A Sociedade do Espetáculo
Comentários sobre A Sociedade do Espetáculo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A imbecilidade crê que tudo é claro, quando a televisão mostrou uma bela imagem e a comentou com uma audaciosa mentira. A semi-elite contenta-se em saber que quase tudo é obscuro, ambivalente, «montado» em função de códigos desconhecidos. Uma elite mais fechada quereria saber o verdadeiro, muito difícil de distinguir claramente em cada caso particular, apesar de todos os dados reservados e das confidências de que pode dispor. É por isto que ela amaria conhecer o método da verdade, ainda que no seu seio este amor continue a ser geralmente infeliz.
XXI
O segredo domina este mundo, e em primeiro lugar como segredo da dominação. Segundo o espetáculo o segredo não seria mais que uma necessária exceção à regra da informação abundantemente oferecida por toda a superfície da sociedade, do mesmo modo que a dominação, neste «mundo livre» do espetacular integrado, se reduziria a não ser mais que um Departamento executivo ao serviço da democracia. Mas ninguém acredita verdadeiramente no espetáculo. Como aceitariam os espectadores a existência do segredo, que garante, por si só, que não podem gerir um mundo do qual ignoram as principais realidades, se a título extraordinário se Ihes pedisse verdadeiramente a sua opinião sobre a maneira de preceder? É um fato que o segredo não aparece a quase ninguém na sua pureza inacessível, e na sua generalidade funcional. Todos admitem que haja uma pequena zona de segredo reservada aos especialistas; e para a generalidade das coisas, muitos acreditam estar no segredo.
La Boétie demonstrou, no Discurso sobre a servidão voluntária, como o poder de um tirano deve encontrar numerosos apoios entre os círculos concêntricos dos indivíduos que nele encontram, ou creem encontrar, o seu proveito. Da mesma maneira muitos, entre os políticos ou midiáticos que estão convencidos de que não se pode suspeitar deles como sendo irresponsáveis, conhecem muitas coisas pelas relações e pelas confidências. Aquele que se contenta com estar dentro da confidência, não é muito impelido a criticá-la; nem portanto a reparar que, em todas as confidências, a parte principal da realidade ser-lhe-á sempre escondida. Pela benevolente proteção dos trapaceiros, conhece umas poucas cartas mais, mas que podem ser falsas; e nunca o método que dirige e explica o jogo. Identifica-se, assim, em seguida com os manipuladores e despreza a ignorância que no fundo partilha. Pois as migalhas da informação oferecidas a estes familiares da tirania mentirosa estão normalmente infectadas de mentira, incontroláveis, manipuladas: Contudo, satisfazem aqueles que a elas acedem, porque se sentem superiores a todos os que não sabem nada. De resto, não valem senão para melhor fazer aceitar a dominação, e nunca para a compreender efetivamente. Elas constituem o privilégio dos espectadores de primeira classe: aqueles que têm a palermice de acreditar que podem compreender algo, não servindo- se daquilo que se lhes esconde, mas acreditando naquilo que se lhes revela !
A dominação é lúcida pelo menos naquilo que espera da sua própria gestão, livre e sem entraves, um número bastante grande de catástrofes de primeira grandeza para muito em breve; e isto tanto nos campos ecológicos, químico, por exemplo, como nos domínios econômicos, bancário, por exemplo. Desde há algum tempo, a dominação colocou-se em situação de tratar estas desgraças excepcionais de forma diferente do habitual manejo da doce desinformação.
XXII
Quanto aos assassinatos, em número crescente desde há mais de duas décadas, que ficaram inteiramente por explicar, - pois, se foi por vezes sacrificado algum comparsa, jamais esteve em questão chegar aos comandatários -, o seu caráter de produção em série tem marca própria: as mentiras evidentes, e variáveis, das declarações oficiais; Kennedy, Aldo Moro, Olof Palme, ministros ou financeiros, um ou dois papas, e outros que valiam mais do que eles. Este síndroma de uma doença social recentemente adquirida espalhou-se rapidamente um pouco por toda a parte, como se a partir dos primeiros casos observados, ele descesse dos píncaros dos Estados, esfera tradicional deste gênero de atentados, e como se, ao mesmo tempo, ele subisse do bas-fond, outro lugar tradicional de tráficos ilegais e proteções entre profissionais, onde sempre se desenrolou este gênero de guerra. Estas práticas tendem a encontrar-se no meio de todos os negócios da sociedade, como se de fato o Estado não desdenhasse misturar-se nelas, e a Máfia conseguisse elevar-se até ele, operando-se, assim, uma espécie de junção.
Ouviu-se já dizer de tudo para tentar explicar acidentalmente este novo gênero de mistérios: incompetência das polícias, palermice dos juízes de instrução, inoportunas revelações da imprensa, crise de crescimento dos serviços secretos, má vontade das testemunhas, greve categórica dos delatores. Todavia, Edgar Poe tinha já encontrado a direção certa da verdade, no seu célebre raciocínio no Duplo assassinato na rua Morgue
«Parece-me que o mistério é considerado como irresolúvel, pela mesma razão que deveria fazer vê-lo como fácil de resolver - refiro-me ao caráter excessivo sob o qual se manifesta... Em investigações do gênero desta que nos ocupa, não é tão necessário saber-se como se passaram as coisas, mas antes estudar em que é que elas se distinguem de tudo aquilo que aconteceu até ao presente.»
XXIII
Em Janeiro de 1988, a Máfia colombiana da droga publicava um comunicado destinado a retificar a opinião pública sobre a sua pretendida existência. A maior exigência duma Máfia, onde quer que possa estar constituída, é naturalmente estabelecer que não existe, ou que foi vítima de calúnias pouco científicas; esta é a primeira semelhança com o capitalismo. Mas na circunstância, esta Máfia irritada por ser a única posta em evidência chegou a evocar os outros agrupamentos que queriam fazer-se esquecer, tornando-a abusivamente por bode expiatório. Declarava: «Nós não pertencemos à Máfia burocrática e política, nem à dos banqueiros e financeiros, nem à dos milionários, nem à Máfia dos grandes contratos fraudulentos, à dos monopólios ou à do petróleo, nem à dos grandes meios de comunicação.»
Pode seguramente considerar-se que os autores desta declaração, como os outros, têm interesse em verter as suas práticas no vasto rio de águas turvas da criminalidade e das ilegalidades banais, que inunda em toda a sua extensão a sociedade atual; mas também é justo reconhecer que se trata de pessoas que, por profissão, sabem melhor que ninguém do que falam. A Máfia desenvolve-se por todo o lado e ainda melhor no terreno da sociedade moderna. Está em crescimento tão rápido como os outros produtos do trabalho pelo qual a sociedade do espetacular integrado talha o seu mundo. A Máfia cresce com os imensos progressos dos computadores e da alimentação industrial, da completa reconstrução urbana e dos bairros-da-lata, dos serviços especiais e do analfabetismo.
XXIV
A Máfia não era mais que um arcaísmo transplantado, quando no princípio do século começou a manifestar-se nos Estados Unidos, com a imigração de trabalhadores sicilianos; na mesma altura em que apareciam na costa oeste as guerras de gangs entre as sociedades secretas chinesas. Fundada no obscurantismo e na miséria, a Máfia não podia implantar-se na mesma altura na Itália do Norte. Parecia condenada a desaparecer por todo o lado perante o Estado moderno. Era uma forma de crime organizado que não podia prosperar senão na «proteção» de minorias atrasadas, fora do mundo urbano, lá onde não podia penetrar o controlo duma polícia racional e das leis da burguesia. A tática defensiva da Máfia nunca podia ser outra que não fosse a supressão das testemunhas, para neutralizar a polícia e a justiça, e fazer reinar na sua esfera de atividade o segredo que lhe é necessário. Em seguida encontrou um campo novo no novo obscurantismo da sociedade do espetacular difuso, depois integrado: com a vitória total do segredo, a demissão geral dos cidadãos, a perda completa da lógica, os progressos da corrupção e da covardia universais, todas as condições favoráveis foram reunidas para que ela chegasse a ser uma potência moderna e ofensiva.
A Proibição americana - grande exemplo das pretensões dos Estados deste século no controlo autoritário de tudo, e dos resultados que daqui decorrem - deixou ao crime organizado, durante mais de uma década, a gestão do comércio do álcool. A partir daí, a Máfia, enriquecida e exercitada, ligou-se à política eleitoral, aos negócios, ao desenvolvimento do mercado de assassinos profissionais, a certos detalhes da política internacional. Deste modo a Máfia foi favorecida pelo governo de Washington durante a Segunda Guerra Mundial, para ajudar à invasão da Sicília. O álcool legalizado foi substituído pelos estupefacientes, que se constituíram então como mercadoria-vedete dos consumos ilegais. Depois a Máfia adquiriu uma importância considerável no ramo imobiliário, nos bancos, na alta política e nos altos negócios de Estado, por fim nas indústrias do espetáculo: televisão, cinema, edição. É também já uma realidade, pelo menos nos Estados Unidos, na própria indústria discográfica, corno em todos os ramos em que a publicidade de um produto depende de um número bastante concentrado de indivíduos. Pode-se, pois, facilmente fazer pressão sobre eles, comprando-os ou intimidando-os, já que se dispõe evidentemente de capitais suficientes, ou de homens de mão que não podem ser reconhecidos nem punidos. Corrompendo os disc-jokeys, decide-se, assim, daquilo que deverá ser o êxito, entre mercadorias tão igualmente miseráveis.
Foi sem dúvida em Itália que a Máfia, no regresso das suas experiências e conquistas americanas alcançou a maior força: depois da época do seu compromisso histórico com o governo paralelo, encontrou-se em situação de mandar matar juízes de instrução ou chefes da polícia; prática que ela tinha podido inaugurar durante a sua participação nas montagens do «terrorismo» político. Em condições relativamente independentes, a evolução similar do equivalente japonês da Máfia prova bem a unidade da época.
É enganador querer explicar qualquer coisa opondo a Máfia ao Estado: nunca estão em rivalidade. A teoria verifica com facilidade aquilo que todos os rumores da vida prática tinham muito facilmente demonstrado. A Máfia não é estranha neste mundo; ela está nele como em sua casa. No momento do espetacular integrado, a Máfia reina de fato como o modelo de todas as empresas comerciais avançadas.
XXV
Com as novas condições que predominam atualmente na sociedade esmagada pelo tacão de ferro do espetáculo, sabe-se que, por exemplo, um assassinato político é visto a uma outra luz; de algum modo velada. Há em toda a parte muitos mais loucos que outrora, mas o que é infinitamente mais cômodo é que pode falar-se disso loucamente. E não é um terror reinante qualquer quem imporia tais explicações midiáticas. Pelo contrário, é a existência passiva de tais explicações que deve causar terror.
Quando em 1914, estando eminente a guerra, Villain assassinou Jaurés, ninguém duvidou que Villain, indivíduo sem dúvida bem pouco equilibrado, acreditou dever matar Jaurés porque este aparecia, aos olhos dos extremistas da direita patriótica que tinham influenciado profundamente Villain, como alguém que seria certamente nocivo para a defesa do país. Estes extremistas apenas tinham subestimado a imensa força do consenso patriótico no partido socialista, que devia impeli-lo instantaneamente à «união sagrada»; que Jaurés fosse assassinado ou, pelo contrário, se lhe deixasse a ocasião de manter firme a sua posição internacionalista ao recusar a guerra. Hoje, em presença de um tal acontecimento, os jornalistas-policiais, expertos notórios em «fatos de sociedade» e em «terrorismo», diriam imediatamente que Villain era sobejamente conhecido por ter várias vezes esboçado tentativas de homicídio, impulso visando em todas elas homens, que podiam professar opiniões políticas muito diversas, mas que tinham por acaso uma parecença, física ou de vestuário, com Jaurés. Psiquiatras atestá-lo-iam e os media, afirmando nem mais nem menos o que aqueles lhes tinham dito, atestariam com este mesmo fato a sua competência e imparcialidade de expertos incomparavelmente autorizados. Depois, a investigação policial oficial poderia estabelecer, a partir do dia seguinte, que se acabavam de descobrir diversos homens honrados prontos a testemunhar o fato deste mesmo Villain, considerando-se um dia mal servido na «Chope du Croissant», ter, na presença deles, exuberantemente ameaçado vingar-se proximamente do dono do café abatendo à vista de toda a gente, naquele mesmo lugar, um dos seus melhores clientes.
Isto não quer dizer que, no passado, a verdade se impunha muitas vezes e sem demora; já que Villain foi finalmente absolvido pela Justiça francesa. Não foi fuzilado senão em 1936, quando rebentou a revolução espanhola, pois tinha cometido a imprudência de residir nas ilhas Baleares.
XXVI
E porque as novas condições dum manejo proveitoso dos assuntos económicos o exigem imperativamente, no momento em que o Estado detém uma parte hegemónica na orientação da produção e onde a procura para todas as mercadorias depende estreitamente da centralização realizada na informação-incitação espetacular, à qual deverão também adaptar-se as formas de distribuição, que por todo o lado se vê constituírem-se redes de influência ou sociedades secretas. Não é mais que um produto natural do movimento de concentração de capitais, da produção, da distribuição. Nesta matéria, aquilo que não se estende deve desaparecer; e nenhuma empresa pode estender-se sem os valores, as técnicas, os meios, daquilo que são hoje a indústria, o espetáculo, o Estado. Em última análise é o desenvolvimento particular escolhido pela economia da nossa época, que vem impor por toda a parte a formação de novos laços pessoais de dependência e de proteção.
É justamente neste ponto que reside a profunda verdade desta fórmula, tão bem compreendida em toda a Itália, usada pela Máfia siciliana: «Quem tem dinheiro e amigos ri-se da Justiça». No espetacular integrado, as leis dormem; porque não foram feitas para as novas técnicas de produção, e porque elas são torneadas na distribuição por acordos de um tipo novo. O que pensa ou prefere o público não tem importância. Eis o que é escondido pelo espetáculo de tantas sondagens de opinião, de eleições, de restruturações modernizantes. Quem quer que sejam os vencedores, o menos bom será arrebatado pela amável clientela: já que terá sido exatamente isso que foi produzido para ela.
Só se fala continuamente de «Estado de Direito», a partir do momento em que o Estado moderno dito democrático deixou em geral de o ser. Não é de modo nenhum por acaso que a expressão só foi popularizada pouco depois de 1970 e, em primeiro lugar, justamente em Itália. Em muitos domínios, fazem-se mesmo leis precisamente para que sejam torneadas, por aqueles que justamente possuirão todos os meios para isso. A ilegalidade em certas circunstâncias, por exemplo, à volta do comércio mundial de todo o tipo de armamentos, e mais frequentemente envolvendo produtos da mais alta tecnologia, não é mais que uma espécie de força de apoio da operação económica, que se encontrará muito mais rentável. Hoje muitos negócios são necessariamente desonestos como o século, e não como eram outrora aqueles que praticavam, em séries claramente delimitadas, os homens que tinham escolhido os caminhos da desonestidade.
À medida que crescem as redes de promoção-controle para balizar e dominar os setores exploráveis do mercado, aumenta também o número de serviços pessoais que não podem ser recusados àqueles que estão ao corrente, e que não têm proveito em recusar essa ajuda; e nem sempre se trata de polícias ou dos guardiões dos interesses ou da segurança do Estado. As cumplicidades funcionais comunicam a grande distância, e por muito tempo, pois as suas redes dispõem de todos os meios para impor estes sentimentos de reconhecimento ou de fidelidade que, infelizmente, foram sempre tão raros na atividade livre dos tempos burgueses.
Aprende-se sempre alguma coisa do adversário. É preciso acreditar que os homens de Estado foram levados, também eles, a ler as observações do jovem Lukàcs sobre os conceitos de legalidade e de ilegalidade, no momento em que tiveram de tratar da passagem efémera duma nova geração do negativo — Homero disse que «uma geração de homens passa tão rápida como uma geração de folhas». Os homens de Estado, desde então, puderam deixar, como nós, de embaraçar-se com qualquer tipo de ideologia sobre esta questão; a verdade é que as práticas da sociedade espetacular não favoreciam absolutamente nada as ilusões ideológicas deste tipo. A propósito de nós todos, finalmente, poder-se-á concluir que aquilo que nos impediu muitas vezes de nos envolvermos numa só atividade ilegal foi termos tido várias.
XXVII
Tucídides, no livro VIII, capítulo 66, da História da Guerra do Peloponeso diz, a propósito das operações de uma outra conspiração oligárquica, algo que tem muito de parecido com a situação em que nos encontramos: «Mas para além disso, aqueles que ali tomavam a palavra faziam parte da conspiração e os discursos que pronunciavam tinham sido submetidos ao exame prévio dos seus amigos. Nenhuma oposição se manifestava entre o resto dos cidadãos, que temiam o número de conjurados. Logo que algum ensaiava, apesar de tudo, contradizê-los, encontrava-se em seguida um meio cómodo de eliminá-lo. Os assassinos não eram procurados e nenhuma perseguição era iniciada contra aqueles de quem se suspeitava. O povo não reagia e as gentes estavam de tal forma aterrorizadas que se consideravam felizes, ainda que calando, por escapar às violências. Imaginando os conjurados bem mais numerosos do que eram na realidade, tinham o sentimento de uma impotência completa. A cidade era demasiado grande e eles não se conheciam o suficiente entre si para que lhes fosse possível descobrir o que cada um era verdadeiramente. Nestas condições, por indignado que se estivesse, não se podia confiar estas queixas a ninguém. Devia portanto renunciar-se à preparação de uma ação contra os culpados, pois para isso seria necessário dirigir-se a um desconhecido ou a uma pessoa conhecida de quem se desconfiava. No partido democrático, as relações pessoais estavam por toda a parte marcadas pela desconfiança e sempre ficava a dúvida se aquele com quem se tinha relação não era conivente com os conjurados. Com efeito, entre estes últimos havia homens de quem nunca se teria acreditado que se unissem à oligarquia.»
Se a história nos deve regressar depois deste eclipse, o que depende de fatores ainda em luta e, portanto, dum resultado que ninguém poderá excluir com certeza, estes Comentários poderão servir para escrever um dia a história do espetáculo; sem dúvida o mais importante acontecimento que se produziu neste século; e também aquele que menos se arriscou explicar. Em circunstâncias diferentes, creio que poderia considerar-me grandemente satisfeito pelo meu primeiro trabalho sobre este assunto e deixar a outros o cuidado de observar a continuação. Mas, no momento em que estamos, pareceu-me que nenhum outro o faria.
XXVIII
Das redes de promoção-controle desliza-se insensivelmente para as redes de vigilância-desinformação. Antigamente, apenas se conspirava contra uma ordem estabelecida. Hoje conspirar a seu favor é uma nova profissão em grande desenvolvimento. Sob a dominação espetacular, conspira-se para a manter, e para assegurar aquilo que só ela poderá chamar o seu bom rumo. Esta conspiração faz-parte do seu próprio funcionamento.
Começou-se já a colocar no sítio alguns meios de uma espécie de guerra civil preventiva, adaptados a diferentes projeções do futuro calculado. Trata-se das «organizações específicas» encarregadas de intervir nalguns pontos segundo as necessidades do espetacular integrado. Previu-se, assim, para a pior das eventualidades, uma táctica, dita por chalaça «das Três Culturas», em evocação duma praça do México no Verão de 1968, mas desta vez sem cerimónias e que, de resto, deveria ser aplicada antes do dia da revolta. E fora casos tão extremos, não é necessário, para ser um bom meio de governo, que o assassinato inexplicado toque muita gente ou reapareça frequentemente: o simples facto de saber-se que essa possibilidade existe, complica imediatamente os cálculos num vasto número de domínios. Não há sequer necessidade de ser inteligentemente seletivo, ad hominem. O emprego deste procedimento, duma maneira puramente aleatória, seria talvez mais produtivo.
Está-se também em situação de mandar compor fragmentos de uma crítica social de domesticação que deixará de ser confiada aos universitários ou aos mediáticos, a quem mais vale daqui em diante manter afastados das mentiras demasiado tradicionais neste debate; mas será uma crítica melhor, lançada e explorada de uma forma nova, manejada por uma outra espécie de profissionais, melhor formados. Começam a aparecer, de urna maneira bastante confidencial, textos lúcidos, anónimos ou assinados por desconhecidos — táctica aliás facilitada pela concentração de conhecimentos de todos sobre os bobos do espetáculo; a qual faz com que os desconhecidos pareçam justamente os mais estimáveis -, não apenas sobre temas que nunca são abordados no espetáculo, mas ainda com argumentos cuja justeza é tornada mais marcante pela espécie de originalidade, calculável, que lhes advém do facto de não serem em suma nunca utilizados, ainda que sejam bastante evidentes. Esta prática pode servir pelo menos de primeiro grau de iniciação para recrutar espíritos um pouco despertos, a quem se dirá mais tarde, se forem proveitosos, uma maior dose da continuação possível. E o que será para alguns, o primeiro passo de uma carreira, será para outros — menos bem classificados — o primeiro degrau da armadilha na qual serão apanhados.
Em certos casos, trata-se de criar, sobre questões que correriam o risco de tornar-se escaldantes, uma outra pseudo-opinião crítica; e entre as duas opiniões que, assim, surgiriam uma e outra estranhas às miseráveis convenções espetaculares, o juízo ingénuo poderá oscilar indefinidamente, e a discussão para as avaliar será relançada cada vez que convenha. Trata-se a maior parte das vezes de um discurso geral sobre aquilo que está midiaticamente escondido e este discurso poderá ser fortemente crítico, e nalguns pontes manifestamente inteligente, mas ficando curiosamente descentrado. Os temas e as palavras foram selecionados artificialmente, com a ajuda de computadores informados em pensamento crítico. Há nestes textos algumas falhas, bem pouco visíveis, mas apesar disso dignas de ser assinaladas: neles, o ponto de fuga da perspectiva está sempre anormalmente ausente. Parecem-se com o fac-simile de uma arma célebre, a que falta apenas o percutor. É necessariamente uma crítica lateral que vê várias coisas com muita franqueza e justeza, mas colocando-se de lado. Isto não porque finja uma qualquer imparcialidade, pois é-lhe necessário pelo contrário ter ar de censurar muito, mas sem nunca mostrar sentir a necessidade de deixar aparecer qual é a sua causa; portanto, de dizer, mesmo implicitamente, donde vem e para onde desejaria ir.
A esta espécie de falsa crítica contra-jornalística, pode juntar-se a prática organizada do rumor, do qual se sabe ser originariamente uma espécie de resgate selvagem da informação espetacular, pois, toda a gente pressente nele, pelo menos vagamente, um carácter enganador, e daí a pouca confiança que merece. O rumor foi na sua origem supersticioso, ingénuo, autointoxicado. Mas, mais recentemente, a vigilância começou a colocar na população gente susceptível de lançar, ao primeiro sinal, os rumores que poderão convir-lhe. Aqui, decidiu-se aplicar na prática as observações de uma teoria formulada há perto de trinta anos, e cuja origem se encontrava na sociologia americana da publicidade: a teoria dos indivíduos a quem se pôde chamar de «locomotivas», isto é, que outros a sua volta vão ser levados a seguir e imitar, mas passando desta vez do espontâneo ao preparado. Presentemente também se libertaram os meios orçamentais ou extra-orçamentais para sustentar muitos supletivos, ao lado dos anteriores especialistas, universitários e mediáticos, sociólogos ou polícias, do passado recente. Acreditar que se aplicam ainda mecanicamente alguns modelos conhecidos do passado é tão enganador como a ignorância geral do passado. «Roma já não é Roma» e a Máfia já não é a ralé. E os serviços de vigilância e desinformação parecem-se cada vez menos com o trabalho dos policias e informadores de outrora — por exemplo, aos bófias e bufos do Segundo Império — assim como os serviços especiais atuais, em todos os países, se parecem pouco com as atividades dos oficiais da Segunda Divisão do Estado-maior do Exército em 1914.
Desde que a arte morreu, sabe-se que se tornou extremamente fácil disfarçar polícias de artistas. Quando as últimas imitações dum neo-dadaismo regressado são autorizadas a pontificar gloriosamente no mediático, e, portanto, também a modificar um pouco a decoração dos palácios oficiais, como os bobos dos reis de pacotilha, vê-se que simultaneamente uma cobertura cultural se encontra garantida a todos os agentes ou auxiliares das redes de influência do Estado. Abrem-se pseudo-museus vazios, ou pseudo-centros de investigação sobre a obra completa duma personagem inexistente, tão depressa como se faz a reputação de jornalistas-policiais, ou historiadores-policiais, ou romancistas-policiais. Arthur Cravan via sem dúvida chegar este mundo quando escrevia em Maintenant: «Na rua em breve não se verá senão artistas, e ter-se-á todas as dificuldades do mundo para aí descobrir um homem.» Tal é também o sentido desta forma rejuvenescida dum antigo dito humorístico da vadiagem de Paris: «Olá artistas! Estou-me a cagar se me engano.»
Tendo chegado as coisas a serem aquilo que são, pode ver-se alguns autores coletivos empregados da edição mais moderna, quer dizer, aquela que dispõe da melhor difusão comercial. Sendo a autenticidade dos seus pseudónimos assegurada apenas pelos jornais, estes autores coletivos repetem-se, colaboram, substituem-se, empregam novos cérebros artificiais. Estão encarregados de exprimir o estilo de vida e de pensamento da época, não em virtude da sua personalidade, mas segundo ordens. Aqueles que pensam que eles são verdadeiramente empreendedores literários individuais, independentes, podem então chegar a assegurar sabiamente que, agora, Ducasse zangou-se com o conde de Lautréamont; que Dumas não é Macquet e que é preciso sobretudo não confundir Erckman com Chatrian; e que Censier e Daubenton já não se falam. Seria melhor dizer que este género de autores modernos quis seguir Rimbaud, pelo menos nisto, «Eu é um outro».
Os serviços secretos foram chamados por toda a história da sociedade espetacular a jogar nela o papel de placa giratória central, já que neles se concentram ao mais alto grau as características e os meios de execução duma semelhante sociedade. São também cada vez mais encarregados de arbitrar os interesses gerais desta sociedade, ainda que sob o seu modesto título de «serviços». Não se trata de abuso, já que eles exprimem fielmente os costumes ordinários do século do espetáculo. E é assim que vigilantes e vigiados se afastam rapidamente num oceano sem limites. O espetáculo fez triunfar o segredo, e este deverá permanecer cada vez mais nas mãos dos especialistas do segredo que, bem entendido, não são todos funcionários autonomizando-se, a diferentes níveis, do controlo do Estado; que não são todos funcionários.
XXIX
Uma lei geral do funcionamento do espetacular integrado, pelo menos para aqueles que lhe gerem a conduta é que, neste quadro, tudo aquilo que pode fazer-se deve ser feito. Quer dizer que todo o novo instrumento deve ser utilizado, custe o que custar. A ferramenta nova torna-se em todo o lado o fim e o motor do sistema; e será a única a poder modificar consideravelmente a sua marcha, cada vez que o seu emprego é imposto sem outra reflexão. Os proprietários da sociedade, com efeito, querem antes de mais manter uma certa «relação social entre as pessoas» mas é-lhes necessário também continuar nela a renovação tecnológica incessante; porque esta foi uma das obrigações que aceitaram com a sua herança. Por conseguinte, esta lei aplica-se igualmente aos serviços que protegem a dominação. O instrumento que se pôs em estado de funcionamento deve ser utilizado e o seu uso reforçará as mesmas condições que favorecem este emprego. É assim que os procedimentos de urgência se tornam processes de sempre.
A coerência da sociedade do espetáculo tem, duma certa maneira, dado razão aos revolucionários, visto que se tornou claro que nela não pode reformar-se o mais pequeno detalhe sem desfazer o conjunto. Mas, ao mesmo tempo, esta coerência suprimiu toda a tendência revolucionária organizada suprimindo os terrenos sociais onde ela tinha podido, mais ou menos bem, exprimir-se: do sindicalismo aos jornais, da cidade aos livros. Num mesmo movimento pôs-se a claro a incompetência e a irreflexão de que esta tendência era naturalmente portadora. E no plano individual, a coerência que reina é bem capaz de eliminar, ou comprar, certas exceções eventuais.
XXX
A vigilância poderia ser muito mais perigosa se não tivesse sido empurrada, na via do controlo absoluto de todos, até a um ponto onde ela encontra dificuldades resultantes dos seus próprios progressos. Há contradição entre a massa de informações recolhidas sobre um número crescente de indivíduos, e o tempo e a inteligência disponíveis para as analisar; ou muito simplesmente o seu possível interesse. A abundância da matéria obriga a resumi-la a cada passo: muita desaparece, e a restante é ainda demasiado extensa para ser lida. A conduta da vigilância e da manipulação não está unificada. Em todo o lado, com efeito, luta-se pela partilha dos benefícios; e, por conseguinte, também pelo desenvolvimento prioritário desta ou daquela virtualidade da sociedade existente, em detrimento de todas as suas outras virtualidades que, entretanto, são tidas por igualmente respeitáveis, contanto que sejam da mesma laia.
Luta-se também por jogo. Cada oficial implicado é levado a sobrevalorizar os seus agentes, e também os adversários de que se ocupa. Cada país, sem fazer menção das numerosas alianças supranacionais, possui presentemente um número indeterminado de serviços de polícia ou contraespionagem, e de serviços secretos estatais ou paraestatais. Existem também muitas companhias privadas que se ocupam da vigilância, proteção, informação. As grandes firmas multinacionais têm naturalmente os seus próprios serviços; mas igualmente as empresas nacionalizadas, mesmo de dimensão modesta, que não deixam de ter a sua política independente, no plano nacional e por vezes internacional. Pode ver-se um grupo industrial nuclear opor-se a um grupo petrolífero, ainda que sejam um e outro propriedade do mesmo Estado e, mais ainda, que estejam dialeticamente unidos um ao outro pelo seu apego em manter elevado o preço do petróleo no mercado mundial. Cada serviço de segurança duma indústria particular combate a sabotagem no seu seio, e em caso de necessidade organiza-a no seu rival: quem investe grandes interesses num túnel submarino é favorável à insegurança dos ferry-boats e pode pagar a jornais em dificuldades para a fazer sentir na primeira ocasião, e sem demorada reflexão; e quem faz concorrência à Sandoz é indiferente aos lençóis de água freáticos do Vale do Reno. Vigia-se secretamente o que é secreto. De maneira que cada um desses organismos, confederados com muita flexibilidade à volta daqueles que têm a seu cargo a razão de Estado, aspira por conta própria a uma espécie de hegemonia privada de sentido. Pois o sentido perdeu-se com o centro conhecível.
A sociedade moderna que, até 1968, ia de êxito em êxito e estava persuadida de que era amada, teve de renunciar desde então a estes sonhos; prefere ser temida. Sabe bem que «o seu ar de inocência já não voltará mais».
Assim, mil e uma conspirações a favor da ordem estabelecida enredam-se e combatem-se um pouco por todo o lado, com a imbricação cada vez mais estendida das redes e das questões ou ações secretas; e o seu processo de integração rápida em cada ramo da economia, da política, da cultura. O teor da mistura em observadores, em desinformadores, em serviços especiais, aumenta continuamente em todas as zonas da vida social. A conspiração geral tornou-se tão densa que se espalha quase às claras, cada um dos seus ramos pode começar a incomodar ou inquietar o outro, pois todos estes conspiradores profissionais chegam a observar-se sem saber exatamente porquê, ou encontram-se por acaso, sem poder recolher-se com segurança. Quem quer observar quem? Por conta de quem, aparentemente? Mas na realidade? As verdadeiras influências permanecem escondidas e as últimas intenções não podem ser senão muito dificilmente suspeitadas, quase nunca compreendidas. De modo que ninguém pode dizer que não é enganado ou manipulado, mas é só em raros instantes que o próprio manipulador pode saber se foi vencedor. E, por outro lado, encontrar-se do lado ganhador da manipulação não quer dizer que se tenha escolhido com justeza a perspectiva estratégica. É assim que êxitos tácticos podem atolar grandes forças em maus caminhos.
Numa mesma rede, perseguindo aparentemente um mesmo fim, aqueles que não constituem senão uma parte da rede são obrigados a ignorar todas as hipóteses e conclusões das outras partes, e sobretudo do seu núcleo dirigente. O facto bastante notório de que todas as informações sobre qualquer assunto observado podem ser também completamente imaginárias, ou gravemente falseadas, ou interpretadas muito inadequadamente, complica e torna pouco seguros, numa vasta medida, os cálculos dos inquisidores; pois aquilo que é suficiente para condenar alguém não é tão seguro quando se trata de o conhecer ou de o utilizar. Já que as fontes de informação são rivais, as falsificações são-no também.
É a partir de tais condições do seu exercício que pode falar-se de uma tendência para a rentabilidade decrescente do controlo, à medida que este se aproxima da totalidade do espaço social, e que consequentemente aumenta o seu pessoal e os seus meios. Pois aqui cada meio aspira, e trabalha, por transformar-se num fim. A vigilância vigia-se a si própria e conspira contra ela mesma.
Finalmente a sua principal contradição atual é que vigia, infiltra, influencia, um partido ausente: aquele que é suposto querer a subversão da ordem social. Mas onde se vê a sua obra? Porque é verdade que nunca as condições foram por todo o lado tão gravemente revolucionárias, foi tão perfeitamente privada do seu pensamento que está desde há muito tempo dispersa. Por isso ela não é mais do que uma ameaça vaga, porém muito inquietante, e a vigilância foi por sua vez privada do melhor campo da sua atividade. Esta força de vigilância e de intervenção é justamente conduzida pelas necessidades presentes, que comandam as condições do seu compromisso, a colocar-se no próprio terreno da ameaça para a combater de antemão. Eis porque a vigilância terá interesse em organizar ela própria pólos de negação que dará a conhecer fora dos meios desacreditados do espetáculo a fim de influenciar, já não os terroristas, mas, desta vez, as teorias.
XXXI
Baltasar Gracián, grande conhecedor do tempo histórico, diz com muita oportunidade no Oráculo manual y arte de prudência: «Seja a ação, seja o discurso, tudo deve ser medido na altura. E preciso querer quando se pode, pois nem a estação nem o tempo esperam por ninguém».
Mas Omar Khayyan, menos optimista: «Falando claramente sem parábolas — Nós somos as peças do jogo que joga o Céu — Divertem-se conosco no tabuleiro do Ser — E depois voltamos, um a um, para a caixa do Nada.»
XXXII
A Revolução Francesa arrastou consigo grandes mudanças na arte da guerra. Foi depois desta experiência que Clausewitz pôde estabelecer a distinção segundo a qual, a táctica era o emprego das forças no combate para ai obter a vitória, enquanto que a estratégia era o emprego das vitórias para atingir os fins da guerra. A Europa foi subjugada, sem demora e por longo período, pelos resultados. Mas a teoria só mais tarde foi estabelecida, e desigualmente desenvolvida. Em primeiro lugar compreenderam-se os caracteres positivos trazidos diretamente por uma profunda transformação social: o entusiasmo, a mobilidade em que vivia o pais tornando-se relativamente independente dos armazéns e comboios, a multiplicação dos efetivos. Estes elementos práticos acharam-se um dia equilibrados pela entrada em ação, do lado contrário, de elementos similares: Os exércitos franceses chocaram-se em Espanha com um outro entusiasmo popular; no espaço russo, com um pais no qual não puderam viver; depois do levantamento da Alemanha com efetivos muito superiores. Entretanto, o efeito de ruptura na nova táctica francesa, que foi a base simples sobre a qual Bonaparte fundou a sua estratégia — esta consistia em empregar as vitórias de antemão, como adquiridas a crédito: concebendo desde o início a manobra e as suas diversas variantes enquanto consequências duma vitória que não estava ainda obtida, mas sê-lo-ia seguramente ao primeiro cheque —, resultava também do abandono forçado de ideias falsas. Esta táctica tinha sido bruscamente obrigada a libertar-se destas ideias falsas, ao mesmo tempo que encontrava, pelo jogo concomitante das outras inovações citadas, os meios duma tal libertação. Os soldadas franceses, de recente leva, eram incapazes de combater em linha, quer dizer, de permanecer na sua fileira e fazer fogo à voz de comando. Eles vão então deslocar-se como caçadores e praticar o fogo à vontade marchando sobre o inimigo. Ora, o fogo à vontade descobria-se ser precisamente o único eficaz, aquele que operava realmente a destruição pelo fuzil, a mais decisiva nesta época no afrontamento dos exércitos. Contudo o pensamento militar tinha-se universalmente recusado a chegar a uma tal conclusão no século que finalizava, e a discussão desta questão pôde ainda prolongar-se durante quase um outro século, apesar dos exemplos constantes da prática dos combates, e os progressos incessantes no alcance e velocidade de tiro de fuzil.
Semelhantemente, o estabelecimento da dominação espetacular é uma transformação social tão profunda que mudou radicalmente a arte de governar. Esta simplificação, que tão depressa deu tais frutos na prática, ainda não foi plenamente compreendida teoricamente. Velhos preconceitos por todo o lado desmentidos, precauções tornadas inúteis, e até mesmo vestígios de escrúpulos doutros tempos, estorvam ainda um pouco no pensamento de numerosos governantes esta compreensão, que toda a prática estabelece e confirma dia a dia. Não somente se faz crer aos submetidos que ainda estão, no essencial, num mundo que se fez desaparecer, como os próprios governantes sofrem por vezes da inconsequência de ainda acreditarem nisso nalguns aspectos. Acontece-lhes pensar numa parte daquilo que suprimiram como se permanecesse uma realidade, e que deveria continuar presente nos seus cálculos. Este atraso não se prolongará muito. Quem pôde fazer tanto sem esforço ira forçosamente mais longe. Não se deve crer que possam manter-se duravelmente, como um arcaísmo, nas cercanias do poder real, aqueles que não tiverem muito rapidamente compreendido toda a plasticidade das novas regras do seu jogo, e a sua espécie de grandeza bárbara. O destino do espetáculo não é certamente acabar em despotismo esclarecido.
Falta concluir que uma substituição é iminente e inevitável na casta cooptada que gere a dominação, e particularmente naquela que dirige a proteção desta dominação. Numa tal matéria, a novidade, seguramente, nunca será exposta na cena do espetáculo. Somente aparece como o raio, que apenas se reconhece pelas suas consequências. Esta substituição que vai concluir decisivamente a obra dos tempos espetaculares, opera-se discretamente e, ainda que respeitante a indivíduos já todos instalados na própria esfera do poder, conspirativamente. Selecionará aqueles que nela tomarão parte segundo esta exigência principal: que saibam claramente de que obstáculos se livraram, e do que são capazes.
XXXIII
O mesmo Sardou diz também: «Vãmente é relativo ao sujeito; em vão é relativo ao objeto; inutilmente, é sem utilidade para ninguém. Trabalhou-se vãmente quando se o fez sem êxito, de modo que se perdeu o seu tempo e o seu esforço: trabalhou-se em vão quando se o fez sem atingir o fim que se propunha, por causa da imperfeição da obra. Se eu não puder concluir a minha tarefa, trabalho vãmente; perco inutilmente o meu tempo e o meu esforço. Se a minha tarefa acabada não teve o efeito que esperava, se eu não atingi o meu fim, trabalhei em vão; quer dizer que fiz uma coisa inútil...
Também se diz que alguém trabalhou vãmente, quando não é recompensado pelo seu trabalho, ou porque este trabalho não agradou; pois nesse caso o trabalhador perdeu o seu tempo e o seu esforço, sem prejulgar de modo nenhum o valor do seu trabalho, que pode alias ser muito bom.»
GUY DEBORD
(Paris, Fevereiro-Abril 1988.)