A Morte Vence

João José Grave · Capítulo 9 de 12

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A Morte Vence

Capítulo VIII

 

O inverno tinha chegado, com efeito, à quinta onde Nuno e Júlia ainda permaneciam, sem pressa de regressarem à confusão e ao alarido da cidade, de que se esqueciam na paz, na beatitude da sua vida de recolhimento e de simplicidade, no enlêvo cada vez maior da sua ventura. Como viviam únicamente um para o outro, sentiam-se bem naquele isolamento de que nenhum sobressalto exterior quebrava o ritmo. Parecia-lhes que os seus pensamentos e as suas emoções ganhavam, na solitude, maior nitidez e mais intensidade e que um amor, de instante para instante mais forte, os aproximava tanto pela beleza moral como pela beleza física, enriquecendo os matizes afectivos da sua intimidade espiritual.

A hostilidade do tempo retinha-os quáse sempre dentro de casa. Grossas cordas de água fustigavam com violência as janelas, escorregando lentamente nos vidros, alagavam o jardim, davam, um aspecto lúgubre a paìsagem que se divizava ao longe, através duma cortina de névoa cinzenta e triste. Dos montes próximos, onde densos pinheirais ondulavam e ramalhavam à ventania furiosa, despenhavam-se as torrentes, descendo entre cachões de espuma até ao vale. Por vezes, dos telhados dos casebres, que donde a onde branquejavam na desolação campestre, subiam, colunas de fumo que se torciam, se esfarrapavam, dissipando-se na atmosfera baça. Grandes nuvens negras corriam no ar, do sul para o norte, impelidas pela rajada dos furacões. No cume das serranias havia uma claridade mais límpida do que nas encostas e nas colinas onde um espêsso vapor se acumulava. As árvores sem fôlhas do parque rangiam, gemiam ao vento. De noite, especialmente, o barulho que faziam era sinistro e assustava Júlia. De quando em quando, um pedaço de céu azul rasgava-se no alto, muito puro e translúcido, e uma pálida claridade de sol derramava-se docemente, como uma bênção divina, por tôda a aldeia, dourando a verdura das relvas humildes e rasteiras que vestiam a terra negra. Nestas horas, parecia que a natureza tinha uma alma de bondade e meiguice a comunicar-lhe o encanto supremo duma poesia indizível, e duma infinita piedade pelos desgraçados. Mas em breve o ambiente de novo se toldava e a obscuridade dilatava as perspectivas.

Em certas manhãs, Nuno, com o charuto na bôca, as mãos nos bolsos das calças onde tilintavam chaves, bem agasalhado pelas roupas quentes, assomava à varanda envidraçada, espreitando através dos vidros embaciados, e logo se refugiava junto de Júlia, murmurando:

—Que invernia brava hoje vamos ter!...

Ela olhava-o demoradamente, com êsse olhar em que se reflectia tôda a pureza e tôda a ternura do seu coração e que tanto o comovia, dizendo:

—Fizemos talvez mal em nos deixarmos ficar aqui. Devíamos ter partido nos fins do verão... Mas essas obras que nunca terminaram...

—Partir para quê?—inquiria Nuno, parando diante dela. O inverno é tam fastidioso na aldeia como na cidade. E nota! É mesmo curioso ver cair a chuva entre estas árvores, pelos flancos destas montanhas. Ao menos, temos horizontes largos, desafogados, respira-se. Estamos a assistir a um espectáculo inteiramente novo para nós...

—Mas, na cidade...—contrariou Júlia, com timidez.

—Eu sei. Na cidade, há os cafés, os cinematógrafos, os teatros, outras diversões. Mas ela apenas se torna indispensável para os que não teem família ou para os que não fazem vida familiar. Para mim, que passo as noites perto de ti, tanto me importa estar aqui como num centro imensamente populoso...

Ela agradecia-lhe fervorosamete aquela doce devoção, aquela constância de afecto que nunca afrouxava, e experimentava um calor de ventura que a penetrava tôda, que amaciava à sua roda as asperezas da vida. A confiança de ambos no futuro aumentava constantemente. Tinham olvidado tudo o que se passava para alêm da história lírica da sua paixão—que havia começado anos antes e que ainda não terminara; nem um nem outro se lembravam de ter padecido algum dia. As recordações dos seus tempos antigos diluiam—se, apagavam-se, fundiam-se na fluidez original. Uma nova fôrça, uma energia prodigiosa, pulsava nos seus sêres, renovando-os a cada momento. Dentro de casa, nas alvoradas hostis ou nas tardes tempestuosas, ocupavam-se na infinidade de coisas gratas que os cuidados da habitação oferecem. Júlia, com o saco de costura no regaço, bordava, cosia, enquanto Nuno lia as suas revistas e os seus jornais ou cortava as páginas dalgum livro recente que da cidade o seu livreiro lhe mandava. No abandôno íntimo dêstes saborosos instantes, se se contemplavam, subiam-lhes da alma à memória as longínquas recordações da sua adoração revivida, com extraordinária lucidez. Encontravam, então, um fino prazer emotivo em relembrar tudo o que mais de perto com essa adoração se prendia:—os logares idílicos em que ela tinha nascido, certos objectos e certos episódios que lhe imprimiam relêvo. A elaboração interior destas lembranças emmudecia-os longamente, abismava-os numa espécie de silêncio que temiam interromper e que voluntáriamente prolongavam, para que o seu gôzo espiritual fôsse mais duradouro.

Nuno conservava tam nítidamente na memória êsses acontecimentos, que podia reconstituí-los com facilidade, sempre que quisesse. Não lhe esquecera ainda, o mínimo detalhe do seu primeiro encontro com Júlia, que chegara certa manhã a um hotel de Vizela, com o pai, a mãe e o irmão, o excelente Roberto, que fôra educado em Londres, que tinha nas maneiras, na franqueza, na correcção do porte e no córte do vestuário, acentuados traços britânicos e que partira para a America do Norte, como empregado superior duma casa bancária, dois meses depois do casàmento de Júlia. Viram-se a primeira vez no parque, por uma tarde de luz e de alegria. Ela trazia um vestido de fustão branco muito justo que lhe desenhava claramente as formas plásticas, ondulantes e de linhas puras. O seu busto era perfeito de curvas e de contornos: a sua mocidade tinha a graça subtil duma flor plenamente desabrochada. O seu chapéu de palha côr de ouro com duas rosas vermelhas presas por uma laçada de gaze de sêda branca, fazia-lhe uma discreta sombra sôbre a testa, suavizava-lhe mais a luz dos olhos suaves, iluminando-lhe o rosto dum oval delicado, imprimia-lhe maior destaque à pele das faces e do colo, que parecia alumiada por uma claridade interior e que não tinha um vinco, uma ruga. Nas suas mãos, que eram magras, pequeninas e de dedos delgados, fulgiam pedras de aneis.

Cruzaram-se no passeio, trocaram um simples olhar e foi como se ficassem compreendendo-se para sempre—porque o amor casto dá aos olhos uma inteligência especial, um admirável poder de entendimento e de expressão. Daí em diante, nunca mais Nuno deixou de a seguir dócilmente para tôda a parte, indo aos chás a que Júlia se associava, às excursões, em grandes ranchos, às serras próximas, para a contemplação dos panoramas que se vislumbram dos píncaros mais altos:—a ondulação ininterrupta e irregular do dorso das cordilheiras, que evocava um colosso fulminado, tocado a espaços por manchas de folhagem verde, alteando e deprimindo a sua ossatura monstruosa na base, elevando-se bruscamente em saltos e galgões de terreno. Em baixo, ao fim da escarpa abrupta dos montes, a natureza rebentava numa torrencial explosão de arvoredos, de milharais, de pomares, de videiras de compridos braços, enroscando-se nos troncos de olmos e de cerejeiras, como as serpentes no coração do Lacoonte, subindo até às copas e vergando de cachos.

Uma frescura e uma abundância de écloga latina, que Vergilio cantaria, em estrofes immortais, corriam alacremente nos fundos vales que se almofadavam de ervaçais e sombras; e em tôda a extensão panorâmica, as serranias sucediam-se umas às outras constantemente, como um mar de enormes vagas terrosas que a tormenta açoutasse. As senhoras, assustadas com a grandeza do espectáculo, sentiam deslumbramentos e davam gritinhos de susto; os homens riam. E Júlia e Nuno, um pouco afastados dos grupos palradores, teciam as horas de sêda e ouro do seu amor que começava e que, não sendo já segrêdo para ninguêm, provocava risinhos maliciosos, ditos picantes ou de despeito.

Ao cair da tarde, quando regressavam ao hotel para jantar, nos olhos de Júlia havia uma extraordinária fascinação e, Nuno trazia uma alvorada na alma. Depois, à noite, no salão, organizavam danças, enquanto os homens de idade se reùniam às mesas dos jogos improvisados, para as suas fastidiosas partidas de bridge, e as damas, sentadas pelo salão, se emaranhavam em banais conversações sem fim:—e Júlia era sempre o par de Nuno, nas valsas...

Uma vez por outra, a colónia da estância balnear levava mais longe as suas digressões, ia até Guimarães, visitando as vélhas igrejas que resplandeciam das talhas douradas, até às Taipas, até Braga, seguindo em automóveis através de estradas cortando campos onde crescia o milheiral e os feijões se cobriam de flor, onde verdejavam os linhos tenros, onde um murmúrio de aragem passava nas messes já maduras, procurando as tiras de sombra veludosa e mole caindo das árvores que, duma banda e doutra, orlavam o macadame. Era uma festa para a vista e para o sentimento dos excursionistas tôda essa larga e incomparável paìsagem do Minho, túmida de seivas, de fôrça, de vigor e duma tam rara e prodigiosa vegetação. A cada instante se detinham à beira duma fonte que gorgolejava no jôrro cristalino das suas linfas, oferecendo fresquidão e consôlo pelos dias tórridos, perto duma levada de água de rega vinda de longe, rolando pedrinhas alvas, grossos saibros reluzentes, cantando misteriosamente nas espessuras discretas dos musgos ou das ervas e transmitindo uma gloriosa vitalidade às raízes. Incessantemente topavam, trotando no cascalho da calçada, as características diligências que rangiam aos solavancos, levando nas imperiais abades rubicundos com guarda-sóis de paninho vermelho entre as pernas e dentro tôda uma população em trajos domingueiros. No meio do estrépito das ferragens, o cocheiro praguejava, fazendo estalar o chicote sôbre o lombo dos cavalos cansados. Os melros assustavam-se pelas balsas floridas, voando para longe; erguiam-se nuvens sufocantes duma poeira cáustica e mordente. Às portas dos casais que davam para as estradas, sob ramadas onde as uvas amadurciam, iam acudindo, ao ruído dos automôveis que fugiam no fio da aragem, mulheres com grosseiras mãos escondidas debaixo dos aventais de riscado, crianças em camisa, com ventres enormes e a palidez de doença na cara suja. Cães ladravam, ameaçadoramente, por debaixo dos portões vermelhos das quintas: e a ranchada jovial dos excursionistas continuava a sua marcha, rindo, palrando distraídamente. Nuno lembrava-se de que—numa destas escapadas encantadoras, por um meio-dia de soalheira abrasadora em que foram ver o castelo de Guimarães, com a sua tôrre de menagem, os seus fossos cheios de ervas parasitárias, as suas seteiras, os seus travejamentos carcomidos—Júlia, ao passar por um quintal onde um alto damasqueiro, esgalhando ramagens para todos os lados, mostrava os seus frutos dourados e penugentos, teve de repente um desejo guloso de comer damascos; e logo êle, mandando parar o carro, bateu à porta da granja, pedindo que lhos vendessem. Imediatamente, uma voz de mulher veio de dentro, convidando-o a entrar, a escolher, a fartar-se, porque aquela fruta não se vendia:— dava-se.

—Não quero isso, não quero. Venda-ma...

—Oh! meu senhor, graças a Deus não precisamos. Olha agora levar dinheiro por uma miséria assim!...—teimou a aldeã, que era linda e ainda nova, acudindo ao limiar. Entre, entre...

E reparando em Júlia, que tinha ficado com o irmão no autómóvel, a mulher acrescentou:

—E a menina e outro senhor tambêm!... Com tôda a franqueza!

Por fim, entraram alegremente e merendaram, com delícia, sob o damasqueiro acolhedor, enquanto a aldeã, sorridente e com uns dentes brancos brilhando no seu esmalte entre uns lábios muito vermelhos, os incitava a comerem mais.

—E podem levar, se quiserem!—oferecia ela.

Chamava-se Maria da Luz, era casada havia seis anos com um lavrador abastado e já três criancinhas, de olhos muito espantados, belas como a mãe, se lhe agarravam às saias. Nuno, enlevado, deu uma moeda de prata a cada uma, para comprarem doces.

—Não! Isso é que não!—acudiu a aldeã, tôda còrada. Ficava-lhe por bom preço a fruta, meu senhor!

—Ora essa!—atalhou Nuno. Coitados dos pequeninos, que são tam simpáticos. Deixe, deixe...

As crianças estenderam a palma das mãos côr de rosa, apertaram, muito contentes, as moedas, enquanto a mãe lhes gritava:

—Então, como se diz?!... Como se diz?!... Êstes mafarricos que me consomem, não aprendem a bôa educação nem à mão de Deus Padre!...

Todos êstes inefáveis episódios duma época distante e bem feliz se tinham gravado fundamente no cérebro de Nuno; e diante de Júlia, que era sua espôsa, que era mãe do seu filho, sentia um prazer infinitamente doce em reavivá-los. O casamento fôra combinado ainda em Vizela, ao fim dum curto namôro, com grande desespêro de Frederico que tambêm estava nessas termas, que ia espairecendo os seus tédios entregando-se a um meigo flírt sempre novo em cada dia e que julgava severamente a imprevista evasão, do amigo, da vida despreocupada de solteiro...

Nas longas horas que agora passavam sós, dentro de casa, Nuno e Júlia gostosamente evocavam o seu passado, que era de dois anos —porque apenas começaram a viver uma existência séria desde que se conheceram e se ligaram por laços que nenhuma dor ou nenhuma fatalidade romperiam—e que lhes pareciam do dia anterior, tam rápidamente o tempo lhes fugia sem que êles o percebessem e sem que na sua emoção deixasse resíduos de amargura e de tristeza.

—Tu lembras-te?—perguntava êle, fechando o livro que tinha nas mãos, enquanto Júlia esquecia sôbre o regaço a agulha do bordado.

—Lembro!—afirmava ela com um sorriso que a espiritualizava e transmitia maior encanto à sua beleza. Lembro-me, como se tudo isso fôsse de ontem...

—Frederico não queria que eu casasse, dizia-me horrores da vida conjugal, procurava afastar-me de ti por todos os processos, teimava em que eu o acompanhasse numa viagem que tencionava fazer. Creio mesmo que chegou a ser teu inimigo, o pobre rapaz...

—Meu inimigo?... Que ideia! E porquê?

—É claro, não te tinha ódio, não te queria mal, mas não perdoava à mulher que lhe arrebatava o amigo de sempre, o camarada, o companheiro... Era só por isto!

Ah! êsse bom Frederico! Ambos pensavam um pouco nêle—Nuno com saùdade e com uma secreta pena daquela vida tam fecunda pela inteligência e pelo carácter, que se esterilizava, que era improdutiva, como um pragal áspero em que nunca, por acaso ao menos, caísse uma semente fértil; Júlia, com o encanto, com a afeição que lhe merecia o homem tam idêntico ao marido pelo coração, e de tanta grandeza de alma, de tanta finura de espírito...

—O que fará êle por êsse Pôrto, neste desabrido inverno?— interrogava ela.

—Aquilo que todos os rapazes, livres de responsabilidades caseiras, fazem, naturalmente. Êle não quis estar connosco, havia coisa que o chamasse, que o seduzisse... Mas, ouve! Não sei que singularidade descobri em Frederico nos últimos dias. Parecia-me mais desalentado, mais triste do que o costume, amava a solidão, quáse que me fugia... Apenas despertava da sua melancolia quando tocavas, no piano, essas páginas de Schubert que sempre admirou.

—Êle não tinha, para estar alegre, as mesmas razões que nós temos, bem sabes. É só, não ama, não é amado, anda á procura dum destino que ainda não encontrou...

—E que não encontrará jàmais. Aparentemente enérgico, é um fraco de vontade, sofre de preguiça de sentimento, tem os defeitos da raça a que pertence...

—Oh! Nuno! Que severidade!

—Não! Que amizade! Porque eu estimo profundamente Frederico. Não há alma tam leal como a dêle, dedicação mais capaz, de sacrifícios pelas pessoas a quem se devotar! Mas, minha filha, é incompleto como eu, como todos nós...

—Como tu?

—Como eu, não digo bem... Frederico foi mais infeliz...

As horas deslizavam apressadamente, nestas conversas em que ambos se entretinham e em que melhor se estudavam... Por vezes, discutiam juntos o mesmo romance, o mesmo poema, ou então Júlia ia para o piano e Nuno, de pé proximo dela, ia-lhe voltando as fôlhas do caderno de música. Nos momentos de repouso, enquanto a chuva caía, monótona e aborrecida, chamavam a ama, que acudia com a criança ao colo e um grosso grilhão de ouro ao pescoço. Júlia pegava no filho, com ternura e delicadeza, beijava-o num transporte, amimava-o, passava-o ao marido, que o embalava nos braços. O pequenino sorria, com a face cheia de covas, agitando as mãos, galrando, espalhando por tôda a casa uma grulhada infantil. Depois, Nuno beijava-o tambêm longamente, picando-lhe a carinha tenra das faces com a barba crespa, o que o fazia chorar.

—Dá-o cá! Coitadinho!... Tem mêdo dos teus bigodes de turco— dizia Júlia, sorrindo.

—Não! É que é já mais teu amigo do que meu, o ingrato...

À noite, em seguida ao jantar, quando a treva temerosamente afogava todos os aspectos na mesma confusa massa negra e o sossêgo envolvia a vivenda com as vidraças douradas pela luz, o criado, o Manuel, soltava os cães de fila durante o dia amarrados a fortes cadeados de ferro; as portas do rés-do-chão fechavam-se com estrondo; a Francisca, uma vélha cozinheira, arrumava a cozinha, que ficava em baixo, que era revestida de azulejos e que se iluminava com a fulguração dos metais e dos esmaltes faíscando, relampejando sob o clarão da fogueira. Os molossos, de afiados colmilhos saíndo-lhes da bôca babujada como pontas de punhais, latiam, uivavam no jardim e no parque, à ventania que sacudia vertiginosamente as árvores; outros latidos ouviam-se ao longe, vindos das granjas e das herdades; o pequenino adormecia ao peito farto da ama, ainda com o bico rosado do seio que o amamentava na bôca sem dentes, e era levado com mimos e cautelas para o berço, aquecido antecipadamente com botijas de água a ferver: e Nuno e Júlia continuavam ainda os seus serões, conversando, lembrando-se piedosamente dos pobres que não teriam roupa nos leitos, por aquele frio, enregelado, hostil inverno, e experimentando uma ternura doce e secreta no isolamento rural em que se confinavam com a sua felicidade—almas satisfeitas e contentes que nada mais queriam da vida...

Uma vez por outra, o céu desanuviava-se, as manhãs raiavam límpidas como uma imensa e pura flor azul que desabrochasse iluminada por um sol muito louro que dourava os outeiros, os cimos dos montes, tocava as altas ramarias dos arvoredos dum fulgor vivo que parecia arder, scintilar no esplendor da atmosfera. Então, a alegria ressuscitava na paìsagem soturna como uma ave que, pela primavera, é de repente surpreendida pela alvorada gloriosa entre os ramos floridos e começa a cantar sob o mistério celeste de que vitoriosamente desce a luz. Envolvidas pelo banho fulvo da claridade, as próprias coisas inertes pareciam impregnar-se de alma, davam a ilusão de serem dotadas de movimento. Errava no ar uma beleza esparsa; as perspectivas, na nitidez do ambiente, prolongavam-se indefinidamente, cheias de poesia e de vago. A vivenda, elevando-se no meio do jardim, com as suas grossas paredes, as suas varandas, os seus telhados de largo beiral onde as pombas arrulhavam em certos instantes, as suas escadas de pedra com grades de ferro pintadas de verde, em que as roseiras de trepar se enroscavam, animava-se tambêm com o júbilo triunfal daquela festa da natureza. Mais satisfeitos e expansivos, os criados palravam na cozinha, à volta da mesa do almôço.

Uma temperatura morna que fazia inchar os gomos das árvores e das madre-silvas dos valados—que em maio se cobriam de florações e ofereciam embalo e perfume aos ninhos inocentes— convidava aos lentos, agradáveis passeios. Nuno, sentindo o coração desopresso e ligeiro, corria a levar a Júlia a bôa nova, em palavras comovidas e risonhas, interrompendo-a no seu trabalho.

—Que linda manhã, meu amor!—exclamava êle. Vem daí! Faremos uma pequena digressão pela quinta... Até nos abrirá o apetite e nos renovará a saúde. Ao mesmo tempo, desentorpeceremos as pernas emperradas por tôda uma semana de cativeiro.

—Pois vamos!—concordava ela com júbilos e ingenuìdades quáse infantis. Gosto tanto de passear matinalmente!

Animada e sorridente, Júlia vestia a tôda a pressa um casaco de agasalho, calçava as galochas sôbre os pequeninos sapatos de verniz, punha na cabeça um gorro de lã branca, feito por ela nos seus serões, e saíam ambos, de braço dado, aspirando o cheiro acre da terra molhada, internando-so pelas sombrias e ermas alamedas do parque onde as mimosas começavam a florir na pompa dos cachos de ouro pálido, tremendo brandamente à aragem e a que o sol imprimia mais brilho e côr, desciam, por caminhos empedrados, às terras de cultivo já verdejantes de pastos para o gado, dos trêvos, torneavam as extensas vinhas que enchiam tonéis, em setembro, dum vinho aromático e leve, passavam pelos vergeis bem tratados onde, em abril, as pereiras, os pessegueiros e as macieiras vergavam de florescências multicôres que lembravam irisados enxames de borboletas levantando vôo, e paravam, enfim, diante da habitação destinada ao caseiro e que era o orgulho de Nuno.

—Vês tu o que se fez, hein? E a planta foi minha. Para alguma coisa havia de servir-me o curso de engenheiro. O vélho Mateus está aqui óptimamente instalado com a sua gente—dizia êle. Não parece?

Júlia aprovava, com um gesto afável da cabeça, enquanto Nuno minuciosamente lhe ia fornecendo mais indicações:

—Aqui—explicava êle—é a casa de moradia; alêm, ficam os estábulos para os bois, os currais para os porcos, os alpendres para a guarda dos apetrechos de lavoura... Dêste lado, mandei construir as adegas, a eira, o espigueiro e os celeiros. Que me dizes a tudo isto? Olha que foi obra minha!

Na graça luzente da manhã, as paredes caiadas de branco alvejavam sob o tom vermelho dos telhados. Ao fundo, para lá dos terrenos agricultados, rumorejavam pinheirais e cresciam os matos aromáticos que o rosmaninho, no estio, pintalgava de manchas rôxas. Júlia, enlevada, contemplava o marido com ternura, afagava-o com o olhar.

—E agora—continuava Nuno, depois de terem avançado mais alguns passos—aqui está o grande tanque que me deu que entender e em que tanto te falei, durante todo o verão findo, não sei se te recordas.

—Recordo!—afirmava ela.

—Servirá de reservatório das águas de rega que fui buscar longe, por meio dum cano, à encosta daquele monte de pinheiros. Oh! é uma água maravilhosa, muito pura, filtrada por camadas sobrepostas de rocha, e saibro grosso. Quando, nos dias quentes, a colhia para beber, o copo ficava logo nevado. É saborosa e frigidíssima. Porque não mandas a Francisca buscá-la à bôca da mina para o nosso chá? Ando há tanto tempo para dizer-te isto e esquecia-me sempre!...

—Está bem, mandarei—prometia Júlia.

—Pois, essa água corre para êste tanque. Quando se quiser regar, é só soltar a levada e ei-la por êsses campos, fluindo, fecundando, dando alento às plantações e às sementeiras!

—O que tu sabes já das lidas agrícolas, Nuno!—exclamava ela com admiração.

—Minha filha, tem-se estudado um pouco o pelo processo prático, que é ainda o melhor—respondia êle, jovialmente. O meu verão, êste ano, foi útil!

O caseiro, o tio Mateus, se os pressentia, vinha logo para êles, de chapéu na mão, com o seu rosto enrugado que o bom riso sadio, vindo da alma, espiritualizava de bondade, cumprimentando-os respeitosamente. Nuno correspondia ao cumprimento, murmurando:

—Olá! É você, Mateus? Então, como vão os trabalhos, homem?

—Crédo, meu senhor! Com êste inverno de desgraça e de castigo, nada se pode fazer. Tudo parado. As terras estão encharcadas, são lama...

—Não que tambêm nós nunca nos contentamos com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam, pede-se, implora-se chuva com preces, orações, lágrimas. Afinal, chega —Não que tambêm nós nunca nos contentamos com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam, pede-se, implora-se chuva com preces, orações, lágrimas. Afinal, chega a chuva, e a humanidade sempre insatisfeita de novo deseja sol. Deus deve ver-se e desejar-se com pedidos tam contraditórios, não é verdade, tio Mateus?—perguntava Nuno alegremente.

—Deus é sábio, é justo, sabe o que faz, meu senhor—replicava o caseiro, rindo. Mas tudo se quere em conta. Nem muito ao mar nem muito à terra. Assim é que é...

—E a doente está melhorzinha?—inquiria Júlia.

—Melhor, coitadinha?... Vai vivendo!... As melhoras dela só na cova. E tanto tem sofrido!...

—Não fale dêsse modo, tenha esperança...

—Pois esperança tenho eu. Esperança e paciência, que ela tudo merece—concluía êle, com voz enternecida e trémula.

Comovida, Júlia fitava-o; e êle, para desviar o rumo da conversa, que o fazia sofrer, acudia:

—Então, hoje a passear?

-Com êste bom sol, não podíamos ficar fechados—dizia Nuno.

—Está de rosas, meu senhor, de rosas!...

Demoravam-se ainda a tagarelar por alguns instantes e depois; vagarosamente, regressavam a casa, na imensa paz que envolvia a natureza e que baixava sôbre árvores, lameiros, casais e selvas, como uma bênção. Voltavam joviais, traziam a alma dilatada de encanto. Como o inverno era lindo na aldeia! Na cidade, os grandes espectáculos naturais passavam-lhes despercebidos na agitação das atormentadas aglomerações humanas, nas atmosferas toldadas de fumo.

—Aquele Frederico, aquele doido!—bradava Nuno. Podia ter ficado aqui connosco, a fazer um severo exame de consciência, a rejuvenescer. Era uma companhia e purificava o sentimento que agora talvez traga pelos boeiros citadinos!...

—Jesus, Nuno! Que expressões tam duras!—repreendia Júlia.

—Sim! Pelos boeiros, pelas sargêtas. É assim mesmo. Hei de dizer-lho com esta ferocidade, numa carta terrível... Enquanto que aqui era a luz, era a pureza...

Lavavam-se, almoçavam com saborosas lentidões, conservavam-se à mesa por muito tempo, conversando. E à tarde, ainda tornavam a sair, atravessando pousios, congostas entre sebes, visitando a aldeia próxima, com um interêsse, uma curiosidade que nunca findava...

 

Um dia, logo ao romper da manhã, a ama foi tôda aflita bater à porta do quarto, chamando Júlia.

—Que quere?—perguntou, ela, de dentro.

—Era para contar à senhora uma coisa a respeito do menino, que não está bom.

—Que diz você, mulher?...—gritou Júlia, com voz angustiada. Tu ouves isto, Nuno?...

Saltou da cama, vestiu um roupão, calçou as chinelinhas de setim côr de rosa, bordadas a branco e ouro, que estavam sôbre o tapête, e correu logo, assustada, inquieta, enquanto o marido, alarmado, se levantava tambêm, vestindo-se atarantadamente.

—Que tem o menino?—perguntou Júlia, abrindo a porta da alcôva. Onde está êle, onde o deixou você?

—Deitado no berço... Está um pouco desassossegado...

Júlia dirigiu-se ao quarto da ama, que ficava ao lado do seu, entrou desvairadamente, fóra de si, sacudindo, com irritação nervosa, as madeixas do cabelo solto que lhe caíam sôbre a testa, ajoelhou junto do berço da criança que ergueu carinhosamente nos braços. Encostou-lhe a cabecinha inocente e desfalecida à sua face, amimou-a, passando-lhe levemente as pontas dos dedos pela carne tenra do rosto, murmurando com indizível ternura:

— Está doentinho, o meu amor?... Está?!...

Afastava-o de si, amparando-o com as mãos amorosas, para melhor, mais demoradamente o observar, espreitando, comovida, os seus olhos amortecidos com um círculo arroxeado à volta, e achava-o, na verdade, mais pálido, mais abatido.

—Oh! minha Mãe Santíssima! Mas isto que será? Como notou você a doença do meu filho, ama?

—É que, durante a noite, tossiu algumas vezes, minha senhora.

—Tossiu?—perguntou Júlia, aflita. E a tosse era rouca?

—Pois era!...

—E porque nâo foi logo avisar-me?

—Pensei que não seria nada!...

Nuno, que tinha acudido tambêm, curvou-se sôbre o ombro de Júlia, envolveu o filho num olhar de inquietação e de meiguice, inquirindo:

—Afinal, o que tem? Parece-me tam tranqúilo!...

—De-pressa, Nuno! Manda já um criado a Guimarães, a procurar um automóvel fechado. Que vá a cavalo... E que se não descuide. Temos de partir imediatamente para o Pôrto.

—Um automóvel?... Partir imediatamente para o Pôrto?— interrogava Nuno, maquinalmente, Mas espera!... Dize...

-Depois te digo... O criado que vá sem pêrda de tempo... O nosso filho tem uma tosse rouca. Sabes o que é?... Não sabes? É a difteria, é talvez a morte...

Nuno, empalidecendo, abalou, enfiado, pelo corredor, desceu a quatro e quatro os degraus da escada, gritou:

—Manuel! Manuel!... Onde estás tu?

—Aqui, patrão!—respondeu o servo, saindo dum canto e trazendo nas mãos um pedaço de camurça com que estava limpando e polindo metais.

—Pousa o que estás a fazer, monta na égua e vai a Guimarães, onde procurarás um automóvel fechado, por todo o preço. Que venha a tôda a velocidade. É um caso urgente.

—Sim, meu senhor.

—Mas vai! Deixa-te de cumprimentos, de mesuras, que diabo! Se te estou a dizer que é urgente!...

O criado desapareceu de pronto, e Nuno, desorientado, ficou na cozinha, passeando agitadamente, a largos passos, sôbre os mosaicos. Justos céus! A difteria! O seu filho tinha a difteria. Êle havia de assistir, impotente, longe de todo o socorro da sciência, ao lento agonizar dum corpinho sem culpa em cujas veias corria o seu sangue, em cuja alma inocente se fundia tambêm a sua alma! Havia de vê-lo asfixiar, com o rosto congestionado, os olhos saltando fóra das órbitas, sacudido por convulsões horríveis e sem poder acudir-lhe! Era terrível, terrível! Do seu coração de pai subia urna grande, avassaladora cólera, contra tudo e contra todos. Que mal faria aquele pobre sêr de castidade e de luz que nem sequer conhecia a vida e que tam cedo começava a sofrer dos seus males inevitáveis para que fôsse submetido a uma tal tortura?... Esquecia-se de Júlia que em cima soluçava, andava dum lado para o outro, mudo, sombrio, puxando as barbas, arrepelando-se.

—Que foi, meu senhor? Que desgraça aconteceu?—perguntou a cozinheira, que o contemplava, assustada, encostando-se ao fogão ainda apagado.

—Um horror, Francisca. Um verdadeiro horror. O menino está muito doente.

—Santo Deus!—exclamou ela.

—E temos de ir já para o Pôrto, a senhora, o doente, a ama, eu e tu. O Manuel e as outras criadas ficam ainda a pôr tudo em ordem, e seguirão mais tarde. Arranja as coisas, despacha-te.

Subiu, novamente, a escada como um autómato, governado mais pelo instinto do que pela inteligência. O padecimento alheio sempre o tinha perturbado; mas agora o de seu filho era-lhe atroz... Sentada numa cadeira de braços, com a criança aconchegada ao peito, Júlia chorava silenciosamente. As lágrimas caíam-lhe fio a fio dos olhos. Perto dela, a ama repetia sem descanso:

—Uma destas, uma destas!...

Nuno parou diante da espôsa, revolvendo com as mãos chaves que tinha no bôlso, entalado, sem poder articular as palavras, sem saber como havia de consolar aquela dor inconsolável.

—Que desventura a nossa, que desventura!...—gaguejava Júlia.

—Mas tranqùiliza-te, por Deus! Pode ser que a doença não valha nada, que te enganes—acudiu êle, por fim.

—Tenho um pressentimento funesto! E olha que as mães nunca se enganam.

E voltando-se para a ama:

—Pegue no menino, mas com cuidado... Vou-me arranjar. E veste-te tambêm, Nuno, para estares pronto.

-Sim, menina!...

Uma hora depois, um automóvel parava, em baixo, junto do portão do jardim. Nuno chamou as criadas, deu-lhes ordens para elas transmitirem a Manuel, mandou que, depois de tudo arrumado, seguissem para a casa do Pôrto e entrou no carro com Júlia—que conduzia o filho ao colo, muito embrulhado, agasalhado em lãs quentes—com a ama e com a cozinheira, dizendo ao chauffeur que, até Guimarães, largasse com a maior velocidade.

Estava uma cinzenta e fria manhã ameaçando chuva. Pelos altos montes, por vales tristes e planícies monótonas, a paìsagem azulava-se no ar baço. Um vento glacial sacudia os ramos das árvores. Nuno e Júlia nem sequer olhavam para fóra, através das portas de vidro do automóvel, concentrados como iam no seu sofrimento.

Em Guimarães, procuraram alvoroçadamente um médico, que logo os tranqùilizou, com um sorriso, acabando de observar o pequenino enfêrmo. Não era caso para sustos—afirmou.

—Oh! doutor! Quanta alegria nos dá!...—interrompeu Nuno, avançando para êle e apertando—lhe efusivamente a mão.

—Mas não é a difteria?—perguntou Júlia, ainda duvidosa. Êle tem tosse rouca!

Não! Não era a difteria—asseverou o clínico, já vélho e ageitando os óculos de aro de ouro sôbre o nariz. Uma simples bronquite sem complicações que a tornassem de mau carácter. Curava-se com resguardo, num compartimento em que não houvesse oscilações de temperatura, e com a aplicação de revulsivos externos.

—Vês, Júlia?—disse Nuno. Não é nada de cuidado. Eu bem o dizia.

—O alarme desculpa-se nas mães... É tam natural!—exclamou o médico.

—E até podíamos voltar para trás, continuarmos a nossa estada na aldeia.

—Não!—replicou Júlia com firmeza. Para trás, não voltaremos. Já que estamos aqui, seguiremos para o Pôrto. Não ficaria sossegada.

-Pois, como quiseres...

O médico receitou, deu instruções; Nuno pagou a consulta generosamente. Despediram-se e reentraram, mais calmos, no automóvel, continuando a viagem—através de estradas, de campos melancólicos, de bosques que rugiam à ventania—para o Pôrto, onde chegaram de tarde e já com uma chuva desabrida fustigando as casarias, alagando, encharcando as ruas negras duma lama viscosa, quáse líquida. Moravam em Costa Cabral, numa vélha casa apalaçada de dois andares feita no gôsto arquitectural das antigas vivendas portuguesas, e que todo o verão estivera fechada. Foi um reboliço na habitação deserta e cheia de treva. O automóvel largara velozmente, e, enquanto Júlia, com o filho nos braços, procurava, no átrio imerso em escuridão, uma cadeira para sentar-se, Nuno, a ama e a cozinheira, abriam portas e janelas com alarido, para que a luz diurna entrasse e desse vida e alegria ao casarão ermo.

Outros médicos vieram e receitaram, nesse mesmo dia, serenando temores sem motivo. A pouco e pouco renasceu a confiança na alma de Júlia e de Nuno que, todo ocupado com a sua reinstalação inesperada no palacete da cidade, não saía, lidando activamente, dando ordens, substituindo na vivenda a espôsa que não deixava, ainda atribulada, o leito da criança. E agora, outra vez no Pôrto, outra vez na sua morada citadina, sentia-se bem, entre mobiliários que conhecia e que considerava como amigos vélhos, entre paredes a que se afeiçoara, no meio dum ambiente de quietação em que vivera desde a infância, em que morara, a que tantas recordações inolvidáveis andavam presas. Novamente a felicidade entrava na sua alma, na alma de Júlia, que assistia amorosa e risonha à convalescença do filho. A nuvem agoureira passara, dissipara-se inteiramente. Já se encontravam outra vez reconciliados com a vida que, por momentos, os amargurara.