A origem das espécies de Darwin

Janet Browne · Apêndice

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A origem das espécies de Darwin

Introdução

Sumário

 

Introdução

 

1 | O Começo

 

2 | “Uma Teoria com que Trabalhar”

 

3 | A Publicação

 

4 | Controvérsia

 

5 | Legado

 

Observação sobre Diferentes Edições

Notas

Referências Bibliográficas e Leituras Complementares

Agradecimentoss

Índice Remissivo

 

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Introdução

 

Aorigem das espécies, de Charles Darwin, é certamente um dos mais importantes livros científicos já escritos. No entanto, não se ajusta ao estereótipo comum do que entendemos hoje por ciência. Tem um estilo maravilhosamente pessoal, não possui gráficos ou fórmulas

matemáticas, nenhuma referência a figuras de jaleco branco num

laboratório, sua linguagem não é especializada. Os anos que antecederam à

publicação foram cheios de contratempos inesperados, encontros casuais,

intensa emoção e controvérsia. A edição foi toda vendida aos livreiros no

dia em que foi lançada, e as discussões que o livro desencadeou se

disseminaram rapidamente entre o público, criando o primeiro debate

científico internacional da história. Os leitores atacavam-no ou elogiavam-

no, esforçando-se para harmonizar suas arraigadas convicções religiosas

com as novas e perturbadoras idéias do autor.

Desde o início a obra foi reconhecida como notável contribuição à cena

intelectual, ampla no alcance, acurada e repleta de dados em apoio às

sugestões. Ao mesmo tempo era criticada de modo apaixonado por propor

que todos os organismos vivos haviam se originado em processos

inteiramente naturais. Macacos ou anjos, Darwin ou a Bíblia, estes foram

tópicos candentes para as pessoas que, na Inglaterra, viveram no período

vitoriano. Várias dessas questões continuam vivas até hoje. De fato, a

controversa acolhida de Origem das espécies nunca foi relegada ao mundo

por vezes esotérico e frio da ciência. Sua história, sob muitos aspectos, é a

história do mundo moderno.

Da nossa perspectiva atual, é claro, o papel de Darwin como um dos

responsáveis pelo nosso tempo nunca foi mais evidente. Seus trabalhos

puseram em xeque tudo o que se havia pensado antes sobre os seres vivos e tornaram-se um fator decisivo nas transformações intelectuais, sociais e

religiosas ocorridas no Ocidente durante o século XIX. Com o tempo,

Darwin se transformou em um dos mais famosos cientistas de sua época,

uma celebridade vitoriana cuja obra, mesmo durante sua vida, foi

considerada uma pedra fundamental do mundo moderno.

Somos descendentes de macacos? Devemos abandonar a história de

Adão e Eva e ver nossa existência neste mundo como algo sem sentido,

pouco mais que uma existência animal? Não se travava apenas de discutir a

verdade literal da Bíblia. Pouca gente, mesmo àquela época, acreditava no

jardim do Éden como um lugar de verdade. O fato era que Darwin parecia

expulsar por completo o divino do mundo ocidental, pondo em dúvida tudo

que até então se acreditava sobre a alma humana e nosso sentido de

moralidade. Se não deviam mais prestar contas a Deus, o Criador. Estavam

os seres humanos livres para fazer o que quisessem, sem qualquer restrição

moral? “Pode-se acreditar que um nabo se esforça para se tornar um

homem?”, indagou Samuel Wilberforce, bispo de Oxford, em 1860. O

público em geral supunha que Darwin havia assassinado a idéia de Deus, e

certa vez, de brincadeira, ele se intitulou “o capelão do diabo”.

Retrospectivamente, é comum rotular aqueles tempos conturbados

como a “revolução darwiniana”. Essas palavras em geral vêm

acompanhadas de uma advertência, pois hoje está claro que muitos dos

temas abordados por Darwin não eram novos para ele nem para seus

leitores. Mesmo assim, o rótulo conserva muito de seu significado na mente

do público. Como tantas vezes acontece, um homem e um livro passaram a

representar uma transformação enorme no pensamento. Desde a morte de

Darwin, porém, o impacto das idéias evolucionárias oscilou, aumentando e

diminuindo, por vezes, paradoxalmente, ao mesmo tempo.

Assim, no final do século XIX e início do XX, quando os imperativos

evolucionários da competição e do progresso se expressavam na esfera

social por meio da expansão imperial, da livre empresa e das doutrinas

eugênicas, e o termo “sobrevivência dos mais aptos” estava em todos os

lábios, parecia a muitos biólogos que o aspecto científico do darwinismo

era inteiramente incompatível com a genética, então em seus primórdios.

De novo de maneira paradoxal, nas décadas de 1930 e 1940, exatamente

quando vários biólogos de vanguarda esperavam produzir uma “nova

síntese evolucionária”, houve forte apoio a sistemas rivais baseados em

idéias ambientalistas da herança de características atávicas. Em 1925, o chamado “julgamento do macaco”, em Dayton, no Tennessee – em que o

político fundamentalista William Jennings Bryan moveu uma ação contra o

professor de ciência John Scopes, acusado de ensinar ilegalmente a teoria

da evolução, defendido pelo agnóstico Clarence Darrow –, foi um divisor

de águas nas relações entre ciência e religião. Durante algum tempo tornou-

se ilegal ensinar o pensamento darwinista nas escolas do Tennessee.

No início do século XX, as idéias de Darwin tiveram mais destaque que

nunca, embora as discussões continuassem acaloradas como sempre.

Transformada pela moderna compreensão da hereditariedade, e refinada de

mil maneiras diferentes à medida que o conhecimento avança, a noção de

seleção natural é a pedra angular da maior parte do pensamento biológico

em todo o planeta. Os paleontólogos reconstituem as extinções em massa e

as explosões transformadoras a partir dos registros fósseis; os estudos

moleculares lançam luz sobre as origens e a difusão dos primórdios da

humanidade; os genes são considerados a chave essencial para a

compreensão do comportamento humano e até do funcionamento da mente.

Essas idéias geram, é claro, um intenso debate. Levantam-se críticas à

sociobiologia e à tendência a reduzir tudo à ação de genes “egoístas”. Os

filósofos sugerem que a teoria da seleção natural é uma forma inválida de

conhecimento, não passível de prova demonstrável. As pessoas comuns

contemplam a competição comercial desenfreada e as políticas econômicas

exploradoras à sua volta e se perguntam se o altruísmo foi alguma vez um

traço humano básico. Os criacionistas modernos contestam os argumentos

usados em apoio à evolução e reivindicam espaço equivalente no currículo

escolar para a história cristã da criação. Em levantamento realizado pelo

New York Times em novembro de 2004, 55% dos entrevistados disseram

acreditar que Deus criou os seres humanos na sua forma atual.

Darwin reconheceria muitos desses desenvolvimentos. Não foi,

contudo, nenhum radical ateu empenhado em derrubar tudo que conhecia.

Era uma figura bastante respeitável, o tipo de homem que provavelmente

julgaríamos incapaz de publicar um texto de tão grande alcance. Nunca se

sentiu presa de idéias heréticas como o físico e astrônomo italiano Galileu

Galilei. Não se fizeram efígies suas de palha para serem queimadas pelos

aldeões ingleses, como o revolucionário político Thomas Paine. Não foi

acusado de sacrilégio pelos tribunais eclesiásticos, como o bispo Colenso.

Não houve distúrbios antidarwinistas. Ao contrário, Darwin foi enterrado na

abadia de Westminster, em Londres, em 1882, como um dos mais reverenciados cientistas da nação: “O maior inglês desde Newton”, disse o

Times.

De fato, algo notável na chamada revolução darwiniana é o modo como

aquele homem que ficou no centro da borrasca foi amplamente aplaudido

em termos pessoais. Isso talvez possa ser associado, em grande parte, à

ascensão da ciência como traço dominante da sociedade vitoriana. Também

pode se vincular à difusão de valores econômicos e políticos da classe

média da época. Apesar de toda a controvérsia, talvez devamos dizer algo

sobre a tendência de Darwin a se manter ao largo da rixa.

Ele detestava o bate-boca das divergências públicas, mesmo admitindo

que a ciência progride em geral graças ao debate e à discussão. Preferia

muito mais ser um homem do campo, trabalhando com indolência no seu

jardim em Kent. Gostava de escrever cartas, ver os amigos e realizar

pequenos experimentos de história natural na estufa ou no gabinete. Sob

alguns aspectos, poderia ter saído de um romance de Anthony Trollope: um

homem alto, sereno e agradável, com expressão modesta e confiável,

bastante envolvido com seu trabalho e sua família, e comprometido com a

idéia de verdade científica. Ocasionalmente, como muitos cavalheiros

vitorianos, era afligido por problemas estomacais e males misteriosos. Bom

pater familias vitoriano, cultivava uma barba comprida, mantinha os olhos

atentos em seus investimentos e amava a mulher e os filhos. De modo

surpreendente, contava vários vigários entre seus parentes e conhecidos

mais próximos. Gostava tanto de ser viajante, marido, pai, amigo e patrão

quanto de ser naturalista e pensador.

Acima de tudo, Darwin foi indiscutivelmente um autor. Quando idoso,

rememorando as discussões em que se envolvera, reconheceu com pesar o

modo como A origem das espécies havia dominado aquele tempo. “É sem

dúvida a principal obra de minha vida”, escreveu na Autobiografia. “Foi a

primeira a ser extremamente bem-sucedida”.

O livro de Darwin, com o título de Sobre a origem das espécies por

meio da seleção natural, ou a preservação de raças favorecidas na luta

pela vida, foi publicado em Londres pela editora de John Murray em 24 de

novembro de 1859. Era um volume de aspecto bastante comum,

encadernado em encorpado tecido verde, com 502 páginas e o preço, um

pouco salgado para o mercado de livros vitoriano, de 14 xelins – mais que o

salário semanal de um operário naquela época. Não continha nenhuma

ilustração atraente de história natural, nenhum porco ou vaca com pedigree decorava a capa, nem mesmo uma cena pré-histórica no frontispício, como

poderia haver hoje em um livro sobre evolução. O ar modesto convinha

perfeitamente ao autor. “Estou infinitamente satisfeito e orgulhoso com o

surgimento de meu filho”, disse Darwin a Murray quando o primeiro

exemplar chegou a Yorkshire, onde ele fazia hidroterapia. “Estou muito

contente por sua bondade de empreender a publicação do meu livro”.

Essas palavras tranqüilas ocultavam um sem-número de dramas

anteriores e muita agitação que ainda estava por vir.

 

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