A Morte Vence

João José Grave · Capítulo 8 de 12

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A Morte Vence

Capítulo VII

Júlia insinuara-se—sem querer, porque era honesta—na sua admiração, no seu desejo, na sua carne, em todo o seu ser de homem: e, sendo tam pura e tam santificada de bondade, envenenara-o para sempre, fizera dêle alguma coisa de vil e de abjecto que entrava num santuário familiar não para purificar-se ao contacto das grandes virtudes, mas para trair. Porque já traía Nuno, não por actos irreparáveis, mas pelo sentimento!...

Sôb a influência mórbida dêste raciocínio, exasperou-se. Sufocava. Os olhos dardejavam-lhe um brilho especial. Sentia a necessidade de aturdir-se, de bestializar-se, de apagar tôda a claridade da consciência. Outra vez evocou Branca. Iria para ela, embora se afundasse; havia de procurar nos ásperos delírios da sensualidade ou nas alucinações do alcool o sossêgo indispensável que lhe fugira, com o desespêro com que Alfredo de Musset procurava nos copos de absinto o reflexo verde dos olhos da Quimera! O que êle pretendia era esquecer Júlia, por todo o preço—mesmo à custa da sua dignidade...

Como as noites fôssem já frias, vestiu um sobretudo, pôs o chapéu, pegou nas luvas e na bengala e saíu, mergulhando no movimento exterior, que o acalmava. Ao chegar à porta da rua, viu, na casa fronteira, as vizinhas que, por detrás dos vidros da janela, o espiavam. Irritado, não as cumprimentou, seguindo em passos nervosos pela calçada. Tinha feito uma promessa a Branca. Ia cumpri-la, com o coração tranzido e com a certeza de que se dirigia para o mal e para uma nova dor...

 

VII

 

Certa manhã, ao entrar em casa depois de tôda uma noite passada com Branca—já instalada numa luxuosa e recolhida vivenda que Frederico para ela escolhera numa rua solitária da Foz e onde reùnira tudo quanto pudesse oferecer bem estar ao seu egoísmo e encanto aos seus olhos saudosos de beleza artística—encontrou uma longa carta de Nuno que o correio trouxera e que Bernardo solicitamente pousara sôbre a larga mesa do seu gabinete de trabalho, num sítio bem visível. Durante muito tempo conservou-a, hesitante, nas mãos, sem ter a coragem de rasgar o envelope. Mirava-a, remirava-a, voltava-a entre os dedos nervosos, estudava a letra miúda e firme do amigo, como se quisesse perscrutar nas particularidades exteriores o oculto sentido do que ela dizia, das revelações gratas ou dolorosas que iria fazer à sua inquietação de espírito cada vez mais violenta e que os delírios da sensualidade carnal não apaziguavam, ao seu sofrimento moral de dia para dia mais veemente, roendo-o com a lentidão com que um acido corrosivo rói certos metais. Era a primeira vez que Nuno lhe escrevia, desde que Frederico deixara a quinta rural, afastando-se duma atmosfera mórbida que fazia mal aos seus nervos, que lhe desgastava a energia, que lhe amolecia a vontade, fugindo à permanente adoração de Júlia—uma adoração criminosa que inutilmente se esforçava por abafar dentro do coração e que subtilmente crescia sempre, invadindo-o todo, cegando-o, alucinando-o, vivaz como uma planta daninha que se quere destruir e que constantemente surge, com teimosia, à superficie da terra. Que iria Nuno dizer-lhe? Inconscientemente, na ignorância do seu amor impuro, o amigo trabalhava contra si próprio, avivando coisas que Frederico pretendia, em vão, esquecer para que mais de-pressa curasse os seus nervos doentes, a sua alma enfêrma!...

Passeando agitadamente, com a carta apertada na mão trémula, Frederico notava que, por uma singularidade inexplicável, tôda a gente, mesmo as pessoas que mais estimava, conspiravam, contra a sua paz, contra a sua ventura. Nuno, por exemplo, havia de falar-lhe da sua felicidade conjugal, da ternura de Júlia, da sua perfeição como mulher e como espôsa, o que o atormentaria, agravaria excepcionalmente o padecimento que trazia consigo. Os beijos de Branca, a graça, a formosura esplêndida do seu corpo nú vibrando dos desejos voluptuosos que êle acendia, só lhe avivavam na imaginação ardente o fogo da paixão alucinante pela outra, por Júlia —uma complexa paixão em que havia conjuntamente delicadezas, mimos, aspirações, purezas quáse místicas e as impulsividades grosseiras duma luxúria que maculava as emotividades mais castas. Vivia, por isso mesmo, numa perpétua ansiedade, sobressaltado de temores contínuos diante dos insignificantes factos que pudessem recordar-lhe a mulher que a todo o transe deveria olvidar para seu sossêgo, por imposições da sua dignidade ainda não totalmente amolecida. Estava reduzido à necessidade de procurar a calmaria interior, aturdindo-se nas orgias sensuais com Branca, nas noitadas com os conhecidos pelos teatros e pelas mesas dos restaurantes, em que bebia até perder a lucidez da consciência, ou a fugir ao seu semelhante, acolhendo-se ao isolamento da sua fria casa de solteirão, onde não encontrava nada daquilo que o sentimento imperiosamente lhe reclamava e onde, frente a frente, o encarava o seu pior inimigo, que era êle próprio. Estas rudes emoções, de que lhe era impossível emancipar-se, iam-lhe aviltando o carácter, extenuavam-no físicamente. A fôrça, a resistência, a saúde, escapavam-se-lhe do corpo como a tranqùilidade se lhe havia escapado da alma. Durante horas seguidas, nada mais sentia do que o pêso esmagador do infortúnio que teimava em acabrunhá-lo; e, se tentava reagir era para se crivar de sarcasmos, de ironias cruéis e fulgurantes, súbitamente avassalado pelo prazer secreto de destruir-se, de se afundar mais nas torpezas que dilaceram e matam, de acabar, com um golpe feroz e rápido, aquela contínua tortura de todas as horas, fermentando nas impurezas emocionais, de que era feito o seu abjecto sêr de homem. Em Frederico, exauriam-se as fontes psíquicas de que brotam as seivas criadoras que engrandecem e nobilitam as criaturas. O seu aniquilamento tinha começado: mas, por cobardia moral ou por orgulho, evitava tudo quanto pudesse sobressaltá-lo neste vagaroso trabalho de desagregação, e lhe perturbasse a alegria feroz com que assistia à sua devastação desordenada...

Ao cabo de demoradas cogitações, aproximou-se duma janela e olhou para fóra. A manhã corria serenamente, iluminada por um fulvo sol de inverno que caía do alto sôbre a cidade como o pólen duma imensa flor de ouro. Na rua, curvada sôbre a carga do seu gigo cheio de hortaliças frescas, passava uma mulher lançando nos ares um pregão vibrante, com a saia rôta embrulhando-se-lhe nas pernas. Bernardo entrou de repente, perguntando a Frederico se tinha visto a carta que o homem do correio trouxera.

—Vi. Tenho-a aqui. Vou lê-la—respondeu.

E, quando o criado saíu, fechando a porta, Frederico, vencendo, por uma decisão súbita, tôdas as irresoluções que o alanceavam, rasgou com desespêro o envelope, desdobrou a larga fôlha de papel ennegrecida de tinta e encetou a leitura. Logo às primeiras palavras se lhe desenrugou a face que envelhecia e se abaixou a curva das suas sobrancelhas contraídas. Nuno narrava-lhe a labuta constante a que se entregava na quinta, sob as soalheiras de verão, que lhe tisnavam a pele, sob as chuvadas de outono, que lhe enrigeciam a fibra, comunicando-lhe mais elasticidade. As obras da vasta propriedade, alugada ao caseiro, estavam quáse terminadas. Instalara o vélho Mateus e a família num «palácio», só para que perto dêle não houvesse o espectáculo dissolvente da miséria humana; rompêra mais minas que, de muito longe, da encosta dos montes próximos, traziam em levadas uma água muito clara e cantante que, pelos estios calcinadores, regariam as terras, levando o alento e o vigor às culturas benéficas: transformara tudo. Entusiasmado, confiava-lhe os seus projectos futuros. Andava com ideia de se fazer lavrador, de abandonar para sempre a cidade, que só visitaria de fugida, para tomar um banho de civilização, regressando logo à simplicidade do campo, à placidez rústica. Se esta vontade vitalizadora, que o galvanizava, não viesse a esfriar, teria, mais tarde, em estábulos bem cuidados, manadas de vacas que lhe dariam o bom leite, o queijo, a manteiga. Exploraria a indústria, tam atrasada entre nós, dos lacticínios, concorrendo para a riqueza do país com uma parte da sua fértil actividade...

Frederico interrompeu a leitura da carta, para murmurar humorísticamente, como se conversasse com o amigo:

—E nas horas vagas, como Vergílio, podes fazer versos, escrever as Geórgicas ou as Bucólicas!...

Sorrindo com a sua observação, reencetou a longa epístola de Nuno que ia desenrolando outras empresas que lhe pareciam fabulosas, esquecido completamente de que Júlia lêra aquelas linhas que lhe eram dirigidas, que os seus olhos pensativos haviam pousado em cada palavra, que ela fôra mesmo composta a seu lado, num daqueles demorados e pacíficos serões que constituiam um dos maiores encantos da vida familiar do amigo. Nuno falava agora, sempre com o mesmo júbilo, em granjas, espigueiros, eirados, tulhas e celeiros para os cereais que colheria, adegas para o vinho, apetrechos de lavoura.

«Quero—dizia êle—trabalhar para aumentar assim a fortuna do meu filho—que está um figurão, um grande senhor de olhos espantados e cara rabujenta, que se ri de tudo com uma alegria a que as misérias da existência ainda não comunicaram o seu veneno e a sua dôr—de outros filhos que venham, porque me não satisfaço com ter únicamente por descendente e representante um sêr pequenino e frágil que a menor doença pode arrebatar ao meu afecto. Júlia é da minha opinião...»

Esta última frase transtornou Frederico como um insulto à pureza do seu amor, como uma maldição que tornasse estéril o seu sentimento. Parecia-lhe que Nuno o ofendia e o escarnecia, confiando-lhe a esperança que alimentava de Júlia lhe dar mais filhos—filhos que seriam seus, gerados no calor genesíaco dum beijo profundo em que duas bôcas, que se queriam, se transformavam numa só bôca, em que dois corpos, latejantes e convulsionados pela febre da fecundidade, se fundiam num só corpo! Uma cólera absurda subiu do seu coração por essa mulher que se lhe apoderara da alma e que ao marido entregava tudo e ao amante ignorado nada oferecia que o tranqùilizasse. Para Nuno, para a sua satisfação, para a sua vaidade, para a sua felicidade completa, a vida jorraria ininterruptamente do flanco de Júlia, o seu ventre geraria os sêres quáse divinos pela graça e pela inocência— sêres admiráveis em que ambos, através do tempo, se prolongassem, se perpetuassem. Para êle, que tanto a amava, e que, por isso tanto sofria, não havia mais do que uma amizade certamente sincera, mas que não bastava à sua ansiedade dolorida e que repelia com amargura! Irritado por êstes raciocínios, Frederico nada mais via em Júlia do que o facto brutal que derivava da sua ligação legítima, com Nuno—facto que manchava a purificação do amor impossível que lhe consagrava, sem que ela sequer o soubesse. Considerava que o seu drama passional se transmudava em comédia. Sentia-se ridículo e exagerava o que na sua situação havia de grotesco, para conseguir desdenhá-la, já que a não podia olvidar. Estava, certamente, fóra da equidade, da razão, da justiça, mas achava que a sua revolta era natural... Por fim, reagindo sôbre si próprio, reentrou na realidade das coisas, monologando, revoltado:

—Já não haverá então limites para a minha miséria?

Com que direito, efectivamente, se insurgia êle contra a ternura de Nuno pela espôsa? E com que direito tambêm a reclamava para si, como se ela lhe pertencesse, sem se lembrar do que devia à sua dignidade, á sua afeição fraternal, ao respeito por um lar sagrado onde entrara como um amigo e donde saíra enxovalhado, ennodoado por um sentimento criminoso que fôra impotente para sufocar, à nascença, no coração? Estaria por tal forma perdido para a vida moral sadia, honesta, elevada, que não compreendesse a vileza suprema da acção que praticava? Mas a sua libertinagem—a libertinagem em que esperava consumir-se, matar a sensibilidade, endurecer, embrutecer—era recente...

Arrependido, pedindo íntimamente perdão a Nuno da sua loucura, pegou novamente na carta que tinha pousado sôbre o peitoril da janela, continuando a lê-la. O amigo anunciava-lhe que o inverno havia chegado, com as suas intermináveis noites de treva, os seus cinzentos dias de vento e de chuva. As árvores do parque já não tinham fôlhas, a paìsagem dos arredores da quinta parecia morta ou embebida num sonho inerte em que as vidas futuras germinavam, preparando-se para ascender à luz. Nuno e Júlia levavam agora uma existência mais recolhida e monótona, porque não podiam sair de casa. A água, descendo em torrentes das serras, alagava a

planície, transformava caminhos, córregos, azinhagas, barrocais, em rios lamacentos, tornava intransitáveis aquelas estreitas veredas, entre densos silvados, que pelas primaveras românticas floriam e se perfumavam com o aroma das madre-silvas e das roseiras bravas e onde, nas manhãs de verão, amadureciam as negras amoras silvestres...

«Mas—concluia Nuno—eu tenho os meus livros, que leio e releio para colhêr alguma humilde parcela da verdade e da beleza que através dos séculos os cérebros e as sensibilidades mais finas nunca deixaram de perscrutar; Júlia tem o seu piano, o seu Beethoven, o seu Liszt, o seu Schubert, o seu Debussy; e ambos temos ainda, para prender a esta casa solitária um encanto sempre novo, o nosso amor e o nosso filho. E estamos com uma infinita curiosidade de passar aqui todo o inverno, assistindo à ressurreição primaveril, à aleluia das fôlhas e das florações... E tu? Se te aborreceres por aí, com os teus teatros, os teus romances de coração, mais efémeros do que as rosas de Malherbe, os teus conhecimentos, os teus tédios, faz as malas e vem. Serás recebido com a afabilidade e a alegria que, no vasto mundo, apenas nesta cabana amiga encontrarás...»

As últimas linhas da carta enterneceram-no. Bom, admirável Nuno! Como a sua afectuosidade perene se recordava dêle e de tam longe o chamava!...

Havia ainda um post-scriptum. Frederico, alvoroçado, leu:

—«Júlia, que está aqui ao meu lado, depois de ter adormecido ao colo o nosso morgado, recomenda-se, manda-te muitas saùdades e pede-te que te lembres de nós. Anda a estudar, com interêsse, uma sonata de Beethoven, que será para ti e que, na tua volta à quinta, hás de ouvir...»

Por um momento, estas palavras tam naturais e tam simples, conturbaram-no, excitaram-lhe a imaginação. Júlia pedia-lhe para se lembrar dela, estudava pra êle uma das mais belas sonatas de

Beethoven, talvez inspirada ao maior poeta de música por uma profunda, transfiguradora paixão, tinha consigo delicadezas do que

apenas são capazes as almas que amam em silêncio. Quem sabe se essa doce mulher fôra tocada pelo fluido invisível do amor que o abrasava, se tambêm o amaria em segrêdo, escondendo êsse sentimento, ao mesmo tempo pecaminoso e divino, bem no fundo do coração, para que nem Nuno nem mesmo êle sequer o pressentissem? Quem poderia adivinhar, decifrar o drama oculto naquela alma tam requintadamente feminina?... Depois dalguns minutos de reflexão, porêm, o seu desvairado scismar pareceu-lhe vão e sem sombras de realidade. Com efeito, se Júlia lhe consagrasse um afecto que, por sua essência, tivesse de esconder cautelosamente, não pediria a Nuno para acrescentar à carta que acabava de receber um post-scriptum em que se denunciaria. O amor obrigado a esconder-se é sempre assustado, supersticioso, teme mesmo os actos mais inocentes com mêdo de revelar-se a olhos perspicazes. Não! Que ideia a sua! Júlia era, para êle, apenas uma bôa, sincera amiga, e nada mais do que isso. E esta virtude nobilitava-a para Frederico!...

Sôbre a sua alma passou, nesse momento, uma nuvem da tristeza que, por um instante, o deixara para de novo voltar a deprimi-lo; no seu espírito manifestaram-se alternativamente as crises contraditórias, a desilusão que o pungia pela secura e as aspirações indefinidas que sossegavam a intervalos o seu mal estranho. Amarrotou nervosamente nas mãos a carta de Nuno, atirando-a para cima da mesa, e, concentrado e sombrio, recomeçou o seu passeio. Voltar à quinta, ser uma testemunha da felicidade de Júlia e do marido, tam estreitamente unidos por um amor que incessantemente refloria, que ao fim de dois anos mantinha a mesma febre, a mesma ansiedade, o mesmo calor, a mesma infinita, inextinguível adoração? Não tinha coragem para isso, porque não podia conservar-se impassível, ao menos, diante do espectáculo duma ventura que ardentemente desejava para si e de que, conjuntamente, fugia como fugiria dum pavoroso crime. O amor de Júlia e de Nuno era sagrado pela sua pureza; no entanto, tomava-o, no seu egoísmo, como um insulto, como um sarcasmo de fogo que o queimava, como um escárnio ao seu infortúnio. Não! Nunca mais! Não queria presenciar a florescência maravilhosa e suave duma ternura que tam ardentemente apetecia para si e que um outro, legitímamente, fruía. A sua pessoa não era necessária em casa do amigo para que êle fôsse feliz: e Frederico, êsse carecia de estar longe de ambos para ser menos desgraçado... O que existia de paradoxal no seu caso singular! Sabia que Júlia e Nuno o estimavam fraternamente; que, se a sua alegria de viver, a sua placidez interior, dêles dependessem, seria absolutamente ditoso; que não tinha, no tumulto vertiginoso da existência, mais seguros e nobres afectos; e, no entanto, era justamente de Nuno e de Júlia que para si vinha a maior dor, a mais intensa amargura!...

E o que tambêm havia de bizarro, de incompreensível, de insensato, no seu sentimento! Amando Júlia alucinadamente, querendo-a acima de tôdas as coisas, não odiava agora Nuno, que a possuía. Pelo contrário, a sua afeição crescia cada vez mais por êsse belo rapaz que a uma dignidade inquebrantável aliava os brilhantes dons de carácter, de inteligência, de grandeza moral. Tudo aquilo lhe parecia confuso, baralhado, incoerente, fóra da realidade humana, obedecendo talvez a leis psicológicas ainda ignoradas...

Cansado de se debater sem tréguas na mesma agitação árida, nas mesmas angústias e nas mesmas perplexidades, chegava a desejar que uma catástrofe se abatesse de repente sôbre êle e o aniquilasse ou esclarecesse uma situação que não podia sofrer por mais tempo. Tudo o que viesse imprevistamente, luminoso ou sombrio, irremediável ou ditoso, suave ou amargo, seria preferível àquela tortura lenta em que o seu ser de homem se dissolvia aflitivamente. A casa parecia-lhe deserta como nunca e duma solitude apenas comparável ao ermo do seu coração. O silêncio constrangia-o. Queria o ruído, as conversas, a animação, o riso à sua roda; desejava tudo o que o aturdisse, que desviasse o rumo das suas cogitações, que o insensibilizasse por instantes. Tirou o relógio do bôlso, viu as horas. Era ainda muito cedo para o almôço. Daria uma volta pela cidade, iluminada por um sol pálido de inverno que ardia num céu claro como se fôsse feito de cristal, almoçaria mesmo em qualquer restaurante onde houvesse gente, barulho, tinir de louças e de metais, onde entrassem homens apressados e respirando fortemente, ocupados por uma actividade que os movimentasse, por um interêsse que os impelisse para a frente, sem repouso. Nesse logar, estaria melhor do que à sua mesa, diante dum fresco ramo de flores orvalhadas, de porcelanas, de esmaltes brilhantes, de pratas scintilando à luz, de toalhas de linho muito branco, tendo por companhia única o respeitoso Bernardo que o servia com a solenidade de quem celebrasse um rito e que respondia por monossílabos às suas perguntas... Pôs de novo o chapéu, pegou nas luvas e na bengala, dobrou a carta de Nuno, que guardou na gaveta, e chamou o criado para dizer-lhe que não almoçava.

—Mas, o almôço está quáse pronto!—informou Bernardo.

—Pois, come-o tu e que te saiba bem!...—atalhou, risonho.

Bernardo considerava-o com espanto, envolvia-o num olhar de surprêsa; e quando Frederico saíu, descendo as escadas com rapidez, murmurou:

—Umas vezes não almoça, outras não janta, deu agora em ficar fóra de casa, como um vadio, êle que era tam regular na sua vida... Está estragado... Enfim, eu nada tenho com isso. Sou servo, êle é patrão, tem dinheiro, tem saúde... Adeus, minhas encomendas...

Frederico, a quem a carícia do frio ar circulante refrigerava e desoprimia, encaminhou-se para a Praça da Liberdade, cortando ao acaso através de ruas ruidosas de multidão, coloridas, cheias de pitoresco, exibindo uma fisionomia característica. Nos bairros pobres, secava roupa atada em cordas por varandas e trapeiras. Ranchos de crianças sujas e rôtas erravam nas calçadas, brincando. Criadas de servir regressavam dos mercados e dos talhos com grandes cabazes de vêrga enfiados no braço. As lojas estavam apinhadas de compradores que, aos balcões, regateavam com os caixeiros. Desfilavam soldados, aos pares e de mãos dadas, com o bonet de vivos vermelhos sôbre a orelha e um ar obtuso nas frontes assimétricas e inexpressivas.

Perto de mercado do Anjo, duas peixeiras, de roupas descompostas e de gigas à cabeça, jogavam o braço furiosamente e insultavam-se nos termos mais duros e obscenos, entre um enorme ajuntamento de populares que riam, de bôca escancarada e de face contraída e vincada de rugas. A tôrre dos Clerigos subia na diafaneidade do espaço, projectando uma esguia mancha de sombra no ambiente luminoso e sereno.

Era a um sábado, véspera de festa. Para os lados do Bomfim, sôbre os telhados em que o sol caía a prumo, estralejavam foguetes que subiam, rechinando, no ar e que ao explodirem deixavam pequenas nuvens dum fumo branco e denso pairando na limpidez da atmosfera, como novelos de algodão que se esfiassem ao vento, sob o céu azul e fino.

Frederico marchava apressadamente, absorvido em emoções e cuidados íntimos, sem reparar na scenográfia exterior. A vida envolvente com as suas variadas formas, os seus coloridos, violentos ou ternos, a sua particular expressão, passava-lhe inteiramente despercebida, tam fundo era o recolhimento do seu espírito no drama sentimental de que não conseguia separar a personalidade psíquica. Sempre aquela obcessão a persegui-lo, sempre a venenosa flor dum venenoso desejo por Júlia—pela sua carne, pela sua beleza física, pela sua candura, pela sua graça fresca e luminosa—renascendo dentro de si, perturbando-o, embriagando-o como um perfume deletério! A luta—uma luta contínua de tôdas as horas, de todos os dias—extenuava-o. Já não podia, no desfalecimento de vontade que o esmagava, conduzir-se com firmeza pela própria razão ou pela parte incorruptivel e intacta do seu sentimento:—era conduzido pelo instinto sensual, sem dispôr de energia para uma reacção alacre e vitoriosa que o emancipasse da tortura intensa, que lhe restituisse à natureza espiritual o divino encanto perdido e a pacificação deleitosa. Nuno, ignorando a sua agonia secreta, chamava-o de longe, colaborando assim no monstruoso crime que pretendia evitar, concitando-o a uma traição que Frederico, no seu delírio, julgava já consumada porque lhe ardia na alma o lume dum amor impuro pela espôsa do amigo de tôda a vida, do camarada de estudos, do irmão com quem fizera, em plena concórdia, metade da jornada da existência. Era terrível! A fatalidade abatia-se inexoravelmente sôbre êle, encarniçava-se contra o seu infortúnio, exacerbava-lhe a dor. Frederico notava, com subtileza, a pequenez, a impotência do homem—mesmo quando ele fôr culto e dipuser duma sensibilidade—para dominar-se, para conter-se em face do mal, sempre que nesse mal houver a satisfação áspera dum gôzo, dum interêsse moral ou material. Nestes momentos, que incessantemente se repetem, o que no organismo humano, tam imperfeito, se impõe é a revolta da animalidade grosseira, apagando-se no ser consciente tudo quanto nêle há de superior!...

Mas, Frederico tentava ainda lutar contra essa animalidade, vencer a sua impetuosa paixão, conservar-se num estado de alma que o tornasse digno da afeição fraterna de Nuno, sem que tivesse de còrar de remorsos ou de vergonha, quando diante de Júlia êle lhe chamasse amigo e o apontasse como um exemplo de lealdade. Como não tinha confiança em si mesmo, como suspeitasse de que junto da mulher adorada em silêncio não pudesse esconder um amor que não devia revelar-se para poupar sofrimentos e afrontas, como temia que um instante de fraqueza e de desvairamento o levassem a cometer desatinos que não teriam remédio, caminhando aceleradamente nas ruas, cada vez se aferrava mais à ideia de não voltar a casa de Nuno e de esquivar-se a um encontro com Júlia. Longe dela, o perigo seria menor.

Pensando assim, enquanto à sua roda a multidão indiferente ria e palestrava, circulando activamente, Frederico chegou à Praça da Liberdade e entrou numa tabacaria a comprar charutos. À saída, encontrou-se face a face com alguêm que avançava para êle, de mão estendida, que o saùdava com uma exclamação jovial.

—Oh! Frederico, oh! ladrão!... Que feliz casualidade!... Há quanto tempo eu andava por estas acidentadas e sujas ruas portuenses à procura duma figura conhecida e sem a encontrar!...

—Oh! Duarte!... Duarte de Alarcão e Ataíde, dos Ataídes do Alentejo! Como diabo vieste tu parar mais uma vez a esta nobre cidade de tráfico e de negócios?

—Coisas estupendas, quimeras... Cheguei de Lisboa hoje, no correio da manhã e aqui me encontro.

Apertaram efusivamente as mãos, contemplaram-se por alguns momentos com simpatia.

—Estás mais forte e mais moreno, digno Alarcão e Ataíde!

—E tu mais corcovado e triste, D. Frederico!

—Que queres, amigo?—atalhou Frederico, desalentado. Ça ne marche pas!...

Duarte havia sido seu condiscípulo, no segundo ano da Academia Politécnica, onde não concluira o curso de engenharia por ter armazenado já, segundo confessava, a quantidade do sciência suficiente para viver saborosamente a vida, com a abundante pecúnia herdada. Era, então, ruidosamente alegre, brilhante de vivacidade, tocava na guitarra, que gemia entre os seus dedos, o fado do Conde de Vimioso, com que acordava os corações namorados das trapeiras em noites de luar e de serenata e que, no seu entender, constituia a página de música mais nacional e poderosamente expressiva que Portugal havia criado, desde que entrara nos horizontes maravilhosos da civilização.

—Verdadeiramente—asseverava êle, fazendo a blague—a nossa Pátria possue duas coisas grandes e de génio:—a descoberta do caminho marítimo para as Índias, que definiu os nossos compatriotas como marinheiros e perseguidores de aventuras, e o fado do Conde de Vimioso, que os definiu em tudo quanto nêles existe de elegíaco, de lírico, de subjectivo. Estamos diante de duas epopeias, meninos!...

Aquele admirável Duarte! Caía do céu, providencialmente, no meio das tristezas de Frederico, das suas derrotas, dos seus desconsôlos, para os dourar com uma réstea de alegria transitória como o sol doura uma paìsagem, depois da chuva.

—Tens estado sempre em Lisboa, desde que abandonaste o Pôrto?

-Não, criatura! De vez em quando, sempre que o país me satura de enfado, e, com as suas eternas farças, o seu entremez permanente, me comunica um fastio de Tibério exausto, faço as malas, viajo, desbestializo-me, tomando um banho de elegância, de lucidez mental, por essas bemditas nacionalidades cultas da Europa. E tu? Que fazes? Que tens feito?

—Nunca saí de Portugal, Duarte! Vou murchando, por patriotismo, no nosso torrão natal, como uma couve tronchuda. Sou assim patriota...

—E selvagem!... Tambèm razoávelmente selvagem.... E agora, para onde te dirigias, a passos largos, encurtando o caminho da sepultura, como afirma o Eclesisastes?...

—Deambulava por aí fóra, à procura dum sítio onde almoçasse sem escândalo. Porque não vens comigo, Alarcão e Ataíde? Faríamos um pequenino ágape, celebrando êste acontecimento festivo!

—Pois, aceito!... Que diabo, estou com debilidade, com fome. E nem sequer me lembrava!...

Atravessaram, lentamente, a Praça da Liberdade, em direcção à rua de Sá da Bandeira, parando a cada instante para relembrarem episódios passados, incidentes humorísticos da mocidade há muito olvidados. Os carros eléctricos corriam velozmente sôbre os rails, num incessante retinir de campaínhas de alarme, os automóveis fugiam no fio do vento, entre nuvens de fumarada, atroando os caminhantes com as suas sirènes; das tílias altas que, nos dias ardentes de verão, espalham sôbre a calçada nódoas rôxas de sombras afagadoras, desciam as derradeiras fôlhas. Duarte, enfiando o braço no de Frederico, evocava scenas hilariantes dos anos extintos.

—Tu ainda te lembras do Martinho, homem terrível da Beira e da batota, que numa noite de azar, vendeu a alma ao Diabo por dez tostões?

—Perfeitamente!... Foi para a África. Nunca mais se soube dêle.

—Por sinal que o Diabo, cansado de comprar almas inúteis para os seus fins de regenerar o mundo pelo espectáculo da tortura, não aceitou a oferta em condições excepcionais de preço, e Martinho, despeitado, pregou-lhe a maior descompostura que êle tem apanhado, desde Santo Agostinho!

Riram com satisfação, na beleza gloriosa da manhã que os remoçava.

—Pobre camarada!—continuou Duarte. Ao dr. Fausto, o Diabo deu ainda, com a juventude, a virgindade e a beleza de Margarida. Ao nosso companheiro, não deu nem dinheiro para cigarros. Era por isso que êle dizia, com rancor, que Satanás, depois que Goëthe o descobriu oculto na consciência, tinha perdido todo o prestígio... E que é feito de Nuno, êsse encantador conviva das ceias de S. Mamede de Infesta, com bacalhau e guitarras?

—Está casado... E já tem um filho.

—Oh! O sórdido burguês!... E talvez feliz, hein?

—Enormemente feliz.

—O animal!... Tu, solteiro.

—Sim, homem! Solteiro...

—Como eu!... Como os heróis de Tyrso de Molina, sempre à caça de rôlas assustadas. Fazes bem. É assim, justamente, que procedem os homens decentes.

Tinham chegado à esquina do Café Portuense. Duarte estacou, exclamando:

—No meu tempo, havia aqui uma fonte e um tanque. Uma noite, o

Andrade, o de medicina, quis afogar-se nesse tanque, porque acabava de saber que a costureira que amava o traíra com um oficial de barbeiro. Suicidava-se não por orgulho ofendido, mas por estética. Tive um trabalhão para evitar que êle se molhasse... O que foi feito de tôda essa água?

—Secou, desapareceu.

—Como a fé nas almas!... Oh! os tempos modernos são iconoclastas.

Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava de jovialidade como uma espuma ténue e branca se irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas inquietações anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado, que o distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada a vida. Por momentos, tudo lhe esquecia, tudo adormecia na sua memoria e no seu sentimento:—a carta de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em qu Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava de jovialidade como uma espuma ténue e branca se irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas inquietações anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado, que o distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada a vida. Por momentos, tudo lhe esquecia, tudo adormecia na sua memoria e no seu sentimento:—a carta de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em que se afundava com Branca. Do fundo do seu coração subia o reconhecimento para aquele bom Duarte em quem a jovialidade era perene e espontânea...

Em frente do teatro Sá da Bandeira, ainda se detiveram. Frederico, riscando gestos no ar com a ponta do dedo enluvado, dizia:

—Na parede dêste edificio já havia aquele mesmo buraco, quando eu era estudante. Caíram tronos depois disso, morreram dois Papas, houve três guerras fulgurantes, o Império Celeste mudou as suas instituìções políticas, nasceram-me na cabeça os primeiros cabelos brancos e o buraco lá está. Só êle não evolucionou porque é um documento histórico e representa o amor, o carinho, com que o Pôrto defende a sua fisionomia secular.

—Não zombes, Duarte—atalhou Frederico. Essa tendência conservadora do Pôrto é uma das suas primaciais virtudes.

—Mas, não zombo! Primeiro que tudo, o amor à tradição. Só êle engrandece os povos, no sábio e verídico dizer de Fustel de Coulanges...

Foram andando vagarosamente, meteram pelas ruas próximas, dando uma volta, porque Duarte tinha curiosidade em ver certos logares que lhe evocavam os dias distantes da mocidade, que lhe relembravam certos factos, determinados acontecimentos. A cada instante, chamando a atenção de Frederico, lhe fazia revelações, dizendo:

—Tive antigamente por aqui um namôro. Ela chamava-se Faustina e eu considerava-me o seu Marco Aurélio... Bons tempos!

Mas Duarte, nas suas vagas observações, ia verificando que a cidade envelhecia, que a idade a deformava, lhe comia a côr e o viço, como se fôsse um rosto feminino em que a beleza da juventude fôsse morrendo.

—Tudo envelhece, afinal—murmurava tristemente—o corpo humano e as próprias pedras inertes que fendem, ennegrecem, se cobrem de musgos parasitários. Que formidável poder de destruição, o da morte! Nada é eterno!...

Voltaram, novamente, à Praça, entrando por fim num restaurante. Duarte, enquanto Frederico, depois de tirar as luvas e o sobretudo, escolhia na lista os pratos, coçando a ponta do queixo numa grande, embaraçosa irresolução, lamentava-se por não ter encontrado mais nenhum dos seus condiscípulos ou dos seus conhecidos doutrora. A vida era uma infatigável dispersadora de almas. Mesmo num país tam pequeno como Portugal, os que uma vez se separam, geralmente não tornam, a falar, a não ser por acaso.

—Homem, aí tens a lista. Vê se preferes algum cozinhado— exclamou Frederico.

—Não quero ver a lista! Escolhe tu, Brillat-Savarin. Mas, mete no festim alguma iguaria bem portuguesa, bem portuense, por causa da côr local, sempre necessária a românticos como eu sou, como tu eras...

Ao passo que esperavam, esfregando os garfos e as facas nos guardanapos, diante dos copos vazios e das porcelanas que reluziam sôbre a toalha da mesa, continuaram a conversa.

—Ora, tu pelo Pôrto, Duarte!... Que bela surprêsa!

—É verdade. Por aqui me trazem, durante algumas horas, os meus pecados...

—Aventuras amorosas, aposto...

—Efectivamente, trata-se duma mulher que amo e que me quere. O marido teve a triste lembrança de vir ao Norte, nesta ocasião em que Lisboa está tam bonita, o trouxe-a com ele, para amenizar a jornada.

—Oh! devasso!...

—Que remédio! O coração humano é assim... E nada de lições de moral, porque não me convertes.

Lições de moral! E com que autoridade?—meditava Frederico. Tambêm êle amava profundamente a espôsa do seu maior amigo, pensando nela constantemente como se Júlia fôsse o centro de tôdas as suas recordações, da sua própria existência. Quem tinha ensinado a essa mulher o caminho do seu coração? Por êsse amor sofria, por êle se via condenado a viver num permanente sonho doloroso, na agitação contínua das lutas indomáveis e estéreis, oscilando entre o desejo, a noção do dever a cumprir, a agonia e o desespêro.

—Não tens dêstes saborosos casos na tua história lírica, Frederico? —atalhou Duarte.

—Eu?... Que ideia!—respondeu êle, perturbado.

O criado surgiu, de repente, com uma travessa de peixe frito na palma da mão. Serviram-se, encetaram o almoço vagarosamente. Tentando desviar o fio duma conversa que lhe desagradava, avivando-lhe sentimentos amargos, Frederico, suspendendo o garfo e voltando-se para Duarte, inquiriu:

—Tens viajado muito, não é assim?

—Bastante. Sou mesmo uma espécie de Judeu Errante muito razoável para uma nação do tamanho da nossa. De resto, as viagens são os melhores mestres. Só elas nos ensinam essa fina sciência de sociabilidade tam útil na nossa época.

—Sabes que estou resolvido a viajar tambêm? Vieste despertar-me o apetite.

—Ainda bem que te forneci uma ideia excelente.

A cada momento entravam na sala homens com as golas dos pardessus erguidas até às orelhas roxas de frio, que respiravam com fôrça, tossiam, se punham à vontade, abancando pelas mesas e comendo com sofreguidão, por entre o ruído monótono das conversas e o barulho dos talheres e da louça, entrechocando-se. Êste tumulto irritava Frederico, já desgostoso com a promiscuidade. Curvado sôbre o mármore côr de rosa do mostrador, um empregado pachorrento, gordo, vermelho, com uma calvície enorme e a cara tôda rapada à navalha de barba, que lhe deixara na face uma sombra azulada, olhava maquinalmente a rua, através dos vidros das portas.

—Só viajando, a gente se instrue—afirmava Duarte, devorando o seu beef com ovos... Diabo, êste vinho é uma peste...

Ouvindo o amigo, Frederico ia pensando, a sério, num longo passeio pela Europa, numa viagem de esquecimento e de purificação em que sarasse o seu coração enfêrmo e acalmasse a sua imaginação exaltada. As grandes capitais, com os seus vibrantes espectáculos desconhecidos, as suas multidões, as suas sumptuosidades, as suas ardentes, imperiosas solicitações a pouco e pouco lhe comunicariam a tranqùilidade espiritual que tanto desejava. Porque não? Veria outros povos, outros costumes, outras civilizações, misturar-se-ia, contente, à onda duma vida complicada que faria por analisar e compreender na sua essência e na sua expressão; encontraria, por alguns meses, uma ocupação que lhe enchesse a alma, o distraísse, lhe serenasse a febre que o queimava. No isolamento em que se confinara, o seu amor por Júlia, longe de dissipar-se, havia de precisar-se mais, de difinir-se, de fortificar-se, por influxo da paixão que o devastava e que o esgotava de tôdas as fôrças vitais, sem deixar-lhe sequer o cuidado pelas banalidades práticas... Talvez que noutros países, noutras cidades, longe de Nuno, longe da sua adoração, esta violência sentimental que o pungia diminuisse, pela multiplicidade de diversões e de interêsse em que se absorvesse...

Tinham chegado à sobremesa, e Duarte, estranhando o silêncio de Frederico, perguntou:

—Em que profundos problemas cogitas tu, criatura?

—No problema de atulhar o estômago. A minha animalidade assim o reclama.

—Estás na verdade cartesiana. Comes, logo existes...

Sempre que no seu sentimento despertava o amor por Júlia—amor que não podia adormecer perpétuamente—Frederico verificava que êle lhe transmitia uma extraordinária abundância de impressões novas e intensas que terminavam por fatigá-lo, por deprimi-lo até à tristeza e ao desalento. Precisava subtraír-se a êste trabalho interior em que o seu ser se abismava. Viajaria, pois, e levaria Branca.

—Está decidido, Alarcão e Ataíde... Dentro em breve, terás um servo humilde para a Europa.

E voltando-se para o criado, pediu a conta que pagou.

Levantaram-se, acenderam os charutos, calçaram as luvas e saíram para a rua, aspirando consoladamente o ar vivo.

—Demoras-te por esta óptima cidade, D. Duarte?

—Não, menino. Parto ainda hoje à noite. As doces exigências do coração cumpriram-se. De novo me afasto.

—Que pena!

—E até peço desculpa, por te abandonar tam cedo, depois do almôço e do afecto. Enfim, outro poder mais alto se levanta, como disse o nosso épico.

Pararam um instante na rua, apertando as mãos.

—Quando vires êsse Nuno, dá-lhe um grande abraço, por mim. Au revoir!...

Até à noite, Frederico vagabundeou pela cidade, detendo-se diante das vitrines, seguindo com a vista alguma linda mulher que passava, num forte e aristocrático rumor de sêdas. A tristeza que de manhã, com a carta de Nuno, o invadira, acentuou-se, adensando-se cada vez mais. Que suplício!... Por muito que quisesse alhear o pensamento de Júlia, surpreendia-se constantemente a reconstruí-la na fantasia, a recordar os seus suaves olhos langorosos e profundos—uns olhos que diziam tudo o que dentro dela se passava...

A lembrança dessa mulher renovava-lhe incessantemente o sofrimento, mas era-lhe muito grata.

Cansado da sua interminável vadiagem, meteu-se num carro eléctrico com destino à Foz, maldizendo a esterilidade do seu dia sem uma emoção de beleza moral superior, sem um acto nobre.

—Como isto acabrunha! — monologava, sentado em frente duma inglesa esgrouviada, alta e sêca, com uns cabelos dum louro sêco e uns óculos de ouro na ponta do nariz, que lia um jornal de Londres.

Foi nessa noute, jantando com Branca, que Frederico lhe disse:

—Sabes? Ando com vontade de ir até Madrid, até ao inferno.

—E então eu? Deixas-me?—perguntou ela com voz de mimo.

—Não! Levo-te comigo, para nos aborrecermos ambos. O tédio, dividido por dois, deve ser menos pesado...