A Morte Vence

João José Grave · Capítulo 5 de 12

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A Morte Vence

Capítulo IV

 

As primeiras manhãs de setembro tinham chegado. Emigravam as andorinhas e as rôlas bravas e no ar luminoso errava a melancolia vaga dum outono próximo. Grandes nortadas sopravam rijamente, levando através do espaço densas nuvens de poeira. Pelos arvoredos do parque, na meia tinta de luz, amareleciam as folhagens: e os crepúsculos, tendo ainda, no horizonte, reverbarações imensas, eram já um pouco húmidos. Havia, por vezes, céus brumosos que davam indeterminados longes á paisagem, tocando-a de lentos nevoeiros.

Durante todo o tempo que Frederico passara na quinta afastado da variedade e dos tumultos da vida citadina, estabelecera-se entre êle e Júlia uma estreita intimidade afectiva que mais gratas tornava as horas doces que de contínuo fugiam. Nuno andava inteiramente ocupado com as alterações a que mandara proceder nas dependências habitadas pelo caseiro, para que nelas houvesse mais confôrto e mais higiene. Interessava-o, afinal, o pobre cavador que envelhecera precocemente, nas dolorosas labutas da terra, vendo crescer à sua volta outras vidas louras, frescas e inocentes, tambêm condenadas â escravidão da gleba, e enchera-o de piedade a miséria da entrevada que no seu leito, escasso de roupas, tinha um riso de resignação, absolutamente conformada com o destino. Mesmo enfêrma, enquanto o homem, o bom Mateus, se extenuava de sol a sol, segurando entre as mãos calejadas e firmes a rabiça do arado que rasgava o seio da leiva, para fertilizá-la, ou espalhando no húmus revolvido as fecundas sementes que germinariam nas abundantes searas, remendava as roupas e dirigia o ménage. —A-pesar-de doentinha—dizia uma vez o caseiro a Nuno—ainda é uma ajuda. Deus ma conserve mesmo assim, porque se morresse fazia-me grande falta...

De quando em quando Nuno, comovido, abria vagarosamente a porta cerrada, para a ver, para lhe falar. Júlia, com a sua bondade, melhorara muito a sorte da paralítica, rodeando-a de bem-estar, mandando-lhe todos os dias um alimento mais apetitoso e nutritivo: e ela, grata a estas delicadezas, não se cansava de louvar, nas suas orações ardentes, os bons senhores que ao seu lar desditoso haviam levado uma clara luz de alegria.

—Então, como vai hoje, snr.a Teresa? Melhorsinha, não é assim?— perguntava-lhe Nuno.

—Para aqui estou à espera da minha hora! Pois, como hei de estar, se é esta a vontade de Deus?... E curtidinha de padecimentos!— respondia ela, com um fundo suspiro.

Mas logo, no seu rosto macerado e pálido se iluminava a claridade dum sorriso.

—E a senhora e o menino?—interrogava a doente.

—Estão esplèndidos. Não há mal que lhes chegue, neste paraíso. Êles qualquer dia por aí voltam a aparecer.

—Ai! Deus os guie, que bem o merecem!...

Nuno, que não queria que à roda da sua felicidade existisse gente desgraçada, ordenou a construção duma casa nova ao lado da primitiva—que se esboroava de vetustez e que vinha dos tempos longínquos em que os seus antepassados tinham adquirido aquela propriedade que constituía a parte mais vasta dos seus domínios territoriais. Alargara os estábulos para o gado, dera maior amplitude ao alpendre e à eira e procurara longe, na encosta dos montes que ficavam ao fundo da quinta, um mais farto veio de água de rega, canalizando-o, com argamassa e pedra, para as terras alugadas ao tio Mateus, que resplandecia de contentamento e que murmurava, com a face jubilosa e enrugada em que as barbas crespas encaneciam:

—Isto é o poder do mundo! As colheitas futuras hão de encher-me celeiros e tulhas!...

—Está contente?—inquiria Nuno.

—Ora! se estou contente!... Pois, o patrão faz um milagre destes e ainda me baixa a renda! Que hei de querer mais?

O caseiro, na sua gratidão, comparava a generosidade do amo com a secura do procurador, um unhas de fome que nunca lhe atendia as mínimas reclamações, que nem sequer lhe mandava concertar o telhado por onde, nos invernos agrestes, entrava a água das chuvas, e que, nos anos hostis, não lhe perdoava um ceitil.

—Se quereis conhecer o vilão metei-lhe a vara na mão—dizia o tio Mateus, lembrando-se dêsse homem de expressão dura e coração empedernido que um mês antes do pagamento do aluguer, o procurava, exclamando:

—Olhe que é daqui a trinta dias. Previno-o, para que não venha depois com desculpas.

Agora, mercê da magnanimidade de Nuno, a esperança renascia na alma do lutador destroçado que, durante uma longa existência, em vão se afadigara para que nas suas arcas o pão fôsse mais farto e que a vida amarga vencera, acabrunhando-o de tristeza. E êsse renascimento palpitava por tôda a parte, nos vergeis, nas hortas, que eram mais viçosas, nos espíritos humildes, que adquiriam maior confiança!

Entregue ao entusiasmo das suas ocupações de proprietário rural, Nuno, em certas manhãs, abalava logo depois de almôço, de charuto aceso e uma côr de saúde na face máscula, para vigiar os trabalhos. Esta actividade nova tinha para êle um grato sabor. A princípio, Frederico acompanhava-o, interessando-se tambêm por uma lide que desconhecia. Depois, porém, enfadou-se: e, sempre que o amigo o convidava para ir até ao fim da quinta, êsse enfado acentuava-se, reflectindo-se-lhe no rosto desconsolado. Acabou por desculpar-se, dizendo-lhe:

—Não! Eu fico, se a minha companhia te não é indispensável.

—Pois fica, homem. Fica e dorme!

—Eis um ideal que me encanta, Nuno. Sempre tive as melhores disposições para o sono.

Então, Frederico, penetrado pela quebreira que amolecia o ar, descia ao parque, escolhia um recanto de sombra e lá se demorava lendo um romance ou evocando as suas recordações e pensando no caso passional que o trazia inquieto. O calor, a irradiação crua do sol, faziam pesar mais o silêncio. A atmosfera resplandecia, tinha uma vibração especial no esplendor matutino da claridade. Até ao seu isolamento chegavam o chiar dos carros de bois, vergando sob a carga e atravessando os caminhos desertos, a cantiga idílica dum pastor distante, o sussurro das folhagens estremecendo ao vento, sôbre a sua cabeça. Em certos instantes, repousando das fadigas caseiras, Júlia, ao piano, tocava uma página musical que embalava suavemente a solitude. O sol saía em ondas pelas janelas abertas aos eflúvios do jardim—e a música, nesta solidão inspiradora, adquiria maior sedução e beleza. Frederico, pousando o romance, analisava o estado particular dos seus nervos. Uma grande, inexplicável lassidão prostrava-o. Sentia-se incapaz dum mais vivo esfôrço de reflexão, dum metódico exame da sua sensibilidade. Parecia-lhe que estava fóra da sua personalidade psíquica: a realidade exterior produzia-lhe uma bizarra alucinação que o transtornava; mas, neste sobressalto intimo havia, alternadamente, certos fulgores de pensamento, relâmpagos de inteligência, que lhe aumentavam a angústia e a opressão interior. Um elemento estranho, tendo qualquer coisa de violento, de obscuro e de nítido, conjuntamente, invadia-o e perturbava-o. A imagem de Júlia acudia-lhe, sem repouso, à imaginação—e notava que essa imagem era muito diferente da mulher que êle conhecia, da espôsa encantadora e virtuosa de Nuno, Atribuía êste fenómeno desconcertante a uma singularidade do seu organismo enfêrmo. Monologava, atribulado:

—Eu estarei doente, na verdade? Doente de espírito e de corpo?

Como os dias que ia vivendo, no meio duma confusão e duma agitação que lhe não davam tréguas, eram diversos dos que, dois meses antes, tinha passado naquele refúgio em que Nuno se abrigara com a sua ventura conjugal imensa! Então, tudo era paz, enlêvo, serenidade no seu coração, lucidez no seu cérebro. Compreendia mais fácilmente o espectáculo que o cercava; era mais acessível à bondade e à beleza; convalescia, sarava, uma esperança floria no seu scepticismo, e o calor dos afectos experimentados fundia dentro de si tôda a frieza e todo o egoísmo. E agora, não! A tranquilidade emotiva dos primeiros dias perdera-se completamente. Um agente mórbido, qualquer provocava nêle, de-certo, alterações profundas, transformava-o num sêr humano que o seu próprio sentido ignorava. Que doença seria essa? Física ou espiritual? E se fôsse espiritual, proviria da influência duma luz súbita, revelando aos seus olhos uma felicidade possível, ou da suspeita duma dor inevitavel? Frederico fazia estas interrogações a si próprio, sem encontrar uma resposta que o esclarecesse. No entanto, observando-se minuciosamente, era ditoso pensando em Júlia—e êste sentimento, ao mesmo tempo que o iluminava interiormente, gelava-o de terror, como se representasse um perigo imediato, uma catástrofe de que não pudesse já desviar-se. Ela era a companheira purificada e terna de Nuno, via-a ao lado do marido imersa na ventura que êle lhe oferecia, como uma flor imersa em aroma, surpreendia-os a cada passo beijando-se com transporte, apertando-se no mesmo abraço, peito contra peito, face contra face, para mais intensamente sentirem a pulsação dos corações. Frederico, absorvendo-se em ideias de que não conseguia emancipar-se e que eram a sua permanente obsessão, em sensações que o não abandonavam, ao estudar a sua psicologia com pavor de chegar a alguma conclusão que o aterrasse, murmurava, para se iludir:

—Verdadeiramente, não a amo com um amor físico. Sou-lhe apenas grato pelo encanto que me transmite e devo-lhe um reconhecimento moral a que não quero fugir.

Concentrando-se, calculava as consequências que uma adoração menos pura por Júlia provocaria fatalmente. Via-se perto de Nuno, escondendo, como um remorso ou como um crime, essa adoração que nunca revelaria e que lhe roeria a alma como os vermes roem os frutos podres, quando êle, com uma lealdade que se lhe espelhasse nos olhos e com uma amizade consolidada por longos anos de dedicação, lhe confessasse o reconhecimento que consagrava a Júlia, a claridade, o perfume, a graça que lhe trouxera a vida, a bôa fortuna que nela—na sua pureza, na sua beleza, na sua devoção—encontrara; e, raciocinando assim, como se admitisse a duplicidade do seu afecto por Nuno e do seu amor por Júlia, considerava que seria infinitamente desgraçado. Tinha mêdo dum tal desfecho: e, para se libertar de cogitações dolorosas, tentava esquecer, espairecer, distrair-se. Levantava-se, corria o parque a largos passos, sacudia com as mãos nervosas os arbustos floridos, fazendo cair nos musgos do chão um luminoso e colorido orvalho de pétalas, monologando:

—Ah! não, que horror! Não sinto ainda por Júlia uma paixão sensual, não a desejo pela carne, não me impele para ela um fogo impuro, uma fôrça abominável. Quando essa paixão chegar—se é que ela tem de vir—saberei ser enérgico, hei de dominar-me, fugir, esquecer...

Por nada traíria Nuno, abusando da sua hospitalidade tam carinhosa e tam franca. Não queria imitar Vaz de Sousa; não mancharia, com uma inapagável mácula, a santidade daquele lar; não toldaria a pacificação daquela morada em que se agasalhavam sentimentos perfeitos já abençoados por uma inocência angélica; não conturbaria a limpidez da sua afectividade fraterna com um punhado de lama e de vileza. Era um homem, um consciente, possuía uma dignidade, uma irredutível inteireza de carácter. De resto, Júlia, que aos dons da sua formosura aliava os dons mais nobres e elevados duma dedicação admirável, seria a primeira a repeli-lo com indignação, a execrá-lo, intimando Nuno a pô-lo fóra da porta como um ladrão que ali penetrasse para roubar uma felicidade que só a ela pertencia. E o amigo, sabendo de tudo, iria para êle com uma cólera que a imensidade da traição praticada mais avolumasse, ferozmente, as mãos crispadas, os dentes rilhados, o desvairamento homicida fulgurando nos olhos... Não era, de-certo, o temor que o fazia retroceder. Nunca fôra timorato. O que o assustava mais era a torpeza moral em que se afundaria para sempre.

—Quantos disparates a minha fantasia enfermiça arquitecta!—diria Frederico, zombando forçadamente.

Com efeito, o irremediável não se interpusera, por enquanto, entre êle, Nuno e Júlia. Podia estar absolutamente tranqùilo, sem còrar da perversidade duma acção que nem sequer se esboçava. Mas que infortúnio, o seu! O ardor dos sentidos conduzira-o a uma situação alarmante que já o fazia sofrer com amarga crueldade. Entrando naquela habitação, pela primeira vez, julgou que vinha encontrar o sossêgo de espírito, a calmaria, o repouso da alma: e, afinal, apenas encontrara uma angústia maior, uma tortura mais lancinante! Como se operara no seu ser uma transformação de tal ordem? O convívio de tôdas as horas, a ambição duma ternura igual àquela, o renascimento de ilusões que julgava extintas, deprimiram-no, certamente; o encanto que da formosura e da pureza de Júlia irradiava, penetrava-o subtilmente, contra a sua vontade, contra o seu veemente desejo. Era êle, porventura, culpado desta fatalidade? Podia ser acusado com eqùidade e justiça, pela consciência e pela inteligência que lhe formavam a individualidade psicológica e mental? De-certo que não! Êste subterfúgio apaziguava-o...

Continuava o passeio ou entregava-se, mais calmo, à leitura, olhando a vida por aspectos menos carregados. Se Nuno se demorava, ocupado pelos trabalhos que andava dirigindo, Júlia descia tambêm, um momento, ao parque, graciosa, adorável de beleza e de simplicidade. Frederico via-a avançar, com o coração pulsando desordenadamente, o sangue circulando com mais pressa nas veias e uma grande palidez no rosto. O busto de Júlia modelava-se nítidamente na leveza e na frescura duma blusa de sêda branca, deixando-lhe a descoberto o pescoço redondo, fino e alto, o princípio do colo, em que a pele se dourava à luz, uma parte dos braços que emergiam, admirávelmente contornados, da espuma de rendas das mangas: e isto provocava uma atracção irresistível, tornava mais áspera a sua ânsia. Júlia, avistando-o, ia para êle naturalmente, sem acelerar mais os passos que obedeciam ao ritmo sempre igual dos seus movimentos, falava-lhe:

—Então, para aqui só, aborrecendo-se mortalmente?...

—Oh! minha senhora, que ideia!

—Nuno sempre tem um modo de compreender a hospedagem!...

—Mas, se fui eu que não quis acompanhá-lo!... Hoje, apetece-me o isolamento.

—Tem, talvez, conversas com os espectros das suas saùdades...

—Não. Sou um esquecido do destino, um abandonado da própria saùdade. Ninguêm se interessa, por mim!

—Ninguêm?—interrogava Júlia, risonha e duvidosa.

—Ninguêm...!—afirmava Frederico, fitando-a.

Mas arrependia-se imediatamente da fixídez com que a olhava, no receio de cometer alguma grosseria que a magoasse, no susto de que o seu olhar revelasse coisas que êle nem sequer se atrevia a formular, no confuso turbilhão dos seus sentimentos—e muito perturbado, desviava a vista.

—Creio eu lá nisso!—acrescentava ela.

Numa destas ocasiões, perigosas para a serenidade de Frederico, Júlia sentou-se num outro banco, perto dêle, quis saber que livro lia, quais eram as suas leituras predilectas: e Frederico respondeu com um riso a que pretendia imprimir naturalidade:

—As minhas leituras predilectas são as biografias, a correspondência dos grandes homens, as obras de psicologia.

—Porquê, porquê?

—Porque me interessam as almas superiores...

Júlia pegou no volume que Frederico folheava, viu o título.

—Em todo o caso, lê tambêm romances!...

—Nos romances, há ainda almas, minha senhora...

—De que trata êste?

—Dum amor infeliz, dum amor que nunca se confessou, e que era incomparável de elevação, de fervor, de constância...

—Bem sei! Dum amor absurdo, dum amor que apenas existe na emoção e na ideia dos artistas... Um grande e puro amor confessa-se sempre.

—Sempre?... Eis um belo êrro!

—Ora essa! Êrro?... Não compreendo...

Para se furtar a um diálogo em que, irreflectidamente, podia traír-se, Frederico deu novo rumo à conversação.

—A uma mulher é que nunca se deve perguntar quais são os livros da sua preferência, snr. a D. Júlia.

—Não sei porque não. Olhe, eu digo-lhe já o que prefiro, em literatura:—são os poetas líricos.

—Não se deve fazer uma tal pergunta indiscreta às senhoras, porque na selecção das leituras os espíritos femininos revelam-se.

—Ah!—atalhava Júlia. Não sabia!...

E os seus olhos negros e imensos, banhados por um claro-escuro húmido e misterioso, pousaram-se vagamente em Frederico, parecendo contemplar aparições inefáveis, longínquas, imprecisas.

—Talvez haja alguma verdade no que diz—exclamou ela.

—Creio que há tôda a verdade...

De repente, levantou-se, pousou o livro, murmurou:

—Nuno demora-se tanto!...

E sorrindo, com um enlêvo maior na voz, uma gracilidade mais animada nos gestos:

—Coitado! Anda todo apaixonado por uma obra de generosidade e de misericórdia. É um santo. A miséria da família do caseiro atormentou-o.

—Um coração de ouro!—concordava Frederico.

—Não é verdade?—atalhou ela, tôda interessada e com o reflexo dum grande contentamento na fisionomia.

—Um coração de ouro!—repetiu Frederico, pondo nas suas palavras a convicção e a sinceridade—uma alma como poucas existem!...

Júlia agradeceu-lhe com um olhar infínitamente meigo aquele justo louvor ao marido e disse afectuosamente:

—Vou até lá acima... Acompanha-me ou ainda fica por aqui, pelas espessuras, como um namorado, com as suas lembranças?

—Ainda fico, minha senhora, mas só, sem recordações, uno e indivisível, em corpo e em alma.

Soltando uma gargalhada, Júlia afastou-se vagarosamente, colhendo uma ou outra flor no caminho, cantando entre dentes, voltando-se ainda para trás e rindo sempre; e Frederico, seguindo-a com a vista, notava que junto dela, respirando o mesmo ar, o envolvia a carícia dum ambiente em que a brisa tépida e odorífera como que emanava a vaporização duma volúpia tôda esperitual em que não havia nenhuma instigação inferior da animalidade, da substância, do sangue, dos nervos. A notação fina desta particularidade tranqùilizava-o. Ah! admirava profundamente a mulher de Nuno, mas apenas porque, entre a fealdade moral da sociedade que conhecia de perto, Júlia era um dêsses raros seres dispondo do condão de reconciliarem com a espécie o homem de temperamento sensível...

Neste devaneio infindável, as horas corriam ligeiras, a tarde baixava, um arrepio friorento passava no parque, entre os troncos, fazia tremer as fôlhas pendentes. O azul, alto e brilhante, empalidecia: e Nuno, voltando das obras, com a roupa em desalinho, despenteado, as mãos cheias de terra, veio encontrá-lo ainda sentado no banco, meditando.

—Cheio de tédio, hein? Mas a culpa é tua, Frederico!—gritou êle, surgindo, de repente, do meio das árvores.

E contou-lhe então, com entusiasmo, como fôra ocupado e fértil em resultados o seu dia, a sua actividade junto dos pedreiros e dos carpinteiros, dando ordens, fornecendo indicações, esboçando projectos de trabalhos mais vastos, pedindo esclarecimentos ao vélho Mateus sôbre a lida agrícola. Até, para se exercitar, para desemperrar as articulações, tirara a enxada ao caseiro e cavara um bom bocado! Mostrava as botas enlameadas, as mãos vermelhas do exercício violento. Frederico, ouvindo-o e como se regressasse das regiões longínquas, irreais, por onde andara com a sua fantasia, atalhou:

—Pretenderás tu fazer-te lavrador tambêm?

—E porque não?—replicou Nuno, muito sério.

—Homem, isso é ainda literatura, poesia rural à maneira das Geórgicas...

Mas Nuno protestava, afirmava que ia pensando, realmente, em dedicar à lavoura a sua existência improdutiva, sendo assim útil a si, aos seus, à colectividade, empregando novos processos de cultura que duplicariam a fecundidade da terra, fazendo experiências em que constantemente pensava desde que se instalara na quinta.

—Porque, sabes tu? Os nossos agricultores seguem fielmente o caminho trilhado por uma rotina secular. Não querem afastar-se dêle, desdenhando as inovações que, com menos dispêndio de fôrças, aumentariam a produção e ofereceriam óptimas compensações.

—Santo Deus, como vais de-pressa!—contrariou Frederico. Mas isso é a multiplicação dos pães de que nos fala uma doce página da Bíblia. A multiplicação dos pães? Que digo eu? Trata-se dum milagre, mais considerável. Chegas, da cidade, vestido como um dandy, nada sabes de agricultura, ignoras mesmo como se produz a torrada que comes ao almôço, com manteiga, mas isso que importa? Tens audácia para tudo! Pegas num punhado de trigo, ao levantar do leito, tomas o teu café, fumas o teu charuto...

—Não rias, Frederico! Olha que começou, na verdade, para mim, uma vida nova...

—Espera, deixa-me acabar!... Espalhas êsse punhado de trigo ao raiar da manhã. Ao meio-dia, uma enorme messe de louras espigas ondula já à aragem, como um mar de ouro fôsco. Á tarde, chamas os ceifeiros, fazes a colheita e enches um celeiro!... É como nos contos do fadas...

— Bem! Não há maneira de nos entendermos—concluiu Nuno. Vamos jantar. Isso é debilidade... A fraqueza excita o teu delírio.

Atravessando os arruamentos da floresta, que escureciam, o jardim, que rescendia, Frederico ainda satirizava as intenções de Nuno, afirmando:

—Se, na realidade, pensas em fazer-te lavrador, em te consagrares à terra, então sempre te digo que há tôdas as probabilidades de que venhas a arruìnar-te...

—Arruìnar-me?

—Não tenhas dúvidas! Um simples pão, que podes comprar por um vintèm em qualquer padaria, agricultado por ti, com máquinas para arar a leira, máquinas para ceifar o trigo, máquinas para a debulha, adubos químicos, outras coisas requintadas e modernas, virá a ficar-te por cinto tostões, o que é, na realidade, barato, não te parece?

Entraram em casa, conversando e rindo. Cá fóra, ao ar livre, anoitecia. O ocaso, com sua tristeza elegíaca e o vago das suas sombras, descia apressadamente. As ramagens dos arvoredos imobilizavam-se na atmosfera. Uma névoa ténue subia da terra para o alto. Das coisas inertes parecia elevar-se um confuso múrmurio que fôsse como que a confissão da natureza para Deus. As criadas acendiam as luzes, na vivenda, e as vidraças lampejavam batidas por um súbito, inesperado fulgor de ouro. Nuno e Frederico lavaram-se, vestiram-se para o jantar, aparecendo na sala já quando os esperava Júlia—e a palestra reatou-se:

—Pois, minha senhora, dou-lhe os parabens!—exclamou Frederico, sentando-se.

—Parabens, porquê?—interrogou ela.

—Nuno está decidido a integrar-se na simplicidade e na lavoura. É bem provável que esta habitação mundana venha a transformar-se em herdade, brevemente.

—Está hoje impossível, Júlia!—retorquiu Nuno. Não compreende que um janota como eu venha a ser um agricultor razoável, a fixar-se aqui definitivamente, a despir-se de todo o artifício por amor à naturalidade.

—Ouve-o? É a renovação que começa. Teremos em Nuno, dentro de pouco, o Jorge Brumell das colheitas.

—E porque não? Porque não?—perguntou Júlia, olhando demoradamente o marido.

—Tambêm V. Ex. a?... Belo! Já está convertida. A coisa é mais importante e profunda do que eu julgava. Assisti, neste lar afável, ao nascimento duma religião nova...

A conversação alegrava-se, sob o reflexo da claridade que fazia relampejar as pratas, scintilar os cristais, alvejar mais puramente os linhos e brilhar com maior nitidez o verniz dos móveis e a coloração das flores que morriam nos solitários. A serenidade em que a vivenda adormecia era tanta que se ouviam os menores ruídos. A criada que servia à mesa, no seu severo vestido preto com punhos e gola de bretanha gomada, ia e vinha sôbre a alcatifa do corredor longo, em passos apressados e miúdos. Da cozinha chegava o rumor das palestras e da louça que se entrechocava. Cães latiam ao longe, pelos casais silenciosos. De vez em quando, o som duma viola passando para os serões ou para as desfolhadas nas eiras, sob a lua branca, poetizava, bucolizava a solidão...

No fim do jantar, Júlia levantou-se, estendendo a face a Nuno para o beijo costumado e apertando a mão de Frederico, para tratar da refeição dos servos. Os dois conservaram-se ainda sentados, fumando e divagando...

Depois, no seu quarto Frederico, sentindo um desalento inexprímivel pesar mais duramente à sua volta, na imensa melancolia dos ideais falhados, no desespêro da ansiedade que o devorava e da incerteza que o consumia, reencetou as suas lucubrações, sentando-se numa poltrona e deixando correr as infindáveis horas de pacificação exterior. O que agora temia era que nêle se viesse a dar o violento conflito do espírito e do instinto, perto de Júlia—o que seria um suplício que mais lhe atribularia a amargura de viver. Observava que já ao lado de Nuno não estava bem, que temia o desconhecido, que experimentava um constrangimento inexplicável. E porquê? De-certo que o amigo tinha para êle as mesmas delicadezas, as mesmas atenções, a mesma inefável simpatia; mas bastava que Nuno o fixasse mais detidamente para que logo julgasse que o seu olhar penetrante pretendia expiá-lo, ler-lhe na alma surpreender os sentimentos impuros que lá se geravam. Suspeitaria dalguma coisa? Teria Frederico deixado adivinhar o seu drama, por uma frase impensada, por uma palavra mais ardente de louvar a Júlia, por um estremecimento de paixão irreprimível que pusesse Nuno de sôbre-aviso? Não! Claramente, não! Tôdas as suas dúvidas nada mais representavam do que uma perversão da sensibilidade nervosa, uma alucinação dos sentidos...

Ainda não sabia se amava Júlia—porque tinha mêdo de interrogar-se; se a desejava carnalmente; se a admiração que lhe dedicava era de essência espiritual ou sensual: mas se, com efeito, era maior a perturbação que o alvoroçava, ninguêm—nem êle mesmo— conheceria êsse amor insensato, que ficaria para sempre secreto, que jàmais seria revelado!...

Enquanto scismava, a casa, sob o afago da sombra nocturna, repousava serena, como a felicidade que a habitava. Apenas do quarto, onde a ama dormia com o filho de Júlia e de Nuno vinha uma claridade dúbia da lamparina acesa, filtrando-se através das bandeiras das portas, que eram de vidro. E Frederico continuava os seus devaneios. Naquele momento, a mulher admirável para quem ascendiam, como um incenso, a sua crença pura e a sua admiração exaltada, adormecia tranqùilamente, junto do marido, tendo ainda na bôca o calor e o perfume dum profundo beijo apaixonado e genesíaco. Êsse calor rosava-lhe a pele da face, acelerava-lhe a circulação do sangue, tornava-a mais linda. Reconstituia-a no sono, a cabeça pousada sôbre a alvura do travesseiro por onde se espalhavam, como uma núvem, os seus cabelos desmanchados, o peito arfando docemente, a carne esplêndida vibrando de desejos... Impaciente, Frederico erguia-se, dava alguns passos irresolutos sôbre o tapête fôfo, e voltava a sentar-se sem poder aquietar. Sentia subir das recônditas intimidades do seu ser um ciúme horrivel pelo amigo, que fruía uma indizível ventura com a posse da mulher esplêndida (que tambêm o aliciava a ele—e com que formidável intensidade! Então, enclavinhando a mão trémula nos cabelos, Frederico revoltava-se contra si próprio.

—Que inferno êste, hein? E que abjecta criatura desperta em mim!...

Na realidade, Nuno era para êle o irmão, a amizade inquebrantável e fidelíssima, a afeição cega. Abrira-lhe confiadamente as portas do seu lar virtuoso, considerava-o como um membro da sua família, devotara-se-lhe inteiramente, mostrara-lhe a alma. E êle, correspondendo a esta confiança, a êste afecto, a esta devoção, estava ali, naquele doloroso momento de tortura, invejando-lhe criminosamente a espôsa legítima, odiando-o pelos beijos que com ela trocava, pela presença de Júlia no seu tálamo—um tálamo que a adoração mútua santificava e em que o ventre da mulher amada recebia o calor que faria germinar as vidas novas e esperançosas.

—Não! Isto é verdadeiramente infame!—exclamava Frederico, acusando-se com rancor.

Deitou-se, mas não podia dormir. A imagem de Júlia perseguia-o; a inquietação permanente irritava-lhe os nervos, exauria-o. Quáse imputava a Júlia a responsabilidade da dor fulgurante que sentia, da agitação que o alucinava; mas logo caía em si, arrependendo-se. Era injusto, inexorávelmente injusto! Ela não fizera nascer, por uma só palavra, por uma atitude suspeita, por uma irreflectida coquetterie, o sentimento funesto que o invadira. Frederico é que

não pudera dominar-se, ser casto, ser nobre, ser refractário a um

desejo vil. O culpado único do seu tormento era êle, certamente. E julgava que, por mais que sofresse, todos os seus sofrimentos não valeriam uma ligeira mágoa que pudesse causar a Júlia, se lhe revelasse o fogo em que ardia; que tôdas as suas lágrimas não valeriam uma única das lágrimas que Júlia choraria, se êle tentasse destruir-lhe uma placidez de que era tam digna, pela alma, pela bondade, pela elevação moral, pela formosura, corpórea.

Em determinados instantes, o seu cérebro tinha uma estranha lucidez. Lembrou-se, repentinamente, de factos, de acontecimentos há muito olvidados. Ocorriam-lhe trechos de leituras feitas. Recordou-se, por exemplo, de ter lido há muito tempo, num livro de que esquecera o título, esta sentença que agora solicitava particularmente a sua atenção:—«Elemento divino e principal, que a natureza produz mas que apenas a vontade aperfeiçoa, a Beleza é uma simples exteriorização da forma. Tudo é susceptível de beleza, do gesto ao acto, do olhar à palavra. Se o primeiro passo perfeito fôr o de concentrar tôdas as aspirações de beleza num sêr único, o segundo será o de preferir a beleza da alma à beleza físicamente

afectiva do corpo». No delírio da sua febre, Frederico construía teorias que lhe pareciam encerrar a verdade total e que logo abandonava, como infantis: e só de manhã, quando uma luz ainda indecisa e fresca se coou através das frinchas da janela, êle conseguiu adormecer, cansado, extenuado pela vigília e pelas emoções intensas. Ao levantar-se, estava pálido, mal disposto, cheio de tédio—e pensava então que a vivenda de Nuno se lhe tornava insuportável de dia para dia...

 

Uma tarde, o amigo abalou para as obras que continuavam activamente. Ao passar no escritório de Nuno, para escolher um livro, Frederico encontrou lá Júlia, que bordava um pano de mesa, sentada à janela abrindo para o jardim e tôda ensombrada por uma trepadeira já sem flor. Frederico sentou-se tambêm, vendo-a trabalhar. Tinha um vestido preto que lhe imprimia maior destaque à brancura das carnações. Na gola da corsage, afogada ao pescoço, fulgurava um brilhante, irrizando-se à luz. Os seus dedos magros manejavam ágilmente a agulha. Como sempre, a noite de Frederico fôra tempestuosa, deixara-o doente e mais aborrecido. Resolvera internar-se no parque, à procura do isolamento, do sossêgo, que apaziguavam o seu frenesi: mas, deparando Júlia, experimentou logo a irresistível atracção que ela exercia sobre o seu sentimento e achou um doce sabor na sua companhia. Seguia mudamente o bordado, com a face encostada à palma da mão; e, para interromper um silêncio que lhe fazia, mal, exclamou:

—Só as senhoras teem paciência para tais tarefas...

—Questão de hábito—respondeu Júlia, sem levantar a cabeça.

—Eu era incapaz de chegar ao fim duma coisa dessas, que me parece mais fatigante e difícil do que os dôze trabalhos de Hércules... Estragava tudo, rasgava tudo...

—Jesus! Pois é assim impaciente?...—perguntou ela, fitando-o.

—Sou assim impaciente!

A radiação da luz fluida, que vinha de fóra, batia em cheio na cabeça de Júlia, aureolando-a; sôbre os ombros descaídos havia tambêm manchas luminosas. Frederico, perturbado, voltou-se para a estante, a escolher um volume.

—Que vaí ler?—interrogou Júlia.

—Sei lá! Talvez uma história triste dalguêm que nunca realizasse as suas aspirações. Estou hoje tam nervoso, tam melancólico!...

—Pois por isso mesmo, devia preferir as leituras alegres, para se desanuviar... E diga-me: Crê que haja pessoas correndo continuamente atrás dum ideal que nunca alcançam?

—Oh! de-certo que há!

—Eu julgo que essas pessoas estão fóra da realidade, e eis porque não encontram nunca o seu mundo...

A voz de Júlia tinha, no seu timbre de ouro, uma brandura acariciante. Frederico, enleado, contemplava-lhe o busto, que era admirável de proporções, a linha, a curva ondulante dos seios que se arredondavam sob os tecidos leves, o pescoço esbelto, o lóbulo das orelhas que o penteado deixava a descoberto e que era côr de rosa.

—Mesmo dentro da realidade—exclamou êle—nem sequer se podem atingir certos ideais.

A solitude em que a casa estava mergulhada assustava-o. Desejava o ruido, o barulho, tudo o que o aturdisse.

—Conhece alguns casos dêsses?—perguntou ela, mirando-o com a face tocada pela graça do riso.

Frederico sentiu uma perturbação instantânea, passou-lhe na mente uma névoa, tôda a resolução anterior se deteve no seu sêr, fez-se-lhe uma espécie de vácuo na consciência, a sua timidez aumentou. Sem poder falar claramente, gaguejava. Êste sobressalto inexplicável excitou ao mais alto ponto a curiosidade de Júlia que o envolvia com a luz dos seus olhos tam sinceros.

—Diga!...—insistiu ela.

—Talvez!—respondeu Frederico. Tenho-me entregado a êstes estudos especiais, porque o maior prazer duma alma é reconhecer outras almas belas.

—Oh! mas essas almas escapam-se a tôda a observação—atalhou Júlia.

—Não. Quando muito, constituem um mistério—mas mistério que se sente...

Desvairado, Frederico levantou-se, encaminhando-se para a porta.

—Tem que fazer?—interrogou Júlia.

—Não... Absolutamente nada.

—Então, sente-se, seja a minha companhia, se isso lhe não desagrada.

—Oh! minha senhora!...

As fontes latejavam-lhe, uma vermelhidão febril afogueava-lhe as faces, a sua respiração acelerava-se.

—E como se denunciam, às vistas perspicazes, as almas de que fala?—inquiriu Júlia, baixando o rosto sôbre o bordado.

—Pelo encanto que irradiam, pelo domínio que exercem, pela inspiração que produzem.

—Julgo que está enganado. As almas femininas, por exemplo, furtam-se às mais subtis análises. Se um homem louvar a beleza duma mulher, ela sorrirá, não se defendendo, mas ocultando-se às revelações íntimas...

—Mesmo quando ama? Sendo o amor a obra da alma, ela revela-se totalmente sob a sua influência...

Insensívelmente, o diálogo entre os dois tinha resvalado para um plano perigoso, e Frederico empregava esforços violentos para subtrair-se às tentações, porque começava a ter receio de dizer tudo a Júlia, de lhe confessar o seu supremo segrêdo, de lhe denunciar, com lágrimas, o seu inferno, o seu tormento de tôdas as horas. Ia-lhe fugindo a faculdade de pensar, de reflectir antecipadamente na significação das suas palavras e de calcular-lhes as conseqùências, porque erradamente supunha que o interrogatório de Júlia, tam natural, tinha qualquer cousa duma provocação.

—Mas ainda me não disse francamente se conhece alguma dessas almas—exclamou ela, de novo.

—Não conheço, mas tenho a certeza de que existem...

—Nos romances?

—Ah! nos romances, há lenda daquele príncipe que se sabia perto da mulher que amava, que lhe sentia as palpitações do coração, mas que não podia tocar-lhe nem vê-la, porque uma cortina de névoa opaca o separava dela!...

Júlia, esquecendo as mãos no regaço, olhou-o então longamente, como se quisesse compreender alguma obscuridade psicológica que pressentia: e Frederico, comprometido, levantou-se logo, rindo um riso nervoso e atalhando: