A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves
3. O escrivão: Telefonemas
3. O escrivão:
Telefonemas
No meio da noite em que colhi os primeiros depoimentos tive um pensamento paranoico: e se o metabolismo do velho se adaptasse ao sedativo que lhe ministrava, amenizando seu efeito, e ele acordasse enquanto eu ainda estava no trabalho? A balbúrdia que a presença dos suspeitos no “caso do passeio noturno” (assim a imprensa o denominou) vinha causando no 77o dp me confundiu, e pensei nisso só quando pude ir ao banheiro lavar o rosto e engolir dois Inibex. Desperto, ele poderia sair de casa e desaparecer nas ruas do bairro. A porta estava trancada à chave, mas havia outra dependurada na parede ao lado da fechadura interna. Minha preocupação parecia plausível, pois o velho de vez em quando repetia algum hábito antigo, como abrir a portinhola do gato e conferir se o bichano havia esvaziado a tigela de leite. Bem que ele podia acordar, pegar a chave, abrir a porta e desaparecer. Por um instante, pensei se isso não seria o melhor. Eu não precisaria mais limpar a bunda dele, contar histórias de ninar para ele ou acompanhar a morte lenta de cada um de seus neurônios, além de inalar o fedor de queimado trazido a reboque. Como ainda faltavam algumas horas para o encerramento do expediente, levado pela intuição de que um problema grave poderia acontecer, pedi licença ao meu superior e saí da delegacia mais cedo do que de costume, driblando repórteres que cochilavam na calçada. Na sombra da mangueira em frente ao prédio, uma revoada de morcegos ceava restos de frutas podres. Ao descer a escadaria do metrô e me deparar com os halos das luzes artificiais dos túneis meio alteradas pela insônia, percebi que ali nunca amanhecia. Na estação Tiradentes, a densa copa das árvores interrompia a luz dos postes, deixando as pedras do calçamento invisíveis e o caminho mais escuro e perigoso. No posto avançado da polícia, um trailer disposto no final da praça e no início de uma ramificação de becos usada como esconderijo pelos viciados naqueles dias de limpeza, reconheci alguns colegas. Acenei e prossegui meu caminho, apressado. Estava arrependido por não ter escondido a chave. Tinha feito isso não sei bem por quê, talvez por temer um incêndio ou então para que o velho a encontrasse e desaparecesse e eu enfim pudesse viver em paz.
Ao chegar em casa, a lâmpada da escadaria estava apagada. Mas como, se eu a deixava sempre acesa? Subi os degraus de dois em dois e ao chegar no patamar testei o interruptor. Não funcionou. A lâmpada devia ter queimado. No escuro, acertei o buraco da fechadura com dificuldade. Permanecia fechada, o velho tinha saído e a trancado ou então não tinha saído. Abri a porta, tudo quieto. Dentro, a chave não estava mais no gancho habitual. Dirigi-me ao aposento do velho com a respiração suspensa, e no meio do caminho acertei o bico da mesa de centro com o joelho. A pancada foi tão certeira que não segurei a voz. Após a gravidade do gemido, o silêncio do interior do apartamento pareceu ainda mais duvidoso. O velho, porém, continuava adormecido em sua cama, na mesma posição em que o deixara na noite anterior, ao término dos últimos episódios do “caso do passeio noturno” que eu lhe relatava. Nenhum sinal da chave no piso do quarto ou na mesa de cabeceira. Apaguei o abajur e me esparramei no sofá da sala com um copo de uísque na mão. Tomei mais um Inibex. Eu daria meu décimo terceiro salário em troca de dez horas de sono ou quem sabe sete horas, até cinco estariam valendo. Mas quem cuidaria do velho? Ademais, nunca recebi décimo terceiro. Não dava para confiar naquele boliviano estúpido que trabalhava na mercearia. Era um boliviano só ou eram vários? Talvez o primeiro boliviano tenha passado o trabalho para algum primo desempregado, e este a outro primo e assim sucessivamente, toda a população masculina de Santa Cruz de la Sierra já devia ter passado pelo balcão da mercearia. Bolivianos são todos iguais, coreanos também, e negros e judeus. Só eu não pareço com ninguém, nem comigo mesmo. Olhei para a parede do corredor, a velha prosseguia em sua dissolução no retrato fantasma. Em breve seria apenas uma silhueta apagada da fotografia. Lembrei da noite de minha infância em que a insônia deu seus primeiros sinais. Foi um inverno rigoroso na cidade, o mais frio dos últimos quarenta anos, logo depois de o dr. Glass me presentear com o livro sobre a história de Quanah Parker e seus comanches. Eu ficava enfiado com a lanterna acesa debaixo do cobertor até tarde, parecia uma cabana de índio, acompanhando meio chateado a desaparição dos bisontes no livro. Se minha mãe me flagrasse viria reprimenda na certa, pois eu estudava de manhã e precisava acordar cedo. Naquela noite percebi uma movimentação discreta no corredor. Bisbilhotando pela fresta da porta entreaberta, vi o velho diante do mancebo vestindo o seu capote e colocando o chapéu. Depois ele desceu a escadaria bem devagarinho, evitando pisar nos degraus que rangiam para não acordar ninguém. Da janela do quarto pude vê-lo sob o foco aceso do poste em frente de casa. Ele deu uma olhada para cima como a se certificar de que não era observado. Quase me viu. E então sumiu na escuridão do final da rua. Na manhã seguinte estava na mesa do café da manhã, calado como sempre. Entre ele e minha mãe, nenhum sinal acerca da escapadela da madrugada. À noite, permaneci à espera de uma nova saída dele, mas nada aconteceu, a não ser que perdi o sono e cheguei atrasado à aula. Na escola, dormi sobre a carteira, e a professora alertou minha mãe. Levei umas chineladas. Então, de madrugada, entre peles-vermelhas e cochilos, flagrei o velho saindo de novo. Ele repetiu o método de não pisar nas tábuas rangentes da escada, porém não consegui imitá-lo em minha tentativa. Enquanto o seguia, ao pisar no antepenúltimo degrau, o mais barulhento de todos, e impedido de saltar outros dois devido às pernas curtas, fui eu o flagrado. Ganhei de minha mãe a segunda sova daquele dia infeliz e, satisfatoriamente aquecido, afinal pude dormir. Naquela noite devo ter sonhado que era um guerreiro comanche humilhado por uma velha squaw e reduzido a limpar bosta de pangaré. Na manhã seguinte, tudo igual: era como se a noite anterior não tivesse acontecido. Continuei a acompanhar a movimentação nas semanas e nos meses seguintes, e o velho prosseguiu com sua ativa rotina noturna, até eu cansar daquele vaivém e me desinteressar pelo tal segredo, se é que existia algum. Até que fosse eu a sair de casa de vez.
Estranhei, ao abrir os olhos. O relógio marcava 3h33 da madrugada. Tinha cochilado menos de quinze minutos. Uísque derramado molhava minhas calças. Sem chorar em cima do derramado, fui ao banheiro. No caminho, tropecei no copo caído no chão. Encontrei a chave da porta na pia. Havia escondido a chave, contudo — devido à confusão mental de insone — a escondi apenas de mim mesmo. A preocupação com uma possível saída do velho se mostrou certeira, pois ele poderia encontrá-la com facilidade, jogada do jeito que estava. Fiquei um tempo refletindo sobre isso, estudando minhas olheiras no espelho, perscrutando rugas que se irradiavam a partir dos olhos, alastrando-se meio amareladas pelo rosto pontuado por pequenos vasos azuis onde o sangue parecia congelado e imóvel, a pele mais embranquecida do que antes, em consequência dos hábitos (quando criança minha pele era mais escura), entretanto não chegava a ser como a de minha mãe, não era negra, salpicada por pintas pretas e pelo negrume das regiões das axilas, dos seios e da virilha; sob a luz fraca do espelho, minha testa e as bochechas estavam brancas demais. Iguais às do velho, será?, ou ao menos como costumavam ser antes de seu corpo ser tomado por manchas senis que começaram a surgir no dorso das mãos e depois terminaram por povoar sua cútis inteira, que eu acompanhava de perto com a bucha ensaboada nos banhos mornos que lhe dava, numa espécie de passeio antecipado sobre minha própria pele futura, a perceber pelo progressivo clareamento de meu rosto, ou seria amarelecimento, esmaecimento, quem sabe desaparição em vida similar à dissolução de minha mãe no retrato do corredor, ou um esgarçamento decorrente da ausência de melanina, do enfraquecimento que principiou com a acne da puberdade e prosseguiu com outras patologias, por exemplo a seborreia que me acomete o couro já nem tão cabeludo assim e a calvície decorrente dela, o pouco cabelo sarará que me restava, as marcas do envelhecimento e os eczemas, umas dermatites e verrugas nos antebraços e nos joelhos, sinais da devoração constante a que o corpo é submetido desde o nascimento, acrescido de queimaduras, de cicatrizes, resultados de outros acidentes (e de inconsistências, como dizia minha ex-mulher) que podem atingir o clímax indesejado de um melanoma maligno que seria a morte de tudo aquilo, daquele mapa que é este nosso mapa singular, o corpo, um mapa de pele que demarca caminhos por onde andamos, desvios tomados por equívoco, e que afinal desaparece debaixo da terra ou então é incinerado junto de nosso destino que fica fora do mapa, do qual não sabemos nem hora ou local, só sua inexorabilidade, um mapa que some com o próprio lugar mapeado. Foi então, em meio a tantas filosofadas, que o telefone tocou. Era tarde para o telefone tocar. Ou então cedo demais. Também não deixava de ser conveniente que tocasse àquela hora.
O telefone tocou duas, três vezes. No quarto toque, pulei em sua direção. Quem poderia ligar no meio da madrugada? Só poderia ser má notícia. Nenhuma novidade podia piorar o estado em que as coisas estavam, pelo contrário: eu ansiava por más notícias que melhorassem tudo. Ademais, não devia existir surpresa que pudesse vir de fora daquele apartamento da rua Guarani, a não ser que estivesse acontecendo algum desastre no andar térreo, uma enchente na mercearia ou um incêndio no 77o dp. Seria o boliviano ou seus primos bolivianos? Havia, afinal, apenas um rapaz boliviano ou eram diversos? Em caso positivo, seria a primeira vez que eu ouviria sua voz, e logo pelo telefone. Não sei falar espanhol. Ergui o aparelho. Do outro lado, silêncio. Então uma voz, a mesma da outra ocasião, aquela voz perguntou pelo nome do velho sem esquecer de nenhuma consoante muda. Também não falava espanhol. Está dormindo, quem fala, quem gostaria, por que estão ligando?, falei. Silêncio. Ruído de estática ao fundo, um clangor de fios sendo sacudidos pela tempestade elétrica. Insisti. Isso são horas de ligar, ainda mais na casa de uma pessoa idosa, doente, hein? Silêncio. Necessitamos falar com o seu pai, disse a voz, cada vez mais roufenha e se misturando ao som de milhões de cabos telefônicos esticados, soltos e de novo esticados, é urgente, muito urgente. Ele não pode atender o telefone, falei, está impossibilitado. Mesmo que pudesse, não diria coisa com coisa, pois seu quadro se agravou, sofre de demência. Silêncio prolongado. É a respeito dos depósitos atrasados. Precisamos saber o motivo da suspensão dos depósitos. Sem eles, não temos como cumprir nossa obrigação, a voz disse. Mas que obrigação é essa, falei, de que se trata? Com o salário a ser pago, com a manutenção de tudo. Com tudo o quê, falei, do que está falando? Tem certeza de que não é um engano? Então a voz repetiu o nome do velho e nosso sobrenome. Corretamente, incluindo a inflexão russa, as consoantes coladas umas nas outras, se não me engano com sotaque da região das montanhas Altai, de onde o velho disse ter vindo. Mas pode ser que a falta de sono e as anfetaminas me confundissem, que o sotaque fosse um sotaque qualquer. A voz perguntou o que estava acontecendo com o velho, por que ele não atendia mais os telefonemas. É a demência, falei. Vinham ligando na mercearia, mas o contato havia sido interrompido e a culpa não era deles. Eles tinham responsabilidades a zelar. Precisavam falar com o velho. Era urgente. Os pagamentos tinham sido cancelados fazia seis meses. Não sabiam como proceder com as transferências bancárias a serem efetuadas. A administradora estava impedida de administrar. Os recursos não recorriam. Desse modo não era possível seguir com a manutenção de tudo. O velho precisava orientá-los sobre como proceder. Estavam perdidos. Isso nunca acontecera. Perdidos. Os suprimentos financeiros estavam esgotados. A energia elétrica seria cortada, e então, o que aconteceria? E a alimentação? Não sabiam como estavam se virando, a voz disse. Quem está se virando?, falei, tem certeza de que chamou o número certo? Temos certeza, a voz disse, quer dizer, não temos mais certeza de nada. De nada. Então a ligação caiu. O aparelho podia estar com defeito. Devia ser engano. Ou o serviço da empresa telefônica andava cada vez pior, o que não é improvável. Aquilo estava ficando meio repetitivo.
Na manhã seguinte deixei a caixa registradora com seus trocados aos cuidados do funcionário boliviano, ajudei o velho a se vestir, coloquei-o num táxi e seguimos até a agência bancária na vizinhança da Luz, na qual ele fazia suas movimentações. Ali ele recebia uma aposentadoria ridícula e mantinha as economias da mercearia, cada vez mais escassas. Como nos últimos meses não sobrava tempo ou mesmo cabeça para cuidar das contas, eu ainda não passara na agência para medir o diâmetro do rombo. Após ter mergulhado na tigela de leite do gato, a manhã tinha sido estendida para secar e a cidade parecia revestida por uma película branca, quase imperceptível. Ao entrarmos no prédio, procurei o antigo gerente, um gorducho mais ou menos de minha idade que eu já havia consultado em ocasiões passadas. Estava aposentado fazia um tempão, segundo informou a mocinha da recepção, enquanto se encarregava de apontar o novo gerente, um cara que não devia ter vinte anos. Acomodei o velho na poltrona ao lado e observei os giros moles que ele dava com o pescoço numa tentativa vaga de reconhecimento do ambiente. Luzes fluorescentes aumentavam o aspecto leitoso das pessoas na fila do caixa. Um zumbido no teto chamou minha atenção. Vinha de uma mariposa presa na lâmpada em forma de tubo. Como teria ido parar lá dentro? Depois de cruzar as mãos sobre a bengala, o velho fixou a barba mal aparada do gerente. Havia um grão de cereal nela. Perguntei sobre a conta do velho. O gerente fez um muxoxo ao examinar a tela de seu computador, deu dois cliques, pediu que aguardássemos, levantou, fez duas piadas sobre o time de futebol de seu vizinho de mesa, caminhou até a impressora, olhou o tempo, coçou o saco enquanto verificava o celular, tirou meleca do nariz, pegou o papel e retornou à mesa. Olha aí o extrato, falou, a coisa vai mal, hein. Quis saber se existia alguma operação ou débito automático agendado. O gerente apontou uns códigos que indicavam contas de água e de luz e uma única transferência a ser feita todo primeiro dia do mês. Nada mais. Estava em nome de Administradora de Recursos Humanos Rosenberg S. A. O gerente não tinha qualquer informação sobre a administradora além do endereço, ou o motivo do valor do depósito, uma soma bastante alta. Mas não está sendo paga faz seis meses, pois a conta não tem liquidez, ele disse, olhando para o velho, que continuava em sua surda mudez a observar o grão de cereal branco na barba escura do gerente. Aqui o endereço, o gerente disse, estendendo o papel. Logo atrás de nós, uma fila de clientes insatisfeitos se formara. Dava para ouvir reclamações acerca dos serviços do banco, a espera, esse velho que não se mexe, o desrespeito, cliente preferencial é um saco, o completo desinteresse dos funcionários, estou atrasado, preciso pegar filho na escola, um absurdo, vou fechar minha conta, hoje não chego a tempo em meu compromisso, acho que vou ter um treco, ainda mato alguém. Reclamações repetidas dia a dia por clientes bancários em todas as filas da cidade que são esquecidas no exato instante em que cada um deles sai pela porta da agência e é engolido por outros problemas. Multipliquei os zeros do extrato, enquanto olhava o velho cair no sono. Que inveja. Menti ao gerente, dizendo que em breve resolveria a questão do saldo e a dívida do cheque especial, então nos despedimos com um aperto de mãos. Não o avisei do grão de cereal na barba.
Na calçada, vi um bisonte imóvel. Pessoas passavam ao largo dele como se fosse natural um animal daqueles estar ali, no centro de uma cidade sul-americana, e ainda vivo, quando foram praticamente extintos. A senhora cheia de sacolas de compras nas mãos se aproximou do bisonte, mas preferiu dirigir sua atenção à cadeira de espaldar ao lado. Havia um gramofone em cima da cadeira. Só então percebi que o bisonte estava na vitrine de um antiquário que fica em frente à agência bancária. Não estava vivo. Tinha tamanho natural, e seu pelame negro acima do pescoço parecia soprado pelo vento das pradarias do Texas. De início, pensei que fosse alucinação. Mas não era. Um grande ventilador fazia sua crina se movimentar. Conduzindo o velho pelo antebraço num ritmo não muito aconselhável para alguém em sua condição, entramos na loja. Quis muito acreditar no que via, esfreguei as pálpebras com os nós dos dedos para desanuviar a manhã esbranquiçada dos olhos. Perguntei ao vendedor se o bisonte era de verdade. O vendedor disse que sim, claro, é empalhado e veio direto do Oeste norte-americano, muito raro, pertenceu aos comanches etc. Mirei na cara do vendedor para descobrir se ele pretendia me enganar ou algo assim. Não pareceu suspeito. Esse bisonte aí é da época do Quanah Parker?, falei ao vendedor. Quanah quem? Ah, claro que sim, foi dele, na verdade, vivia no quintal da mansão dele lá no Oeste americano etc., sim, senhor, que mansão era aquela do Quanah, hein, ô, este aqui, meu amigo, era o último bisonte do faroeste americano, daí foi pro circo, vendido ao Buffalo Bill, sim, senhor, o próprio, aquele do gibi, depois babau: ficou extinto etc. Este bisonte — que nome esquisito, né? — é uma raridade, e está com preço de ocasião, ele disse, vai aproveitar? Sim, falei, impressionado com meu próprio destemor, vou levar agorinha mesmo. Enquanto parcelava a compra no cartão, notei que tinha me distraído e o velho desapareceu. Vasculhei o interior da loja atulhado de velharias e (afinal, o antiquário era um lugar bastante adequado para o velho ficar) não o encontrei preso às teias de aranha. Então saí depressa para a rua. Ele estava parado na calçada, observando animais que iam se formando nas nuvens e se metamorfoseavam em gente.
O vento da pradaria despenteava com força a franja do bisonte, que mesmo assim mantinha os olhos bem abertos, sem piscar com o incômodo. Seu movimento parecia um bocado desigual e aos trancos, pois não dobrava as pernas nem meneava o pescoço como bisontes costumam fazer quando estão em movimento. Isso não impedia que os passageiros abarrotando o ônibus no semáforo em frente à praça Julio Prestes esticassem seus pescoços magros pelas janelas para grudar os olhos nele, todo amarrado ao capô do táxi em que estávamos, e até os viciados em crack esparramados pela praça, normalmente alheios a qualquer interferência em sua realidade imediata, erguiam-se do chão e ululavam à nossa passagem. Envoltos em cobertores e seminus, deixando para trás seus cachimbos de lata, lembravam comanches depois de uma batalha perdida. A guerra deles estava apenas começando, porém, e não era difícil prever seu final. Caubóis os perseguiam, talvez fossem xerifes, desta vez disparando balas de borracha e sem usar estrelas de prata no peito. O semáforo abriu e os noias saíram em nossa perseguição. Queriam seu bisonte de volta. Pelo espelho retrovisor, acredito ter visto que alguns deles nos apontavam arcos e flechas. Por sorte não carregavam rifles de repetição. Então, saindo da ruela detrás da praça, surgiram cavalos a galope. Seria a cavalaria? Sobre as celas, pms vindos do quartel da avenida Rio Branco vibravam cassetetes nas costas dos viciados, que deixavam cair suas armas e iam tombando no asfalto, pisoteados pelas ferraduras. Sob certo aspecto, não havia oposição entre policiais e viciados ali, não como no passado, entre soldados e comanches. Exceto pelos cavalos, todos obedeciam a alguma ordem insensata que logo deixaria de vigorar. No dia seguinte, tudo voltaria ao normal, menos para os cavalos, que continuarão a ser montados como sempre foram. Então o táxi estacionou diante da mercearia, e libertamos o bisonte das cordas que o mantinham em pé sobre o capô. Entrei na loja para ordenar que o funcionário me ajudasse a carregá-lo, e qual não foi meu pavor ao ver o boliviano multiplicado em vários bolivianos. Havia um detrás da caixa registradora, outro substituindo preços nas mercadorias, agachado entre as prateleiras, mais um com o espanador em frente ao graneleiro e um outro que varria o chão e um que lavava o toalete. Eu tinha razão, desde o início, não era só um boliviano, mas vários. Soltei um berro de puro pânico, e os bolivianos excedentes desapareceram porta afora. Fiz um sinal ao que restou, o da caixa registradora (parecia ser o boliviano original), e ele me ajudou a carregar o bisonte até a frente da loja. Enquanto bufávamos com o peso, pude examinar bem de perto o rosto matreiro dele, a cara de índio dele, e creio ter identificado um risinho de escárnio ou algo assim. Não entendo os bolivianos. Depositamos o bicho em frente à coluna que fica entre as duas portas de correr. Deveria ser o nosso guardião. A mercearia estaria protegida com o bisonte ali. Ninguém mais ia entrar ou sair sem meu conhecimento. No entanto, esses planos se mostraram equivocados desde o princípio.
Devolvi a chave ao gancho do lado da porta. O velho demonstrava estar esgotado após tanta atribulação. Conduzi-o ao banheiro e preparei compressas com toalhas quentes. Lavei seus pés, enquanto ele se apoiava em minha cabeça com as duas mãos, fazendo pressão com os dedos como se avaliasse de que material era feito o meu crânio. O velho fez suas necessidades, ruidosas como um bombardeio noturno à Londres sitiada num filme de guerra antigo a que assisti. Olhava para mim ao gemer no trono e o seu olhar dizia, mas quem é esse que fica aí encostado no batente da porta sem dizer nada enquanto eu cago? Depois de limpá-lo, apliquei as compressas em sua nuca e nos ombros e ele cochilou um instante. Comparei a pele interna de meu antebraço com a dele. Sob a luz fraca do banheiro tinham a mesma cor, eu estava cada vez mais branco, quase igual ao velho. Eu tinha certeza de que estava ficando branco, que estava ficando igual ao meu pai, igual a alguém. Fui obrigado a carregá-lo no colo até a cama. Como pesava. Talvez seu sono o deixasse mais pesado, mas como podia ser se sua cabeça aparentava estar vazia? Com o que sonharia, bigornas de uma tonelada? De qualquer modo, eu devia me certificar de que o velho permaneceria adormecido a noite toda, pois precisava ir para a delegacia. Foi difícil despertá-lo. Quando aconteceu, servi o copo d’água e o comprimido habitual, que ele analisou, meio desconfiado. Como em todas as noites, o velho perguntou o que era aquilo, e do mesmo modo se satisfez com a resposta. Depois que coloquei a fralda nele, pediu que eu lhe contasse histórias. De animais, ele disse, aquelas. Como podia lembrar das histórias se não lembrava de mais nada? Tornei ao “caso do passeio noturno”. À criatura e à sra. X. Ao taxista e aos seus rottweilers. Ao entregador do mercado coreano. Nocturama. Não extraía nenhuma moral daquela fábula, feito uma criança que se aproxima dela sem medo, sem ver nela nenhum ensinamento daninho. Um Esopo estelionatário. Era mais bem o oposto, e o mundo assim se restituía de equivalência, não havendo mal nem bem, guerra ou paz, todos ostentando a mesma cor de pele ao sol, índios e xerifes, viciados e policiais, ninguém matando ou explorando ninguém. Evidentemente, a única diferença permanecia no papel cumprido pelo cavalo, o de cavalgadura. A não ser por isso, um mundo sem graça, o lugar inconsciente de crianças e velhos dementes. Ele demorou um bocado a adormecer. Mais tarde, de madrugada, meio comovido pela atenção que o velho tinha dedicado às minhas histórias, enchi o copo de uísque, tomei dois Inibex e fiquei um tempo observando pela janela o bisonte diante da loja térrea sob o foco de luz rodeado de mariposas. Parecia muito sozinho lá embaixo, sem o restante da manada. Estava órfão, o quadrúpede. Resolvi carregá-lo para cima. A subida pela escadaria com o bicho nas costas não foi nada simples. Coloquei-o sobre o tapete no centro da sala de estar. Sua presença me confortou, e acreditei por um segundo que ele poderia vigiar o sono do velho. Impedir que saísse no meio da noite por aí, a vagar pelas ruas do bairro, e acabasse se perdendo. O corpo dele soltava uma fina camada de poeira sobre o tapete. Lembrei de seu nome científico: bison bison bison. Com que dinheiro eu ia pagar aquilo? O tapete verde lembrava as pradarias do Texas. Bison bison bison. Achei que ele bem poderia pastar por ali.