A origem das espécies de Darwin

Janet Browne · Capítulo 5 de 10

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A origem das espécies de Darwin

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Vinte e três anos após publicar o livro que o tornou famoso, Darwin faleceu em casa, aos 73 anos. Foi enterrado na abadia de Westminster, em Londres, o lugar mais usual para funerais com honras de Estado, casamentos da realeza e celebrações nacionais. Enterrar o

autor da Origem das espécies em um local como este foi irônico sob muitos

aspectos, pois a nação tinha plena consciência de que Darwin conquistara a

reputação de ter abalado a autoridade da Igreja. À altura de sua morte,

contudo, era festejado como grande celebridade científica, um venerável

homem da ciência, alguém que olhava mais longe e via além, um intelectual

da categoria de Newton, que certamente merecia ser honrado no principal

cenário de comemorações do país.

Professores, sacerdotes, políticos, expoentes da medicina, aristocratas e

membros da população lotaram a abadia para assistir ao enterro. “Feliz é o

homem que encontrou a sabedoria”, entoou o coro. Não se pode afirmar que

Darwin fosse um homem feliz, mas com certeza era reverenciado por seus

feitos e caráter pessoal, o modelo de como devia ser um homem de ciência.

No entanto, apesar dessa reverência, o mundo cultural entrava em uma

fase diferente, com características notoriamente mais modernas. As

exaltadas controvérsias religiosas de outros tempos se amainavam. Ao se

considerar a Bíblia como um texto alegórico repleto de significação

espiritual, tornou-se possível para os cristãos conservar a crença na verdade

da mensagem de Deus e apreciar, ao mesmo tempo, as descobertas

científicas como um tipo diferente de verdade. Além disso, o poder da própria Igreja diminuía. Muitas dessas mudanças são atribuídas à Origem

das espécies. As homenagens prestadas a Darwin em seu funeral atestaram

o importante papel que sua obra exerceu na construção da mentalidade

contemporânea.

Seu legado científico, porém, não foi nem de longe tão certo. À medida

que outras áreas de pesquisa se abriram nas ciências biológicas, e novos

gêneros de profissionais passaram a considerar um âmbito mais amplo de

problemas com técnicas mais sofisticadas, a tese original da seleção natural

foi modificada a ponto de se tornar quase irreconhecível. Houve discussão

acerca dos conceitos centrais de competição, sucesso e “aptidão”, em

particular sobre a maneira como se entrelaçavam com ideologias políticas

da época. Entraram em jogo sistemas evolucionários alternativos, baseados

em respostas diretas ao ambiente. De fato, diz-se muitas vezes que, perto do

fim do século XIX, o darwinismo foi eclipsado por outros sistemas de

pensamento evolucionário, sendo restaurado apenas quando uma “nova

síntese” foi proposta, na década de 1940.

Grande parte desse eclipse se deu graças a novas críticas aos principais

suportes das propostas originais de Darwin. O darwinismo social foi

criticado à medida que ascendia à preeminência no pensamento político por

volta de 1900. Wallace passou a rejeitar a aplicação dos aspectos

competitivos da biologia darwinista à sociedade humana e começou a

apoiar princípios socialistas utópicos. J. Keir Hardy, por sua vez, afirmou

que o progresso ocorria mediante seleção grupal, pela simpatia mútua dos

indivíduos.

Na Rússia, a ideologia dominante professava que a principal luta pela

existência não opunha uma espécie à outra, mas as espécies ao ambiente. O

príncipe russo emigrado Piotr Kropotkin levou essa idéia adiante em

Mutual Aid, de 1902, afirmando que a principal força motriz da evolução

era a cooperação, exatamente o contrário da competição. Pensadores

socialistas como George Bernard Shaw insistiam na superioridade moral

das idéias lamarckianas, segundo as quais o ambiente era mais importante

na configuração do caráter humano que as propriedades biológicas

inerentes. J.B.S. Haldane declarou confidencialmente: “O darwinismo está

morto”.

O mecanismo operativo da seleção natural também foi criticado, sob o

estímulo da obra do crítico e escritor Samuel Butler (1835-1902). Em

Evolution Old and New, de 1879, Butler minimizou a importância do esquema de Darwin em favor das idéias do dr. Erasmus Darwin e de

Lamarck. Segundo ele, Charles Darwin era apenas um de uma longa

linhagem de pensadores evolucionários, e A origem das espécies orientava

os biólogos erroneamente a procurar luta e respostas mecanicistas onde

esquemas antigos tinham muito mais a oferecer, ao reconhecer que os

organismos podiam responder de maneira adaptativa ao ambiente.

Nos últimos anos de vida, Darwin discutiu intensamente com Butler

sobre o texto de uma biografia do dr. Erasmus Darwin, numa discórdia que

começou com a lamentável quebra de etiqueta por parte de Darwin e logo

veio a representar um conflito entre gerações e visões de mundo, pois

Darwin não era capaz de controlar Butler como havia feito com outros

discípulos. O desentendimento terminou com o completo rompimento

pessoal entre eles. Esse embate intriga os historiadores em razão da maneira

como revela fissuras no edifício darwinista. As idéias de Butler nitidamente

se harmonizavam com o crescente debate sobre os papéis relativos da

hereditariedade e do ambiente, não só na teoria biológica como também na

compreensão do desenvolvimento mental da infância à idade adulta e da

estrutura da sociedade. O slogan de Galton, “nature or nurture” (biologia

ou ambiente), tornou-se questão de considerável interesse.

Além disso, embora houvesse grande entusiasmo entre naturalistas para

reconstruir a história da vida na Terra, logo ficou claro que as trajetórias

pré-dirigidas de evolução não-darwinistas eram mais atraentes. Os

paleontólogos assumiram a dianteira nessa área, provavelmente por causa

das espetaculares descobertas de fósseis feitas na segunda metade do século

XIX e início do XX no Oeste norte-americano. O paleontólogo Theodore

Eimer afirmou que a história evolucionária não tomara a forma de uma

árvore ramificada darwiniana, mas procedera em linha reta. Em sua

perspectiva, a seleção natural era impotente, exceto para extirpar tendências

obviamente deletérias. Um exemplo muito discutido foi o do alce irlandês,

que, ao que se supunha, se havia extinguido em razão do desenvolvimento

descomedido dos chifres – a sugestão era que os chifres haviam adquirido

um momentum próprio e se tornaram um risco, e não uma vantagem.

Alpheus Hyatt, outro conceituado especialista em fósseis, afirmou de

maneira semelhante que as tendências adaptativas quase sempre

prosseguiam além de sua utilidade. Ao fim, disse, as espécies eram levadas

a uma “senilidade racial” e à extinção. Seu colega Edward Drinker Cope, de

modo diferente, pensava que a evolução seguia quase o mesmo curso que o embrião de um indivíduo, algumas vezes se acelerando e em outras

recuando. Henry Fairfield Osborn, diretor do Museu Norte-Americano de

História Natural, um dos mais importantes do mundo na área, darwinista

empenhado, acreditava que todo grupo de organismos passava por um

período de rápida diversificação no início de sua história e depois se

estabilizava em várias linhagens constantes de desenvolvimento. Como

Eimer e Cope, ele nada via nos registros fósseis da ramificação múltipla

descrita por Darwin. De fato, afirmava que grupos animais inteiramente

diferentes podiam progredir ao longo de trajetórias quase iguais, como no

desenvolvimento de chifres, por exemplo.

Essas histórias evolucionárias, com seus subtextos de senescência ou

morte inerentes à superespecialização, davam considerável apoio a visões

pessimistas sobre o futuro humano. As culturas primitivas passaram a ser

vistas como se estivessem na “infância” de seu desenvolvimento.

Sociedades mais avançadas podiam estar situadas em um ponto de

desenvolvimento que as levavam, após as culminâncias da civilização, para

a degradação ou a decadência. Os que transgrediam as convenções da

sociedade, como criminosos, homossexuais e os mentalmente perturbados,

podiam ser categorizados como “regressões” a um passado da raça.

À medida que o otimismo no progresso constante decrescia, tais

preocupações eram vividamente expressas em romances do final do século

XIX. A máquina do tempo (1895) de H.G. Wells narrava a experiência de

um viajante levado para um futuro em que os seres humanos haviam se

deteriorado em duas espécies, os brutais morlocks que viviam no

subterrâneo e os débeis elóis da superfície, uma parábola das divisões

sociais que Wells distinguia em seu próprio tempo. The Coming Race

(1871), de Bulwer Lyton, Erewhon, escrito por Samuel Butler e publicado

em 1872, e O mundo perdido (1912), de Conan Doyle, trataram em geral

dos mesmos temas, enquanto Émile Zola e Thomas Hardy tiraram grande

proveito da idéia de degeneração hereditária e da pressão inflexível das

forças biológicas sobre o gênero humano.

No início do século XX, grande parte do mundo desenvolvido foi

influenciada, em maior escala, pelos sistemas de pensamento eugenísticos,

que chegaram ao auge em 1912 com o primeiro Congresso Eugenístico

Internacional, realizado em Londres. Muito antes disso, Francis Galton e

outros, na Grã-Bretanha, haviam apreendido o ânimo deprimido da época e apontado para a baixa qualidade dos recrutas militares para a Guerra dos

Bôeres para ilustrar o declínio da aptidão biológica da nação.

Outros sinais de “degeneração” pareciam abundar aos olhos da elite:

aumento da criminalidade, afrouxamento dos valores morais com

conseqüente aumento da prostituição e das doenças venéreas, crescente

inquietação política entre os trabalhadores, sindicalização e ameaça de

greves e manifestações. Enorme publicidade envolveu o processo legal

movido contra Oscar Wilde por homossexualidade. Até a causa do sufrágio

feminino e a proeminência política da “nova mulher” (aquelas que

trabalhavam, desejavam ser instruídas e votar, e talvez andassem de

bicicleta e fumassem) eram tomadas como sintomas de uma nação em

decadência.

Se no tempo de Darwin a eugenia se expressava sobretudo em temores

quanto à manutenção da aptidão biológica, no início do século XX ela se

expandiu pela Europa e América na forma de movimentos que pretendiam

mudar as políticas de governo com medidas de saúde pública para as

massas, controle da natalidade e restrições compulsórias à procriação.

Fundamentalmente, o velho sistema de controle malthusiano que Darwin

empregara na biologia era reaplicado às economias políticas com apoio

biológico convincente. Os pobres, loucos, fracos e doentes passavam a ser

encarados como fardos biológicos para a sociedade. Para o bem da nação,

dizia-se, era preciso introduzir políticas para evitar que se reproduzissem.

Muitas dessas iniciativas assumiram forma institucional. O National

Eugenics Laboratory foi fundado na University College London, com uma

doação testamentária de Galton, para investigar a deterioração de linhagens

familiares, aferida sobretudo pela incidência de distúrbios mentais

hereditários. Sua direção coube a Karl Pearson, eugenista e biólogo

darwiniano com acentuada tendência socialista. Psiquiatras identificavam

“tipos” degenerados entre seus pacientes usando o então novo meio da

fotografia, e criminologistas como o escritor italiano Cesare Lombroso

propuseram que os desviantes sociais apresentavam estigmas físicos

visíveis. Estes eram por vezes explicitamente associados a feições físicas

simiescas. Lombroso popularizou também a palavra “atavismo”, que

significava uma reversão a um tipo ancestral de símio.

Doenças como a epilepsia ou deformidades flagrantes categorizavam

outras pessoas como indesejáveis. Pensava-se que esses indivíduos inaptos

podiam ser identificados por meio de “sinais” e depois eliminados da sociedade. Em 1888, o detetive parisiense Alphonse Bertillon fez

exatamente isso ao introduzir um sistema de sinais e medidas físicas para

identificar qualquer indivíduo que passasse pelo sistema criminal francês;

entre esses signos estava a técnica da tomada de impressões digitais, base

de todos os procedimentos modernos de identificação. A mesma ameaça de

degeneração física e moral foi considerada de maneira fascinante por

Robert Louis Stevenson em O médico e o monstro (1886), em que o

alterego do dr. Jekyll, o perverso Hyde, se torna progressivamente mais

simiesco à medida que seus atos homicidas se acumulam.

Decadência urbana, miséria industrial e insistência em medidas

intervencionistas de saúde pública, como vacinas e regulamentação da

prostituição, tomavam os jornais. Os temores da classe alta britânica de ser

atropelada por uma classe baixa depravada e criminosa (o “populacho”)

generalizaram-se. A Eugenics Education Society, que logo se converteria na

Eugenics Society, foi fundada na Grã-Bretanha em 1907 e se encheu

rapidamente de profissionais convictos, desejosos de aprimorar e controlar

as massas. Seu presidente de 1911 a 1925 foi Leonard Darwin, um dos

filhos de Charles Darwin. Um importante resultado atingido pela entidade

na Grã-Bretanha foi o Ato da Deficiência Mental, aprovado em 1913 para

identificar indivíduos mentalmente deteriorados e segregá-los em

instituições ou asilos onde seriam impedidos de se reproduzir. Outros

governos europeus, em especial na Escandinávia, deram passos decisivos

no mesmo sentido, embora algumas leis nunca tenham sido aplicadas. Com

freqüência, constatava-se que os locais mais pobres da sociedade continham

a maior proporção de indivíduos inaptos. Os procedimentos eram

peremptórios. Asilos, orfanatos e prisões tornaram-se latas de lixo para

indesejáveis.

Também nos Estados Unidos a eugenia floresceu no início do século

XX. Em 1910 fundou-se o Eugenics Record Office, em Cold Spring

Harbor, e esforços foram feitos para descobrir as origens de características

como loucura, debilidade mental e criminalidade através das gerações. A

primeira tarefa era identificar os que não deviam se reproduzir. Formas

hereditárias de doença mental tornaram-se o alvo principal. Entre os

especialistas mais notórios, o dr. Henry H. Goddard, de Vineland, Nova

Jersey, adotou o sistema francês de testes de inteligência para aferir a idade

mental e a capacidade de crianças com deficiência mental, o qual foi

rapidamente convertido em testes de QI (coeficiente de inteligência).

Goddard cunhou os termos “débil mental”, “imbecil” e “idiota” para

descrever níveis específicos de retardo e propôs que essas pessoas fossem

permanentemente segregadas do resto da população. Ele não promoveu

esterilizações, ainda que algumas organizações médicas as preconizassem,

mas forneceu ao governo um instrumento quantitativo, um teste, para a

identificação dos biologicamente inaptos para a sociedade. Mais tarde,

Robert Yerkes testou a população masculina adulta convocada para o

serviço militar na Primeira Guerra Mundial (cerca de 19 mil soldados).

Calculou que a maioria deles possuía idade mental de 13 anos. Seus testes

de QI indicaram ainda que os afro-americanos e outros de origem européia

recente tinham idades mentais inferiores. No nível mais baixo de todos

encontravam-se as prostitutas e os poloneses.

Os testes eram evidentemente tendenciosos em favor da classe média

letrada e branca, familiarizada com a cultura dos Estados Unidos, fato que

ficou ainda mais patente em Ellis Island. Cansados, traumatizados e

geralmente incapazes de falar o inglês coloquial, muitos imigrantes

esperançosos que chegavam aos Estados Unidos foram incorretamente

classificados como imbecis e mandados embora. As estatísticas de Goddard

chocaram o governo norte-americano. Charles Davenport, diretor do

Eugenics Record Office, defendeu a introdução de programas estatais para

restringir casamentos, impor a reclusão e a esterilização compulsórias. No

período de 1900 a 1935, nada menos que 32 estados aprovaram leis de

esterilização. A maior parte das 60 mil pessoas que foram esterilizadas sob

essas leis era paciente de manicômios ou prisioneira. Não há registro de

quantos tinham ascendência africana.

Por volta de 1900, as doutrinas eugênicas se emparelhavam

invariavelmente com outras extensões ideológicas do Darwinismo. Vários

biólogos e eugenistas que trabalhavam de acordo com o sistema darwinista

deram apoio à pretensão alemã de ser a nação líder da Europa. Em

particular Haeckel, que propôs uma filosofia materialista da vida chamada

“monismo”, segundo a qual o espírito e a matéria eram aspectos diferentes

da mesma substância. Sua Liga Monista defendia a supremacia alemã na

década anterior à Primeira Guerra Mundial e contribuiu indiretamente para

a posterior ascensão do fascismo. Imbuídos dessas idéias biologizadas da

sociedade, e de visões de ascendência nacional, os governantes alemães

foram mais longe que todos os outros em sua lei eugênica para a Prevenção

da Progênie dos Geneticamente Enfermos (1933). Cerca de 300 mil pessoas foram esterilizadas sob esse edito até 1939, quando a lei foi substituída pelo

programa de “eutanásia” para o extermínio dos judeus.

A ciência da raça reflete os mais extremos preconceitos da época e

também fez uso do darwinismo. É preciso dizer, no entanto, que racismo e

genocídio antecederam Darwin. E tampouco estiveram limitados ao

Ocidente. Apesar disso, idéias evolucionárias, e depois a nova ciência da

genética, deram considerável respaldo biológico àqueles que desejavam

dividir a sociedade segundo diferenças étnicas ou promover a supremacia

branca.

O autor norte-americano Joseph Le Conte falava em nome de muitas

pessoas quando justificou a subjugação dos negros no sul dos Estados

Unidos após a Guerra Civil: “A raça negra ainda está na infância, … ainda

não aprendeu a caminhar sozinha nas sendas da civilização”. Alguns

cientistas raciais acreditavam que agrupamentos étnicos diferentes

compunham espécies distintas, apesar de essa ter sido sempre uma visão

minoritária.

De acordo com a teoria de Carl Vogt, por exemplo, cada raça

desenvolvera-se a partir de um símio diferente: os brancos do chimpanzé;

os negros do gorila; e os orientais do orangotango. Na Europa e na América

do Norte, estes e outros cientistas raciais debatiam os cruzamentos

humanos, faziam investigações etnológicas sobre o comportamento sexual e

iniciavam estudos sobre miscigenação em regiões escravocratas.

Universidades e museus acumulavam coleções de crânios do mundo todo

para que os cientistas analisassem a capacidade craniana (considerada um

indicador da inteligência) e os desvios em relação a um suposto tipo

caucasiano ideal. Hoje essas coleções, verdadeiras relíquias de teorias há

muito relegadas, representam um embaraço para as instituições nacionais e

nunca são exibidas.

Municiada com as noções do naturalista Gregor Mendel sobre a

transmissão de características de uma geração para a seguinte, uma nova

geração de teóricos transformou o estudo da evolução humana em uma

ciência de fixidez racial que legitimava os preconceitos da época.

Para os norte-americanos, a questão da raça não só realçou os

problemas criados pela escravidão e as dificuldades enfrentadas com a

emancipação dos negros após a Guerra Civil, como precipitou a guerra

acadêmica entre cientistas sociais e biólogos. Os primeiros preferiam explicações culturais para justificar as diferenças raciais, e os últimos

defendiam a existência de parâmetros físicos e biológicos inerentes.

Franz Boas, que foi um dos fundadores da antropologia e defendeu a

natureza única e igual de todas as culturas, sofreu as pressões de um

poderoso lobby racial da biologia norte-americana na década de 1920, que

endossava a existência de estágios que toda sociedade deveria atravessar em

seu desenvolvimento. Do outro lado do Atlântico, mais ou menos na mesma

época, os nazistas afirmavam que os arianos eram uma forma distinta e

superior da raça humana destinada a dominar os “subumanos”. O horror

subseqüente à campanha nazista para a eliminação dos judeus pôs em

questão a ideologia da ciência racial, embora muito dela ainda exista.

Uma teoria racial menos importante também foi posta em prática no

início do século XX pelos paleantropólogos, sugerindo que houvera

múltiplas linhas de evolução humana, tendo algumas delas, inclusive os

neandertais, sido levadas à extinção por raças mais bem-sucedidas em

vários estágios do processo. À medida que vestígios de fósseis humanos

começaram a ser encontrados, os estudiosos se convenceram de que teria

existido uma série de formas animal-homem intermediárias. Em

retrospecto, é intrigante notar quanto os naturalistas queriam atribuir forma

e caráter simiesco a esses intermediários, em especial ao insistir no pequeno

tamanho de suas caixas cranianas. Pensava-se que as denominadas

características “humanas” haviam aparecido muito recentemente na história

geológica, quase todas de uma só vez, com a emergência do Homo sapiens.

Eugène Dubois ficou famoso por sua empolgante descoberta do

“Homem de Java” em 1891, um símio-homem que chamou de

Pithecanthropus. A descoberta de uma outra espécie, que seria chamada

Homem de Pequim, foi feita na década de 1920. O “bebê Taung” de

Raymond Dart acrescentou uma espécie sul-africana denominada

Australopithecus. O prêmio de ser reconhecido como a origem do gênero

humano gerou acerbas rivalidades nacionais durante 50 anos ou mais. Logo

uma exposição no Museu Norte-Americano de História Natural exibia

reconstruções dos três tipos de homem extintos – pitecantropos, neandertais

e Cro-Magnon (muito próximo do homem atual) – dispostos em uma série

progressiva que culminava com a forma branca e civilizada de nossos dias.

O fascínio por macacos-homens talvez explique a facilidade com que

uma fraude notória foi aceita pela comunidade acadêmica. Em 1912, os

restos de um crânio e de um maxilar humanos primitivos foram encontrados por um arqueólogo amador, Charles Dawson, em uma pedreira perto de

Piltdown, em East Sussex, e descritos como uma nova espécie de

hominídeo intermediário, Eoanthropus dawsonii (O homem auroral de

Dawson). Os ossos correspondiam à hipotética linha de evolução humana

então mais aceita.

Sir Arthur Keith, por exemplo, um dos principais investigadores das

origens do gênero humano na Grã-Bretanha, considerou os restos

provenientes de um tipo inferior, não estreitamente relacionado com os

outros seres humanos que se sabia terem existido ao mesmo tempo. Keith

tinha poucas dúvidas sobre o que ocorria quando formas mais elevadas e

inferiores entravam em contato: a guerra entre as raças era uma parte

natural da pré-história da evolução humana, declarou ele com segurança,

assim como a terrível guerra de 1914-18 havia resultado na vitória dos

britânicos, o que testemunhava a sobrevivência dos mais aptos.

Pouco a pouco, contudo, o crânio de Piltdown passou a ser cada vez

mais considerado anômalo. Na década de 1950, foi denunciado como

fraude: um maxilar de macaco fora preso a um crânio humano antigo e os

dentes lixados para produzir um padrão humano. Dawson provavelmente

não era o principal culpado. Outros amadores independentes foram

acusados, todos com alguma queixa contra o establishment científico.

Por todo o globo ocorriam mudanças fundamentais na maneira como os

estudiosos pensavam o mundo natural. O modernismo estava a caminho.

Vários biólogos começaram a se afastar do problema de como as espécies

existiam na natureza ou da história da árvore evolucionária para dirigir sua

atenção ao ser vivo, procurando os mecanismos de herança, hibridação,

mutação e variação. À altura da morte de Darwin, muitos já acreditavam

que a chave da vida estava na herança. Na última década do século XIX, o

objetivo de Darwin não era produzir um catálogo de animais e plantas

mortos, mas compreender o funcionamento interno dos corpos que tinham

vida, respiravam – uma ruptura conceitual consciente com o passado.

Essa nova atitude em relação à ciência biológica refletia um importante

afastamento da história natural calcada na observação rumo a uma forma de

investigação mais experimental, baseada no laboratório, movimento que

nessa época podia ser constatado em quase todas as ciências. A história

natural, é claro, não cessou; tornou-se secundária, por vezes vista como a

província dos naturalistas amadores, ou foi reconstituída de outro modo,

como as novas ciências do comportamento animal, da ecologia e do ambientalismo. Como a física e a química, a biologia era praticada

sobretudo no interior de laboratórios, sob condições controladas e cada vez

mais com a ajuda financeira de agências governamentais.

Os novos biólogos experimentais que surgiam fizeram descobertas

assombrosas em um período de tempo relativamente curto. Alguns se

aprofundavam na constituição do corpo vivo, investigavam as células e os

estágios iniciais do desenvolvimento embriônico. Outros exploravam

lacunas remanescentes das teorias de Darwin e estudavam as variações e as

heranças. As especulações de Galton sobre características inatas herdadas

pareciam responder a algumas das questões que Darwin deixara em aberto.

Mas as propostas de Galton eram inteiramente abstratas, nunca realizáveis

por completo em um laboratório.

Um grupo de seguidores, reunido em torno de Karl Pearson no

laboratório de eugenia da University College London, começou então a

estudar como a herança e a variação poderiam operar na prática.

Denominando-se biometristas, esses homens (e algumas cientistas

pioneiras) mediram a variabilidade nos seres vivos, como as dimensões das

carapaças dos caranguejos, e criaram muitos dos procedimentos estatísticos

hoje comuns para o cálculo de desvios em relação à norma para mostrar

pequenas mudanças adaptativas em determinada espécie. Por volta de 1900,

eles talvez fossem os últimos darwinistas comprometidos que ainda

existiam, insistiam no sistema original de Darwin de mudanças lentas e

graduais em populações.

Em outras áreas, os biometristas foram bem rápidos. Durante cinco

anos, discutiram intensamente com um grupo rival de biólogos da

Universidade de Cambridge sob o olhar de William Bateson (1861-1926),

excelente naturalista de campo e especialista em hibridação experimental. O

grupo de Cambridge era inflexível na defesa da idéia de que a evolução

ocorria por saltos e arrancadas, e que as tabelas de estatísticas produzidas

em Londres não diziam coisa alguma sobre o modo como animais e plantas

variavam ou transmitiam suas características à prole.

Essa controvérsia é muitas vezes compreendida como a fundação da

genética moderna, pois forneceu o contexto em que o trabalho de Mendel

com as ervilhas foi redescoberto. Três eminentes experimentalistas

europeus, Hugo de Vries, Carl Correns e Erich von Tschermak, cada um

estudando as variações das plantas por conta própria, e igualmente ávidos

por refutar os argumentos dos biometristas, encontraram o artigo de Mendel nos primeiros meses de 1900 e o levaram à atenção pública. Como

disseram, a essência dos experimentos de Mendel consistia em mostrar que

as características herdáveis eram independentes e não passíveis de se

misturar – na pesquisa de Mendel, as ervilhas na vagem eram verdes ou

amarelas, lisas ou rugosas, nunca algo intermediário.

Essas características autônomas tendiam a se reordenar (rearranjar)

durante os processos reprodutivos e apareciam em proporções fixas em

gerações subseqüentes. Por exemplo: três ervilhas enrugadas para cada lisa.

Além disso, as características podiam ser dominantes ou recessivas, isto é,

algumas eram visíveis no corpo da prole, ao passo que outras permaneciam

escondidas. Embora Mendel não fizesse idéia do que fosse o “gene”

moderno, seu trabalho antecipou de maneira impressionante a concepção-

chave da genética do século XX: a maior parte das características físicas –

como cada par de olhos castanhos – pode ser associada a uma única

entidade particulada, que era escolhida e transmitida de maneira

independente de geração para geração.

Mendel tampouco poderia prever como os resultados que obteve seriam

usados. Bateson apropriou-se com entusiasmo dos achados de Mendel e

transformou seu grupo em Cambridge no primeiro mendeliano do mundo.

Sua abordagem era decididamente não-darwinista, uma vez que

acreditavam que os experimentos de Mendel davam base à idéia de que a

evolução operava por saltos com base em variações relativamente

repentinas, ou “mutações”, nos organismos. As mudanças contínuas e

minúsculas estipuladas por Darwin e tão cuidadosamente medidas pelos

biometristas de Londres eram irrelevantes para eles, um grande desperdício

de tempo científico. Em poucos meses a transformação se completou.

Bateson chamou sua nova ciência de “genética” – o estudo da

hereditariedade – e afirmou que a teoria das mutações fornecia a resposta

para a origem das espécies.

De fato, a genética, no início, foi um tanto antidarwinista. Por mais de

20 anos os especialistas da área defenderam a idéia de que as mutações

eram a fonte de novas e favoráveis espécies de organismos – acidentes

felizes que introduziriam um tipo completamente diferente de ser no mundo

natural. Esses primeiros geneticistas não utilizavam a seleção natural em

suas pesquisas. Foi necessário muito trabalho nas décadas de 1930 e 1940

para se ver como o mendelismo e o darwinismo poderiam se conciliar.

Nesse meio tempo, dedicava-se muito cuidado à identificação do

material transmissível e ao modo como era passado de uma geração para

outra. Nessa época, estava longe de ser óbvio que os cromossomos

poderiam estar envolvidos. Em 1893, August Weismann sugeriu a

existência de uma substância invisível que transportaria toda a informação

hereditária de pai para filho. Chamou isso de “plasma germinativo” e

afirmou que ele não podia ser afetado pelo ambiente.

Esse plasma germinativo desempenhou um importante papel

interpretativo até ser expandido pela definição de “gene” de Wilhelm

Johannsen em 1911. Nem mesmo Johannsen teve plena certeza de que o

gene realmente existia até que Thomas Hunt Morgan, notável geneticista da

Universidade de Columbia, em Nova York, demonstrou que os genes eram,

por assim dizer, entidades reais enfileiradas ao longo dos cromossomos,

como pérolas em um colar, e indiscutivelmente continham o material

transmissível. Os famosos experimentos de Morgan dependiam de um

organismo particular, a mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster), que

possui cromossomos grandes e visíveis. Quebrando os cromossomos ou

manipulando-os de outra maneira, a equipe do laboratório de Morgan

produziu uma sucessão de moscas mutantes (com olhos vermelhos ou asas

unidas, por exemplo). O trabalho foi desenvolvido com tal sofisticação que

a equipe conseguiu localizar a parte específica do cromossomo para cada

mutação.

Os resultados foram resumidos em The Mechanism of Mendelian

Heredity, de 1915, hoje considerado um marco na genética moderna e que

valeu a Morgan o prêmio Nobel. O livro era completamente não-darwinista.

Com uma excelente nova teoria das mutações cromossômicas e o gene para

responder a todas as questões, Morgan descartou as idéias de variação,

adaptação e seleção de Darwin.

A influência da Origem das espécies se reduzia também em outros

lugares. Alguns geneticistas defendiam as idéias de herança no meio

ambiente. No século XX, os governos comunistas soviéticos foram em

geral hostis às implicações capitalistas da teoria darwinista e endossaram

uma nova forma de ambientalismo introduzida na política estatal por

Trofim Lysenko na década de 1930. O feito de Lysenko foi demonstrar a

adaptação do trigo às condições climáticas dominantes (a “vernalização”,

em que as sementes eram expostas ao frio, de modo a germinarem mais

cedo no ano seguinte). Lysenko afirmava que essa propriedade podia ser herdada, e assim seria possível produzir novas linhagens de trigo adaptadas

à curta estação de crescimento na Rússia.

Stálin adotou as descobertas de Lysenko, proibiu pesquisas genéticas

alternativas e instigou um expurgo de importantes geneticistas, como Sergei

Chetverikov e Nikolai Vavilov. Alguns fugiram para o Ocidente, como

N.W. Timoffeef-Ressovsky e Theodore Dobzhansky, que deram grande

contribuição ao desenvolvimento da genética. Outros simplesmente

desapareceram. Sob o regime comunista, notícias de espantosos (e

impossíveis) sucessos agrícolas foram difundidas até os anos intermediários

do governo de Kruschev, quando Lysenko foi abertamente criticado pelo

físico Andrei Sakharov. Só a partir de meados da década de 1960 a ciência

soviética passou a se abrir gradualmente para as idéias darwinistas de

evolução e para a nova genética.

Na década de 1930, de fato, era difícil ver exatamente em que a teoria

de Darwin ainda podia ser pertinente. A biologia molecular começava a ser

pesquisada; a química e a física se tornavam mais afeitas a explorar a

estrutura interna da matéria viva; as técnicas de laboratório promoviam

avanços substanciais na compreensão do funcionamento da célula e no

mapeamento da base genética da hereditariedade. Os naturalistas de campo

sentiam-se deixados para trás nas disputas acadêmicas da chamada big

biology. Na perspectiva atual, é quase impossível conceber um mundo de

pesquisa biológica sem os conceitos de adaptação e seleção natural,

ferramentas intelectuais que serviram de base para grande parte da

biomedicina moderna, das ciências ambientais, das teorias do

comportamento humano e da psicologia. Mas o que estimulou o tão intenso

reflorescimento do darwinismo em meados do século XX?

Os historiadores concordam que três linhas divergentes de pesquisa

foram vigorosamente reunidas por um grupo de inspirados jovens

naturalistas na década de 1940. Entre eles estavam o escritor e biólogo

Julian Huxley (neto de Thomas Henry Huxley); Ernst Mayr, naturalista de

campo e filósofo-biólogo emigrado da Alemanha; Sewell Wright,

geneticista norte-americano; George Gaylord Simpson, paleontólogo de

vertebrados; e G. Ledyard Stebbins, um ativo botânico e geneticista. A

história do darwinismo no século XX foi decidida por esses personagens,

que lutaram para lhe dar novo significado e o integraram a disciplinas

experimentais mais avançadas. Em poucas palavras, os naturalistas de

campo e observadores que ainda se sentiam diretamente vinculados ao trabalho de Darwin tiveram de se reinventar. Embora não pretendessem que

isso coincidisse com qualquer outro evento, a “síntese moderna” foi

desenvolvida justo a tempo para as pródigas celebrações do centenário da

publicação da Origem das espécies em Chicago, em 1959.

Um importante primeiro passo foi a conciliação das propostas originais

de Darwin com a genética do início do século XX. Foi necessário

transformar os processos externos de evolução de animais e plantas em

mudanças na freqüência de genes. Por conseguinte, pequenas mutações

repetidas nos cromossomos foram reinterpretadas como responsáveis pelo

fundo de variabilidade necessário como matéria-prima da seleção. Cada

característica, compreendia-se nesse momento, exigia uma série contínua de

variações, de modo que em uma população grande havia muitas diferenças

no estoque genético em que a seleção poderia operar.

Uma das principais figuras desse movimento foi o estatístico de

Cambridge Ronald Aylmer Fisher, que criou um modelo matemático para

mostrar como a freqüência de um gene favorável podia aumentar numa

população. Fisher dedicou parte significativa do livro resultante de seus

estudos à discussão das implicações humanas: inspirado por Pearson – ele

era eugenista ardoroso, assim como cristão liberal –, que afirmava ver a

mão de Deus no progresso biológico. Outra figura importante foi J.B.S.

Haldane, um homem extraordinário que contribuiu de maneira notável para

a educação pública britânica no período entre as duas grandes guerras.

Como outros na época, Haldane via o marxismo com entusiasmo. Fez

campanha contra Fisher e a eugenia. Acabou por renunciar à sua cátedra na

University College London em protesto contra o militarismo da Segunda

Guerra Mundial e partiu para lecionar na Índia.

O homem que transformou tudo isso em uma teoria da genética

populacional foi Sewell Wright, da Universidade de Chicago. Por volta de

1920, Wright desenvolveu um poderoso procedimento matemático para

explorar o fluxo de genes em pequenas populações de cobaias e ratos de

laboratório. Nos anos 1930 ele investigou populações naturais e propôs que

pequenos grupos similarmente pequenos deviam estar sujeitos ao que

chamou de “tendência genética”. As metáforas usadas por Wright de uma

paisagem adaptativa com picos e vales provaram-se uma maneira eficaz de

pensar a extensão ou contração de pequenos grupos de variações

particulares dentro de populações maiores, em que cada grupo estava pronto

a ter seu número aumentado ou diminuído segundo condições sujeitas a mudanças. A obra de Wright tornou-se disponível para um público mais

amplo graças às sucessivas edições do livro capital de Theodore

Dobzhansky, Genetics and the Origin of Species, de 1937.

Inspirado pelas novas idéias da biologia populacional, Ernst Mayr pôs-

se a trabalhar na Universidade de Harvard para integrar seus estudos

ornitológicos de campo com a genética. De todos os pensadores da biologia

do século XX, Mayr se destaca por sua apreensão tanto dos detalhes

práticos quanto de sua visão filosófica. Como Darwin, concluiu que uma

nova espécie podia se desenvolver caso um grupo variante de organismos

ficasse por algum motivo geograficamente isolado de sua população

parental.

Dobzhansky ampliou as propostas de Mayr e sugeriu a existência de

outros mecanismos isoladores, como características comportamentais ou

diferentes tempos de procriação, que poderiam evitar que duas ou mais

populações se fundissem. Ao mesmo tempo, G.G. Simpson reinterpretou os

registros fósseis, aplainando suas interrupções e começos para acomodar a

idéia de variação contínua. Afirmava que as formas transicionais, por serem

raras, eram com pouca freqüência preservadas, o que dava ao registro fóssil

uma falsa aparência de grandes e súbitas mudanças. Depois Stebbins

mostrou como a ocasional duplicação e triplicação dos cromossomos de

uma planta podia explicar a origem súbita de espécies enormemente

diferentes no mundo vegetal. Os três conseguiram unir as aparentes

descontinuidades do mundo vivo a uma reinterpretação compatível com a

genética de passos pequenos e graduais de Darwin. Julian Huxley reuniu

todos eles num livro popular publicado em 1942 com o título Evolution:

The Modern Synthesis.

Entretanto, eles não possuíam provas. Sempre engenhosos, e mais ou

menos da mesma maneira como Morgan recebera um prêmio Nobel por

causa das moscas-das-frutas, os recém-reconstituídos darwinianos

voltaram-se, encantados, para os tentilhões de Galápagos e depois para a

mariposa-salpicada, (Biston betularia). Os tentilhões de Galápagos

tornaram-se depois o exemplo de evolução mais conhecido no mundo – não

por causa de uma atenção renovada aos escritos de Darwin, é preciso dizer,

mas graças ao trabalho de David Lack, um professor de escola e

ornitologista amador.

Lack, que despertara a atenção de Julian Huxley em 1938, visitou as

ilhas Galápagos logo em seguida para observar o comportamento dos tentilhões durante toda a época de procriação. Depois de dez anos de

trabalho em museus, concluiu que a chave da evolução dessas aves estava

em seus bicos. Cada espécie tornara-se adaptada a um alimento particular, o

que permitira a diversificação em muitos nichos diferentes. Seu livro

Darwin’s Finches, de 1947, descreveu as aves como um exemplo de

evolução em andamento. Figurando em inúmeros livros de biologia,

documentários sobre a natureza e explicações populares da evolução, “os

tentilhões de Darwin” tornaram-se sinônimo do novo darwinismo. O

trabalho realizado por Peter e Rosemary Grant a partir da década de 1970

na Galápagos Research Station continua sendo o mais influente estudo de

campo sobre a evolução já realizado.

A mariposa-salpicada teve sucesso semelhante. Tornou-se um exemplo

icônico de seleção natural ainda a tempo para as celebrações do centenário

da Origem das espécies em 1959, embora mais tarde o exemplo tenha sido

envolto por acusações não comprovadas de fraude. O estudo foi feito na

Grã-Bretanha por Bernard Kettlewell sob a orientação de Henry Ford,

biólogo populacional pioneiro da Universidade de Oxford. Dificilmente se

poderia encontrar organismo melhor para uma demonstração que essa

mariposa. Ela existe em duas formas na natureza: uma salpicada de preto e

branco e outra toda preta, graças a uma mutação chamada melânica. Nos

carvalhos comuns, a primeira forma é quase invisível. Tal vantagem é

anulada em áreas industriais poluídas, onde é a forma preta que se camufla

melhor nos troncos escurecidos das árvores.

Kettlewell soltou quantidades dos dois tipos de mariposa em duas áreas

cobertas por bosques, uma perto de Manchester, onde as árvores estavam

escurecidas pela fuligem, e a outra em uma área rural limpa em Dorset.

Comprovou que as aves comiam a forma mais visível, exercendo assim

uma pressão seletiva darwiniana que permitia a um tipo de mariposa

sobreviver e se multiplicar em detrimento da outra. Isso mostrava

categoricamente que a seleção podia alterar a freqüência de genes

particulares (nesse caso, o gene melânico) numa população.

Em um verão, o famoso behaviorista animal Niko Tinbergen passou

alguns dias com Kettlewell para filmar aves silvestres bicando as mariposas

em troncos de árvores. Hoje um filme clássico de história natural, a velha

fita em preto-e-branco foi exibida nas primeiras televisões, uma maneira

perfeita para mostrar as mariposas pretas e brancas contra o fundo branco e

preto. Nos últimos anos, graças ao controle governamental para diminuir a poluição, a forma preta foi reduzida a tal ponto na Grã-Bretanha que os

biólogos consideram difícil repetir os experimentos de Kettlewell.

Um enorme passo na unificação das ciências biológicas foi dado. A

síntese moderna transformou as velhas noções de seleção e mudança

adaptativa e infundiu vida nova às idéias de Darwin. Os biólogos

adquiriram renovado interesse por temas darwinistas que enfatizavam a

observação e os estudos práticos de campo. A maioria dos biólogos dessa

importante época voltou os olhos diretamente para Darwin. O centenário da

publicação da Origem das espécies, que foi também o 150o aniversário do

nascimento de Darwin, tornou-se ocasião de grandes celebrações e

renovação do interesse pelas suas idéias em meio à retórica do futuro

avanço científico. Alguns biólogos escreveram biografias de Darwin, outros

editaram os diários e os cadernos do Beagle, e houve ainda aqueles que

organizaram movimentos para que sua casa fosse preservada como

memorial e museu onde a importância da ciência evolucionária moderna

pudesse ser apreciada e explicada. A biologia evolucionária tornara-se

finalmente uma disciplina científica reconhecível, e Darwin foi alçado à

posição de seu fundador.

A nova geração de darwinistas dedicou-se também à questão da ética

humana. A maior parte estava convencida de que a ciência confirmava a

ausência de qualquer plano subjacente ou desígnio divino inerente ao

universo. G.G. Simpson, um dos arquitetos da síntese moderna, afirmou ser

impossível considerar a espécie humana como a meta predeterminada de

mudanças aleatórias nas freqüências de genes. Em uma expressão divertida,

disse que o gênero humano era o resultado de um processo que nunca

pretendera chegar a ele, Simpson.

De fato, a síntese moderna era muito menos prontamente compatível

com a crença espiritual que qualquer forma anterior, mais flexível e teísta,

da teoria evolucionária. Da década de 1950 em diante, cresceu entre os

cientistas profissionais a tendência à descrença, pelo menos dentro dos

laboratórios. A essência da ciência moderna, diziam, era procurar respostas

no mundo dos indícios e das provas, sem apelo ao divino ou a outros fatores

sobrenaturais.

Alguns encontravam consolo espiritual em idéias persistentes de

progresso social. O naturalismo científico podia se revestir do manto de

uma religião, como foi preconizado certa vez por Thomas Henry Huxley

em seus “sermões leigos”, ou formulado pelos filósofos William James e Charles S. Pierce. O misticismo evolucionário do livro O fenômeno humano

(1959), de Pierre Teilhard de Chardin, foi também popular entre os que

buscavam uma direção espiritual nos processos evolucionários. O mundo

dos seres vivos, sugeria ele, estava encerrado em uma esfera de unidade

mental chamada “noosfera”. Isso antecipou a idéia de ciberespaço em cerca

de 20 anos, e Teilhard de Chardin é lembrado hoje sobretudo por sua

influência sobre os engenheiros do Vale do Silício.

Julian Huxley, que em geral simpatizava com tais idéias, promovia uma

filosofia humanista e rejeitava a idéia de um criador transcendental, recorria

a um idealismo do século XIX para enfatizar a responsabilidade do gênero

humano na promoção do progresso moral. A maioria dos biólogos ainda

queria pensar que os seres humanos eram especiais. A inteligência, a

adaptabilidade e as características sociais humanas ainda eram vistas como

indicações de um nível de desenvolvimento mais elevado que o alcançado

entre os animais. Os humanistas acreditavam que o gênero humano era

capaz de ir adiante da biologia e construir um mundo melhor, baseado em

políticas sociais pacifistas e altruístas.

Após a brutalidade da Segunda Guerra Mundial, contudo, parecia haver

pouco sentido em atenuar o lado mais cruel do comportamento animal. O

fundador da etologia moderna, Konrad Lorenz, demonstrou o

comportamento agressivo inato dos animais e advertiu que também os seres

humanos eram dotados de instintos básicos igualmente destrutivos. A

mensagem foi reiterada por Robert Ardrey em sua obra sobre o “imperativo

territorial”, e por Desmond Morris em um texto amplamente difundido, O

macaco nu (1967). Logo a terminologia dos estudos dos primatas se

espalhava da ciência para o uso público comum. Os magnatas da

publicidade desfrutaram um período particularmente inventivo com seus

slogans sobre “machos alfa”. Ser humano, ao que parecia, era ser

animalesco.

A imagem da natureza humana como fundamentalmente egoísta e

agressiva não ficou inconteste durante o período das demonstrações em

defesa da paz e do amor nos anos 1960. Louis Leakey, venerável figura da

paleantropologia, estimulou três cientistas mulheres a desenvolver

observações de símios na natureza, sendo a primeira vez que essa tarefa foi

realizada segundo padrões científicos modernos. Colocou Jane Goodall na

Gombe Stream Reserve, perto do lago Tanganica, na África Oriental, para

observar chimpanzés; mandou Biruté Galdikas a Sumatra para observar orangotangos; por fim, em 1967 levou Dian Fossey para trabalhar numa

reserva em Ruanda.

Esses estudos de símios em seus hábitats mostraram que eles em geral

se concentram na família, são leais a seu bando, e só ficam agressivos

quando se sentem ameaçados. Por conseguinte, renovou-se a disposição de

levar a sério a relação mental e emocional mais estreita entre símios e seres

humanos. Graças à ampla conexão com o público por meio de revistas

como a National Geographic, essas argutas cientistas da observação

figuram entre as primeiras a estimular a consciência política relativa a

questões de conservação ambiental.

A tensão entre essas noções nunca diminuiu. A discussão a respeito da

tênue fronteira entre animais e gênero humano, ciência e valores humanos,

seguiu mais recentemente a linha traçada por Edward O. Wilson em

Sociobiology: The New Synthesis, de 1975, em que padrões de

comportamento animais e humanos são localizados na estrutura genética de

cada espécie. Wilson afirmou que todos os organismos são geneticamente

programados para assegurar o maior benefício reprodutivo para si mesmos:

os machos tendem naturalmente a espalhar seu esperma à sua volta o mais

amplamente possível, e as fêmeas a conservar seus valiosos óvulos. Os

machos não se fixam em um lugar para cuidar do bebê, e as fêmeas

procuram o melhor e mais empenhado dos pais. Todos os padrões de

comportamento podiam ser mais ou menos vinculados ao esforço de

sobrevivência do gene. Ao afirmar isso, Wilson não pretendeu

deliberadamente sugerir que as vidas humanas são de todo biológicas,

embora tenha realmente dito que “o gene domina a cultura”. Não propôs

tampouco que os seres humanos sejam pouco mais que um feixe de genes.

Concordava que as sociedades são compelidas principalmente por

instituições políticas, limitações econômicas e convenções sociais.

Para os críticos, no entanto, dificilmente essa abordagem determinista,

enraizada em uma inflexível ciência dos genes, se distingue dos usos

perigosamente ideológicos da genética. A sociobiologia poderia facilmente

ser usada para endossar afirmações de diferenças inerentes em capacidade

intelectual de acordo com etnicidade ou gênero. Os pensadores religiosos

condenam a idéia de que os valores morais derivam da utilidade biológica –

que uma mãe cuide do filho para assegurar que seus genes sejam

transmitidos com sucesso à geração seguinte. Os esquerdistas temem que

tais idéias possam ser apropriadas pela direita para justificar convenções como a família nuclear, ou para evitar melhoramentos urbanos e assistência

médica – porque parece mais fácil e mais barato acreditar em características

biológicas inalteráveis e hereditárias. Pessoas da área das ciências humanas

censuram a constante redução dos atributos humanos à mera biologia. Essa

discussão cultural e científica continua com força total no século XXI.

Em 1976, um texto amplamente lido de Richard Dawkins, intitulado O

gene egoísta, colocou muitas dessas questões em primeiro plano. Dawkins

explicou o mundo dos genes de maneira metafórica, como se todo

organismo vivo, cada ave canora ou chimpanzé fosse apenas o meio para

um gene fazer outro gene. Os padrões de comportamento eram pouco mais

que expedientes úteis para assegurar a reprodução e a difusão de genes em

uma população. Como Wilson, Dawkins foi muito criticado. Estimulado por

manchetes sensacionalistas nos meios de comunicação de massa, o público

passou a pensar que a ciência propunha a existência de um gene

correspondente a cada característica humana (um gene da “inteligência”,

um gene “homossexual”, um gene “adúltero”), da mesma forma como

poderia haver um gene para a fibrose cística. A conseqüência disso é que os

geneticistas têm dificuldade para explicar que não existe um único gene

responsável pela existência de uma característica, e que as personalidades

ou doenças de um indivíduo dependem da interação e expressão de muitos

genes, via proteínas nas células, além de serem influenciadas por condições

ambientais locais e por estruturas sociais e de educação.

Poucos desses debates sobre gorilas, genes egoístas e padrões de

comportamento biologicamente programados, contudo, geraram

controvérsia sobre a precisão do conhecimento produzido. Até o papa João

Paulo II enviou uma carta aos católicos em 1996 admitindo que o resultado

do trabalho científico realizado de maneira independente em todo o globo o

levava a reconhecer na teoria da evolução mais que uma hipótese.

O mais inesperado de todos os desenvolvimentos recentes é a

ressurgência da literatura criacionista e a proliferação de toda uma nova

série de teologias antidarwinistas no Ocidente. É possível que esta seja mais

uma expressão, entre muitas, de uma reação cultural diante do

afrouxamento dos códigos morais desde as décadas de 1960 e 1970. Os

novos criacionistas talvez culpem a ascensão de idéias seculares pela

decadência moderna e a perda de valores familiares tradicionais. Atacar a

teoria evolucionária seria, portanto, uma forma de agredir tanto um símbolo como a pretensa causa da podridão da sociedade. Visto de fora, o tom desse

movimento é condenatório e conservador.

Enquanto os antidarwinistas do século XIX jamais conseguiram se unir,

e por isso perderam muito de sua influência, os fundamentalistas dos

Estados Unidos no fim do século XX adquiriram uma voz

impressionantemente unida e bastante divulgada.

Muitos desses movimentos modernos fazem eco a temas que emergiram

no julgamento Scopes, realizado no Tennessee, em 1925, quando políticos e

teólogos tentaram banir o darwinismo da educação pública. As assembléias

legislativas de seis estados do sul dos Estados Unidos já haviam proposto

leis antievolução em 1923, e dois projetos menos importantes foram

aprovados.

Em 1925 a Assembléia Legislativa do Tennessee aprovou uma lei que

tornou crime “ensinar qualquer teoria que negue a história da criação divina

do homem tal como ensinada na Bíblia, colocando em seu lugar a idéia de

que o homem descende de uma ordem inferior de animal”. Quando a

American Civil Liberties Union declarou que defenderia qualquer professor

do ensino básico que quisesse resistir à lei, John Scopes, jovem professor de

ciências de Dayton, aceitou o desafio.

O julgamento começou como um espetáculo publicitário, mas logo deu

ao advogado Clarence Darrow a oportunidade de expor a tolice e o

malefício de se tomar a Bíblia ao pé da letra, ao extrair respostas sobretudo

de William Jennings Bryan, um defensor dos valores cristãos e destacado

opositor da evolução nas escolas. A maioria dos observadores neutros

declarou o julgamento não decisivo. Em 1960 o caso foi transformado em

um filme de muito sucesso, O vento será tua herança, e depois disso

milhões de norte-americanos abandonaram a oposição religiosa à teoria

evolucionária.

A ascensão de idéias criacionistas semelhantes em nossos dias talvez

possa ser explicada pelas proteções que elas representam em um mundo

cada vez mais turbulento, alimentado pela frustração e a crescente divisão

entre especialistas e povo – e por uma aversão à ciência feita atrás de portas

fechadas. Inspirados sobretudo nos prolíficos textos escritos nos anos 1930

por George McCready Price – professor de ciência e adepto da Igreja

Adventista do Sétimo Dia – e revigorados nos anos 1960 por Henry Morris,

pregador da Igreja Batista do Sul, criacionistas da “Terra jovem” e outros

crentes na verdade literal da Bíblia afirmam que a Terra tem menos de dez mil anos de existência e que todos os registros fósseis se depositaram

durante o dilúvio de Noé. Como Morris deixa claro em Genesis Flood,

publicado em 1961, a Bíblia fornece um tempo insuficiente para qualquer

tipo de evolução.

As idéias de Morris hoje são promovidas pelo Institute for Creation

Research, em San Diego. Seus seguidores condenam Darwin e propõem

uma alternativa de aparência científica chamada ciência da criação, bastante

divulgada em livros escolares, folhetos e encontros para o despertar da fé, e

aparentemente corroborada por “fatos” como o achado de pedaços da arca

de Noé. Grande parte da distribuição dessas informações é eletrônica, e os

criacionistas utilizam o poder da Internet para enfatizar supostas falhas no

raciocínio de Darwin na tentativa de minar o darwinismo moderno –

estratégia promocional que atinge um número de pessoas muito maior que

as complexas publicações acadêmicas. Embora a instrução religiosa esteja

excluída das escolas públicas norte-americanas, os criacionistas movem

uma ação constitucional com o objetivo de incluir a ciência da criação no

currículo escolar. Dizem que a teoria de Darwin é apenas uma hipótese, e

afirmam que a teoria da criação é igualmente válida.

Em 1981, influenciados pela “direita religiosa” dos Estados Unidos

governados por Ronald Reagan, a Louisiana e o Arkansas aprovaram leis

para obrigar o tratamento “das duas teorias” em “tempo igual” nas escolas.

Mais uma vez a American Civil Liberties Union moveu uma ação contra o

Conselho de Educação do Arkansas e a contenda chegou à Suprema Corte.

Steven Jay Gould, um dos cientistas chamados como testemunha

especializada em favor do darwinismo nesse processo, teve a impressão de

estar em um replay das cenas de tribunal ocorridas em Dayton em 1925.

Seu depoimento é de leitura fascinante. Mais tarde, num artigo de revista,

Gould refletiu sobre a discrepância entre as definições adotadas pelo juiz e

pelo cientista:

 

Definimos evolução, segundo a expressão de Darwin, como

“descendência com modificação” de seres vivos anteriores. Nossa

documentação da árvore evolucionária da vida registra um dos maiores

triunfos da ciência, uma descoberta profundamente libertadora segundo

a antiqüíssima máxima de que a verdade pode libertar. Fizemos essa

descoberta reconhecendo o que pode ser respondido e o que deve ser

deixado de lado. Se o juiz Scalia prestasse atenção a nossas definições e

a nossas práticas, compreenderia por que o criacionismo não pode se

qualificar como ciência. Sentiria também, diga-se de passagem, o

intenso interesse da evolução e de suas provas; ninguém poderia ficar

indiferente a algo tão instigante.1

 

A decisão do tribunal, tomada em 1987, foi proibir o ensino de qualquer

ciência da criação em escolas públicas do Arkansas sob a alegação de que o

criacionismo era um conceito religioso, não científico. Desencorajados, mas

não neutralizados, muitos criacionistas desde então têm fundado escolas e

faculdades cristãs independentes para que se possa ensinar a ciência da

criação.

Hoje, em todo os Estados Unidos, debates acalorados e ações judiciais

refletem a crescente preocupação de que se ofereçam alternativas à

evolução no sistema educacional do Estado. O Conselho de Educação do

Kansas, por exemplo, decidiu em agosto de 1999 tornar a evolução opcional

nas diretrizes que determina para o ensino das ciências. Por conseguinte, a

evolução deixou de fazer parte de testes padronizados para os estudantes do

Kansas. Kentucky aboliu a palavra “evolução” e a substituiu por “mudança

ao longo do tempo”. Essas variações na opinião pública preocupam

profundamente os cientistas. Muitos deles acreditam que a compreensão das

tradições religiosas tem lugar relevante na educação de toda criança,

inclusive em lições sobre a história e o desenvolvimento das diversas

sociedades modernas. Isso é diferente, no entanto, de advogar em aulas de

ciência um ponto de vista devocional como verdade positiva.

Embora a idéia da separação entre Igreja e Estado se encontre no cerne

da Constituição norte-americana, os Estados Unidos são um país protestante

singular, em que a Bíblia ainda desempenha papel crucial. Adeptos de uma

nova variante chamada “projeto inteligente” reclamam a apresentação dessa

teoria criacionista como alternativa ao darwinismo nas salas de aula. O

projeto inteligente não refuta a evolução em geral, mas sugere que alguns

processos biológicos são complexos demais para terem origem da maneira

proposta por Darwin. Recordando muitas das controvérsias que se seguiram

imediatamente à publicação da Origem das espécies, o bioquímico Michael

J. Behe propõe em A caixa-preta de Darwin, de 1996, que as reações das

proteínas devem ter sido projetadas por uma inteligência superior. Trata-se

basicamente do velho argumento proposto por William Paley ou Asa Gray

atualizado com outros exemplos.

O novo milênio começou, portanto, com as mentes ocidentais divididas,

como sempre, em relação às implicações de uma origem natural das

espécies. Apesar das contestações, a síntese moderna permanece firme no

coração das ciências biológicas. Nenhum biólogo ousaria ignorar as

evidências. Como disse Theodore Dobzhansky em 1960, “nada na biologia

faz sentido exceto à luz da evolução”.

A história raramente fala de avanços triunfantes simples, mas pode falar

do impacto extraordinário de um único livro. Ainda que muitas das idéias e

dos temas tratados por Darwin em 1859 não fossem novos, e seu estilo se

mostrasse extremamente conciliatório, A origem das espécies foi com

certeza uma publicação capital, que alterou de maneira espetacular a

natureza da discussão sobre nossas origens. A influência recíproca entre um

homem, um livro e as diversas circunstâncias sociais, religiosas, intelectuais

e nacionais de suas audiências e as correntes mais amplas de mudança

histórica fez da Origem das espécies de Darwin um fenômeno

extraordinário em seu tempo – e permite que a obra continue a interessar e

instruir seus leitores ainda hoje.

Os textos antigos muitas vezes são recriados por novas formas de olhar,

e parece que A origem das espécies de Darwin mostrou-se flexível na

sobrevivência de suas principais propostas e maleável nas mãos de seus

devotos. Pode ser visto, portanto, não como uma voz solitária a contestar

deliberadamente as tradições da Igreja ou os valores morais da sociedade,

mas como um dos eixos de transformação do pensamento ocidental.

 

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