A Morte Vence

João José Grave · Capítulo 10 de 12

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A Morte Vence

Capítulo IX

—É verdade, Júlia—dizia uma noite Nuno. Sabes de quem me lembrei agora, repentínamente? Foi de Frederico! Ainda nem sequer apareceu!

—Pois tu não tens saído, nem sequer lhe escreveste! De-certo que ignora o nosso regresso. Ninguêm o sabe, alêm dos vizinhos... E pode ser até que não esteja no Pôrto...

—Ah! não! Não deixaria a cidade sem me avisar... E estou zangado com êle—concluiu Nuno, risonhamente. O coração dum verdadeiro amigo devia adivinhar. Serei duro, quando o aviste. Há de ouvi-las bonitas...

Fóra, na rua, os candeeiros de iluminação pública chamejavam ao vento, sob um céu acarvoado. A patrulha da guarda deslizava como uma sombra, sem ruído. A aglomeração das casarias ia adormecendo no silêncio nocturno...

 

IX

Frederico sentia-se cada vez mais esgotado de energias, mais fraco de vontade, à medida que se gastava nos delírios da paixão carnal, nos desvairamentos duma existência que nem sequer procurava já equilibrar, porque a vida, para êle, perdera todo o interêsse. À sua excitação física, de dia para dia mais intensa, correspondia um desfalecimento moral que constantemente se agravava, debilitando-lhe o carácter, secando-lhe as fontes criadoras de sensibilidade. Convencido da sua própria impotência, trazendo no peito um coração árido, invadido por uma dolorosa melancolia que só os acessos da sensualidade, em horas letais de luxúria, conseguiam dissipar por momentos, levava uma existência desregrada de prazeres de tôda a sorte, em que a luz da sua própria inteligência, tam lúcida outrora, principiava a vacilar. Contudo, conservava-se no seu sentimento alguma coisa que não queria morrer, que era vivaz, persistente, que se obstinava em persegui-lo, empurrando-o violentamente para as maiores loucuras:—o seu amor por Júlia. Era uma obcecação, uma ideia fixa que o aguilhoava sem repouso, por mais que pretendesse esquecê-la. Temendo que o isolamento, a solitude, exacerbassem essa adoração perversa e abominável, que o enxovalhava sempre que espreitava, espavorido, a própria consciência, freqùentava os teatros e o jôgo assíduamente e perdia grossas quantias com absoluta indiferença, porque apenas desejava aturdir-se: arranchava a comesainas tumultuosas com os amigos e ía depois, exaltado pelo alcool, passar a noite com Branca, que definitivamente se apossara dêle e que Frederico considerava como um mal necessário ao apaziguamento da sua tortura, como uma ilusão mentirosa de que derivava, para a sua inquietação permanente, um pouco de tranqùilidade. Os seus nervos enfermos careciam daquela mulher, como certos doentes carecem de venenos para adormecer uma dor fulgurante que os angustia. Consagrava-lhe por isso reconhecimento em vez de ódio. A casa em que a tinha instalado, com riqueza e luxo, era para êle, nas horas de maior atribulação, o logar que uma graça consoladora habitava. Nestes momentos devastadores, submisso como um crente, pousava sôbre a fronte doce e pálida de Branca um beijo quáse religioso, que ela lhe agradecia com um sorriso inexpressivo.

Em certos instantes mais calmos, porêm, quando podia observar-se com lucidez, julgava-se serenamente, acusava-se de se estar aviltando e praticando uma infâmia, procurando apagar com a febre duma lascívia brutal a recordação dum amor puríssimo. Alarmado, cheio de remorsos, entregava-se a longas cogitações, tentando encontrar uma explicação para aquela anormalidade. Que natureza vulgar ou grosseira era a sua que, em vez de ter uma origem de inspirações divinas na paixão amorosa mais elevada que até aí o fizera vibrar, tinha nela, afinal, só um estímulo que o impelia para as abjecções deprimentes? Como é que o amor por Júlia não iluminava a cegueira da sua alma, o não sublimava de tôdas as imperfeições terrestres? E seria, na verdade, amor o que por ela sentia ou apenas um desejo bestial:—o desejo do seu corpo tam perfeito, da sua carne esplêndida, da sua beleza perturbante? Duvidava da sua sinceridade, e sofria mais amargamente por esta dúvida.

O entusiasmo que a ideia duma demorada viagem pelo estrangeiro nêle despertara, em breve arrefeceu. Não manifestava curiosidade por nada: a alegria de viver havia fugido do seu espírito: e pensava, com terror, na perspectiva de sair de sua casa, do seu país, para meter-se, com um monte de malas, em combóios que rolassem monótonamente por terras desconhecidas, para viver na barafunda dos hoteis, entre multidões indiferentes e egoístas. Que enorme alteração tudo isto representaria para os seus hábitos rotineiros, que fadiga mesclaria ao seu cansaço e que tédio juntaria ao seu aborrecimento! E, afinal, para quê? Que lucro positivo tiraria êle duma vagabundagem a outras nacionalidades habitadas por povos diversos do seu? Não lucraria nada! De resto, só se deve viajar em absoluta serenidade espiritual, em pleno contentamento de alma: e Frederico não possuia nem essa serenidade nem êsse contentamento essencial. Não! Não abandonaria o Pôrto. Neste burgo se iria definhando, consumindo, aniquilando!...

Às vezes, Branca, abraçando-o, amimando-o, com carícias em que se não escondia o frio, a secura, o desinterêsse, relembrava-lhe a promessa que Frederico lhe fizera de a levar ao estrangeiro. Gostava tanto de ir a Paris! Ai! Paris era a sua ambição! E, para o convencer, apontava-lhe exemplos de rapazes com dinheiro que tinham ido com as amantes, numa jovial jornada, por essa Europa fóra.

—O Gusmão, por exemplo! Levou a Adriana.

—O Gusmão?—inquiria Frederico. Quem é êsse Gusmão?

—Ora! Tu conheces!... Um trigueiro, de grandes bigodes, que tem um lindo automóvel e que vive aí para os lados de S. Roque. Há quantos anos êle pôs a Adriana por conta! É como se fôssem casados. Aquela sim. Está de grande!...—terminava Branca, fazendo beicinho.

—Pois tambêm tu hás de ir ver a Europa, sossega. Mas mais tarde... Por enquanto, não posso. Preciso primeiro de deixar umas coisas em ordem—afirmava êle, sentando-a nos joelhos e passando-lhe um braço à volta de pescoço.

—Sim, sim! Bem acredito eu nisso!...

—Não acreditas!... Olha para mim... Mas olha bem de frente. Dize lá. Eu tenho cara de quem mente?...

—Não quero dizer que mentes...

—Então, que queres dizer?...

Ela não respondia, fazia-se mais amáv Ela não respondia, fazia-se mais amável entre os seus braços, pousava-lhe a cabeça no ombro, muito terna, muito quebrada, com geitos estudados e pieguices; e Frederico, perturbado, beijava-a furiosamente, exclamando:

—De resto, para sermos felizes, não precisamos de sair daqui...

Uma noite, de volta do teatro Sá da Bandeira, onde fôra ver uma revista deplorável, sem vivacidade, sem espírito, sem arte, maculada por ditos e situações lúbricas, encontrou na rua o jovial Paiva que passava, muito embuçado, rente às paredes.

—Pára aí, criatura—bradou Frederico. Há quanto tempo te não vejo!...

—Oh! menino! Pois és tu?—respondeu Paiva.

Cumprimentaram-se, trocando um demorado apêrto de mão.

—Para onde diabo vais, a esta hora e com tanto mistério, Paiva magnífico?

—Vou para o namôro.

—Para o namôro?...

—Sim! Um caso de sentimento, uma inclinação irresistivel, com diálogos de janela, noite alta—porque o pai é austero—com estrêlas que se contemplam tristemente, com suspiros. Coisa muito séria.

—Oh! Paiva! Tambêm tu?

—É verdade, grande Frederico. Tambêm eu! Que queres? Assim acabam todos os românticos. E adeus, filho. Não posso demorar-me. Já vou tarde. A pequena espera-me... Olha! Aparece qualquer dia, para conversarmos. Depois te direi tudo.

—Vai! Sê pontual como Romeu. Não faças sofrer com a tua ausência os corações ingénuos.

Partiram cada um para o seu lado, em sentido oposto; mas, apenas Frederico tinha dado alguns passos, Paiva, voltando-se de repente, chamou-o aproximando-se novamente dêle:

—Ouve lá, ó Frederico... Ia-me esquecendo... Tu sabes quem está no Pôrto, chegado há seis ou sete dias?

—Não sei. No Pôrto está tanta gente!

—Pois, é Nuno, o teu amigo Nuno.

—O quê?—bradou Frederico, sobressaltado. Nuno? Não pode ser.

—E porque não pode ser? Se eu te estou a dizer que está! Vi-o esta manhã na Praça da Batalha. Vinha do correio... Parámos um momento a palestrar. Até êle me perguntou por ti.

—Essa agora! Nuno no Pôrto! E sem me dizer nada!

—Como não te disse nada? Tu é que lhe foges, ao que parece. Já te procurou em casa e não te encontrou. Deixou-te uma carta urgente e não lhe respondeste! Foi o que êle me asseverou, e até um pouco ressentido... Aparece-lhe! Escreve-lhe... E adeus!

Com efeito, havia uma semana que Frederico não ia a casa. Branca retinha-o, no seu leito de amante, uma parte da noite e uma parte do dia, porque só muito tarde, às vezes de madrugada, lhe batia à porta, de regresso das estúrdias ou das bancas de tavolagem com a roupa em desalinho, o olhar vago e ardendo dum brilho especial, numa secreta e áspera revolta contra si próprio. Ficava tôda a manhã deitado, dormindo com as mãos fechadas junto da cara, a pele humedecida por uma transpiração álgida, agitado de sonhos pavorosos. Quando o sol ia já muito alto, entrando no quarto em feixes de raios difusos e rutilantes e inundando móveis, cortinados e tapêtes com a sua dourada cabelugem que faíscava, lampejava nos espelhos, Branca acordava-o, sacudindo-o com fôrça, chamando-lhe dorminhoco, tirando a roupa da cama, entre gargalhadas. Frederico espreguiçava-se, bocejava. Ela, de robe-de-chambre de sêda, cabelos soltos e despenteados caindo-lhe pelas costas, um ar petulante e vicioso que punha uma desagradável mácula na sua meiguice mas que a tornava mais picante, aninhava-se nas tapeçarias que alcatifavam o soalho, rolava a cabeça na beira do leito com lentidões de gata amimada, ria-se da moleza de Frederico, fazendo-lhe momices que êle repelia, enfastiado. Sempre que despertava dos seus desvairos sensuais, sentia um desgôsto muito fundo pela miséria moral em que ia resvalando rápidamente, sem coragem para romper com torpezas o reentrar numa existência honesta. Branca amuava, dizia-lhe que êle já a não amava, que estava morto por desfazer-se dela, falava em morrer.

—Mas, vê lá! Se me queres deixar, confessa-o francamente!— acrescentava.

Frederico irritava-se, chamava-lhe douda, saltava do leito, tomava banho, vestia-se, reconciliando-se com Branca; e, então, volvidas horas de repouso que êle aproveitava para ler os jornais, para folhear revistas estrangeiras ilustradas, almoçavam muito juntos na pequenina sala de jantar que as jarras de flores aromatizavam, o papel claro das paredes alegrava e a que os mobiliários caros davam confôrto, elegância e beleza ornamental. Pelos aparadores scintilavam pratas e reluziam porcelanas; de grandes pratos cheios de fruta madura exalavam-se arômas aperitivos; os cristais irisavam-se à luz; e Frederico achava então um certo enlêvo naquela vida comum, parecia-lhe que tinha um lar, uma companheira solícita, que possuia no mundo uma alma para quem a sua personalidade não era estranha. Muitas vezes, jantava mesmo com Branca, saindo à noite para as suas vadiagens, que se prolongavam até horas mortas. Seis dias seguidos assim foram deslizando, sem que êle se lembrasse, sequer, de ir a sua casa. E por isso Nuno o não encontrara, por isso não tivera, mais cedo, notícias do imprevisto regresso do amigo ao Pôrto—regresso de que só por acaso havia sido informado...

Enquanto caminhava pelas ruas já desertas e cheias de sombra, perdia-se em suposições. Nuno dissera-lhe que passaria o inverno na aldeia, quando se separaram, e voltara a afirmar-lhe, em carta, êsse propósito. Que facto, grave certamente, o teria feito mudar de tenções? Aborrecimento da monotonia rural, da solidão rústica? Saudades da animação, da sociabilidade citadinas? Não! Nuno não era mundano, abominava as exibições, os convívios banais. Taciturno, misantropo, já na sua mocidade só estava bem com uma ou duas amizades mais íntimas à sua roda. Depois que se casara, meteu-se dentro da sua vivenda e da sua felicidade, sequestrou-se de todo, gostosamente, às curiosidades indiscretas da rua e das salas. Que razão forte, que motivo imperioso, o teriam, pois, desalojado da solitude campestre, obrígando-o a refugiar-se no Pôrto?

—E se Júlia adoeceu?—monologou Frederico, invadido por um sobressalto repentino.

Uma comoção dolorosa apoderou-se de todo o seu ser; sentia um fundo mal-estar interior, uma angústia que o atordoava, que lhe apertava o coração, que o constrangia. Com efeito, aí estava a explicação da volta de Nuno ao Pôrto. Não podia ser outra! Naquele momento, a mulher que êle amava com infinita doçura, sofreria, queimada pela febre, ir-se-ia fanando na sua beleza viçosa, na gentileza do seu encanto supremo, enquanto Nuno, apreensivo, assistindo transido a uma dor que não podia sarar, nem ao menos tinha ao seu lado alguêm que o confortasse, que lhe desse esperança.

—Com certeza que Júlia está doente!—pensava Frederico.

Um relógio dava, ao longe, duas horas. Era-lhe impossível correr a casa de Nuno, bater-lhe à porta, alarmar tôda a vivenda, para saber o que havia; mas êle tinha-lhe escrito e, naturalmente, nessa carta, contava-lhe tudo. Então, dominou-o, espicaçou-o o desejo de chegar de-pressa à sua habitação, que ficava ainda distante. Acelerou o passo. Ao dobrar duma esquina, um vulto de mulher sumido dentro do chaile cruzado no seio, saindo repentinamente da sombra, disse-lhe em voz baixa e ofegante qualquer coisa que não entendeu. Tirou do bôlso uma moeda de prata e meteu-a numa lívida e magra mão que para êle se estendia com um gesto rapace de garra. Mais adiante, um polícia embuçado no seu capote fumava encostado a um candeeiro. Sôbre as casarias pairava uma ligeira névoa. A cidade dormia profundamente...

Uma tipóia surgiu, rolando lentamente na calçada. Frederico fez um sinal ao cocheiro, que esticou as rédeas e se endireitou na boleia, exclamando:

—Pronto, meu patrão!...

Os cavalos, extenuados e de cabeças pendentes, estacaram. Frederico abriu a portinhola, entrou de salto.

—Para onde quere que o leve?—perguntou ainda o cocheiro.

Indicou o bairro e o número do prédio em que residia e o carro partiu logo, mais velozmente, ao estalar sêco do chicote. As ferraduras dos cavalos, batendo violentamente nas pedras, levantavam faúlhas de lume que scintilavam um momento para em seguida se apagarem. Devorado de impaciência, Frederico, de quando em quando, espreitava através das vidraças e apenas via ruas esgueirando-se na sombra, fileiras monótonas de casas, algumas ainda com luzes agonizando por detrás de stores descidos nas janelas dos segundos andares.

—Como é triste uma grande cidade erma a horas avançadas da noite! E essa tristeza envelhece a gente!—meditava.

E o maldito carro sem chegar ao fim daquela corrida que o estava atormentando! Batia nos vidros da frente, com os nós dos dedos para que o cocheiro fizesse galopar os cavalos mais apressadamente. Parecia-lhe que já há muito tempo rolava, aos solavancos, dentro daquela caixa fechada e sem ar, através do burgo solitário, e isto excitava-lhe os nervos... Por fim, o carro deteve-se de repente. Frederico, olhando para fóra, reconheceu o seu retiro, a sua vivenda; saltou para o passeio, deu uma gorda gorgeta ao cocheiro que tirou o chapéu agradecendo, sacou do bôlso um mólho de chaves niqueladas, abriu a porta e sumiu-se na treva. Depois, raspando um fósforo, subiu ligeiramente a escada, procurando não fazer barulho para não despertar o criado que dormia, entrou no seu escritório, acendeu o gás que ardeu num leque de luz dentro da tulipa de cristal, sibilando em surdina, e olhou para cima da larga mesa de pau preto em que escrevia. Lá estava a carta de Nuno, efectivamente. Logo a reconheceu pela letra que negrejava no enveloppe—uma letra de traços finos e firmes em que se denunciava alguma coisa do carácter do amigo—a sua franqueza, a sua energia, a sua vontade sem hesitações. Rasgou o sobrescrito com frenesi, como se êle representasse um forte obstáculo com o poder de lhe demorar ainda durante muito tempo o conhecimento duma verdade que queria saber imediatamente e logo encetou a leitura. Nuno, como pensara, dizia-lhe o motivo do seu regresso à cidade, informava-o, com pormenores, da doença do filho, já curado, do susto que tiveram, êle e Júlia, na aldeia, quando julgaram a criança atacada de difteria e da sua viagem por um hostil, bravio dia de chuva açoutando em bátegas o automóvel. Terminava, pedindo-lhe que o fôsse ver, que lhe désse ao menos notícias suas.

«—O Porto—escrevia Nuno irónicamente—é uma terra tam pequena que tôda a gente se conhece uma à outra. Pois bem; há três dias que te procuro por praças e cafés, logares onde se dá à língua, no boletim mundano dos jornais, e—parece impossível!— ainda te não encontrei, como se tu fôsses la Belle au bois da lenda e se da lenda e se tornasse necessário penetrar numa vasta floresta encantada para chegar junto de ti! Aparece. Tanto eu como Júlia, que está mais nutrida, que lucrou imenso com a sua permanência na aldeia, gostaríamos de ver-te por esta casa que é tua.»

Acabando de ler a carta, Frederico respirou. Júlia não estava doente, não ocorrera na existência, tam calma, tam feliz, tam igual do marido, nenhuma fatalidade irremediável, nenhum perigo ameaçava criaturas a quem a sua alma era dedicada. Fez-se a paz no seu sobressalto emotivo. Dobrou a larga fôlha de papel que Nuno para êle escrevera e atirou-a para cima da mesa, sentando-se numa poltrona estofada em que o seu corpo molemente se enterrou; e por muito tempo entregou-se a um longo scismar. Branca, que naquele momento o estaria esperando com um chaile de lã pelas costas, estirada num fôfo divan da sala em que passava os seus serões, lendo romances sentimentais ou conversando com Amélia, sua criada de quarto e sua confidente, esqueceu-lhe completamente. A sua recordação estava cheia da imagem de Júlia, da sua beleza, da sua bondade, da sua maravilhosa graça de mulher, que queria adorar com uma emoção purificada de desejos inferiores, venerar como um crente, no ardor do seu misticismo, venera as coisas de Deus e que afinal amava, para seu tormento e sua angústia, com um amor lúbrico que lhe acendia a febre no sangue, que lhe toldava a lucidez do espírito, que maculava de crápula os puros lirismos da sua paixão a princípio casta e que depois, pelas solicitações carnais que não pudera conter, se transformou em criminosa. Como era que essa mulher, em vez de o tocar com o alvor da sua santidade, de tudo o que nela havia de superior, de elíseo, de admirável, de astral, só lhe comunicava uma estranha volúpia que o alucinava?

—A culpa não é dela, com certeza, mas da impureza da minha organização!—monologava.

E ali estava ela no Pôrto, perto dêle, chamando-o para junto de si com uma voz de amizade que Frederico, no seu delírio voluptuoso, julgava carregada do fluido magnético da atracção voluptuosa. Um espírito oculto e maléfico impelia-o para Júlia, incitava-o a loucuras, a infâmias. Aterrado com a própria consciência—em que germinava a flor vermelha dum impulso mau—fugiu-lhe, afastou-se dela, para a esquecer. Em vão. O destino enigmático aproximava-os novamente, e desta vez com a particularidade de se conhecerem de perto, de não serem estranhos a um afecto que em Júlia era digno e enternecido e que nêle degenerara em sensualidade animal; de haverem vivido sob o mesmo teto, de se terem confessado as suas simpatias e as suas predilecções, de se fazerem mútuas confidências em que notavam, rindo, um gôsto idêntico, uma inteligência que tinha pontos de contacto, modos de ver em que havia semelhança. Iria a casa de Nuno? Não iria? Flutuava entre estas duas hipóteses, sem se decidir. Tinha mêdo...

—Deve ser já muito tarde!—pensou.

Viu as horas. Eram quatro. De fóra não vinha o menor rumor. Tôda a vida parecia suspensa, perdida no silêncio e na treva nocturna. Então, novamente se lembrou de Branca, mas esta lembrança súbita inspirou-lhe uma repugnância secreta. A lubricidade excitante que essa mulher acordara nas profundidades do seu ser, apagava-se repentinamente como uma brasa sob a água e dela nada ficava —nem memória afável nem doce recordação. Júlia apoderava-se outra vez dêle, com o mesmo império, com a mesma intensidade, impregnava-se da sua substância nervosa, do seu sangue, da sua carne, dominava-o. Não tinha pensamento, nem desejo, nem aspirações que não fôssem para ela: e a exaltação que o sacudia era por tal forma enérgica e absorvente que Nuno ou lhe esquecia e lhe aparecia inteiramente desligado da espôsa, como se fôssem duas personalidades sem nada de comum, inteiramente separadas moral e corpóreamente uma da outra. Era-lhe necessário empregar um grande esfôrço para os associar de novo, para entrar na realidade das coisas, para compreender com nitidez que Nuno era o seu amigo, o seu sincero camarada e que, em vez de traí-lo, lhe devia comovidos respeitos, lealdades fervorosas.

Êste fenómeno psíquico decidiu-o. Não! Não iria mais a sua casa, enquanto não pudesse estar diante de Júlia com a serenidade com que estaria diante duma irmã. Desculpar-se-ia, inventaria uma piedosa mentira com que pudesse justificar-se, cometeria mesmo grosserias, contanto que a sua dignidade de homem consciente ficasse intacta—ainda que para isso tivesse de romper abertamente com Nuno. Saíria do Pôrto sem delongas, para Lisboa, para o estrangeiro, para tôda a parte onde se soubesse longe de Júlia, embora a tivesse sempre presente na sua saùdade e na infinita sêde de amor do seu coração. De Branca fugiria tambêm com a alegria com que se quebram cadeias tirânicas e se recupera uma liberdade durante muito tempo perdida. O seu sentimento, agora divinizado pela sagrada lembrança da mulher mais que tudo amada, tornava-lhe insuportável a presença da impura, que apenas lhe apagava as ardentes solicitações da animalidade carnal e que lhe não apaziguava as inquietações da alma, que acelerava a vibração da sua febre voluptuosa sem lhe fazer ascender no espírito uma pura, ideal aspiração.

Oh! de-certo que ela choraria, que o ameaçaria com suicidar-se, com provocar clamorosos escândalos: mas enxugar-lhe-ia as lágrimas com um farto punhado de ouro que a tranqùilizasse no seu desespêro artificial. De resto, nada lhe devia, a não ser a ternura de algumas horas, uma ternura que ela costumava vender a todos os homens e que Frederico tambêm comprara, pagando-a por excessivo preço. Tinha-a encontrado numa ceia com amigos, simpatizara com ela—porque a sua beleza e a sua desdita o impressionaram e o comoveram—levara-a para casa, pedira-lhe não inspirações mas luxúrias que o atordoassem. Reconhecido pela relativa tranqùilidade que Branca comunicara à sua dôr, indemnizou-a generosamente. Não podia ir mais longe. Bem sabia que ela empregava todos os recursos e toda a sciência da sua coquetterie para lhe agradar com mais intensidade, para se tornar mais desejada—não movida por impulsos amorosos mas por cálculos. Era amável; mostrava, mesmo, nas suas relações com Frederico, delicadezas que eram meramente superficiais. Por debaixo delas traía-se sempre a indiferença ou a secura, o automatismo, a inconsciência. A castidade das emoções que iluminariam a sua paixão primitiva não podia mais renovar-se em Branca. Nos seus carinhos balbuciados havia qualquer coisa de convencional, de estudado; nos seus beijos havia frio. Era apenas um corpo sem alma—um lindo corpo, certamente,—que se entregava por dinheiro. E, nos primeiros tempos, a posse dêsse corpo chegou a interessá-lo por determinadas afinidades físicas.

Mas agora, Júlia ressurgia; os cuidados de que era alimentada a adoração que lhe consagrava reclamavam todo o seu ser; uma luz nova o alumiava, invadia-o a tortura dum amor sem finalidade, que lhe era amargo mas em que tambêm os seus sentidos encontravam uma particular doçura. Sentia-se renascer, não para uma vida nobre de esperanças, de júbilos futuros, de graças aurorizantes, mas para preocupações e para comoções que lhe eram, conjuntamente, deleitosas e aflitivas. A sua excitação sensual arrefecia, extinguia-se —e por isso Branca desaparecia das suas impulsividades orgânicas. Na sua intimidade moral e afectiva resplandecia apenas a imagem aliciante do único amor sério da sua existência de homem apaixonado e consciente: e Júlia assumia aos seus olhos o esplendor de certas figuras maravilhosas e místicas, que andam nas lendas sagradas com um fulgor de ouro à volta da fronte. Queria entregar-se inteiramente à veneração silenciosa e oculta dessa mulher, devotar-se-lhe—mas de longe, procurando evitar que esta devoção, êste culto, se transformassem em crime. Era a fatalidade! Estava, portanto, decidido. Iria a casa de Branca, pela última vez, trocaria com ela o derradeiro beijo, deixar-lhe-ia, delicadamente, sôbre o leito, um enveloppe fechado. Depois, escreveria a Nuno uma longa carta e seguidamente partiria ainda não sabia para onde. Esta ideia calmou-o um pouco: mas em breve, tudo o que na sua natureza havia de tímido, de indeciso, de incaracterístico, imprimiu-lhe um rumo diferente aos pensamentos. Não! Não romperia com Branca asim de repente. Dir-lhe-ia que era forçado a sair do Pôrto por alguns meses, por causa de negócios que se prendiam com a administração da sua fortuna, mas que voltaria logo que isso lhe fôsse possível e que então, como dois noivos, realizariam essa prometida viagem à Europa. Só de longe lhe comunicaria a resolução duma ruptura inevitável, poupando-se por esta forma ao espectáculo, doloroso para a sua sensibilidade doentia, de prantos, de soluços sufocados, de recriminações sem fim.

Com Nuno, usaria do mesmo processo, servir-se-ia de igual subterfúgio. Havia de dizer-lhe que apenas em Lisboa, em Madrid, em Paris, recebera a sua carta—que lhe fôra mandada por Bernardo —e que por isso não pudera correr, como a sua alma desejava, a dar-lhe um abraço. Anunciar-lhe-ia até um breve regresso, para que êle se tranqùilizasse e não procurasse saber da sua vida e das suas aventuras. Dêste modo, sofreria menos!...

Já pelas frinchas da janelas se filtrava uma fresca e pura claridade matutina, quando uma quebreira o invadiu, serenando as suas violentas agitações. As pálpebras, pesadas de sonolência, cerravam-se-lhe; uma doce lassidão prostrava-o. Levantou-se na ponta das botas, foi buscar ao quarto um couvre-pieds e deitou-se, mesmo vestido, sôbre a chaise-longue que estava na sala, no ângulo formado por duas paredes, para repousar por algumas horas. Lentamente adormeceu, perdendo a noção das coisas que o rodeavam, da sua própria situação equívoca. Só acordou quando Bernardo, entrando no escritório com o sol já alto, abriu uma persiana, por onde a luz festiva e clara entrou a jôrros. Frederico sentou-se indolentemente, esfregando os olhos, bocejando com fôrça, chamando a atenção do criado, que se voltou espavorido no receio de que um desconhecido tivesse entrado em casa, para roubar.

—Sim, sou eu, homem! Que diabo de espanto é êsse!—exclamou

êle para Bernardo que o contemplava, intrigado.

—Crédo, patrão! Que mêdo me meteu! Até pensei que eram ladrões. Estava tam longe de o saber por ca!... E não admira! Não o senti entrar.

—Vim tarde, com efeito... Olha, desce à cozinha e diz à criada que

me faça o almôço para o meio-dia. Por agora, quero uma chávena de café... Mas bem forte.

—Então, o senhor hoje almoça?

—Pois é claro que almoço—atalhou, rabujento...

—Está bem!

Enquanto Bernardo cumpria as ordens, Frederico ergueu-se, entrou no quarto de vestir para mudar a roupa, que estava amachucada e cheia de vincos, para lavar-se... Que desordem, a da sua existência! Como é que êle se emmaranhara em tanto tumulto, enxovalhando-se, perdendo a noção da decência, do alinho exterior, da rectidão moral, de tudo quanto pode nobilitar o ser consciente! Ai! dêle que não conseguira encontrar uma actividade útil e um ideal dignificador, derivava todo o mal—considerava Frederico, enquanto banhava, regalado, a fronte em água fria. Não acusava ninguêm. O culpado era êle, exclusivamente êle e da sua culpa amargamente se arrependia. Estaria ainda a tempo de recomeçar uma experiência, de regenerar-se? Não haveria na sua alma, no seu sentimento,

estragos irremediáveis? Consultava-se, analizava-se minuciosamente e notava em si uma ausência de coragem, uma falta de incentivos renovadores, que o apavoravam. Com a face branca da espuma do sabonete, que exalava um leve arôma de narcisos em flor, levantou um instante a cabeça diante do espêlho e teve a noção lúgubre de que estava vélho e morto para todos os actos elevados. E como tudo, igualmente, envelhecia e morria à sua roda, sem um lampejo de beleza, numa desolação que mais ennegrecia o seu desconsôlo... Remergulhou, furiosamente, na água: e, depois, enxugando as mãos e a cara a uma toalha felpuda bem sêca, maldizia-se por não ter sabido construir uma outra vida nobre e fecunda, por se haver deixado arrastar sem reacções, ao sabor das correntes do acaso ou do destino... Mas agora, implacávelmente, reagiria, limpar-se-ia de impurezas, tentaria ganhar o tempo perdido, trabalhando sem repouso para rejuvenescer-se, para ressuscitar, para se emancipar duma apatia amolecedora. A resolução anterior fortalecia-lhe o coração. Apegava-se a ela com desespêro. Mais algumas horas, que lhe eram necessárias para pôr em ordem vários papeis, para dar algumas instruções aos criados, para escrever a Branca, para arranjar as malas, e uma outra existência se iniciaria para êle... A esta ideia, avivou-se-lhe o sofrimento interior. Ia afastar-se, talvez para sempre, de Júlia, que era a sua saùdade, a sua doçura e a sua dor. Idealizava-a mais uma vez. Ela tinha o encanto altivo unido a uma simplicidade encantadora. A palidez espiritual das suas faces e a meiguice dos seus olhos boiando numa luz que brilhava, tocavam-lhe a alma. A sua bôca apaixonada, que a mentira nunca maculara, tinha a dupla sedução do silêncio e da palavra—como as mulheres cantadas em sonetos de ouro por Dante Rossetti. E deixava-a, porque no coração de Júlia, transbordante dum outro amor, não cabia o seu, que era um intruso...

Mas Frederico, que ainda momentos antes se julgava com tanta energia para a separação, começava a vacilar. Como poderia viver sem ela e longe dela? Que novas formas de tortura atingiria o seu padecimento? A tristeza e o desespêro, que já o pungiam, davam-lhe a medida exacta da paixão que por Júlia sentia.

Acabou de vestir-se mais deprimido, mais acabrunhado, e voltou ao escritório, murmurando entre dentes:

—Embora! Não retrocederei!...

Bernardo bateu à porta, perguntando se poderia entrar.

—Entra!—ordenou Frederico.

O criado entrou, trazendo uma chávena de café, quente e aromático, numa bandeja de prata, que pousou em cima da mesa, informando:

—Está lá em baixo uma senhora ainda nova.

—Uma senhora?

—Sim, patrão. Uma senhora, que chegou de automóvel. Diz que lhe quere falar sem demora. É um caso urgente.

—E porque lhe não afirmaste que eu não estava?—gritou Frederico, irritado, na suspeita de que Branca o procurasse.

—Pois eu afirmei, meu senhor...

—E então?

—Então, ela duvidou das minhas palavras, asseverou que bem sabia que o senhor estava, que era escusado eu negar. E falava alto, parecia agastada... Diz que é um momento...

—Olha que estopada!—bradou Frederico. Bem! Passa-me o café, e manda-a entrar para a sala de visitas... Lá irei ter daqui a pouco.

Que audácia! Não faltava mais nada senão essa criatura—flor do vício—a agarrar-se com ansiedade aos seus braços, a colar-se ao seu corpo, a manchá-lo com uma nódoa, a fazer scenas públicas da sua paixão, como se Frederico lhe devesse reparações, como se de si tivesse partido o lôgro que a despenhou para sempre no lôdo e na desgraça! Com que direito vinha ela procurá-lo a casa, denunciá-lo à criadagem como seu amante, sair dum automóvel à sua porta, em pleno dia, diante de tôda a vizinhança rindo sarcásticamente? E que lhe quereria? Talvez pretendesse queixar-se pelo abandôno duma noite, lamentar-se, mostrar as suas lágrimas e os seus ciúmes. Ah! não! Isso, não lho permitiria...

Tomou à pressa o resto do café que esfriava na chávena de porcelana fina, acendeu um cigarro, soprou algumas baforadas de fumo e encaminhou-se para a sala de visitas. Logo de entrada reconheceu Branca, que se sentara numa cadeira sem mesmo erguer o espêsso véu preto que lhe cobria o rosto. Com as mãos esquecidas no regaço, estava pensativa. O seio arfava-lhe apressadamente.

—Então, que loucura é esta? Para que vieste aqui?—interrogou Frederico, de mau humor.

—Ah! és tu!...—respondeu ela.

Ergueu nervosamente o véu, dirígiu-se para êle de braços abertos. Tinha os olhos vermelhos de chorar.

—Pensei que te não tornava a ver, que me tinhas fugido, que estavas fatigado de mim. Porque não apareceste ontem, como de costume?—interrogou ela.

Falava sacudidamente, muito excitada. O seu rosto pálido rosava-se duma ponta de sangue mais vivo.

—Não apareci porque não pude.

—E porque não pudeste? Dize! Tiveste outros amores, outras mulheres? Não sou já nada para ti, então?... Responde!... Mas responde!...

Frederico deteve-se um momento a considerá-la com um olhar mau, de rosto sombrio e contraído. Branca teve mêdo e acudiu logo, para se desculpar da sua impertinência:

—Não repares nas minhas palavras, que eu não sei o que digo. Não dormi nada em tôda a noite. Só chorei! Se conhecesses os meus tormentos, até tinhas pena... Mas, porque não apareceste, Frederico?

Outra vez a impertinência! Aquele inquérito exaltava-o, enchia-o de cólera. Tinha vontade de conclui-lo repentinamente, pondo Branca fóra de sua casa, com imprecações duras e empurrões brutais. E, azedado por uma súbita fúria, atalhou:

—Se tu me vens com êsses ares de que eu sou uma coisa que te pertence e de que tenho de dar-te conta dos meus menores actos, não te respondo... Que tal está a petulância? Não apareci porque não quis. E olha! Nunca mais apareço... Acabou tudo entre nós! Tudo, entendes?

Atirou violentamente a metade do cigarro que ainda ardia entre os seus dedos para um cinzeiro, e começou a pessear excitado, des Atirou violentamente a metade do cigarro que ainda ardia entre os seus dedos para um cinzeiro, e começou a pessear excitado, desvairado pela irritação sempre crescente. Branca abateu-se sôbre o sofá, vencida, ofendida, soluçante, abafando o chôro no seu lenço de rendas.

—Agora temos prantos!... É escusado. Não me comoves!

Mas olhou-a novamente, viu-a enrodilhada, ennovelada, destroçada sôbre o sofá, emmudecida na sua dôr, teve dó daquele pobre corpo frágil, daquele coração que todos calcavam, comoveu-se. Aproximou-se dela, impressionado, chamou-a carinhosamente:

—Branca!

Ela fitou-o na humildade dum olhar que implorava e que as lágrimas tomavam mais brilhante, murmurando:

—Eu vim aqui porque me parecias diferente dos outros, porque me trataste com alguma bondade, porque julguei que tinhas piedade de mim. Bem sei que nada me deves, que não tenho direito de ser exigente e de meter-me nos segredos da tua vida... Mas que queres? Costumaste-me mal. Pensei que não me empurrasses com violência... Desculpa-me!... Eu vou já embora. Deixa-me sossegar um instante...

—E quem é que te empurra?—exclamou êle, comovido. Escuta... Eu é que te peço perdão da minha brutalidade... Mas, minha filha tu ignoras as minhas crises íntimas, os desgostos que me enfurecem. Fui arrebatado, é certo. Mas, se soubesses a razão do meu arrebatamento, absolvias-me.

Branca enxugou os olhos, levantou-se vagarosamente do sofá, foi para êle com um sorriso dolorido e risonho, já esperançada.

—O quê? Pois não me repeles? Queres então um pouco a uma mulher como eu, que se devota como os cães e que todos enxotam, queres? Então, que Deus te pague!... Mas que tens? Que desgostos são êsses em que falas? Oh! se não podes dizê-los, guarda-os para ti só, que eu não fico ressentida...

—Pois é o diabo, filha... Maçadas...

Gaguejava, sem saber o que havia de dizer, muito confuso, temendo que ela descobrisse as suas mentiras, incapaz duma atitude resoluta.

—Até estava agora para ir a tua casa, dizer-te tudo, explicar-te tudo...

E de repente, o subterfúgio que procurava iluminou-se-lhe na inteligência. Concluiu, perturbado e contente:

—Tenho de sair do Porto, hoje, infalivelmente.

—E demoras-te?

—Algumas semanas. Imagina! Ontem à noite, inesperadamente, recebi um telegrama de Lisboa chamando-me a tôda a pressa para junto duma tia minha que está a morrer!...

—Ah! então!...

—Pensa na minha angústia! Esta tia, é a única pessoa que me resta duma família que se extingue... E nem sequer posso levar-te comigo... Bem vês! É caso de gravidade... Mas volto. Volto logo que seja possível, para a continuação do nosso amor.

—Se eu pudesse acompanhar-te, Frederico!—exclamou ela resignada.