A origem das espécies de Darwin

Janet Browne · Capítulo 1 de 10

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A origem das espécies de Darwin

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O Começo

 

Ahistória do livro A origem das espécies começou muito antes do dia de sua publicação. Charles Robert Darwin nasceu em Shrewsbury em fevereiro de 1809. Era o quinto filho, segundo do sexo masculino, de um próspero

médico, Robert Waring Darwin, e de sua mulher, Susannah Wedgwood. A

família, que desempenhava importante papel na respeitável sociedade da

província, era encontrada com freqüência em visitas a parentes,

participando de iniciativas beneficentes ou em férias pitorescas na costa

galesa. Darwin qualificava seus dias de criança como muito felizes, embora

tenha perdido a mãe aos oito anos. Em sua Autobiografia, disse que tinha

poucas lembranças dela ou de sua morte, talvez porque as três irmãs mais

velhas tenham passado a cuidar dele com grande afeição maternal. Até onde

se pode discernir, esse importante evento de sua infância não lhe deixou

qualquer problema psicológico patente. Parece ter sido um menino

afetuoso, que gostava acima de tudo de estar com os amigos e a família,

com grande apego pela região rural, que amava ler uma ampla variedade de

livros e de ouvir música. Em troca, era muito querido. Todos os manuscritos

disponíveis que restam nas bibliotecas e arquivos do mundo confirmam que

cresceu afável, loquaz e cordial, apesar de todas as doenças e controvérsias

que ainda estavam por vir. Tinha o dom de fazer amizades duradouras e foi

capaz de manter um casamento feliz até o fim da vida.

Um de seus avós era Erasmus Darwin, poeta, pensador evolucionário

pioneiro e médico. O outro foi Josiah Wedgwood, famoso oleiro. Ambos deram importantes contribuições à Revolução Industrial e foram

participantes ativos do extraordinário florescimento intelectual do século

XVIII. Uma árvore genealógica tão notável sempre desperta comentários, e

por muito tempo foi comum entre historiadores atribuir parte do engenho

pessoal de Darwin a essas duas figuras ancestrais. Mas ele não se parecia

com nenhum dos dois em caráter, exceto por ter sido criado em uma

atmosfera familiar intelectual, de livre-pensamento e científica. Por volta da

terceira geração, contudo, a fortuna dos Wedgwood apresentava uma

diferença considerável. Essa combinação bastante moderna de afluência

fabril, posição social cavalheiresca, ceticismo religioso e origens cultas

asseguraram a Darwin um lugar na sociedade de classe média alta e a

perspectiva de uma herança confortável, fatores que atuaram de maneira

decisiva em suas realizações posteriores. Ele nasceu, por assim dizer, na

intelligentsia financeiramente segura da Grã-Bretanha.

Darwin freqüentou a Shrewsbury School (uma escola particular para

meninos) de 1818 a 1825. Quando garoto desejava se tornar médico e às

vezes acompanhava o pai em suas rondas profissionais. Amava colecionar

espécimes de história natural. No colégio, gostava de química e, com o

irmão mais velho, Erasmus, montou em casa um pequeno laboratório para

fazer experimentos durante as férias. Ainda que relativamente comum entre

meninos de sua classe social na época, esses gostos revelam o despertar da

duradoura fascinação de Darwin pela ciência e o mundo natural. De resto,

como muitos meninos, parecia gostar de perambular pelo campo movido

por seus próprios interesses. Os documentos preservados desses dias

sugerem que ele não se destacava na rígida estrutura clássica de educação

masculina da época.

A vida de Darwin deu uma guinada estimulante quando o pai o tirou da

escola antes do tempo e, em 1825, enviou-o com o irmão Erasmus para a

Escola Médica de Edimburgo, onde começou a estudar medicina. Naqueles

dias os estudantes pagavam separadamente cada curso médico – anatomia,

obstetrícia, física, farmacopéia –, arranjo muito mais informal que o de

hoje. Rapazes muito jovens podiam freqüentar a universidade e fazer meia

dúzia de cursos antes de se dedicar seriamente aos estudos. Após um início

diligente, Darwin, aos 16 anos, achou a realidade da medicina do início do

século XIX perturbadora. Duas cirurgias “muito graves”, uma delas numa

criança, convenceram-no de que jamais seria médico (isso foi muito tempo

antes da anestesia) e o fizeram abandonar o curso em 1827.

Durante esse curto período, porém, ficou exposto a algumas das

influências mais expressivas em sua formação juvenil e que perduraram até

sua morte. Os biógrafos costumam retornar aos anos que Darwin passou em

Edimburgo, convencidos de que aí reside a semente de todo o seu

pensamento posterior – e em grande parte estão certos. A Universidade de

Edimburgo era o principal centro da Grã-Bretanha em ciência e medicina.

Ombreava-se com a pesquisa realizada no continente europeu e oferecia

cursos, tanto dentro quanto fora da universidade, sobre todos os aspectos da

ciência moderna. Darwin fez o curso de química com Thomas Hope e o de

história natural com Robert Jameson, este último apoiado por um excelente

museu de história natural. Ele gostava muito do museu. Lá conheceu um

taxidermista, um escravo alforriado chamado John Edmonston, que chegara

à Escócia vindo das Antilhas e que lhe ensinou a empalhar aves; costumava

passar horas conversando com o curador William Macgillivray sobre

conchas e aves. O curso de Jameson fez com que entrasse em contato com a

geologia e tomasse conhecimento dos debates contemporâneos sobre

história da Terra e fósseis – embora dissesse que detestava as aulas ásperas

e insípidas de Jameson e jurasse jamais voltar a se dedicar ao assunto.

Darwin gostava também de fazer muitos trabalhos práticos

independentes em história natural. Ingressou na Plinian Society, pequena

associação de estudantes, onde conheceu Robert Grant, um carismático

conferencista que aprovava a anatomia desenvolvimentista e as idéias

evolucionárias francesas. Sob a orientação de Grant, Darwin começou a

observar organismos marinhos de corpo mole no mar do Norte e fez sua

primeira descoberta em ciência, sobre ovos de flustra, anunciada na Plinian

Society em 27 de março de 1827. Ele descobriu que não se tratava de

“ovos”, mas que as flustras procriam por meio de larvas móveis.

Grant ampliou imensamente as perspectivas de Darwin. Introduziu-o

nos círculos científicos de Edimburgo e o estimulou a expandir seus

interesses no campo da história natural. Com ele, Darwin adquiriu a

fascinação que o acompanhou a vida inteira pela “geração” (processos

reprodutivos sexuados e assexuados) e embriologia de invertebrados, como

moluscos, esponjas e pólipos. Grant incentivou Darwin a ler a obra de

Lamarck, Sistema dos animais invertebrados, de 1801. As idéias de

Lamarck sobre transmutação (por vezes também chamada transformismo; a

palavra “evolução” não era usada na época) causaram grande admiração em

Darwin. Ele recordou que apenas ouvia sem prestar muita atenção. No entanto, já havia lido o livro de seu avô sobre as leis da vida e da saúde,

Zoonomia (1794-96), que apresentava em curta seção uma teoria do

desenvolvimento muito parecida com a de Lamarck.

Aquela altura, embora estivessem mortos havia várias décadas, Erasmus

Darwin e Lamarck não eram de maneira alguma vistos como antiquados.

Eram tidos em alta conta por pensadores radicais na década de 1820, por

suas ousadas teorias biológicas na tradição iluminista, em especial por suas

idéias relativas à transmutação. Grant usou essas idéias, devidamente

atualizadas, para propor que as esponjas eram o organismo básico a partir

do qual todas as outras formas teriam se desenvolvido para compor a árvore

evolucionária. Assim, Darwin deixou Edimburgo com horizontes

intelectuais muito mais amplos que os de muitos rapazes de sua idade. Já

aprendera a perceber o valor de indagações elevadas sobre origens e causas,

e deparara diretamente com explicações evolucionárias para os padrões da

vida, embora não haja razão para se pensar que se tornou um evolucionista

nessa época.

O pai de Darwin não ficou satisfeito com a mudança de direção do

filho. Após algumas breves discussões em casa e extensas aulas particulares

sobre todo o latim e o grego da escola, que já esquecera, Darwin ingressou

pouco depois no Christ’s College, em Cambridge, para pleitear um grau

“ordinário”, ponto de partida usual para a ordenação na Igreja Anglicana.

Ainda que sua família não fosse particularmente religiosa, entrar na Igreja

como vigário era caminho aceito para uma respeitável profissão de classe

média nos tempos vitorianos, e vários integrantes do círculo de Darwin e

Wedgwood eram competentes pastores rurais. De certo modo, na tradição

do reverendo Gilbert White, autor de The Natural History of Selborne,

rapazes com requisitos sociais e educacionais apropriados encontravam

nicho confortável em uma paróquia rural, com tempo de sobra para se

dedicar à história natural ou a interesses esportivos.

Mais tarde, na Autobiografia, Darwin disse que estava contente com a

idéia de se tornar clérigo, embora tivesse uma ou duas dúvidas religiosas

fugazes. Depois, teve plena consciência da ironia. “Considerando a

ferocidade com que fui atacado pelos ortodoxos, parece risível que eu tenha

outrora pretendido ser pastor”.1 Seu pai evidentemente lhe inculcara a

importância de adquirir uma profissão: ele não podia depender apenas de

uma folgada renda privada proveniente de herança. “Você não se importa

com nada a não ser tiro ao alvo, cães e caça a ratos, e será uma desgraça para você mesmo e toda a sua família”, declarou certa vez o dr. Darwin,

para mortificação de seu filho. Se não a medicina, então a Igreja parece ter

sido o provável assunto das conversas seguintes.

Os anos na Universidade de Cambridge foram bastante significativos

para a carreira posterior de Darwin, embora não exatamente da maneira

como ele próprio ou seu pai esperavam. Por isso, os historiadores da ciência

esquadrinharam as experiências por ele ali realizadas, procurando qualquer

indício relacionado às preocupações futuras de Darwin. Todos concordam

que o ambiente acadêmico em Cambridge era muito diferente do de

Edimburgo, e que a conturbada transição de um contexto médico austero

para os luxuriantes pastos teológicos de Cambridge foi decisiva.

De fato, as realizações posteriores de Darwin podem ser caracterizadas

por uma mistura das idéias de Edimburgo e Cambridge. Em Cambridge,

Darwin ingressou na elite social e no meio intelectual em que passaria o

resto de seus dias, e as amizades que fez se provaram duradouras. As

relações com John Stevens Henslow (1796-1861), então jovem professor de

botânica, e Adam Sedgwick (1785-1873), o igualmente jovem professor de

geologia, foram as mais importantes. Conheceu o cientista-filósofo William

Whewell e o pastor e naturalista Leonard Jenyns. Seu amigo pessoal mais

íntimo era o primo William Darwin Fox, que também estava na

universidade se preparando para se tornar pastor anglicano. Por cerca de

dois períodos letivos dividiram um quarto, assim como algumas dívidas

estudantis e um cachorro.

Darwin passou três anos fabulosos. O horário das aulas era bastante

flexível e sobrava muito tempo para se dedicar à história natural. Na

companhia do primo, Darwin tornou-se um apaixonado entomologista

amador, versado em classificação de besouros o suficiente para enviar uma

pequena contribuição ao autor de um abalizado livro-texto. Caçava raposas,

atirava em aves, trocava espécimes de história natural com os amigos,

jogava cartas e desfrutava a vida com uma ampla roda de conhecidos.

 

Eu freqüentava um círculo apreciador de esportes, que incluía alguns

rapazes simplórios e dispersos. Costumávamos jantar juntos à noite,

embora tais refeições incluíssem homens de caráter mais elevado, e às

vezes bebíamos também, com direito a cantos alegres e jogo de cartas.

Sei que deveria me envergonhar dos dias e noites passados assim, mas

como alguns de meus amigos eram muito agradáveis e nos sentíamos

todos extremamente bem-humorados, não posso deixar de rememorar

esses tempos com muito prazer.2

 

Do lado acadêmico, além de avançar com dificuldade nos cursos

obrigatórios de matemática, letras clássicas e teologia, freqüentava as aulas

de botânica de Henslow e, no último ano, o curso público de extensão de

Sedgwick sobre geologia. Henslow obviamente gostava muito de Darwin –

talvez por ver nele alguma promessa – e começou a convidá-lo para

reuniões noturnas, onde teve oportunidade de conhecer algumas das figuras

eminentes da universidade. Por indicação de Henslow, Darwin leu os livros

de John Herschel, Preliminary Discourse on the Study of Natural

Philosophy, de 1830, e de Alexander von Humboldt, Narrativa pessoal

(traduzido para o inglês entre 1814 e 1829), ambos citados depois como

seus inspiradores.

Em particular, Darwin sentiu-se atraído pelas idéias teológicas do

arquidiácono William Paley, inicialmente porque fazia parte do currículo

regular e depois como leitura independente. Esperava-se que ele fosse capaz

de responder a perguntas sobre a obra de Paley, Evidence of Christianity

and Moral Philosophy, nos exames finais. Já graduado, leu o último livro

da trilogia de Paley, Natural Theology, em que o autor argumentava ser a

adaptação dos seres vivos a seus ambientes tão perfeita que provava a

existência de Deus. Como esse plano tão perfeito se realizara, indagava

Paley, senão a partir das mãos de um projetista? Se um relógio fosse

acidentalmente encontrado em uma trilha, teríamos todas as razões para

pensar que ele havia sido construído por um hábil artífice segundo algum

projeto ou plano. Mecanismos tão complexos não surgem de repente do

nada, como mágica. São obra de um fabricante. Assim, argumentava Paley,

o mundo à nossa volta deve ser considerado da mesma maneira que o

relógio.

Esse ponto de vista teológico sobre a natureza dominava o ensino em

Cambridge de maneira geral, embora não sem críticas, e formava a base da

ciência natural na universidade. O Deus cristão, dizia-se, havia criado um

mundo no qual tudo tinha seu lugar e estava projetado para funcionar de

maneira apropriada – ponto de vista originalmente acatado nos séculos XVI

e XVII por todas as pessoas de instrução e que ganhou especial apoio na

Grã-Bretanha no início do século XIX. Considerava-se que o mundo físico

era governado por leis naturais que funcionavam como o mecanismo de um relógio, e até a estrutura subjacente da sociedade parecia espelhar uma

máquina cuidadosamente regulada e bem projetada.

Para muita gente da época, a imagem de Deus não era a de um monarca

absoluto, que fazia milagres e soltava raios, mas a de um guardião

cuidadoso que via todas as coisas e as arranjava para que funcionassem com

eficiência. De fato, a teologia natural era comumente encarada pelo

establishment cultural britânico como um dos mais fortes baluartes contra a

agitação social, pois reforçava idéias de uma hierarquia estável, poderoso

antídoto contra insurreições civis e revoltas. A doutrina teológica, sob esse

aspecto, estava plenamente integrada ao ethos político e social dos homens

mais influentes nos primeiros anos daquele século – “a rede de Cambridge”,

como foi denominada.

A linguagem clara e simples de Paley encantava Darwin. “A lógica

deste livro [Evidence of Christianity], e também a de Natural Theology,

deu-me muito prazer…. Fiquei fascinado e fui convencido pela longa linha

de argumentação”.3 Muitas investigações de Darwin sobre a adaptação de

animais e plantas foram empreendidas em parte para proporcionar uma

alternativa ao projeto perfeito descrito com tanta eloqüência por Paley. Em

sentido mais literário e emocional, Paley deu também a Darwin as palavras

com que exprimir a apreciação da maravilhosa complexidade dos seres

naturais: a cintilação da asa de um inseto ou as pequenas bolsas de néctar na

base das flores para as abelhas sugarem. Apesar de ter descartado mais

tarde todas as noções de um Deus projetista, Darwin sempre conservou vivo

o assombro que aprendera com Paley, e nunca abandonou por completo

aqueles primeiros sentimentos de veneração.

Em segundo lugar, foi Cambridge que lhe entregou o futuro na forma da

viagem no Beagle. Todos esses incidentes e progressos despreocupados da

juventude em nada teriam dado se Darwin não tivesse partido na longa

viagem que transformou sua vida. De início, após os exames finais em

1831, ele pretendia simplesmente se divertir antes de retornar a Cambridge

no outono para a formação teológica. Inspirado pela leitura sobre as viagens

de Humboldt, quis fazer uma expedição de história natural a Tenerife com

Henslow, mas a logística o derrotou, e os planos não avançaram. Assim, seu

outro amigo professor, Adam Sedgwick, tomou-o como assistente por duas

semanas em seu trabalho de campo no verão, dedicado ao exame das rochas

mais antigas que se conheciam em Gales. Sedgwick ensinou-lhe geologia e

as bases das decisões científicas fundamentadas. Essas duas semanas deram a Darwin um amor perene pela teorização geológica em grande escala. Em

seguida ele foi para a casa de campo do tio, para as caçadas de agosto.

Ao retornar a Shrewsbury, Darwin encontrou uma carta de Henslow

oferecendo-lhe uma viagem de volta ao mundo em um navio britânico de

levantamento hidrográfico, o HMS Beagle. O convite chegara depois de

passar por várias mãos e era muito inusitado, mesmo naqueles dias. O ponto

de partida fora o capitão Robert FitzRoy (1805-65), que pediu permissão ao

hidrógrafo do Almirantado britânico para levar consigo um cavalheiro que

fizesse bom uso da viagem para coletar espécimes de história natural. Tal

cavalheiro iria partilhar as instalações do comandante como convidado e

esperava-se que pagasse as próprias despesas. Graças à rede social de elite

que ligava governo, administração naval e as antigas universidades, alguns

professores foram consultados – em determinado momento o próprio

Henslow pensou em ir. O mesmo ocorreu com Leonard Jenyns. Mas ambos

se sentiram tolhidos pelas obrigações paroquiais. Assim, ocorreu a Henslow

que Darwin era “exatamente o homem que estavam procurando”.4 Não se

tratava de um cargo oficial, nem de um convite para ser o naturalista do

navio, embora na prática isso tenha ocorrido. Robert FitzRoy também era

jovem, apenas quatro anos mais velho que Darwin, e profundamente

interessado em ciência e nos novos desenvolvimentos em navegação

marítima. Acreditava que a viagem proporcionaria uma excelente

oportunidade para o avanço da ciência britânica.

A princípio o dr. Darwin era da opinião de que o filho não deveria

aceitar. Tratava-se de um “projeto extravagante”, declarou. Decepcionado,

Darwin pôs no papel as objeções do pai. As principais eram: “indecorosa

para a minha condição futura de pastor; … eu deveria estabelecer uma vida

sóbria; … a viagem seria como uma nova mudança de profissão; … seria

um empreendimento inútil”.5 Felizmente o dr. Darwin foi convencido pelo

cunhado, Josiah Wedgwood II, a mudar de idéia. O resto do verão foi

passado numa azáfama de intensos preparativos. “A viagem do Beagle foi

de longe o evento mais importante da minha vida, e determinou toda a

minha carreira”, declarou Darwin.6 Até o fim de seus dias ainda se

emocionaria com a lembrança dessa experiência extraordinária.

Hoje, a fama dessa viagem torna por vezes difícil lembrar que sua

finalidade não era conduzir Darwin em uma volta ao mundo, mas cumprir

instruções do Almirantado britânico. O navio fora encarregado de

completar e ampliar um levantamento hidrográfico anterior, realizado de 1825 a 1830, das águas sul-americanas. FitzRoy assumiu o comando do

Beagle dois anos depois dessa primeira viagem se iniciar. A área era

importante para o governo por questões comerciais, nacionais e navais,

reforçadas pelo acentuado entusiasmo do Almirantado pelo progresso

científico prático e sua preocupação com cartas navais exatas e o registro de

portos seguros. De fato, o Gabinete do Hidrógrafo se notabilizou pelo envio

de grande número de expedições de levantamento durante a calmaria que se

seguiu às guerras napoleônicas para promover e explorar os interesses

britânicos no estrangeiro.

O gosto de FitzRoy pela ciência o estimulou a equipar o navio para a

segunda viagem com vários instrumentos sofisticados e muitos cronômetros

para fazer medidas de longitude ao redor do globo. A viagem durou de

dezembro de 1831 a outubro de 1836. Durante esse tempo, visitaram as

ilhas de Cabo Verde, as Falkland – ou Malvinas –, muitos locais litorâneos

na América do Sul, entre os quais o Rio de Janeiro, Buenos Aires, a Terra

do Fogo, Valparaíso e a ilha de Chiloé, seguidos das ilhas Galápagos, Taiti,

Nova Zelândia, Austrália e Tasmânia – esta muito brevemente –, e as ilhas

Cocos, no oceano Índico, concluindo com o cabo da Boa Esperança, Santa

Helena e ilha da Ascensão. Por conta própria, Darwin fez inúmeras

expedições longas ao interior de países na América do Sul, entre elas uma

excursão até os Andes. Sempre que possível, combinava com FitzRoy para

ser deixado e apanhado depois em pontos diversos.

A notoriedade da viagem fez também com que algumas vezes o capitão

Robert FitzRoy fosse pintado de maneira extremamente enganosa. Ele

estava longe de ser o carola caricatural que se costuma descrever na

literatura. Há sem dúvida um simbolismo pungente no fato de esses dois

homens viajarem juntos pelo mundo, um deles crente sincero, o outro en

route de destruir a presença de Deus na natureza. Naquela época, porém,

FitzRoy era um entusiasmado geólogo amador com idéias nada bíblicas e

bastante avançadas. Deu a Darwin o primeiro volume da obra fundamental

de Charles Lyell, The Principles of Geology (1830-33), e discutiu com ele

algumas das teorias contidas no livro. Darwin recebeu os outros dois tomos

durante a viagem. Só posteriormente FitzRoy veio a se tornar

fundamentalista bíblico manifesto.

Não há indícios de que os dois se desentendessem por causa de religião

a bordo do navio, embora os escritos de Darwin deixem evidente que a

relação pessoal entre eles ficava por vezes tensa. Discutiram por duas ocasiões com muita rispidez, mas as divergências eram sobre as maneiras

de cada um, não sobre religião. Em geral, davam-se bastante bem. Darwin

de hábito fazia suas refeições com o capitão e conversava com ele sobre os

mais variados assuntos, como acontece com um amigo, ainda que

partilhasse uma cabine e o espaço para trabalhar com dois oficiais de

posição menos elevada: o imediato e hidrógrafo-assistente John Lort Stokes

e o aspirante Philip Gidley King, de 14 anos. Na volta para a Inglaterra,

Darwin e FitzRoy escreveram juntos um pequeno artigo elogiando o

trabalho dos missionários anglicanos no Taiti. As imagens de Darwin

sozinho com seus pensamentos a bordo do Beagle, ou discutindo com o

capitão sobre temas religiosos, e a idéia de um naturalista solitário

singrando estranhos mares de pensamento são atraentes, mas só em parte

verdadeiras.

Os cinco anos de viagem no Beagle fizeram de Darwin a pessoa que foi.

Alguns deles foram passados galopando por toda parte em cavalos

alugados, acampando em novos lugares a cada noite, caçando carne para a

ceia com companheiros do navio, discutindo as novidades chegadas da

pátria e divertindo-se; eram uma extensão dos dias despreocupados do

estudante de Cambridge. Parece muito provável que Darwin tenha sido

escolhido para a viagem em parte por sua capacidade de se integrar às

atividades do navio, que combinavam agradavelmente com sua formação

culta e com a habilidade que tinha para atirar e caçar. Não lhe faltaram

oportunidades de exibir esses atributos.

Em Montevidéu, os homens do Beagle rumaram para a cidade armados

até os dentes para sufocar uma insurreição política. Na Tasmânia, assistiram

a um excelente concerto. No extremo sul, quase naufragaram por causa de

uma geleira que se desprendeu. Na floresta perto de Concepción, Darwin

sentiu a terra tremer sob seus pés num grande terremoto. Nadou em lagunas

de coral, extasiou-se com o canto dos pássaros na floresta tropical e

contemplou as estrelas do alto de um desfiladeiro na cordilheira dos Andes.

No Brasil, seu coração apaixonado ardeu de indignação ante a escravidão,

sistema ainda legal sob o domínio português,a e registrou histórias horríveis

em seu diário: fatos tão revoltantes, disse, que se os tivesse escutado na

Inglaterra pensaria que haviam sido urdidos para efeito jornalístico.

Do princípio ao fim, manifestou um entusiasmo que FitzRoy e os outros

oficiais descreveram como muito cativante. Eles o chamavam de “Filos”,

que significava “o filósofo do navio”, ou por vezes de “Papa-moscas”, e caçoavam dele por causa do entulho de história natural que acumulava no

convés. Ao longo dos cinco anos permaneceu afável e de fácil convívio,

proeza considerável em um navio pequeno, abarrotado com 74 homens e

meninos. Só os enjôos o derrubavam. Darwin sentia-se mal constantemente

quando a embarcação estava em movimento e nunca aprendeu a caminhar

pelo navio sem perder o equilíbrio quando ele jogava. O capitão e seus

companheiros de cabine compreendiam isso muito bem.

Estava livre também para explorar cada ramificação de seu amor pela

história natural. Darwin levou suas responsabilidades a sério. Reuniu aves,

vertebrados, invertebrados, organismos marinhos, insetos, fósseis e

amostras de rocha, além de uma considerável coleção de plantas. Estas

eram regularmente expedidas para Henslow, em Cambridge, que cuidou

delas até que o Beagle retornasse. Era um belo apanhado, incluía muitas

espécies incomuns e novas, mas, ainda assim, vale observar que

provavelmente foi a fama posterior de Darwin que fez desses animais e

plantas troféus tão importantes nos museus e instituições atuais. Além

disso, Darwin dissecava o material que coletava e o observava ao

microscópio que mantinha em sua cabine, fazendo diversas anotações.

Durante todo o período, escreveu extensas observações sobre hábitat,

comportamento, coloração, distribuição e coisas do gênero, criou um

cuidadoso registro em papel que formaria a base de vários livros e artigos

posteriores ao término da viagem.

Ele contou para as irmãs e os amigos a grande satisfação que essas

atividades lhe davam. “Olhando para trás, posso perceber agora que meu

amor pela ciência passou gradualmente a preponderar sobre todos os outros

gostos”,7 disse anos mais tarde. Ao longo desse tempo ele aprimorou a

habilidade de ver – observar os detalhes atentamente – e registrar. Em

retrospectiva, o aspecto mais significativo da viagem talvez tenha sido,

portanto, não a imensa coleção de espécimes, as curiosidades, os perigos ou

mesmo o amadurecimento pessoal e as amizades que experimentou, mas a

oportunidade de desenvolver uma intensa compreensão da variedade do

mundo natural.

Quando voltou, havia parado de atirar. “Descobri, embora de maneira

inconsciente e insensível, que o prazer de observar e refletir era muito

maior que o da perícia e do esporte”.8 O impacto de ver tantos lugares e

pessoas diferentes e encontrar tal diversidade de hábitats e formas de vida

foi incalculável. Sua posterior proeminência como naturalista apoiou-se, em última análise, nesses longos e meticulosos dias em que aprendeu a

observar e pensar sobre a pródiga abundância da natureza.

O crescimento intelectual de Darwin durante a viagem deveria ser

devidamente reconhecido. Inúmeros jovens assistiam às aulas de Grant,

Jameson ou Sedgwick, muitos entusiastas colecionavam espécimes de

história natural. Mas poucos fizeram o tipo de pergunta que Darwin veio a

formular. Em algumas ocasiões Darwin via organismos que pareciam

adaptados de modo excelente a seu meio de vida, exatamente como William

Paley os descrevera. Por vezes, pareciam muito mal “projetados”. Inúmeras

dessas questões só foram plenamente exploradas após o retorno do navio

em 1836. Contudo, na introdução da Origem das espécies, Darwin declarou

que três achados feitos na viagem haviam sido o ponto de partida para todas

as suas idéias: os fósseis que escavou na Patagônia, os padrões de

distribuição geográfica da ema (Rhea americana) e a vida animal no

arquipélago de Galápagos.

Os fósseis foram um achado extraordinário. Localizados perto de baía

Blanca (ao sul de Buenos Aires), esses restos de animais gigantescos

extintos foram mais tarde identificados por especialistas do Museu de

Londres como pertencentes a espécies até então desconhecidas de

megatério, taxodonte e gliptodonte. Darwin observou que em linhas gerais

os animais extintos eram constituídos segundo o mesmo plano anatômico

dos animais que continuavam a habitar os pampas. Parecia haver uma

continuidade de “tipo” por longos períodos de tempo.

Depois, no extremo sul da Argentina, coletou uma espécie de Rhea

(muito conhecida pelos habitantes locais), menor que a forma encontrada no

norte. Ele gostava de contar uma história engraçada sobre essa Rhea. A

tripulação do navio havia capturado uma ave para a panela, e foi só quando

ela estava semicomida que Darwin percebeu se tratar de uma espécie

desconhecida que desejava para sua coleção. Os pedaços que sobraram

foram mais tarde nomeados Rhea darwinii em sua homenagem (hoje o

nome mudou). Posteriormente, usou os dois tipos de Rhea para ilustrar o

fato de que espécies estreitamente relacionadas não habitam em geral a

mesma área – são mutuamente exclusivas. A seu ver, parecia haver laços

familiares de algum tipo tanto através do tempo quanto do espaço

geográfico. Começou então a se perguntar por que existiriam tais conexões.

À medida que o navio se movimentava, o mesmo acontecia aos

pensamentos de Darwin. Em setembro de 1835, o Beagle deixou a América do Sul e se pôs a caminho do Pacífico, com sua primeira escala nas ilhas

Galápagos. Ironicamente, Darwin não notou a diversificação das espécies

nessas ilhas durante a visita de cinco semanas, embora o oficial inglês na

ilha de Santa Maria o tivesse informado que as tartarugas-gigantes eram

específicas daquela região. No entanto, tudo nas ilhas o impressionou

imensamente. Ficou fascinado com os iguanas que se alastravam pela terra

e pelas praias, com as tartarugas-gigantes, os mimídeos e os mergulhões,

como também com a árida paisagem vulcânica e as curiosas árvores com

grinaldas de líquen.

Aqueles 14 minúsculos pontinhos de terra ficavam exatamente sobre a

linha do equador, banhados por águas frias do sul que levavam focas e

pingüins às praias. Em geral, as ilhas ficavam ao alcance da vista umas das

outras, mas eram separadas por profundos e traiçoeiros canais marinhos. Os

animais e as aves, não habituados a intrusos seres humanos, tinham um

comportamento muito indiferente em relação aos homens. Para os

tripulantes do Beagle, foi como encontrar o jardim do Éden. Darwin

cavalgou uma tartaruga, apanhou uma iguana pela cauda e chegou tão perto

de um falcão que pôde empurrá-lo do galho com sua arma.

As aves que colheu foram misturadas num único saco: nunca lhe

ocorrera que a localização individual pudesse ser importante. Não notou

que os mimídeos pareciam diferentes de uma ilha para outra, e eram

distintos também dos que vira na América do Sul continental. Essa

observação o deixou suficientemente perplexo para que a mencionasse

alguns meses depois em suas “Notas ornitológicas”, na viagem de volta.

Parece ter pensado que as aves podiam ser variedades geográficas de uma

ou mais espécies sul-americanas e refletiu sobre o problema:

 

Quando vejo estas ilhas à vista umas das outras, e possuindo apenas um

escasso sortimento de animais, habitadas por essas aves, apenas

ligeiramente diferentes em estrutura, e ocupando o mesmo lugar na

natureza, devo suspeitar que são apenas variedades…. Se estas

observações tiverem o menor fundamento que seja, a zoologia dos

arquipélagos será muito merecedora de um exame; pois tais fatos

abalariam a estabilidade das espécies.9

Em junho de 1836, na Cidade do Cabo, é possível que Darwin tenha

discutido a criação das espécies por lei natural com John Herschel, o grande

astrônomo que na época residia na África do Sul para observar o céu

austral. É improvável, porém, que Herschel admitisse uma origem natural

para as espécies. Ele acabara de ler Principles of Geology, de Lyell,

escreveu para este, a quem conhecia pessoalmente, e declarou que a origem

das espécies era um enigma divino, “aquele mistério dos mistérios”, como

Darwin o expressaria mais tarde.

Outra característica da viagem provou-se de importância duradoura,

ainda que Darwin não a mencione na Origem das espécies. Seu intelecto

viu-se permanentemente instigado pelas diversas populações humanas que

encontrou. Seus escritos do Beagle contêm pitorescas referências aos

gaúchos, com quem viajou pela Argentina, aos índios patagônios, aos

esculturais taitianos, aos ferozes maoris e aborígenes australianos, assim

como a missionários, colonos e escravos. Durante toda a viagem, expressou

a idéia de que, fundamentalmente, todos os homens são irmãos.

De fato, uma forte ojeriza à escravidão sob qualquer forma foi decisiva

para suas idéias em desenvolvimento acerca da unidade de todo o gênero

humano. Políticas antiescravistas faziam parte do pensamento de sua

família de maneira geral. O primeiro Erasmus Darwin havia sido ativo

promotor de causas emancipacionistas na Grã-Bretanha e, em seus poemas,

louvou publicamente a famosa medalha de Josiah Wedgwood adornada com

o moto: “Não sou eu um homem e um irmão?” O pai de Darwin, as irmãs e

os primos apoiaram todos os movimentos antiescravagistas no início do

século XIX – e ele também. O Beagle viajava pelo mundo justo no

momento em que esses movimentos filantrópicos de massa atingiram seu

ápice na Grã-Bretanha, com o Ato de Emancipação de 1832.

A única vez que Darwin realmente ficou irritado com o capitão FitzRoy

foi a propósito de um incidente em uma grande “estância” no Brasil, onde

um senhor chamou todos os escravos que possuía e perguntou-lhes se

queriam ser libertados. Não, responderam eles. Mais tarde, conversando na

cabine, FitzRoy tomou de bom grado essa resposta como simples expressão

da verdade, até que Darwin argumentou que nenhum escravo se arriscaria a

dizer uma palavra em sentido contrário. O capitão saiu da cabine

enfurecido, falando que não poderiam mais conviver. Em outra ocasião,

Darwin teve um vislumbre das atitudes dos escravos: um dia, ainda no

Brasil, quando era transportado através de um rio por um barqueiro negro, acenou os braços para apontar as direções e ficou horrorizado ao ver o

homem se agachar de medo porque pensou que levaria uma pancada.

Porém o encontro mais perturbador de Darwin foi com os habitantes

indígenas da Terra do Fogo. Ele ficou profundamente chocado ao vê-los

pela primeira vez em suas barracas cônicas rudimentares, um povo de

canoeiros que parecia não ter absolutamente recurso algum a não ser a

habilidade de acender fogueiras – daí o nome que Magalhães deu à região.

“A visão de um selvagem nu em sua terra natal é um acontecimento que

jamais pode ser esquecido”.10

O choque tornava-se ainda mais intenso quando aqueles homens eram

comparados com os três fueguinos anglicizados que estavam a bordo e

haviam sido levados para a Inglaterra por FitzRoy na viagem anterior do

Beagle. Educados por um pastor, agora eram repatriados para uma missão

protestante que FitzRoy pretendia fundar perto do território natal deles, no

interior da Terra do Fogo. Em Londres, os três haviam adotado rapidamente

a língua inglesa e hábitos europeus.

Nesse momento, Darwin assombrou-se com a diferença entre os

fueguinos anglicizados e as tribos indígenas a que pertenciam. “Eu não teria

acreditado como é completa a diferença entre o homem selvagem e o

civilizado. É maior que a existente entre o animal selvagem e o

domesticado”.11 O fato de que quase selvagens pudessem ser civilizados

(como Darwin constatou) confirmava sua crença de que,

fundamentalmente, os homens pertenciam todos a uma só espécie. Foi fiel a

essa crença por toda a vida. Durante o tempo que o Beagle passou no

extremo sul, Darwin e FitzRoy ficaram decepcionados ao ver que os três

fueguinos que haviam trazido retornavam depressa ao estado original. As

aparências exteriores de civilização eram apenas efêmeras, meditaram os

dois viajantes.

O mais importante de tudo, no entanto, foi a atenção que Darwin

dedicou à geologia. Ficou encantado com os grandiosos esquemas teóricos

que encontrou em Principles of Geology, de Charles Lyell, e entusiasmado

com a rejeição do autor com referência à autoridade bíblica como fonte de

explanação geológica. O livro era geralmente considerado radical em

termos teológicos. Embora tivesse recomendado a Darwin que o lesse,

Henslow também o aconselhara “a não aceitar de maneira alguma as idéias

ali defendidas”. O que incomodava Henslow – e que em última análise se tornou tão atraente para Darwin – era a insistência de Lyell em que as

mudanças da Terra não eram necessariamente de natureza progressiva.

A superfície da Terra de Lyell estava em permanente mudança, mas as

alterações não eram dirigidas por Deus para qualquer ponto futuro. Nessa

época, poucos geólogos acreditavam que o planeta tivesse sido criado em

seis dias. Viam a Bíblia mais como uma metáfora dos estágios pelos quais a

Terra deveria ter passado desde seus primórdios até os dias atuais. A

maioria deles, contudo, vinculava essa seqüência com o amplo esquema da

história da Terra indicado na tradição judaico-cristã – isto é, um planeta

gerado por fiat divino e progressivamente moldado por Deus, em seis ou

sete estágios, para a habitação humana.

Em Principles of Geology, Lyell contestava essa visão e afirmava que a

superfície da Terra não mostrava nenhum indício de tais estágios. O que ela

experimentava eram inúmeras e minúsculas mudanças cumulativas,

resultado de forças naturais que operavam de maneira uniforme por

períodos muito longos. Em sua maior parte, as mudanças eram tão pequenas

que em geral passavam despercebidas ao olho humano. Mas quando se

repetiam ao longo de muitas épocas, resultavam em efeitos substanciais.

Lyell chocou seus colegas ao insistir que a Terra era imensuravelmente

antiga, e continuaria a existir para sempre em ciclos geológicos sem fim,

caracterizados pela sucessiva elevação e subsidência de grandes blocos de

terra em relação ao mar. Não havia uma direção ou progressão determinada

por Deus. O grande filósofo de Cambridge, William Whewell, ele próprio

muito interessado em geologia, chamou essa abordagem de

“uniformitarianismo”.

Na concepção de Lyell, a geologia incluía também o que hoje

chamamos de biologia. Ele afirmava que tampouco havia sucessivos

conjuntos de animais e plantas, e que cada espécie havia sido criada

separadamente, uma a uma. Ao dizer isso, colocou-se no meio de um

dilema lógico. O gradualismo em geologia implicava gradualismo em

biologia – se as rochas se transformam graças a uma teia de mudanças sem

costura, o mesmo poderia ocorrer com os animais e as plantas. Mas como

Lyell não estava disposto a acreditar em qualquer tipo de transmutação nos

seres vivos, logo se viu em um emaranhado de equívocos. Para demonstrar

que não acreditava em idéias evolucionárias, desenvolveu um longo e

agressivo ataque a Lamarck.

Segundo todos os indícios disponíveis, Darwin leu esse ataque com

crescente interesse: apesar das negativas, ele foi exposto a informações

evolucionárias que desempenhariam importante papel em seu crescimento

intelectual. Do entusiasmo de Robert Grant em Edimburgo à oposição de

Charles Lyell na Patagônia, Darwin reconheceu a paixão – e a hostilidade –

que a transmutação inspirava.

Darwin passou a absorver os ensinamentos de Lyell. Usava as idéias

geológicas dele para explicar as características que observava na superfície

da Terra; elas forneceram as bases para os três livros que escreveu mais

tarde sobre a geologia da América do Sul. Assim, propôs, de forma

audaciosa, uma explicação para as estruturas geológicas que considerava

mais satisfatória que a de Lyell. Uma delas foi sobre a origem dos recifes de

coral. Outra dizia respeito à “recente” elevação da cordilheira dos Andes.

Além disso, em um nível mais profundo, adotou o credo da mudança

gradual de Lyell. “A ciência da geologia tem uma enorme dívida com Lyell

– maior, como acredito, do que com qualquer outro homem que já tenha

vivido”.12 Outro tributo foi prestado em uma carta que Darwin escreveu

após o retorno do Beagle:

 

Sempre sinto como se metade de meus livros tivesse saído do cérebro

de Lyell, e que nunca reconheço isso o suficiente, … o grande mérito de

Principles era alterar todo o tom da mente de uma pessoa, de tal modo

que, ao ver algo nunca visto por Lyell, ela o enxergava em parte através

dos olhos dele.13

 

Sem Lyell, pode-se dizer, não seria possível haver Darwin: nem a

intuição intelectual, nem a viagem do Beagle tal como é conhecida. Os

pensamentos de Darwin começaram a girar em torno da noção de que

pequenas mudanças conduzem a grandes efeitos. Com isso, ele deu um dos

mais importantes passos conceituais de sua jornada pessoal. Para o resto da

vida acreditou no poder de mudanças pequenas e graduais. Mais tarde, ao

trabalhar sobre a evolução, usou o mesmo conceito de pequenas mudanças

cumulativas como chave da origem das espécies.

Finalmente o Beagle tomou a direção da Inglaterra e Darwin começou a

rever sua produção. Todos os indícios apontam para a conclusão de que ele

não desenvolveu uma teoria da evolução durante a viagem. Mas voltou cheio de idéias e ambições científicas, decidido a interpretar o excesso de

informação que adquirira. Raros jovens haviam tido oportunidade

semelhante de ver o mundo em sua totalidade. Ele estava profundamente

impressionado, por um lado, com a prodigalidade, o colorido, a variedade e

a abundância da natureza; por outro, com a luta inclemente e a crueldade

que nela se viam. E embora tenha passado pouco a pouco a desacreditar na

Bíblia como registro fidedigno de acontecimentos reais, não se dispunha a

abandonar por completo sua fé, em parte pela imensa admiração ante as

maravilhas da natureza. Quando estava em meio à grandiosa floresta

brasileira, declarou: “Não é possível dar uma idéia adequada dos

sentimentos mais elevados de assombro, admiração e devoção que enchem

a mente”.

Pensava sobre o futuro também. Durante grande parte da viagem,

aparentemente conservara a intenção de adotar a vida de pastor rural,

embora essa perspectiva parecesse aos poucos menos atraente à medida que

sua autoconfiança como naturalista crescia. Perto do fim da viagem,

escreveu às irmãs que desejava se dedicar à história natural como vocação e

esperava ser aceito como um igual na comunidade científica. Queria ser um

cavalheiro especialista independente como Lyell, livre para escrever livros e

seguir sua vocação para a história natural, não vinculado a uma

universidade como Henslow, nem ao sistema eclesiástico de padroado como

Fox.

À proporção que a imagem mental do presbitério em meio aos verdes

campos ingleses desmoronava, a figura de Lyell aparecia acenando por trás

dela. “Parece-me que fazer o pouco possível para aumentar o cabedal de

conhecimento é um objetivo de vida bem respeitável a se seguir”.14 Essa

mudança em suas ambições baseou-se na convicção de que tinha coisas

novas e notáveis a dizer. Foi influenciada também pela boa vontade de seu

pai em liberar a herança.

Darwin era um homem mudado quando pisou no cais de Falmouth em

outubro de 1836, mas não ainda um evolucionista.

 

a Na verdade, formalmente, o Brasil já estava independente de Portugal desde 1822, mais de oito anos antes da viagem do Beagle. [N.T.]

 

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