
A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves
Não durmo há duas semanas, diz o escrivão do 77º Distrito Policial. De dia cuida do pai, dono de uma mercearia na rua Guarani, no Bom Retiro, calado pela demência e pedindo fábulas de animais toda noite. De madrugada, transcreve depoimentos. O da sra. X, enfermeira especializada num hospital de Manchester, contratada por uma administradora de recursos humanos para cuidar, num casarão do bairro, de uma criatura de capa de chuva vermelha e luvas de couro que não fala e não pode sair de casa. O do taxista que ouve Satie no carro e cria três rottweilers nos fundos de uma fábrica abandonada. As histórias se cruzam na primeira visita noturna ao Nocturama, a área do zoológico de São Paulo feita para animais notívagos, onde há um leopardo-das-neves. E volta o livro de infância do escrivão: os comanches de Quanah Parker chegando ao Texas e achando a planície coberta de ossos de bisontes.
