A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves
2. Mundo animal: A voz humana
2. Mundo animal:
A voz humana
1.
Naquela noite, elas completariam dois anos e meio sem sair de casa. A sra. X arranjou o lanche na bolsa, desceram as escadas e entraram no táxi. Pela janela, apontou a lua enorme detrás das árvores. A criatura nunca tinha visto a própria pele sob luz natural tão direta. Esbranquiçadas e secas, as feridas na parcela de pele do punho à mostra pareciam curadas, apesar de recentes. Avançaram em silêncio por avenidas e parques desocupados, enquanto nuvens encobriam a lua. Fazia frio, mas não muito. Um pouco antes, ao entrarem no automóvel estacionado na garagem, a sra. X ordenou ao taxista que seguisse para o Nocturama, nova área do zoológico da cidade dedicada a animais notívagos. Sem responder ou demonstrar má vontade pela chamada tarde da noite, o homem deu partida. Depois, quando já estavam a caminho, pensou que a vida era uma espécie de partitura executada por um pianista maneta diante de uma plateia de surdos. Aquelas duas fariam parte de sua sinfonia daquela noite, ele afirmou em seu testemunho, elas eram suas notas musicais perdidas que afinal tinham voltado para casa. Na ocasião, a sra. X agradecia a Deus a oportunidade de passear com a criatura pela última vez. Fazia tanto, tanto tempo. Não sabia mais de que era feito o céu, as nuvens, o chão lá de fora. O motor do carro não emitia nenhum ruído, aumentando a sensação de estarem imóveis, congelados pelo ar noturno. A criatura afastou um pouco o capuz vermelho de cima da testa para observar melhor os reflexos na escuridão do asfalto. Era tão liso que dava para ver o brilho das estrelas. Apenas um instante — o tempo necessário para o taxista a ver no retrovisor —, e seus olhos estavam fixos nele. Um pedaço visível da pele do rosto dela foi suficiente para lhe dar calafrios, e o taxista desviou o olhar. Luvas de couro negro, pelos eriçados, descreveu. Olhos cor de sangue. A Méditation, de Satie, começou a tocar no aparelho de cd. Os acordes espaçados do piano modulavam o movimento nas pistas quase sem tráfego, iluminadas pela lua entre torres negras de prédios apagados. Enquanto a criatura recobria a cabeça e se afundava na área ensombrecida do banco traseiro, a sra. X percebeu o susto do homem. Depois, bem diante de mim, ela lembrou que naquele exato segundo pediu ao Senhor que o passeio noturno ao zoológico não lhe trouxesse mais problemas.
Não fazia um mês o zoológico de São Paulo começara a agendar visitas ao novo parque durante a noite. A sra. X exultou ao ver a notícia na televisão. Tratava-se de rara oportunidade de passear com a criatura, conforme afirmou, uma dádiva do Senhor, vinha em hora esplêndida, ela não aguentava mais. Sem hesitar, ligou para o telefone divulgado pelo telejornal e conseguiu encaixar as duas logo na primeira excursão. Era muita sorte, um verdadeiro sinal de que Deus olhava por elas, a Divina Providência em ação. O zoológico havia criado o Nocturama para visitantes travarem contato com animais de hábitos noturnos e também com outros bichos que em situação normal viveriam de dia, como o leopardo-das-neves que perdeu a companheira e caiu em depressão. Pelo telejornal, a sra. X descobriu que havia animais que sofriam de transtornos de comportamento, não muito diferentes daqueles sofridos pelas pessoas, e que por isso passavam a viver de noite. O isolamento prolongado, entre outros fatores, causava mudanças bizarras, assim como a aversão a visitantes por conta de crueldades cometidas todo santo dia. Antes de se deprimir, por exemplo, o leopardo-das-neves manifestou peculiar agressividade contra crianças de tamanho semelhante ao da criatura. O passeio noturno consistia em três horas de caminhada no meio da floresta entre as jaulas. Tudo no Nocturama foi elaborado para lembrar uma expedição à natureza selvagem, embora essa nova área do parque se localizasse não muito longe do perímetro urbano. Era proibido o uso de lanternas, de celulares ou de qualquer outro dispositivo que emitisse luz artificial. Fotografias estavam permitidas somente sem flashes. Apenas um aspecto do passeio noturno causava aflição à sra. X: em ocasiões anteriores, como na tentativa malsucedida de irem ao drive-in, algumas pessoas não reagiram bem à presença da criatura, acreditando que ela estivesse ali para promover a estreia de algum filme de terror. Outra situação igualmente perigosa ocorrera certa vez em uma praça de Higienópolis. No episódio do drive-in ela era menor, portanto talvez não se lembrasse de quase nada. Na visita à praça, porém, ocorrida havia dois anos, já era um pouco maior, ou ao menos assim parecia, e assustara-se com o pânico da multidão de velhas senhoras que alimentavam felinos. Referências à idade da criatura não passam, é claro, de conjecturas da sra. X. Por tais motivos fazia tanto tempo as duas não saíam à rua. Deus estava ao lado delas, mas não custava evitar provações. A sra. X acredita que o Senhor não recusa auxílio, mas também aprecia recebê-lo. Ela murmurou outra oração só por acreditar nisso com tamanho fervor.
Havia muito a sra. X deixara de refletir sobre as consequências de estar condicionada a viver apenas à noite. Depois de aceitar a criatura sob sua responsabilidade, seus hábitos diurnos, assim como ocorreu aos animais do Nocturama, foram se alterando aos poucos, conforme depôs, e ela enfim se adaptou à nova condição. No início a sra. X sentia falta de lugares luminosos como as margens do lago próximo à casa familiar de sua infância, ou da praia que adorava visitar a cada inverno. Chegou a ter sonhos frequentes com isso. Mas a tudo nos habituamos nesta vida, ela testemunhou, e ao dizer isso afirmou que seria capaz de suportar dificuldades ainda maiores: para tal, bastava apenas preservar sua fé. As orações constantes, além de terem o efeito de fortalecer sua crença no Senhor, levaram-na a melhorar a concentração. Desde criança a sra. X teve problemas para ler, por exemplo, ou mesmo para assistir a um filme inteiro na televisão. De algum modo, viver somente à noite apaziguou seu espírito. A mera restrição diminuiu sua ânsia de sair durante o dia ou mesmo o desejo de ver outras pessoas. Para que isso acontecesse, tornou-se essencial acompanhar o metabolismo da criatura: ao observá-la, a sra. X descobriu que o Senhor não exigia pressa nem admitia o desespero. Pobre criatura de Deus, pobrezinha dela. Contida pelas limitações do dia a dia, sua paciente apreciava ler. Passava tardes inteiras mergulhada nos livros. Mantinha hábitos de leitura bastante maduros para alguém que não ultrapassava um metro e meio de altura (de acordo com a aferição da perícia, um metro e vinte e cinco centímetros de altura, com trinta e dois quilos de peso). Parecia estranho à sra. X se aproximar de outro livro que não fosse a Bíblia Sagrada. Mas até isso mudou com a adaptação ao novo fuso horário. Nas tardes de folga, enquanto a criatura descansava ou se escondia debaixo do sofá em seu ninho cheio de pelos, ela começou a explorar a biblioteca do casarão. Encontrava-se todo tipo de livro nas estantes, alguns em línguas desconhecidas pela sra. X, que ao longo dos meses procurou limpá-los. Em meio a diversas obras desinteressantes, algumas até mesmo profanas, ela descobriu a enciclopédia dedicada ao mundo animal.
A enciclopédia era composta de nove volumes. Tratava-se de uma edição inglesa de 1910 caindo aos pedaços. De acordo com seu depoimento, a sra. X domina o inglês com fluência. Sua especialização no tratamento de pacientes terminais ocorreu em um hospital de Manchester, na Inglaterra. Conhecer a língua era requisito indispensável para sua função, pois a criatura não compreende português. Nas raras ocasiões em que se comunicava, ela o fazia por meio de bilhetes escritos com grande dificuldade, apoiando o lápis num buraco da luva de couro feito especialmente para isso. A criatura nunca fala, pois está impossibilitada. Através da leitura daqueles livros empoeirados, a sra. X conseguiu quebrar a desconfiança de sua protegida. Ambas sentavam-se sob o único abajur da biblioteca e conversavam ao modo silencioso da criatura acerca de animais que iam descobrindo aos poucos, conforme a leitura evoluía de um tomo a outro. Pela quantidade de livros que a criatura lia à noite, a sra. X não estranhou o fato de ela conhecer com antecedência quase todos os animais. Apesar disso, não havia lido a enciclopédia inteira, e logo a sra. X arranjou um modo de saber quais ela desconhecia. A criatura mantinha especial predileção pelos animais incomuns, aparentemente esquecidos pelas leis divinas. O ornitorrinco, por exemplo, era um de seus prediletos. Aquela mistura de pato com mamífero não parecia obra natural de Deus para a sra. X, porém ela não deixou transparecer sua descrença num monstro tão improvável. Não diante de sua paciente, mas de jeito nenhum. Naquele momento, a prioridade era se aproximar da criatura, cuja desconfiança ruiu de vez ao descobrir que o ornitorrinco — assim como ela própria — tinha hábitos noturnos. O método desenvolvido pela sra. X para investigar quais páginas da enciclopédia não haviam sido tocadas demonstrou ser tão incomum quanto acertado. Ao guardar dois volumes abandonados pela criatura sob a mesa da sala na noite anterior à descoberta, ela observou pedaços de pele com manchas de sangue ressequido e pelos grossos esparramados entre as páginas já lidas.
2.
Quando não lia à noite, a criatura era atraída pela ampla janela da sala. Podia permanecer rígida em frente ao vidro durante horas seguidas, parecendo observar a órbita moribunda dos insetos à volta das lâmpadas amareladas do jardim. Caso não conseguisse se distrair com isso, acabrunhava-se em seu próprio quarto no piso superior do antigo sobrado do Bom Retiro. Nessas ocasiões, a sra. X se sentia sozinha no casarão. Em uma determinada noite, a sra. X entreabriu a porta de seu quarto para observá-la, mas ela apenas brincava com seus jogos tão antigos quanto os livros da biblioteca, enquanto murmurava melodias que lembravam canções numa língua gutural que não devia mais ser falada por ninguém em qualquer parte do mundo. Para não incomodá-la, a sra. X passeava pelos corredores, observando os retratos de judeus emoldurados que ocupavam boa parte das paredes dos principais cômodos. Fixadas em suas indumentárias de judeus ortodoxos, as imagens lhe causavam mal-estar, pois ela relacionava aqueles narizes aduncos e chapéus de abas largas às imagens da Santa Inquisição que conhecia. Tudo era sombrio naquelas pessoas mortas fazia muito e vestidas de um negro mais espesso que o próprio tempo. Em diversos cômodos do casarão era possível encontrar mobiliário religioso que ampliava essa sensação. A sra. X foi contratada pelos familiares ou talvez tutores da criatura, que a buscaram por meio dos serviços de uma empresa especializada em recursos humanos de alto nível, conforme declarou em seu depoimento. Com conhecimentos administrativos e mestrado em enfermagem, a sra. X passara toda a vida auxiliando pessoas com enfermidades graves como a da criatura, ou então tratando, pois era esta a sua especialidade, de pacientes terminais. Contudo, nunca tinha trabalhado com uma paciente tão pequena. Na maior parte das vezes, a sra. X acompanhava até a morte anciões solitários e ricos cujas famílias preferiam contratá-la a tratar deles, tudo para não partilhar de seu convívio. Mas aquela era sua primeira experiência com um ser de aparência tão desconcertante, devido aos efeitos da doença. Os familiares da criatura, talvez seus avós, ou quem sabe seus tios, ou então parentes distantes, ou talvez seus proprietários (a sra. X não tem muita certeza), afirmaram à empresa que havia se responsabilizado por sua contratação que precisariam viajar para cuidar de negócios inadiáveis na China ou na Rússia. Ao menos foi isso o que a administradora informou. Sim, na Rússia, eles eram russos, disso ela estava certa (havia uma bandeira vermelha estampada com a águia de duas cabeças na parede da biblioteca). Como a enfermidade da criatura impedia que ela os acompanhasse, necessitariam dos serviços de uma governanta com conhecimentos de enfermagem. A profissional devia ser de total confiança. Era impossível prever o término da viagem de negócios, pois aqueles que a contratavam dependiam de terceiros para que tal data fosse estabelecida. Evidentemente, isso não deveria preocupar a governanta, já que a administradora de recursos humanos cuidaria dos aportes necessários ao bom sustento do sobrado do Bom Retiro. Mas existia uma séria restrição: devido à doença, a criatura estava impedida de sair da casa em qualquer hipótese. Também não devia ser abandonada sozinha, e isso impossibilitava a saída da sra. X, que nunca obteve quaisquer informações concretas acerca da real existência dos familiares da criatura.
Enquanto seu sono hesitava entre a noite e a chegada da manhã, a sra. X pensava no lar em que nasceu e no qual passou a infância com os pais. Depois de se especializar em medicina geriátrica e no tratamento de idosos com doenças incomuns, ela voltou pela última vez àquela casa à beira de um lago artificial em Serra Negra que estava meio borrada de sua memória, como se a conhecesse de um sonho. Seus pais estavam velhos, no entanto ainda preservavam a vida ativa. Ex-agricultor, o pai manteve os hábitos solares de sua juventude como plantador de tomates, cuidando com afinco do jardim da casa. A mãe da sra. X, ao contrário da filha, era muito falante, até demais, o que cansava um pouco a sra. X — que, devido ao seu retraimento e à escassa experiência sexual, nunca passou de srta. X (ela confessou isso à psicóloga que acompanha o caso); de hábitos reservados desde a infância, a sra. X se tornou ainda mais calada após sua temporada inglesa. O cotidiano hospitalar deixou o silêncio que lhe era peculiar ainda mais agudo, extenso, profundo, um silêncio que lhe dava voltas e a enredava, ocupando todos os espaços de sua vida, encasulando-a, ao tempo que lhe intensificava a fé. Certo dia, porém, cerca de um mês depois de seu retorno, o pai da sra. X recebeu o diagnóstico da doença que o vinha afligindo nos últimos meses: câncer. Os agrotóxicos com os quais havia lidado ao longo de tantos anos terminaram por cobrar um preço demasiado alto. Agora ele tinha um tumor do tamanho de um tomate no estômago, disse o pai, o que não deixava de ser irônico. Logo após receber a má notícia, a mãe afinal se calou, e a partir daí a decrepitude física de seu marido evoluiu rapidamente, coisa de semanas, pois ao ser descoberta a doença já ia em estágio avançado. Ao ver aquilo, a sra. X agradeceu ao Senhor por tê-la enviado de volta à casa paterna a tempo de lhe amenizar o sofrimento. Então, no período entre a madrugada e a manhã, seu pai morreu. A mãe, que não sofria de enfermidade alguma a não ser de tristeza, seguiu-o dez dias depois. A sra. X, tendo reunido conhecimentos suficientes acerca da vida, despediu-se do lago, vendeu a casa e nunca mais retornou àquele lugar.
Na noite do passeio, a criatura observou que a lua havia adquirido proporção incomum entre as nuvens. A cor amarela de suas extremidades borradas contra o céu tornavam-na ainda maior quando o táxi chegou ao Nocturama. A sra. X lhe explicou que aquilo se devia a um fenômeno ótico: a proximidade visual do astro em relação aos prédios do interior do parque causava a ilusão de a lua ter aumentado de tamanho. A criatura recebeu a explicação da governanta com um esgar que sugeriria, caso sua fisionomia assim o permitisse, uma expressão incrédula. A sra. X deduziu que nunca tinha ocorrido à criatura que as variações da lua pudessem ser explicadas por outra mecânica que não a da fantasia. Com seus passos limitados pela enfermidade, ela acompanhava as transformações lunares a partir das janelas do casarão fazia muito tempo, sabe-se lá desde quando (a sra. X não havia sido informada da vida pregressa da paciente). Através dos movimentos celestes, calculava o avançar dos dias e das noites e o escoar do tempo ao longo das semanas e do esgarçar da costura de seu capuz vermelho. Para a criatura, a lua talvez fosse um animal cheio de sangue que inchava e murchava conforme se aproximava ou se afastava da Terra, uma espécie de sanguessuga. Enquanto a governanta procurava adivinhar o que ia pela cabeça da pobre criatura, o automóvel ultrapassou o portão que demarcava a entrada do zoológico. O taxista permanecia calado e o rádio ainda tocava composições de Satie. Agora eram as Pièces Froides. A escuridão da mata aumentou enquanto avançavam pela avenida em frente ao parque cercado apenas por telas de alambrado. Os galhos das árvores encobriam as cercas, tornando-as quase invisíveis. A criatura escondeu ainda mais o rosto no capuz. Ela então abaixou um pouco o vidro da janela e um odor fresco e denso de vegetação misturado ao de folhas e frutas em decomposição ocupou o interior do automóvel. O taxista deu meia-volta num contorno existente no final da avenida e estacionou diante da entrada do Nocturama. Sob a marquise, em frente à bilheteria, um grupo de pessoas aguardava. Como a lua havia desaparecido entre as árvores, não era possível ver os rostos no escuro. A sra. X pagou o homem e desceu. Do outro lado, com a mochila nas costas, a criatura fez o mesmo. Ao pisarem na calçada, ela demonstrou tristeza, pois sentiu o desespero daquele lugar através do fedor dos animais aprisionados que chegava até ela. A sra. X controlou seus tremores. Momentos depois, ao voltar para casa e limpar o estofado do banco onde a criatura se sentara, o taxista achou o que parecia ser uma casca de ferida e manchas de sangue coagulado.
3.
Em relação às finanças, o esquema administrativo gerenciado pelos responsáveis pela criatura falhou apenas no final. Uma quantia era depositada todos os meses na conta bancária destinada às provisões. Com isso, a sra. X podia realizar compras regulares de mantimentos para o casarão, afirmou em seu depoimento. Também se efetuava outro depósito referente ao salário, que era o maior recebido por ela em toda a vida e serviu para acertar as contas quando a administradora furou. Como permanecia impossibilitada de sair sem infringir as regras da contratação, a governanta acumulou uma pequena fortuna naqueles dois anos e meio de trabalho. Não tinha com que gastar. As compras domiciliares eram realizadas em um mercado coreano do bairro. A sra. X fazia o pedido por telefone e depois uma perua realizava a entrega. Os engradados com produtos eram descarregados na entrada lateral do casarão sob supervisão da governanta, que se sentia atraída a conversar com o jovem entregador, um rapaz coreano de menos de dezoito anos. Mas o entregador não falava português ou inglês, ao menos não de modo a se estabelecer um diálogo que fosse muito além de palavras de agradecimento pelo serviço realizado. De vez em quando a incomunicabilidade em que se enfiou fazia com que a solidão da sra. X se tornasse insuportável. Sem mais parentes, ela não tinha a quem recorrer pelo telefone, e as pessoas com quem conviveu nas duas últimas décadas tinham sido suas pacientes e agora estavam mortas. As horas dedicadas à leitura na biblioteca eram com frequência pontuadas por devaneios relacionados ao futuro e à sua aposentadoria. Sem querer, a sra. X começou a fantasiar com o que faria com o dinheiro acumulado. Toda vez que isso acontecia, porém, ela interrompia o fluxo dos pensamentos e se sentia culpada. Ansiar pelo futuro a incomodava, pois equivalia a querer a morte da criatura. Em conformidade aos trabalhos que teve, a sra. X se habituou a relacionar todo final de ciclo empregatício à morte de seu empregador. Às vezes, quando pensava nisso, a sra. X se recolhia ao seu cômodo e orava ao Senhor com total devoção. Só assim suas mãos paravam de tremer.
* * *
No período de sua especialização em Manchester, a sra. X se deparou com certos problemas. Nunca pensou em se tornar enfermeira, e muito menos em se dedicar à geriatria. Seu sonho era ser cabeleireira. Durante a adolescência ela fez diversos cursos em escolas de beleza, e adorava praticar, criando penteados exclusivos para colegas de escola. Mas, quando completou vinte anos de idade, a sra. X descobriu que suas mãos tremiam. Em uma aula de maquiagem, ao aplicar blush na face de uma amiga, ela teve um incontrolável acesso de tremedeira, obrigando-a a sair da sala aos prantos e se refugiar no banheiro. Os acessos se repetiram diversas vezes até que, muito envergonhada, procurou auxílio psiquiátrico. Ficou abaladíssima com aqueles tremores nas mãos, pois acabariam por destruir sua esperança. Contudo, o psiquiatra com quem se tratava não percebia o problema, assegurando não existir tremor algum, além de afirmar que aquilo não passava de um típico caso de ansiedade. Receitou-lhe ansiolíticos. A sra. X preferiu desistir do psiquiatra e do desejo de ter aquela profissão, mas começou a usá-los, de início com receitas, depois roubando-os nos hospitais nos quais trabalhou. Foi graças à insistência da mãe e ao apoio do pai que concluiu o curso de enfermagem. Depois de se graduar, uma bolsa do centro nacional de pesquisas lhe permitiu fazer a especialização no estrangeiro. No hospital de Manchester, a sra. X levou uma vida monástica. Trabalhava a noite inteira, e logo conquistou o cargo de zeladora noturna. Era muito querida de todas as pacientes, a maior parte octogenárias pelas quais a sra. X sentia grande compaixão. Com o passar do tempo, o hospital acabou se tornando seu verdadeiro lar. Ela odiava o cubículo de menos de vinte metros quadrados em que vivia no subúrbio de Manchester, cidade cinzenta e fria, tão fria quanto o temperamento de seus cidadãos. Ao contrário do que ocorria no exterior, nas ruelas de pedras úmidas da cidade e nos pubs repletos, entre as paredes do hospital a sra. X recebia o calor amistoso das pacientes, que a premiavam com sua predileção irrestrita. Isso terminou por despertar o ciúme de colegas de plantão. A sra. X sempre relacionou as acusações de que seria vítima ao ser demitida a esse sentimento desprezível das outras enfermeiras em relação a ela. Nas noites em que se encontrava sozinha em seu quarto do hospital, entretanto, a sra. X observava os tremores incontroláveis de suas mãos, e os culpava por ser tão odiada pelas colegas. Depois, a sra. X tomava seu remédio, acalmava-se um pouco e saía em ronda noturna para visitar pacientes, passando antes no almoxarifado para pegar os produtos de limpeza que acabariam se tornando sua marca pessoal.
Em certo final de tarde, enquanto devolvia à estante os volumes da enciclopédia do mundo animal lidos na noite anterior, a sra. X não localizou o volume de número seis, dedicado aos verbetes iniciados com letras l-m. Depois de vasculhar por debaixo das poltronas e do sofá, no ninho feito de pelos, além de procurar nas outras prateleiras, a sra. X buscou nos diversos cômodos do casarão, sem nada encontrar. Como a criatura ainda não havia despertado para a primeira refeição da noite, a governanta não se lembrou de procurar no quarto dela. Cabe aqui um parêntese a respeito do cotidiano alimentar das duas. Pelo fato de os horários serem invertidos, a refeição equivalente ao café da manhã era servida assim que a luz do sol desaparecia nas janelas. E assim sucessivamente, com o almoço sendo servido à meia-noite em ponto e o jantar cerca de uma hora antes de o dia raiar. Não existiam outros serviçais no casarão a não ser a sra. X, conforme seu testemunho, e ela preparava toda a comida. De início foi difícil acertar o gosto da criatura, pois ela nada argumentava ao recusar um determinado prato. Ela apenas se sentava na extremidade oposta da mesa e afundava em seu mutismo indevassável. Com o passar dos dias, a sra. X percebeu que a criatura adivinhava aquilo que seria servido antes mesmo de a sopeira ser trazida da cozinha. Isso se devia ao aguçamento de seu olfato, um efeito colateral de sua condição. Passados quarenta dias da chegada da governanta ao casarão, um envelope remetido pela administradora foi deixado na caixa de correio. Era a lista de recomendações para a dieta regular da criatura. Nela também constava grande quantidade de alimentos não indicados para consumo que a sra. X preparara em refeições anteriores. Todos coincidiam com recusas da criatura, que nutria uma predileção por carne malpassada. Aquela teria sido a pior falha da empresa administradora em dois anos e meio, excetuando-se a falta de pagamentos do período final e, talvez, a própria contratação da sra. X.
4.
Ao deixar as passageiras no jardim zoológico, o taxista deu meia-volta e retomou a pista pela qual viera. Logo esqueceu a estranheza da encapuzada e voltou a pensar em seus cães. Como morava perto do zoológico, ainda no trajeto planejou treinar os animais naquela noite. Com esse testemunho pensava em escapar de ser acusado de premeditação, acreditamos. Ainda segundo ele, passava das nove e o início de noite havia sido rentável. Talvez pudesse deixar o trabalho de lado ao menos por algumas horas. Passar em casa, fazer uma horinha, ler encartes dos cds de música erudita e colocar os cães no automóvel, era isso o que pretendia, conforme seu depoimento. Inventava o seu álibi. Naquela noite ocorreria o primeiro passeio noturno ao novo parque do zoológico, a oportunidade que ele esperava. No semáforo seguinte, o taxista girou o volante à direita e deu adeus ao resto do expediente. Seguiu pela avenida Miguel Estéfano circundando o Nocturama e tomou a avenida do Cursino à esquerda. De lá, rumou à Zona Leste, onde vivia numa edícula nos fundos de uma fábrica abandonada. O piano continuou tocando no cd até ele enveredar pelo beco de paralelepípedos recobertos de musgo que dava na edícula. Os cães começaram a latir assim que reconheceram o ruído do motor e o taxista soltou a corrente enferrujada do portão. Seu automóvel se encontra no pátio para averiguações. Era bom viver ali, pois os cães podiam latir à vontade sem despertar a atenção de ninguém, afirmou. O casebre onde vivia, porém, era insalubre. Não que se importasse. O que valia a pena no lugar era a distância de qualquer pessoa da vizinhança e o bom espaço dos fundos, onde pôde construir as jaulas dos rottweilers. Esses três cães eram a única preocupação de sua vida e o que lhe importava realmente era se estavam bem. Mas o taxista precisava sobreviver. Não podia permanecer o tempo todo com seus cães, que sentiam sua falta. Naquela noite, por exemplo, isso era evidente. Os latidos soavam, e em sua origem existia um lamento profundo e insondável. Os rottweilers sempre se comportavam desse modo em noites de lua cheia. Não havia quantia de ração que os apaziguasse. Nem mesmo a felicidade momentânea que o taxista lhes concedia ao libertá-los para que corressem de modo insano pelo interior da fábrica abandonada era suficiente para se acalmarem. Ao examinar o piso em torno das jaulas, o taxista lamentou ainda mais, pois o cão mais novo perdera um dente ao morder as grades.
Em noites iguais àquela o taxista não via outra saída a não ser colocar os cães no interior do automóvel e sair com eles para passear. Deitados no banco traseiro, os animais se aquietavam assim que o portão de ferro era ultrapassado. A intensa agitação anterior, seus latidos e uivos na jaula, além da correria louca entre as ruínas da fábrica abandonada, eram de imediato deixados para trás. Apaziguados, pareciam enxergar algo no vazio noturno das ruas que só era perceptível para eles. Enquanto rumava pela pista vazia que levava de volta ao zoológico, o taxista os observava pelo retrovisor. Lembravam crianças, e se satisfaziam apenas com a promessa de uma volta. Era devido àqueles momentos de paz que ao menos em uma ocasião por mês o taxista trocava seu expediente noturno pelo passeio com os cães, conforme depôs. Na maior parte das ocasiões, eles não chegavam a sair do bairro, apenas perambulavam pelas praças dos arredores em busca de algum gato, ratazana ou calango que pudessem caçar. Outra diversão podia ser enveredar pelas estradas vicinais das rodovias que entram e saem de São Paulo e soltá-los num descampado. Eles corriam como se nunca mais fossem correr de novo. No automóvel, observando-os em sua quietude, o taxista lembrou-se de quando um gato caiu no quintal da fábrica abandonada. Pobre felino. Os cães o estraçalharam em poucos segundos. Restou apenas um saco esvaziado de couro sanguinolento, que o taxista dependurou no varal. Mesmo assim, os rottweilers não esgotaram sua ânsia e rodearam durante horas os restos do gato dependurados no alto, sem poder alcançá-los. Depois de devolver as feras à jaula, o taxista analisou o couro seco do bichano e pensou no que seus cães poderiam causar a um ser humano.
O taxista devia ter oito ou nove anos quando ganhou seu primeiro animal de estimação, uma velha cadela de um tio que mudou da cidade. Desde muito cedo, talvez desde quando aprendeu a falar, o taxista pedia ao pai que o deixasse ter um cachorro. O pai, homem bruto e beberrão, nunca permitiu. Como devia ao tio favores que não poderia honrar, ele nada pôde fazer em relação à cadelinha de pelo amarelo. O taxista, ainda garoto, cuidou do animal com total disciplina. Apesar de idosa, a cadela o seguia por todos os lados, no caminho de casa à escola, onde aguardava o término das aulas para acompanhá-lo de volta para casa. Em uma dessas manhãs de espera, a cadela emprenhou. O menino começou a achar que devia ser a pessoa mais sortuda do mundo, e seu entusiasmo por ter uma ninhada de cãezinhos inteirinha só para ele extrapolou todos os limites, bastante curtos, diga-se, da paciência paterna. Contudo, como eram visitados com certa regularidade pelo tio que vivia em outra cidade, o homem outra vez nada pôde fazer. Os meses se passaram e a cadela deu à luz cinco cachorrinhos, uns bichos tão lindos como o menino jamais tinha sonhado. E então, em consequência de um acidente de carro, o tio morreu. Com as dívidas quitadas pelo acaso, o pai do menino resolveu dar fim àquele tormento de ganidos sem fim que o impediam de dormir à noite. Numa manhã de domingo, o menino acordou com latidos. No quintal, o pai matava a cadela a pauladas. Depois de extrair seu último ganido, o homem encheu uma bacia d’água e afogou um a um os cinco cãezinhos diante do olhar gélido do menino.
5.
Na noite seguinte, a sra. X localizou o volume perdido da enciclopédia do mundo animal sob a cama do quarto da criatura. O livro estava aberto na página que continha o verbete dedicado ao leopardo-das-neves. Ao lado, estavam várias folhas de papel soltas que traziam desenhos muito elaborados representando o animal em diversos cenários retirados do texto e outros, inventados. O leopardo-das-neves à espreita de um cervo sobre um pico gelado do Altai. O ataque do leopardo-das-neves ao povoado. Uma nota musical que sumia no ar enquanto o leopardo-das-neves a acompanhava. O leopardo-das-neves no cativeiro. O leopardo-das-neves acabrunhado e solitário sob a lua cheia. O leopardo-das-neves com bandagens em sua pata dianteira direita. O leopardo-das-neves em pé, apoiado sobre as patas traseiras, olhando-se no espelho do banheiro. A sra. X se surpreendeu com o dom da criatura para o desenho. Parecia obra de um artista muito talentoso. Era inconcebível que desenhasse tão bem com aquelas mãos. Ela então recolheu tudo e começou a pensar nos tutores da criatura. Como podia existir gente tão impiedosa? Não deviam ser religiosas, pessoas com fé em Deus não abandonariam um enfermo daquela maneira. Caminhando pelos corredores do casarão que culminavam na biblioteca, a sra. X analisou os retratos dependurados nas paredes. Havia uma série de fotografias de um mesmo casal. O homem usava chapéu em todas as fotos, terno preto e uma longa barba. A mulher exibia um vestido sóbrio e de aparência bastante antiga. Parecia-se um pouco com a criatura. Mas essa semelhança podia ser coisa de sua imaginação e da cor da pele de ambas. Pelas datas nas margens, as fotos cobriam um intervalo de mais ou menos vinte anos. Os rostos da mulher e do homem não aparentavam ter envelhecido no período, a não ser pelo fato de a barba ter ganhado alguns fios acinzentados e maior volume nas fotos mais recentes do homem. Aqueles dois talvez fossem os pais da criatura. Eram, porém, velhos demais para serem os pais dela. Podia ser que fossem avós, quem sabe, porém isso pouco importava. A única certeza era de que se tratava de pessoas de coração do tamanho de uma uva-passa.
Ao alcançarem a entrada do parque, a sra. X e a criatura foram recebidas pela jovem veterinária que guiaria o grupo no passeio noturno inaugural. O grupo era composto de vinte pessoas, que ali no escuro mal podiam ser discernidas sob as folhagens. Do mesmo modo, ninguém notou as particularidades da criatura. Suas silhuetas se fundiam umas às outras, incluindo os vultos das duas recém-chegadas, e se perdiam contra a alta grade que separava o Nocturama do resto do zoológico. A moça explicou regras e cuidados que todos deveriam ter na expedição. Deviam fazer o maior silêncio possível. A caminhada duraria três horas, com quatro intervalos de quinze minutos para que pudessem lanchar e descansar do esforço, que não seria pouco. Os mais jovens deviam se comportar. Ninguém deveria em nenhuma hipótese abandonar as trilhas que percorreriam. Essa última regra, sem dúvida, também valia para os adultos. Nenhuma lanterna podia ser utilizada, assim como flashes. Celulares deveriam ser deixados na recepção. Essa medida servia para não assustarem ou afugentarem os animais que viviam soltos. Existia uma enorme variedade de animais que perambulava pelo parque sem a restrição de grades ou de jaulas. Entre eles havia macacos, aves, roedores e répteis. Como essa nova área do zoológico era uma extensão da reserva de mata atlântica da serra do Mar, havia bichos nativos que invadiam os limites do Nocturama. Por tal aspecto, o passeio noturno não era totalmente isento de perigo. Para esclarecê-los, a jovem veterinária revelou que alguns animais vinham sendo mortos naquelas dependências do zoológico. Esse era um fenômeno recente e ainda inexplicado pelas autoridades. Um sagui foi encontrado eviscerado. O mesmo ocorreu com uma família inteira de quatis. Parecia haver algum predador estranho à fauna local que perambulava ali à solta. Contudo, não deviam se preocupar. A polícia florestal mantinha uma equipe patrulhando a área. Na noite anterior tinham capturado uma jaguatirica que não era natural do parque. Os policiais investigavam se o felino teria sido abandonado ali e se era o responsável pelas mortes recentes que aconteceram no Nocturama.
Assim que reuniu o volume encontrado no quarto da criatura ao restante da enciclopédia, a sra. X teve uma ideia. Primeiro, emoldurou em papelão os numerosos desenhos feitos por ela. Em seguida, dependurou-os na parede da biblioteca. À noite, quando a criatura seguiu até a biblioteca à procura do livro, encontrou sua primeira exposição individual montada. Sob as molduras havia uma bancada com suco de groselha, biscoitos e cachorros-quentes preparados pela governanta. Também havia um cartaz no qual se podia ler i exposição mundial de retratos do leopardo-das-neves . À espreita no corredor, a sra. X viu um esgar no rosto da criatura que podia, talvez, ser confundido com um sorriso. Os olhos da criatura brilharam. As duas então brindaram com suco de groselha e analisaram detalhes no desenho do vilarejo tibetano atacado pela fera, enquanto comiam cachorros-quentes. Depois, sentaram-se no tapete felpudo diante da lareira e a sra. X releu diversas, muitíssimas vezes, o verbete da enciclopédia dedicado ao leopardo-das-neves. Nele, souberam das lendas asiáticas acerca do animal. Alguns povos do Tibete, da Rússia e da Mongólia afirmavam que o leopardo-das-neves não devorava a carne das vítimas, apenas sugava seu sangue. Essa crença se devia ao fato de a fera morder suas jugulares até elas desfalecerem. Como o leopardo-das-neves tinha furinhos nos dentes, deixava marcas de sucção na carne de seus pescoços. A fera não devorava suas vítimas porque era muito caçada. Desse modo, sempre terminava surpreendida enquanto sufocava a presa, a qual era obrigada a deixar para trás. O leopardo-das-neves está praticamente extinto devido à alta procura de seus ossos, usados pelos chineses em diversos produtos farmacêuticos (crendices afirmam que os mongóis os usavam em feitiçarias). Para regozijo da criatura, entretanto, a sra. X lhe contou que havia um raro exemplar no zoológico da cidade. As lendas também relatavam que o leopardo-das-neves tinha a capacidade de adotar a aparência de um homem.
6.
Depois de apreciar o estrago feito no gato pelos cães, o taxista teve mais uma de suas ideias, como afirmou no testemunho. Armado com um saco, começou a caçar felinos que infestavam a fábrica abandonada. Os miados daqueles malditos gatos levavam seus cães à loucura, conforme relatou. Na primeira tarde de caça conseguiu pegar três deles. Eram muito ariscos, impossível pegar mais. No passeio daquele mês, o taxista colocou os bichanos no porta-malas do automóvel e saiu com os cães. Era uma noite de lua cheia, e ele seguiu pela rodovia Anchieta até chegar a uma entrada que dava num bosque recôndito. Por ali havia um lago, e a vegetação não era tão cerrada, permitindo que caminhasse entre as árvores sem muito perigo de se ferir nos galhos ou de resvalar numa ribanceira oculta pelos arbustos rasteiros. Foi naquele lugar que o taxista libertou o primeiro gato do saco e acompanhou com regozijo a caçada empreendida pelos rottweilers. O bichano foi alcançado pelos dentes do cão mais velho quando escalava o tronco de um pinheiro e não escapou por muito pouco. Teve a barriga estraçalhada e suas tripas cobriram a grama verde e brilhosa, conforme descreveu sem esconder sua satisfação. A noite era fria, e um sopro de ar quente subiu do interior da carcaça aberta enquanto o cão revirava a cabeça e a jogava para lá e para cá como se verificasse se ainda restava alguma vida dentro daquilo, daquele saco de ossos. O gato seguinte foi mais desafiador, pois ao retirá-lo de dentro do saco o taxista foi atingido no antebraço por suas garras cortantes. Os cães, exasperados pelo ferimento causado no dono, lançaram-se ao encalço do felino, que desapareceu entre as folhagens. Latindo em desespero e revirando a parte baixa do matagal, os rottweilers penetraram os arbustos, deixando para trás o taxista com seu braço direito coberto de sangue. Após cinco minutos de intensa refrega, um dos cães saiu de dentro de um bambuzal carregando o animal morto na boca, que depositou aos pés do taxista. O terceiro gato mal atracou suas quatro patas no chão e foi alvejado por uma patada do cão mais jovem da matilha. O taxista considerou aquela eficácia uma evolução dos talentos de caçadores de seus animais, além de considerável prova de fidelidade, e voltou para casa bastante orgulhoso deles.
Todo dia a sra. X desinfetava a criatura. O trabalho era muito delicado, e se iniciava na tentativa de convencê-la a se despir. Envergonhada de sua aparência, a criatura sempre vestia capa de chuva vermelha com capuz, calças largas e galochas dentro de casa. Primeiro, a governanta limpava a pele da criatura com água boricada e algodão. As feridas se esparramavam por todo o corpo, tendo ela contato com a luz diurna ou não. Eram inflamações purulentas que surgiam de um dia para o outro como se o corpo dela estivesse em constante estado de erupção. Apareciam nos pontos de contato da pele com a cama quando a criatura se deitava ou com a cadeira quando se sentava, mas também no rosto e até mesmo na delicada penugem que lhe encobria as córneas. As mutilações em suas mãos eram terríveis, e ela relutava em tirar as luvas de couro. A maior parte do tempo a criatura estava coberta por feridas de diferentes tonalidades de cor, do vermelho mais vivo das feridas recém-surgidas às cascas quase negras de sangue coagulado dos machucados de três dias ou mais. Parecia uma pintura abstrata cujo pintor tinha desistido a meio caminho, colocando-a de lado. Seus olhos viviam inflamados por conta das irritações nas córneas e podiam até mesmo sangrar. Depois de limpar as cascas com cuidado, a sra. X se dedicava aos ferimentos infeccionados. Havia um deles na testa da criatura que parecia se renovar a cada dia. A ferida aparecia e logo infeccionava. Era enorme. Depois que a sra. X conseguia eliminar o pus, quase desaparecia com o uso de remédios secativos. Tornava-se uma cicatriz rombuda. Passados um ou dois dias, porém, a ferida retornava com a mesma intensidade. A cicatriz reabria, parecendo ter vida própria, dando lugar a um novo ferimento em forma de boca. Era difícil até mesmo a uma enfermeira experiente como a sra. X não sentir asco. Mas isso não a preocupava, pois o Senhor estava ao seu lado. Ela realizava as limpezas como parte de sua missão. O que a comovia de verdade era a bravura da criatura, que não emitia um só gemido ao longo do tratamento. Durante a limpeza, a sra. X contava histórias para distraí-la da dor. As mais apreciadas eram as histórias do leopardo-das-neves. Era uma criatura abençoada, disso não havia dúvida. Contudo, a sra. X temia que hora ou outra aquela boca na testa lhe murmurasse algo que ela não gostaria de ouvir.
i exposição mundial de retratos do leopardo-das-neves –
episódio um, no qual um vilarejo da China ou talvez da Rússia é atacado
por bandidos ou quem sabe por uma besta selvagem.
Era uma vez um antigo vilarejo acho que da China, não, não, da
Rússia, em que as pessoas não conseguiam mais ter paz devido aos
bandidos que o rondavam. Os crimes dos bandidos eram tão
sanguinários a ponto de despertarem nos habitantes a suspeita de que se
tratava de uma fera, é, de uma fera, e não de seres humanos. No entanto,
eles se perguntavam qual interesse um animal selvagem poderia ter por
bens humanos como dinheiro e vestimentas. Com o passar do tempo e a
sucessão de barbaridades, a cidadezinha deixou de atrair visitantes e
novos moradores. A fama de lugar violento se espalhou por toda a
região, assim, levada pelo vento, e ninguém mais pôde visitar os parentes
e amigos que ali viviam. Os assaltos continuaram, porém, e começaram a
ocorrer cada vez mais perto das imediações urbanas. A família de um
pastor foi dizimada pelos bandidos, que, além da vida, lhes roubaram os
pertences, cabras e carneiros e a única vaca leiteira que criavam. Os
corpos do pastor e de seus familiares foram encontrados exangues.
Estavam intactos, e apresentavam marcas de dentes no pescoço. Sim, uns
furos de dentes. Os habitantes do vilarejo suspeitaram então que a
chacina devia ter sido causada por um ataque do leopardo-das-neves, um
animal que podia adotar a aparência humana. Todos começaram a
imaginar que era uma vingança da fera, muito caçada naquela região
para alimentar a indústria de peles. Para se fazer um só casaco eram
necessários quatro ou cinco couros intactos, sem quaisquer perfurações
de balas ou de outras armas. Por isso, devido à caça incessante, os
leopardos-das-neves se tornaram cada vez mais raros. Foram
desaparecendo. Certa noite, um grupo de valentes do vilarejo resolveu se
unir e enfrentar os bandidos. Esses homens eram caçadores famosos e
temidos em toda a região. Passaram a vida caçando leopardos-das-neves
e conheciam as montanhas que circundavam o vilarejo. Se existiam
homens que podiam localizar os bandidos e matá-los, ah, eram aqueles.
Além disso, conheciam os hábitos dos leopardos-das-neves e, se os crimes
tivessem sido cometidos por um deles, eles descobririam. Naquela manhã,
os caçadores saíram da cidade montados em seus cavalos. Ao longo do
dia, rumaram à cadeia de montanhas do Altai, onde achavam que os
bandidos se escondiam, e acamparam no sopé. Contudo, dois dias após
terem partido, não se sabia notícias dos caçadores. Seus familiares
começaram a ficar preocupados com tanta demora. Passada uma
semana sem novidades, o prefeito resolveu enviar um mensageiro ao local
do acampamento. Era sempre naquele lugar que os caçadores paravam
antes de escalar as montanhas e também depois, ao descerem, quando
precisavam de um bom local para retirar a pele dos leopardos-das-neves.
Aqueles animais têm um belo couro, branco e meio acinzentado, que
coisa linda de morrer. Sua cor serve para que se camuflem nas altas neves
das montanhas onde vivem. Têm o pelo mais longo do que o de outros
felinos de mesmo porte, e pequenas manchas em forma de rosetas, assim,
que se esparramam por toda a extensão da pele. Suas patas são felpudas
e macias, não deixando rastros na neve. Quando o mensageiro chegou ao
acampamento, encontrou os cadáveres dos caçadores. Haviam sido
assassinados e apresentavam sinais de dentadas no pescoço. No entanto,
ao contrário dos pastores mortos anteriormente, os caçadores mais
sanguinários tinham parte de seus corpos devorados, e suas entranhas
arrancadas. Não havia nenhum sinal delas nos arredores, nem ao menos
marcas de sangue. O estafeta então retornou à cidadezinha e relatou a
tragédia ao prefeito. Os familiares dos caçadores ficaram transtornados.
Depois do ocorrido, porém, os assaltos cessaram. De uma hora para
outra. Passaram-se dois, três meses e nada mais aconteceu. Um dia,
chegou um mascate à cidade. Todos os habitantes o cercaram, mas ele
afirmou que fizera uma viagem tranquila e sem sobressaltos através das
montanhas. Nenhum sinal dos bandidos, ele disse, retirando suas
mercadorias do lombo do burrico. Tivera, entretanto, a sensação de estar
sendo observado do alto, ao atravessar a ravina. O mascate atribuiu o
fato, talvez, à presença distante de algum animal que o acompanhava e
ao burrico, na longa ravina usada na descida das montanhas. Na
ocasião, o mascate sentiu grande opressão sobre os ombros, tornou-se
melancólico, cantou canções do passado longínquo e se lembrou de seu
pai e de sua mãe, ambos mortos havia muitos anos. E nunca mais se
falou do assunto naquela região, acho que da China. Não, não. Da
Rússia.
7.
Conforme o grupo de visitantes enveredava pelas trilhas do zoológico, mais e mais parecia que penetravam uma floresta muitíssimo distante da civilização. Era como se ingressassem em outro mundo. Várias pessoas do grupo tentaram convencer a criatura a tirar a capa e as luvas. Ela apenas se esquivou, virando o rosto para o outro lado. Ao ver o capuz vermelho e a velha, a veterinária lembrou daquela historinha e se perguntou em que momento o lobo se juntaria ao elenco. Todos consideraram a criatura tímida e a deixaram em paz. A lua promovia um espetáculo na escuridão. O programa de visitas ao Nocturama previa que entrassem na mata e se aproximassem dos espaços habitados por animais de hábitos noturnos pouco explorados pelos visitantes diurnos, que trilhavam o calçamento usual. O grupo ficaria à espreita em meio às folhagens para não atrapalhar as atividades dos bichos, e assim poderia assisti-los em seu convívio, completamente alheios à noção de que eram acompanhados. Aquela era a única forma de vê-los fora das grutas e das tocas onde se escondiam ao longo do dia, afirmou a veterinária em seu testemunho. A primeira parada seria uma visita ao setor de animais de rapina. Carcaças putrefatas eram jogadas em setores especiais do parque para alimentar corujas, águias e outras aves carniceiras que ali viviam, além dos urubus que pertenciam àquele ambiente. Com isso, a sra. X duvidou que a experiência pudesse ser interessante, conforme alegou em seu depoimento. No entanto, os integrantes do grupo estavam animados. A etapa seguinte da visita seria observar os hábitos dos répteis. Haveria inclusive uma visita ao serpentário, onde poderiam tocar uma serpente. Quando a sra. X traduziu baixinho o que a veterinária tinha anunciado, a criatura apertou com força a sua mão, e a governanta notou naquela reação uma rara manifestação de júbilo.
A rotina do trabalho noturno do taxista era entediante. Não fosse seu apreço pela música erudita, que ele tardou a conhecer até descobrir uma rádio que só tocava aquilo, morreria de marasmo. De início, o taxista não tinha ponto fixo em nenhuma esquina da cidade, mas esta não era uma opção rentável. Em algumas noites de sorte ele podia pegar vários passageiros. Em geral, porém, não passavam de bêbados ou de prostitutas em final de noite que lhe propunham trajetos curtos, sem valer a pena. Nas poucas ocasiões em que o taxista vagou por bairros mais distantes em busca de passageiros, conseguiu apenas ser assaltado duas vezes. Essa possibilidade o levou a frequentar apenas bairros boêmios da cidade, lugares repletos de bares pelos quais vagava um contingente de alcoólatras de classe média necessitados de transporte. Com a irregularidade de ganhos advinda desse jogo incerto de espera em frente às casas noturnas, entretanto, o taxista desistiu e arranjou um modo de se integrar a um sistema de radiotáxi, cujo funcionamento era simples: havia uma central de rádio que reunia todas as chamadas telefônicas e localizava os automóveis que se situavam mais próximos dos pedestres interessados. Com isso, o taxista pôde ganhar tempo parado em um ponto exclusivo. Nesse lugar ao menos podia ler os textos sobre música erudita dos encartes de cds que começou a comprar nas bancas de jornal, ou então tomar café enquanto aguardava. Havia semanas em que a única voz que ele escutava — exceto as quatro ou cinco palavras que designavam os destinos dos passageiros — era a da telefonista. Nessa época, passou por sua cabeça a sensação de que chegaria o dia em que ele não mais reconheceria a voz humana. Assim, em seu novo trabalho o tempo parecia passar um pouco mais devagar e lhe diminuía a sensação de caos interno sentida ao vagar à noite pelos bairros, avenidas, pontes e ruas da cidade esvaziada de gente. Contudo, o fato de permanecer ouvindo música e lendo jornais do dia anterior não amenizava a angústia que sentia por deixar seus cães sozinhos. A preocupação que o taxista sentia pelos cães era comparável somente àquela sentida por um pai em relação aos filhos.
A empresa administradora continuava a fazer depósitos com regularidade. Com isso, compras de mantimentos eram feitas por meio do serviço de entregas do mercado coreano da rua Três Rios, no Bom Retiro. Uma tarde, ao receber os produtos, a sra. X conseguiu arrancar algumas frases do jovem entregador. O rapaz era bastante tímido, o que, aliado à sua pouca fluência em inglês ou em português, talvez tenha causado mal-entendidos ao longo da conversa com a governanta. Não se exclui a possibilidade de que o mesmo tenha ocorrido em seu depoimento. Ele disse à sra. X que a considerava muito simpática, mas que não gostava de fazer entregas naquele endereço. O casarão não era bem-visto no bairro, e corriam muitas lendas a seu respeito. Aparentemente, o imóvel pertencia a uma antiga família de bruxos russos. Nenhum integrante da família era visto fazia tempos, entretanto, e durante alguns anos se imaginou que estivesse abandonado. Até que surgiu a sra. X e, com ela, novos pedidos de entrega. Dizia-se que no casarão também vivia uma criança, e que a sra. X era responsável por ela. Mas ninguém nunca a vira. O entregador gostaria de saber se aquilo era verdade ou boato, e por que a criança nunca era vista indo à escola, por exemplo, ou então saindo de casa. A sra. X também despertava a curiosidade dos vizinhos, e alguns diziam que ela era mais uma bruxa e que a outra pessoa não era uma criança, e sim uma velha. Mas não o entregador, que a considerava muito simpática, como afirmou em seu testemunho. Por outro lado, seus colegas do mercado coreano engrossavam a boataria quando não tinham o que fazer, nos intervalos das entregas. Eles costumavam inventar muitas histórias, mas não somente acerca da sra. X. Entre os boatos prediletos dos jovens entregadores estava uma história sobre judeus ortodoxos que perambulavam à noite pelo bairro. Diziam que eles pertenciam a uma sociedade secreta de místicos que se reunia nas ruínas do antigo teatro abandonado da rua Três Rios. Diziam que à noite eles podiam ser entrevistos através das janelas embaçadas do teatro com seus enormes chapéus negros sob a luz de velas. Contavam que celebravam cerimônias macabras no lugar. Que sacrificavam crianças e animais. Os entregadores do mercado coreano eram muito ignorantes e solitários, não tinham namoradas e por isso, para matar o tempo, ficavam inventando histórias sem pé nem cabeça. De certo modo, também pertenciam a uma sociedade secreta, a dos solteiros sem perspectiva. Mas não o jovem entregador, pois ele tinha uma namorada, conforme afirmou em seu depoimento.
8.
Depois de atravessarem um trecho escuro do parque, as pessoas do grupo entraram no serpentário. O lugar lembrava uma estufa esquecida no meio da floresta. Serpentes de diversas famílias se esparramavam pelo jardim e a sra. X, ao se deparar com o cenário, pensou que o paraíso bíblico não devia ser muito diferente. Ela só esperava que nenhuma daquelas víboras fosse o demônio disfarçado para tentá-la ou à criatura. A sra. X tinha uma missão a cumprir naquela noite e nada a desviaria de seu calvário. A veterinária começou então a dizer quais eram as proveniências dos répteis preservados no Nocturama e a descrever seus hábitos alimentares e outros aspectos interessantes da vida das cobras. Entre as pessoas do grupo era possível ouvir manifestações de satisfação e de curiosidade, enquanto a veterinária apontava ora uma cascavel, ora uma jararacuçu. Ao ver os animais, o grupo deixava transparecer seu nervosismo. A criatura, porém, continuava calma, com as mãos enluvadas nos bolsos e o capuz vermelho cobrindo sua cabeça e o rosto. Então todos enveredaram por um corredor ainda mais escuro e coberto por samambaias. Nesse momento a sra. X pensou ter visto o serpentear de víboras soltas entre as plantas. A veterinária seguia adiante, explicando que agora veriam uma rara píton birmanesa albina. Ela também disse que as pessoas poderiam tocá-la para sentir sua pele fria e seca, afirmação que recebeu murmúrios de reprovação de alguns e de excitação de outros. A sra. X sentiu enorme curiosidade de conhecer de perto uma píton birmanesa albina e disse isso à criatura, que não emitiu nenhum sinal. Quando o grupo se acercou do local onde a serpente ficava, a veterinária contou a história de um jovem tratador de cobras que acreditava ter o poder de se comunicar com um animal semelhante àquele. O rapaz trabalhava num zoológico da Nova Zelândia, e começou a delirar que a serpente era sua melhor amiga. Esse é um fenômeno muito comum entre tratadores de animais selvagens, afirmou a veterinária, pois em sua solidão acabam esquecendo da real natureza das feras. Certa noite na qual se encontrava sozinho no zoológico, o tratador entrou completamente nu na gruta onde a píton birmanesa albina vivia. No dia seguinte, após encontrar as roupas deixadas do lado de fora, a segurança do zoológico foi obrigada a sacrificar o animal, que devorou o tratador durante a noite. Seu corpo foi retirado do estômago da serpente quase intacto, apenas recoberto por uma gosma digestiva. Entristecido pela morte, o rapaz ainda sorria. Exclamações de nojo se ergueram em uníssono outra vez. A sra. X apertou a mão da pequena criatura. Mas a veterinária alegou que ninguém devia se preocupar, pois a píton birmanesa albina que eles veriam era um animal domesticado e habituado à presença humana, embora tivesse hábitos noturnos. Os olhos da criatura brilharam ao ouvir a governanta lhe traduzir isso, afirmou a sra. X em seu depoimento. A píton birmanesa albina havia pertencido a um circo, e fora entregue ao Nocturama para ser cuidada. Isso aconteceu depois que proibiram o uso de animais em espetáculos circenses. A veterinária então afastou um arbusto e as pessoas puderam ver a serpente branca enrolada. Devia ter sete ou oito metros, a sra. X calculou, talvez mais. Era gigantesca. Um rapaz que estava na dianteira do grupo obedeceu à veterinária quando ela levantou a cabeçorra do animal, tocando-a com as mãos. Depois, outra pessoa repetiu o gesto, e assim todos foram se aproximando e tocando a píton birmanesa albina. Logo após a sra. X fazer o mesmo, a criatura se aproximou na tentativa de imitá-la com as luvas, mas a píton birmanesa albina se soltou com um movimento violento das mãos da veterinária e deslizou, desaparecendo entre a vegetação cerrada dos fundos da estufa.
O jovem entregador dizia a seus companheiros do mercado coreano que tinha uma namorada. Os outros entregadores, entretanto, sabiam que aquilo era mentira, e caçoavam dele pelas costas. O jovem entregador sempre fora um rapaz muito tímido. Não que não tivesse tentado namorar alguém, pois ele havia feito isso. O problema era que toda vez que se aproximava de uma garota, ela acabava rindo da cara dele. E isso lhe fazia muito mal, fazia-o se sentir menos que um ser humano, alegou em seu testemunho. Era como se ele fosse um animal. O emprego que arranjou no mercado lhe dava alguns trocos, e, caso arrumasse uma garota, poderia até mesmo levá-la ao cinema. Mas era difícil. O entregador provinha de uma família muito pobre que viera a São Paulo trabalhar na confecção de um tio rico. Sua mãe, seu pai e suas irmãs faziam isso. Mas não ele, pois preferiu fazer entregas para o mercado de seu padrinho. Para ver se conseguia namorar, o entregador começou a frequentar um grupo de jovens que se reunia em uma igreja do bairro. A paróquia era a de São Kim Degun, sustentada por comerciantes ricos do Bom Retiro. Nas missas havia mais de uma garota bonita, porém o entregador logo arranjou a sua preferida. Era uma moça risonha que auxiliava na leitura dos evangelhos. Estava sempre acompanhada de outras meninas da mesma idade e de meninos de idêntica classe social. Isso não fez o entregador desistir, conforme depôs. Em casa ou no intervalo das entregas ele sonhava com a garota, com suas roupas brilhantes e com seu corte repicado. Os adolescentes coreanos têm um modo ousado de se vestir, influenciado pelas revistas de moda japonesas. E a garota tinha dinheiro, além de ser filha de gente do ramo da confecção, o que fazia com que se vestisse com exagero. Havia uma minissaia repleta de pedrinhas brilhantes que ela costumava exibir nos encontros nos quais ensaiavam músicas celebradas nas missas e que enlouquecia o jovem entregador. Debaixo dos lençóis, à noite, ele imaginava a si próprio arrancando aquela saia e depois fazendo sexo com a garota da paróquia de São Kim Degun.
i exposição mundial de retratos do leopardo-das-neves –
episódio dois, no qual um jovem leopardo-das-neves se cansa da solidão
das montanhas e se aproxima dos seres humanos, mesmo com certa
repugnância.
Era uma vez um leopardo-das-neves que vivia só no alto de uma
montanha do Tibete, talvez da Rússia. É, acho que da Rússia. Todos os
seus parentes tinham sido caçados, e só ele, graças à sua bravura e
juventude, sobreviveu naquelas paragens distantes e esquecidas pelo
homem. Ao leopardo-das-neves não restava outra coisa a não ser caçar
ratazanas e aves que percorriam as rochas aquecidas pelo sol enquanto a
neve derretia. Passava o verão e chegava outro inverno e o leopardo-das-
neves sentia-se a cada ano mais solitário. Então um dia ele conheceu a
cobra. Como não lhe apetecia nem um pouco comer cobras (ele sentia
um bocado de nojo delas), resolveu conversar com aquela. A cobra,
apesar de sua aparência asquerosa, mostrou-se grande conversadora.
Além disso, também era sábia, e argumentou ao leopardo-das-neves que
não havia sentido em passar a existência naquele pico de montanha com
o pescoço enfiado nas nuvens. Existiam, afinal, diversões muito mais
interessantes do que acompanhar a neve derreter, a rocha esquentar, o
céu despencar em forma de água, a água congelar e a neve voltar a cobrir
a terra e depois derreter, esquentar, despencar, congelar e derreter de
novo. A vida não era só aquela repetição tediosa. O leopardo-das-neves
poderia, quem sabe, acompanhar os seres humanos que viviam no
acampamento mais ao norte, no sopé da montanha. O jovem felino logo
se sentiu interessado. Humanos?, pensou, mas os humanos são tão
perigosos, meu avô sempre dizia que eu não devia me aproximar deles.
Meu avô que, aliás, foi morto por um humano que acabou arrancando
sua pele. Meu avô que um dia acabou dando sopa ao passear perto
demais dos humanos. Teu avô foi até lá porque necessitava fazer isso,
disse a cobra, porque não tinha outra saída. Porque esse é o nosso
destino, uma hora ou outra nos aproximarmos dos humanos. E agora
chegou a sua vez de vê-los de perto. Eles são um espetáculo, você vai ver.
Vê-los sofrer suas mesquinharias e praticar suas pequenas violências e
sua grande crueldade é uma diversão infinita, disse a cobra. Depois de
conhecê-los e ao seu espetáculo de miséria você vai achar esta montanha
congelada o lugar mais chato do universo, ela disse, pode apostar. E
assim foi. Um dia após a grande nevasca, o leopardo-das-neves desceu as
montanhas do Altai, onde vivia. Desceu pé ante pé, ou melhor, pata ante
pata, disfarçado em meio à brancura da neve que ocupava tudo o que sua
visão podia abarcar. Ele não era visto por ninguém, e começou a
acompanhar o dia a dia do acampamento. A fumaça das chaminés
fazendo desenhos no céu. As idas e vindas das crianças se divertindo em
volta da fogueira. As mulheres derretendo em grandes fogueiras a água
do riacho congelado, carregando baldes muito maiores do que elas
próprias. Como podiam ter força suficiente para aquilo com sua
aparência tão frágil? Os homens voltando da caça sem a comida
necessária para alimentar toda a tribo. Crianças definhando e
definhando. Velhos abandonados à míngua para morrerem de vez.
Homens se tornando violentos e sanguinários e insaciáveis. Mulheres
murchando e murchando cada vez mais. Era incrível como aqueles seres
tão pretensiosos e arrogantes insistiam em lutar em vão contra a sua
animalidade ancestral. Realmente, aquilo era muito, muito divertido. A
cobra estava cheia de razão, os seres humanos eram diversão garantida.
Nada do que faziam supunha qualquer sentido. Mas então, um dia, o
leopardo-das-neves ouviu um ruído estranho vindo de um dos barracos
do acampamento. Era um som agudo e melancólico, e ouvi-lo lhe dava
uma grande sensação de tristeza. O som vinha de um barraco isolado,
onde viviam uma mulher, o marido e sua criança. Burlando todas as
regras de sobrevivência que seu avô tinha lhe ensinado, o leopardo-das-
neves se aproximou devagarinho do lugar e olhou o que havia em seu
interior. E lá estavam a criança estendida sobre o catre de pele de
carneiro e a mãe sentada a seu lado, velando-a. A criança estava morta, e
o ruído estranho que atraiu o leopardo-das-neves emergia, agora ele
podia ver, das profundezas da garganta da mulher com grande, infinita
beleza, atingindo o leopardo-das-neves direto no coração. Ela estava
cantando.
9.
As lendas contadas pelo entregador a respeito do casarão deixaram a sra. X intrigada. Desde a sua chegada ela sentiu certo pavor em relação àqueles incontáveis retratos de judeus esparramados pelas paredes da casa. Em algumas soleiras e nos patamares da grande escadaria de madeira do sobrado, era possível encontrar símbolos esculpidos, em geral tetragramas aparentemente em hebraico. A governanta se persignava cada vez que passava por uma marca daquelas. Na biblioteca existiam outros símbolos emoldurados, e um deles trazia dois corpos masculinos nus entrelaçados por meio de uma túnica. De pé, o descabelado homem branco retribuía com fixidez o olhar do espectador. De costas e virado de cabeça para baixo, o rosto do homem negro não podia ser visto. A posição dos dois corpos lembrava uma letra X e eles tinham seus genitais em contato, a sra. X afirmou no testemunho. Era tão indecente que lhe fazia mal só de vê-la, por isso ela fingia que a imagem não existia. Mas nem sempre isso era possível. Em certas ocasiões, quando espanava as prateleiras, seus olhos caíam ao encontro dos olhos da imagem dependurada na parede parecendo zombar dela. A sra. X então evocava o nome do Senhor e saía da biblioteca. Ela começou a se perguntar se aqueles símbolos teriam a ver com os judeus das fábulas dos entregadores do mercado coreano e suas reuniões secretas no teatro abandonado da rua Três Rios. Então a sra. X viu um vulto no final do corredor superior que dava nos quartos de dormir. Não passava de uma sombra, mas era possível ver que se mexia. Vencendo o próprio medo e com a mão direita segurando com força o crucifixo no peito, ela caminhou para o lado do vulto. O final escuro do corredor se misturava ao papel de parede cinzento, mas mesmo assim a sra. X percebeu que a sombra também caminhava em sua direção, aumentando de tamanho. Ao chegar na metade do caminho, a sra. X percebeu que aquele vulto móvel não passava do seu próprio reflexo no espelho do final do corredor.
O taxista seguia o caminho de volta ao zoológico quando os cães começaram a farejar e a latir no banco traseiro do automóvel. Aquele comportamento era bastante incomum. Quando saíam para passear, os cães costumavam se manter quietos até chegarem ao destino. Nessas ocasiões, o taxista sentia prazer em fantasiar que se concentravam para a caçada que em breve aconteceria. Era como se estivessem mentalizando o futuro em silêncio. Os cães tinham na cabeça a imagem de um gato ou de uma lebre ou de uma cabra e, ao fazer isso, conseguiam adivinhar os movimentos que suas presas fariam ao procurar fugir. Assim, os cães podiam antecipá-los. Era por isso que ficavam em silêncio. Não havia animal que pudesse fazer frente aos seus rottweilers. Mas naquela noite eles estavam inquietos. Tudo bem que a lua estava mais cheia do que nunca, e aquilo afetava os animais, relatou o taxista. Porém eles não estavam uivando para fora do automóvel, e sim resfolegando no estofado do banco, que já estava prestes a se rasgar. E aquilo não podia ser. Se percebessem na cooperativa que o taxista transportava animais no táxi, seu emprego estaria comprometido. Por causa dessa hipótese, ele parou o automóvel no acostamento. Os cães, contudo, não pareciam se dar conta de que o dono tinha estacionado, e continuaram a se esfregar em círculos, completamente descontrolados. Somente ao observá-los pela janela de trás, o taxista notou que os cães disputavam entre si o local onde a criatura havia sentado.
Uma noite, enquanto procedia à limpeza e contava mais uma de suas aventuras do leopardo-das-neves, a sra. X notou que as feridas da criatura haviam se multiplicado. Antes não existiam em tal quantidade e não eram tão profundas. Não sangravam profusamente, a não ser a ferida da testa, que nunca se fechava. Contudo, as novas adquiriam coloração gangrenosa em poucos minutos, um roxo-escuro semelhante ao de sangue pisado. O lençol retirado da cama da pequena criatura parecia uma enorme gaze de um ferimento em pleno processo hemorrágico. Apavorada pelo volume de sangue, a sra. X pensou que devia levá-la a um hospital. Aquela condição inédita superava por completo os seus conhecimentos de enfermagem. Ela necessitava de auxílio médico. Dos instrumentos de um ambulatório moderno, e não das velharias enferrujadas à mão. Ao ouvir isso, porém, a criatura relutou. Não escreveu nenhum bilhete, como fazia quando tinha solicitações a fazer, apenas soltou um gemido fundo e dolorido, e abriu um largo bocejo, deixando entrever que não lhe restava mais língua. A sra. X, horrorizada — nada a incomodava mais do que constatar o estágio avançado da enfermidade que afligia a criatura —, lembrou-se então que, de acordo com o contrato assinado com a empresa administradora, não poderia levá-la a um pronto-socorro. Lembrou-se também de que no contrato constava um telefone destinado a uma situação emergencial como aquela. Depois de trocar os lençóis, a sra. X foi até o quarto que ocupava no piso inferior e procurou o papel na gaveta da penteadeira. Lá estava. De imediato, ligou para o número indicado. Alguém atendeu, mas nada disse. Ela podia ouvir a respiração no bocal do aparelho do outro lado, e falou o que estava ocorrendo. Após isso acontecer, o telefone foi desligado. Passados quinze minutos, tocaram a campainha da entrada. A sra. X atendeu a porta e entraram dois homens em silêncio, seguidos por um velhinho de olhar afetuoso e grandes sobrancelhas brancas. Eles conheciam muito bem o casarão, pois, nem bem a governanta passou a chave, subiram ao segundo piso e entraram no quarto da criatura. A sra. X esperou do lado de fora, no corredor. A porta permaneceu fechada. Passaram-se uma, duas horas. Então a porta abriu e os homens, três judeus de ternos pretos e chapéus felpudos iguais aos usados pelos cossacos e idênticos ao homem emoldurado nos retratos da sala irromperam quarto afora e desapareceram escada abaixo. A sra. X não deixou de notar que o velhinho, que devia ser o médico, pois carregava uma valise com instrumentos, claudicava ao caminhar. Devia ter mais de noventa anos. Ao entrar no quarto, a sra. X percebeu que a pobre criatura havia melhorado e estava adormecida. Existia um odor no ar que de início ela pensou se tratar de cânfora, mas logo percebeu ser um intenso perfume de flores.
10.
Na tentativa de se aproximar da garota que cortejava, o entregador do mercado coreano entrou para o grupo de jovens da igreja de São Kim Degun. Logo na saída da primeira prática de leitura de versículos ele percebeu que não tinha nada em comum com o restante do pessoal. Os automóveis dos pais dos outros integrantes eram caros. Depois que os adolescentes desapareciam no interior escuro dos Daewoos e Kias, o entregador restava solitário na calçada em frente à igreja. O caminho até sua casa no bairro do Pari exigia que pegasse duas conduções. Ele chegaria lá e haveria um prato de sopa no forno à sua espera. Sua situação não era de todo má. O mundo podia ser muito pior do que aquilo. Ele poderia, por exemplo, ter sido obrigado a viver com sua tia no interior. Ele odiava aquela velha. O entregador suportaria tudo, entretanto, da sopa rala de soja ao trabalho medíocre no mercadinho, ele suportaria tudo, até mesmo viver com a tia, se conseguisse conquistar a garota da paróquia de São Kim Degun. No trajeto até o ponto de ônibus, o entregador passou em frente ao casarão da rua Talmud Thorá. As janelas do andar do piso superior do sobrado estavam abertas e as luzes acesas. Ele parou diante do portão e ficou observando por uns minutos. No vitrô da sala dava para ver uma pessoa do tamanho de uma criança, devia ser a tal das histórias contadas pelos outros entregadores. Pela silhueta, ela usava capa de chuva com capuz e galochas mesmo estando dentro de casa. Pela altura, devia ter uns dez anos, mas havia algo de estranho nela, o entregador não sabia dizer o que era, conforme afirmou em seu testemunho, pois ao se mover não parecia uma criança. O entregador pensou ter visto uma cauda colada à silhueta. Seria um cachorro? Acabaria perdendo o ônibus se ficasse um minuto a mais parado ali. Então o entregador viu a sombra da sra. X subindo através dos vidros da escadaria no interior do casarão. Ele olhou de novo para a janela da sala do piso superior e percebeu o que havia de esquisito na criatura: seu corpo parecia mesmo o de uma velha encarquilhada, não lembrava uma criança, exceto talvez pela estatura. Movia-se vagarosamente como se sentisse dores ao caminhar. Parecia estar bem perto de morrer. A sra. X então ergueu a criatura no colo. O rapaz consultou seu relógio. Teria de aguardar o próximo ônibus.
Na manhã seguinte, ao atender uma encomenda na rua Três Rios, o entregador do mercado coreano viu dois judeus suspeitos entrando no velho teatro abandonado. Os homens estavam maltrapilhos, ao contrário de outros judeus do bairro, e caminhavam como se o Alien ou então o Predador ameaçassem pisar seus calcanhares. O entregador sentia arrepios ao passar em frente àquele lugar, pois o cheiro de mofo lhe atacava a rinite alérgica, porém mesmo assim resolveu segui-los. Naqueles dias, seus colegas do mercado andavam muito excitados com histórias de judeus malucos. Diziam que um homem conhecido por Rabino havia sido preso no Bom Retiro. Tinha saído no jornal e tudo. Ele era procurado em Israel por torturar e abusar sexualmente de crianças. O israelense era um falso rabino, claro, entretanto dois cúmplices tinham sido presos junto com ele. Contudo, os outros funcionários do mercado alardearam que nem todos os seguidores do falso profeta estavam na cadeia, e que alguns andavam à solta por aí, escondendo-se no labirinto imundo do bairro. O Rabino afirmou à polícia que as crianças pequenas estavam tomadas pelo demônio, e que ele apenas as purificava. Para se tornarem puras elas deviam apanhar, ser amarradas, sofrer queimaduras e comer fezes. O criminoso era o homem mais procurado de Israel, onde fizera tudo isso com oito crianças. Uma delas ainda estava em coma devido aos maus-tratos. O jornal dizia que o Rabino do Demônio havia aliciado quatro seguidores em São Paulo, e que dois deles permaneciam em liberdade. Ao se esconder entre as cadeiras amontoadas do teatro em ruínas, o entregador pensou que os procurados podiam ser os mesmos dois homens que tinham acabado de desaparecer nos camarins dos fundos. Continuando a se esgueirar, ele escalou um camarote lateral e esperou que os dois criminosos aparecessem. Depois de algum tempo, ambos assomaram no palco semiafundado. Murmuravam um ao outro palavras em hebraico. Conversavam. Pareciam homens muito pobres, e suas roupas esgarçadas eram de dar pena. Eles acenderam uma vela e a puseram num caixote de madeira no centro do palco. Depois abriram uma lata de sardinhas e a devoraram num só segundo. Aos olhos do entregador, os homens pareciam dois coitados à espera de uma ordem que nunca viria. Estavam pálidos, e a sombra de suas barbas negras se alongava na parede do velho teatro abandonado. Depois de comer, gesticularam e começaram a falar mais e mais alto, porém o entregador coreano, claro, não podia compreender o que diziam. De repente, um deles sacou um papel do bolso e começou a repetir o que falara antes, com as mesmas pausas e inflexões. Foi então que o entregador considerou que talvez fossem apenas dois atores ensaiando.
O passeio noturno no zoológico havia começado não fazia meia hora. Preocupada com a criatura, a sra. X a carregava nos braços na travessia dos trechos mais difíceis da mata. Devido a isso, eram as últimas pessoas no final da longa fila indiana. Ao atingirem uma área mais escura na qual as árvores tapavam o céu, a sra. X não pôde deixar de se lembrar de um filme a que assistira na juventude, um filme que contava a história de uma mulher que se perdia na selva africana e que depois de ser salva, contra todos os prognósticos, resolvia se suicidar. Ela nunca entendeu a contradição daquela mulher. A impressão era a de que participavam de um safári. Então, orientada pela jovem veterinária, a fila parou de andar. A veterinária pediu que todos permanecessem em silêncio. Que buscassem ouvir os sons da natureza, os cicios de aves e de morcegos, o rastejar de cobras e répteis, o farfalhar de galhos e o vento em Nocturama. A veterinária adotava esse tom épico ao falar, relatou a sra. X, parecia uma atriz meio canastrona. Todos obedeceram. Era impressionante, pois ali parados se tornava impossível captar o menor sinal de que ainda se encontravam não muito distantes do centro da maior metrópole do continente. Nenhum ruído de carros ou de helicópteros, nenhum sinal de outros seres humanos além daqueles presentes. Nenhuma memória do mundo civilizado, a não ser o zumbido de um avião distante. E as estrelas, ah, as estrelas. Ninguém a persegui-las. A sra. X depositou a criatura no solo e ouviu as galochas dela tocando levemente o tapete de folhas secas. Se o silêncio fosse um pouco maior e o ruído ofegante dos visitantes desaparecesse por um segundo apenas, a sra. X teve certeza de que conseguiria ouvir o coração da criatura batendo em uníssono com o do leopardo-das-neves distante do local dois quilômetros parque adentro.