A origem das espécies de Darwin
2 | “Uma Teoria com que Trabalhar”
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“Uma Teoria com que Trabalhar”
Cinco anos de viagem em um navio do Almirantado fora um longo tempo. Ao olhar à sua volta, Darwin não pôde deixar de perceber o quanto a Inglaterra mudara. Ferrovias serpenteavam por regiões onde outrora corriam diligências, as cidades se espalhavam de maneira
inexorável, lojas, capelas, fábricas e igrejas recém-construídas brotavam em
toda parte. Era a Inglaterra das clássicas histórias de Dickens.
Muitas vezes é difícil lembrar como a sociedade britânica era instável
nas primeiras quatro décadas do século XIX. A nação chegou mais perto
que nunca de uma revolução, e multiplicavam-se os conflitos entre
proprietários de terras e industriais, operários e patrões, província e
metrópole, famintos e amotinados e a classe média de mentalidade
individualista e mercantil. A imagem de Benjamin Disraeli, de duas nações,
uma rica e outra pobre, não era fantasiosa. “A Constituição do Povo”,
redigida em 1838, com seus famosos seis itens – sufrágio, votação secreta,
distritos eleitorais iguais, abolição dos requisitos de propriedade,
remuneração para os membros do Parlamento e eleições anuais –
atemorizou o establishment político.
Em 1839, uma enorme manifestação terminou em confronto sangrento
com os militares. O último grande comício cartista em Kennington
Common, em 1848, embora de caráter mais pacífico e socialista, refletiu
também as agonias da fome e da repressão política na Irlanda. Na década de
1840, observando atentamente a Grã-Bretanha através dos olhos de seu amigo e dono de fábrica Friedrich Engels, Karl Marx anunciou que o
capitalismo estava condenado a sufocar em seu próprio excesso.
Isso não aconteceu, sobretudo graças ao enorme desenvolvimento
industrial característico do período vitoriano. A partir da década de 1850,
uma nova e variada economia absorveu o excesso de capital e diversificou o
contingente de trabalhadores. Três anos apenas após as manifestações
cartistas, pessoas chegavam a Londres aos borbotões para visitar a
Exposição Universal, instalada no Palácio de Cristal projetado por Joseph
Paxton. As fábricas se multiplicavam. A tecnologia do vapor e os
investimentos carboníferos geravam proezas sem precedentes na
engenharia, e os avanços nos sistemas de transportes levavam o progresso a
praticamente todos os cantos do país. As estradas de ferro eram “os sulcos
ressoantes da mudança” para Alfred Tennyson. Quando Darwin publicou A
origem das espécies, havia diversificação, especialização e
desenvolvimento em toda parte.
É difícil hoje imaginar esse medo inicial de uma revolução. Havia um
temor generalizado de qualquer atividade social ou política que ameaçasse
o status quo. Entre as idéias ameaçadoras, as principais eram as noções
evolucionárias: nessa época, adotar publicamente idéias de transformação
era assumir uma perigosa imagem radical. Os mais notórios pensadores
nessa área foram dois homens cujas obras Darwin já lera: Jean-Baptiste
Lamarck (1744-1829) e seu próprio avô, Erasmus Darwin (1731-1802).
Entre os anos 1798 e 1809, Lamarck e Erasmus haviam proposto, de
maneira independente, que os animais e as plantas não seriam diretamente
controlados por um Criador divino, mas gerados espontaneamente a partir
de materiais inorgânicos. Depois, sugeriam eles, os organismos
progressivamente avançavam e se diversificavam, adaptando-se a diferentes
meios. Ambos acreditavam que os animais (e em certa medida as plantas)
adaptavam-se de acordo com o uso ou desuso de várias partes de seus
corpos, e essas adaptações seriam transmitidas à prole – a herança de
caracteres adquiridos, como ficou conhecida a idéia. Os dois autores
incluíam os seres humanos em seus esquemas e declaravam que estes se
aperfeiçoariam com o correr do tempo. Outros pensadores da época
trabalharam com a mesma idéia, como o espirituoso Thomas Love Peacock,
que fez de um orangotango o herói cavalheiresco de sua comédia Headlong
Hall, de 1816.
De maneira geral, as idéias de Erasmus Darwin eram mais acessíveis ao
leitor culto que a argumentação rigorosa apresentada em densos volumes
acadêmicos por Lamarck, pois eram publicadas na forma de vigorosos
poemas rimados que glorificavam a criatividade, o engenho e a
inventividade humana. Vinte anos mais tarde, com as doutrinas dos
philosophes franceses ateus ainda ressoando nos ouvidos britânicos – e com
as guerras revolucionárias e napoleônicas vivas na memória –, tais opiniões
tornaram-se freqüentemente associadas a ativismo antiteológico, protestos
públicos dos trabalhadores e exortações subversivas para derrubar a inútil
aristocracia britânica. Pensamentos como estes circulavam mais ou menos
de modo clandestino nos círculos médicos que Charles Darwin freqüentou
por pouco tempo na Universidade de Edimburgo. Em contraposição, a
Universidade de Cambridge, onde se formava o establishment político,
assumia a liderança na promoção de uma alternativa: o Universo como
mecanismo de relógio da teologia natural, doutrina que Darwin apreciara
quando jovem, mas que acabou por destronar.
O mundo para o qual Darwin retornou fervilhava de transformações e
de idéias sobre mudanças. Ele sentiu-se mudar também. Os anos que passou
em Londres foram os mais criativos no plano intelectual.
Como era natural, trabalhou arduamente distribuindo seus espécimes do
Beagle entre os especialistas apropriados. Relações floresceram,
publicações foram acertadas. Com a ajuda de Henslow, Darwin obteve uma
bolsa do Tesouro britânico para publicar descrições formais, feitas por
especialistas, de sua coleção de animais em The Zoology of the Voyage of
HMS Beagle (em cinco partes, 1839-43). Esse conjunto de volumes
prodigamente ilustrados com pranchas coloridas a mão é uma das mais
atraentes publicações de Darwin.
Em paralelo, compôs uma vívida narrativa da viagem usando material
do diário que escrevera durante os cinco anos da expedição. Publicada em
1839, sob o título Diário de pesquisas, e hoje usualmente chamada A
viagem do Beagle, a obra lhe valeu renome como autor. O grande
Alexander von Humboldt escreveu-lhe dizendo que ela fora escrita sob
“feliz inspiração”, e acrescentou: “Livro admirável…. O senhor tem um
excelente futuro à sua frente”. Essas palavras vindas do homem que Darwin
idolatrara em seu tempo de Cambridge, e cujos escritos eram geralmente
considerados o supra-sumo do estilo literário, significavam um grande elogio. O Diário de pesquisas continua a ser o mais apreciado de todos os
livros de Darwin.
Nosso naturalista ingressou também na Geological Society de Londres,
à qual submeteu três breves artigos em que descrevia alguns dos resultados
de suas pesquisas geológicas, e esteve com Charles Lyell pela primeira vez.
Este ficou radiante ao conhecer alguém que tanto apreciara seus Principles
of Geology, e os dois se tornaram grandes amigos. Tudo na personalidade
de Lyell combinava com a de Darwin.
Encontrava-me mais com Lyell que com qualquer outro homem, tanto
antes quanto depois de meu casamento…. Seu prazer com a ciência era
intenso, e ele sentia o mais ardente interesse pelo progresso futuro da
humanidade. Era bondoso e completamente liberal em suas crenças
religiosas, ou melhor, em suas descrenças; mas era um teísta convicto.
Sua franqueza tornara-se extremamente notável.1
Espontaneamente, os dois passaram a se encontrar quase todos os dias.
Poucos meses após retornar, Darwin atingiu o objetivo de ingressar no
mundo de elite da ciência metropolitana como par: foi eleito para a Royal
Society, o Athenaeum Club (influente clube de cavalheiros em Londres) e
para os conselhos da Geological Society de Londres e da Royal
Geographical Society. “Tinha um pouco de vida social”.
Só faltava uma esposa. Perto do final de 1838, sentiu-se estabelecido o
suficiente para pedir a mão da prima Emma Wedgwood, a quem conhecia
desde menino. Ela era a filha caçula daquele mesmo tio Wedgwood que
aplainara seu caminho para o Beagle diante das objeções do dr. Darwin –
uma mulher afetuosa, jovial e solidária, que se casou por amor e cuidou do
marido em todas as circunstâncias desde então. Formaram um casal unido e
contente, ligado pela afeição e por um bando de primos, irmãs, irmãos, pais,
tias e tios, e por sua própria prole. Casaram discretamente na casa dos
Wedgwood, em Staffordshire, em janeiro de 1839. A renda resultante de
investimentos familiares conjuntos permitiu ao casal morar primeiro em
Londres e depois, em 1842, quando os filhos começaram a chegar, comprar
Down House e cerca de 20 acres na aldeia de Downe, perto de Bromley, em
Kent. Darwin viveu e trabalhou em Down House durante o resto de seus
dias, tornando-se importante e respeitado membro da comunidade aldeã.
Isso não foi tudo. No início de 1837, quatro ou cinco meses após
retornar à Inglaterra, Darwin se convenceu de que as espécies haviam se
originado sem mediação divina. Curiosamente, mesmo com toda a pesquisa
histórica realizada sobre a descoberta darwinista, não se sabe precisamente
como ou quando essa convicção surgiu. É claro que, em certo sentido, a
gênese de qualquer intuição original é uma espécie de mistério – todos os
grandes cientistas falaram a respeito da maneira inesperada como um novo
pensamento ou mudança de perspectiva penetra em sua consciência. As
palavras que usam para descrever esse processo, em muitos casos análogo a
uma revelação ou a um “novo olhar”, parecem-lhes inadequadas para os
efeitos que provocam. A maioria deles concorda que suas mentes estavam
bem preparadas, muitas vezes depois de anos de reflexão, e que um grande
número de fatores os levou àquela idéia particular, alguns pessoais, outros
intelectuais, alguns circunstanciais, outros impossíveis de enunciar, outros,
ainda, profundamente sociais e políticos.
Os historiadores reviraram as anotações feitas no Beagle e os primeiros
textos publicados em Londres atrás de passagens que possam sugerir o
percurso do pensamento de Darwin. Em um pequeno caderno escrito nessa
época, ele se esforçou para colocar em palavras as idéias embrionárias. A
origem das espécies devia ser tão compreensível quanto o nascimento dos
indivíduos, escreveu: “Elas morrem sem se modificar, como golden
pippins,a é uma geração de espécies como uma geração de indivíduos…. Se
uma espécie gera outra espécie, a raça não é inteiramente descontinuada”.2
Uma sensação de incerteza foi suscitada de início pelas aves das ilhas
Galápagos. Elas foram classificadas em março de 1837 por John Gould, um
taxonomista da Zoological Society, que também ajudou Darwin com seu
grande livro ilustrado, Zoology of the Beagle. Gould identificou várias
espécies de tentilhões com bicos diferentemente adaptados para comer
insetos, cactos ou sementes. Dividiu os pássaros mimídeos em três espécies
diferentes, cada qual vivendo provavelmente em uma das ilhotas, mas
Gould não pôde confirmar isso, porque Darwin não havia rotulado as aves
segundo sua localização. Surpreso, Darwin refletiu sobre essa informação.
Se cada ilha possuía suas próprias aves, como Gould sugeria, as
especulações que fizera a bordo do navio sobre a instabilidade das espécies
eram mais verdadeiras que imaginara. Quem sabe as similaridades
pudessem ser explicadas pela diversificação dos tentilhões a partir de um
ancestral comum?
Darwin começou a registrar o turbilhão de idéias em uma série de
cadernos pessoais que rotulou de A a E, e depois de E a M e N, hoje
conhecidos como “cadernos da transmutação”. Desde o momento em que
iniciou o caderno B, por volta de julho de 1837, expressou a crença de que
algum tipo de evolução havia ocorrido, não apenas entre as aves das ilhas
Galápagos, mas envolvendo tudo, até os seres humanos. Os registros nos
cadernos se atropelavam. Página após página, Darwin construía teorias que
se estendiam até onde a imaginação o levava. Poucas dessas idéias teriam
ocorrido ao jovem estudante de graduação em Cambridge seis ou sete anos
antes. A expedição do Beagle foi naturalmente a base de muitas de suas
especulações. Ele reexaminou também as teorias do dr. Erasmus Darwin e
meditou sobre os escritos de Lamarck. Lia com voracidade o tempo todo e
fazia perguntas a estudiosos contemporâneos. Mesmo antes de conceber a
teoria que finalmente apareceu na Origem das espécies, percebeu
importantes paralelos entre raças domésticas e espécies selvagens. Essa
analogia permaneceria no cerne de seu trabalho.
Desde o princípio Darwin encarou os seres humanos como integrantes
do reino animal e alimentou a esperança de explicar nossas origens sem
referência alguma à criação divina, tema que lhe parecia pertencer antes à
“metafísica da moral”, como ele dizia. “O homem viria de macacos?”,
perguntou a si mesmo. “O homem em sua arrogância pensa em si próprio
como uma obra grandiosa, digna da intervenção de uma divindade. É mais
humilde – e mais verdadeiro, acredito – considerar que foi criado a partir de
animais”.3 Alguns desses “tumultos mentais”, como os chamava, levavam-
no muito longe no caminho do materialismo, doutrina filosófica segundo a
qual não havia forças espirituais nem divinas na natureza, somente matéria.
Se ele negasse o caráter criacionista de todas as coisas, onde ficariam os
seres humanos e nossas esperanças de salvação? Nossos pensamentos são
meras secreções do cérebro, afirmou ele. “Ó vocês, materialistas!”,
exclamou um pouco admirado do próprio atrevimento.
Durante todo o tempo, procurou uma explicação para o modo como
animais e plantas poderiam realmente se modificar. Essa questão ganhou
enorme relevo depois que Darwin leu, em setembro de 1838, Um ensaio
sobre o princípio da população (1798) do economista britânico Thomas
Robert Malthus.
A intenção de Malthus era explicar como as populações humanas
permanecem em equilíbrio com os recursos existentes para alimentá-las. Seu ensaio deu uma contribuição importante para a economia social e
política da Grã-Bretanha na década de 1790 e foi apresentada como um
exame racional das leis naturais da sociedade. Na altura dos anos 1830, o
impacto de suas idéias na vida britânica foi muito além do que ele poderia
esperar: as doutrinas malthusianas haviam passado a dominar a política
governamental. A argumentação era extremamente simples. A tendência
natural da humanidade, dizia Malthus, era sempre crescer. A produção de
alimentos não conseguia acompanhar esse crescimento. Apesar disso, havia
um equilíbrio aproximado, afirmou, porque o número de indivíduos é
mantido sob controle por limitações naturais como a morte causada por
fomes e doenças, ou por ações humanas como guerras, abstinência sexual e
práticas pecaminosas como o infanticídio. Esses controles eram uma parte
necessária da existência humana.
Malthus falava ainda que tais controles recaíam geralmente sobre os
membros mais fracos – os mais pobres e mais doentes – da sociedade. Era
vontade de Deus que fosse assim. Um problema, advertia, era que as
esmolas dadas aos pobres simplesmente estimulariam a reprodução e
agravariam a escassez de alimentos. Nas décadas seguintes, essas opiniões
refletiram-se em distúrbios provocados pela falta de comida, na
controvérsia sobre as Leis de Assistência aos Pobres (Poor Laws) e na
reação pública contra as Leis dos Grãos (Corn Laws). Em 1834, a
aprovação do projeto de emenda da Lei de Assistência aos Pobres
promoveu a resposta vitoriana para esse problema social e econômico sob a
forma de asilos para os pobres onde a caridade paroquial foi substituída
pela exigência de que as pessoas trabalhassem para ganhar seu pão.
Darwin vivia nesse mundo também. Movia-se exatamente nos mesmos
círculos que Malthus, era amigo de algumas pessoas que o haviam
conhecido antes da morte em 1834, como Fanny Wedgwood (sua cunhada)
e a escritora Harriet Martineau, que elaborou tratados malthusianos para
serem lidos pelas classes mais ricas. Em meio à preocupação política com
questões malthusianas, só se podia esperar que Darwin tomasse um
exemplar do livro de Malthus e começasse a ler.
O momento foi registrado no caderno D, em um apontamento datado de
28 de setembro de 1838. Nascem indivíduos demais, escreveu ele
parafraseando Malthus. Há uma guerra na natureza, um combate pela
existência. Na luta para viver, os organismos piores ou mais fracos tendem
a morrer primeiro, e as formas melhores, mais saudáveis ou mais bem adaptadas permanecem. Esses sobreviventes seriam aqueles que geralmente
procriam. Se ações como essas se repetissem um sem-número de vezes, os
organismos tenderiam a se tornar cada vez mais bem adaptados às suas
condições de existência.
Darwin chamou esse processo de “seleção natural”, com o intuito de se
referir a um processo no mundo natural análogo à seleção “artificial” que
vira fazendeiros e horticultores aplicarem a animais e plantas domésticas.
Os fazendeiros eliminavam os piores e preservavam os melhores para fins
de reprodução, de modo a criar um galgo mais rápido ou um carneiro mais
lanoso. Na vida silvestre, sugeria Darwin, era a própria natureza que fazia a
seleção. Em suma, ele encontrou uma maneira de explicar as adaptações
perfeitamente planejadas de Paley sem referência a um Criador. “Já bem
preparado para apreciar a luta pela existência, … ocorreu-me de imediato
que, nessas circunstâncias, adaptações favoráveis tenderiam a ser
preservadas, e as desfavoráveis, destruídas. Aqui, portanto, eu havia
finalmente conseguido uma teoria com que trabalhar”.4
Essa foi a essência da teoria de Darwin, que pouco mudaria até ser
publicada 20 anos mais tarde em Origem das espécies. Ele reconhecia seu
poder explanatório e dizia que ela iria revolucionar as ciências biológicas.
Admitiu suas implicações religiosas, não só pelas novas perspectivas que
abria para a possível origem da humanidade, mas pela maneira como
negava qualquer papel a Deus na natureza e contestava as tradições
teológicas naturais tão firmemente arraigadas na vida e nas instituições
britânicas. Aquelas eram idéias perigosas. Representavam a antítese do
mundo harmonioso de adaptações perfeitas preconizado pelos antigos
amigos e professores de Darwin, como Henslow e Sedgwick. Até o
corajoso e progressista Lyell poderia lhe ser contrário.
Por algum tempo Darwin manteve essa teoria em segredo. Compreendia
que era necessário ser prudente. Ela talvez lhe parecesse apressada demais,
muito perigosa e heterodoxa, excessivamente carente de reflexões mais
completas e extensas. Não viu necessidade de se apressar para publicá-la.
Mas contou a Lyell que estava enchendo “caderno após caderno … com
fatos que começam a se agrupar claramente no interior de subleis”. Dando
mostra de extraordinária autodisciplina, trabalhou intensamente nessas
idéias sem comunicá-las a ninguém.
Apenas sua esposa Emma conhecia os pensamentos gerais de seu
marido. Sabia que ele tinha dúvidas religiosas. Antes mesmo de se casarem, Emma disse: “Minha razão me diz que dúvidas honestas e conscienciosas
não podem ser um pecado, mas sinto que isso seria uma penosa cisão entre
nós”.5 Expressara o medo de que a ciência o conduzisse a um ceticismo
cada vez maior. De maneira hesitante, sugeriu que as dúvidas do marido
poderiam impedi-los de se encontrar na vida eterna ou de pertencerem um
ao outro para sempre. Essa carta foi guardada como um tesouro pelo
destinatário. “Quando eu estiver morto, saiba que muitas vezes beijei estas
palavras e chorei por causa delas”, escreveu Darwin na margem.6
Tudo indica que, no momento em que escrevia sobre a seleção natural
em seus cadernos – no mesmo ano em que se casara com Emma –, Darwin
havia abandonado a maioria das estruturas religiosas formais, embora ainda
acreditasse em uma força sobrenatural acima do conhecimento humano.
Entretanto, não era ateu. De fato, ao que parece, nunca o foi, nem mesmo
no auge da controvérsia que se seguiu à publicação da Origem das espécies.
Em sua Autobiografia, declarou ter pensado muito sobre religião naqueles
anos, e que a palavra “teísta” era provavelmente a que mais se aproximava
de como ele se sentia. Mais tarde intitulou-se agnóstico, termo cunhado por
seu amigo Thomas Henry Huxley. Emma não tinha nada a temer com
relação ao comportamento ou o senso moral de Darwin. Era basicamente
um bom homem, humilde e carinhoso, e sempre fez o que pôde para agir de
acordo com os valores tradicionais que assimilara quando criança.
Tudo isso teve um preço terrivelmente alto. Pouco a pouco a saúde de
Darwin ficou comprometida. Desde a época de seu casamento, passou a
sentir náuseas cada vez mais freqüentes e a sofrer de dores de cabeça
recorrentes; vez por outra tinha acessos de vômito que podiam se prolongar
por várias semanas. Passava longos períodos de excessiva fraqueza e
debilidade. Se isso estava diretamente relacionado a suas idéias
evolucionárias, como se costuma supor, é difícil dizer. Seus escrúpulos
religiosos, um punitivo horário de trabalho auto-imposto, incessantes
atividades de publicação, tarefas nas sociedades científicas de Londres e
preocupações com o futuro podem ter contribuído para esses males. Há
poucos indícios de causas físicas para seu estado de saúde, como
envenenamento por arsênico, alergias, lúpus ou doença de Chagas (uma
afecção sul-americana transmitida por insetos conhecidos como barbeiros,
que Darwin poderia ter contraído durante a viagem). Cerca de 150 anos
depois, talvez seja inútil tentar diagnosticar o seu mal. Pelo resto da vida, afora dois breves interlúdios, a doença fez parte da personalidade, do
trabalho e do estilo de vida de Darwin.
Por vários anos Darwin tentou a hidroterapia, e seguia a prescrição de se
enrolar em lençóis molhados, submetia-se a enemas e duchas; em geral
consultava o famoso dr. James Gully em Malvern, mas visitou também
centros em Surrey e Yorkshire. Mais tarde seguiu conselhos médicos para
dispepsia. Os psiquiatras de hoje observaram a personalidade atenta a si
mesma, ensimesmada, que essas batalhas médicas sugerem. Uma
manifestação curiosa desse traço pode ser encontrada em seu “diário de
saúde” – registro cotidiano de como se sentia mantido durante três ou
quatro anos, usando símbolos para indicar se havia se sentido doente, se
estava “muito doente” ou apenas “mal”. É possível que, depois da excelente
saúde que exibira durante a viagem do Beagle, Darwin nunca tenha
conseguido realmente relaxar. Por ocasião de sua morte, todos os membros
da família eram quase doentes profissionais, sofrendo de pulsação fraca,
náuseas, debilidades crônicas, dores de cabeça e perturbações estomacais
indefinidas. Pode parecer injusto atribuir todas essas moléstias unicamente
a um pai hipocondríaco, mas isso parece provável.
Essa doença, ou constelação de doenças, naturalmente intrigou os
historiadores. Todos parecem concordar que a má saúde de Darwin devia
refletir de algum modo as pressões geradas pelas teorias subversivas que
desenvolvia em segredo. Estudiosos com conhecimentos psicanalíticos
tendem a explorar o tema de uma doença criativa ou a “loucura” do gênio.
Recorrem à noção incorporada em estudos literários e artísticos de que
obras de grande originalidade são em geral produzidas sob estado de
vigorosa perturbação mental – a criatividade emerge da emoção intensa,
muitas vezes nas raias da insanidade, ou destroça a estrutura humana
enquanto esta gera uma obra-prima da arte.
Deve-se reconhecer também, no entanto, que as cartas de Darwin ao
longo desses anos de pensamento e escrita nunca exprimiram qualquer
tormento mental inequívoco. Talvez os freudianos aleguem que esses
sentimentos eram sublimados. Darwin certamente experimentava o medo da
rejeição, misturado com o temor de que sua vida de trabalho pudesse ser
condenada ou ridicularizada, e de que sua teoria estivesse, de fato,
assassinando o Deus dos antigos. Se esses sentimentos fossem
rigorosamente controlados no contexto doméstico vitoriano, parece inteiramente possível que o único caminho encontrado por Darwin para
exprimir seus medos fossem indisposições não diagnosticadas.
De forma alternativa, um crescente número de historiadores afirma que
ele sofreu uma enfermidade física real e tenta estabelecer correspondência
entre doenças modernas e os sintomas que descreveu de maneira tão penosa
em cartas e diários. Poucos concordam quanto à natureza de seu mal. Por
conseguinte, há facções bem distintas nos círculos acadêmicos: um grupo
defende que a doença de Darwin tinha razões psicológicas; outro, que se
devia a causas físicas. Fundamentalmente, divergem quanto à definição de
criatividade e ao papel que a má saúde desempenha na inspiração e na
imaginação.
Com o passar do tempo, cautelosamente, Darwin descreveu algumas de
suas idéias evolucionárias a amigos cientistas muito chegados para sondar
as reações. Em junho de 1842, pareceu-lhe que a forma da teoria estava
bem elaborada a ponto de lhe permitir escrever um breve rascunho para si
próprio, que expandiu em um ensaio mais longo em 1844. Algo notável
nesses manuscritos era a ausência de qualquer referência à origem da
humanidade e ao Criador. Possivelmente suas conversas com Emma sobre
religião o motivaram a evitar a discussão sobre os seres humanos. Ou talvez
tivesse concluído que precisava saber muito mais antes de argumentar de
maneira convincente sobre a origem da humanidade. Sejam lá quais fossem
as razões, ele eliminou sistematicamente do manuscrito qualquer alusão a
seres humanos, assegurando que não retornassem até muito depois da
publicação de Origem das espécies.
O ensaio de 1844 sem dúvida poderia ter sido publicado como estava, o
que em parte era a intenção de Darwin. Confiou-o à esposa com uma carta a
ser aberta na eventualidade de ele morrer de forma súbita. Nela declarava
que Emma deveria contratar um editor para publicar o livro postumamente.
“Se ele for aceito, ainda que por um único parecer competente, será um
passo considerável para a ciência”, escreveu.7 Estranhamente, porém,
deixou-o de lado. Enquanto viveu, esse artigo nunca foi publicado. Teria
sido um adiamento deliberado? Teve medo de publicá-lo? Muitas pessoas
acreditam que sim. No entanto, de certo modo, ele não tinha pressa.
Hoje, à luz de tudo o que se sabe sobre sua personalidade e sua
correspondência, parece plausível sugerir que um forte compromisso com a
precisão científica e uma correta cautela profissional eram pelo menos tão
intensos em sua mente quanto qualquer temor das conseqüências da publicação. Ele não se sentia pronto. A escala e o alcance de suas reflexões
nos cadernos da transmutação indicam o extenso âmbito das investigações e
tópicos que considerava relevantes. Mal começara a desbastar a superfície
deles.
Um acontecimento notável, contudo, deu-lhe motivos para uma pausa: a
publicação, em 1844, de um livro evolucionário anônimo, Vestiges of the
Natural History of Creation. Essa obra transformou consideravelmente o
debate sobre a evolução – irritou os teólogos, empurrou o pensamento
profano para as salas de visita vitorianas de maneira constrangedora,
inspirou críticas violentas de um lado e atenção fascinada de outro. Vestiges
tornou-se um fenômeno editorial, um sucesso popular em escala semelhante
aos Direitos do homem de Thomas Paine. Correu pelo mundo anglófono em
edições baratas e, traduzido, causou furor em outros países. O autor
discorria com fluência sobre o desenvolvimento autogerado do mundo vivo,
desde os grãos de matéria animada até os homens e mulheres. Embora o
conteúdo científico fosse em geral fraco, e os mecanismos de mudança
propostos por vezes risíveis, a essência evolucionária da obra estava clara.
Era um livro que correspondia às aspirações progressistas da época. Um
cartum satírico publicado em Melbourne, Austrália, captou a essência da
questão ao mostrar o contingente local de operários chineses transmutando-
se em cavalheiros ocidentais.
Intrigadas ou descontentes, as pessoas discutiam Vestiges de maneira
interessada em periódicos, salas de visita e de reunião. Adam Sedgwick,
antigo professor de geologia de Darwin, deu vazão a um desdém maldoso.
Acusou “o sr. Vestiges” de filosofar sobre disparates. O livro era tão mal
informado, impreciso, controverso e pouco fundamentado em fatos
comprovados, afirmava de forma enfática, que poderia ter sido escrito por
uma mulher. A questão real em jogo, continuava Sedgwick, era a origem
dos seres humanos e o status moral da humanidade. Vestiges ignorava o
jardim do Éden, a criação de Adão e Eva, a expulsão do paraíso e o pacto
final com Deus, e sugeria que descendíamos de orangotangos.
Na verdade, o autor não era uma mulher, mas Robert Chambers, um
bem-sucedido jornalista escocês que fundou com o irmão a revista semanal
Chambers’s Edinburgh Journal, que reunia muitos artigos curtos sobre
literatura, ciência e indústria, costumes e moral, tudo entremeado com
poemas e contos. Robert Chambers era um defensor entusiasta do
autodidatismo e da doutrina da frenologia – segundo a qual o caráter de um indivíduo podia ser conhecido a partir da forma do crânio, e várias
faculdades da mente podiam ser acentuadas ou reduzidas mediante força de
vontade e treinamento. Além disso, Chambers tinha profundo interesse pela
ciência. Seu livro discutia deliberadamente questões evitadas por cientistas
mais convencionais, como a possibilidade de os insetos serem criados a
partir da eletricidade. O livro de Chambers foi publicado anonimamente
porque ele previa a tempestade que ocasionaria. Quando, mais tarde, as
pessoas diziam que a evolução estava no ar, era Vestiges que tinham em
mente.
Darwin ficou atordoado. Ler Vestiges em novembro de 1844, tão pouco
tempo depois de concluir seu próprio ensaio sobre evolução, foi um choque
do qual levou anos para se recuperar. Em termos muito gerais, a tese central
de Vestiges era surpreendentemente similar à de Darwin. Sem dúvida,
Chambers inseria suas propostas num vasto panorama do cosmo, o que
Darwin não planejava fazer. Ele também incluía a humanidade, enquanto
Darwin, cuidadoso, evitava fazê-lo. E muitos dos fatos de Vestiges eram
incorretos. Apesar disso, o livro continha o princípio essencial das origens
progressivas e naturais.
Darwin nunca encontrara algo tão próximo de um rival. Foi obrigado a
reconhecer sua influência, levar em conta os argumentos e mostrar onde
diferia dele. Contudo, também deve ter tido sobressaltos diante da saraivada
de insultos que caía sobre o autor anônimo. Deveria esperar o mesmo
tratamento? Um novo amigo, o botânico Joseph Hooker, divagando em
cartas, disse-lhe estar encantado com a multiplicidade de temas que Vestiges
reunia. Darwin sentiu-se aguilhoado. “Também li Vestiges, mas não me
diverti tanto quanto você”, respondeu friamente. “A escrita e o arranjo com
certeza são admiráveis, mas a geologia me parece má e a zoologia muito
pior”.8 Começou a construir de modo obsessivo seu próprio edifício de
informação factual e segura, que seria tão admirado quando finalmente
publicasse A origem das espécies e que elevou sua obra tão acima das
produções comuns.
Durante os 15 anos seguintes, aproximadamente, Darwin trabalhou sem
cessar a fim de encontrar apoio para sua teoria. Empreendeu um programa
de experimentos em seu jardim, dedicando-se em especial ao hobby de criar
pombos, sob a orientação de um conhecido aficionado no assunto, William
Tegetmeier. Os pombos eram seu “amor do momento”, disse com
entusiasmo a Hooker, e um sucesso junto à jovem família. Darwin procurou observar nesses pássaros indícios diretos da herança de traços, como penas
pretas nas asas ou a reversão de raças com qualidades incomuns a um tipo
ancestral. Tentou, por assim dizer, fazer o mesmo com plantas na estufa,
mas nesse caso estava à procura de indícios de variabilidade e de como
espécies incipientes se tornavam mutuamente estéreis. Muitas dessas
questões experimentais foram suscitadas por ele em breves notas e artigos
em revistas populares de história natural. Nunca houve um experimento
final conclusivo, a evolução não era uma teoria desse tipo. Darwin não
parava de pesquisar e formular novas questões, consultava literatura
impressa e se correspondia com pessoas espalhadas por todo o globo com
um vigor que mais tarde, ao escrever sua Autobiografia, recordaria com
espanto.
Como parte desse extenso programa, Darwin estudou os cirrípedes. Ele
próprio quase um crustáceo a essa altura, curvado em seu gabinete a
escrever cartas ou fazer experimentos de maneira compulsiva no jardim,
não gostava de sair de casa para nada. Lançou-se em uma pesquisa
sistemática sobre todas as espécies conhecidas de cirrípedes vivas e fósseis,
iniciativa incomum de sua parte e que levou oito anos para concluir. Os
historiadores tendem a sorrir diante de tanto tempo gasto com organismos
insignificantes e classificam tal atividade de secundária, tática protelatória
que Darwin teria usado para não encarar o furor que a publicação de suas
idéias evolucionárias de mais amplo alcance provocaria.
É possível que assim fosse. O que ele descobriu nos cirrípedes, porém,
provocou mudanças importantes em sua compreensão biológica, fortaleceu
a crença na evolução e forneceu um terreno essencial para A origem das
espécies. Todos os dias ele observava estruturas de cirrípedes, vendo-as
como resultado da evolução. Procurava as mínimas modificações que
tornavam uma forma mais bem-sucedida que outra, a diversificação que
levava a formas cada vez mais especializadas, via como um órgão (como o
trato ovariano) podia se especializar para desempenhar uma função
inteiramente diferente e examinava de maneira minuciosa as notáveis
estratégias reprodutivas do grupo. Mais importante ainda, esse estudo
revelou a elevada taxa de variação que ocorria na natureza. Apesar disso,
Darwin nunca mencionou a evolução nas monografias que publicou sobre
cirrípedes em 1852 e 1854. Apenas hoje podemos observar como suas
avaliações dependiam profundamente de conceitos que desejava manter em
segredo.
A Royal Society de Londres ficou impressionada. Essa, que era a mais
importante das sociedades científicas na época, concedeu a Darwin a
medalha Royal em 1853 pelos livros sobre cirrípedes em conjunção com
suas publicações sobre a geologia da América do Sul. Mais tarde ele se
divertiu ao ser satirizado pelo romancista Edward Bulwer Lytton como um
personagem absurdamente preocupado, o “professor Long”. De fato, o
trabalho demandara tantos anos que um dos filhos de Darwin acreditava que
todos os pais passavam seus dias observando cirrípedes em um
microscópio. “Onde seu pai examina os cirrípedes?”, perguntou Leonard
Darwin com inocência a um amigo.
Mas a tragédia abateu-se sobre essa tranqüila atividade doméstica. Uma
morte na família arrasou Darwin e sua esposa de maneira profunda. Annie,
a segunda filha do casal, morreu em 1851 de uma febre não identificada,
aos dez anos de idade. Era a garota dos olhos de Darwin. Àquela altura, o
casal tinha oito filhos: William (1839), Anne (1841), Henrietta (1843),
George (1845), Elizabeth (1847), Francis (1848) e Leonard (1850). Uma
menina falecera com apenas três semanas, em 1842; outros dois filhos
nasceriam depois, Horace em 1851 e Charles em 1856, que morreu de
escarlatina com cerca de 18 meses.
É possível que a morte de Annie tenha finalmente conduzido Darwin
rumo à descrença. As doutrinas da Bíblia em que Emma encontrava consolo
eram obstáculos que ele não conseguia superar. Em uma breve biografia
que escreveu somente para si e a esposa, em que louvava a natureza alegre
de Annie, é fácil perceber o desespero. Como podia um Criador zeloso,
beneficente, extinguir uma criança tão inocente? Como podia Deus fazer
uma criança sofrer tanto? Sua ciência lhe dizia que Annie desaparecera de
maneira irrecuperável. Depois disso, Darwin retornou ao trabalho com nova
pertinácia, uma determinação intensa que o ajudou a prosseguir ali onde
outros homens poderiam ter abandonado seus estudos.
Mas nem a tristeza mais aguda poderia durar para sempre; Emma deu à
luz mais um bebê e outras distrações se apresentaram, entre as quais a
Exposição Universal no resplandecente Palácio de Cristal, ainda em 1851.
Durante esse período de estudo, Darwin concebeu o que chamou de “o
princípio da divergência”, única alteração de vulto que fez à teoria da
seleção natural que havia formulado cerca de 12 anos antes. Foi uma
inovação importante, pois precisava dela para explicar como a seleção
natural pudera produzir os ramos da árvore da vida.
Com um salto da imaginação, talvez estimulado pela visita da família à
Exposição Universal, Darwin utilizou uma metáfora calcada na Inglaterra
industrializada. A seleção natural provavelmente favorecia aqueles animais
e plantas que se diversificavam, exatamente como se a natureza fosse uma
bancada de fábrica em que a produção tornava-se mais eficiente se os
trabalhadores executassem tarefas díspares. Essa foi uma analogia industrial
onipresente nas décadas da especialização da mão-de-obra, bastante
familiar a Darwin por causa da companhia de porcelana Wedgwood. A
variante mais bem-sucedida, disse ele, era aquela que conseguia se apoderar
de lugares ou papéis inexplorados na economia natural. “Deixei passar um
problema de grande importância … e posso lembrar o ponto exato na
estrada, quando estava em minha carruagem, em que, para minha alegria, a
solução me ocorreu; e isso foi muito depois de ter vindo para Down”.9
Esses ajustes, e a atenção concentrada a longo prazo que Darwin deu à
sua idéia, criaram as circunstâncias em que sua teoria pôde florescer. Na
mente dele, já estava robusta. Podia resistir à publicação. Os longos anos de
silenciosa reflexão, convenceu-se ele, haviam cumprido seu objetivo.
Quando um grupo de amigos foi passar um fim de semana em Down
House, em abril de 1856, sentiu-se preparado para discutir a tese com eles.
Esses camaradas, todos bastante críticos da biologia da época, discutiram
com Darwin as falhas das definições correntes de espécie. “Investiram
contra o conceito de espécie” com insolência, disse Lyell ao ouvir falar
sobre esse fim de semana. E numa visita que ele próprio fez a Darwin
alguns dias depois, também mergulhou em profunda discussão com o amigo
sobre a transmutação, e a registrou em seu diário. Estimulou Darwin com
veemência a publicar a teoria. A idéia de evolução se disseminava, disse. E
chamou a atenção do amigo não para Vestiges, embora este provavelmente
tenha sido mencionado, mas para um artigo de uma revista popular de
história natural escrito por um naturalista relativamente desconhecido
chamado Alfred Russel Wallace (1822-1913), que discutia a relação
existente entre variedades e espécies e – para quem tivesse perspicácia –
sugerindo uma continuidade real entre elas. Era hora de Darwin publicar,
disse Lyell. Havia outros homens, outras teorias.
O conselho calou fundo. “Comecei, a conselho de Lyell, a escrever o
rascunho de espécies”, registrou Darwin solenemente em seu diário em 14
de maio de 1856. “Estou como Creso, esmagado por minha opulência de fatos”, contou em seguida ao primo Fox, que a essa altura era pastor, “e
pretendo tornar meu livro tão perfeito quanto puder”.10
b Uma variedade de maçã. (N.T.)
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