A Sociedade do Espetáculo
Comentários sobre A Sociedade do Espetáculo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A falta de lógica, isto é, a perda da possibilidade de reconhecer instantaneamente o que é importante daquilo que é menor ou está fora de questão; o que é incompatível ou inversamente poderia bem ser complementar; tudo aquilo que implica tal consequência e o que, ao mesmo tempo, a proíbe; esta doença foi voluntariamente injetada em altas doses na população pelos anestesistas-reanimadores do espetáculo. Os contestatários não foram de nenhuma maneira mais irracionais do que a gente submissa. Só que, entre eles, esta irracionalidade geral vê-se mais intensamente, porque, ao apregoarem o seu projeto, tentaram levar a cabo uma operação prática; bastaria ler certos textos mostrando que eles compreendem o sentido. Entregaram-se a diversas obrigações que implicam dominar a lógica, e até a estratégia, que é exatamente o campo completo do desenvolvimento da lógica dialética dos conflitos; enquanto que, tal como todos os outros, eles estavam mesmo muito desprovidos da simples capacidade de se guiar pelos velhos instrumentos imperfeitos da lógica formal. Não há dúvidas a respeito deles, enquanto que não há muito para pensar a propósito dos outros.
O indivíduo a quem este pensamento espetacular empobrecido marcou profundamente, e mais que qualquer elemento da sua formação, coloca-se assim, desde o início, ao serviço da ordem estabelecida, ainda que a sua intenção subjetiva possa ser completamente contrária a esse resultado.
Ele seguirá no essencial a linguagem do espetáculo, porque é a única que lhe é familiar: aquela em que lhe ensinaram a falar. Sem dúvida quererá mostrar-se inimigo da sua retórica; mas empregará a sua sintaxe. Este é um dos pontes mais importantes do êxito obtido pela dominação espetacular.
O desaparecimento tão rápido do vocabulário pré-existente não é mais que um momento desta operação. Serve-a.
XII
O apagamento da personalidade acompanha fatalmente as condições da existência concretamente submetida às normas espetaculares, e também cada vez mais separada das possibilidades de conhecer experiências que sejam autênticas e, através delas, descobrir as suas preferências individuais. O indivíduo, paradoxalmente, deverá negar-se permanentemente se pretende ser um pouco considerado nesta sociedade. Esta existência postula com efeito uma fidelidade sempre variável, uma série de adesões constantemente enganosas a produtos falaciosos. Trata-se de correr rapidamente atrás da inflação dos sinais depreciados da vida. A droga ajuda a conformar-se com esta organização das coisas; a loucura ajuda a fugir dela.
Em todas as espécies de assuntos desta sociedade, onde a distribuição dos bens está de tal maneira centralizada que se tornou proprietária, de uma forma simultaneamente notória e secreta, da própria definição do que poderá ser o bem, acontece atribuir-se a certas pessoas qualidades, ou conhecimentos ou, por vezes, mesmo vícios, perfeitamente imaginários, para explicar através de tais causas o desenvolvimento satisfatório de certas empresas; e isto com o único fim de esconder, ou pelo menos dissimular tanto quanto possível, a função de diversos acordos que decidem sobre tudo.
Contudo, apesar das suas frequentes intenções, e dos seus pesados meios, para tornar notória a plena dimensão de numerosas personalidades supostamente notáveis, a sociedade atual, e não apenas por tudo aquilo que atualmente substituiu as artes ou pelos discursos a este respeito, revela muitas vezes o contrário: a incapacidade completa choca-se com uma outra capacidade comparável; aproximam- se, e uma encostará a outra à parede. Acontece com o advogado que, esquecendo que só figura num processo para defender uma causa, se deixa influenciar sinceramente por um raciocínio do advogado contrário; ainda que este possa ser tão pouco rigoroso como o seu próprio. Acontece também que um suspeito, inocente, confesse momentaneamente um crime que não cometeu, pela simples razão de ter ficado impressionado pela lógica da hipótese de um delator que queria culpabilizá-lo (caso do Dr. Archambeau, em Poitiers, em 1984).
Mesmo Mac Luhan, o primeiro apologista do espetáculo, que parecia o imbecil mais convencido do seu século, mudou de opinião ao descobrir finalmente, em 1976, que «a pressão dos mass media empurra para o irracional», e se tornaria urgente moderar-lhe o uso. Antes, o pensador de Toronto tinha passado várias décadas a maravilhar-se com as múltiplas liberdades que produzia esta «aldeia planetária», tão instantaneamente acessível a todos sem fadiga. As aldeias, contrariamente às cidades, foram sempre dominadas pelo conformismo, o isolamento, a vigilância mesquinha, o aborrecimento, os mexericos sempre repetidos sobre as mesmas famílias. E assim se apresenta daqui em diante a vulgaridade do planeta espetacular, onde já não é mais possível distinguir a dinastia dos Grimaldi-Mónaco, ou dos Bourbons-Franco, daquela que tinha substituído os Stuart. Porém, ingratos discípulos tentam hoje fazer esquecer Mac Luhan, e restaurar os seus primeiros achados, aspirando por sua vez a uma carreira no elogio midiático de todas essas novas liberdades que seriam a «escolher» aleatoriamente no efêmero. E, provavelmente, estes renegar-se-ão mais depressa que o seu inspirador.
XIII
O espetáculo não esconde que alguns perigos cercam a ordem maravilhosa que estabeleceu. A poluição dos oceanos e a destruição das florestas equatoriais ameaçam a renovação de oxigênio da Terra; a sua capa de ozone resiste mal ao progresso industrial; as radiações de origem nuclear acumulam-se irreversivelmente. O espetáculo conclui somente que isso não tem importância. Não quer discutir senão as datas e as doses. E somente com isto consegue tranquilizar; o que para um espirito pré-espetacular seria tido por impossível.
Os métodos da democracia espetacular são de uma grande flexibilidade, contrariamente à simples brutalidade do diktat totalitário. Pode manter-se o nome quando a coisa foi secretamente transformada (da cerveja ao bife, passando por um filósofo). Também pode mudar-se o nome, quando a coisa foi secretamente continuada: por exemplo, em lnglaterra, a unidade de tratamento de resíduos nucleares de Windscale levou a fazer chamar Sellafield a sua localidade, a fim de melhor desviar as suspeitas, depois de um desastroso incêndio em 1957; mas este rebatismo toponímico não impediu o aumento da mortalidade por cancro e leucemia nos seus arredores. O governo britânico, viemos a sabê-lo democraticamente trinta anos mais tarde, tinha decidido, então, manter secreto um relatório sobre a catástrofe que julgava, e não sem razão, de natureza a abalar a confiança que o público depositava no nuclear.
As práticas nucleares, militares ou civis, necessitam uma dose de segredo mais forte que quaisquer outras, ainda que, como se sabe, nestas matérias o segredo nunca é demais. Para facilitar a vida, quer dizer, as mentiras, os sábios escolhidos pelos senhores deste sistema descobriram a utilidade de mudar também as unidades de medida, diversificá-las segundo um maior número de pontos de vista, refiná-las para, conforme as circunstâncias, poder aldrabar com várias dessas cifras dificilmente convertíveis. É assim que para avaliar a radioatividade, pode dispor-se das unidades de medida seguintes: o curie, o becquerel, a rontgen, o rad, aliás centigray, o rem, sem esquecer o fácil milirad e o sivert, que é o mesmo que uma porção de 100 rems. Isto evoca a recordação das subdivisões da moeda inglesa cuja complexidade dificultava o rápido domínio para os estrangeiros, no tempo em que Sellafield ainda se chamava Windscale.
Imagina-se o rigor e a precisão que teriam podido alcançar no século XIX, a história das guerras e, por consequência, os teóricos da estratégia se - com o objetivo de não fornecer informações demasiado confidenciais aos comentadores neutros ou aos historiadores inimigos tivessem habitualmente de ser prestadas contas de uma campanha nestes termos: «A fase preliminar comporta uma série de confrontos onde, do nosso lado, uma sólida vanguarda, constituída por quatro generais e pelas unidades colocadas sob o seu comando, se confronta com um corpo inimigo contando 13.000 baionetas. Na fase posterior desenrola-se uma batalha campal longamente disputada onde se usou a totalidade do nosso exército, com os seus 290 canhões e a sua poderosa cavalaria de 18.000 sabres; enquanto que o adversário lhe opôs tropas que não contavam com menos de 3.600 tenentes de infantaria, quarenta capitães de cavalaria ligeira e vinte e quatro de cavalaria pesada. Depois de alternâncias de reveses e de êxitos de parte a parte, a batalha pode ser considerada finalmente coma indecisa. As nossas perdas, muito abaixo da cifra média habitualmente verificada em combates com uma duração e intensidade comparáveis, são sensivelmente superiores às dos Gregos em Maratona, mas inferiores às dos Prussianos em Yena.» Depois deste exemplo, não é impossível a um especialista fazer uma ideia vaga das forças envolvidas. Mas a condução das operações tem a segurança de ficar acima de qualquer julgamento.
Em Junho de 1987, Pierre Bacher, diretor adjunto do equipamento da E.D.F. (Eletricidade de França), Expôs a última doutrina em matéria de segurança das centrais nucleares. Dotando-as de válvulas e filtros torna-se bastante mais fácil evitar catástrofes maiores, a fissuração ou a explosão do recinto que afetariam o conjunto de uma «região». É este o resultado que se obtém ao querer confinar demasiado. Mais vale descomprimir suavemente de cada vez que a máquina ameaça ter tensões de passar os limites, contaminando uma vizinhança limitada de alguns quilômetros, vizinhança que será sempre diferente e aleatoriamente prolongada pelo capricho dos ventos. Ele revelou que, nos dois anos anteriores, os discretos ensaios levados a cabo em Cadarache, no Drôme, «mostraram concretamente que as fugas - essencialmente de gás não excedem alguns milionésimos, no pior dos casos um por cento, da radioatividade reinante no recinto» Este pior dos casas fica portanto moderadíssimo: um por cento. Antes estávamos seguros de que não havia nenhum risco, salve em caso de acidente, logicamente impossível. Os primeiros anos de experiência mudaram este raciocínio desta maneira: visto que o acidente é sempre possível, o que é preciso evitar é que atinja um limiar catastrófico, e é fácil: basta contaminar, pouco a pouco, com moderação. Quem não reconhece que é infinitamente mais saudável limitar-se durante alguns anos a beber 140 centilitros de vodka por dia, em vez de começar a emborrachar-se de uma só vez como os polacos?
É certamente uma pena que a sociedade humana enfrente problemas tão abrasadores no momento em que se tornou materialmente impossível fazer ouvir a mínima objeção ao discurso mercantil; no momento em que a dominação, precisamente porque está protegida pelo espetáculo de toda a réplica às suas decisões e justificações fragmentárias ou delirantes, crê que já não tem necessidade de pensar; e verdadeiramente já não sabe pensar. Por inabalável que seja o democrata, não preferiria que Ihe tivessem escolhido senhores mais inteligentes?
Na conferência internacional de expertos realizada em Genebra, em Dezembro de 1986, colocava-se simplesmente a questão duma interdição mundial da produção de clorofluorcarbonetos, o gás que faz desaparecer desde há pouco, mas a passos largos, a fina camada de ozônio que protegia este planeta - havemos de recordá-lo...- contra as efeitos nocivos da radiação cósmica. Daniel Verilhe, representante da filial de produtos químicos da ELF - Aquitaine, e integrando a este título uma delegação francesa firmemente oposta a esta interdição, fazia uma observação plena de sentido: «são necessários pelo menos três anos para pôr em estado de funcionamento eventuais substitutos e os custos podem ser multiplicados por quatro.» Sabe-se que esta fugitiva capa de ozônio, a uma tal altitude, não pertence a ninguém nem tem nenhum valor comercial. Portanto, o estrategista industrial pôde fazer avaliar aos seus contraditores toda a sua inexplicável indiferença econômica, através deste chamamento à realidade: «É muito arriscado basear uma estratégia industrial segundo imperativas de matéria ambiental.»
Aqueles que, há muito tempo, começaram a criticar a economia política definindo-a como «a negação acabada do homem», não se enganavam. Poder-se-á reconhecê-la neste episódio.
XIV
Ouve-se dizer que a ciência está atualmente submetida a imperativos de rentabilidade econômica; na verdade sempre foi assim. O que é novo é que a economia venha a fazer abertamente guerra aos humanos; já não somente quanto às possibilidades da sua vida, como também às da sua sobrevivência. Foi então que o pensamento cientifico escolheu, contra uma grande parte do seu próprio passado antiescravagista, servir a dominação espetacular. Antes de chegar a este ponto, a ciência possuía uma autonomia relativa. Então sabia pensar a sua parcela da realidade e, assim, tinha podido contribuir imensamente para aumentar os meios da economia. Quando a economia todo-poderosa enlouqueceu, e os tempos espetaculares não são mais do que isto, suprimiu os últimos vestígios da autonomia cientifica, tanto no campo metodológico como no das condições práticas da atividade dos «investigadores». Já não se pede à ciência que compreenda o mundo ou o melhore nalguma coisa. Pede-se lhe que justifique instantaneamente tudo o que faz. Tão estúpida neste terreno como em todos os outros, que explora com a mais ruidosa irreflexão, a dominação espetacular promoveu o abate da árvore gigantesca do conhecimento cientifico com o único fim de dela talhar uma matraca. Para obedecer a essa última exigência social de uma justificação manifestamente impossível, mais vale não saber pensar incomodamente e, pelo contrário, estar-se bastante bem exercitado nas comodidades do discurso espetacular. E é com efeito nesta carreira que a ciência prostituída destes tempos miseráveis encontrou agilmente, com muita boa vontade, a sua mais recente especialização.
A ciência da justificação mentirosa apareceu naturalmente depois dos primeiros sintomas de decadência da sociedade burguesa, com a proliferação cancerosa das pseudo-ciências ditas «do homem»; mas, por exemplo, a medicina moderna pôde fazer-se passar por útil durante algum tempo, e os que venceram a varíola ou a lepra eram diferentes destes que, com baixeza, capitularam perante as radiações nucleares ou a química agro-alimentar. Nota-se rapidamente que a medicina, hoje, indubitavelmente, já não tem o direito de defender a saúde da população contra o ambiente patogênico, visto que isto seria opor-se ao Estado, ou pelo menos à indústria farmacêutica. Mas não é somente por aquilo que é obrigada a calar, que a atividade cientifica presente confessa aquilo em que se tornou. É também por aquilo que, muitas vezes, tem a simplicidade de dizer. Anunciando em Novembro de 1985, depois de uma experimentação de oito dias com quatro doentes, que talvez tivessem descoberto um remédio eficaz contra o AIDS, os professores Even e Andrieu, do hospital de Laennec, viam morrer os seus doentes dois dias depois e suscitavam algumas reservas por parte de vários médicos, menos avançados ou talvez ciumentos, pela sua maneira precipitada de correr a registar, algumas horas antes da derrocada, o que não era mais que uma enganadora aparência de vitória. Aqueles professores defenderam- se sem se perturbar, afirmando que «apesar de tudo, mais valem falsas esperanças do que não haver esperança nenhuma». Eram mesmo demasiado ignorantes para reconhecer que este argumento, por si só, era uma completa negação do espirito cientifico e que tinha historicamente sempre servido para encobrir as proveitosas fantasias dos charlatães e dos feiticeiros, nos tempos em que não se lhes confiava a direção dos hospitais.
Quando a ciência oficial vem sendo conduzida deste modo, como todo o resto do espetáculo social que, sob uma apresentação materialmente modernizada e enriquecida, não fez mais que retomar as antiquíssimas técnicas do teatro de feira -ilusionistas, vendedores da banha da cobra e vigaristas -, não pode surpreender ver que grande autoridade retomam paralelamente, um pouco por todo o lado, os bruxos e as seitas, o zen embalado em vácuo, ou a teologia dos Mormons. A ignorância, que bem serviu os poderes estabelecidos, foi sempre excessivamente explorada por engenhosas empresas que se mantinham à margem das leis. Que momento mais favorável que este em que o analfabetismo tanto progrediu? Mas esta realidade é por sua vez negada por uma outra demonstração de feitiçaria. A UNESCO, quando da sua fundação, tinha adotado uma definição cientifica muito precisa de analfabetismo, considerando tarefa sua combatê-lo nos países atrasados. Quando se viu reaparecer inesperadamente o mesmo fato, mas desta vez do lado dos países ditos avançados, tal como aquele que, contando com Grouchy, viu surgir Blucher na sua batalha, bastou-lhe encarregar da missão a Guarda dos Expertos, e estes rapidamente arrebataram a fórmula com um só assalto irresistível, substituindo o termo analfabetismo pelo de iletrismo: do mesmo modo um «falso patriota» pode aparecer oportunamente para apoiar uma boa causa nacional. E para alicerçar entre pedagogos a pertinência do neologismo faz-se rapidamente passar uma nova definição, como se estivesse aceito desde sempre, e segundo a qual, enquanto o analfabeto era, sabe-se, aquele que nunca tinha aprendido a ler, o iletrado em sentido moderno é, pelo contrário, aquele que aprendeu a ler (e aprendeu melhor que antes, como podem testemunhar desapaixonadamente os mais dotados teóricos e historiadores oficiais da pedagogia), mas que por acaso rapidamente esqueceu. Esta surpreendente explicação correria o risco de ser menos tranquilizadora que inquietante, se não tivesse a arte de evitar, falando de lado como se a não visse, a primeira consequência que ocorreria ao espirito de todos nas épocas mais cientificas: saber que este último fenômeno, o iletrismo, mereceria ser explicado e combatido, já que jamais pudera ser observado, nem mesmo imaginado, onde quer que fosse, antes dos recentes progressos do pensamento avariado; quando a decadência da explicação acompanha passo a passo a decadência da prática.
XV
Há mais de cem anos, o Nouveau Dictionaire des Synonymes français de A.-L. Sardou definia os matizes pouco sensíveis que é necessário discernir entre: falacioso, enganador, impostor, sedutor, insidioso, capcioso; e que em conjunto constituem hoje uma espécie de paleta de cores adequadas para um retrato da sociedade do espetáculo. Não pertence ao seu tempo, nem à sua experiência de especialista, expor tão claramente os sentidos vizinhos, mas tão diferentes, dos perigos que deve normalmente esperar-se enfrentar em todo o grupo que se entregue à subversão, e seguindo, por exemplo, esta gradação: enganado, provocado, infiltrado, manipulado, usurpado, arrependido. Estes matizes consideráveis, ainda assim, nunca foram evidentes aos doutrinários da «luta armada».
«Falacioso, do latim fallaciosus, hábil ou habituado a enganar, cheio de velhacaria: a terminação deste adjetivo (fallacieux, no original francês) equivale ao superlativo de enganador. Aquele que engana ou induz em erro seja de que maneira for, é enganador: o que é feito para enganar, abusar, lançar no erro por um desígnio consciente de enganar com o artifício e o instrumento impondo o mais apropriado para abusar, é falacioso. Enganador é uma palavra genérica e vaga; todos os sinais e aparências incertas são enganadores: falacioso designa a falsidade, a velhacaria, a impostura estudada; os discursos, os protestos, os raciocínios sofísticos são falaciosos. Esta palavra tem relações com as de impostor, de sedutor, de insidioso, de capcioso, mas sem lhes equivaler. Impostor designa todo o gênero de falsas aparências ou de tramas concertadas para abusar ou para prejudicar, por exemplo, a hipocrisia, a calúnia, etc. Sedutor exprime a ação própria de apoderar-se de alguém, induzindo em erro por meios manhosos e insinuantes. Insidioso indica apenas a ação de armar manhosamente ciladas e de nelas fazer cair. Capcioso limita-se à ação subtil de surpreender alguém e de fazê-lo cair no erro. Falacioso reúne a maior parte destes caracteres.
XVI
O conceito, ainda novo, de desinformação foi recentemente importado da Rússia, justamente com outras invenções úteis à gestão dos Estados modernos. Este conceito é sempre abertamente utilizado por um poder, ou corolariamente por indivíduos que detêm um fragmento de autoridade econômica ou política, para manter o que está estabelecido; e atribuindo sempre a esta utilização uma função contraofensiva. Aquilo que possa opor-se a uma única verdade oficial deve ser forçosamente uma desinformação emanando de potências hostis, ou pelo menos rivais, e terá sido intencionalmente falseada pela malevolência. A desinformação não seria a simples negação de um fato que convém às autoridades, ou a simples afirmação de um fato que não lhes convém: a isto chama-se psicose. Contrariamente à pura mentira, a desinformação, e é nisto que o conceito é interessante para os defensores da sociedade dominante, deve fatalmente conter uma certa parte de verdade, mas deliberadamente manipulada per um hábil inimigo. O poder que fala de desinformação não acredita estar ele mesmo absolutamente sem defeitos, mas sabe que poderá atribuir a toda a crítica precisa esta excessiva insignificância que está na natureza da desinformação; e que deste modo não terá de reconhecer nunca um defeito particular.
Em suma, a desinformação seria um mau uso da verdade. Quem a lança é culpado, e quem nela acredita imbecil. Mas quem seria então o hábil inimigo? Aqui, não pode ser o terrorismo, que não corre o risco de «desinformar» ninguém, já que está encarregado de representar ontologicamente o erro mais estúpido e menos admissível. Graças a sua etimologia, e às recordações contemporâneas dos afrontamentos limitados que, por meados deste século, opuseram brevemente o Leste e o Oeste, espetacular concentrado e espetacular difuso, ainda hoje o capitalismo do espetacular integrado finge acreditar que o capitalismo de burocracia totalitária - apresentado mesmo por vezes como a base de retaguarda ou a inspiração dos terroristas - continua o seu inimigo essencial, assim como o outro dirá a mesma coisa do primeiro; apesar das provas inumeráveis da sua aliança e solidariedade profundas. De fato, todos os poderes instalados apesar de algumas reais rivalidades locais, e sem querer dizê-lo nunca, pensam continuamente aquilo que soube recordar um dia, do lado da subversão e sem grande sucesso no momento, um dos raros internacionalistas alemães depois do início da guerra de 1914: «O inimigo principal está dentro do nosso pais». A desinformação é finalmente o equivalente daquilo que representava, no discurso da guerra social do século XIX, «as más paixões». É tudo aquilo que é obscuro e arriscaria querer opor-se à extraordinária felicidade com que esta sociedade, sabemo-lo bem, faz beneficiar aqueles que se têm fiado nela; felicidade que ignoraria ser excessivamente paga por diferentes riscos ou dissabores insignificantes. E todos aqueles que veem essa felicidade no espetáculo admitem que não há que regatear o seu custo; enquanto que os outros desinformam.
Outra vantagem que se encontra ao denunciar, digamos assim, uma desinformação muito particular, é que em consequência o discurso global do espetáculo não será suspeito de a conter, já que pode designar, com a mais cientifica segurança, o terreno onde se reconhece a única desinformação: é tudo aquilo que pode dizer-se e que não lhe agrada.
Sem dúvida por erro - a menos que este não fosse mais do que um logro deliberado - foi ventilado recentemente em França o projeto de atribuir oficialmente uma espécie de marca ao midiático «garantido sem desinformação»: isto melindrava alguns profissionais dos media, que queriam ainda acreditar, ou mais modestamente fazer crer, que não são efetivamente censurados no momento presente. Mas, sobretudo, o conceito de desinformação não tem evidentemente de ser utilizado defensivamente, e ainda menos numa defensiva estática, guarnecendo uma Muralha da China, uma Linha Maginot, que deveria cobrir absolutamente um espaço considerado como estando interdito à desinformação. É necessário que haja desinformação, e que ela se mantenha fluida, podendo passar per todo o lado. Lá onde o discurso espetacular não é atacado seria estúpido defendê-lo; e este conceito, contra a evidência, usar-se-ia rapidamente para o defender a respeito de assuntos que, pelo contrário, devem evitar chamar as atenções. Além disso, as autoridades não têm nenhuma necessidade real de garantir que uma informação precisa não conterá desinformação. Nem têm sequer os meios para fazê-lo: as autoridades não são tão respeitadas e não fariam mais que atrair a suspeita sobre a informação em causa. O conceito de desinformação só é bom no contra-ataque. Há que mantê-lo em segunda linha, depois lançá-lo instantaneamente para a frente para repelir toda a verdade que venha a surgir.
Se por vezes uma espécie de desinformação desordenada, ao serviço de alguns interesses particulares passageiramente em conflito, arrisca aparecer e ser ela também credível, tornando-se incontrolável e opondo-se por isso ao trabalho de conjunto de uma desinformação menos irresponsável, isto não é porque haja motivos para temer que, naquela desinformação, se encontrem empenhados outros manipuladores mais expertos ou mais subtis: é simplesmente porque a desinformação desdobra-se agora num mundo onde já não há lugar para nenhuma verificação.
O conceito confusionista de desinformação foi posto em alerta para refutar instantaneamente, ao simples sussurro do seu nome, toda a crítica que as diversas agências de organização do silêncio não foram capazes de fazer desaparecer. Por exemplo, poder-se-ia dizer um dia, se isso se revelasse desejável, que este escrito é um empreendimento de desinformação sobre o espetáculo; ou então, o que é a mesma coisa, de desinformação em detrimento da democracia.
Contrariamente aquilo que afirma o seu conceito espetacular invertido, a prática da desinformação só, pode servir o Estado aqui e agora, sob a sua condução direta ou por iniciativa daqueles que defendem os mesmos valores. De fato, a desinformação reside em toda a informação existente; e como seu caráter principal. Só é nomeada à onde é preciso manter, pela intimidação, a passividade. Lá onde a desinformação é nomeada não existe. Lá onde existe, não se a nomeia.
Quando ainda havia ideologias que se afrontavam, que se proclamavam por ou contra certo aspecto conhecido da realidade, havia fanáticos e mentirosos, mas não «desinformadores». Quando já não é permitido, pelo respeito do consenso espetacular ou ao menos por uma vontade de gloriosa espetacular, dizer verdadeiramente aquilo a que alguém se opõe, ou também aquilo que alguém aprova em todas as suas consequências; mas onde alguém encontra muitas vezes a obrigação de dissimular um aspecto que se considera, por qualquer razão, como perigoso dentro daquilo que é suposto admitir-se, neste caso pratica-se a desinformação; como por irreflexão, ou como por esquecimento, ou como por pretendido falso raciocínio. E, por exemplo, no terreno da contestação depois de 1968, os recuperadores incapazes denominados então de «prositus» foram os primeiros desinformadores, porque dissimulavam tanto quanto possível as manifestações práticas através das quais se afirmou a crítica que se gabavam de adotar; e, sem qualquer vergonha de enfraquecer lhe a expressão não citavam nunca nada em ninguém, para ter o ar de terem eles próprios encontrado qualquer coisa.
XVII
Invertendo uma fórmula famosa de Hegel, já em 1967 notava eu que «num mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso». Os anos passados desde então demonstraram os progressos deste princípio em cada domínio particular, sem exceção.
Assim, numa época em que não pode mais existir arte contemporânea, torna-se difícil julgar as artes clássicas. Aqui, como em tudo o resto, a ignorância só é produzida para ser explorada. Ao mesmo tempo que se perdem simultaneamente o sentido da história e o gosto, organizam-se as redes da falsificação. Basta ter os expertos e os avaliadores, o que é bastante fácil, para fazer passar tudo, já que nos negócios desta natureza, como finalmente em todos os outros, é a venda que autentifica todo o valor. Depois, são os colecionadores ou os museus, particularmente americanos, que, abarrotados de falso, terão interesse em manter a boa reputação, do mesmo modo que o Fundo Monetário Internacional mantém a ficção do valor positivo das imensas dívidas de cem nações.
O falso forma o gosto, e sustenta o falso, fazendo cientemente desaparecer a possibilidade de referência com o autêntico. Refaz-se mesmo o verdadeiro, desde que seja possível, para fazê-lo assemelhar-se ao falso. Os americanos, sendo os mais ricos e os mais modernos, têm sido os maiores papalvos deste comércio do falso na arte. E são precisamente eles próprios quem financia os trabalhos de restauro de Versalhes ou da Capela Sistina. Por esta razão os frescos de Miguelangelo deverão tomar as cores avivadas da banda desenhada, e os móveis autênticos de Versalhes o vivo brilho do dourado que os fará assemelhar-se muito ao falso mobiliário da época de Luís XIV importado pelo Texas a altos custos.
O julgamento de Feuerbach sobre o fato de que o seu tempo preferia «a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade», foi inteiramente confirmado pelo século do espetáculo, e isto nos diversos domínios em que o século XIX quisera ficar à margem daquilo que era já a sua natureza profunda: a produção industrial capitalista. Foi assim que a burguesia propagou bastante o espírito rigoroso do museu, do objeto original, da crítica histórica exata, do documento autêntico. Mas hoje é por todo o lado que o copiado tem tendência a substituir o verdadeiro. Neste ponto, é muito oportunamente que a poluição devida à circulação dos automóveis obriga a substituir por réplicas em plástico os cavalos de Marly ou as estátuas romanas da fachada de Saint-Trophine. Em suma, tudo será mais belo que antes, para ser fotografado pelos turistas.
O ponto culminante é sem dúvida atingido pelo risível falso burocrático chinês das grandes estátuas do vasto exército industrial do Primeiro Imperador, que tantos homens de Estado em viagem foram, convidados a admirar in situ. Isto prova portanto que nenhuma dispunha, no conjunto dos seus conselheiros, de um só indivíduo que conhecesse a história da arte na China ou fora dela, visto que puderam gozar com eles tão cruelmente. Sabe-se que a sua instrução foi outra: «O computador de Vossa Excelência não foi informado». Esta constatação, de que pela primeira vez se pode governar sem ter nenhum conhecimento artístico nem nenhum sentido do autêntico ou do impossível, poderia por si só bastar para conjeturar que todos estes ingênuos patetas da economia e da administração vão provavelmente conduzir o mundo para uma grande catástrofe; se a sua prática efetiva não o tivesse já demonstrado.
XVIII
A nossa sociedade é construída no segredo, desde as «sociedades-ecrãs» que põem às escuras os bens concentrados dos possuidores, até ao «segredo-defesa» que cobre hoje um imenso domínio de plena liberdade extrajudicial do Estado; desde os segredos, muitas vezes assustadores, da fabricação-pobre, que se escondem atrás da publicidade, até às projeções das variantes do futuro extrapolado, sobre as quais só a dominação lê a marcha mais provável daquilo que ela afirma não ter nenhum tipo de existência, calculando as respostas que então empregará misteriosamente. A este propósito podem fazer-se algumas observações.
Cada vez há um maior número de lugares, tanto nas grandes cidades como nalguns espaços reservados da província, que são inacessíveis, isto é, guardados e protegidos de todo e qualquer olhar; colocados fora do alcance da curiosidade inocente, e fortemente abrigados da espionagem. Sem serem todos propriamente militares, inspiram-se nesse modelo colocando-se para lá do alcance de qualquer risco de verificação pelos transeuntes ou pelos habitantes; ou mesmo pela polícia, que viu desde há muito tempo as suas funções reconduzidas à simples vigilância e repressão da delinquência mais comum. Foi assim que, em Itália, quando Aldo Moro estava prisioneiro do Potere Due, não esteve detido num edifício mais ou menos difícil de encontrar, mas simplesmente num edifício impenetrável.
Cada vez há um maior número de homens formados para agir no segredo; instruídos e adestrados para só fazer isso. Trata-se de destacamentos especiais de homens armados de arquivos reservados, isto é, de observações e análises secretas. Outros estão armados de diversas técnicas para exploração e manipulação desses assuntos secretos. Finalmente, quando se trata dos seus ramos «Ação», eles podem igualmente estar equipados de outras capacidades de simplificação dos problemas estudados.
Enquanto que os meios atribuídos a estes homens especializados na vigilância e na influência se tornam maiores, também encontram as circunstâncias gerais que lhe são de ano para ano mais favoráveis. Quando, por exemplo, as novas condições da sociedade do espetacular integrado forçaram a sua crítica a permanecer realmente clandestina, não porque se esconda mas porque é escondida pela pesada encenação do pensamento da diversão, aqueles que estão encarregados de vigiar esta crítica e na necessidade de a desmentir, podem finalmente empregar contra ela os recursos tradicionais no meio da clandestinidade: provocação, infiltração e diversas formas de eliminação da crítica autêntica em proveito de uma falsa que poderá ser colocada no seu lugar para esse efeito. A incerteza aumenta, a propósito de tudo, quando a impostura geral do espetáculo se enriquece com a possibilidade de recurso a mil imposturas particulares. Um crime inexplicado pode também ser chamado suicídio, na prisão como em qualquer outro lugar; e a dissolução da lógica permite investigações e processos que descolam verticalmente no absurdo, e que são frequentemente falsificados desde o princípio por extravagantes autópsias, executadas por singulares expertos.
Desde há muito tempo que estamos habituados a ver por todo o lado executar sumariamente todo o tipo de gente. Os terroristas conhecidos, ou considerados como tais, são combatidos abertamente duma maneira terrorista. A Mossad vai matar longe Abou Jihad, ou os S.A.S. ingleses os Irlandeses, ou a polícia paralela do «G.A.L.» os Bascos. Aqueles que são mortos por supostos terroristas, não são eles mesmos escolhidos sem razão; mas é geralmente impossível estar seguro de conhecer estas razões. Sabe-se que a estação dos caminhos de ferro de Bolonha foi pelos ares, à bomba, para que a Itália continue a ser bem governada; e o que são os «Esquadrões da morte» no Brasil; e que a Máfia pode incendiar um hotel nos Estados Unidos para apoiar uma extorsão. Mas como saber para que puderam servir, no fundo, os «assassinos loucos de Brabante»? É difícil aplicar o princípio cui prodest? num mundo onde tantos interesses ativos estão tão bem escondidos. De tal modo que, sob o espetacular integrado, vive-se e morre-se no ponto de confluência de um grande número de mistérios.
Os rumores midiático-policiais adquirem num instante, ou no pior dos casos depois de terem sido repetidos três ou quatro vezes, o peso indiscutível de provas históricas seculares. Segundo a autoridade lendária do espetáculo do dia, estranhos personagens eliminados no silêncio reaparecem como sobreviventes fictícios, cujo retorno poderá sempre ser evocado ou calculado, e provado pela mais simples diz-se dos especialistas. Algures entre Aqueronte e Letes estão estes mortos que não foram regularmente enterrados pelo espetáculo; é suposto estarem adormecidos, esperando que se queira acordá-los, todos, o terrorista descido de novo das colinas, e o pirata regressado do mar, e o ladrão que já não tem necessidade de roubar.
A incerteza está, assim, organizada por toda a parte. A proteção da dominação precede muitas vezes por falsos ataques, cujo tratamento midiático fará perder de vista a verdadeira operação: tal como o bizarro golpe de forca de Tejero e dos seus guardas civis nas Cortes espanholas em 1981, cujo fracasso deveria esconder um outro pronunciamento mais moderno, isto é, dissimulado, e que foi bem sucedido. Igualmente vistoso, o fracasso de uma sabotagem pelos serviços especiais franceses, em 1985, na Nova Zelândia, foi por vezes considerado como um estratagema, talvez destinado a desviar a atenção das numerosas novas funções destes serviços, pretendendo convencer da sua caricatural imperícia na escolha dos objetivos como nas modalidades de execução. E com mais segurança foi avaliado, quase por todo o lado, que as pesquisas geológicas de um jazigo petrolífero no subsolo da cidade de Paris, que foram ruidosamente levadas a cabo no Outono de 1986, não tinham outra intenção mais séria que a de medir o ponto que tinha podido alcançar a capacidade de embrutecimento e de submissão dos habitantes, mostrando-lhes uma pretendida pesquisa tão perfeitamente demencial no plano econômico.
O poder tornou-se tão misterioso que, depois do assunto das vendas ilegais de armas ao Irão pela Presidência dos Estados Unidos, pode perguntar-se quem governa verdadeiramente nos Estados Unidos, a mais forte potência do mundo dito democrático? E, portanto, que diabo pode comandar o mundo democrático?
Mais profundamente, neste mundo oficialmente tão cheio de respeito por todas as necessidades econômicas, ninguém sabe quanto custa verdadeiramente qualquer das coisas que se produzem: com efeito, a parte mais importante do custo real nunca é calculada; e o resto é mantido secreto.
XIX
O general Noriega tornou-se num instante conhecido mundialmente no princípio do ano de 1988. Era ditador sem título do Panamá, país sem exército, onde comandava a Guarda Nacional. Pois o Panamá não é verdadeiramente um Estado soberano: foi escavado pelo seu canal e não o contrário. O dólar é a sua moeda, e o verdadeiro exército ali estacionado é igualmente estrangeiro. Noriega tinha feito toda a sua carreira, nisto perfeitamente idêntica à de Jaruzelski na Polônia, como general- polícia ao serviço do ocupante. Era importador de droga para os Estados Unidos, pois o Panamá não produz o suficiente, e exportava para a Suíça os seus capitais «panamenhos». Tinha trabalhado com a C.I.A. contra Cuba e, para ter a cobertura adequada às suas atividades econômicas, tinha também denunciado às autoridades americanas, tão obcecadas por este problema, um certo número dos seus rivais na importação. O seu principal conselheiro em matéria de segurança, que provocava inveja em Washington, era o melhor do mercado, Michael Harari, antigo oficial da Mossad, o serviço secreto de Israel. Quando os americanos quiseram desfazer-se do personagem, porque alguns dos seus tribunais o tinham imprudentemente condenado, Noriega declarou-se disposto a defender-se durante mil anos, por patriotismo panamiano, simultaneamente contra o seu povo em revolta e contra o estrangeiro, e rapidamente recebeu a aprovação pública dos ditadores burocráticos mais austeros de Cuba e da Nicarágua, em nome do anti-imperialismo.
Longe de ser uma estranheza estritamente panamiana, este general Noriega, que vende tudo e simula tudo num mundo que por todo o lado faz o mesmo, era, ao mesmo tempo, como espécie de homem duma espécie de Estado, como espécie de general, como capitalista, perfeitamente representativo do espetacular integrado; e dos êxitos que este permite nas direções mais variadas da sua política interior e internacional. É um modelo do príncipe do nosso tempo; e entre aqueles que se destinam a chegar e a ficar no poder, em qualquer sítio onde este possa estar, os mais capazes assemelham-se lhe bastante. Não é o Panamá que produz tais maravilhas, é esta época.
XX
Para todo o serviço de informações, neste ponto em concordância com a justa teoria clausewitziana da guerra, um saber deve tornar-se um poder. Daqui este serviço obtém presentemente o seu prestígio, a sua espécie de poesia especial. Quando a inteligência foi tão absolutamente expulsa do espetáculo que não permite agir e nem diz grande coisa de verdade sobre a ação dos outros, quase parece ter-se refugiado entre aqueles que analisam as realidades e agem secretamente sobre as realidades. Recentemente, revelações que Margaret Thatcher tudo fez para abafar, mas em vão, autentificando-se deste modo, mostraram que em Inglaterra estes serviços tinham já sido capazes de levar à queda dum ministério cuja política consideravam perigosa. O desprezo geral que suscita o espetáculo restitui, assim, por novas razões, uma atração para aquilo que pôde ser chamado, no tempo de Kipling, «o grande jogo».
A «concepção policial da história» era no século XIX uma explicação reacionária, e ridícula, quando tantos e tão poderosos movimentos sociais agitavam as massas. Os pseudo-contestatários de hoje sabem-no bem, por ouvir dizer ou através de alguns livros, e julgam que esta conclusão permaneceu verdadeira para a eternidade. Eles nunca querem ver a prática real do seu tempo. Porque ela é triste demais para as suas frias esperanças. O Estado não o ignora e joga com isso.
No momento em que quase todos os aspectos da vida política internacional, e um número sempre crescente daqueles que contam na política interna, são conduzidos e mostrados no estilo dos serviços secretos, com enganos, desinformação, dupla explicação - aquela que pode esconder uma outra, ou apenas parecê-lo -, o espetáculo limita-se a dar a conhecer o mundo fatigante do incompreensível obrigatório, uma aborrecida série de romances policiais privados de vida e onde sempre falta a conclusão. É então que a encenação realista de um combate de negros, de noite, num túnel, deve passar por um efeito dramático suficiente.