me trouxeste aqui? Para quê, para quê me torturas tão horrivelmente?...

PROF. MONIR: É Jó perguntando a mesma coisa para Deus, não? Lembram O Livro de Jó? Se você vai ler apenas um livro da Bíblia, leia O Livro de Jó, que é extraordinário! Com Jó é a mesma coisa, é um sujeito que em princípio não se acha devedor de nada, e está ali sofrendo horrivelmente sem ter feito nada para produzir aquilo. Não se tratava de uma punição, portanto. Aqui é a mesma coisa. Ivan Ilitch está indagando a Deus por que é que Deus fez isso com ele. No caso de Jó, aparece Deus, não pessoalmente, mas numa manifestação em que as folhas se movimentam e de alguma maneira falam com ele e dizem o seguinte: “Ô, meu filho, espera aí um pouquinho, você está querendo descobrir por que você está assim? E o que você sabe da vida e do mundo? Onde você estava quando eu inventei o mundo? Você não sabe

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 73 nada. O que você fazia quando eu inventei o Leviatã e o Behemoth (dois monstros que brigam entre si)? Onde é que você estava quando tudo isso foi inventado? Então como é que você deseja saber pra onde vai o mundo? Em nome do que você quer descobrir como o mundo é, se você não tem a menor ideia de como as coisas são de verdade?” Aí Jó se percebe pecando por soberba, por tentar exigir satisfação de Deus. Aí então, ao falar a Deus parecendo humilde, Deus o reconsidera e devolve as coisas dele. Mas Ivan Ilitch não está nesta mesma condição, porque encontra-se ainda rebelado com a situação. Está tirando satisfação de Deus. Por que é que você fez isso comigo?

Ele nem esperava resposta, e chorava porque não havia nem podia haver uma resposta. A dor cresceu novamente, mas ele não se movia, não chamava ninguém. Dizia consigo: Está bem, mais ainda, bate mais! Mas por quê? O que foi que eu Te fiz? Por quê?

Depois sossegou, deixou não só de chorar, mas suspendeu o fôlego e fez-se todo atenção: era como se ele atentasse não na voz que falava por meio de sons, mas na voz do espírito, na sequência dos pensamentos, que se erguiam nele.

– O que precisas? – foi a primeira noção concreta, possível de ser expressa por meio de palavras, que ele ouviu. – O que precisas? Precisas do quê? – repetiu para si mesmo. Do quê? – Não sofrer. Viver – respondeu ele.

 

74 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Ele está falando com uma voz que fala com ele. É mais ou menos uma reedição da história de Jó. Mas não podemos dizer que ele está falando com Deus necessariamente. Pode ser apenas com a sua consciência.

E novamente, entregou-se todo à atenção a tal ponto tensa que mesmo a dor não o distraía.

– Viver? Viver como? – perguntou a voz do espírito. – Sim, viver como vivi antes: bem, agradavelmente. – Como viveste antes, bem e agradavelmente? – perguntou a voz. E ele começou a examinar na imaginação os melhores momentos da sua vida agradável. Mas, fato estranho, todos estes momentos melhores de uma vida agradável pareciam agora completamente diversos do que pareceram então. Tudo, exceto as primeiras recordações da infância. Lá, na infância, existia algo realmente agradável, e com que se poderia viver, se aquilo voltasse. Mas não existia mais o homem que tivera aquela experiência agradável: era como que a recordação sobre alguma outra pessoa. (págs. 65-67)

PROF. MONIR: Um filme que explora essa situação é Cidadão Kane, que começa com um grande jornalista, no tempo em que é homem muito poderoso, que está moribundo. Suas últimas palavras são: “Rosebud”. E aí então, começa, exatamente como aqui – o filme começa finalmente explicando como é que tudo começou, desde o momento em que ele cria a empresa até chegar à morte, e aí no final descobrimos que “Rosebud”

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 75 é o nome de um trenó que fora queimado numa fogueira. Então, a única lembrança que ele teve na hora da morte foi a lembrança da coisa mais velha, mais remota. Aquela lembrança de infância era o que tinha de fato importância naquele momento. Continuamos.

Neste processo de recordação, Ivan chega à conclusão de que “quanto mais longe do presente, tanto mais insignificantes e duvidosas eram as alegrias” e imagina que havia finalmente atingido um nada.

Mas o que é isto? Para quê? Não pode ser. A vida não pode ser assim sem sentido, asquerosa. E se ela foi realmente tão asquerosa e sem sentido, neste caso, para quê morrer, e ainda morrer sofrendo? Alguma coisa não está certa.

Talvez eu não tenha vivido como se deve – acudia-lhe de súbito à mente. – Mas como não, se eu fiz tudo como é preciso? – dizia de si para si, e no mesmo instante repelia esta única solução de todo o enigma da vida e da morte, como algo absolutamente impossível.

E o que tu queres agora? Viver? Viver como? Viver como tu vives no tribunal, quando o meirinho proclama: Está aberta a sessão!... Está aberta a sessão, a sessão – repetiu consigo. – Aí está o julgamento! Mas eu não tenho culpa! – exclamou com raiva. – Por quê? – parou de chorar e, voltando

 

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o rosto para a parede, pôs-se a pensar sempre no mesmo: por quê, por que todo esse horror? (págs. 67-68)

PROF. MONIR: E esse horror que ele vive, é o horror do quê, nesta altura? A que horror ele está se referindo aqui?

ALUNO: À dor.

PROF. MONIR: Também à dor, mas há um componente novo nesse horror aqui, que é aí entregue por este parágrafo.

ALUNA: Solidão.

PROF. MONIR: Solidão? Não. É uma coisa mais básica do que isso.

ALUNA:Um medo de morrer.

PROF. MONIR: Um medo de morrer não, isso ele já tinha.

ALUNA: (Faz comentário.)

PROF. MONIR: É o sentido da vida. Ele descobre que não tem nenhum. Está prestes a morrer, a sua vida vai acabar. Ele sofre terrivelmente. Não vê mais valor em nada que havia antes. E está naquela posição, naquela postura em que não sabe por que é que viveu, afinal de contas. Porque ele vai pesquisando a sua própria história, a sua própria vida, e não vê nenhum sentido real nisso, nessa vida que teve. Não parece que isso também é um

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 77 horror adicional? Não é isso? Na verdade, é uma coisa impressionante – no fundo, o que está acontecendo é que apenas a perspectiva da morte dá o tamanho verdadeiro das coisas. Isso é alguma coisa que a gente tem que guardar como regra geral. A verdadeira dimensão das coisas só se tem a partir da perspectiva da morte. Só. E nunca de nenhuma outra. É isso que ele está tendo agora. Ele está colocando as coisas nos seus diversos tamanhos verdadeiros. Está dando às coisas a importância que de fato elas têm, nem mais, nem menos. E só é possível haver esta legítima avaliação do tamanho real das coisas a partir da perspectiva da morte, que é aquela que ele tem agora com toda a certeza. Muito bem! Então, o que deve estar parecendo para ele um cargo no poder judiciário? Nada! O que deve estar parecendo para ele ter aqueles móveis bonitos? Nada! O que deve estar parecendo para ele ter isso ou aquilo? Nada! Na perspectiva da morte, ele caiu numa espécie de vazio. Um vazio que ele não sabe como resolver. Não é isso? Então, esse vazio em que ele cai parece muito pior, muito mais dramático, muito mais doloroso do que a dor física que ele sente – sabendo que nada pode ajudá-lo, porque o que acontece aí é uma perspectiva de solidão total. A solidão total é uma redução da sua vida a você mesmo. Não há nada que alguém possa fazer por você. É você e você mesmo, apenas estas duas coisas. Essa total solidão é que acompanha esse vazio de perspectiva de vida e essa dor física que ele sente. Não parece ser uma situação boa, não? Nem todo mundo vive isso. Porque boa parte das pessoas morre de um modo muito diferente disso. Há pessoas que morrem subitamente. Há pessoas que morrem em dois minutos. Há pessoas que morrem em acidentes. Pessoas que morrem sedadas. Nem todo mundo passa por essa experiência de morte. Hoje ninguém mais morre assim. Porque o processo que você tem de diminuição da dor já é muito grande. Embora devam existir casos em que isso também não funciona e se morre assim mesmo.

78 Professor José Monir Nasser ALUNO: (Faz comentário.)

PROF. MONIR: Hoje em dia a perspectiva de uma morte como essa é menos comum, não? Embora não se saiba muito bem o que acontece dentro da cabeça do comatoso. Mas, seja como for, não é todo mundo que passa por isso. Talvez a maior parte das pessoas morra meio que de modo inesperado ou então de uma maneira muito mais indolor que essa aqui.

X

Passaram-se duas semanas e Ivan Ilitch não se levantou mais do divã: “E deitado quase todo o tempo com o rosto contra a parede, sofria solitário sempre os mesmos tormentos sem escape e pensava solitariamente o mesmo pensar insolúvel.”

O que é isto? Será, de verdade, a morte? E a voz interior respondia: sim, é verdade. Para quê estes sofrimentos? E a voz respondia: à toa, sem nenhuma finalidade. E nada mais existia além disso. (pág. 68)

Os dias de Ivan Ilitch passavam-se entre recordações de infância, como “a ameixa seca crua francesa, enrugada, de sua infância, o seu gosto peculiar e a abundância de saliva quando se chegava ao caroço...” e a visão das rugas no marroquim e de um botão nas costas do divã, para onde invariavelmente tinha o rosto voltado.

PROF. MONIR: Marroquim é o tipo de couro que reveste o divã.

 

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