A Morte Vence
Capítulo VI
—E aqui está—murmurou êle com infinita desolação—o que um amor sem esperança pode fazer dum homem!... Que sorte!...
No ermo da sua casa desabitada, Frederico, no enorme silêncio que invadia os longos corredores, as salas sombrias com um desagradável cheiro e bafio, sentia tôda a imensidade da sua derrota. Era um vencido. Para êle, o futuro não tinha horizontes luminosos, desde que uma adoração impura, penetrando-lhe insidiosamente na alma e incitando-o a trair uma amizade fraternal, lhe cortara toda a possibilidade de vir a amar com paixão e pureza uma outra mulher que não fôsse Júlia. Revoltava-se contra aquela adoração, acusava-se a si próprio por não ter sabido manter uma absoluta impassibilidade de sentimento diante da espôsa de Nuno. A fatalidade pesava sôbre o seu destino, sôbre o seu coração, que empolgava com mão de ferro.
—Mas serei eu o único responsavel?— monologava.
E, na sua dor, alucinado por uma perturbação que lhe toldava o cérebro e a noção da equidade, quáse que responsabilizava Júlia pela sua beleza aliciante, pela sua superioridade de mulher e pelas suas admiráveis virtudes.
VI
Não podendo viver tranqùilamente perto de Júlia, com o seu segrêdo sempre oculto, nem longe dela, com a angústia interior que o devorava, Frederico procurou aturdir-se na febre duma vida em que se esquecesse, que o consumisse lentamente e em que corrompesse a parte pura do espírito, excitando a sua avidez de prazer nos delírios das paixões voluptuosas. Queria libertar-se dum suplício que tanto lhe atribulava a existência. A fatalidade retinha-o entre o amor e os deveres da lealdade para com um homem que era, mais do que o seu amigo, a única pessoa a quem consagrava um afecto profundo. Se, numa alucinação, obedecesse aos impulsos desordenados e abomináveis do instinto carnal, mancharia a limpidez do seu sentimento afectivo: e, só de pensar na possibilidade dum arrebatamento que o levasse a confessar a Júlia a sua adoração pecaminosa—que ela, de-certo, repeliria indignadamente, porque era pura, honesta e refractária às tentações criminosas—uma dor muito funda agravava a sua exaltação física e o seu desequilíbrio emocional...
Notava, em todo o caso, que se tivesse a coragem, a audácia e o cinismo de praticar uma acção vil, não seria o padecimento de Júlia que mais vivamente o pungiria, causando-lhe mágoa e comiseração. A sua piedade ia tôda para Nuno, tam leal, tam comovido de bondade, dotado dum carácter do melhor ouro. Na sua perturbação, imaginava, por vezes, que todo o mal estava feito, que a situação criada pela sua loucura amorosa era já irremediável:—e concentrava-se, transido, para melhor reconstituir a figura de Nuno, no instante em que conhecesse o duplo ultraje à sua dignidade de marido e à sua honra de homem, errando alucinado pela casa erma, barafustando cheio de cóleras vingadoras, ferido na sua alma e na sua confiança, devastado, com a morte no coração e o calor da vergonha nas faces, acusando-o a êle com mais fulgurante raiva do que à espôsa, procurando-o por tôda a parte para lavar com sangue a afronta e a humilhação que o tinham maculado e coberto de escárnio. Então, diante dêste sofrimento, Frederico, espavorido, passava a mão trémula pelos cabelos, agitava-se violentamente para entrar na realidade das coisas, murmurava:
—É horrível, horrível!...
Readquirindo a serenidade e a lucidez, considerava como o seu crime seria monstruoso e sem perdão se êle não soubesse reagir vitoriosamente contra a fraqueza dos sentidos. Mas reagiria a todo o transe, muito emhora a reacção o fizesse sofrer, afirmava Frederico a si próprio:—e parecia-lhe que a sinceridade com que se defendia de desfalecimentos de energia atenuava a imensidade da sua falta.
Foi numa destas crises fulgurantes, repetidas vezes provocadas pela desordem da sua conduta, que Frederico decidiu fugir da inquietação e do remorso, mergulhando na embriaguez dos gozos que a fonte impura dos vícios lhe oferecia como consolação lógica e única da sua singular doença. Ainda a princípio pensou que entregando-se, com delírio, à deliqùescència de todos os abusos, se tornaria indigno da amizade de Nuno e do afecto de Júlia: mas, no seu romantismo, sentia um júbilo íntimo em degradar-se por ela, em descer aos pântanos das misérias morais, erguendo sempre os olhos em èxtase para a mulher intensamente amada através de tudo, como os ergueria para uma claridade purificadora e divina.
Orgulhoso e curioso dos seus actos, havia de ir até ao fim, embora o caminho fosse errado e nêle se transviasse—porque era incapaz de conceber abnegações por si próprio.
Perturbado e cheio de confusão por esta ideia fixa, Frederico, que durante muitas semanas viveu completamente isolado, começou a aparecer de repente em tôda a parte, a freqùentar os cafés e os Clubes. Era novo, era rico, sabia insinuar-se, aliciar. Na roda dos seus conhecimentos houve espanto.
A ressurreição foi saùdada com ruidosa alegria, e logo alguns rapazes resolveram solenizar o acontecimento extraordinário com uma ceia em que o champagne festivamente estalasse e a verve corresse com uma scintilação dourada sob a brancura da luz eléctrica. Alberto de Sequeira, que trazia no dedo um grande anel brazonado e se vangloriava de pertencer às raças finas, desejava um banquete sério e decente, em que os convivas fôssem de casaca, correctos e irrepreensíveis, como para uma mesa em que estivessem duquesas.
—Vejam que devemos isto a Frederico e a nós, à nossa classe social, à nobreza das nossas estirpes—comentou êle.
O Paiva, toureiro amador e guitarrista, insurgiu-se, porêm, muito desdenhoso de fidalguias e pragmáticas, bradando:
—Não, senhor! Nada disso. Trata-se duma festa pagã, para comemorar a volta à estúrdia e à pândega dum companheiro. Temos, portanto, de meter-lhe paganismo:—a rabona igualitária, a ninfa de gordos braços, lânguidos olhos e saborosos beijos. Olha agora a casaca! Não querem ver? Palavra de honra, é escandaloso!...
—Sim, é claro! Devemos meter-lhe a ninfa ! A casaca é fúnebre, e nós vamos para uma calorosa manifestação de regosijo!— concordou o Taveira, filho dum capitalista enriquecido na Argentina.
—Pois não é assim?—interrogou o Paiva.
—Mas...—atalhou Alberto.
—Não, filho! Não há mas nem meio mas. Venha o belo pagode, a bela bacante agitando no ar o seu tirso e saracoteando um maxixe desbragado...
—Muito bem!—acrescentou ainda o Paiva. A bacante e o maxixe, primeiro... O resto, é silêncio, como Hamlet dizia a Horácio.
Com efeito, a ceia realizou-se numa noite memorável, depois do teatro, durou até à madrugada do dia seguinte e ficou marcando uma hora triste de desvio moral na existência de Frederico. Aí conheceu êle a mulher, a intrusa, que havia de exercer uma influência nefasta na sua vida e no seu sentimento. Chamava-se Branca, tinha vinte anos, resplandecia duma beleza capitosa que o fogo dos ósculos impuros ia queimando lentamente, era alta, loura,
notava-se-lhe no rosto uma candura, uma espécie de virgindade que certas criaturas femininas nunca perdem por mais baixo que desçam nos charcos da miséria. Foi Paiva quem lha apresentou, exclamando irónicamente:
—Aqui tens tu um regaço de sêda onde os príncipes gostariam de dormir as suas séstas de amor. Infelizmente, pertence a um desgraçado país que nem amar sabe e onde não há príncipes... Tem de contentar-se com os filhos da nossa virtuosa burguesia! Mal empregada! Como o poeta célebre, esta Musa da orgia chegou muito tarde a um mundo muito vélho, caro amigo!...
Frederico apertou-lhe a mão friamente, rindo da apresentação.
—Na Grécia antiga—continuou Paiva—os filósofos da linhagem nobre e genial de Platão repousariam e meditariam sob a luz doce dos seus olhos com o respeito com que repousavam à sombra do Partenon. Branca seria a inspiradora, a deusa. Até talvez se lhe levantasse um templo, como à vaca Ísis, no Egito!...
—Ora! O cavalheiro está a chuchar comigo!...—exclamou ela, amuada.
—Agora, o que Branca desconhece, meu filho, é a linguagem sonora e harmoniosa em que falavam os Imortais... «O cavalheiro está a chuchar comigo!» Vê tu que abominação. Se Péricles ouvisse esta Xantipa, morreria com uma síncope cardíaca ou correria a embriagar-se com o vinho das doces colinas de Atenas. Perdoa-lhe tu, que és generoso...
—E que não sou Péricles!—atalhou Frederico.
A ceia correu tumultuosamente alegre, e os convivas do «festim pagão», como havia anunciado Paiva, beberam mais do que os deuses de Homero. Frederico tinha ficado junto de Branca, que constantemente o acariciava com a suavidade do seu olhar cheio de promessas, que lhe floriu a botoeira com uma rosa e que, durante tôda a noite, revelou uma melancolia que mais vivo destaque imprimia à sua graça dorida. Alberto de Sequeira, toldado pelo alcool, com as faces escarlates, agarrado a uma companheira de Branca, a Eugénia, tam conhecida nas garçonnières da mocidade elegante, dava-lhe beijos e oferecia-lhe os seus pergaminhos com a mão de marido. Ela, rindo à gargalhada, recusava, dizia-lhe que não tinha vocação para espôsa.
—Vai para um convento, vai para um convento!—intimou Paiva, de pé, ao lado da mesa, erguendo o braço e apontando com o dedo.
—Sim! Talvez para um convento!—concordava Eugénia, enroscando os braços à volta do pescoço de Alberto. E então?...
A tristeza de Branca no meio da jovial estúrdia impressionou Frederico. Perguntou-lhe:
—Que tem?
—Nada! Estou hoje assim!... São dias.
—Tem «telha», é o que tem—afirmou uma outra, Luísa, a quem Paiva fazia ardentes confissões, prometendo-lhe um scetro, uma realeza.
—Ou um scetro ou um poema. Escolhe—gaguejava êle. E pode ser que, para a imortalidade, te convenha mais o poema. Ainda não morreram Beatriz, Laura, Virgínia. Ainda nem sequer morreram aquelas loiras germânicas cantadas por Goëthe.
—Quem são essas damas?—inquiriu Luísa.
—São umas senhoras das minhas relações... Não é verdade, Frederico?
—Beatriz, Laura... Certamente! E damas muito finas!—asseverou Frederico.
Novamente se curvou para Branca, pegando-lhe na mão, mirando-a nos olhos, interrogando:
—E foi sempre assim triste?...
—Para que quere saber?
—Porque me interesso por si... Aí está!
—Acredito eu lá nesse interêsse!
Na mesa, onde brilhavam ainda nos cristais restos de vinhos e licores que pareciam pedras preciosas líquidas, desfolhavam-se as flores. O dourado fulgor da luz batia em cheio nos linhos, fazia reluzir o vidrado das porcelanas. Os criados entravam o saíam, cambaleantes de sono, coçando a cabeça, com os guardanapos sôbre o ombro. O ambiente aquecido pesava e sufocava. Frederico subiu uma vidraça que dava para fóra, sentido-se reanimar por uma
lufada de ar frio. Sôbre a cidade, arqueava-se um céu picado de estrêlas, que já empalideciam no cerraceiro da treva que devorava tôda a vida. Por um momento, Frederico, encostado ao peitoril da janela, julgou-se aviltado. Experimentava a sensação desgostante de ter caído numa imundície que o sujava, que o invadia dum nojo profundo; e mentalmente comparava a frescura de impressões de que um amor oculto e malfadado fizera vibrar a sua sensibilidade, a ventura risonha entrevista em exaltações de imaginação, o sôpro de alegria eterna que respirou junto de Júlia, com aquela torpeza, em que se afundava. A solidão da rua que, em baixo, se escoava na sombra, a frialdade do vento, tudo o que para êle havia de novo, de desconhecido, naquela noitada iniciadora, excitavam-no, sacudiam-no. Fumando, olhava as alturas celestes que, no esplendor das constelações scintilantes lhe sugeriam arabescos de luz, uma estranha feeria que ardesse, rutilasse na escuridão. Dentro, os beijos arrulhavam. Branca, levantando-se, aproximou-se de Frederico, encostou-se-lhe ao braço, dizendo numa voz de mimo e de fraqueza:
—Estou tam fatigada!
Êle voltou-se bruscamente, irritado contra aquela interrupção importuna que vinha quebrar-lhe o fio das lucubrações e fazê-lo reentrar de repente na realidade das coisas, mas logo se conteve diante da desdita duma mocidade e duma beleza que tôdas as brutalidades da luxúria iam contagiando e maculando; e, do fundo da sua bondade, ascendeu a emoção compassiva para tanta fragilidade e tanto infortúnio. A delicadeza de alma de Frederico tornava-o incapaz de ser grosseiro e violento com uma mulher, fôsse ela quem fôsse: e Branca, alêm de débil, tinha a graça romântica duma formosura a suavizar-lhe o rosto, o aspecto doentio, uma meiguice que parecia nascer da humildade dolorosa da sua vida e da escravidão do seu corpo. Isto amoleceu a dureza de Frederico, apiedou-o. Pegando-lhe na mão que ela abandonou, disse:
—Cansada, hein?
—Oh! Muito cansada e morta por me ver longe dêste logar, acredite! —respondeu Branca.
—Então, não gostou, não se divertiu?
—Eu?!... Estou para aqui!...
Enquanto falava, Branca olhava-o com uma expressão em que havia ternura e sofrimento. Frederico pensou que aquela sensibilidade numa mulher costumada a vender-se era exagerada. Talvez ela fingisse uma dor que não sentia para o comover, para obter certas complacências que lhe agradavam, por cálculo ou por outra circunstância qualquer: mas, fixando-a mais demoradamente, pareceu-lhe surpreender nos olhos um sorriso que tremia e nos lábios pálidos uma súplica que não ousava denunciar-se claramente, com mêdo de ser repelida, e que no seu silêncio queria dizer:
—Leva-me contigo!... Sou uma companheira ainda desejável para algumas horas. Porque não experimentas? Farei tudo quanto me fôr possível para te distrair, para ser amável!...
Esta suposição comunicou-lhe aos nervos uma languidez sensual: e, avançando para Branca, que se havia afastado alguns passos e que aconchegava uma pele de repôsa à volta do colo friorento, exclamou:
—Pois partamos. Eu acompanho-a...
Nesse momento, Sequeira, com o charuto meio queimado na bôca, dormia com os braços apertados na cinta de Eugénia; Luísa bebia café com Paiva, pela mesma chávena; outros convivas da ceia jovial, espalhados pela sala, palravam, pesados e sonolentos. Já através das vidraças se filtrava uma claridade matinal indecisa e o ar era mais penetrante e vivo. Frederico anunciou que se retirava e que levava Branca. Foi um alarido.
—O quê? Antes do nascer do sol?—interrogou com estranheza o Andrade estrábico.
—Certamente—afirmou Frederico. Não nos encontramos num estado de alma suficientemente puro para compreendermos e sentirmos a poesia da aurora.
—É uma perfídia!—gritaram muitas vozes.
—É sono! E eu tambêm me saio e levo Luísa!—acudiu Paiva.
—Mas, é o rapto das sabinas!...—exclamou o Andrade.
—Oh! senhores, que chiste êste diabo tem!—aplaudiu Paiva, enquanto os outros riam saborosamente.
Frederico vestiu o casaco, despediu-se, deu o braço a Branca, que o esperava arrepiada e frioenta.
—Que Eros vos seja propício!—disse ainda o Andrade, que nessa noite estava em veia.
Frederico, que descia, já o não ouviu. Ajudou Branca a subir para o automóvel que o tinha trazido, acordou o chauffeur que dormitava, encostado ao volante, e partiu velozmente, envolvido na carícia tónica da brisa matutina que o refrigerava e que rescendia às seivas de que se impregnava, adejando por quintais e jardins. Quando entrou em casa, com Branca, o sol elevava-se numa explosão de ouro, e uma leve poeira de luz errava, ardia sôbre os telhados, incendiava as vidraçarias, que relampejavam, irradiavam súbitos clarões...
Às duas horas da tarde, ao despertar do seu profundo sono, espreguiçou-se, bocejou. Prostrava-o uma grande lassidão, desgostava-o interiormente um tédio como nunca havia experimentado, tinha mau gôsto na bôca, sentia-se embrutecido. Branca dormia a seu lado, fazendo um pequenino volume sob a roupa. Olhou-a atentamente. Estava ainda mais pálida do que na véspera; à volta dos seus olhos havia um grande círculo arroxeado, a mão que tinha fóra da roupa era exangue e tam magra que se lhe adivinhavam todos os ossos. A pele da face e do colo, porêm, era duma brancura, duma transparência que mostrava nítidamente a rêde azulada dos vasos sanguineos; e no seu perfil havia uma regularidade, uma pureza, uma correcção de traços incomparáveis. Frederico esteve a considerá-la durante algum tempo, com uma piedade que a narração da sua vida atormentada e dolorosa—que Branca lhe fizera com os olhos rasos de lágrimas—mais aumentava. A essa piedade mesclava-se conjuntamente um desgôsto muito profundo e que êle não sabia explicar, uma vergonha íntima, uma humilhante sensação de vèxame. Arrependia-se já de ter compartilhado o seu leito com uma criatura de acaso, que se alugava às noites, que nunca tinha visto, por quem mal sentira um minuto de interêsse. Fôra aquela a primeira vez! Resistira sempre a trazer para casa as mulheres que na rua se ofereciam passivamente aos seus beijos, por pudor, por dignidade, por altivez de carácter. Que alucinação o afastara da honesta linha que traçara à sua existência de homem? Que desvario lhe conturbara a lucidez da razão, não lhe deixando ver o que no seu procedimento havia de sórdido, de inferior?... Outra vez envolveu Branca num olhar vagaroso. Ela continuava dormindo e arfando de leve no ritmo da respiração. Frederico novamente se enterneceu. Teria ela, porventura, culpa de andar de mão em mão como uma rosa a que se aspira todo o perfume e que depois se abandona? Certamente que não. Era uma vítima do egoísmo dos homens que lhe apeteciam, por momentos, a beleza e a frescura da juventude e que em seguida, enfastiados, saciados, a repeliam. Cumpria o seu destino triste...
A obscuridade do quarto era cortada, de quando em quando, por claridades inesperadas que se filtravam através das frinchas das janelas. Frederico ouvia o ruído que vinha do exterior, do ar livre, da rua—murmúrios de conversas, de risos, de disputas, rolar de carros que passavam arrastando-se nas pedras da calçada.
—Deve ser muito tarde...—pensou.
Espreguiçou-se com lentidão. Tinha na cabeça uma desordenada multidão de ideas que não chegavam a clarificar-se, a definir-se límpidamente. Ia reconstituindo a scena da noite anterior, a alegria da ceia com mulheres—um espectáculo inteiramente banal para êle —os ditos humorísticos e picantes do Paiva... Acudiam-lhe à memória os mais apagados pormenores dessa festa de rapazes.
—E como hei de desfazer-me desta criatura, que tenho em casa, sem provocar curiosidades escandalosas no bairro?—monologou de repente.
Aí estava, na realidade, uma coisa bem dificil! Morava num sítio muito povoado e muito indiscreto, havia mesmo, em frente à sua habitação, uma outra com vizinhas bisbilhoteiras que passavam os dias por detrás dos cortinados, espreitando, investigando, devassando. Uma delas, bem galante no esplendor dos seus vinte e quatro anos, direita como uma estátua, com uns olhos negros e perturbantes e uns seios que se arredondavam sob a macieza, dos tecidos da blusa como os das patrícias romanas sob o peplum, sorria-se com afabilidade sempre que o via assomar à janela saùdando-a cerimoniosamente... Durante muito tempo, Frederico contemplou-a com encanto, como se quisesse surpreender-lhe no rosto a revelação dum sonho de amor que, no seu coração virginal, se ia formando e desabrochando com a inocência e a beleza duma flor. Depois, cansou-se e esqueceu-a... Se ela visse Branca sair da sua vivenda, em pleno dia, alarmaria a rua, daria, da sua varanda, uma vasta publicidade àquela irreflectida aventura de Frederico:—e, quando mais tarde passasse, tudo seriam risinhos abafados e irónicos nas suas costas, segui-lo-iam todos os olhares escarnecedores, durante uma semana inteira a sua reputação constituiria o tema obrigatório e fundamental da eloqùência da vizinhança!... Era um solteirão, era independente, tinha um desdêm absoluto pelos juízos e pelas opiniões que os outros formulassem a seu respeito:—no entanto, a perspectiva de andar durante horas hilariantes exposto ao ridículo público e cheio de grotesco, vèxava-o. Precisava de ser prudente, de acautelar-se, não por Branca, que nada perderia, mas por si. E decidiu conservá-la em casa, até à noite, comer, mesmo, em sua companhia, um almôço que o Bernardo, seu criado de confiança, iria buscar ao restaurante que freqùentava e, assim que as sombras nocturnas descessem, despedir-se dela com um beijo—e algumas notas de Banco. Aborrecia-o, porêm, o facto de ter de ficar uma tarde inteira fechado, diante duma pobre rapariga que fôra o seu capricho dum instante o que o não prendia nem pelas graças do espírito, nem pelos dons da inteligência e da cultura, nem sequer por uma beleza que começava a fanar-se, queimada pelo fogo da luxúria.
—Olha que estopada eu arranjei por minhas próprias mãos!...— murmurava, desconsolado.
A inexprimível sensação de desalento e de desgôsto que o minava desde que despertou intensificava-se na sua alma. Experimentava alguma coisa de inconcebível; a sua vida interior acelerava-se e fazia-o sofrer amargamente. Julgava-se com severidade:—ia caindo de baixeza em baixeza. Até onde chegaria?...
A certa altura das suas divagações, lembrou-se, subitamente, de Júlia: e esta lembrança tam pura era como uma acusação muda, pela torpeza moral em que principiava a debater-se. Se ela soubesse!... Se ela adivinhasse algum dia, por uma extraordinária intuição amorosa, vulgar nas mulheres de sensibilidade mais fina e de razão mais lúcida, que Frederico a amava e que, quando êsse amor era uma alvorada de poesia na sua alma, longe de o elevar, de o sublimar, de lhe inspirar as grandes bondades e as grandes abnegações, o impelia para os braços de criaturas que pertencem a todos e lhe fazia apetecer os beijos voluptuosos de bôcas femininas que osculam os homens que lhes pagam!... Se Júlia pudesse assistir em espírito ao espectáculo do seu coração devastado diante da imagem luminosa dela e duma cortesã, que tôdas as noites dormia em leitos sempre diferentes! Absolvê-lo-ia dessa miséria? Não se sentiria ela salpicada tambêm pela lama em que Frederico se atolava?... Mas Júlia viveria na perpétua ignorância dos sentimentos impuros que acordavam no seu organismo doente e, mesmo que viesse a conhecer tantos desvarios, não se consideraria traída porque não queria dêle mais do que uma estima fraternal... Por entre a névoa das emoções opostas que o faziam vibrar, Frederico raciocinava ainda com certa clareza. A crise por que estava passando sugeria-lhe palavras que um dia tinha lido em Taine. Compreendia naquele momento que a vida humana—a do corpo ou a da alma—era infinita e de uma imensa multiplicidade: mas que apenas certas das suas porções, certos dos seus instantes, mereciam subsistir, como expressões conscientes superiores. Êsses instantes, essas porções, a que aludia o filósofo excelso, eram marcados pelas atitudes morais que nobilitam o ser pensante. Fóra disso, nenhuma grandeza existia!...
Levantou-se vagarosamente, para não despertar Branca no seu sono. Ha quanto tempo—pensava Frederico—ela não teria uma hora tam sossegada, tam calma como aquela! Nem sempre encontraria amantes condescendentes como êle!... Uma caridade igual e tranqùila iluminava o quarto. Sôbre uma cadeira, amontoado e amachucado, estava o vestido da pobre flor de todos, tendo por cima o espartilho de setim côr de rosa que êle lhe havia ajudado a despir, na pressa violenta de aspirar o perfume de amor que a sua carne exalava. Sôbre uma outra cadeira, pousava uma pele de raposa preta do Japão e um chapéu de palha de Itália dum tom de ouro fôsco picado pelo colorido suave de dois ramos de lilases. Deu alguns passos, com os pés nus, no tapête de Bruxelas, que espalhava uma nota de confôrto e de elegância no compartimento; e, hesitante, voltou-se ainda para olhar Branca. Sôbre a alvura do travesseiro, destacava docemente a mancha fulva duns cabelos louros desmanchados, emmoldurando um rosto sereno e branco, de linhas muito finas. Uma colcha de sêda escarlate bordada a matiz desenhava nítidamente as formas correctas do gentil corpo adormecido. Como Branca era linda e digna de piedade! E o que a vida, com as suas impurezas e as suas terríveis degradações, fizera duma alma outrora virginal que poderia ter sido a graça divina dum lar, uma adorável espôsa, uma admirável mãe capaz de todos os sacrifícios e de tôdas as exaltações da ternura!...
Passou ao quarto de banho, que ficava próximo, mergulhou ávidamente na canôa de ferro esmaltado que Bernardo enchera, duma água fria que o tonificou, enxugou-se a um lençol felpudo e começou a vestir-se lentamente. Mais desanuviado, com a pele cheirando ao perfume do sabão com que se lavara, Frederico contemplou novamente Branca e observou que uma série de sensações antagónicas se sucediam umas às outras na sua emotividade. A verdade apresentou-se diante dos seus olhos. Afinal, Branca não era mais do que uma criatura trivial que se entregava a todos os que a desejassem. O seu ventre estéril era conhecido de muitos olhos lúbricos; a sua bôca havia sido esmagada por milhares de bôcas masculinas, em beijos bestiais. Odiosas imagens fisicas
intermináveis desfilavam diante dêle. Que interêsse poderia aquela mulher, profanada e ultrajada, despertar-lhe? Como se arrependia de a ter trazido para a sua habitação, para o seu leito! O contacto com ela manchara-o. E manchara igualmente a limpidez do seu sonho, do seu ideal, deformara a resplandecência duma beleza vislumbrada que nunca atingiria, de que não queria mesmo aproximar-se, mas que, a-pesar disso, mesmo de longe o iluminava e lhe causava orgulho! Esperava agora ansiosamente a hora em que lhe fôsse possivel desembaraçar-se de Branca, para se dar com prazer à recordação de Júlia. Parecia-lhe que essa recordação o purificaria, como uma água lustral...
A um movimento mais brusco de Frederico, devorado por impaciências que o agitavam, Branca acordou, abriu os olhos inchados de sono, sorriu-se para êle, com um sorriso em que havia gratidão, lassitude, contentamento.
—Já a pé?... É curioso. E eu que não o senti levantar!...—murmurou ela, quebrada por uma fadiga feliz.
—Pudera! Se dormias profundamente!...—respondeu Frederico.
—Quantas horas são?
—Duas e meia!...
—Ih! meu Deus!... Que preguiçosa!—exclamou, sentando-se no leito.
As longas tranças do cabelo envolveram-na tôda até à cintura. Através da ténue nuvem de ouro que formavam, alvejavam brancuras da camisa de bretanha fina, de rendas vaporosas. O bafo morno que se emanava dos lançóis amolecia-a. Tinha as faces còradas pela circulação mais apressada do sangue, e os seus olhos azúis iam-se enchendo duma luz que mais os azulava, quáse os espiritualizava. Frederico aproximou-se da beira do leito, acariciou-a levemente, passando-lhe os dedos pela face. Admirava-lhe a formosura, qualquer coisa de virgíneo, de inocente que ainda existia nela. Uma comoção estranha perturbava-o. Ah! Aquela linda rapariga—uma primavera em flor—erguendo-se do seu leito que sempre fôra casto, que nunca agasalhara corpos alheios, comunícava-lhe a impressão singular dum noivado:—e esta ideia subtilizava-o, tinha para o seu sentimento uma venturosa novidade, fazia-o esquecer de que Branca era a noiva de quem a queria.
—Ainda nem sequer me deu um beijo!—queixava-se ela, prendendo as mãos nas mãos de Frederico... Bons dias!
Êle beijou-a, sorrindo tristemente, e notou a delicadeza de Branca, que não ousara tratá-lo por tu. Abraçando-o, suspirava.
—Estás triste?—inquiriu Frederico.
—Estou. E, no entanto, nunca nenhum outro homem me tratou com tanta bondade...
—Então, como se explica essa tristeza?
Branca, repelindo-o brandamente, quis levantar-se.
—Responde!...
—Eu não sei responder... Queria ficar sempre aqui, perto do senhor... É talvez por isto, por ter de ir-me embora... Naturalmente, nunca mais nos tornaremos a encontrar...
—Porque não?
—Eu sei lá!... É sempre assim. Os amantes duma noite nunca mais se encontram...
—Mas, eu não sou como os outros—afirmou Frederico, fixando-a demoradamente.
—Ora! Tantas vezes tenho ouvido isso!...
Nas palavras de Branca havia uma frieza misturada de desalento que fazia mal a Frederico. Enquanto ela se penteava, sorrindo-lhe sempre—num sorriso cansado e automático—êle considerava-a mudamente, sendo invadido, de repente, por uma aversão instintiva, por uma repugnância inexplicável. E sob a influência de impressões opostas, observava a incoerência das suas sensações que umas vezes lhe tornavam apetecida aquela beleza que ia morrendo como uma rosa cortada e outras o forçavam a uma grande violência sôbre si próprio, para a não repelir brutalmente, aos empurrões, causar-lhe sofrimento, obrigá-la a chorar. De que razão psicológica oculta derivaria tudo o que nos seus sentimentos havia de ilógico, de inconseqùente? Com mêdo de soffrer mais, Frederico nem sequer ousava interrogar-se, procurando definir a laboração tumultuária da sua vida íntima.
Branca, acabando de vestir-se, sentou-se, extenuada, numa cadeira. Frederico, acendendo um charuto, passeava no quarto, a largos passos, enquanto ela o seguia com o olhar inquieto. Esperava... O quê? Naturalmente que êle a mandasse embora, pagando-lhe o amor duma noite. Na sua atitude, na expressão do rosto macerado, em que punham fundas manchas escuras as olheiras de bistre, havia resignação e melancolia. Frederico parou junto dela, encarando-a.
—Estás pronta, hein?...—perguntou.
—Estou pronta—repetiu Branca.
—Queres ir-te embora?... Mas, é que não pode ser já! Tens de demorar-te até à noite...
—Não tenho que fazer...
—Ainda bem! Almoças comigo, se isso te não desgosta. Irás depois...
Um clarão de alegria, que Frederico surpreendeu, faíscou nos olhos de Branca. Suspirou, fundamente, murmurou como se falasse para a sua consciência:
—Tenho sido tam desgraçada!...
Este grito sincero duma alma que espontâneamente se confessava chocou Frederico, que se sentou junto dela, tomando-lhe a mão que Branca abandonou o que êle efusivamente apertou entre as suas, pensando nas criaturas que incessantemente corriam atrás da ilusão duma felicidade sem nunca a alcançarem. Tambêm êle era desgraçado! Tambêm êle aspirava a uma irrealizável ventura que só um amor impossível poderia oferecer-lhe. Um destino malfadado irmanava-os na tristeza e no infortúnio:—e, talvez por isso, a sua piedade transbordou.
—Branca, queres ser a minha amante?—exclamou de repente, aturdido.
—Quero!—acudiu ela prontamente e tôda alvoraçada.
—Medita!... Se aceitas, serás só para mim... Na tua situação, isto não é fácil. Mas, eu é que não me conformarei com partilhas. Ouve bem!... Não terei rivais.
—Aceito—afirmou ela, novamente, com firmeza na voz.
E, como Frederico a envolvesse num olhar perscrutador, que se demorava a investigá-la, Branca, levantando-se, foi para êle, abraçou-o esteitamente, dizendo:
—Oh! meu filho, como eu te agradeço esta hora de paz e de consolação que me vem da tua oferta... Olha para mim... Assim, não!... Nos olhos... Isso mesmo! Agora, repara... Juro-te que serei só tua e que te não traírei, enquanto tu me quiseres!...
Enternecido, Frederico beijou-a longamente, como se o seu beijo fôsse o princípio duma doce e jubilosa festa amorosa que principiava. Almoçaram e, durante a refeição, Branca, que a intimidade que se ia estabelecendo, tornava audaz, contou-lhe os seus infortúnios e as suas amarguras, còrando muitas vezes por ter de ferir o secreto pudor da sua alma. A sua história era inteiramente igual à história de tôdas as mulheres perdidas. Uma paixão absorvente e cega em que se confia e a que tudo se sacrifica, a queda, o abandôno, a miséria final duma existência passando de mão em mão, enquanto vicejam a florescência e a beleza da mocidade. Ouvindo-a, Frederico compadecia-se, prometia-lhe daí para o futuro uma vida serena e uma emoção pura que a aurorizasse.
—Não me enganes!—suplicava Branca. Se depois de tudo isso hás de deixar-me, então, o melhor é separarmo-nos de vez...
—Não crês na minha sinceridade?... Não tens fé em mim?— interrogava Frederico.
—As desilusões teem sido tantas!...—respondia ela, duvidosa.
E baixando os olhos, na voz humilde e baixa de quem revela uma vida de vergonhas, foi dizendo tudo o que deixara pelo mundo fóra:
—Em minha casa, quando eu de lá saí, havia criancinhas pequeninas, que eram minhas irmãs e que eram puras. Nunca mais as tornei a ver...
Ao baixar da noite, desdobrou-se sôbre a cidade um denso lençol de sombra. Branca saíu contente, com a esperança de que Frederico se encontraria com ela, volvido pouco tempo, para a continuação dum capricho sentimental que ainda lhe parecia absurdo, tanto a havia surpreendido a resolução inesperada do seu amante dalgumas horas; e êle, ficando só no imenso casarão de treva e de silêncio, experimentou uma sensação de tédio mais fundo. Tôda a vida lhe parecia deserta, especialmente a vida emotiva; e, recolhendo-se, a si mesmo perguntava se valeria a pena vivê-la, sem encontrar nas almas e no mundo exterior alegrias puras e interêsses morais. Sentado numa cadeira de braços, junto duma mesa de pau preto sustentando jarras com flores que Bernardo
tôdas as manhãs substituía, ia sofrendo o seu permanente suplicio. Verificava que, em certos momentos, ideias claras, fáceis, luminosas, o obrigavam a obedecer-lhes alegremente, e que, em outras, essas ideias eram sombrias, indecisas, indecifráveis, e o assustavam. Encontrava-se, precisamente, num dêstes últimos instantes em que as inquietações interiores o consumiam, como as brasas se consomem no fogo intenso. Justos céus! Como o seu desamparo era grande! E cada vez a solidão mais pesava à sua volta e mais insuportável lhe tornava a carga que trazia sôbre os ombros. Naquela vivenda em que nascera, erravam os espectros do pai, que não chegara a conhecer, o da mãe, que morreu na sua infância, o duma irmã, Maria das Dores, que era afilhada de Nossa Senhora, com quem brincara na meninice e que tambêm se sumira nos negros boqueirões da morte. Da sua casta, que se extinguia, era êle o derradeiro representante directo: e entrava no outono da existência sem ter a coragem e a abnegação de criar uma família. Porque não procuraria uma doce mulher que fôsse capaz de fazer um luar de ventura à sua roda, de oferecer-lhe o peito para êle repousar a cabeça nas horas de angústia, em vez de levar para o
leito criaturas que transformam o divino sentimento do amor numa mercadoria e numa torpeza? Ah! como Nuno lhe era superior! Êsse sim! Havia seguido, na sua marcha para os tempos vindouros, o caminho da verdade e da beleza, de que êle se afastara—de que se afastava ainda mais, de dia para dia!...
Com a imaginação perdida na melancolia destas evocações aflitivas, via novamente a imagem de Júlia erguer-se, radiante de luz, ante os seus olhos: e, então, lembrava-se com infinita saudade do lar inefável e calmo de Nuno, da felicidade perene que o envolvia, radiosa como uma nuvem dourada. Enquanto êle para ali estava curtindo o seu padecimento, desgarrado de tudo quanto fôsse humano, fecundo, produtivo, sob o ponto de vista psíquico e material, Nuno, no seu escritório, e depois de um dia fértil em trabalho útil, em inteligência, repousaria lendo um livro, perto de Júlia, que a claridade aureolava e que pousaria de momento a momento a agulha da costura para colhêr um beijo na bôca nobre e risonha do marido. E não haveria acidez, cólera, impurezas, nos corações dum e doutro, unidos pelo mesmo afecto, nutrindo-se de idênticas aspirações, enlevando-se numa confiança ilimitada... Ou talvez que Júlia, ao piano, no sossêgo nocturno, tocasse uma bela página em que vozes enigmáticas narrassem, numa linguagem de som e de harmonia, a ascensão dos espíritos subtis para a purificação e para a graça. Dentro do seu berço, o filho de Nuno, ainda pequenino, dormiria inocentemente, lindo como um botão de rosa, e tôda a casa adormeceria tambêm ao embalo suave da música. Isto sim! Era viver! Mas êle, que com tanta ansiedade buscava a ternura, não passava dum esquecido do destino, dum foragido...
Fóra, na rua, começavam a acender-se os candeeiros de iluminação pública. A chama do gás, torcendo-se à ventania, projectava sôbre as vidraças sombras oscilantes e fantasmagóricas. O ruído afrouxava. Bernardo, entrando de súbito na sala, perguntou:
—Para que horas quere V. Ex. a o jantar?
—Eu não janto hoje, criatura—afirmou Frederico, erguendo-se e dirigindo-se ao criado.
—Santo nome de Maria! Não janta?
—Ou por outra, janto fóra. Arranjem-se lá vocês, tu e a Rosalina.
—Então, está bem!—disse Bernardo, retirando-se, sem estranhar já as excentricidades do amo, desde que nessa manhã o vira almoçar com uma mulher da vida airada, em sua própria casa.
Que fatalidade o perseguia!—pensava Frederico, reatando novamente o fio das suas meditações. A ambição duma família estava agora para sempre comprometida, porque êle não poderia ligar-se a uma mulher que não amasse, que havia de ser-lhe odiosa, sempre que se lembrasse de Júlia, sua única e infeliz paixão... Nesse instante, Frederico via-a bem real, duma personalidade bem determinada, diante de si. A sua beleza era perigosa. Nos seus olhos existia um ardor secreto que denunciava a amorosa. Parecia-lhe que ela tinha uma dessas expressões pensativas que nunca se definem com nitidez e que tanto seduzem, porque denunciam almas de indizíveis delicadezas. Frederico sentia-a em si, consagrava-lhe a adoração perseverante, o culto absoluto, o amor que se bastava a si próprio e que duraria, veemente, vivaz, enquanto êle tambêm durasse. A esta certeza, revoltava-se mais uma vez. Com efeito, que maus fados o tinham levado para casa de Nuno! E que fraqueza lamentável a sua, apaixonando-se pela espôsa do seu melhor amigo, sem que reagisse violentamente contra o amolecimento da vontade, o desfalecimento do coração!