A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves

Joca Reiners Terron · Capítulo 6 de 7

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A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves

6. Mundo animal: Ossos, carótida

6. Mundo animal:

 

Ossos, carótida

 

1.

 

O taxista ocultou o automóvel na curva da avenida Miguel Estéfano antes da entrada do Nocturama. Ao descer, observou os sentidos possíveis e constatou que não era visto. Naquele horário, ele havia se informado, só estava por ali a veterinária do zoológico envolvida com o passeio noturno. Sabia que guardas florestais raramente patrulhavam a região do parque à noite. O taxista então se enfiou entre as ramagens que encobriam a grade e constatou que o buraco permanecia no lugar. Não tinha sido consertado. Os cães continuavam em silêncio no banco traseiro do táxi. Olhavam para seu dono com mansidão. Equivaliam a cordas de um violino prestes a serem tocadas, afirmou o taxista. Na extremidade norte do zoológico, a um quilômetro dali, a veterinária afastou com seu bastão os galhos de um arbusto para que a sra. X e a criatura passassem. A veterinária perscrutou o rosto oculto sob o capuz vermelho, mas nada conseguiu ver. Aquele ser estranho, conforme seu testemunho ressaltou. A moça e seu namorado vinham atrás da criatura, que estacou um segundo para farejar a dor de todos aqueles animais aprisionados, voltando a cabeça na direção do vento. O casal ruminava acerca da criatura. A moça gemia no ouvido do namorado algo apavorante sobre dentes fluorescentes. Brilhavam no escuro, a moça tinha certeza, e reafirmou isso diversas vezes no depoimento. O namorado perguntou à moça se ela não estava gostando do passeio. Ela não respondeu. Prosseguiram o trajeto, penetrando a vegetação espessa do Nocturama. Seguiam para a jaula do leopardo-das-neves. A lua cheia iluminava a trilha como um holofote. Do lado de fora, o taxista retirava os rottweilers de dentro do automóvel. Os três cães giraram em círculos e farejaram a grama úmida e ganiram baixinho de excitação. Um deles urinou num tronco caído, sendo seguido pelos outros. O taxista consultou o relógio de pulso. O passeio noturno havia começado fazia uma hora. Era o momento certo. Ele caminhou até a cerca. Em silêncio, os rottweilers o seguiram. Ao atingirem o limiar do parque, o taxista escancarou ainda mais o buraco na grade, cortando o arame enferrujado com seu alicate. Os cães davam sinais de impaciência. Rolavam no chão, de língua de fora. Farejavam o mato e depois o ar, reconhecendo na distância o odor da criatura que experimentaram no tecido do banco do táxi. Então, assim que o buraco na cerca se tornou grande o suficiente para que o ultrapassassem, o taxista soltou os três rottweilers dentro do Nocturama.

 

Vinte minutos depois, ao atingir a clareira que ficava a quinhentos metros do leopardo-das-neves, o grupo primeiro viu a lua enorme, e então a copa das árvores em círculo refulgindo seu brilho prateado. As estrelas cintilavam e a noite recobria a cidade. Superado o instante de maravilhamento, assustaram-se com o grito dado pela veterinária. No centro da clareira estavam os corpos estendidos de meia dezena de grandes aves. Eram emas que viviam soltas pelo Nocturama. Tinham seus longos pescoços estraçalhados por mordidas de onde o ar saía, ainda quente. Duas delas tiveram as cabeças arrancadas. As condições do ataque que vitimou os animais não podiam ser compreendidas à primeira vista. Inertes sobre a grama, ao seu redor havia pequena quantidade de sangue esparramada. Contudo, os dilaceramentos nos pescoços das aves eram profundos. Poucos predadores podiam causar feridas daquela proporção, talvez um grande felino, mas a veterinária decidiu se calar. Desorientadas, as pessoas começaram a dar sinais de pânico. Um senhor acusou a veterinária de irresponsabilidade por levá-los a um passeio perigoso. Outro ameaçou processar a administração do parque, a prefeitura, o Estado, a República. A moça resmungava ao namorado acerca da presença indesejada daquela criatura no grupo. Não foi ouvida por ninguém, exceto pela sra. X. A situação não melhorou quando, ao procurar contatar a delegacia de Polícia Florestal por meio do rádio, a veterinária percebeu que sua bateria estava descarregada. Depois de examinar os cadáveres, decidiram prosseguir o quanto antes. Havia um abrigo contíguo ao cercado do leopardo-das-neves que poderiam ocupar, informou a veterinária. Todos permaneceriam no local enquanto ela pensaria em outro modo de contatar os guardas. Entre reclamações, os integrantes do grupo tornaram a se organizar em fila indiana. A criatura e a sra. X — que permaneceu quieta durante todo o tempo — foram dispostas no final da fila.

 

Sentado sobre as raízes protuberantes de um jacarandá no meio da floresta, o taxista só conseguia ouvir música. O som de folhas e galhos movidos pela ventania se misturava à terra sendo pisada pelos cães desaparecendo na escuridão. O jorrar da seiva alimentando testemunhos mudos das árvores. O revigorante reproduzir elétrico das sinapses. O halo lunar emitia vibrações compostas de luz e gases que soltavam notas ao se chocar contra a iluminação elétrica da cidade. As bactérias se multiplicando numa orgia constante sobre a pele. A respiração de cada hipopótamo, tigre, rinoceronte, hiena, elefante, chacal e camundongo adquiria ritmo uníssono, em tom resignado de espera. O sobressalto dos primeiros assassinatos atingindo o clímax do movimento inicial. As séries. As notas. Sequências controladas e previstas em busca da aparição do inesperado. O acaso. As trilhas do Nocturama luzindo na mente do taxista como se iluminadas numa grande perspectiva vista do espaço sideral. Os três rottweilers como elementos livres naquela partitura cujo movimento ensandecido à procura de sangue era o verdadeiro motor a impulsionar sua ópera. Assim, tudo retornava ao seu lugar. A selvageria ao selvagem. A condição de vítima ao que é humano. O fim definitivo do aprisionamento. A epifania. Somos pobres animais, temos apenas os dentes, ele falou em seu depoimento. O taxista carregou o tambor de seu revólver .38, e os ruídos metálicos dos encaixes da trava sendo desligada reuniram-se à sinfonia. Para tudo o que queremos fazer, o bem e o mal, temos apenas os dentes, insistiu para si mesmo. O taxista se ergueu. A vertigem do espaço noturno girando em torno de sua cabeça. Deu dez passos para o lado do matagal e o som de seus pés esmagando folhas secas contribuiu para a composição. Apenas os dentes. Então o taxista passou a ouvir as notas musicais emitidas pelos anéis de Saturno quando são atingidos por meteoritos.

 

2.

 

Ao atingirem o posto contíguo à área ocupada pelo leopardo-das-neves, a veterinária procurou acalmar todos. O casal de namorados a preocupava. A moça inspirava cuidados. Era desequilibrada, influenciando o comportamento dos outros. Parte do grupo pertence à associação que patrocina atividades e pesquisas do zoológico. Havia ali alguns senhores que não despertavam a simpatia da veterinária, filantropos cuja arrogância de privilegiados aristocratas era indisfarçável. Gente que exigia de imediato ser colocada fora daquela situação. A mocinha e seu namorado eram filhos de poderosos contribuintes, e se comportavam de modo paranoico. A veterinária suspeitava que os dois tivessem consumido drogas durante o passeio. Houve um momento, quando fizeram uma parada breve, em que os dois se afastaram do grupo. Pode ser que tenham fumado maconha naquela hora, a veterinária afirmou em seu depoimento. Sua suspeita será levada em consideração no tribunal. A veterinária notou que a mocinha lhe daria problemas, como se já não houvesse com o que lidar. Acusou algo de errado com aquela pequena encapuzada, a criatura esquisita que os acompanhava no passeio noturno. A mocinha, provavelmente drogada, descreveu os dentes da menor como fluorescentes. Brilhavam no escuro. Disse ter observado isso cerca de meia hora antes, quando atravessavam a zona mais escura da mata. A veterinária preferiu creditar o comentário da moça ao instante de estresse. Ou quem sabe à maconha? Procurou acalmá-la, mas outras pessoas ouviram suas alegações. A veterinária argumentou que a criatura não demonstrava característica incomum no comportamento, a não ser o fato de usar casaco vermelho com capuz e luvas de couro, o que ela imaginou ser devido ao excesso de zelo de sua acompanhante. De qualquer modo, fazia frio. A criatura era tímida, e ficou o tempo todo no colo da senhora, que a tratava com muita dedicação. Além disso (a veterinária não pôde deixar de perceber), a senhora falava apenas em inglês com sua protegida. Ela então, sem entender por quê, lembrou que treinadores usam o inglês para se comunicar com seus cães. Depois de ouvir as queixas do casal de namorados e assegurar ao grupo que todos estariam fora do parque em alguns minutos, a veterinária saiu em busca do telefone na parede do corredor do abrigo. Tratava-se de um aparelho de rara utilização por parte dos funcionários, e ela torcia para que ainda estivesse em funcionamento. Precisariam dos jipes da Polícia Florestal com urgência para sair da área do Nocturama em que se encontravam.

 

A caminho do telefone, a veterinária abriu o armário destinado a emergências. De seu interior, retirou um fuzil carregado com dardos tranquilizantes. Enquanto fazia isso, lembrou-se do dia em que ela e o tratador capturaram o leopardo-das-neves no interior de sua gruta. Das feridas horríveis em suas patas. De sua estranha mansidão. Parecia que o animal estava à espera de algo maior e inconcebível. Durante semanas a veterinária se sentiu angustiada. Nunca testemunhara, desde sua residência no hospital veterinário, depressão tão severa num animal em cativeiro. Como se sabe, alterações drásticas no comportamento podem ser causadas pelo aprisionamento, pela maternidade e até por incompatibilidade entre casais de espécies provenientes de regiões distintas. Inicialmente, ela considerava que talvez tivesse sido esse o motivo da rejeição da fêmea, trazida do norte da China, ao leopardo-das-neves provindo das Montanhas Douradas do Altai. Mas a morte repentina dela, assim como a automutilação do macho, eram fenômeno além da compreensão. A veterinária se recordou da gravação de um programa de tv no qual falou da tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, e de como não se sentiu à vontade ao fornecer o depoimento. Estranhamente, afinal, pois desde o início da carreira sentia-se à vontade diante das câmeras. Seu anseio secreto era, aliás, um dia ter seu próprio programa de tv, que seria igual àqueles do Animal Planet. Todos diziam que ela tinha o sex appeal necessário, principalmente quando envergava sua roupa cáqui de safári. Mas naquela noite o conjuntinho de caçadora só aumentava sua sensação de ser uma completa fraude. Havia certa revelação que ela não pôde fazer ao programa de tv, proibida pela administração do zoológico de explorar o assunto em público. Enquanto tratavam do animal no ambulatório, ela descobriu que os ossos de seus cotos adquiriram coloração rubro-ferruginosa. Depois de exames para diagnosticar o problema, concluiu-se que o leopardo-das-neves desenvolvera uma deficiência hepática que o impedia de processar enzimas chamadas porfirinas. Com isso, adquiriu hipersensibilidade à luz, daí se abrigar na gruta durante o dia. Devido ao fato, seu pelame ganhou coloração arruivada e começou a cair. Não existia registro anterior de tal patologia em felinos. Era como se o leopardo-das-neves estivesse se desfazendo em pleno ar. Havia se transformado numa mariposa fulva, num inseto noturno arruivado e infeliz.

 

3.

 

Em outros tempos, quando chegou ao zoológico, a veterinária foi incumbida de complexas pesquisas no laboratório de genética, grande responsabilidade se comparada à mera ocupação de guia do Nocturama. De certo modo, trabalhar à noite e longe das vistas do público convencional havia sido uma retaliação imposta pelo administrador, cientista rival que sabia das ambições televisivas da veterinária e de seu consequente apreço por reconhecimento. De fato, talvez ela merecesse castigo ainda mais duro. Era uma cientista rigorosa e de sólida formação, mas infelizmente caráter não vem com o ph.D. Trazida de uma universidade norte-americana, a veterinária recebeu a missão de investigar certa epidemia no parque. A praga desconhecida atacava animais notívagos. Lobos e morcegos, por exemplo, desenvolviam estranhos hábitos de hibernação. Em seu repouso, desapareciam por completo. De início, a veterinária suspeitou que estivessem sendo mortos e que não mais se encontravam nos limites do Nocturama. Contudo, depois de algum tempo, foram localizados. Tinham migrado de cercados e das áreas delimitadas, caso dos lobos que viviam em jaulas semelhantes à ocupada pelo leopardo-das-neves. Não se encontraram explicações para a misteriosa transferência dos lobos. Simplesmente não sabiam como atravessaram as grades. A fêmea do leopardo-das-neves, suspeitava a veterinária, sofrera de uma demência similar. Devido ao fracasso em obter respostas para o ocorrido, a veterinária foi rebaixada a guia, redimindo-se um pouco somente ao resgatar o leopardo-das-neves das profundezas da gruta na qual ele se isolou e a posterior descoberta da enfermidade que o consumia. Antes de ser transferida pelo administrador para os passeios noturnos, porém, a veterinária já havia relacionado o início da praga que consumiu os animais de hábitos noturnos e a si própria com a chegada do leopardo-das-neves ao zoológico.

 

No abrigo, as pessoas aguardavam com aflição o retorno da veterinária. Ouviam passos rápidos na folhagem sob as árvores do lado de fora. O lugar onde permaneciam não passava de entreposto para armazenamento de rações e apetrechos de jardinagem. Não servia para que pernoitassem ali. Não havia naquela fria construção de concreto nem ao menos um banco para que as senhoras sentassem, além de não ser segura para a ocasião. Apenas uma portinhola separava o corredor no qual se escondiam do limiar escuro da floresta. A sra. X estava sentada num canto isolado com a pequena criatura no colo. Sentia-se exausta, não conseguia mais carregá-la. Atônitos, os outros se mexiam como se fossem donos de um só corpo que ia a um extremo e outro do abrigo. Reunidos em torno do casal de namorados, homens e mulheres observavam a criatura adormecida nos braços da governanta. Vozes se embolavam, ecoando no teto baixo do abrigo, e a sra. X não compreenderia o que diziam nem mesmo se pudesse ouvi-los, pois rezava um terço. Ela não podia prever que o passeio resultaria em tantos problemas. Que tipo de animal teria matado aquelas aves? Só Nosso Senhor podia responder, só Deus traria alento, afirmou em sua confissão. A quietude da criatura era tão grande que nem dava para sentir seu coração batendo. Nessas horas a sra. X era tomada de grande ternura, e sentia vontade de acariciá-la, de fazer cafuné como se faz nas orelhas de um cão, apesar de a criatura não ter mais orelhas. De dizer que tudo daria certo e que em breve ela seria feliz. Mas o medo de machucá-la era superior e ela nada fazia. Seu ato final de piedade a livraria de todo sofrimento, tinha certeza disso, conforme testemunhou. Naquele instante a sra. X percebeu a balbúrdia em meio ao restante do grupo. Um homem, o mais arrogante deles, queria sair sozinho para a mata. Dizia que precisava urinar e que não faria isso ali, diante de todos. Sua mulher começou a soluçar, implorando para que não fosse, afinal ninguém se importaria pois uma hora ou outra todos necessitariam urinar. O homem não lhe deu atenção, empurrando-a de lado, e saiu. Depositando com suavidade o corpo da pequena criatura na toalha de piquenique, a sra. X foi acompanhar de perto o que acontecia. Do lado de fora, o homem estava de costas, semiencoberto pelas folhagens. Era possível apenas ouvir seus resmungos e o jato fraco de urina caindo no solo, misturado ao ruído da chuva. Pela falta de vigor, devia sofrer da próstata. Só então, ao ombrear-se com o grupo, a governanta reparou nas expressões alheias. O homem se encurvou sobre o próprio tronco como se fechasse a braguilha. E então, após soltar um grito seco, desapareceu na penumbra da floresta, sendo arrastado por forças invisíveis.

 

Ao retornar ao canto no qual deixara a criatura adormecida, a sra. X percebeu que ela não se encontrava mais lá. A mulher do desaparecido tinha desmaiado, e alguns buscavam socorrê-la. O restante vagava em círculos no corredor mal iluminado. A sra. X baixou as pálpebras e se concentrou, tornando a rezar. Orações, além de a confortarem, aguçavam seus sentidos em situações instáveis. Não que tivesse passado por algo semelhante àquilo, de jeito nenhum, mas ela também teve suas provações. Ah, se teve. Os momentos que antecediam a morte de seus pacientes, por exemplo, costumavam ser de extrema exigência. Quando havia a presença de parentes exibindo seu luto prévio cheio de afetação apenas para disfarçar o interesse na herança, o processo se tornava ainda mais estressante. Caso contrário, quando se tratava de idosos deixados para trás pelas famílias, a passagem adquiria contornos suaves, como devia ser, afinal, terminando no silêncio de quando o bipe deixava de soar, assim que as máquinas eram desligadas. Quantas vezes ela fizera aquilo, vencida pela piedade? Não sabia dizer. Lamentou não ter feito mais, não ter atendido aos olhares suplicantes dos pacientes cercados pela histeria que a impedia de agir. Nessas ocasiões, testemunhava a morte dolorosa dos velhos, sufocada pela impotência e pelos gemidos de falsidade das carpideiras de ocasião. Tardavam muitíssimo a morrer, o corpo devastado pela dor, cercados por noras odiosas e cunhados traiçoeiros, filhos desleais e sem amor e mulheres e maridos adúlteros, afirmou em seu depoimento. Por esse motivo nunca formou uma família. Ela se recordava bem da morte dos pais. Sentia-se confortada por tê-los ajudado. Por isso, não casou nem teve filhos. Por isso, pela importância de sua missão. Tais pensamentos a tranquilizaram, então ela abriu os olhos e viu a criatura. Estava de volta, em pé, nos fundos do corredor. De início, a sra. X mal pôde distingui-la. Assim que se acostumou à penumbra, porém, caminhou até ela e aos poucos foi reconhecendo o contorno do capuz e do casaco cinco números maior. Identificou-a em definitivo somente ao ver os olhos que piscavam na escuridão. A sra. X não entendeu como a criatura conseguia, depois de tudo, ainda permanecer de pé.

 

4.

Após hesitar, a veterinária colocou o fone no ouvido e se certificou de que o aparelho estava mudo. A situação havia saído de controle. Enquanto pegava o fuzil, ela ouviu gritos vindos do abrigo. Algo grave devia ter acontecido, e agora, sem poder chamar os policiais, não sabia o que fazer. A veterinária sonhava ter um programa de bichos na tv, não participar de um reality show bizarro. Não estava preparada para cuidar daquela gente. Devia pensar somente em si mesma, era isso? De todo modo, precisava contatar a polícia, o que não poderia fazer sem rádio nem telefone, afirmou em seu testemunho. Suspeitava que a morte das emas não fora causada por um predador natural da região. Nenhuma jaguatirica poderia cometer chacina semelhante, não naquelas circunstâncias, e não contra um grupo tão grande de emas adultas. Se conseguisse contatar a polícia a tempo, talvez a elegessem heroína do episódio, e teria enfim seu programa de tv. Talvez permitissem que retomasse suas pesquisas. Ela abriu a portinhola e contornou o longo muro de concreto do abrigo em direção contrária àquela em que o grupo se encontrava. Ao final do trajeto, quando ladeava a área destinada ao leopardo-das-neves, deparou-se com o cadáver do homem que saíra para urinar. Seu braço esquerdo se estendia para fora do matagal como se fosse o vencedor de uma prova de natação no solo lamacento. A chuva despencava, encharcando barrancos, ao contrário do que afirmavam previsões meteorológicas para aquela noite. Desnorteada, a veterinária buscou o leopardo-das-neves através da grade, mas só enxergou a silhueta sombria dos rochedos acima da gruta. Talvez ele estivesse lá em cima, em algum lugar, à espreita, apenas aguardando o instante da morte dela, ou então tinha se autodevorado de vez. Ela apoiou a coronha do fuzil na lama e, com esforço, virou o cadáver para cima. Apresentava feridas no pescoço idênticas às encontradas nas emas. Ao erguer-se, a veterinária pensou no que faria para fugirem o mais depressa daquele lugar. Existia uma trilha meio esquecida que levava à saída do parque, mas era repleta de obstáculos. A senhora que tinha carregado a criatura esquisita no colo até então levaria mais de hora para cumprir todo o trajeto. Sozinha, no entanto, a veterinária poderia vencê-lo em quinze minutos. Com isso, decidiu-se e entrou na mata. As unhas sujas de terra do homem não saíam de sua cabeça.

 

O isolamento da floresta não permite antecipar a espreita. Após cem metros, a veterinária identificou o zumbido ultrassônico de um apito para cães. Estacou um instante para confirmar, mas não teve dúvidas, pois usava instrumento idêntico para treinar seu border collie de estimação. Aquele som tinha a capacidade de viajar quilômetros, e a pessoa que o fazia soar podia estar na avenida que passa em frente ao Nocturama. Treinar cães àquela altura da madrugada não lhe pareceu algo plausível, ainda mais em local tão distante, porém o treinador devia estar de carro e talvez tivesse um celular, o que poderia garantir o resgate do grupo. Também podia ser um policial treinando seu cão. Ela retomou a caminhada com afinco. Não correria, pois riscos de acidente eram altos ali. Enquanto superava com dificuldade algumas árvores derrubadas, enxergou vultos se movendo entre bambuzais ao longo da trilha. Com a lanterna, vasculhou a penumbra. Refletido pela água das poças, o facho de luz produzia espectros. Tornou-se impossível enxergar com clareza, e ela continuou. A lua havia sido encoberta pelas nuvens, e a veterinária acreditou ter visto uma sombra imensa que se estendia pelas copas das árvores. Ouviu passos leves mal tocarem a superfície dos charcos e um resfolegar crescente vindo de todas as direções. Aqueles zumbidos conformavam uma música estranha. Ela calculou que o perigo de se machucar não mais se justificava. E correu, correu com muita força. Seus pés afundaram no lamaçal e em diversas ocasiões viu cobras, que imaginava terem se enrodilhado em suas pernas. Em disparada, os vultos a seguiam, deixando-a a cada metro mais apavorada. A chuva aumentou. Ela desviou de um tronco tombado com a ventania. Endorfinas inundavam o corpo da veterinária, e ela sentiu o que devia sentir uma raposa ao ser perseguida por cães de caça.

 

O taxista acompanhava os três rottweilers em sua evolução pelo parque. Cada passo assumia o som de uma nota musical. A baba respingando nas poças. Seus pelames curtos e negros resvalavam nos ramos pontiagudos, lembrando lâminas sendo afiadas. Ele deixou de lado o apito e observou os cadáveres das emas no lamaçal. Notou os furos de dentes em seus longos pescoços. Os cães desapareceram entre arbustos. Ele tomou do cajado improvisado com um galho retorcido e prosseguiu a caminhada. Enveredou através da trilha percorrida pelos visitantes. Havia pegadas visíveis do grupo no terreno. Com um soar seco e breve do apito, os cães surgiram, um a um, na curva adiante. Eram disciplinados e retribuíam o amor de seu regente com obediência. Olhos vermelhos no extremo do túnel vegetal. Hálito espesso de suas bocas nublando o ar. O taxista sinalizou com a mão direita e soltou um trilado intermitente e outro mais longo. Os rottweilers saíram em disparada, correndo lado a lado pela trilha sem nem sequer se tocarem, até o lugar onde as pessoas se abrigavam. Seguiam o odor de pele morta e das pomadas que cobriam a criatura. Cânfora. Própolis. Odor de flores. O taxista se lembrou do morador de rua. Havia sido sua primeira caçada humana. La chasse du cerf era o nome da composição de Morin correspondente. O morador de rua era forte e deu trabalho. Não se rendeu com facilidade. Foi um desafio e tanto para os bichos. Quando o taxista atingiu o bosque próximo ao lago, o homem voltava a si. Houve tempo apenas para soltá-lo e ele despertou, assustado. Por precaução, o taxista mostrou-lhe o revólver. O morador de rua não esboçou reação a não ser quando percebeu os três cães silenciosos no banco traseiro do automóvel. O cd permaneceu ligado todo o tempo, mas o morador de rua não pôde ouvi-lo, pois seu coração batia alto demais, num volume ensurdecedor. Aquela foi apenas sua primeira contribuição para a evolução musical da peça.

 

5.

 

Nas veredas que ladeavam a trilha encoberta por samambaias e cipós do Nocturama surgiam animais peçonhentos no encalço da veterinária em fuga. Rajadas de chuva acertavam o rosto dela, ferindo-a com agulhadas. Nada disso interrompia sua corrida, e ela acompanhava de relance os vultos que a perseguiam e neles voltou a reconhecer bichos doentes tratados no laboratório do zoológico. Ela havia sacrificado aquelas criaturas, como poderiam continuar vivas?, perguntava a si mesma enquanto corria, e então cerrou os olhos (arriscando-se a cair e quebrar um osso), procurando desse modo sumir com lobos e morcegos ou simplesmente se autotransportar dali; os animais, ao contrário, figuraram mais vívidos em sua memória, e ela se perguntou como teria reunido coragem para tratar aquela praga, e até onde sua ambição a levaria (esperava que fosse ao menos até a saída do parque) e qual o sentido do que ocorria, se é que podia existir algum sentido no comportamento humano. Animais também eram imperfeitos, agora ela sabia. Não fazia mais nenhuma idealização deles, tão típicas em veterinários, a perfeição era um mito que não tinha lugar neste mundo: feras selvagens não fingiam. Por isso sua obsessão em trabalhar na tv . Para divulgar aquilo que descobriu: animais caminhavam para a morte, e, assim como os homens, tinham consciência disso. Não havia salvação para os habitantes deste planeta, a agressividade antes restrita à luta para sobreviver fora substituída por violência gratuita. Agora os animais tinham certeza de que iam morrer, e que o melhor era fazer com que os humanos se adiantassem a eles.

 

Por algum tempo, ninguém falou dentro do abrigo. Todos estavam amuados, cada qual em seu canto, e era possível ouvir apenas uns soluços baixinhos da mulher do homem morto. A mocinha soltou da mão do namorado e disse que precisavam sair para procurá-lo. Deviam criar coragem e agir como seres humanos. Agir como seres humanos, ela repetiu no depoimento. Como seres humanos. O eco no interior do abrigo era tamanho a ponto de parecer que ela tivesse dito essas palavras mais vezes, cem vezes mais. O rapaz então pegou sua mão e disse que a acompanharia. A mocinha considerou aquele gesto mais significativo do que qualquer outra prova de amor que seu namorado já lhe dera e os dois saíram sob a tempestade. De início, não sabiam bem onde procurar. Entrar na mata escura ou permanecer na área descampada em torno do abrigo? Ao ver a chuva e a escuridão, o rapaz se arrependeu de seu ímpeto. Não queria parecer covarde para a namorada. O pai dela era dono de metade de seu bairro. O rapaz gostaria de casar com ela, portanto resolveu encarar a situação. De qualquer modo, àquela altura a veterinária já havia ligado para a polícia. Estariam a caminho?, ele se perguntou. De fato, a veterinária tinha sumido fazia meia hora. Deveria ter voltado. O rapaz decidiu não alertar o grupo a respeito. O pânico podia aumentar. A veterinária era experiente, apesar de sua juventude (como era gostosa), e tomaria medidas para todos sobreviverem àquela enrascada. O casal então decidiu contornar o muro do abrigo pelo lado de fora e ver o que encontrava. Na primeira curva, depararam-se com o cadáver do homem de barriga para cima, tomando chuva. Seus olhos abertos encaravam os pingos sem pestanejar. Sob o luar, adquiriu estranha cor violeta. Fazia pensar em bronzeamento artificial. O rapaz viu o morto e reconsiderou tudo o que lhe importava na vida. Ele nem gostava tanto assim da namorada.

 

A mulher começou a berrar assim que o casal irrompeu pela porta do abrigo arrastando o cadáver enlameado. A mocinha, vendo tanto desespero, pensou que talvez não sentisse o mesmo se recebesse a notícia da morte do namorado. Havia algum tempo tinha se cansado dele, e em uma ou outra ocasião chegara a duvidar dos sentimentos do rapaz por ela, que sempre teve dificuldades de se entregar a paixões sem relacioná-las a puro interesse. Com esse cara não era diferente, com o agravante de achá-lo meio banana, ela disse. Do lado de fora do abrigo o rapaz não adotou um comportamento lá muito masculino, e ela teve de assumir o comando, relatou em seu testemunho. Não queria passar o resto da existência ao lado de um qualquer, mas não mesmo. Então, distraindo-se do choro da viúva diante do corpo do marido, ela se voltou para a criatura que dormia no colo da sra. X, outra esquisitona, essa velha, mas ela podia jurar que a velha estava ao seu lado no instante em que o homem foi capturado e desapareceu no interior da mata. Se a velha estava sozinha ao seu lado e assistia ao espetáculo, onde então estaria aquele anão manco de capuz vermelho?, disse em seu depoimento. A mocinha se recordava de ter feito essa pergunta a si mesma na hora do incidente, e de ter virado a cabeça para verificar o canto ocupado pela velha e pela criatura: e de ter percebido que a criatura não estava lá.

 

6.

 

Quando a mocinha caminhou convicta em sua direção, a sra. X se certificou de que o último passeio da criatura acabara de se confirmar um fracasso. Procurou não acordá-la, entretanto, virando-lhe o rosto de encontro ao peito e o cobrindo com a capa de chuva. Embora ela estivesse ali em seu colo havia um bom tempo, não parecia adormecida, mas hibernando. Não era possível sentir sua respiração. Não fazia dez minutos, medira seu pulso: batia cada vez mais fraco, quase imperceptível. A mocinha estacou diante dela, que continuava sentada de costas para a parede, e colocou os punhos fechados na cintura. Queria saber onde a criança estava enquanto o ataque ao velho acontecia. A sra. X a olhou de baixo a cima e lamentou muito que aquela mocinha não fosse uma paciente terminal aos seus cuidados. Depois de pensar isso, persignou-se em arrependimento, aconchegando ainda mais o corpo inerte da criatura junto a si. Mas a mocinha insistiu, e o namorado se uniu ao interrogatório. Queriam saber por que a criatura estava toda encapotada e o motivo das luvas. Achavam que era estranha demais, assim como aquela situação toda na qual estavam metidos, e que ela só podia ter alguma coisa a ver com o que estava acontecendo. Nesse momento a sra. X interveio. Era somente um ser frágil que viera ao parque passear, nada mais. Seu sonho era ver o leopardo-das-neves. Que os dois parassem de imediato com aquilo, pois estavam sendo inconvenientes num momento ruim. Um homem havia sido morto. Sua tutelada não vinha passando bem, mas Nosso Senhor estava olhando por ela. Pouco convencida pelos argumentos da sra. X, a mocinha se descontrolou. Afirmou que tinha visto olhos vermelhos como os de um predador. Dentes que brilhavam no escuro. Tinha certeza disso, não estava delirando. Não estava louca. Existia algo de muito errado com aquela criatura. Foi a primeira a usar a expressão “criatura” nos depoimentos. Ao ver um fio de saliva escorrendo do canto da boca da mocinha enquanto berrava, o namorado sentiu-se constrangido. Ficou em silêncio, e prometeu dar um fim àquele namoro depois que tudo acabasse. Aquilo era um pouco demais para ele, afirmou em testemunho. Mas não para sua namorada, que arremeteu contra a sra. X, puxando com violência as luvas das mãos da criatura. Então todos os presentes viram que lhe restavam apenas os indicadores e os polegares, e seus outros dedos não existiam mais, pois tinham apodrecido e caído.

 

O portão principal do Nocturama estava acorrentado e a veterinária não viu saída senão pular. Enquanto escalava a cerca e ouvia a vibração metálica por toda a extensão do alambrado sendo tensionado pelo seu peso, só conseguia pensar na densa escuridão detrás de suas costas. Tinha a sensação iminente de que um monstro desconhecido emergiria de lá a qualquer segundo e a arrastaria de volta para a floresta. No entanto nada disso aconteceu e ela não acreditou quando seus pés pisaram a calçada do lado de fora. Então não era um filme de Spielberg, estava salva? Agora precisava ajudar os outros. Sabia que ainda restava um telefone público em alguma esquina da avenida Miguel Estéfano, mas qual? Ligava primeiro para a polícia ou para um canal de tv? Ela então atravessou a avenida, habituando a visão às luzes amareladas dos postes. Superado o atordoamento inicial, lembrou-se do apito para cães que ouvira de dentro do parque. Procurou quem pudesse estar ali, mas não avistou ninguém. O temporal dava sinais de diminuir quando conseguiu achar o orelhão. Chamou 190, pois não sabia de cor nenhum número desses programas sensacionalistas. A polícia entrou em ação após esse telefonema e iniciamos estes depoimentos. Estas histórias de animais. Então, gaguejando, ela relatou a ocorrência à atendente. Algum predador desconhecido atacara visitantes do Nocturama aquela noite. Em alguns minutos os policiais chegaram, acompanhados da equipe de jornalistas que costuma dividir espaço com viciados na calçada em frente ao 77o dp. Depois de detalhar o que havia acontecido, a veterinária ainda teve tempo para tirar barro seco da face e aplicar a maquiagem emprestada pela repórter. Com sorriso profissional, falou de sombras voadoras e asas enormes que a perseguiram através do parque. De olhos sanguinolentos nas sendas escuras. De seu heroísmo para resgatar vítimas das garras dos predadores. Da dura travessia da floresta em meio ao temporal e da verdade acerca da animália que precisava revelar. Nos seus olhos era possível perceber o brilho da loucura se fortalecendo cada vez mais, e ela já via a si própria miniaturizada e reluzente numa tela de televisão.

 

Os três cães aguardaram, imóveis, até que o dono os alcançasse. Então o taxista viu a sombra de um homem recortada contra o concreto da parede do abrigo. Ele urinava, com meio corpo entre as árvores. Sem latir, os cães acompanhavam os movimentos do homem abstraído na procura cega pelo zíper das calças após sacudir o pau. Dava para ver que se tratava de um homem educado, pois mesmo naquela situação de perigo e vestindo roupas encharcadas pela chuva se preocupou com a última gotinha de urina que sempre termina na cueca, a gota fatal. Certamente tinha câncer na próstata. O homem fez menção de voltar ao abrigo e, em silêncio, usando apenas um gesto da mão, o taxista ordenou o ataque. Não houve resistência, ao contrário do acontecido com o morador de rua. Nenhuma novidade, apenas dentes seguidos de resignação e uma trepidação de calcanhares afundando freneticamente na lama. O morador de rua, este, sim, havia sido um adversário à altura. Primeiro, para fugir do rottweiler mais jovem e impetuoso, ele mergulhou no lago do bosque. O cão hesitou um instante, e então se atirou na água. Seus dois companheiros mais experientes se limitaram a encorajá-lo com latidos a partir da margem. Sem demonstrar pânico, o morador de rua alcançou um pedaço de madeira no fundo enlodaçado do lago e o levantou acima da cabeça, mirando com precisão a cabeça do animal patinhando, quase a alcançá-lo. O cão nem deu sinais de ter sido alvejado, e insistiu com sanha irrefreável, o que acabou por minar as defesas de seu adversário, obrigando-o a adotar nova estratégia. Ainda brandindo o galho na mão, o morador de rua conseguiu emergir da margem oposta um pouco antes que os rottweilers remanescentes previssem a manobra. Sua intenção era escalar uma árvore o mais rápido possível, desprezando a hipótese de ser abatido a tiros pelo taxista. No entanto, a vegetação daquele lugar só lhe oferecia arbustos e pinheiros, de galhos insuficientemente baixos para serem agarrados. Restou-lhe apenas utilizar os troncos como escudos de discutível eficácia, pois, apesar de seus esforços, em poucos segundos o cão mais jovem conseguiu mordê-lo na garganta. A última nota da execução musical — um dó maior — foi o som da carótida do morador de rua se partindo.

 

7.

 

No abrigo a situação havia se descontrolado. Agora a mocinha era dona exclusiva da vontade alheia e aliciou outros adeptos. Até o namorado recuou em suas certezas. A sra. X estava de pé, encurralada contra o corredor, e protegia a criatura contra o peito. Ela, entretanto, ao contrário do grupo que a acossava, permanecia em silêncio. Não existia no lugar qualquer clima para conversa, de modo semelhante às duas outras ocasiões, quando foram ao drive-in, e depois, ao saírem para admirar árvores de Natal. A sra. X planejava tirar a criatura dali o mais breve possível para levá-la ao leopardo-das-neves e a pobre enfim cumprir seu ciclo vital. Temia não haver tempo suficiente para isso, pois não conseguia captar o pulso da criatura e sua respiração estava ainda mais tênue. Com isso, sendo empurrada pela pequena horda contra a parede, aproximou-se da saída. Em um vacilo, porém, quando calculava a distância até a porta, a mocinha e seu namorado arrancaram o corpo inerte da criatura de seus braços. A sra. X já não tinha mais forças, depois de tantas horas de caminhada. Nisso, ao ser apoiada no piso, a criatura despertou, parecendo atordoada e observando suas próprias mãos mutiladas à vista dos outros. Parecia se perguntar onde estavam suas luvas. Insatisfeita, a mocinha puxou o capuz de sua cabeça. Ninguém podia esperar por mais aquilo. A criatura não tinha o nariz, restando-lhe apenas a cavidade nasal no lugar. O branco de seus olhos fora substituído por um rubro intenso, não sendo possível distingui-lo das córneas. Na cabeça persistiam alguns fios de cabelo de aparência hirsuta, como os de um gorila. Havia machucados esparramados por toda a extensão de sua pele amarelada e ressequida. No centro da testa, uma ferida aberta parecia um terceiro olho que lhe tivesse sido arrancado, deixando o globo ocular inundado por pus. A moça foi a primeira a pronunciar a palavra monstro. Depois dela, alguém repetiu. E então todos a acompanharam em coro. Caída, a sra. X erguia os braços em defesa da criatura. Monstro, monstro, monstro, monstro. A criatura então recuou ao fundo do corredor que levava à saída. Suas cicatrizes sumiram na penumbra, permanecendo visíveis apenas a capa de chuva vermelha e suas galochas enlameadas. Seus olhos refulgiram e se apagaram. Mancando, ela desapareceu na escuridão.

 

Eram duas da manhã. Todos estavam exaustos, jogados nas poças do abrigo, com medo da morte. A viúva mantinha a cabeça apoiada no ombro da mocinha, que mal a suportava. A posição do cadáver de seu marido no centro da cena agora lembrava a de um banhista adormecido na praia com demasiado protetor solar no rosto. Com o sumiço da criatura, a sra. X se tornou o alvo. Colecionava hematomas por todo o corpo. Os ferimentos mais graves foram feitos pela moça e por seu namorado. Como de costume entre compassivos e covardes, ao final o rapaz se revelou bastante violento. Manchas roxas causadas por aqueles filhos e filhas e mães e pais e sobrinhos e sobrinhas e tios e tias, a sra. X afirmou em seu depoimento. E fornicadores e adúlteros e assassinos e pecadores de todo tipo. Feitas por eles, pelos seres humanos. Como antes haviam feito àquele santo homem no Calvário. Pedras e paus e cusparadas. Era o melhor que podiam dar de si, sua própria essência. Não estavam à altura da sua santinha, não chegavam nem perto de seus dedinhos apodrecidos dos pés. Eram selvagens, arruinados pelo pecado e pela crueldade. Estavam abaixo do chão, caídos, soterrados. E a santa sem nariz, sem dedos dos pés e das mãos? Sem orelhas, quase sem vida. Teria fugido para onde, para a floresta? Como era possível que ainda caminhasse depois de todo o veneno posto pela sra. X em sua bebida? Era uma dose muito superior às ministradas aos pacientes terminais, aos velhinhos do hospital de Manchester, aos seus próprios pais, e mesmo assim não dera resultado. Aquela quantia permitiria zero por cento de erro. E os pacientes anteriores eram velhinhos em condições ainda mais frágeis. A sra. X chegou a considerar toda aquela resistência uma obra de Deus. Era mesmo uma santa. Ela então se lembrou: sabia onde a criatura estava. Não podia ter ido a nenhum outro lugar. As pancadas em sua cabeça deviam tê-la atordoado. Talvez não estivesse conseguindo pensar com coerência. Teria calculado mal as doses que havia diluído nos alimentos? Apoiando as costas na parede para não desmaiar, a sra. X se levantou. A Terra girava num ritmo acelerado demais. Não sabia explicar como pensou naquela blasfêmia. Não acreditava que a Terra girasse, ao contrário do que todos acreditam. Ao atingir a clareira sem ser vista, a sra. X viu a lua detrás da chuva caindo sem cessar. Também não podia crer que o homem tivesse pisado na Lua. Não naquela lua lá no céu, era impossível. Tudo aquilo era mentira. Só acreditava na compaixão, conforme confessou. Na compaixão divina e em sua missão de cumpri-la a contento. O céu era o lugar de Deus, não dos homens.

 

O taxista pensava em um modo de afugentar o grupo do interior do abrigo. Ali podia haver adversários à altura de seus cães, pessoas com grave consciência artística, aptas a contribuir para o êxito de sua ópera móvel. Os rottweilers davam sinais de impaciência. Rondavam o lugar à espera de que alguém saísse. Pareciam atestar a solidez do piso, como fazem os bailarinos ao se aquecer antes dos espetáculos. Duplicados, seus vultos projetavam fantasmas negros nas paredes, então eram seis cães e não somente três. Os cães agora eram enormes e suas bocarras pareciam tão imensas quanto ameaçadoras. O silêncio no parque inteiro era absoluto e a música entrecortada parecia estar prestes a se interromper, tal o esgarçamento de ruídos na floresta. Com a presença dos predadores, os animais permaneciam quietos. O taxista saiu de debaixo das árvores e surgiu sob o foco da luz amarela do poste em frente ao abrigo. Carregava o fuzil de caça que havia encontrado na mata, abandonado pela veterinária em fuga. A arma estava carregada com dardos tranquilizantes, mas ele tinha seu .38. Pensou em invadir o abrigo e disparar a esmo. Isso deveria assustar o restante do grupo, obrigando-o a sair para a floresta. A música voltaria a soar, agora sem interrupção até o final. Seus cães poderiam sair da pausa na qual aguardavam. O taxista viu, entre a treliça de água abundante a cair das calhas da laje, alguém que lhe evitaria o trabalho. Com um gesto, impediu o ataque. Preferiu se aproximar, chapinhando as poças, e avaliar de perto a capacidade de reação do oponente. Ao fazer isso, reconheceu a senhora que levara ao parque junto da criatura de rosto deformado. Mantendo os cães de prontidão, o taxista a seguiu, a partir do limiar das árvores do outro lado, na área das jaulas. Ao dobrar a quina do longo muro de concreto, a sra. X estacou por algum motivo. O taxista não entendeu qual. Talvez ela conseguisse ver algo que ele não podia enxergar de onde estava. O taxista continuou, às escondidas, até visualizar o cenário. E se deparou com o que a sra. X também via: a criatura em pé, com braços aferrados às grades do cercado. Havia se desfeito da capa vermelha. Diante dela estava o leopardo-das-neves sobre as patas traseiras, mais imponente do que seus rottweilers e mais alto do que um homem, e as duas criaturas aleijadas se reconheciam sob relâmpagos iluminando céu e Terra.

 

i exposição mundial de retratos do leopardo-das-neves –

episódio cinco, no qual um leopardo-das-neves, idoso e solitário, cava na

gruta profunda um caminho de volta para a montanha onde nasceu.

Era uma vez um leopardo-das-neves, o último de sua raça. Por não

suportar mais a solidão dos picos nevados onde tinha nascido, ele vagou

pelo mundo. Perdeu-se de vez ao amar a voz humana. Por causa dela

atravessou o oceano no interior de uma enorme jaula sacolejante.

Mareou-se com a oportunidade de salvar sua própria raça da extinção.

Tomou tal missão para si como uma ordem inalterável ditada pelo

Cosmos que o determinava a se perpetuar, mas que servia no fundo

apenas para disfarçar a terrível realidade de ser apenas um prisioneiro, e

pior, de ser um prisioneiro enamorado, e pior ainda, de ser um

prisioneiro enamorado cujo amor não era correspondido, e esta é a mais

inexpugnável das prisões. Com o tempo, essa fatalidade levou-o ao

movimento circular e perene ao qual as panteras em jaulas estão fadadas,

e ele girou seus músculos tensos ao redor de um ponto gravitacional

invisível que parecia orientar o seu destino. Ao passo, a atividade de suas

pupilas adquiriu contornos rítmicos que previam um final silencioso e

abrupto, no qual galáxias inteiras desapareciam e eram criadas a cada

abrir e fechar de olhos. Ter amado a voz humana havia sido o seu fim.

Mas existia uma saída, sempre existe uma saída, embora às vezes esta

palavra se confunda apenas com o final e não com a possibilidade de

escapar. Somente outra criatura semelhante a ele, e que tivesse sofrido as

mesmas penúrias, poderia salvá-lo. Rodear o próprio ponto gravitacional

numa órbita ondulante e flexível se tornou, portanto, uma dança

concêntrica que buscava atrair por meio dos círculos a força que o

resgatasse de ser condenado a observar perpetuamente o mundo através

das grades. E ele girou dia e girou noite e girou dia e noite e girou e

girou e girou, qual uma mariposa fulva em torno de uma lâmpada acesa.

Nada, porém, aconteceu. Ninguém o ouviu. Nunca mais sairia daquela

prisão. Então, desesperado, o leopardo-das-neves se enfiou em sua gruta

e começou a cavar. Através da gruta pretendia atingir o outro lado da

Terra, retornar ao lugar onde nascera, atingir as Montanhas Douradas

do Altai e morrer. E cavou dia e cavou noite e cavou dia e noite e cavou e

cavou e cavou. Ao fazer isso, convencia-se de estar cavando sua própria

cova. Contudo, depois de muito cavar, suas forças se esgotaram, e ele

caiu numa prostração resignada. Quando fechava os olhos, esperava que

não abrissem de novo. Era sua última esperança, a de que seus olhos não

mais se abrissem e ele permanecesse para sempre naquela escuridão

inerte, morna e silenciosa sob a Terra. Sim, pois ao leopardo-das-neves,

que amou a voz humana, o silêncio também era uma espécie de

condenação. Entretanto, como é de costume nas fábulas, ele não sabia

que os seus esforços haviam surtido efeito, e que aquele insistente girar

sobre si mesmo somado à escavação perseverante resultou na dança de 7. O escrivão:

força que poderia enfim salvá-lo. Girando sobre seu próprio eixo, ele fez

com que a Terra girasse, levando-o de volta ao seu lugar de origem.

Alguém ouviu o seu chamado. E esse alguém é você, minha criança, que

nesta noite irá salvar o leopardo-das-neves. Hoje à noite você vai cantar

para ele.