A origem das espécies de Darwin
3 | A Publicação
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A Publicação
Apesar da calma deliberada de Darwin, o livro nasceu realmente em meio a uma crise. A história já foi contada muitas vezes. Durante mais de dois anos ele compôs com cuidado um longo manuscrito, um grande livro que pretendia intitular Seleção natural . Poucos de seus
amigos sabiam o que estava fazendo, embora sua rede de correspondentes
desse a volta no planeta e alimentasse seu apetite insaciável por fatos.
Em uma manhã de junho de 1858, ao pegar um pacote fino e bem
embrulhado, perguntou a si mesmo quem poderia lhe escrever de Ternate,
nas Índias Orientais holandesas, entre Celebes e Nova Guiné. Esperava
alguma notícia sobre espécies exóticas. No entanto, em um curto ensaio
escrito a mão, o naturalista Alfred Russel Wallace expunha sua própria idéia
sobre a evolução por seleção natural. Nunca se saberá ao certo a data em
que o texto chegou às mãos de Darwin, mas, tarde da noite de 18 de junho,
ele escreveu a Lyell para exprimir seu desespero ao ver que, sem sombra de
dúvida, alguém lhe passara à frente. “Nunca vi coincidência mais
impressionante… Se Wallace tivesse meu rascunho escrito em 1842 não
poderia ter feito resumo melhor!”
Profundamente surpreso ao ver que outra pessoa desenvolvera a mesma
teoria, consultou seus dois melhores amigos, Lyell e Hooker, sobre o que
fazer. A convenção científica e a honra cavalheiresca indicavam que deveria
sair de campo e deixar que Wallace recebesse as honras. Contudo, pareceu a
Lyell e Hooker que Darwin não deveria perder o direito de ser reconhecido
como o criador da teoria. Tinham conhecimento do longo manuscrito em que estava trabalhando. Havia margem para manobra, insistiram. Assim,
propuseram-se a enviar o ensaio de Wallace para publicação junto com um
breve relato das descobertas de Darwin. Haveria um duplo anúncio, e a
prioridade seria partilhada. Ainda que não plenamente convencido, Darwin
concordou. “Não sei dizer se publicar agora seria indigno e mesquinho; essa
foi minha primeira impressão, certamente teria agido com base nela, não
fosse a sua carta”.1
Como sugerido, esse duplo anúncio ocorreu no dia 1o de julho de 1858
em uma reunião da Linnean Society de Londres, a principal instituição
científica no campo da história natural da Grã-Bretanha. De fato, Lyell e
Hooker eram influentes na administração da entidade e conseguiram inserir
às pressas a dupla comunicação no programa de uma reunião extra a ser
feita no fim da temporada, marcada em razão da morte de Robert Brown,
botânico e ex-presidente da sociedade.
Estranhamente, considerando-se o conteúdo, houve pouco alvoroço na
pequena audiência quando os artigos foram lidos em voz alta pelo
secretário. Alguns meses depois, porém, quando publicados na revista da
Linnean Society, várias pessoas reconheceram o impacto que
representavam. Nem Darwin nem Wallace estiveram presentes à reunião. O
décimo filho de Darwin, ainda um bebê, estava gravemente doente, com
escarlatina, e viria a falecer em 28 de junho de 1858, apenas dois dias antes
do anúncio. Darwin sentiu-se infeliz demais para comparecer.
Wallace estava a milhares de quilômetros de distância, no Extremo
Oriente. De fato, ele não sabia de nada sobre aquilo. Como os serviços
postais para o outro lado do globo levavam três ou quatro meses, ainda
estava para receber a carta dizendo que seu ensaio era idêntico à obra de
outro homem e estava sendo levado a público com ela. Quando soube,
confessou-se espantado. Cortês e conciliatório por natureza, escreveu a
Darwin e aos outros para dizer que considerava os arranjos para a
publicação inteiramente satisfatórios. Apesar de Darwin ser em geral
caracterizado pelos biógrafos como generoso e cavalheiresco nesse
incidente, a verdadeira generosidade esteve sem dúvida com Wallace, que,
sem o saber, foi o catalisador de toda a comoção. Mais tarde, os
historiadores muitas vezes se perguntaram se Wallace foi espoliado ou
mesmo explorado pelos arranjos feitos por Lyell e Hooker com a
concordância de Darwin.
O fato indisfarçável é que Wallace vinha da outra ponta da escala social
vitoriana. Autodidata e sem renda pessoal, ganhava a vida de maneira
inconstante colhendo espécimes de história natural para vender a museus e
colecionadores. Na primeira viagem de coleta que fez, com seu amigo
naturalista Henry Walter Bates, foi ao Brasil esquadrinhar a floresta pluvial
amazônica à procura de aves e insetos. Depois, em 1853, partiu de forma
independente para o arquipélago malaio, onde permaneceu oito anos
viajando mais de 22 mil quilômetros na região. Foi a possibilidade de
adquirir algumas aves malaias que o levou à rede de relações de Darwin, o
que fez com que se correspondessem ocasionalmente para trocar
informações sobre espécimes.
Em abril de 1856, quando Lyell chamou a atenção de Darwin para o
artigo de Wallace, Darwin escreveu a este para elogiá-lo e, de passagem,
mencionou o trabalho que desenvolvia sobre definições de espécies e
variedades, tópico de grande interesse prático para os naturalistas na época.
Talvez tenha sido essa polida demonstração de interesse que estimulou
Wallace a enviar para Darwin em 1858 o ensaio evolucionário que
produzira.
As circunstâncias pessoais e as aspirações de Wallace eram muito
diferentes das de Darwin. Apesar disso, liam muitos livros em comum,
encontravam vários problemas biológicos semelhantes durante as viagens
que faziam pelo estrangeiro e partilhavam em grande parte o mesmo
ambiente progressista vitoriano. Inspirado pelo mundo de desenvolvimento
progressivo e constante de Vestiges, Wallace adotou o conceito de
transmutação. Esperava encontrar em Sumatra ou Bornéu provas de que a
humanidade surgira outrora a partir dos grandes macacos da região.
Exímias habilidades como observador já o haviam levado a relacionar a
distribuição geográfica de borboletas na bacia do rio Amazonas com sua
variação, observação que serviu, assim como os tentilhões das Galápagos
para Darwin, a seu desenvolvimento intelectual. Estudou Lyell e viu, como
Darwin, que a mudança geológica gradual podia também indicar
transformações graduais nas espécies. Leu o relato de Darwin sobre a
viagem do Beagle. Leu Malthus e tomou dele a mesma noção de
sobrevivência diferencial.
Wallace teve até um “momento malthusiano” semelhante ao lampejo de
inspiração de Darwin. Um dia, enquanto descansava de um ataque de
“calafrios” causado pela malária, refletiu sobre a demografia humana das ilhas em torno de Papua-Nova Guiné e compreendeu subitamente que a
população papua estava sendo gradualmente exterminada por invasões de
malaios. Isso foi para Wallace o que fora para Darwin: tudo se encaixou.
Escreveu, com o mesmo vocabulário de Darwin, sobre uma “guerra” na
natureza, a competição entre indivíduos e o triunfo da forma mais bem-
sucedida.
Sozinho em seu gabinete, sempre concentrado na tarefa do momento,
Darwin permitira-se pensar que não corria risco algum de perder a
primazia, por isso não precisava se apressar, até que recebeu a carta de
Wallace. Entretanto, como Lyell insinuara, havia uma profusão de
proponentes de esquemas avançados de pensamento.
Grandes correntes de mudança se faziam perceber na Grã-Bretanha. O
pensamento crítico sobre a Bíblia difundia-se à medida que estudiosos
bíblicos da Europa investigavam textos sagrados como se fossem
unicamente documentos históricos. Nos protegidos pátios quadrangulares
das faculdades de Oxford, o reverendo Baden Powell minimizava
abertamente os milagres, enquanto John Henry Newman convertia-se ao
catolicismo e iniciava o movimento tractariano. A tradução feita por George
Eliot de A vida de Jesus (1846), de Strauss, apresentava o filho de Deus aos
leitores ingleses como um homem comum. Um por um, os pensadores
vitorianos reclamavam o direito de investigar o mundo à sua volta sem
recorrer aos poderes milagrosos de Deus, à palavra da Bíblia e tampouco à
autoridade doutrinal da Igreja. Alguns, como Tennyson ou Matthew Arnold,
começaram a duvidar seriamente do sistema religioso em que haviam sido
criados.
No mundo de elite da literatura e das letras britânicas, esse movimento
finalmente se manifestou no livro intitulado Essays and Reviews (1860), em
que sete eminentes teólogos contestavam interpretações tradicionais das
escrituras sagradas. Dúvidas ansiosas, inclinações seculares e insatisfação
com as doutrinas convencionais despertaram entre os intelectuais muito
antes que Darwin entrasse em cena.
Os homens e mulheres da influente revista liberal Westminster Review,
dirigida pelo carismático editor John Chapman e por Mary Ann Evans (a
romancista George Eliot), por exemplo, estavam fascinados pela idéia de
leis naturais inerentes e de avanço constante da sociedade humana. Seus
amigos, o historiador Henry Buckle (1821-62) e o filósofo Herbert Spencer
(1820-1903), exaltavam o desenvolvimento na sociedade e na natureza. Buckle examinou a história das nações para dizer a seus leitores que as
sociedades civilizadas sempre conquistariam as menos desenvolvidas. Do
barbarismo da Roma Antiga à democracia parlamentar vitoriana, os livros
de história de Buckle defendiam o aperfeiçoamento progressivo. Nos
escritos de Spencer, as mesmas idéias tomavam a forma de uma lei do
desenvolvimento que ele aplicava aos animais e às plantas tão facilmente
quanto à política, à economia, à tecnologia e aos seres humanos.
Em 1852, Spencer publicou “The development hypothesis”, artigo em
que sustentava uma teoria lamarckiana geral da transmutação animal,
seguido por um ensaio de estilo malthusiano sobre a “Teoria da população”,
publicado na Westminster Review, no qual escrevia que a pressão
populacional colocava os mais fracos contra a parede. Os antiteológicos
Princípios de psicologia (1855) foram apresentados pouco depois e, no fim
da mesma década, iniciou uma ambiciosa reavaliação da metafísica que
tomaria o resto de sua vida, e cuja primeira parte publicou em 1862.
Spencer acreditava que tanto o progresso biológico quanto o social
formavam um amplo continuum evolucionário – ambos conduzidos pelas
mesmas leis imutáveis e controlados pelas mesmas forças da natureza.
Darwin nunca levou a sério nenhum de seus escritos.
Spencer não era o único a pensar assim. George Henry Lewes, editor do
progressista Leader, colaborador regular da Westminster e eterno
companheiro de George Eliot, aprofundou-se em anatomia e fisiologia e
propôs que o pensamento humano era um mero subproduto da atividade
fisiológica do cérebro, não uma dádiva de Deus. Apoiado por William
Benjamin Carpenter, outro fisiologista, Lewes decididamente empurrou as
ações divinas para segundo plano. Harriet Martineau chocou os leitores
devotos ao declarar suas dúvidas religiosas. Charles Kingsley, autor e pastor
radical, levou seu romance social-realista Alton Locke ao clímax com o
pesadelo do herói sobre a metamorfose de uma água-viva em homem.
Esses ativos pensadores modernistas rejeitavam a teologia natural e o
sistema de explicação entrincheirado nas universidades antigas. Optavam
por algo mais flexível e pessoal, um deus que reinava em segundo plano,
sem aparecer ou precisar do palavreado desprovido de sentido da doutrina
eclesiástica.
Por volta de 1850, a transmutação parecia menos ameaçadora para os
pensadores progressistas. Recém-purificado pelo verniz da confiança
industrial e comercial de meados da era vitoriana, o ar perigoso e volátil das décadas de 1830 e 1840 se dissipou. A prosperidade e o progresso
apareciam como temas dominantes. Os liberais de classe média defendiam
por um lado o auto-aperfeiçoamento, a alfabetização e a educação; por
outro, conferências públicas e museus. Os médicos especulavam sobre a
possibilidade da geração espontânea dos menores seres celulares e
discutiam com interesse os experimentos de Louis Pasteur. Robert Grant,
velho conhecido de Darwin, mudou-se para Londres para lecionar zoologia
na University College London e, até ficar velho demais para continuar, dar
conferências sobre a escala evolucionária da natureza.
Um número considerável de intelectuais proeminentes abraçou, em
maior ou menor grau, doutrinas de autopromoção, progresso econômico e
avanço da civilização, sem necessariamente transpor a linha divisória entre
fé e descrença. Uma quantidade ignorada de figuras menos conhecidas,
como Alfred Russel Wallace, contemplava o mundo através de novos olhos
seculares. A expansão econômica e a evolução tecnológica reforçavam tais
idéias. O livro de Samuel Smiles, Self-Help – a bíblia da classe média
ascendente –, realçou a crença no aperfeiçoamento empresarial que se
alastrava em meados do século XIV por todas as áreas da existência.
A inesperada colisão de Darwin com Wallace teve efeito imediato. Ele
foi levado a escrever A origem das espécies. Imediatamente após a leitura
do duplo artigo na Linnean Society, Darwin viajou com a mulher e os filhos
para um curto período de férias, na busca de se recuperarem da morte do
bebê Charles. Depois, no espaço de 13 meses, produziu um livro compacto,
mas provido de densa argumentação.
Em essência, Darwin comprimiu drasticamente o manuscrito que já
havia escrito. Mais tarde, lamentou muito ter perdido tantos daqueles
sólidos indícios que se esforçara para colher, e sempre encarou A origem
das espécies como um “resumo” imposto. Por muitos anos continuou
planejando publicar o longo manuscrito original interrompido pela carta de
Wallace.
Darwin chamou essa obra mais curta de “uma longa argumentação”. E
que argumentação. Poucos textos científicos foram tão densamente urdidos,
ricos de informação factual e repletos de metáforas inventivas. Havia muito
a técnica literária de Darwin fora notada por sua semelhança com Great
Expectations ou Middlemarch, de George Eliot, na complexidade dos temas
entrelaçados e em sua capacidade de manipular tantos fios contínuos ao
mesmo tempo. Embora mal ousasse alimentar a esperança de iniciar uma transformação no pensamento científico, elevou-se magnificamente para a
ocasião.
Sua voz era fascinante, persuasiva, amigável, humilde e misteriosa. Sua
imaginação circulava muito além dos confins de sua casa e de seu jardim,
de suas doenças debilitantes e da saúde frágil dos filhos. Nos momentos de
maior determinação, questionava tudo em que seus contemporâneos
acreditavam sobre a natureza viva. Evocava um quadro das origens livre do
jardim do Éden e que prescindia da imagem de um relojoeiro celeste a
construir com paciência os seres vivos que ocupariam a Terra. Abandonou o
que John Herschel devotamente chamava “o mistério dos mistérios” e
substituiu a visão da adaptação perfeita de Paley pela imperfeição e o acaso.
Animais e plantas não deveriam ser vistos como o produto de um desígnio
ou de uma criação especial. “Estou plenamente convencido de que as
espécies não são imutáveis”, declarou nas páginas de abertura.
Mais que isso, o tema subjacente de Darwin era o gradualismo. Tudo
acontecia aos poucos, exatamente como Lyell afirmava. Tudo estava ligado
por uma única explicação. Tempo, acaso e reprodução governavam o
planeta. A luta também. Os que buscavam um manifesto radicalmente novo
para o mundo vivo com certeza o encontraram nas palavras de Darwin: dali
em diante, ninguém poderia encarar os seres orgânicos e seu ambiente
natural com os mesmos olhos de antes; tampouco poderia alguém deixar de
notar o modo como a biologia de Darwin espelhava a nação britânica em
todo seu espírito competitivo, empresarial, fabril; ou que seu apelo à lei
natural contribuiu de modo inequívoco para o impulso geral rumo à
secularização, reforçando as pretensões contemporâneas da ciência para
compreender o mundo em seus próprios termos.
Outro tipo de narrativa, muitas vezes mencionado por críticos, também
emergiu. Darwin escreveu como sempre escrevia, no mesmo estilo
simpático e autobiográfico que desenvolvera durante a viagem do Beagle.
Muito mais tarde, seu filho Francis Darwin disse que tal estilo era
característico do pai em “sua simplicidade, que beirava a ingenuidade, e em
sua ausência de pretensão…. Seu tom cortês e conciliatório com o leitor é
notável, e deve ter sido em parte essa qualidade que revelou sua doçura
pessoal de caráter a tantos que nunca o tinham visto”.2 Embora suas teorias
pudessem atemorizar, o estilo era agradável e cordial, criando um clima de
magia entre autor e leitor. Ele se mostrava no livro exatamente como na
vida: um respeitável cientista cortês, fidedigno e amigável, um homem que não falava de maneira leviana a respeito das importantes questões a que
dirigia sua atenção, um defensor do senso comum, honesto em relação a
seus dados e desdenhoso da “mera conjectura”.
Esse estilo humano de escrever era um de seus grandes dons, muito
atraente para leitores britânicos, que viam em Darwin todas as melhores
qualidades da antiga tradição literária e dos valores vitorianos
contemporâneos ao período. Foi-lhe muito útil durante os anos de
controvérsia que estavam por vir, desarmava a animosidade pessoal e
permitia que até os críticos mais acerbos pelo menos reconhecessem sua
sinceridade e a investigação meticulosa.
Como argumentação, A origem das espécies foi dividida em duas
metades desiguais. A primeira, mais curta, expunha os fatos visíveis da
natureza e conduzia à apresentação da teoria da seleção natural, no Capítulo
4. O resto do livro mostrava como a teoria podia explicar ou iluminar áreas
biológicas fundamentais, como embriologia, classificação, paleontologia e
distribuição geográfica. A conclusão exortava os leitores a considerar o
ponto de vista apresentado sem idéias preconcebidas.
De maneira inusitada para um livro científico, Darwin fornecia também,
em um capítulo intitulado “Dificuldades contra a teoria”, uma franca
explanação acerca dos muitos obstáculos que provavelmente ocorreriam aos
leitores. Ele admitia: “Alguns problemas são tão prementes que ainda hoje
não consigo refletir sobre eles sem me sentir um tanto desconcertado”,
escreveu, “… senti essa dificuldade de modo agudo demais para ficar
surpreso diante de qualquer grau de hesitação em expandir o princípio da
seleção natural até extensões tão surpreendentes”.3
A estrutura do livro foi concebida com cuidado. A seleção natural não é
evidente na natureza nem é o tipo de teoria em que se possa dizer “olhe aqui
e veja”. Darwin não tinha experimento crucial algum que evidenciasse, de
forma conclusiva, a evolução em andamento. Não havia equações
matemáticas para fundamentar as alegações. A comprovação definitiva só
viria um século depois. Todos os tópicos da Origem das espécies exigiam a
imaginação do leitor. Como Lyell em seus Principles of Geology, Darwin
precisava se basear em analogias entre o que era conhecido e o que não era.
Dependia de probabilidades. Usava palavras de convencimento, convidava
à reconsideração. Um caso após o outro era declarado “inteiramente
inexplicável com base na teoria de atos de criação independentes”.
A pura variabilidade dos organismos vinha em primeiro lugar. Cada
porco, vaca ou folha de trigo, descrevia ele, era de algum modo variável.
Não existiam dois animais ou plantas exatamente iguais. Fazendeiros e
horticultores faziam uso dessas sutis variações entre os indivíduos para
melhorar uma série de animais e plantas cultivadas. A maioria dos leitores
devia concordar. A vasta riqueza agrícola e hortícola da nação baseava-se
justamente nessas atividades, e inúmeros homens e mulheres comuns
possuíam experiência direta com os animais e as plantas domésticas que
Darwin descrevia: cães, groselheiras, gado vacum, flores de jardim. “Os
criadores habitualmente falam de uma organização do animal como algo
muito maleável, que podem modelar quase a seu gosto”, disse. E citou sir
John Sebright, que afirmou, com relação a pombos, que “produziria em três
anos qualquer pena que lhe fosse dada, mas precisaria de seis anos para
obter cabeça e bico”.4
O maior problema nesse caso, e futuros críticos insistiriam nele, era que
Darwin não tinha nenhum conhecimento da forma como as variações
surgiam. Ele escreveu A origem das espécies muito antes de a moderna
ciência da genética se desenvolver. O que podia fazer era demonstrar que as
variações ocorriam incontestavelmente em organismos domésticos. Assim,
as primeiras páginas do livro estavam repletas de exemplos tomados de
todos os ramos da história natural – um exagero factual que os críticos
notaram. A isso ele acrescentou uma descrição correspondente da
variabilidade em animais e plantas selvagens. Todas as anotações que fizera
sobre vísceras de cirrípedes, listras de jumentos e prímulas encontraram um
lugar. Caracterizou esse capítulo como “curto e seco”.5
O real problema vinha em seguida. As proles eram muito numerosas. O
mundo vivo fervilhava de competição mortal e extermínio, as mesmas
energias elementares – de dentes e garras ensangüentados – que Tennyson
caracterizou no livro In Memoriam.
Que luta incessante entre um inseto e outro, entre insetos em geral,
lesmas e outros animais como aves e predadores – todos se esforçando
para se multiplicar e se alimentando uns dos outros ou das árvores ou
das sementes e renovos delas, ou mesmo de plantas que primeiro
cobriam o solo e assim impediam o crescimento das árvores”,
escreveu Darwin.6 A harmonia promovida por Deus era uma ilusão. Sem ter
certeza de que acreditariam em sua teoria, Darwin apresentou mais um
dilúvio de exemplos. Recursos e lugares limitados na natureza e
fecundidade natural constante davam origem a uma batalha por
sobrevivência.
Foi nesse ponto que propôs a teoria da seleção natural. Retornando à
primeira e mais poderosa metáfora que havia explorado em seus cadernos
da transmutação da década de 1830, Darwin declarou que havia uma
importante analogia entre o que acontecia no terreiro de uma fazenda, em
um jardim ou no mundo natural. Assim como a humanidade podia moldar e
ajustar espécies domesticadas para satisfazer necessidades ou gostos
passageiros, também a natureza pode escolher os mais bem adaptados.
Aqueles “selecionados” para sobreviver seriam os pais da geração seguinte.
Pode-se dizer que a seleção natural examina dia a dia, hora a hora, no
mundo todo, cada variação, mesmo a mais sutil; rejeita o que é ruim,
preserva e acumula tudo que é bom; trabalha silenciosa e
imperceptivelmente, quando e onde a oportunidade se oferece, no
melhoramento de cada ser orgânico em relação às suas condições
orgânicas e inorgânicas de vida.7
Darwin reconheceu outro problema que essa linguagem antropomórfica
iria gerar. Ele muitas vezes personificou a seleção natural na Origem das
espécies. Embora isso talvez fosse inevitável no sentido geral,
freqüentemente passou a impressão de que a seleção natural era um agente
ativo. Para alguns, ela poderia até ser pensada como um deus, um jardineiro
divino no céu, por assim dizer, que escolhia as variantes que deveriam ter
sucesso. Anos depois, Darwin admitiu que essa não era a sua intenção e que
deveria ter usado uma expressão mais neutra, como “preservação natural”.
O mesmo embaraço ocorreu com o uso que fez da palavra “adaptação”,
que sugeria alguma forma de estratégia proposital dos animais e das
plantas, exatamente o contrário do que tinha em mente. Mais tarde, utilizou
uma artimanha como solução parcial. Darwin lutou de maneira incessante
com seu vocabulário. A linguagem que tinha a seu dispor era a de Milton e
Shakespeare, calcada na teologia e em propósitos, não a terminologia
objetiva e livre de valores procurada pela ciência.
Darwin não era sequer capaz de falar da “evolução” como tal, pois
naquela época o termo era usado sobretudo para descrever o desdobramento
de estruturas embriológicas ocultas; foi o debate em torno de sua obra que
conferiu à palavra seu sentido moderno. Na Origem das espécies, referiu-se
em geral à “descendência com modificações”. Da mesma forma, não usou
de início aquela que acabaria por se tornar a expressão mais famosa de
todas a respeito do tema: a “sobrevivência dos mais aptos”. Ela foi cunhada
alguns anos mais tarde, em 1864, por Herbert Spencer, depois de Wallace
sugerir que Darwin deveria substituir o termo “seleção natural”. Todas essas
ambigüidades verbais conduziriam os leitores para direções que Darwin não
tencionava. Não fica claro a partir dos manuscritos remanescentes até que
ponto ele chegou a se dar conta da plena extensão das dificuldades.
Logo atrás da seleção natural vinha mais uma nova noção: o “princípio
da divergência”. Esse conceito pode ser rapidamente caracterizado. Darwin
disse que a diversificação era sempre vantajosa para os seres vivos:
“Quanto mais diversificados se tornarem em estrutura, constituição e
hábitos, mais os descendentes de qualquer espécie serão capazes de
proliferar”.8 A competição pelos mesmos “lugares” na natureza (nichos)
forçava os animais a se especializarem, o que por sua vez estimulava a
multiplicação de lugares e a maior eficiência no uso de recursos.
Em uma frase inquietante, foi adiante e comparou animais e plantas a
cunhas de aço que se cravavam com força crescente na face dócil da
natureza. Nesse ponto assentou as raízes de algumas das mais cruéis
doutrinas econômicas e sociais que ganhariam forma a partir de seus
escritos. Darwin estilhaçou todas as imagens prévias de harmonia idílica.
Em seu mundo, a ânsia de vencer era brutal. Os indivíduos precisavam
matar para sobreviver.
Ao explicar a divergência em seu livro, Darwin introduziu também uma
das metáforas mais poderosas e duradouras de sua carreira. Caracterizou a
história dos seres vivos como uma árvore, descrevendo formas ancestrais
extintas como se fossem as raízes e o tronco, cada grupo principal de
organismos como os galhos, e toda a multidão de espécies existentes no
presente como as folhas e brotos verdes: uma árvore evolucionária em
suave expansão que ligava a natureza e a história em um todo único, vivo e
indivisível que atravessava as eras. “A grande árvore da vida”, declarou ele,
“que enche a crosta da Terra com seus galhos mortos e quebrados, e cobre a
superfície com suas ramificações crescentes e belas”.
Sua capacidade para visualizar a evolução da vida dessa maneira
tornou-se quase um sinônimo de compreensão da teoria que propunha. Ele
expressou sua idéia com um diagrama – o único do livro –, que classificou
de “algo com aparência estranha mas indispensável para mostrar a natureza
das afinidades muito complexas entre animais do passado e do presente”. A
figura mostrava como várias formas ancestrais podiam divergir ao longo do
tempo, algumas se extinguindo e outras contribuindo para a geração
seguinte – as duras linhas pontilhadas pouco sugeriam sobre as exuberantes
imagens de árvores que logo brotariam em profusão das penas dos
naturalistas. No nível mais profundo, mais satisfatoriamente simbólico,
Darwin substituiu as antigas imagens da árvore do conhecimento, a árvore
da vida, por algo similar. Sua árvore era tempo. Era história, conhecimento,
vida. Mas não era divina.
Tendo exposto o cerne de sua teoria, Darwin deixou o livro avançar e
expôs ampla variedade de tópicos biológicos. A embriologia tornou-se
inteligível: “A embriologia cresce enormemente em interesse quando
vemos o embrião como uma imagem, mais ou menos obscurecida, da forma
parental comum de cada grande classe de animais”. Darwin orgulhava-se
dessa parte de sua argumentação e procurou se certificar de que a
desenvolvera a contento. Pediu a seu então novo amigo Thomas Henry
Huxley (1825-95) que lesse o capítulo antes da publicação. “Os fatos em
favor da mutabilidade das espécies me parecem muito fortes”, disse a
Hooker ao discutir o mesmo capítulo.9
A paleontologia, a anatomia comparada e a taxonomia seriam também
transformadas, escreveu ele antecipadamente. As afinidades e
agrupamentos anatômicos procurados pelos taxonomistas não eram apenas
noções abstratas, disse, e tampouco a expressão de algum plano divino
traçado pelo Criador, segundo sugeriam naturalistas renomados como Louis
Agassiz ou Richard Owen. As semelhanças eram causadas, ao invés, por
genuínos parentescos de sangue. Órgãos vestigiais, como o apêndice nos
seres humanos, eram explicados como restos anatômicos rejeitados pela
história. Para Darwin, parecia improvável que um arquiteto divino criasse
deliberadamente tais características supérfluas e despropositadas.
De maneira semelhante, padrões e relações geográficas que as plantas e
os animais traçavam sobre o globo podiam ser explicados ao se admitir que
as espécies, em sua maior parte, se espalham e modificam. O naturalista
prático que existia em Darwin emergiu e falou com clareza – o estudioso dos cirrípedes, o amante dos pombos, o experimentador que analisava
plantas, o coletor do Beagle e o viajante finalmente se aproximaram de suas
metas. Grande parte do valor da teoria, afirmou, estava no modo como ela
explicava e unia aspectos tão diferentes do mundo natural.
De extrema importância aos olhos de muitos foi o capítulo sobre as
dificuldades. Incluí-lo foi um passo hábil. Nele, Darwin discutia muitos dos
problemas que viriam à mente do leitor, como a ausência de estágios
intermediários nos registros fósseis, os mecanismos desconhecidos que
poderiam permitir a herança de traços mentais como os instintos e a
dificuldade de conceber a emergência gradual de órgãos complexos como o
olho. O próprio Darwin se inquietara interminavelmente com as mesmas
questões. “Até hoje o olho me dá calafrios”, confessou a seu grande amigo,
o botânico norte-americano Asa Gray, em 1860.10
A falta de formas intermediárias nos registros fósseis, por exemplo, era
realmente um problema espinhoso, só explicável pelo que os filósofos
chamam de argumentação negativa. Ele afirmou que tais organismos seriam
tão raros e transitórios, e sua preservação geológica tão infreqüente e
acidental, que seria extremamente improvável encontrar espécimes. A
ausência deles, declarou, não podia, de maneira legítima, derrubar sua
teoria. De fato, estava correto em sua conjectura. Apesar da descoberta de
fósseis como o Archaeopteryx, réptil semelhante a uma ave, nos calcários
de Solnhofen, na Alemanha, hoje reconhecido como um intermediário
legítimo, a incidência de elos perdidos continua muito limitada.
Esse capítulo sobre as dificuldades foi bem recebido pelos críticos por
sua honestidade. Contudo, teve também importância estratégica. Darwin
optou por escrever apenas sobre as “dificuldades” que era capaz de explicar,
ainda que de maneira não conclusiva. As dificuldades eram de natureza
biológica. Esperava uma saraivada de contestações factuais e tratou de
fornecer as respostas de imediato.
Deliberadamente, omitiu as duas questões que intrigariam a todos.
Evitou qualquer discussão sobre o que a teoria evolucionária teria a dizer
sobre as origens humanas e se esquivou de qualquer debate acerca da
presença divina no mundo natural. Lembrava-se das discussões mais
ásperas sobre Vestiges. Sabia que, por mais que pudesse tratar as questões
evolucionárias séria e cuidadosamente, tudo que dissesse provocaria
furiosas controvérsias. Assim, nesse livro, silenciou por completo sobre o
tema das origens humanas, embora se referisse em muitas passagens à humanidade como um exemplo de detalhes biológicos específicos. Sem
desejar parecer demasiadamente revolucionário ou atacar as crenças
estimadas pelos fiéis, observou na conclusão que, se suas idéias fossem
aceitas, “será lançada luz sobre a origem do homem e sua história”.11
De maneira similar, evitou de propósito a questão da origem da vida.
Não tinha nenhuma história sistemática dos primórdios para propor, e
tampouco uma sopa primeva ou centelha criativa. No fim do livro, porém,
mencionou a probabilidade de que todos os organismos ancestrais tivessem
se originado a partir de uma só forma primordial. Darwin acreditava que
essas origens antigas estavam perdidas no tempo e eram irrecuperáveis.
Quando foi preciso, falou com cautela do Criador, ciente que, de outro
modo, o livro poderia ser rotulado de subversivo. Mas teve o cuidado de
não deixar para esse Criador nenhum papel ativo nos eventos biológicos
subseqüentes.
Na primeira edição da Origem das espécies, Darwin mencionou a
procedência dessa forma primordial única como se fosse um processo
inteiramente natural. Na segunda edição, usou uma terminologia mais
religiosa e incluiu o comentário anônimo, que na verdade lhe fora feito em
carta pelo reverendo Charles Kingsley, de que era possível conceber um
Criador que permitisse às espécies “desenvolverem-se por si mesmas”, e
que as primeiras formas orgânicas haviam adquirido vida pelo “sopro do
Criador”.12 Evidentemente, não desejava ser visto como ateu. Em um livro
cujo título afirmava tratar da origem das espécies, o texto de Darwin
recusou-se a propor qualquer teoria de origens absolutas.
Ao final, ele havia exposto uma das propostas mais densas e
impressionantes do século. Apesar de, na primeira edição, não comparar seu
trabalho diretamente com aqueles que o precederam, sua teoria era
extraordinária. Ele diferia de Lamarck, e de seu avô evolucionário, o dr.
Erasmus Darwin, por evitar qualquer doutrina de progressão necessária ou
de luta interior rumo à perfeição. Embora admitisse com cautela em seu
esquema algum efeito direto do ambiente sobre os organismos – a herança
de caracteres adquiridos, popularmente considerada a característica básica
do sistema de Lamarck –, a principal diferença entre eles era que Darwin
não admitia que os organismos tivessem qualquer meta futura, teleológica,
esforço interno ou ato de vontade que pudessem conduzir as mudanças
adaptativas em direções específicas. Em sua visão, os organismos mudavam de maneira aleatória. Um organismo bem adaptado podia ser bem simples.
Um inseto era tão maravilhosamente adaptado quanto um homem.
De maneira mais significativa, Darwin estava convencido de que diferia
de Robert Chambers, o anônimo sr. Vestiges, na solidez de suas
informações, na teoria rigorosamente organizada e bem desenvolvida da
mudança, e na decisão de limitar o escopo do livro a um problema restrito,
sem tratar das questões grandiosas da evolução do Universo, das primeiras
centelhas de vida ou do futuro da mente humana. Isso com certeza tornava
seu livro tedioso em comparação a Vestiges. Em compensação, dava-lhe
reputação superior nos círculos científicos. E ele discrepava de Chambers
de modo notável por assinar o texto. A origem das espécies foi lançado com
o nome de Darwin na folha de rosto, um autor já estabelecido como
especialista credenciado no campo e cuja reputação intelectual ficava
patenteada por seu título acadêmico de Cambridge e a condição de membro
de sociedades científicas. Os mesmos fatores também estabeleciam, até
certo ponto, uma diferença social e educacional entre ele e Wallace.
Não havia como não perceber a carga reflexiva presente em cada
palavra, as estratégias judiciosas, as metáforas marcantes e transformadoras,
os detalhes e a amplitude da visão. Embora mais tarde Darwin tenha se
queixado de que fora compelido a escrever A origem das espécies, de que o
livro não passava de um resumo, de que seus dados estavam truncados e
suas notas de rodapé e fontes haviam sido omitidas, foi inegavelmente a
obra-prima dele.
“Quando as idéias apresentadas neste volume sobre a origem das
espécies, ou quando noções análogas forem admitidas de maneira geral,
teremos motivos para acreditar que haverá uma revolução considerável na
história natural”, declarou Darwin com ardor nas páginas finais. “Tenho
confiança no futuro, nos naturalistas jovens e emergentes, que serão capazes
de ver ambos os lados da questão com imparcialidade”.
Quando não mais virmos um ser orgânico como um selvagem vê um
navio, como algo inteiramente acima de sua compreensão; quando
considerarmos cada produção da natureza como algo que teve uma
história; quando contemplarmos cada estrutura e instinto complexos
como a síntese de muitos recursos, todos úteis a seu possuidor, quase da
mesma maneira como vemos qualquer grande invenção mecânica como
resultado do trabalho, da experiência, da razão e até das tolices de
numerosos trabalhadores; quando virmos assim cada ser orgânico,
como se tornará mais interessante, e falo com base na experiência, o
estudo da história natural!13
Todas essas esperanças vinham em um crescendo. Um local em
particular atraente que ele visitara durante caminhadas com Emma pela
zona rural nos arredores de Down House ocupou-lhe a mente.
É interessante contemplar uma ribanceira emaranhada, forrada com
muitas plantas de vários tipos, com aves a cantar nos arbustos, diversos
insetos a esvoaçar por toda parte e minhocas a se arrastar através da
terra úmida, e refletir que essas formas tão intricadamente construídas,
tão diferentes entre si e dependentes umas das outras de modo tão
complexo, foram todas produzidas por leis que agem à nossa volta….
Há uma grandiosidade nessa visão de que a vida, com seus vários
poderes, foi originalmente soprada sobre um pequeno número de
formas ou sobre uma só; e de que, a partir de um começo deveras
simples, enquanto este planeta girava segundo a lei fixa da gravidade,
um sem-número de formas, as mais belas e as mais maravilhosas,
evolveram e ainda evolvem.14
Mal sabia ele quanto sua obra pareceria austera, trágica, perigosa e
supremamente bela a muitos leitores.
Mas quem publicaria livro semelhante? Hesitante, Darwin perguntou a
Lyell nos primeiros meses de 1859 se John Murray poderia se interessar, o
mesmo John Murray que publicava os livros de Lyell e que em 1845 lançara
a segunda edição do Diário de pesquisas dele próprio. Murray era ideal por
várias razões. Além de ter mantido relações práticas com Darwin a respeito
do Diário de pesquisas, interessava-se por ciência, em especial geologia e
química, e estava acostumado a iniciar movimentos editoriais perspicazes,
como a Home and Colonial Library, uma série de obras edificantes para a
classe média, e os famosos Handbooks, os primeiros guias de férias para os
vitorianos, alguns anos antes do aparecimento dos Baedekers.
Mais que isso, Murray rapidamente se tornava um dos mais importantes
editores científicos da era vitoriana. Suas portas em Albermale Street, no
centro da Londres literária, estavam abertas para autores de diferentes opiniões. Murray propôs um contrato e Darwin aceitou de bom grado,
iniciando uma relação que duraria pelo resto da vida.
A escrita constante, contudo, corroía a saúde de Darwin. “Meu Deus,
como desejaria, em benefício de meu estômago, abandonar isto – pelo
menos por um longo período”, lamentou-se. “Estou ficando fraco como
uma criança”, queixou-se a Hooker, “miseravelmente indisposto, com a
saúde arruinada”. O verão de 1859 transcorreu em meio ao tumulto de
leitura das provas do livro. Todas as dúvidas de Darwin sobre seu estilo
retornaram com força redobrada. “Parece haver uma espécie de fatalidade
em minha mente que me leva a expressar primeiro minha afirmação e
proposição de uma forma errada ou desajeitada”, refletiu depois.15
Emma Darwin ajudava sempre que podia. Leu A origem das espécies na
íntegra durante a fase das provas e tentou ajudar o marido a transmitir seus
pensamentos com precisão para os leitores. Não há indícios de que tenha
tentado censurar o texto. Ao contrário, os dois discutiam à noite sobre as
frases que consideravam canhestras e buscavam encontrar uma forma que
expressasse o que ele realmente queria dizer. E ela ainda caçoava dele por
não saber usar vírgulas. Lyell leu as provas enquanto viajava pela Europa
em suas férias de verão.
No último minuto, Darwin ajustou o título de acordo com a
recomendação de Murray. A primeira sugestão era claramente complicada
demais: “Resumo de um ensaio sobre a origem das espécies e variedades
por meio da seleção natural”. O senso comum sugeriu a Murray que as
palavras “resumo”, “ensaio” e “variedades” deveriam desaparecer, e
“seleção natural” era, a seu ver, uma expressão com a qual o público não
tinha familiaridade e precisava ser explicada. O título a que chegaram não
era muito menos confuso: Sobre a origem das espécies por meio da seleção
natural, ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida.
Ele estava absorto, escravizado, sobrecarregado, disse em carta a
William Darwin Fox. “Meu abominável volume … custou-me tanto
trabalho que quase o detesto”. Por vezes, desagradava-lhe ver a natureza do
modo como a teoria da seleção exigia. “Que livro um capelão do diabo
poderia escrever sobre os funcionamentos desajeitados, supérfluos,
confusos, abjetos e horrivelmente cruéis da natureza!”, exclamou uma vez
para Hooker.16 “Tenho estado tão aborrecido e exausto ultimamente”,
queixou-se em setembro de 1859. “Durante meses duvidei se não andara
jogando fora tempo e trabalho para nada”.
Depois, em 1o de outubro de 1859, registrou em seu diário: “Terminei as
provas”, e calculou que todo o processo tomara 13 meses e dez dias. Em 2
de outubro, deixou Down House exausto e adoentado e partiu para uma
estação de águas em Ilkley, ao pé das charnecas de Yorkshire. “Estou
esgotado e preciso de repouso…. Hidropatia e descanso talvez me
transformem num homem”.17
O livro foi publicado em Londres em 24 de novembro de 1859. Darwin
encontrava-se em Ilkley no dia da publicação e só retornou para casa duas
semanas depois.
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