A Morte Vence

João José Grave · Capítulo 4 de 12

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A Morte Vence

Capítulo III

—Vai. Nós ainda por aqui nos conservaremos, filosofando. Quero iniciar Frederico na formosura da solidão!...—exclamou Nuno.

 

III

 

Os dias deslizavam serenos, para Frederico, no encanto da simplicidade campestre, no íntimo convívio de Júlia e de Nuno. Nenhuma imperfeição da vida dolorosa e amarga alterava a pacificação dum ambiente que se fazia mais doce à volta de tanta ventura humana. Ao contacto permanente das coisas e dos sentimentos puros, o coração de Frederico purificava-se tambêm, como se fôsse um pouco sua a felicidade dos outros. Vivia numa espécie de esquecimento, não se lembrava de ter sofrido moralmente, parecia-lhe que, na sua existência árida, no seu sentimento estéril, desabrochava, por fim, uma rara e ditosa flor. As faculdades emotivas subtilizavam-se nêle; as tristezas, os desesperos que o haviam atormentado em horas inquietas e febris, dissipavam-se na sua alma. Passava por uma funda renovação, penetrava-o uma fôrça estranha, formava-se-lhe na inteligência e na moral um novo princípio: e uma prodigiosa multidão de sensações espontâneas, que não sabia interpretar, convertiam-se, para êle, num intenso fenómeno psicológico.

—Parece-me que vou renascendo, Nuno!— dizia Frederico ao antigo companheiro de estudos. A alegria que existe em tua casa comunica-se-me tambêm aos nervos, à sensibilidade. E é curioso! A minha confiança no futuro, uma confiança que nunca foi grande, aumenta agora sucessivamente. Porquê? Porquê? Que elemento operou êste milagre estupendo?

—É porque só agora desperta em ti a capacidade mental para a compreensão das coisas belas—afirmava Nuno, zombando. O sêr pensante anda inconscientemente perdido no turbilhão do mundo, até ao momento singular em que acorda para a verdade. Tu nunca leste o drama de Ibsen:—«Quando dentre os mortos nós ressuscitarmos»?

—Nunca li êsse nebuloso escandinavo, na realidade...

—Fizeste mal, porque Ibsen ensina-nos a analisarmo-nos com lucidez... Eras um morto. Começas a ressuscitar. E olha que é dêstes bons ares, desta claridade puríssima, da paz rústica, da singeleza que nos rodeia.

Frederico, em momentos de solitude, concentrava-se, para melhor observar o seu caso, que era bizarro: e tinha a impressão de que convalescia duma doença de espírito e de corpo. Nesta convalescença, surpreendia-o um facto enigmático. Com efeito, alvorecia nêle um encanto desconhecido que o absorvia todo, que o exaltava e lhe perturbava os sentidos. Levantava-se cedo, quando ainda a casa dormia na frescura da luz, na ternura matinal, tomava o seu banho bem frio, que o tonificava, descia ao jardim que o orvalho nocturno tornava mais viçoso, passeava nas ruas, fumando, entregando-se ao prazer contemplativo, parando ingénuamente junto dos arbustos floridos. Depois, Nuno levantava-se tambêm, vinha ao seu encontro, ambos encetavam uma animada palestra, que se demorava pelos inefáveis recantos de sombra—por onde circulava um ar estimulante e ligeiro—até ao almôço. Perto de Júlia Frederico principiava a sobressaltar-se, experimentava uma ansiedade confusa que o angustiava. Nem sequer pretendia investigar a origem dêsse sobressalto, por temer que dentro dêle se fizesse uma revelação assustadora e terrível... Via-a andar dum lado para o outro, nas ocupações caseiras, tôda sorridente e natural. A luz difusa imprimia-lhe mais nitidez e destaque às linhas plásticas, dava uma irradiação maior à sua beleza de mulher completamente formada. À mesa, sentada em frente dêle, perto de Nuno, os seus olhos pensativos, iluminando-lhe o rosto, pousavam, por vezes, sôbre Frederico, que se sentia feliz sob aquela muda carícia em que nada de impuro existia: e o tempo ia fugindo, leve e animado, sem deixar resíduos de fadiga.

Nas horas de solidão e de calor, Nuno, cansado, recolhia-se ao quarto para dormir a sésta: e Frederico, pegando num livro, que escolhia na pequena biblioteca do amigo, ou num jornal, dirigia-se ao parque, indo sentar-se no banco de cortiça, sob a mosqueteira que, na tarde da sua chegada, peneirara uma chuva colorida de florações sôbre Júlia e sôbre o filho: e ali, fazendo esforços para recordar-se, evocava com saùdade um passado que já ia muito longe, quando a sua existência era inconsiderada e o seu pensamento não tinha inquietações. Na solidão, no isolamento, estudava-se. Fôra sempre um afectivo, por necessidades de temperamento, talvez por vícios de educação: e, justamente, essa afectividade levara-o outrora para as aventuras de amor, em que procurava o infinito para a sêde ardente que o devorava e em que sempre encontrou o desengano, a desilusão, o aborrecimento, o desgôsto. Certas imagens femininas que mais forte impressão lhe tinham produzido, despertavam um momento nas suas recordações. Lembrava-se, sobretudo, de Adelaide, uma pobre e linda costureira por quem se apaixonara e com quem fez um idílio saboroso que durou seis meses. O alvorôço com que para ela fôra impelido, como se essa mulher pudesse oferecer-lhe a verdade nos seus beijos!... Mas, sossegada a animalidade dum sensualismo grosseiro, apaziguada a febre carnal, viu que se havia iludido, mais uma vez, e que a crédula rapariga que nêle confiara, entregando-se-lhe, nenhum gôzo emotivo e intelectual lhe daria para assim prolongar uma voluptuosidade que a posse arrefeceu.

Nuno reconhecera êste seu romance, tinha-o mesmo reprovado, dizendo-lhe que êle andava a gastar, em caprichos banais da fantasia e da luxúria, e em desvairamentos românticos, a reserva de energia sensitiva de que precisaria mais tarde para uma adoração séria que lhe enchesse tôda a vida, que o transfigurasse. Só depois, quando o desalento surgiu—e com êle o cansaço, o enfado, a saciedade—Frederico verificara que Nuno estava na razão... Que seria feito de Adelaide? Em que lamaçais profundos teria caído? Por que despenhadeiros a iria conduzindo a mão implacável do destino? Frederico, na noite em que decidiu separar-se dela—uma noite

tempestuosa que decorreu entre lágrimas e lamentações—deixara-lhe sôbre a roupa desfeita do leito uma carteira com dinheiro. Fôra a sua primeira acção vil, porque nenhum ouro pagaria a felicidade para sempre destruida duma alma que era virginal quando o seu egoísmo a encontrou; mas, nesse procedimento, reprovável de-certo, guiara-o ainda a generosidade. Parecia-lhe que um punhado de notas de Banco atenuaria o seu abominável feito—e só agora reconhecia o seu êrro e a sua ignomínia...

Com o livro ou o jornal, que não lia, abertos sôbre o joelho, scismando ininterruptamente, seguindo com os olhos vagos as espirais de fumo do charuto, que se esgarçavam e ascendiam na atmosfera luminosa, Frederico, durante longas horas, revivia os seus fantasmas inertes e experimentava a sensação dum pêso contínuo que o esmagava, que esmagava tôda a sua vida. Oh! a bela quimera dum amor eterno, conservando sempre a mesma intensidade, a mesma fôrça superior de atracção, uma fonte inexaurível de sentimento, uma novidade que jàmais, jàmais, se banalizasse para os corações que fizesse palpitar! Existia êle, na verdade? Ou não seria mais do que uma mentira entre o acervo de mentiras de que o mundo estava cheio e que os homens criavam conscientemente para se iludirem a si próprios?...

Mas, quando o seu scepticismo era mais devastador, o exemplo da união feliz de Júlia e de Nuno surgia-lhe como a imagem tangível dêsse amor de que duvidava. Então, para explicar a contradição que lhe exacerbava o sofrimento, construía teorias originais.

—O que há é almas completas e almas incompletas. Umas, possuem uma finura sensível que as torna perfeitamente aptas para a vida amorosa. Outras não teem uma receptividade que as faça vibrar sob as influências dessa vida, e daí deriva todo o mal, que vai espalhando nas sociedades a funda melancolia contemporânea. A alma de Nuno pertence às primeiras...

De resto, Frederico entendia que as verdadeiras mulheres são as admiráveis educadoras do sentimento, as inspiradoras sublimes de tudo o que pode fazer os homens grandes dentro do lar. Júlia era uma dessas mulheres excelsas, pelas graças do corpo e pelas graças mais puras e elevadas do espírito: e a ventura de Nuno provinha de êle a ter encontrado no seu caminho. Por sua parte, em vão buscaria uma criatura assim, que fôsse a companheira ideal e perpétuamente desejada, a amante incomparável, a espôsa atenta, a mãe solícita! Com ela, a sua existência improdutiva entraria numa fase diversa e activa, numa realidade que nunca se extinguisse...

Lembrando-se insistentemente de Júlia, Frederico era assaltado por um sentimento curioso. Tinha a sensação especial de estar encerrado num círculo muito estreito, em que nada havia de claro, de definido, de preciso. Tôdas as impressões da natureza exterior passavam por êle, velozmente, sem lhe provocarem uma simpatia mais demorada. Apenas lhe ficava, na intimidade moral, a noção profunda do seu próprio isolamento, entre a vastidão e o tumulto das aspirações indecifráveis. Sofria essa fascinação estranha que um desejo veemente—que se não abandona, porque o abandôno excitaria o padecimento, e se não procura realizar tambêm, porque a realização teria conseqùências funestas—produz nas almas!... Por cima da sua cabeça, a mosqueteira, ramalhando ao vento, sacudia os seus cachos aromáticos que se desfolhavam numa nuvem loura; ao seu lado, a fonte, correndo no jôrro faíscante da água entre musgos verdes e veludosos, cantava sempre, exalando-se em frescura e murmúrio. Frederico, extenuado de imaginação pelas suas infindáveis rêveries, erguia-se, fechava o livro inútil, o jornal mais inútil ainda, e recomeçava o passeio por entre os arvoredos, por entre os canteiros de flores, onde umas abelhas, tam douradas como as do Hymeto, procuravam o mel. Nuno, às vezes com os olhos inchados de sono, uma preguiça que lhe comunicava lassidão, um pouco còrado, descia ao jardim, perguntava-lhe:

—Em que passaste o tempo?

—Meditando, sentado num banco do parque—respondia Frederico. —Procuras, como S. Bruno, os logares solitários para pensares nas felicidades do céu?

—Homem, ando a tratar da minha conversão e S. Bruno, efectivamente, é um modêlo desejável.

—E se fizéssemos uma jornada mais larga, por êsses campos, por essas amplidões? Júlia podia ir tambêm...

—Acho o teu alvitre muito digno de ser aceito.

Iam acima chamar Júlia, calçar luvas que lhes resguardassem as mãos dos bafos da soalheira e do pó cáustico dos caminhos, e na suavidade maravilhosa da tarde, rindo, conversando, sensíveis ao mais fugidio eflúvio do ar ambiente, metiam pelos atalhos escorregando por entre sébes que as madre-silvas perfumavam, por azinhagas onde havia repouso e penumbra, por congostas que os ervaçais reverdeciam. A essa hora do dia, no delíquio da luz que principiava, tudo era gracioso, jovial. Dos casais disseminados pelas terras cultivadas, subiam colunas delgadas e direitas dum fumo branco, que algodoava o espaço. Nas eiras secava o milho, que lembrava pequeninas bolhas de sol cristalizado. Errantes, nas pastagens, os bois erguiam um instante a cabeça, para os ver passar, fitando-os com uns grandes olhos de infinita melancolia. Júlia que marchava à frente, na elegância dum vestido de tecidos leves que lhe modelava puramente as formas corpóreas, assustava-se, tinha mêdo, soltava pequeninos gritos, acolhia-se à protecção de ambos. A palha do seu chapéu em que, entre laços de veludo negro, destacava a côr sugestiva de pálidas rosas de toucar, fazia-lhe uma sombra doce no rosto adorável. Nuno animava-a:

—Que mulher! Que criança! Tem mêdo dos bois, que são tam mansos. Oh! tôla! Olha que não fazem mal!...

Frederico ria-se e achava-a encantadora.

Cortavam através das pradarias, das lezírias, das veigas, ao acaso, sem fim. Às roupas de Júlia prendiam-se os perfumes dos fenos atravessados, que as suas saias roçavam, as seivas vitalizadoras das ervas esmagadas. Sentiam uma grande e nobre pacificação interior. O gôzo íntimo emmudecia-os.

—Hein, Frederico? Como isto é diferente da cidade! Era preciso que

conhecesses a aldeia, homem. A aldeia é a verdade—dizia Nuno, entusiasmado.

Frederico não conhecia a aldeia, com efeito, e nunca imaginara, vendo-a através das janelas de combóios lançados a tôda a velocidade, que pudesse seduzir sêres civilizados; mas, eis que ela se lhe revelava, totalmente, por uma feição atraente, que o cativava.

Louvava, com sinceras palavras, a fertilidade dos extensos domínios, que são o Calvário da gente humilde e que a sua dor, o seu suor, a sua miséria, fecundam; as casas dos camponeses, duma arquitectura rudimentar; os milheirais de longas fôlhas já sêcas, ondulando e rangendo à aragem; a paìsagem que a luz, fulva e rutilante, espiritualizava, transmitindo-lhe animação, uma vida quáse supersticiosa, insuflando-lhe uma alma. De quando em quando, Júlia, batendo as palmas de contente, detinha-se para observar de perto as trepadeiras silvestres que se cobriam de florescências cheirosas, e as suas mãos, que eram tam lindas, tinham delicadezas extrêmas ao tocarem nas folhagens, nas corolas rescendentes.

—Veja que beleza, Frederico!—convidava ela.

E fazia um ramo que prendia, com alfinetes, na blusa de sêda—uma sêda transparente que o tom sadio e casto da sua carne rosava.

A cada momento deparavam vergeis em que os frutos apetitosos amadureciam. Nos ramos mais altos, as maçãs còravam ao calor como faces humanas; as laranjas, no meio das fôlhas, redondas e amarelas—dum amarelo brilhante,—ofereciam-se às gulodices. A terra mostrava-se hospitaleira e generosa, e Frederico, já iniciado, sob o céu que tinha a meiguice dum amoroso olhar humano, compreendia, enfim, que essa terra, mãe piedosa e inexaurível, comunicasse às criaturas um pouco da sua bondade clemente, da sua energia vigorosa, inspirando-lhes uma regra justa da vida. Diante dos casebres pobres, Júlia, compadecida, parava, contemplando com piedade as crianças rotinhas e sujas que brincavam pelos portais e pousando-lhes os dedos sôbre as cabeças. Elas fitavam-na, espantadas, com um secreto temor no olhar.

—A vossa mãe?—perguntava.

—Não está cá—respondiam elas, com modos agressivos.

Dava-lhes moedas de cobre, amimava-as com essa ternura que só as mulheres felizes conhecem, enquanto Nuno, enojado da porcaria em que a gracilidade daquela infância murchava, dizia:

—Nas aldeias há, de-certo, muita pobreza, muita penúria. Mas tambêm há muito desleixo. Oh! senhores, uma tina de água transformaria em flores êstes pequeninos selvagens!

—Que queres tu, Nuno?—atalhava Júlia, condoída. As desgraçadas mães trabalham um dia inteiro e quando chegam a casa o que querem é repousar.

Vendo-a assim, luminosa, pura e branca no meio das meninices desditosas, Frederico tinha a visão deslumbrante duma aparição celeste baixando do azul, num vôo brando, para consolar aflições, acolher no seu desamparo as plebes lacrimosas, sarar feridas, suavizar torturas: e cada vez a sua admiração por Júlia mais crescia. Nela tudo era perfeito, sedução, perfume, ritmo, claridade: e o encanto que derramava à sua volta penetrava-o até ao âmago da consciência. Pensando na sua beleza, na unção da sua bondade, abstraía-se por tal modo que até chegava a esquecer Nuno, marchando ao seu lado: e era-lhe necessário fazer um esfôrço violento para reentrar na realidade das coisas.

Nestes instantes, analisando-se, espavorido, perguntava a si próprio se não estaria interessando-se demasiadamente por essa mulher tam digna e tam cândida que, legítimamente, pertencia ao seu melhor, ao seu único amigo. No espírito passava-lhe confusamente a recordação doutros dias já extintos em que, entre êle e Nuno, se fôra consolidando uma camaradagem nunca interrompida; e, por isso mesmo, julgava que a fôrça secreta que o impelia para Júlia era uma traição... Uma traição? A esta ideia, ficava transido de terror e ansiosamente pretendia conhecer a essência da sua admiração, da sua simpatia, para ver se nelas surpreenderia qualquer coisa de impuro: mas, a análise minuciosa tranqùilizava-o. Não! Não existia nenhuma impureza no seu sentimento. Amava Júlia santamente, como amaria uma irmã mais nova.

—Em que diabo vais tu a matutar, Frederico?—interrogava Nuno, intrigado com a sua prolongada mudez.

—Eu? Em nada! A paz rural mergulha-me num estado psíquico de tal ordem que me torna incapaz de sustentar uma conversa. Verdadeiramente, nem sei o que hei de dizer. Custa-me a articular os vocábulos, a construir as expressões.

Quando o crepúsculo, descendo progressivamente, idealizava as perspectívas e desdobrava sôbre arvoredos, sôbre outeiros, pelas encostas, pelos vales mais fundos, uma sombra e uma névoa que de instante para instante se adensavam e gradualmente escureciam, regressavam a casa, satisfeitos, reconciliados com a natureza que lhes ofertava alegrias, prazeres nunca experimentados. Júlia, pousando os ramos de flores silvestres, que sempre trazia das suas digressões pela campina, corria para o filho, já saùdosa da sua inocência, da sua formosura. Devorava-o com beijos, acariciava-o com meiguice, mostrava-o, orgulhosamente, a Nuno, que sorria enlevado, a Frederico, que a fitava num alheamento. Os stores subidos das janelas deixavam entrar os derradeiros fulgores da claridade expirante. Lentamente, o céu embranquecia. Longe, as linhas dos montes tinham enredamentos complicados que decompunham uma paìsagem quáse sem realidade, fantástica, cheia de vago e de mistério.

—E se tu tocasses alguma coisa antes do jantar, Júlia?—lembrava Nuno. Até nos abria o apetite...

—Pois sim! Que queres que eu toque? Prefere alguma composição, Frederico? Ou tem horror á música?

—Eu, minha senhora? Sou um guloso do som...

A delicadeza de Júl A delicadeza de Júlia, interrogando-o sôbre as suas preferências musicais, encantava-o. Não seria isto já uma correspondência da simpatia fraterna—oh! simplesmente fraterna— que sentia por ela? A suposição alvoroçava-o.

—Que eu toco mal, muito mal. Não me julgue uma grande artista. Há dificuldades que nunca me foi possível vencer. Preciso que me escute com benevolência...

—Deixa falar, Frederico. É exímia, por exemplo, em Chopin—nos Nocturnos,—afirmava Nuno.

Júlia, protestando, sentava-se ao piano. O marfim das teclas reluzia ainda no fulgor indeciso da luz moribunda. O verniz dos móveis perdia o brilho. A sombra parecia prender-se molemente aos cortinados de renda, amontoar-se aos cantos: e um Nocturno soluçava, em harmonias, sob os dedos afusados de Júlia, em que as pedras dos aneis chamejavam fogos mortiços. Nuno e Frederico, sentados em poltronas de molas flácidas e embalados pelo afago da música, em que vozes ignoradas, vindas de muito longe, das mais recônditas regiões da alma, se lamentavam, narrando a tristeza das aspirações nunca alcançadas, os sonhos de amor traídos, as ilusões nunca realizadas, fechavam os olhos para mais se absorverem no segrêdo, no mistério espiritual dessa música divina que pouco a pouco, e por influxo da sua beleza, da sua potência expressional, da sua doçura penetrante, extinguia todos os azedumes, acalmava, pacificava as imaginações sobreexcitadas, era como que uma simbólica promessa de aspirações veementes que haviam de realizar-se e parecia conter em si o sentido oculto da graça de viver. Fóra, na noite silenciosa, a lua branca e enorme flutuava no céu, entornava o seu luar suave como uma carícia pelo jardim adormecido, sôbre as ramagens dos arvoredos imóveis do parque, alongava as formas, transmitia às coisas inertes quáse que uma emoção.

Na cozinha, em baixo, a vélha Margarida terminava o jantar. O clarão vermelho do lume, que ardia no fogão, irradiava, reflectia-se em cheio nos cobres e nos metais, que resplandeciam, enquanto dois belos gatos ingleses, cinzentos e listrados de negro, ronronavam ao calor, enrodilhados debaixo duma mesa. Depois, o piano calava-se, numa derradeira vibração de som: e na tranqùilidade que envolvia a vivenda, a sineta retinia, anunciando festivamente a refeição, que se prolongava até tarde, entre as conversas.

Muitas vezes, se o tempo corria brandamente e a temperatura convidava, Frederico e Nuno baixavam ao jardim, fumando e palestrando, ou, com Júlia, iam sentar-se à varanda, entre as avencas, os fétos arbóreos, as begónias, contemplando a scenografia nocturna, que era surpreendente. Os campos solitários, sob o fulgor do luar, repousavam sem um sussurro. Um lento nevoeiro elevava-se para o alto como uma ténue nuvem de algodão, esfumando a paisagem. Os casais adormeciam na efusão luminosa, extenuados da lide diurna. A paz que caía sôbre a natureza, como uma bênção de Deus, era infinita e inexprimível. De instante a instante, a aragem desprendia das frondes fôlhas mortas que baixavam vagarosamente, quáse imperceptíveis, que se demoravam um momento, no ar, trémulas, hesitantes como asas de falenas. No seu recolhimento, Júlia dizia, em voz baixa, para não perturbar o enlêvo contemplativo em que os três se abismavam:

—Admirável! Admirável! Só o campo ainda pode oferecer êstes espectáculos aos que veem do ruído, da barafunda das cidades!...

O timbre da sua voz, que era muito puro, mais encanto imprimia ao êxtase do Frederico, sentindo que alguêm muito suavemente lhe falava à alma para revelar-lhe sensações nunca experimentadas...

 

Nessa manhã, Júlia, que estivera tocando a Sonata Patética, de Beethoven, descansava ainda os dedos fatigados sôbre as teclas, enquanto Nuno e Frederico, encostados ao peitoril da janela, espreitavam o parque. Uma criada entrou, de repente, na sala, com o correio. Eram cartas e jornais, de que êles logo se apoderaram para conhecerem o que a cidade, pela sua imprensa ou pelas suas epístolas, lhes revelaria de mais importante. Em face da pressa com que ambos correram para a correspondência, Júlia riu saborosamente, comentando:

—As grandes aglomerações hão de ser eternamente tentadoras para os que um dia habitaram a sua perigosa confusão.

—Porquê?—interrogou Nuno.

—Ora! Ainda perguntas! A ansiedade com que todos os dias esperas o correio! E dizes que te agradaria ficar aqui, para sempre...

—Viva! Viva!... Sim, senhor!—bradou Frederico, de súbito, concluindo a leitura duma carta.

—Que é, homem?

—Pois, é uma coisa estupenda. Nem podem imaginar!...

—Entrou a revolução no Vaticano? Foi proclamada a monarquia na Suíça?

—Santo Deus, não. Êsses factos consideráveis não me causariam surprêsa, porque hão de dar-se àmanhã, daqui a um ano, a dois séculos... O caso é êste:—a Alice Tôrres fugiu ao marido.

—A Alice Tôrres? Quem diabo é essa Alice?—perguntou Nuno.

—Ora, tu conheces... A Alice, uma loura, casada há dois anos com o Fernando Tôrres, que foi nosso condiscípulo na Politécnica e que não concluiu o curso...

—Ah! sei, sei... Perfeitamente... Agora me lembro. E tu tambêm conheces, Júlia.

Voltaram-se ambos para ela, que ainda se conservava ao piano, muito còrada do pudor melindrado.

—Sim, eu conheço-a... É uma infeliz!

—Infeliz?... Não, o nome que ela merece é outro mais violento.

—Oh! Nuno! Jesus!...

—Queres, talvez, desculpá-la?

—Não! Lamento-a... O seu acto não tem desculpa, mais inspira compaixão.

—O que êle inspira, no meu entender, é bengaladas—atalhou Nuno, brutalmente.

—O que, porêm, torna mais reprovável esta fuga é que o homem que ela seguiu foi o Vaz de Sousa, o amigo íntimo, a inseparável sombra do marido—comentou Frederico.

—O que? Que porcaria é essa?—atalhou Nuno, com furor.

—Exactamente!... Com o Vaz de Sousa. Está aqui a coisa com todos os pormenores, nesta carta que me escreve o Alfredo de Oliveira.

E, para dar às suas revelações um ar mais solene e verídico, Frederico leu alguns trechos menos escabrosos.

—Ouçam, que tem graça:—«O grande escândalo da semana forneceu-o a mulher do Fernando Tôrres, a scismadora dos olhos ideais, que se safou, com tôda a semcerimónia e todo o descaramento, com o Vaz de Sousa, visita permanente dêste curioso ninho conjugal. Simpatia romântica? Admiração pelo ôlho lúbrico e pela melena do amante? Não sei! Mas o palerma do marido—que nunca percebeu que os dois há muito conjugavam o verbo inglês To flirt—está como uma bicha. Há miopias fatais e a de Fernando foi uma delas... Aqui tens tu!...»

Nuno, muito sério e sombrio, cofiava o bigode, enquanto Frederico lia. Júlia, emmudecida, curvada mais sôbre o piano, batia nervosamente com a ponta da unha sôbre um caderno de músicas. O silêncio tornava-se angustiado e embaraçoso para os três.

—Que fará agora Fernando?—perguntou, finalmente, Frederico, levantando-se da cadeira em que estava sentado e dando alguns passos sôbre o tapête.

—Não faz nada!—replicou Nuno. É um imbecil e, alèm disso, é um grotesco. Ainda havemos de vê-lo, outra vez, muito amigo da mulher, depois de perdoar à Madalena arrependida. Coitado, tem bom coração, é inultrapassavelmente cómico e a sua dignidade é uma hipótese...

—Crédo, Nuno!—interveio Júlia. Pois, é lá possivel?

—Com êste idiota, tôdas as vergonhas são possíveis—afirmou sêcamente.

Ergueu-se tambêm, torceu o bigode com fúria e depois, de mãos nos bolsos, parando diante de Frederico:

—Se êle fôsse, na realidade, um homem, sabes o que fazia?

—Procurava uma solução violenta...

—Tu o disseste... Porque esta traição carecia dum castigo tremendo, exemplar, moralizador. Portanto, partia atrás dos fugitivos, com um bom punhal ou uma bôa pistola, corria até os encontrar, e, seguidamente, frio, implacável como a vingança, abatia-os a tiro como dois animais malfazejos e imundos, retalhava-lhes as carnes sórdidas à punhalada, molhando bem as mãos no sangue culpado, que escorresse das feridas, para se lavar...

Nuno falava apressadamente, com uma raiva concentrada nos olhos, que fulguravam. Júlia desconhecia-lhe aquela cólera que de súbito irrompera, costumada como estava a vê-lo sempre afável, sempre terno, cheio de delicadezas e de tolerâncias para tôdas as fraquezas humanas.

—Não há nada que mais me transtorne, que me perturbe até à loucura, do que uma deslealdade—explicou êle. E neste caso, Frederico, há deslealdade e há vileza. O coração humano tem abismos de infâmia insondáveis...

Júlia levantou-se, pensativa e atribulada. Pensava na doida que um engano de amor fazia desertar do lar, para perseguir aventuras ilusórias, obrigando-a a romper com o respeito e a consideração da gente honesta, com as convenções sociais, a cobrir-se de lama, a preparar por suas próprias mãos um destino que seria doloroso e cruel. Tinha-a conhecido no colégio, outrora, na mocidade, fôra mesmo amiga dela até ao momento em que a vida as separara. E compadecida com aquele desvairamento, encontrava na sua bondade e na sua pureza um sentimento para atenuar a sua culpa.

—Vais-te?—inquiriu Nuno.

—Tenho tanto que fazer, filho!—respondeu ela.

Nuno e Frederico ficaram sós, no salão que a luz, entrando pelas vidraças descidas, alegrava. Sentaram-se em frente um do outro, reatando a conversa momentâneamente interrompida.

—Ela era uma cabeça no ar—dizia Frederico. E o ludibriado não valia mais do que a mulher.

—Todos os maridos—retorquiu Nuno com rancor—teem as mulheres que merecem; e êsse Fernandete, já depois de casado, continuava uma existência de devassidões. Ora, o casamento é um acto de responsabilidade que deve confinar-se na fidelidade mútua dos cônjuges. Fóra dêstes limites de dignidade e de nobreza, transforma-se numa miséria. Mas o que me indigna não é a fuga da adúltera. Caso banal... Ocorre constantemente... E muitas vezes, mesmo, pode até justificar-se.

—Então que é?

—Mais desprezível do que Alice e do que Fernando é êsse Vaz de Sousa, abusando duma estreita amizade e da entrada num lar que o recebia confiadamente, para praticar as suas odiosas façanhas...

—Sim, com efeito!...—aprovou Frederico.

—É reles, é dissolvente de tôda a moral.

E puxando mais a sua cadeira para junto do amigo, para que só êle o ouvisse nas confidências que ia fazer-lhe, Nuno continuou:

—O primeiro dever do homem justo é saber defender integralmente a sinceridade dos seus afectos—porque para isso pensa—e saber dominar o impulso das suas paixões bestiais—porque para isso difere dos brutos e tem uma consciência. Posso falar assim, porque já tive de repelir ásperamente dos braços a espôsa dum conhecido —um simples conhecido, nota!—que por fôrça queria enxovalhar o marido comigo.

—E quem era essa interessante dama?

—Perdoa-me. Não to digo—afirmou Nuno com energia.

—Desculpa-me... A minha curiosidade é, na verdade, irreflectida...

—Foi no último ano do nosso curso... Nunca te falei nisto, por dignidade, porque me rebaixaria. Há coisas que sujam... Mas, o mais pitoresco é que êsse marido e essa dama se transformaram, mais tarde, em meus inimigos irreconciliáveis!... Não é encantador?... Embora! Ainda hoje me louvo por esta acção, que é uma das mais belas da minha vida, Frederico!...

—Efectivamente, há beleza, há coragem, há heroísmo nela. Só conheço um acontecimento semelhante na História Sagrada—riu Frederico.

—Tu, que és justo e que és leal, vê isto:—Mete a gente, ingénuamente, na sua casa um homem que nos merece a maior confiança, para quem vai a nossa dedicação, tôda a nossa afectividade. E desde o primeiro dia em que lá entra, êsse homem, êsse amigo certo, começa a observar que a nossa espôsa é bonita e apetitosa, que deve ser tentador o sabor dos seus beijos e doce a palpitação da sua ternura. Como goza de favores que só se concedem às pessoas que verdadeiramente se estimam, há para êle as maiores deferências. Surgem as ocasiões propícias à traição, veem as intimidades, as fraquezas da mulher confiante. Diz-se-lhe uma palavra mais ousada, que lhe melindra a candura, mas que a não faz protestar. A sua passividade dá coragem ao sedutor para levar mais longe a audácia. Depois, ambos cúmplices no crime premeditado, encontram nêle solicitações cada vez mais fortes. São os sustos perto do marido que se engana abominávelmente, a suspeita de que êle venha a descobrir tudo e se vingue, os olhares medrosos que se trocam. Por fim, chega-se à quéda irremediável, a maior injúria com que se pode humilhar uma criatura. E de quem parte essa injúria? Duma pessoa indiferente ao nosso sentimento, alheia aos nossos interêsses morais, à nossa alma? De modo algum! Parte dum amigo!...

—É horrivel, na verdade!—asseverou Frederico.

—É pavoroso!

—Mas, sabes o que eu ainda não consegui entender bem, Nuno? Pois, é isto. Nos casos de adultério em que a mulher prevarica, as

ironias insultantes da multidão vão para o marido. Para a prevaricadora existem a piedade e a absolvição!...

—Iniquidades sociais. A turba-multa é sempre impulsiva, injusta, não raciocina, não procura ser equitativa nos seus juízos... Mas, por isso mesmo, os traídos teem de desafrontar-se com a maior ferocidade. Eu, no logar de Fernando, matava-os! Matava-os, trucidava-os, despedaçava-os como bêstas feras!...—concluiu Nuno, rilhando os dentes de furor.

Júlia, surgindo imprevistamente, veio surpreendê-los ainda no comentário fatigante daquele escândalo clamoroso, que punha uma sombra mais negra na fisionomia de Nuno e que não deixava expandir livremente a jovialidade de Frederico.

—Então, aqui fechados, com um dia que é uma delícia, um verdadeiro dia de rosas?—exclamou ela, com uma extraordinária animação no rosto.

—Tens razão! Êsse animal do Tôrres, com as suas infelicidades caseiras, veio estragar a nossa paz de espírito—murmurou Nuno. Queres ir até lá abaixo, ao fundo da quinta, onde trago obras importantes na habitação do caseiro, Frederico? É uma diversão que nos há de fazer bem!...

—Não! Se mo permites, aproveito o tempo para pôr em ordem uma correspondência atrasada e desordenada. Olha que estou aqui, na tua hospitaleira vivenda, há duas semanas e ainda não respondi a ninguêm! Quem sabe se me julgarão morto ou exilado?

—Bem! Então vou eu. Cumpre os teus deveres de bisbilhotice.

—E eu acompanho-te, Nuno—acudiu Júlia.

—Tu? Mas é admirável a companhia. O príncipe e a princesa passarão as horas fazendo le tour du proprietaire e oferecendo-se à veneração dos seus súbditos, dos seus vassalos, dos seus escravos... Então, de-pressa! Vem daí.

—Ando há tanto tempo para ir ver essa pobre gente, essa entrevada de quem me falaste, essas crianças desgraçadas...—disse Júlia, comovida.

—Au revoir, Frederico. E sê prolixo, homem... Olha...

Curvou-se ao ouvido do amigo, murmurou qualquer coisa que Júlia não pôde perceber, e riram ambos com alacridade. Descendo a escada, atrás da espôsa, Nuno ainda ria, jovialmente, enquanto Frederico se encerrava no escritório, diante dum tinteiro, de cadernos de papel de cartas e duma jarra com rosas frescas que Júlia tôdas as manhãs renovava para que ali houvesse continuamente graça, côr e perfume.

Sôbre a escrivaninha de pau preto com ferragens amarelas e polidas que refulgiam, brilhavam no banho fluido da claridade envolvente, havia um soberbo retrato de Júlia, representando-a vestida de baile, em corpo inteiro. A sua beleza, a-pesar-de morta na fotografia, tinira uma pureza de linhas, uma opulência de contornos, um relêvo, um esplendor indizíveis. O decote deixava a

descoberto o princípio do seio, que era redondo e farto; o pescoço, desafogado da espuma das rendas, exibia uma elegância e uma nitidez impecável de modelação, tendo a gracilidade e o movimento de certos caules de flores, ondulando à aragem. Uma expressão de felicidade sem nuvens animava todo o seu rosto; e uma grande rosa prendia-se à corsage. Frederico esteve contemplando o retrato um instante, perdido em vagas meditações. Como ela era graciosa e divina, efectivamente! Os seus olhos tinham um encanto virginal ainda—um encanto que as lágrimas não haviam queimado. De tôda ela se exalavam, imperceptivelmente, a castidade, a sedução, a ternura. A casa estava impregnada da sua personalidade, da sua virtude, do seu enlêvo. Júlia era a bôa deusa familiar que enchia, com a sua alma, com a sua dedicação de mulher, com a sua abnegação, com o reflexo da sua formosura, aquela habitação em que um amor tam nobre vivia e se esquecia dos males da existência. E Frederico via-a sorrir ao lado de Nuno, mais presa do que nunca à sua paixão, suavizando-lhe os dias, acalmando-lhe as inquietações, assistindo à formação das suas vontades, dos seus desejos, das suas ideias, para imediatamente obedecer-lhe, oferecendo-lhe a bôca num beijo. Experimentava uma inexprimível consolação interior, pensando nela...

Ao mesmo tempo, e sem saber porquê, acudia-lhe à memória a cólera tempestuosa de Nuno, quando soube da fuga da mulher de Fernando Tôrres com o outro—uma cólera que se adensava no olhar, que ardia, que coriscava, que chamejava... Os dois amantes iriam agora, entregues ao ardor da sua volúpia pecaminosa, impura, talvez para as cidades estrangeiras onde melhor pudessem ocultar-se, na embriaguez dum gôzo que dura apenas um fugaz minuto e com que a desgraça fabrica a dor, que é eterna. Mas ao menos, considerava Frederico, seriam felizes. A si mesmo perguntava se êsse minuto, de que restaria uma perdurável recordação, não constituirá a felicidade duma vida, de duas vidas inteiras...

Para fugir ao curso mórbido das suas lucubrações, Frederico levantou-se, aproximou-se da janela, na ponta dos pés, como se temesse que o sentissem. Na radiação loura da manhã, uma alegria esparsa flutuava sôbre as coisas. De baixo, do jardim, subia um arôma adocicado. Nuno e a espôsa, de braço dado como dois namorados, afastavam-se ao longe, através dos arvoredos do parque. Por entre os troncos musgosos alvejava a brancura do vestido de Júlia—brancura que ficava pairando no ar macio... Frederico voltou a sentar-se. Uma grande, confusa tristeza abatia-se sôbre o seu coração...