A origem das espécies de Darwin
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Controvérsia
Quase de imediato começou uma imensa onda de comentários. Apesar de todos os dados acumulados e dos reiterados convites ao leitor para considerar a questão de modo imparcial, parecia quase impossível aos vitorianos aceitar a idéia de mudança gradual nos animais e
plantas, assim como era difícil desalojar Deus do processo criativo.
Entretanto, o debate que o livro desencadeou pôs o problema da evolução
diante do público de forma que não podia ser ignorada.
A essência da proposta de Darwin era que os seres vivos não deveriam
ser vistos como criações construídas com cuidado por uma autoridade
divina, mas como produtos de processos inteiramente naturais. Como seria
de esperar, surgiram objeções científicas, teológicas e filosóficas de toda
parte, muitas vezes misturadas. Cabia incluir aí os seres humanos? Devia a
ciência ter permissão para tratar de questões que até então haviam sido
apanágio dos teólogos? Qual era o propósito do nosso mundo se não havia
razão alguma para a existência da virtude? Como podia um macaco ser meu
avô?
Jornalistas, homens de letras ou de negócios, comerciantes, educadores
e cidadãos comuns somaram suas vozes à da multidão. Bispos, poetas,
criadores de cães e governantas leram o livro. Até a rainha Vitória se
interessou, ainda que tenha confidenciado à filha que supunha seria de
difícil compreensão. A reação tampouco ficou confinada à Grã-Bretanha.
Na França, Alemanha, Itália, Suécia, Rússia e América do Norte, e
progressivamente no mundo todo, pessoas de todas as ocupações e classes sociais discutiam a idéia de evolução por seleção natural e transferiam essa
controversa questão para seus próprios contextos culturais.
Esse foi um dos primeiros debates genuinamente públicos sobre ciência
a abranger toda a sociedade. As reações variadas, assim como as próprias
idéias expostas, evocativas da diversidade cultural do século XIX, nos
lembram que a introdução de novos pontos de vista poucas vezes é direta, e
que as histórias passadas da ciência envolveram formas diferentes de
publicação, inúmeros públicos e línguas distintas.
Em retrospecto, é evidente também que A origem das espécies deu
acentuada contribuição para outras mudanças fundamentais já em marcha
no Ocidente – em particular nas questões religiosas. A Igreja Anglicana
ainda estava no coração da vida cotidiana britânica e fornecia a estrutura em
que a maioria das pessoas agia, de forma mais ou menos devota, segundo
suas inclinações pessoais. Mas essa influência era mais fraca que antes.
Cismas e fraturas apareciam, seitas se afastavam, insatisfações se
exprimiam. Grupos dissidentes e não-conformistas reivindicavam o direito
de cultuar à própria maneira, de educar os jovens, fazer-se representar no
Parlamento, tomar posições públicas e ter suas idéias ouvidas. Uma
universidade não-confessional foi fundada em Londres, ficando logo repleta
das mentes mais brilhantes e não-convencionais. Vários teólogos se
convertiam ao catolicismo. Homens e mulheres de destaque no
establishment declaravam-se céticos ou críticos com relação à doutrina
tradicional. Até pastores minavam as mensagens que deveriam propagar.
Um dos autores de Essays and Reviews foi o reverendo Baden Powell
(avô do chefe de escoteiros), professor de geometria na Universidade de
Oxford. Ele afirmou que milagres não podiam ocorrer, elogiou A origem
das espécies de Darwin como “um volume magistral” e se pronunciou em
favor do “grande princípio dos poderes de evolução autônoma da natureza”.
Um livro como A origem das espécies estava fadado a despertar acaloradas
controvérsias e a ter um alcance mais amplo que o da própria ciência. A
discussão jamais ficaria limitada a borboletas e prímulas.
Por mais surpreendente que pareça, houve pouca oposição permanente
ao livro de Darwin sob a alegação de que ele contestava diretamente o
relato da criação feito no Gênesis. Desde o Iluminismo, os estudos bíblicos
estimulavam os cristãos a ver essas antigas histórias como poderosas
metáforas, não como narrativas literais. O fundamentalismo bíblico é um
problema moderno, não vitoriano. O verdadeiro empecilho do darwinismo para os vitorianos era transformar a vida em um caos amoral que não
exibisse nenhum indício de uma autoridade divina ou algum sentido de
finalidade ou desígnio.
Tratava-se tanto de uma questão social quanto teológica. A reação de
muitos fiéis de classe média foi rejeitar a teoria evolutiva porque ela
ameaçava o papel da Igreja na proteção da moral e da estabilidade social da
nação. Alguns livres-pensadores, em movimento oposto, usaram a evolução
para levantar uma série de críticas contra a política eclesiástica e o Estado.
Alguns mais intransigentes, já propensos ao ateísmo, abandonaram a fé por
completo. Os calvinistas conseguiram aceitar a idéia da seleção natural
combinando-a com a luta da humanidade para superar o pecado. Mas havia
também cristãos liberais dispostos a aceitar a evolução como um fato da
natureza e, se fosse possível, conciliá-la com princípios morais. Não
poderia a evolução ser encarada como um processo intencional regulado
por Deus?
Essa solução logo foi difundida na Grã-Bretanha. Em 1861, o
astrônomo John Herschel escreveu que era capaz de acreditar em uma
“inteligência” que guiasse os passos da mudança segundo as leis da ciência.
Perto do final do século XIX, vários clérigos anglicanos, como Charles
Kingsley e Frederic Temple, promoveram teoria semelhante, segundo a qual
a configuração da Terra e dos seres vivos era vista como um processo
contínuo controlado pelas leis que Deus instituíra no princípio. Ou, ainda,
seria possível substituir os processos mecânicos da seleção natural por algo
de origem divina? Vários cientistas, entre os quais o amigo de Darwin, Asa
Gray, adotaram esse caminho e reintroduziram a intenção moral e as metas
futuras – a teleologia – que Darwin havia evitado.
Um dos aspectos mais conhecidos da polêmica originada por A origem
das espécies é que Darwin se manteve fora da ribalta. Aparentemente, isso
é verdade. Darwin nunca apreciou o debate público, detestava
confrontações em que sua honra ou honestidade pudessem ser postas em
questão; preferia ficar tranqüilo em casa, em segundo plano, satisfeito em
deixar que os outros agitassem a bandeira com mais vigor do que ele
próprio. Pessoalmente, acreditava que essas divergências entre cientistas
não eram em geral profícuas.
Apesar disso, a história subjacente é mais complexa. Darwin
acompanhou tudo de perto. Embora permanecesse em Down House, recebia
e enviava diariamente volumosa correspondência. Com suas cartas, participava da discussão: estimulava, apoiava, cutucava, explicava,
discordava com polidez, agradecia, consultava e aconselhava. Lançava mão
das cartas para convencer e influenciar, obter críticas favoráveis, corrigir
erros, providenciar traduções e produzir edições revistas. Congregava
apoio, fazia novos contatos, descobria coisas. Sem essa extraordinária
correspondência, que chegou a 500 cartas por ano depois da publicação da
Origem das espécies, a teoria de Darwin teria ido a pique. Nisso foi
auxiliado pelo rápido desenvolvimento do sistema postal vitoriano, levado à
sua máxima eficiência por Rowland Hill a partir das décadas de 1840 e
1850, e pela infra-estrutura em expansão do império.
Os estudiosos concordam que o curso da controvérsia em torno da
Origem das espécies foi singular sob vários aspectos. O amplo e imediato
impacto do livro na Grã-Bretanha foi acentuado pela crescente indústria da
publicidade e a produção de novas revistas de resenha literária para
públicos que se diversificavam com grande velocidade. Caracterizou-se
também pela paz e a prosperidade, a estabilidade política e a expansão
imperial que marcaram a metade do século XIX. O público de ciência era
amplo e mais abalizado que nunca, com o apetite aguçado pelo
desenvolvimento de sociedades científicas locais, bibliotecas que
emprestavam livros, conferências públicas e emocionantes demonstrações
práticas sobre eletricidade, química ou magnetismo. Tudo isso reforçado
pela crescente disponibilidade de bens manufaturados e construções de
estradas, ferrovias, pontes, navios e canais. Livros anteriores como Vestiges,
de Chambers, e In Memoriam, de Tennyson, ajudavam os leitores a explorar
os grandes temas da existência humana, questões de origem, significado e
propósito.
Extremamente característico foi também o elemento pessoal. Quatro
amigos de Darwin suportaram o impacto da tempestade pública: cada qual
especialista reconhecido em suas áreas, independente, engenhoso e avesso à
bajulação. Apoiaram Darwin com entusiasmo, mesmo quando apontaram
falhas em suas evidências ou argumentações. Permaneceram unidos,
arregimentando seus próprios discípulos e seguidores; envolviam-se em
batalhas individuais do interesse de Darwin e também aprofundavam e
ampliavam o debate, incorporando outros pensadores, tópicos e novas
implicações, em um processo cumulativo que acabou por gerar importantes
transformações nas atitudes culturais e no pensamento científico.
Enquanto Darwin ocupava-se em escrever cartas nos bastidores, os
quatro recrutaram um exército permanente, apropriaram-se dos jornais,
invadiram as sociedades científicas, monitoraram as universidades,
dominaram os jantares e penetraram nos recônditos do império. A oposição
nunca chegou a se consolidar da mesma maneira. Houve, é claro, opositores
individuais de peso que contestaram publicamente o darwinismo, alguns de
forma intimidante e eficaz. Mas nenhum grupo unido se organizou no
ataque ou se reuniu por trás de porta-vozes poderosos. Não houve um
movimento antidarwinista explícito do modo como houve um grupo pró-
darwinista unido pelo compromisso intelectual e a amizade. A existência
dessa aliança em torno das idéias de Darwin talvez tenha sido a
característica isolada mais importante do debate e contribuiu
acentuadamente para o triunfo final da teoria evolucionária. Em seu núcleo
estavam Charles Lyell, Joseph Hooker, Asa Gray e Thomas Henry Huxley.
Inspirado pelas idéias de Darwin, Lyell abordou a arqueologia humana e
a pré-história em um texto impressionante intitulado The Antiquity of Man,
de 1863. Nesse livro, solapou a história tradicional da criação e do dilúvio,
mostrando que os seres humanos apareceram sobre o globo muito antes do
que se julgava possível na época, sendo contemporâneos de animais hoje
conhecidos apenas em sua forma fóssil. Embora não tenha cunhado a
expressão “homem das cavernas”, que surgiu mais tarde, nem pudesse se
dizer o único intrigado com as descobertas de sílices trabalhados e pontas
de flecha feitas de pedra, Lyell foi um dos primeiros a escrever sobre os
povos primitivos em termos amplamente evolucionários. Como era um dos
autores mais respeitados do século, a contribuição dessa extensão da tese de
Darwin ao mundo pré-histórico foi incalculável. Lyell, porém, sentia-se
incapaz de ir tão longe quanto Darwin e acreditar que os seres humanos
eram organismos inteiramente naturais. No fim de sua vida, pensava que os
homens possuíam uma alma divina. Certa vez disse a Huxley que não
conseguia “aceitar completamente aquele orangotango”.1
O interesse de Lyell por culturas humanas primitivas logo foi ampliado
por uma geração de talentosos antropólogos evolucionários. John Lubbock,
um amigo mais jovem e vizinho de Darwin, discutiu os indícios
arqueológicos de culturas primitivas na Europa em Pre-historic Times, de
1865, e The Origins of Civilization, de 1870. Eles foram vigorosamente
seguidos pela grande arremetida da antropologia cultural vitoriana na obra
evolucionária de Edward B. Tylor, Researches into the Early History of Mankind and the Development of Civilization, também de 1870, em
Sociedade antiga, escrito em 1877 por Lewis Henry Morgan, e na obra de
sir John Evans. Esses homens codificaram a crença do final do século XIX
de que o desenvolvimento humano avançara, em uma seqüência de
estágios, da selvageria à civilização, passando pelo barbarismo, e que os
primitivos eram relíquias de fases anteriores que podiam ser estudadas em
busca de revelações sobre a história da humanidade.
Enquanto Lyell se empenhava em estudar os primórdios do gênero
humano, Joseph Hooker tinha em mira a botânica. O pai de Hooker – e
depois ele próprio – foi diretor dos Kew Gardens, situado nos arredores de
Londres, o maior centro de pesquisas botânicas do mundo e o que mais
rapidamente crescia, com foco especial na botânica econômica e na
expansão colonial. A obra pública de Hooker em Kew promoveu a
introdução do cultivo, em diversos países do planeta, de produtos agrícolas
como chá, café, sisal, açúcar, mogno, quina, algodão e linho. Muito
negligenciada pelos historiadores, a botânica foi a ciência mais importante
do século XIX. Criou e destruiu produtos agrícolas comerciais segundo a
política do governo e construiu a prosperidade econômica de uma nação.
Quase sem ajuda, Hooker coordenou as atividades dos jardins botânicos
coloniais britânicos e orquestrou uma vasta correspondência com outros
especialistas. Como Lyell, foi um dos maiores amigos de Darwin e contava
com sua confiança e estima. Foi o primeiro a mostrar como a teoria de
Darwin podia funcionar no mundo vegetal e o apoiou lealmente em
publicações, críticas e correspondência. Nunca escreveu um livro-chave
como o de Lyell, mas sua influência e posição científica no centro da
ciência imperial foi uma força decisiva para Darwin.
Do outro lado do Atlântico, Asa Gray defendeu Darwin com igual
eficácia. Estabelecido na Universidade de Harvard, em Cambridge,
Massachusetts, Gray, também botânico, era um professor rival de Louis
Agassiz, o mais célebre naturalista dos Estados Unidos. Agassiz não era
nenhum admirador da Origem das espécies. Sua crença de que a “essência”
de cada espécie devia refletir o projeto divino o levava a rejeitar
enfaticamente a evolução – como podia alguém classificar alguma coisa se
ela mudava constantemente? Gray e Agassiz discutiram ardorosamente
sobre o darwinismo em reuniões públicas em Boston entre 1859 e 1860, e
talvez Gray fosse o único homem nos Estados Unidos capaz (vez por outra)
de levar a melhor sobre Agassiz num debate.
Gray defendia, no entanto, que o esquema de Darwin deveria ser
modificado para ajudar os que acreditavam sinceramente na presença de
Deus no mundo natural. Na opinião dele, a seleção natural, ao agir às cegas
sobre variações casuais, não parecia suficiente para explicar tantos
organismos primorosamente “planejados” para exercer suas funções na
vida. Assim, Gray propôs que Deus criara variações boas e úteis, e que a
seleção natural depois preservava em uma população. Embora esse ponto de
vista fosse completamente antitético à proposta de Darwin, Gray o
promoveu de forma convicta em várias resenhas amplamente divulgadas.
Darwin respeitava a opinião de Gray, dizia tratar-se do melhor comentário
teológico natural que já lera. Declarou, com admiração, que cada um dos
ataques de Gray a opositores “valia como uma bala de canhão”. E chegou a
dizer: “Ninguém me compreende tão bem quanto Asa Gray. Se algum dia
eu tiver dúvida quanto ao que eu mesmo quero expressar, acho que
perguntarei a ele!”2
Por fim, e o mais famoso de todos, Thomas Henry Huxley. Brilhante
zoólogo e anatomista comparativo, atribuía-se o papel de “buldogue de
Darwin”. Defendeu-o com veemência na questão da ancestralidade símia e
da estreita semelhança anatômica entre seres humanos e primatas, e reinou
supremo sobre o que se pode adequadamente chamar de o marketing da
teoria evolucionária – uma vigorosa campanha publicitária para um novo
tipo de ciência, baseada em pensamento racional não maculado pela crença
religiosa. Um importante elemento de sua plataforma era a idéia de arrancar
a educação das mãos do clero, pois os escolares e estudantes universitários
ainda eram na maior parte educados em instituições anglicanas tradicionais
ou por missões eclesiásticas dissidentes. Enfrentava a hostilidade crescente
do anatomista comparativo Richard Owen, homem profundamente
contrário à evolução e que, na opinião de Huxley, bloqueava seu caminho
para o sucesso.
Superintendente das coleções de história natural no Museu Britânico (na
época situado no prédio de Bloomsbury), e aos olhos de muitos o principal
naturalista da Grã-Bretanha, Owen desferiu, em abril de 1860, na
Edinburgh Review, um ataque brutal à Origem das espécies que enfureceu
Darwin e forneceu o pretexto para boa parte da virulência de Huxley no
início da década de 1860. Outras características pessoais de Huxley eram a
intensa aversão pela “conversa oca religiosa” e o entusiasmo por
confrontações públicas. Foi ele que, quando mais velho, cunhou o termo “agnóstico” para descrever sua posição, a de alguém que não podia
acreditar em uma crença sem dispor de indícios racionais. “Em questões do
intelecto, não tome como certas conclusões que não estão demonstradas ou
não são demonstráveis…. O que não está provado hoje pode o ser amanhã,
com a ajuda de novas descobertas”.3 Angariou sólida reputação por sua
sagacidade e prosa brilhante.
De fato, os meses que se seguiram à publicação da Origem das espécies
pertenceram a Huxley. Como ele recordou, a beleza da teoria de Darwin
fulminou-o. “Que idiota eu fui por não ter pensado nisso”, exclamou.
Compôs três magníficas resenhas, uma publicada no jornal The Times e as
outras em conhecidas revistas literárias, a Westminster Review e a
Macmillan’s Magazine.
Na Westminster Review, proferiu um grito de batalha. A origem das
espécies era um “verdadeiro canhão Whitworth no arsenal do liberalismo”.
A obra varreria do mundo o dogma teológico:
Que é a história de todas as ciências senão a eliminação da noção de
mistério ou de interferências criativas? … Teólogos obsoletos
permanecem à beira do berço de toda ciência como as cobras
estranguladas junto ao de Hércules, e a história registra que sempre que
a ciência e o dogmatismo se confrontaram de maneira justa, o último foi
forçado a se retirar da liça, sangrando e esmagado, se não aniquilado;
escoriado, se não morto.4
Esse golpe inicial contra a religião não só fez o nome de Huxley como
foi muito útil a ele e a Darwin no futuro.
A primeira confrontação pública de Huxley – hoje um episódio famoso
na história da ciência – teve lugar em uma reunião da Sociedade Britânica
para o Progresso da Ciência, em Oxford, junho de 1860. Restam poucos
registros da ocasião. Nenhum deles sequer declara com certeza quem
ganhou. Apesar disso, o episódio teve grande significado em termos
históricos. Tornou-se símbolo duradouro de um furioso conflito entre
ciência e religião acerca da origem das espécies.
Como de costume, a reunião da sociedade foi realizada durante uma
semana no verão e tornou mais conhecidos pelo público os então recentes
avanços da ciência. Atraídos pela perspectiva de acalorados debates sobre ancestrais macacos, um número inusitadamente grande de pessoas acorreu à
sessão realizada no Museu de História Natural da Universidade de Oxford,
no dia 30 de junho, um sábado. Darwin não compareceu por estar doente.
Huxley e Owen estavam presentes. Naquela mesma semana, várias
escaramuças intelectuais já haviam ocorrido entre eles, em especial quando
Owen afirmou que não havia em cérebros de primatas indícios anatômicos
que apontassem para a evolução. Huxley havia zombado da competência de
Owen. “Você e seu livro tornaram-se imediatamente os assuntos do dia”,
Joseph Hooker contou a Darwin.
A sessão prometia faíscas. Um filósofo norte-americano, John William
Draper, conhecido por suas críticas ao catolicismo romano, deveria falar
sobre a evolução da sociedade humana “com referência às idéias do sr.
Darwin”. A palestra de Draper, entretanto, foi enfadonha. A disposição de
ânimo do público melhorou visivelmente quando o então bispo de Oxford,
Samuel Wilberforce, se levantou para falar. Wilberforce era um orador
vigoroso, divertido e eloqüente. Como teólogo, aproveitou a oportunidade
para defender a criação divina do gênero humano. Ele acabara de escrever
uma crítica para a Quarterly Review condenando o livro de Darwin, e sua
fala repetiu muitas das idéias nela publicadas, com informações anatômicas
fornecidas por Owen. Como poderia alguém acreditar seriamente que os
seres humanos haviam se desenvolvido a partir de ostras? Em certa altura,
virou-se para Huxley e perguntou jocosamente: “O senhor é aparentado
com um macaco pelo lado do seu avô ou da sua avó?”
A platéia farejou sangue. Huxley também. Deu uma longa resposta,
primeiro repudiou os argumentos anatômicos apresentados por Wilberforce
e depois elogiou o modo como a teoria de Darwin unia dados antes
caóticos. As palavras exatas que usou não foram registradas. Mas sua
estocada final foi dizer que “preferia ter um mísero macaco como avô que
um homem que introduzia a zombaria em uma importante discussão
científica”. A platéia aplaudiu e se retirou convencida de que Huxley
preferia ser neto de um macaco do que de um bispo. O público sentiu que
havia testemunhado uma confrontação titânica, ainda que em pequena
escala, entre a Igreja e a ciência – entre duas concepções completamente
incompatíveis sobre a posição do gênero humano no mundo natural.
Mais tarde, Huxley deixou sua posição clara em um pequeno e vigoroso
volume intitulado Evidence as to Man’s Place in Nature, de 1863, livro
popular voltado para públicos interessados sobretudo em ler a respeito de ancestrais simiescos. Ele incluiu uma exposição simples e favorável da
teoria de Darwin. Huxley levou adiante sua discussão com Richard Owen e
atacou o trabalho anatômico deste com macacos grandes. Durante muito
tempo Owen insistiu que havia uma pequena prega nas membranas da base
do cérebro humano (o hipocampo menor) que não podia ser encontrada em
nenhum dos símios. Esta, pensava Owen, junto com outras diferenças como
a mão humana e a postura ereta, indicava a natureza especial dos seres
humanos.
Huxley discordou com veemência. Reputações profissionais e
competência estavam em jogo. Uma simples observação não seria capaz de
resolver a matéria porque a discordância repousava em questões de
julgamento, interpretação e escala. Em seu livro, Huxley afirmou que havia
continuidades anatômicas evidentes entre gibões, gorilas e os seres
humanos. Reforço visual foi fornecido por uma gravura que mostrava os
esqueletos de quatro espécies de símios alinhados em seqüência
evolucionária com um ser humano. Essa primeira representação pictórica da
evolução tornou-se tão icônica quanto a dupla hélice do DNA.
A concepção de Huxley veio a prevalecer. Na época, contudo, a
discussão com Owen ocupou espaço na imprensa popular e tornou a
chocante possibilidade da ancestralidade simiesca perfeitamente clara para
as massas. Charles Kingsley encontrou no conflito uma rica fonte de sátira
que o inspirou a escrever um livro para crianças, The Water Babies, em
1863. Incluiu caricaturas de Huxley e Owen às turras acerca da definição de
um “filho da água”, e brincou: “Os macacos têm hippopotamus majors,
assim como os homens…. Não se pode confiar em nada a não ser no teste
do hippopotamus major”.a O artista Edward Linley Sambourne foi quem
ilustrou os dois homens brigando por causa de um bebê em uma garrafa.
Durante todo o tempo, os macacos avançavam com rumor para o
primeiro plano. De maneira especialmente notável, o gorila tornou-se de
repente notícia de primeira página graças às proezas de Paul Du Chaillu,
explorador que em 1861 levou espécimes e peles de símios para a Europa.
Pelo menos uma dessas peles (talvez até três) foi empalhada e viajava de
um lado para outro com Du Chaillu enquanto ele fazia palestras públicas
sobre a ferocidade dos gorilas e os perigos a que escapara ao longo de suas
viagens pela África Ocidental. Poucos haviam visto ou ouvido coisa
parecida antes – os gorilas eram quase inteiramente desconhecidos no Ocidente até 1854, quando alguns ossos foram enviados da África para a
Universidade de Harvard para serem analisados.
Os vitorianos ficavam horrorizados com a idéia de que aqueles animais
tidos como violentos – homens distorcidos na forma e no tamanho,
representando o lado animalesco, obscuro da humanidade – pudessem ser
seus ancestrais. Curadores de museu disputaram descaradamente as
carcaças, até que Owen convenceu os membros do conselho diretor do
Museu Britânico a pagar uma fortuna para adquirir seis peles de Du Chaillu.
Enquanto isso, revistas humorísticas como a Punch aproveitavam a idéia de
avós simiescos e imprimiam ampla variedade de cartuns e sátiras que
representavam gorilas humanizados. “Sou eu um Homem e um Irmão?”,
perguntava um macaco numa famosa ilustração na Punch em maio de 1861,
brincando ao mesmo tempo com o gorila empalhado de Du Chailly e o
movimento antiescravista. Na verdade, o furor gerado pelas idéias
evolucionárias envolveu macacos, anatomia, medo, repulsa e
sensacionalismo em um único debate. Benjamin Disraeli, que se tornaria
primeiro-ministro conservador da Grã-Bretanha, expôs em 1864 a
insegurança de seus contemporâneos ao perguntar: “O homem é um macaco
ou um anjo?” Assegurava à sua audiência que estava do lado dos anjos.
Outros se envolveram nas discussões ligadas à Origem das espécies
com curiosidade filosófica. Enquanto John Herschel se queixava de que a
seleção natural era a “lei da confusão”, e que Darwin não seguia
procedimentos tradicionais de demonstração e prova, Henry Fawcett, na
Universidade de Cambridge, e o filósofo John Stuart Mill comparavam
favoravelmente o novo estilo de argumentação com o antigo. Mill aprovou
a obra de Darwin na edição de 1862 de seu Sistema de lógica, dizendo que,
embora Darwin não tivesse provado a veracidade de sua doutrina, mostrara
que ela podia ser verdadeira, um “exemplo irrepreensível de uma hipótese
legítima. … Ele abriu um caminho de investigação promissor, cujos
resultados ninguém pode prever”.5
Ernest Renan, eminente escritor teológico, cuja Vida de Jesus excluíra
deliberadamente o divino, disse quase a mesma coisa. Essa foi também a
posição de George Henry Lewes ao discutir a seleção natural em Animal
Life, publicado em 1862: “Ela pode ser verdadeira, mas não podemos dizer
que é verdadeira”. Autores sérios percebiam o valor explanatório da
argumentação e não se dispunham a rejeitá-la por simples razões religiosas.
Em geral, mesmo os que discordavam de Darwin eram capazes de
admitir os méritos de sua argumentação. Na temporada londrina de
palestras de inverno em 1861-62, o grande filólogo Friedrich Max Müller
abordou as teorias de Darwin em apresentações sobre a origem da fala.
Müller obrigava suas platéias de homens elegantes a pensar cuidadosamente
sobre o que era ser homem. Teria nosso dom da linguagem se desenvolvido
a partir de sons animais? Ele acreditava que não. Palavras só podiam existir
com pensamentos, e estes eram o apanágio dos seres humanos. Animais não
possuíam nada de parecido com conceitos humanos, afirmava. Müller opôs-
se com vigor à teoria evolucionária. Apesar disso, elogiou a idéia de seleção
natural e aplicou-a – assim como fez outro grande estudioso das línguas na
época, August Schleicher – com entusiasmo à descendência e às relações
históricas das línguas indo-européias.
Poetas e escritores não ficaram muito atrás. Alfred Tennyson nunca
concordou com as hipóteses de Darwin, mas ficou ávido por conhecê-lo
quando ambos passavam férias ao mesmo tempo na ilha de Wight.
Tennyson havia sido profundamente afetado por Vestiges, de Chambers, e
não se deu ao trabalho de distinguir um livro do outro. “Darwinismo,
homem vindo do macaco, será que isso realmente faria alguma diferença?
O tempo não é nada, não somos todos parte da divindade?”, observou ele a
William Allingham em 1863. A tristeza de Tennyson com o vazio após a
morte, embora não gerada pelo darwinismo, acabou por levá-lo mais ou
menos na mesma direção da Origem das espécies. De maneira semelhante,
Robert Browning questionou se havia algum propósito na existência
humana. Mas Matthew Arnold talvez tenha sido aquele que falou de
maneira mais clara em nome dos vitorianos assediados por dúvidas
religiosas. Em seu poema “Dover Beach”, de 1851, o mar de fé que outrora
sustentava a espiritualidade não passava de um “melancólico, longo e
remoto bramido”.
E, como é notório, Karl Marx ficou intrigado com a tese de Darwin e
disse em várias ocasiões que via nela, em operação, o sistema capitalista de
competição e o laissez-faire. Em certa época, pensou-se que Marx desejara
dedicar O Capital a Darwin, mas essa idéia se baseava em um mal-
entendido. Marx sem dúvida mencionou A origem das espécies em seu
texto e enviou a Darwin, em sinal de respeito, um exemplar de cortesia da
terceira edição. O livro continua na coleção de Darwin, com uma
dedicatória de Marx. A confusão emergiu da identificação equivocada de uma carta enviada a Darwin. Ela fora escrita na realidade por Edward
Aveling, filósofo político e genro de Marx, que adotou com entusiasmo as
intuições seculares de Darwin. Aveling perguntava se Darwin aceitaria que
ele lhe dedicasse um de seus livros. Por não desejar se ver publicamente
associado ao ateísmo de Aveling, Darwin rejeitou o pedido.
Em paralelo a esses intensos debates sobre macacos e anjos, surgiram
duas objeções científicas principais à Origem das espécies. A primeira
atingia o cerne da proposta de Darwin e punha em dúvida a origem e a
preservação de variações favoráveis. O tema foi apresentado em 1867 por
Fleeming Jenkin, engenheiro escocês amigo de Robert Louis Stevenson.
Jenkin perguntava como podiam indivíduos com traços vantajosos
sobreviver e se reproduzir em número suficiente para mudar toda a
população na mesma direção favorável? Ele era prejudicado, como muitos
de seus contemporâneos, pela crença no que era então conhecido como
“herança por mistura”, segundo a qual as características dos pais sempre se
misturavam e se combinavam na prole. Se assim fosse, quaisquer novos
traços favoráveis seriam misturados nas futuras gerações. Só mais tarde,
com a insistência de Moritz Wagner no papel do isolamento geográfico no
processo evolucionário (noção desenvolvida a partir da obra de Darwin), o
problema da mistura pareceu se resolver.
Darwin estava muito confuso para responder à objeção de maneira
satisfatória. Reconheceu – e de fato a maioria dos críticos lhe disse isso –
que a maior lacuna em seu livro era não explicar a origem das variações e o
processo de hereditariedade. Ele tentou supri-la na primeira obra importante
que publicou depois, A variação de animais e plantas sob domesticação, de
1868. Concebeu uma teoria da herança que chamou de “pangênese”: de
cada parte do corpo dos pais se desprenderiam partículas minúsculas, ou
“gêmulas”, que se acumulariam nos órgãos sexuais para serem transmitidas
na reprodução. As gêmulas parentais não se misturavam, afirmava ele. Em
vez disso, eram reorganizadas.
O esquema foi extremamente criticado, primeiro por Huxley e depois,
de modo mais significativo, por Francis Galton (1822-1911), primo de
Darwin. Entusiasta da evolução e interessado pelas questões da herança e
da “aptidão” da raça humana, Galton levou as teorias darwinianas para o
domínio humano sob o rótulo de eugenia. Teve esperança de provar a
pangênese de Darwin realizando transfusões de sangue entre coelhos e
depois colocando-os para procriar. Para sua consternação, porém, terminou por mostrar que não havia gêmulas no sangue. Os dois primos jamais
conversaram francamente sobre o assunto. Tempos mais tarde, Darwin
ficou satisfeito quando o geneticista pioneiro August Weismann (1834-
1914) retomou a noção de gêmula (pangênese) como um veículo para a
transmissão de informações dos pais para sua prole.
Geralmente desconsideradas pelos especialistas em genética, as teorias
de Darwin talvez devessem ser colocadas mais no centro das investigações
sobre herança. Ele era um dos muitos que, na época, acreditava que a chave
para a questão das origens devia estar na hereditariedade. A partir da década
de 1860, o problema esteve sob prolongada e minuciosa investigação
conduzida por Charles Naudin, Karl Wilhelm Nägeli, Karl Friedrich
Gärtner e Weismann. Ao mesmo tempo, por coincidência, Gregor Mendel
(1822-84) também trabalhava na questão em um mosteiro de Brno
(Morávia, hoje República Tcheca), onde passou a vida como monge. As
experiências de cruzamento que Mendel fez com linhagens puras de
ervilhas e outras espécies, embora mais tarde reconhecidas como
fundamentos da moderna genética, foram praticamente ignoradas quando
saíram na revista local de história natural em 1865. De todo modo, não há
indícios de que Darwin tenha lido o artigo de Mendel. A teoria da herança
de Darwin não convenceu seus contemporâneos, que continuaram a apontar
essa lacuna em sua argumentação.
O outro impasse científico emergiu em 1866, quando o físico
experimental William Thomson (mais tarde Lord Kelvin) anunciou que a
Terra não tinha idade suficiente para comprovar a evolução. Movido por
inclinações presbiterianas escocesas antievolucionárias, Thomson declarou
que cem milhões de anos era o tempo máximo que a física podia admitir
para toda a história geológica da Terra. Uniformitarianistas como Lyell e
Darwin, que acreditavam em mudanças lentas e graduais ao longo de vastos
éons de tempo, ficaram estarrecidos. Os argumentos de Thomson eram “um
espectro odioso”. Por muitas décadas a idade da Terra foi constantemente
debatida, até que no início do século XX a radioatividade foi descoberta, o
que forneceu uma maneira mais precisa de avaliação e livrou os
evolucionistas do apuro.
Darwin respondeu a essas críticas e a outras nas páginas de sucessivas
edições de seu livro. Uma das mudanças mais importantes foi notada por
vários comentadores. Nas últimas páginas da primeira edição, Darwin havia
escrito que a vida fora sido soprada em poucas formas primordiais. Na segunda edição, alterou isso para “o sopro do Criador”, concessão da qual
se arrependeria mais tarde. Acrescentou também algumas palavras (sem
mencionar o autor) de uma carta que lhe fora escrita por Charles Kingsley,
que afirmavam ser possível acreditar em Deus como o autor supremo da
evolução. Tais palavras permaneceram mais ou menos intactas em algumas
edições posteriores. Historiadores notaram também a propensão de Darwin
para incluir níveis crescentes da evolução lamarckiana com o passar dos
anos.
Durante sua vida, Darwin publicou seis edições da Origem das espécies,
um total de 18 mil exemplares. A primeira teve tiragem de 1.250
exemplares. Vale a pena comparar estes números com os relativos a dois
dos livros científicos mais populares do século: Vestiges, de 1844, vendeu
24 mil exemplares em 16 anos, e quase 40 mil até 1890; e Constitution of
Man, de George Combe, publicado em 1828, vendeu 11 mil exemplares em
oito anos. Antes da morte de Darwin, em 1882, foram produzidas 11
traduções da Origem das espécies e diversas versões abreviadas e
comentários, muitas das quais exigiram estreita cooperação com os autores
e editores. Desde então, o livro foi impresso em mais 18 línguas.
Um aspecto em que a teoria de Darwin obviamente se impôs à
sociedade foi na sugestão de que havia uma luta pela existência entre
nações e raças. Depois da publicação da Origem das espécies, a notória
doutrina do “darwinismo social” tomou a idéia de sucesso para justificar
políticas sociais e econômicas em que a luta era a força motriz. Intimamente
vinculado a economias nacionais, inserido em poderosas distinções de
classe, raça e gênero, e sendo adaptado a uma variedade de compromissos
políticos, não houve uma forma única de darwinismo social. De fato, alguns
estudiosos argumentam que ele praticamente não derivou do esquema de
seleção natural de Darwin e Wallace, e estava muito mais vinculado ao
onipresente evolucionismo social de Herbert Spencer. A panacéia da
“sobrevivência do mais apto” de Spencer era muito apropriada para
descrever a expansão econômica, a rápida adaptação às circunstâncias e a
colonização.
De qualquer maneira, a estratégia econômica dominante das nações
desenvolvidas durante a segunda metade do século XIX ganhou forma no
período subseqüente à publicação da Origem das espécies. Era comum que
usassem o livro para legitimar a competição que florescia no regime de
livre iniciativa do capitalismo vitoriano. Darwin estava plenamente ciente dessas atividades e talvez até as aprovasse. Logo observou que um crítico
em Manchester (uma das maiores cidades manufatureiras da Grã-Bretanha)
declarou que A origem das espécies promovia a noção de que “o poder faz
o direito”. As idéias de Darwin foram bem recebidas por muitos magnatas e
industriais.
Perto do final do século, elas eram postas em prática por homens de
negócios, filantropos e pelos grandes saqueadores que planejaram o
desenvolvimento da indústria na América do Norte, em especial J.D.
Rockefeller e o proprietário de ferrovias James J. Hill, que usavam a
expressão “sobrevivência dos mais aptos” como slogan. Na visão deles, a
companhia mais forte e eficiente iria naturalmente dominar o mercado e
estimular o progresso econômico em maior escala. Outros, como Andrew
Carnegie, escocês emigrado que acumulou fortuna e passou o resto da vida
gastando-a, reverenciavam Spencer. Esses compromissos tendiam bastante
para a direita política. Poucos desses empreendedores acreditavam no
socialismo ou na assistência estatal aos pobres. O Estado assistencial e a
indústria subsidiada, supunham, estimulariam a ociosidade e permitiriam
que um número crescente de pessoas ou firmas “inaptas” sobrevivessem, o
que viria solapar o progresso econômico e social, e a saúde nacional – uma
ressurgência óbvia das idéias originais de Malthus, nesse momento
derramadas de volta no pensamento econômico com um endosso
plenamente “científico” fornecido por Darwin.
O entusiasmo pela livre empresa logo se fundiu rapidamente com
ideologias florescentes de imperialismo e eugenia. A “sobrevivência dos
mais aptos” sustentava noções de diferenças “raciais” inerentes e parecia
justificar lutas cruéis e constantes por territórios e poder político no cenário
internacional. O sucesso dos europeus brancos ao conquistar a Tasmânia e
lá se estabelecerem, por exemplo, pareceu “tornar natural” o extermínio
indiscriminado dos aborígines tasmanianos. A conquista era considerada
parte necessária do progresso. Uma opinião bastante típica foi expressa por
Karl Pearson (1857-1936), engajado biólogo darwinista e estatístico
londrino. Ninguém deveria lamentar, disse ele em 1900, que “uma raça
capaz e vigorosa de homens brancos substituísse uma tribo de pele escura
que não conseguia utilizar sua terra para o pleno benefício da humanidade,
nem contribuir com sua cota para o cabedal comum do conhecimento
humano”.6
Os comentadores sociais pareciam concordar. A eugenia foi batizada e
teve seus princípios fundamentais formulados na década de 1880 por
Francis Galton, que utilizou pressupostos nacionalistas, raciais e sociais já
bem estabelecidos, mas adquiriam grande força social quando vinculados à
teoria evolucionária. Galton acreditava que as sociedades civilizadas
tendiam em geral a impedir a operação da seleção natural, no sentido de que
muitos dos “inaptos” eram preservados pela medicina, caridade, família ou
pelos princípios religiosos, ao passo que em um estado de natureza tais
indivíduos morreriam. Os piores elementos da sociedade eram os mais
fecundos, disse ele. A raça humana se deterioraria, declarou, a menos que
se introduzissem políticas para reduzir as taxas de procriação entre o que
caracterizou como os elementos mais pobres, inaptos e dissolutos da
sociedade.
Um dos movimentos sociais de maior penetração do início do século
XX, e que se espalhou pela Europa e pelas Américas, a eugenia tornou-se
cada vez mais o canal pelo qual os temores de um declínio racial e político
na sociedade eram projetados sobre os “inaptos”. Muitos eugenistas
acreditavam piamente no aperfeiçoamento da humanidade, na meritocracia
política, na educação, no controle da natalidade e na maior liberdade para as
mulheres; defendiam a tecnologia e o avanço científico e com freqüência
eram socialistas comprometidos, o que não os impedia, no entanto, de
também promover o nacionalismo, o chauvinismo e o preconceito. Embora
A origem das espécies dificilmente possa explicar toda a estereotipia racial,
o fervor nacionalista e o preconceito que seriam vistos nos anos
subseqüentes à publicação, não se pode negar a influência do livro ao
fornecer um endosso biológico às guerras e às noções de superioridade
racial.
Perto do fim de sua vida, pode-se quase dizer que A origem das espécies
devorou Darwin. A pressão constante o extenuava. Durante as décadas de
1860 e 1870 ele adoeceu com maior freqüência e por períodos mais longos.
Um desagradável episódio de doença dominou o ano de 1864, grande parte
do qual Darwin passou na cama, vomitando e com náuseas, incapaz de ver
os amigos ou de trabalhar, fraco demais até para escrever sua usual cascata
de cartas. Emma e a filha Henrietta atuavam como suas amanuenses. Ele
desistiu da hidroterapia e depositou sua fé em regimes dietéticos e no
repouso dos “nervos”. Sob o cuidado de vários médicos, tomava também
uma variedade de remédios vitorianos para dispepsia. Em 1866, quando superou a doença, havia se tornado um homem velho e fraco, com a enorme
barba grisalha da qual todos se lembram.
Mesmo assim, ainda escreveu muitos outros livros após A origem das
espécies. O primeiro, em 1862, sobre orquídeas, representou uma
exploração muito deliberada de adaptações na natureza, o que chamou de
um “avanço de flanco sobre o inimigo”. Foi sua resposta ao relojoeiro
celeste de William Paley e estimulou muita discussão teológica com Asa
Gray. “Não posso pensar que o mundo, tal como o vemos, é resultado do
acaso; contudo, não consigo ver cada coisa separada como resultado de um
desígnio”, disse Darwin a Gray.
Muito mais influente foi A origem do homem, e a seleção sexual,
publicada por John Murray em dois volumes em 1871. Depois de toda a
acalorada discussão sobre as origens do homem, o livro chegou um pouco
tarde. Nesse ínterim, outras vozes e outros textos haviam argumentado tanto
a favor quanto contra as bases animais da humanidade. De fato, Darwin
confessou a um correspondente sentir-se acusado de esconder a própria
opinião. Entretanto, ele afinal tratava do que chamou de “o mais elevado e
interessante problema para o naturalista”. Como alguns materiais eram
extensos demais até para serem incluídos no novo livro, Darwin os separou
para uma inovadora publicação para o ano seguinte: A expressão das
emoções no homem e nos animais, de 1872. Os dois títulos representaram o
grande ciclo antropológico de Darwin, seus livros “sobre o homem”,
complemento vital para A origem das espécies.
Alfred Russel Wallace desempenhou importante papel no pensamento
de Darwin sobre essa questão. Depois do retorno de Wallace à Inglaterra em
1862, os dois haviam se tornado muito amigos e respeitavam os feitos um
do outro. Apesar disso, Wallace curvava-se diante do que devia lhe parecer
o inevitável. Grande parte do choque causado pela evolução já se dissipara
quando voltou. A origem das espécies ocupava a linha de frente, e a palavra
“darwinismo” já circulava como sinônimo de teoria evolucionária. A
posição de Wallace era, portanto, diferente da de Lyell, Hooker e Huxley, e
talvez desconfortável, pois não era nem discípulo ou autor principal.
Wallace acabou por escrever um dos melhores textos do século XIX sobre
seleção natural, intitulando-o modestamente Darwinism, publicado em
1889. De certa forma, nunca adquiriu na ciência vitoriana a mesma
celebridade e o status que Darwin, e é muitas vezes visto pelos historiadores
como um intruso, uma figura fascinante que se uniu ao establishment por pouco tempo. Cada vez mais ele e Darwin diferiam em relação a pontos
particulares. Wallace revelou que não gostava da expressão “seleção
natural”, e em 1868 convenceu Darwin a introduzir o termo “sobrevivência
do mais apto”, tomado dos escritos de Herbert Spencer.
A principal divergência entre eles dizia respeito à origem dos seres
humanos. Na década de 1860, Wallace escreveu dois convincentes artigos
sobre a evolução humana. No segundo, publicado em 1869 na Quarterly
Review, declarou que a seleção natural era insuficiente para explicar todos
os começos evolucionários do homem. Propunha, em vez disso, que a
seleção natural tivesse levado nossos ancestrais simiescos apenas até o
limiar do gênero humano. Nesse ponto, a evolução física teria cessado e
uma outra coisa assumido o controle: o poder da mente. Apenas a mente
humana continuou a avançar, as sociedades humanas emergiram, os
imperativos culturais aumentaram, um domínio mental e moral tornou-se
significativo e a civilização ganhou forma. Nem todas as sociedades se
desenvolviam no mesmo ritmo – as primitivas eram lentas, as caucasianas,
rápidas.
Apesar de todos os seus genuínos princípios democráticos, Wallace
acreditava em uma hierarquia de selvagens e civilizados. Darwin ficou
desconcertado: “Espero que você não tenha assassinado completamente o
seu próprio filho e também o meu”. Foi em parte o impacto que esse artigo
lhe causou que o estimulou a expressar suas idéias por completo na
Descendência do homem. Estava decidido a mostrar que tudo que era
humano – linguagem, moralidade, senso religioso, afeição materna,
civilização, apreciação da beleza – havia se desenvolvido a partir dos
animais.
O livro era extenso, e Darwin pediu ajuda a muitos amigos e estudiosos
que já trabalhavam com antropologia evolucionária, como Huxley ou os
talentosos naturalistas alemães Ernst Haeckel e Carl Vogt. O texto incluiu
uma nova e importante idéia que ele chamou de “seleção sexual”. Esta
explicava, a seu ver, não apenas as diferenças entre machos e fêmeas – as
características sexuais secundárias, como costumam ser chamadas –, mas as
diferenças entre as raças humanas. Darwin usou a terminologia de seu
tempo, escrevendo sobre características e “tipos” raciais. Parecia-lhe que a
seleção sexual era “o principal agente na formação das raças humanas”.
A idéia era relativamente simples. Os animais, disse Darwin, possuem
muitos traços sem importância, que só se desenvolvem porque contribuem para o sucesso reprodutivo. Essas características não possuem valor
adaptativo ou de sobrevivência. O exemplo clássico é o pavão macho, que
desenvolve grandes penas na cauda para aumentar suas chances de
acasalamento, ainda que essas mesmas penas diminuam sua capacidade de
fugir de predadores. A pavoa, afirmou Darwin, prefere o parceiro mais
adornado, e com isso transmite as características dele à geração seguinte.
Era um sistema, frisou, que dependia de escolha individual. Darwin dedicou
quase metade da Descendência do homem ao esforço de estabelecer a
existência dessa seleção sexual em aves, mamíferos e insetos. Wallace
discordou em vários aspectos substanciais, em particular quanto ao objetivo
da coloração protetora em aves e insetos.
Depois Darwin ampliou a idéia para explicar a divergência dos
primeiros seres humanos nos grupos raciais que os antropólogos físicos
descreviam. A preferência por certas cores de pele era um bom exemplo. Os
primeiros homens deviam escolher esposas segundo as idéias locais de
beleza, sugeriu. Por conseguinte, a cor da pele de toda uma população
mudaria aos poucos. “Os homens mais fortes e vigorosos … seriam
geralmente capazes de escolher as mulheres mais atraentes … que em
média criariam um maior número de filhos”.7 As sociedades deviam ter
idéias diferentes sobre o que era atraente, e assim os traços físicos de vários
grupos teriam divergido gradualmente. Os seres humanos teriam feito a si
próprios. O mesmo argumento se aplicava a características mentais, que
teriam impelido alguns grupos a abandonar a vida tribal rumo a valores e
padrões de comportamento mais “civilizados”.
Darwin aventurou-se em um terreno espinhoso quando aplicou essas
noções à cultura e ao comportamento humano. Seu naturalismo remodelou
a concepção de diversidade humana em termos evolucionários e biológicos
estritos, reforçando as crenças do século XIX na superioridade racial, com
os brancos confortavelmente instalados no topo da escala. Ele também
revelou que acreditava na superioridade masculina inata, afiada por
milênios de caça e luta. Embora lhe parecesse que grande parte do reino
animal era governado por escolha feminina – as aves fêmeas escolhem seu
parceiro de acordo com seu comportamento de exibição, canto ou
construção de ninho –, considerava a sociedade humana avançada como
patriarcal. Para ele era evidente que, em regimes civilizados, os homens, em
razão de seu intelecto bem desenvolvido e sua capacidade empresarial,
comandavam a ordem social e que as escolhas cabiam a eles.
Desse modo, aplicou a biologia à cultura humana e viu em toda a
sociedade uma base “natural” para o comportamento centrado no macho.
Após a publicação, feministas e sufragistas precoces atacaram com dureza
essa doutrina, julgando que as mulheres estavam sendo “naturalizadas” em
um papel puramente biológico e submisso. Muitos autores médicos
compreenderam que Darwin apoiava a suposição de que os cérebros das
mulheres eram menores e menos evoluídos que os dos homens, ou que o
corpo feminino era especialmente propenso a distúrbios caso as funções
reprodutivas não pudessem se exercer.
O resto do livro atacou tópicos candentes, como o desenvolvimento da
moral humana a partir de emoções animais e o surgimento da fala (o que
lançou Darwin em novos debates com Friedrich Max Müller). Darwin
precisou mostrar que a linguagem não representava uma diferença tão
fundamental entre os humanos e os animais. Ao contrário de Müller, ele
acreditava que a fala surgia da imitação de sons naturais. “Não parece de
todo improvável que um símio inusitadamente sagaz tivesse a idéia de
imitar o rosnado de um predador para indicar a outros macacos o perigo que
se aproximava. Isso teria sido um primeiro passo na formação de uma
linguagem”.8 Darwin foi ousado ao abordar o senso religioso e propor que
este não passava, em última análise, de um impulso primitivo para atribuir
causas a eventos naturais inexplicáveis.
Discutiu também a respeito de prováveis fósseis intermediários entre o
macaco e o ser humano e montou com cuidado uma árvore genealógica
provisória, reunindo informações sobretudo de colegas evolucionistas como
Haeckel e Huxley. Embora houvesse nessa época alguns fragmentos
isolados de crânios de homens de Neandertal disponíveis para estudo em
museus europeus, eles ainda não haviam sido identificados como ancestrais
humanos. Huxley, por exemplo, via o intrigante fragmento original do vale
do rio Neander como parte do crânio espessado de um idiota congênito. Os
reais avanços na compreensão dos fósseis humanos só ocorreriam décadas
depois da morte de Darwin. Apesar disso, ele apresentou uma proposta para
explicar a evolução do homem. Sugeriu que em determinado momento os
macacos antropóides desceram das árvores e passaram a andar eretos,
começaram a usar as mãos para segurar ou caçar e desenvolveram seus
cérebros.
Os antigos progenitores do homem eram sem dúvida, em tempos
passados, cobertos de pêlo, e ambos os sexos tinham barbas; as orelhas
deles eram pontudas e capazes de movimento; e os corpos eram
providos de uma cauda … nossos progenitores certamente eram
arbóreos em seus hábitos e freqüentavam algum lugar tépido, revestido
de vegetação. Os machos possuíam grandes dentes caninos que serviam
como armas temíveis.9
O livro é encerrado com um floreio. No final, após evocar o embate de
Huxley com o bispo de Oxford na Sociedade Britânica para o Progresso da
Ciência cerca de dez anos antes, declarava que preferia descender de um
valente macaquinho a vir de um selvagem que se deleitasse torturando os
inimigos.
Hoje os especialistas concordam que Descendência do homem ofereceu
uma explicação naturalista de ampla repercussão para os estudos da
evolução humana, mas não mudou muitas mentes. As pessoas que já
haviam aceitado a teoria evolucionista continuaram a acreditar nela. Poucos
leitores, contudo, desejavam reduzir o fosso entre o ser humano e os
animais de maneira tão drástica. Se as idéias de Darwin fossem aceitas,
escreveu a Edinburgh Review, a constituição da sociedade seria destruída.
Wallace foi generoso em relação ao livro e o elogiou em cartas e
críticas. A maioria dos críticos notou a evidente sinceridade de Darwin e a
profundidade de seu saber. Mesmo assim a obra deve ter provocado uma
sensação de déjà vu. Fazia dez ou 12 anos que a fronteira entre o homem e
o animal, a alma humana e a origem divina da moral humana eram os
principais temas de debate. Jovens pensadores racionalistas como Leslie
Stephen falaram por grande parte de sua geração ao perguntar: “Que
diferença pode fazer se eu descendo de um macaco ou de um anjo?”
Com Descendência do homem e A expressão das emoções no homem e
nos animais, publicado um ano depois, Darwin completou a explicação da
evolução que iniciara com A origem das espécies. Nenhum de seus escritos
posteriores teve efeito sequer parecido sobre o público, ainda que vários dos
textos que produziu no final da vida, como o que tratou de processos
mentais em bebês, tenham estimulado pesquisadores. O último livro de
Darwin, de 1881, tinha as minhocas como tema. Foi um dos mais
apreciados que publicou, cheio de observações de história natural feitas em
minhocas de seu próprio jardim, uma ocupação simbólica e pacífica que lhe proporcionou muito prazer em seus últimos anos. Perto do fim, reduziu os
esforços, preferia trabalhar com plantas e ficar com a família. Mais ou
menos a partir dos 70 anos, começou a escrever uma pequena autobiografia
que não pretendia publicar. Nela, rememorou sua vida com grande encanto
e modéstia. Mas que vida havia sido. Poucos homens alcançam tanto poder
intelectual ou têm suas idéias discutidas tão amplamente e com tal vigor.
Mesmo que não acreditassem descender de macacos, as pessoas falavam
sobre isso sem cessar.
Para os que acreditavam, Darwin tornou-se uma espécie de profeta, um
santo secular. A partir de meados da década de 1870 a vida dele se revestiu
de muitas das características da cultura da celebridade, de maneira similar
ao que aconteceu com Charles Dickens, com a cantora de ópera Jenny Lind
e outras figuras famosas do período vitoriano. Seu retrato era difundido em
revistas ilustradas, recebia pedidos de autógrafos, de exemplares gratuitos
de seus livros, de dinheiro e conselhos. A casa de Darwin era visitada por
turistas ávidos por ver de relance um homem que contribuíra de forma tão
notável para os debates do século XIX. Os anos de controvérsia geraram
fama extraordinária. Jovens cientistas pediam para ser apresentados a ele
apenas com o intuito de receberem uma espécie de bênção pessoal, para
almoçar com sua família ou entrar em seu gabinete, que nas mentes das
pessoas se transformou em um santuário, o lugar onde grandes pensamentos
haviam sido concebidos.
Amado pela família, apreciado e admirado pelos amigos, um guia
intelectual para muitos, ora respeitado, ora insultado, Darwin chegou ao fim
de sua vida sabendo que provocara uma extraordinária transformação no
pensamento científico. Sua identidade havia se misturado com a de seu
livro. “Se eu fosse um amigo meu, teria me detestado”, comentou
sarcasticamente com Huxley no auge da polêmica. “Desejaria poder sentir
que mereci tudo isso”.
c A discussão entre Owen e Huxley se deu em torno da presença ou não da estrutura cerebral chamada hippocampus minor no cérebro dos gorilas e de outros símios. (N.T.)
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