A Morte de Ivan Ilitch, O Senhor dos Anéis: Expedições pelo Mundo da Cultura

Capítulo XII

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

A partir desse instante, começaram aqueles gritos, que duraram três dias a fio, e que eram tão terríveis a ponto de não se poder ouvi-los sem um sentimento de horror, mesmo atrás de duas portas. No mesmo instante em que respondia à mulher, compreendeu que estava perdido, que não havia regresso possível, que chegara o seu fim, o seu fim completo, e a dúvida não estava resolvida, sempre permanecia como dúvida.

– U! Uu! U! – gritava ele com diferentes entonações.

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Começara a gritar: ‘Não quero!’ – e prolongou a sílaba naquele grito ‘Não quéru!’.

No decorrer de todos aqueles três dias, quando o tempo não existia para ele, ficou estrebuchando no saco negro para o qual o empurrava uma força invisível e invencível. Debatia-se como um condenado à morte debate-se nas mãos do carrasco, sabendo que não tem salvação; e a cada momento ele sentia que, não obstante todo o esforço na luta, ele estava cada vez mais perto daquilo que o horrorizava. Sentia que o seu sofrimento consistia também em que ele penetrava naquela fossa negra, e ainda mais em que não podia esgueirar-se para dentro dela. E o que o impedia de fazê-lo era a convicção de que a sua vida fora boa. Esta justificação da sua vida é que se agarrava a ele, não o deixava prosseguir e atormentava-o mais que tudo.

De repente, certa força empurrou-lhe o peito, o lado, comprimiu-lhe com mais força ainda a respiração, ele caiu na fossa, e lá, no fundo, algo alumiou. Ocorreu com ele aquilo que lhe acontecia no vagão ferroviário, quando se pensa que se cai para frente, mas se está retrocedendo, e de repente se percebe a verdadeira direção.

‘Sim, era tudo outra coisa’ – disse a si mesmo – ‘mas

 

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não faz mal. Pode-se, pode-se fazer ‘aquilo’. Mas o quê?’ – perguntou a si mesmo e, de repente, se calou.

Isso foi no fim do terceiro dia, uma hora antes de sua morte. Foi justamente então que o pequeno ginasiano esgueirou-se, sem fazer ruído, até o pai e acercou-se da sua cama. O moribundo não cessava de gritar desesperado, agitando os braços. A sua mão tocou a cabeça do pequeno ginasiano. Este agarrou-a, apertou-a contra os lábios e chorou. E justamente então Ivan Ilitch caiu no fundo, viu a luz e percebeu que a sua vida não fora o que devia ser, mas que ainda era possível corrigi-lo. Perguntou a si mesmo: ‘mas o que é ‘aquilo’?’ – e silenciou, o ouvido atento. Sentiu então que alguém lhe beijava a mão. Abriu os olhos e dirigiu-os para o filho. Teve pena dele. A mulher aproximou-se. Olhou-a. Ela também o olhava, a boca aberta, uma expressão de desespero e tendo lágrimas não enxugadas sobre o nariz e a face. Teve pena dela. ‘Sim, eu os atormento’ – pensou. – ‘Eles têm pena de mim, mas estarão melhor, depois que eu morrer.’ Quis dizer isso, mas não teve força. ‘Aliás, para quê falar, é preciso agir’ – pensou. Indicou o filho com os olhos e disse à mulher:

– Leve-o daqui... dá pena... e você também... – Quis dizer, ainda, ‘perdoe-me’, mas disse ‘deixe-me

 

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passar’, e não tendo mais força para corrigir o lapso, esboçou um gesto de renúncia, sabendo que seria compreendido por quem importava.

E de repente, percebeu com clareza que aquilo que o atormentara e não o deixava, estava de repente saindo de uma vez, de ambos os lados, de dez lados, de todos os lados. Eles dão pena, é preciso fazer com que não sofram. Libertá-los e libertar a si mesmo desses tormentos. ‘Como é bom e como é simples’ – pensou. – ‘E a dor?’ – perguntou em seu íntimo. – ‘Para onde foi? Eh, onde estás, minha dor?’ Prestou atenção.

‘Sim, ei-la. Ora, e então? Que seja dor.’

‘E a morte? Onde está?’

Procurou o seu habitual medo da morte e não o encontrou. ‘Onde ela está? Que morte?’ Não havia nenhum medo, porque também a morte não existia.

Em lugar da morte, havia luz.

- Então é isto! – disse de repente em voz alta. – Que alegria!

Tudo isso lhe aconteceu num instante, e a significação desse instante não se alterou mais. Mas, para os presentes, a sua agonia ainda durou duas horas. Algo borbulhava-lhe no peito; o seu corpo extenuado estremecia. Depois, o borbulhar e o rouquejar tornaram-se cada vez mais espaçados.

 

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– Acabou! – disse alguém por cima dele.

Ouviu essas palavras e repetiu-as em seu espírito. ‘A morte acabou’ – disse a si mesmo. – ‘Não existe mais.’

Aspirou ar, deteve-se em meio do suspiro, inteiriçou-se e morreu. (págs. 74-76)

PROF. MONIR: Gostaram da história? É uma história maravilhosa, muito bem contada. Uma obra-prima literária. Como eu disse a vocês, é considerada a melhor novela da literatura universal. Espero que vocês tenham obtido a dose de emoção necessária, que obviamente é indispensável no finalzinho dessa história. Agora nós precisamos falar um pouquinho sobre essa história, entender. Depois de entender um pouco a história, vamos falar um pouquinho de Tolstói. Nessa ordem.

Vamos entender Tolstói realmente bem só no próximo encontro, porque o estilo do Tolstói é um estilo agostiniano, quer dizer, esse modo como Tolstói conduziu a sua vida é o método da confissão autobiográfica. Passou a vida inteira fazendo isso. Escreveu uma obra chamada Minha Confissão. E o sujeito que inventou a confissão foi Santo Agostinho, com um livro chamado Confissões, que é o primeiro livro importante de Santo Agostinho, e é justamente o livro do próximo encontro. Há muitas e muitas diferenças entre as confissões de Santo Agostinho e as confissões de Tolstói, mas não vamos entrar no mérito disso agora porque é preciso estudar Santo Agostinho para poder entender isso bem, que é o assunto do nosso próximo encontro daqui a três semanas. Quem não tem o calendário, por favor, não perca a oportunidade de pegar aqui comigo ou com a Patrícia para não perder a data do próximo encontro, que vai ser 14 de junho. Enquanto esperamos

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 87 Santo Agostinho nos ajudar entender melhor a si próprio, as confissões e a Tolstói, vamos ficando por enquanto aqui com a vida e a morte de Ivan Ilitch. E fazer um pequeno resumo.

Ivan Ilitch. O que é que caracteriza primeiro a personagem? Quer dizer, a primeira coisa que nós sabemos da personagem é que é um sujeito que vê o mundo como um conjunto de relações e valores conexos e coordenados. Não é essa a sensação que você tem desde o início? Quer dizer, Ivan Ilitch acha que o certo é ir para a província, arrumar um determinado posto e trabalhar bem certinho. Depois ele vai ser promovido, porque é uma coisa natural – de fato ele é. Aí ele encontra a moça que acha certa e casa com ela, e vai ter filhos com ela. Daí fica torcendo para ter outro posto, porque aquele ali está abaixo das suas ambições. Ele vai pra São Peterburgo, leva a sorte de encontrar um conhecido que já mais ou menos o encaminha para um posto novo e assim ele vai subindo na vida, chegando então finalmente à capital onde vai ter um cargo relativamente importante, o mais importante de todos até então. E no processo de organizar a casa, a mudança, ele sofre um acidente doméstico. Nunca saberemos de fato o que ele tem, portanto é totalmente inútil ficar especulando isso, mesmo porque as nossas médicas aqui disseram que está errada a perspectiva médica desde o início. Quer dizer, no fundo não é um livro de medicina, e a gente não tem obrigação nenhuma de ficar exigindo coisas assim. Isto se chama licença poética. Nem todo mundo entende... O Flávio Cavalcanti tinha um programa de televisão no domingo. Antes de ter o Faustão, tinha o Flávio Cavalcanti. Tinha um quadro no programa em que ele quebrava um disco teatralmente, assim e tal. Um dia ele chegou com aquele disco do Adoniran Barbosa, Trem das Onze, e falou assim: “Eu vou quebrar este disco pelo seguinte: aqui diz ‘Moro em Jaçanã, se eu perder este trem que sai agora às onze horas, só amanhã de

88 Professor José Monir Nasser manhã’. Eu liguei pra ferroviária e tinha o trem das 11:15, das 11:30, das 10 pra meia-noite, da meia-noite e quinze.” Pegou e quebrou o disco. (Risos.) Isso é o cúmulo do sujeito incapaz de compreender poesia, não é? Entenderam? Esse é um exemplo radical de como se consegue ser burro, não? Porque o mundo poético é o mundo que está autorizado a ser um pouco sem cabimento até. Tanto é que nas histórias há elfos e sereias, enfim, há todo o tipo de criatura fantástica. Agora, então, o nosso herói aqui da história sofre um acidente doméstico e acreditamos que este acidente doméstico tenha sido a causa de uma moléstia que nunca foi bem diagnosticada e tampouco tratada, de modo que ele vai ficando cada vez pior, embora no começo não pareça que está mal. Mas vai piorando, piorando, piorando, até que ele encontra a morte. Encontra a morte completamente sozinho, nem mais o Guerássim está com ele nesse momento.

Mas o que parece que acontece com a personagem – porque o autor não está simplesmente descrevendo o estado de um moribundo – é que a personagem vai, durante esse tempo todo do transcurso da doença, mudando de comportamento, mudando de valores, percebendo coisas sobre o mundo que não percebera até então.

No início, ele vivia sua vida de expectativa sobre o mundo, de um comportamento coordenado e conexo entre os diversos valores do mundo – porque todo mundo espera isso, tanto é que todo mundo imagina para si uma vida assim: “Ah, vou fazer faculdade, depois vou arrumar um emprego, depois vou casar, depois vou comprar um automóvel, depois vou comprar uma chácara, vou comprar um apartamento na praia, depois meus filhos vão fazer vestibular, eu vou pagar cursinho pra eles, depois eles vão ser...”. Não é isso que as pessoas esperam da vida? Alguma coisa assim. É como se todo

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 89 mundo imaginasse que a vida sempre se resolveria bem nesta sequência de eventos – e não há nenhum mal esperar que a vida seja assim.

No entanto, se você for pensar bem nesta circunstância em que ele vivia, o autor tenta nos mostrar que independentemente da conveniência ou não daquela vida, é uma vida feita em certo grau de inconsciência. E a maior de todas as inconsciências que Ivan Ilitch tem naquele momento é a inconsciência da possibilidade da morte, porque o advento da morte é tão mais impactante quanto menos você o espera.

Se o advento da morte parece ser tão terrível quanto foi para Ivan Ilitch, isso é uma demonstração de que a última coisa que ele esperava era morrer. É como o próprio autor no começo nos diz: para os amigos de Ivan Ilitch, a ideia da morte não lhes tocava. “Foi Ilitch que morreu, não fomos nós que morremos.” Do mesmo modo, é o outro que morre, é Caio que morre, não é Ivan Ilitch que morre, não é José Monir que morre, não é ninguém especialmente, a não ser a personagem teórica da história, o exemplo que o professor deu na aula de filosofia.

Temos aí então uma grande inconsciência da morte. Se percebermos bem, talvez não exista nenhuma espécie pior de loucura; talvez o modo mais louco de alguém proceder na vida seja esse mesmo, porque é uma tentativa de fazer de conta que não existe aquilo que parece mais real do que o seu próprio nascimento. Porque o seu nascimento é uma hipótese lógica: como você existe, deve ter nascido. Mas a morte é uma coisa que você vai vivenciar conscientemente. O seu nascimento você não lembra bem como foi; você tem certa ideia de que bateram em você – benignamente –, que você chorou, mas isso é alguma coisa meio teórica. Você não lembra como era

90 Professor José Monir Nasser quando você tinha dois anos, lembra? No entanto, a morte virá no máximo da sua consciência. De alguma maneira, a morte será concretamente mais real e concreta do que o seu nascimento, que é uma coisa que você “take for granted”, como se diz em inglês, você dá como um acontecimento meio automático na vida. Mas a morte não é assim; a morte parece mais real que o nascimento, embora os dois obviamente precisem ter a mesma existência concreta.

A morte parece mais real que o nascimento. E, no entanto, Ivan Ilitch não é uma pessoa que tenha consciência dessa possibilidade. Não é só Ivan Ilitch. Quase ninguém tem. Ninguém pensa na morte todo dia, na sua própria morte. Se você tem por perto uma pessoa que está muito mal de saúde, você pensa, mas sempre por contraste à sua não-morte: “Não sou eu que estou ali, é outra pessoa que vai morrer, eu não”. A morte é como se fosse um assunto proibido, como alguém que tem na família um louco perigoso do qual ninguém fala; aquele assunto que é muito próximo, mas ao mesmo tempo proibido.

O nome disso que fazemos com a morte é tabu. Tabu é um assunto proibido. A expressão “tabu” foi popularizada pela psicanálise. Então há determinadas coisas que são proibidas coletivamente, como o incesto, por exemplo, que é proibido em quase todas as culturas em situações normais. Tabu é essa ideia de que há alguma coisa que é proibida, e o tabu do mundo moderno é a morte. Já foi o sexo, mas o sexo não é mais de modo nenhum, tanto é que você não consegue ligar a televisão de noite sem que haja uma prostituta contando as suas aventuras sexuais. É uma coisa obrigatória em qualquer programa de auditório que os entrevistados sejam prostitutas, travestis, cafetões e, enfim, variações. O sexo deixou de ser tabu, mas a morte é um

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 91 tabu. A morte é um tabu porque parece horripilante essa maneira como enxergamos o mundo hoje, que vê a morte como a interrupção de alguma coisa.

Mas se eu disse a vocês que não considerar a hipótese da morte é uma espécie de loucura, também preciso dizer a vocês que não há nenhuma possibilidade de perceber e refletir sobre o mundo a não ser quando você se abstém de agir, porque a única possibilidade de raciocinar sobre o mundo e entender alguma coisa depende da abstenção da ação. Porque a ação não permite que você faça de fato nenhum ato de reflexão.

É por isso que você não consegue de fato entender a sua vida a não ser em um contexto em que você, por uma razão ou outra, leva uma trava da vida assim. Ou porque você perde o emprego, ou porque você fica doente numa cama, ou porque caiu o avião e você fica numa ilha deserta por dois anos, etc. Essa é uma dificuldade muito grande. Também essa é a razão pela qual, de modo geral, as melhores interpretações sobre as guerras são melhor dadas pelos vencidos do que pelos vencedores, porque os vencidos, como têm que parar pra pensar por que perderam, tendem a ter um poder de relatar com mais precisão o que aconteceu do que os vencedores, que estão mais preocupados com as ações correspondentes à vitória: usufruir do patrimônio, da mulher dos outros, usufruir de um modo vândalo dos benefícios da vitória. E os que perderam têm tempo então para pensar por que perderam.

Há também outra regra aqui que parece ter sido aplicada exatamente ao Ivan Ilitch: ele só conseguiu pensar um pouco na vida quando a sua carreira foi interrompida. Claro que poderia ter sido interrompida de modo menos

92 Professor José Monir Nasser violento e de modo menos doloroso, de uma maneira mais agradável, mas não foi o caso. O destino, aqui nesse caso, produziu para Ivan Ilitch uma tragédia pessoal extraordinária, tragédia pessoal esta que o obrigou a parar pra pensar, que foi o advento da doença.

Na medida em que a doença não o deixava mais viver aquela vida cotidiana que ele vivia antes, aquela vida em que ele se aproximava da própria definição de loucura – de alguém que produz uma vida absolutamente sem perspectiva de sentido nenhum – é aquilo que Manuel Bandeira diz numa poesia que eu sempre sugiro que vocês leiam, que ele chama de “agitação feroz sem finalidade”. A história da poesia é a de um defunto que passa por um cortejo fúnebre, olha para o cortejo fúnebre – é a mesma história de Ivan Ilitch, no fundo, essa poesia de Manuel Bandeira – e ele então chega à conclusão de que a vida das pessoas que não são aquele morto é uma agitação feroz sem finalidade. Parece ser isso a vida que Ivan Ilitch levava, sem ser uma vida desonrada. Vejam, ele tem uma vida honrada! Ele é uma boa pessoa, é honesto, tem alguma atitude de servir a uma causa, segue o seu dever, portanto tem uma honestidade implícita na sua própria atividade profissional: ele é um funcionário exemplar – o que não quer dizer necessariamente que a vida de Ivan Ilitch faça algum sentido.

Obrigado a pensar na vida com o advento da doença, ele permite que a perspectiva da morte, que vai se avultando, possa dar o tamanho verdadeiro e real pra todas as coisas. As coisas só passam a ter o tamanho e a dimensão que de fato têm frente à perspectiva da morte. E a perspectiva da morte de Ivan Ilitch produz, quando a morte vem de fato, uma substituição de polos. Você percebe que ele não sabe para que serve aquilo: encontra-se com o filho segurando a sua mão, no seu leito de morte, e de repente ele vê uma

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 93 luz. Se vocês me perguntarem que luz é essa, eu não sei, de fato. O que eu posso garantir pra vocês é que existem diversos graus de realidade. Quando você faz essa análise a partir da cabala judaica, por exemplo, você descobre que existem quatro graus mínimos de realidade. Há a realidade material, física, essa em que nós vivemos, o mundo sensível. Há um segundo nível de realidade, chamado nível sutil, onde estão os elementais da natureza. Existe um terceiro nível, chamado nível angélico. E há um quarto nível, que é o nível divino. A justificativa desses quatro níveis é absolutamente dedutiva. Porque quando você pega o Evangelho de São João, no qual há uma repetição do Gênesis – logo no início há uma recontagem da história do Gênesis – e quando olha para a história do Gênesis, do início do mundo contado ali, se você tiver capacidade de interpretar cada uma daquelas afirmações, você vai descobrir que a existência de quatro dobras de realidade são decorrentes da própria maneira como Deus criou o mundo. Não vamos entrar no mérito disso aqui, porque já é um assunto esotérico, é bem complicado, e é bem diferente do nosso assunto. Mas a verdade é que quando Ivan Ilitch percebe, quando está completamente entregue e não tem mais nenhuma esperança, há uma espécie de redenção, que no livro nos é contada como a visualização da luz e a destruição da morte. A morte, na medida em que chega, destrói-se automaticamente em si mesma, porque é como se ele visse alguma coisa, como se ele visse e mudasse de patamar existencial, seja o que quer que vocês queiram entender que Tolstói imagina ser uma mudança de patamar existencial.

A verdade é que vivemos sempre dentro de uma espécie de mundo compreensível, racionalizável, esse mundo em que nós vivemos aqui, esse mundo ao qual insistimos em aplicar critérios científicos para conhecer. Mas esse mundo é apenas o queijo e o presunto do sanduíche de um polo

94 Professor José Monir Nasser superior, um polo transcendente, uma espécie de mistério de luz, luminoso, e abaixo um polo descendente, um polo abissal, que é uma espécie de mistério abissal, uma espécie de mistério negro, de mistério demoníaco. Há, acima de nós, um mistério de luz, luminoso, e embaixo, um mistério demoníaco. Esses dois mistérios estão o tempo todo nos perseguindo; a nossa existência é uma existência ensanduichada entre essas duas coisas.

A ideia de morrer é uma ideia de mudar talvez de nível de análise desse polo. Eu não queria entrar nessa especulação aqui, porque ela é bem complicada, e não é a questão mesmo de saber o que aconteceu com Ivan Ilitch depois que ele morreu, mas o que acontece pelo que Tolstói nos diz é que ele de repente descobre alguma coisa que não sabia. É como se ele tivesse sido apresentado a um certo grau de mistério que antes não conhecia. Ou seja, é como se para chegar a algum mistério luminoso tivéssemos que passar pelo polo abissal. É como se aquela morte e sofrimento que ele tinha sofrido tivessem necessariamente de preceder a descoberta de alguma coisa mais alta. Essa é uma proposição muito tolstoiana, que acha que a vida humana é isso mesmo: uma espécie de sacrifício a partir do qual você chega a entender alguma coisa.

Mas, percebam aqui, que seja qual for o mundo que Ivan Ilitch vai visitar depois da sua morte, aonde quer que ele vá, no fundo, no fundo, o que está dito nesta história que nos interessa entender é que a única perspectiva de compreensão da vida é a partir da compreensão da morte, a partir da aceitação da existência da morte.

Esse é o coração da história que nós lemos: não se deve nessa vida fazer nada, nada, nada, que não seja revogado pela perspectiva da morte. Dentro

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 95 daquela pressuposição de que estamos aprendendo com Tolstói a viver melhor, que é o conceito de cultura que se tem aqui nesse curso – toda e qualquer ação humana só deve ser executada de fato se, ao ser confrontada com a possibilidade da morte, não for automaticamente anulada e revogada por ela. Então não devemos matar ninguém, não devemos produzir atos que prejudiquem os outros, enfim, é todo o conjunto de ordem moral que estabelece o comportamento humano. Porque, afinal de contas, Tolstói está dizendo: o que estabelece a existência da moral da vida é a perspectiva da morte e apenas ela – o que é uma coisa extraordinária, porque de modo geral se pensa o contrário. Umberto Eco passou a vida inteira afirmando que a arte serve pra preparar o sujeito para a morte. Pois, olhando pela perspectiva de Tolstói, você chega à conclusão de que a morte serve para preparar a arte para a perspectiva da vida. Entenderam a diferença? Há uma diferença enorme entre você lidar com a morte como começo ou como fim. Pois o que Ivan Ilitch descobriu é que a morte era a perspectiva inicial, desde o início era a que deveria ter sido eleita como tal. Ela não precede cronologicamente a vida, porque seria então uma coisa absurda, mas precede ontologicamente a vida.

Vocês entendem essa diferença dessa precedência ontológica e cronológica? Por exemplo: você não vive para comer, mas comer é uma condição necessária para a vida. O fato de que você primeiro come e depois vive a sua vida não quer dizer que você viva para comer. Então a comida que você ingere não é ontologicamente prioritária na sua existência, ela é alguma coisa condicionante da sua existência. Mas a sua vida não é para comer, a sua vida é para você fazer coisas notáveis, fazer poesias, conquistar os outros planetas, descobrir a cura do câncer, resolver aquele problema que você tinha com seu tio... A vida é pra fazer essas coisas. A alimentação

96 Professor José Monir Nasser é uma espécie de pressuposto de que isso aconteça. Pois a morte, embora não seja o objetivo da vida, é o pressuposto da vida toda. Porque é esta ideia central que vai permitir então que Ivan Ilitch possa considerar o vazio da sua existência como sendo vazio; é esta ideia que faz com que ele perceba que todos estão iludidos em torno dele, e que ninguém tem a menor ideia do que está fazendo, como ele também não tinha quando estava fazendo antes – muito embora não estivesse fazendo coisas erradas, nem coisas más, mas eram coisas sem sentido – e que, portanto, só a perspectiva da morte restaura a perspectiva da vida.

Mas se você vive numa época em que a morte é tabu e não se pode falar nela... Não se pode falar na morte, é impossível, há uma tentativa de estender a juventude para todos os tempos. Então Mick Jagger tem 65 anos e tem filhos com modelos como se fosse um menino bobinho de 20 anos – e você olha pra cara do Mick Jagger, ele parece mais jovem do que todo mundo aqui. Mas o Mick Jagger tem 65 anos, e se veste como jovem. E as pessoas ficam velhas e, em vez de serem sábias, vão lá pro Sesc da Terceira Idade pra fingir que são jovens, e ficam lá tentando participar das “Olimpíadas da Melhor Idade”. Não é assim? Quer dizer, há uma recusa sistemática da possibilidade da morte. E a possibilidade da morte, no entanto, é a possibilidade da vida, porque é só a partir da perspectiva da morte que é preciso então produzir alguma compreensão da vida.

A morte – e essa é uma crítica constante na obra de Tolstói – é uma espécie de grande pedagoga. Não há nada mais pedagógico do que a morte. É esta a ideia central que a morte ocupa dentro de Tolstói, e essa é a razão pela qual ele escreveu este livro, que era para nos contar que não temos o direito de fazer na nossa vida nada que, confrontado com a perspectiva da morte,

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 97 possa ser de alguma maneira revogado. Se a morte revoga o valor daquilo, não faça. É essa a ideia central que a gente precisaria guardar desta história chamada A Morte de Ivan Ilitch. O processo só funciona de trás pra frente, e nunca de frente pra trás.

Há várias teorias sobre a libertação que Ivan Ilitch recebe no final, que ele teria então compreendido a compaixão com o filho. É verdade... Quem é que tem compaixão por ele? Só duas pessoas têm: Guerássim e o filho. Porque a mulher, em princípio, envolveu-se menos com a situação de doença do que o próprio empregado se envolveu; e a filha está preocupada com o casamento, então ela tem preocupações mais urgentes. É claro que se pode imaginar que naquele ato final uma interpretação poética seria assim: “No momento final ele ainda percebe que foi amado, e é isso que faz com que ele possa sair bem desta vida”, mas esta seria uma interpretação muito sentimental para alguém como Tolstói, que, afinal de contas, quer criar uma seita mais inteligente do que a Igreja Ortodoxa e Católica juntas, que sabe mais do que a Igreja Católica e Ortodoxa juntas, que imagina que seja isso a solução. Na verdade Tolstói não é um sujeito de religiosidade afetiva, ele não é um sujeito afetivo. Ele é na verdade um profundo racionalista. E é por isso que digo para vocês que é preciso compreender um pouquinho Tolstói pra entender como foi que ele montou esse livro. Sem que essa compreensão possa produzir qualquer desmerecimento ou desvalorização da conclusão central do livro, que me parece ser este fator pedagógico que a morte produz, porque é esse fator que é capaz então de finalmente produzir um balizamento entre as ações da vida. As ações da vida só podem ser escolhidas a partir da perspectiva da morte.

 

98 Professor José Monir Nasser Pensem bem como isso tem consequências terríveis para a nossa existência. Daqui pra diante você só escolheria coisas na sua vida pensando na perspectiva da sua própria morte. Não sei se isso é fácil de fazer. Uma vez, pedi para um grupo de funcionários de uma determinada empresa (não posso nem dizer o nome) que fizesse o seguinte exercício: que cada um pegasse uma folha de papel e escrevesse o seu epitáfio: “Hoje morreu fulano de tal...” Disse-lhes que podiam inventar do que teriam morrido, que o fizessem com toda a liberdade. Havia no Brasil um grande escritor chamado Antônio Carlos Villaça, que morreu há pouco tempo, e era um sujeito que escrevia epitáfios porque era um dos maiores memorialistas que o Brasil já teve. Os melhores memorialistas do Brasil, na ordem: Joaquim Nabuco, Gilberto Amado, Pedro Nava e Antônio Carlos Villaça, são aqueles sujeitos capazes de contar a vida e as reminiscências com uma autoridade extraordinária.

Conheci o Villaça muitíssimo bem, dei muitos e muitos cursos com ele – já estava muito velhinho. E o Villaça era contratado pelos jornais – porque as pessoas morrem sem avisar, então tem que ter a nota fúnebre pronta, como é que se diz...

ALUNO: O necrológio.

PROF. MONIR: O necrológio. Muito bem! Então o Villaça sabia da vida de todo o mundo, escrevia todos de cabeça. Uma vez eu o vi dar uma palestra assim: “No dia tal, de tal, de tal, na rua não sei o quê, em Santa Teresa, nº 43, 3º andar, apartamento 302, Gilberto Amado chamou a sua empregada fulana de tal e disse assim: ‘– Fulana, prepare um chá, que eu tomarei um chá e morrerei.’ E de fato Gilberto Amado morreu”. Era um homem capaz de fazer

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 99 coisas assim com uma serenidade e precisão espantosas. E o Villaça escrevia, então, esses necrológios. Eu pedi que cada pessoa escrevesse o seu próprio, e uma boa quantidade de pessoas ficaram tão horrorizadas, tão chocadas com a perspectiva de falar da morte que foram incapazes de fazer isso. O sujeito não consegue escrever na hora. Porque a perspectiva da própria morte é indizível, ela é inaceitável.

E, no entanto, o que a novela A Morte de Ivan Ilitch está me dizendo é que a única maneira de fazer a vida fazer sentido é a partir do não sentido total da morte aparente, ou seja, o aparente não sentido da morte é que faz todo o resto fazer sentido, a partir dela para trás. Portanto, se há alguma coisa que deveríamos nos preocupar todo dia é pensar na nossa própria morte, e pensar se estamos tomando as ações que, confrontadas a ela, à sua perspectiva, não são necessariamente e automaticamente repelidas, anuladas e rejeitadas. Essa é a ideia central que está aí.

Isso, de alguma maneira, é a própria vida de Tolstói. Ele fez isto a vida inteira: jogou toda a fortuna fora, foi viver de eremita, abandonou tudo aquilo que parecia a ele que eram ilusões e foi fazer isso com ele mesmo.

O que a gente não deve julgar é que a fórmula de Tolstói tenha sido boa. Porque, como eu disse no começo, nós temos que dizer que ela é sincera: ele foi um sujeito coerente consigo mesmo. Em nenhum momento, depois da sua conversão, depois daquela noite em que teve a experiência mística, ele recuou nesse sentido. Ele teve uma vida, então, que passou a ser coerente com esta ideia de uma vida que gerasse sentido o tempo todo, sentido o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo.

 

100 Professor José Monir Nasser Mas o problema de Tolstói, no que ele difere muito de Santo Agostinho, é que Santo Agostinho fez a mesma coisa. A vida de Santo Agostinho é mais ou menos parecida com esta – vamos ver no próximo encontro aqui. Santo Agostinho também era uma pessoa como ele, andava na farra, naquela confusão, e sabia que estava errado, tanto é que ele dizia assim: “Ai, Senhor, dai-me o juízo, mas não agora, pelo amor de Deus.”

ALUNOS: (Risos.)

PROF. MONIR: “Dai-me a parcimônia, mas não agora; dai-me a temperança, mas não tão rápido”...

ALUNOS: (Risos.)

PROF. MONIR: Isso Santo Agostinho dizia. Vivia numa farra. Não sei quanto é que a gente pode imaginar que dá pra fazer de farra lá no norte da África no ano 400, mas alguma farra possível havia lá. De todas as informações, a mais anticlimática é aquela informação que o Groff me deu de que naquela época o vinho era branco e doce. Já imaginaram a dor de cabeça no dia seguinte a uma farra dessas? É igual a você ir a Santa Felicidade e tomar 20 jarrinhas daquele vinho lá do Madalosso, alguma coisa assim.

Santo Agostinho faz como Tolstói. Aliás, tudo que Tolstói faz é uma imitação de Santo Agostinho. Santo Agostinho escreve as Confissões – nós estudaremos aqui no próximo encontro – e Tolstói também escreve confissões, Minha Confissão, às vezes traduzida apenas por Confissão, e diz assim: “Olha, fui um sujeito muito errado, tive uma vida muito ruim, andei farreando em tudo quanto é lugar; de São Petersburgo a Moscou todos me conheciam pela

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 101 minha indisciplina, pela minha incapacidade de ser sério, não sei o quê, não sei o quê... No entanto, agora vou me voltar ao verdadeiro cristianismo, e o verdadeiro cristianismo é o cristianismo de antes do advento da Igreja, ou seja, antes que houvesse Igreja. Havia um cristianismo natural, um cristianismo básico e primário, que é esse que tenho de recuperar, porque esse cristianismo que tem aí é uma porcaria, porque é apenas dominado pelos padres, pelos bispos, é uma espécie de estrutura de poder que nós financiamos”.

E a mesma coisa diziam depois os protestantes. Os protestantes queriam se livrar do catolicismo por várias razões: Lutero queria por razões de natureza doutrinal – é claro que depois, os que vieram depois dele queriam poder político, que era muito diferente, mas Lutero e Calvino queriam voltar a um cristianismo puro antes do estabelecimento da Igreja, ou seja, o cristianismo do tempo de Santo Agostinho.

Santo Agostinho mais ou menos começou a estabelecer como a Igreja ia ser. De todas as influências que a Igreja Católica teve, a maior é a de Santo Agostinho. Ninguém teve tamanha importância na formatação do cristianismo – não no cristianismo em si, porque esse é Jesus Cristo, mas na forma que o cristianismo católico passou a ter. De todos os contribuidores, Santo Agostinho tem o maior peso específico. E Santo Agostinho, então, faz a conversão – a mãe dele também se converte, a Mônica – e começa a produzir centenas de documentos, documentos esses que eram explicações de como deveria ser a doutrina cristã, e em torno dessas explicações é que vai se estabelecendo o corpo doutrinal católico, digamos assim.

 

102 Professor José Monir Nasser Tolstói não queria fazer nada disso. Tolstói achava que tinha que recuperar um cristianismo que não existe mais, um cristianismo que desapareceu no tempo por causa da conspiração das burocracias religiosas, como seriam os padres em geral. Vejam, ele acha isso tudo de ruim lá do cristianismo ortodoxo; não está falando de Roma, naquela bandalheira, porque em Roma era muito pior – lá ainda havia alguma diferença –, tanto é que até hoje o cristianismo ortodoxo não fez o seu Concílio Vaticano II, ou seja, os ritos ortodoxos são os antigos, ainda há uma forte tradição que domina a Igreja Ortodoxa. Se ele estivesse falando do catolicismo, então acharia o fim do mundo. Ele tentou ainda procurar aquele staretz que parecia a ele ainda uma espécie de reserva de espiritualidade, mas ele queria que o staretz concordasse com a visão que ele tinha...

Veja bem, Tolstói – como Rousseau, como Nietzsche, como Kierkegaard – são todos filósofos, pensadores que começam sempre com o método confessional de Santo Agostinho. Depois vamos ver no próximo encontro o quanto é importante que isso seja assim, até como perspectiva de autoconsciência. Mas Tolstói faz a sua confissão e depois, em vez de admitir que é um pobre pecador e, portanto, humilhar-se aos olhos de Deus, o que ele faz? Resolve, sozinho, em 1800 e não sei quanto – depois de 1800 anos que gente muito mais inteligente que ele quebrou a cabeça para arrumar o quebra-cabeça –, ele resolve achar que o cristianismo verdadeiro é um conjunto de gente vestida como camponeses, que não come carne de gado, que não fuma e só transa pra reprodução, mesmo quando casados.

E é essa a ideia que Tolstói tem da vida. Completamente inaplicável, uma ideia doidivanas completa. Aí está a grande diferença entre ele e Santo Agostinho: Santo Agostinho parte de um ser humano que existe

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 103 concretamente e é real. Então Santo Agostinho dizia assim: “A matéria de que são feitos os vícios é a mesma matéria de que são feitas as virtudes”. Portanto, a estratégia, digamos assim, de santificação pessoal de Santo Agostinho é essencialmente você ir trocando de vício. Entendeu? Em vez de você ser invejoso, que é um vício horrível e destrutível, você tem que ser ambicioso. Você vai trocando de vício e melhorando, mas, no fundo, no fundo, você sempre será um sujeito pecador, um sujeito meio sem solução e sem esperança nenhuma. Mas Tolstói não imagina que exista um homem assim. Ele imagina que os homens podem ser todos santos automaticamente, ou seja, ele parte da existência de uma pessoa que de fato não existe. Na verdade, ele não consegue problematizar o ser humano. Não consegue entender a enorme complexidade que é a vida humana. É muito melhor um sujeito que se esforça e que fuma do que outro que não fuma e é um chato. A primeira lei antifumo do mundo foi feita pelo nazismo, e Hitler era vegetariano. É muito pior ter um sujeito como Hitler, que é vegetariano e não fuma, do que ter um sujeito como Norman Mailer, que fuma, bebe feito um desgraçado e tal, mas que escreve bons romances. Então, o problema da vida humana é que ela não se esgota em aspectos aparentes e aspectos formais da existência humana. É por isso que, no final das contas, o que Tolstói consegue fazer é apenas uma seita de quakers – gente mais ou menos louquinha que inventa de existir dentro de um contexto típico do Inri Cristo13, mais ou menos. É claro que Tolstói tem muito mais talento que Inri Cristo, mas se você for pensar bem, é muito parecido: é um sujeito que diz que ele é que sabe como é que faz; portanto cria uma seita só pra ele; não consegue estabelecer uma autoridade no mundo porque não

13 Nota da transcritora - Inri Cristo é o nome adotado por Álvaro Thais. Nascido em Indaial, em 1948, é um líder religioso que proclama ser a reencarnação de Jesus Cristo. Fundou a organização “Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade” (SOUST) em 28 de fevereiro de 1982.

104 Professor José Monir Nasser produz milagres – quando Jesus Cristo dizia que Ele tinha uma mensagem nova, Ele comprovava isto com atos concretos. Veja, o cristianismo não se baseia em doutrina, mas em atos; é alguma coisa em que você acredita porque atos reais, concretos, aconteceram. Mas todo o maluco que vem aí e se declara o Messias, como é o caso desse Inri Cristo, que é apenas um caso das centenas que existiram no decorrer da história, ele aparece com uma perspectiva que, no fundo, no fundo, é uma perspectiva soberba. No fundo é uma perspectiva de substituição do saber dos outros pelo seu próprio. Quer dizer, Tolstói, como diz Chesterton, é um sujeito que exige uma pureza obscena. É um sujeito que exige uma perfeição impossível para o ser humano. Quando no fundo o que resta de toda essa história é poder dizer assim: “Eu não presto, mas Jesus me ama”. Porque essa é a única perspectiva possível para o ser humano real. Não vamos conseguir nos desvencilhar da nossa natureza pecadora, ela é natural e nos acompanhará a vida inteira. Portanto, o que você precisa fazer é compensar os seus pecados com coisas boas, com atos extraordinários, porque um ato bom é um ato bom mesmo quando é feito por um homem mau. Então se Hitler tivesse salvado uma criancinha de um incêndio, esse ato não seria mau em si porque foi Hitler quem o praticou, mas continuaria sendo um ato bom, porque um ato bom será sempre um ato bom, mesmo quando praticado por alguém muito mau.

A vida humana não tem muita saída da perspectiva de convívio com esta imperfeição extraordinária de que somos feitos. E essa é a razão pela qual Mário Ferreira dos Santos escreveu um livro chamado Cristianismo, a Religião do Homem, para demonstrar que o cristianismo, de todas as religiões, é aquela mais adequada à nossa verdadeira natureza; e essa é a razão pela qual Chesterton escreveu o livro Ortodoxia, em que defende que toda a

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 105 vez que ele vai tentar alguma alternativa a isso, ele sempre acaba caindo na própria ortodoxia. Toda a heterodoxia que ele tentou na vida sempre o jogou de volta nessa ortodoxia fundamental, que é uma ortodoxia muito antiga, e que Tolstói não acha que se deva cumprir, porque Tolstói imagina uma fé racionalizada, e não é capaz de compreender a força do mistério.

Neste ponto, ele é muito, muito diferente de Dostoievski, que é outro sujeito que tem todos os componentes de natureza religiosa envolvidos na obra, mas aceita a existência humana como imperfeição que é, e acha que é o sofrimento que faz com que a gente saia dessa. Ou seja, Dostoievski parece muito mais com Ivan Ilitch do que o próprio Tolstói, porque é o sofrimento que traz a possibilidade da percepção das coisas. Na verdade isso sempre foi assim, porque é a própria ideia que está na literatura, que diz que é preciso passar pelo inferno para ir para o céu. Dante Alighieri passa pelo inferno para poder chegar ao céu; Ibn Arabi dizia que o trono do diabo está entre a terra e o céu – o trono do diabo fica no meio. E essa é a ideia de todas essas obras de natureza de abismo: sempre é preciso ir para o abismo para chegar ao céu. É como se o céu só aparecesse como contraste; você só percebe o polo luminoso por contraste ao polo abissal. Porque do modo que nós estamos aqui, num meio-termo, é como se a luz se diluísse pra cima e pra baixo, e não enxergássemos bem nenhum dos dois extremos. Então é só o mergulho no polo abissal, ou seja, o mergulho na dor, na morte, no sofrimento que permite que se enxergue a luz do outro lado, que se faça a inversão de polos – que é aquilo que aparentemente acontece com Ivan Ilitch no final da vida, muito embora não tenhamos aqui elementos para especular o que é que isso significa verdadeiramente ou não. Em todo caso, a perspectiva da possibilidade desta queda na morte – que é esta coisa que nos horroriza e

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