A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves

Joca Reiners Terron · Capítulo 5 de 7

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A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves

5. O escrivão: Mariposa fulva

5. O escrivão:

 

Mariposa fulva

 

Os depoimentos dos suspeitos foram interrompidos no início da manhã em decorrência do surto que acometeu o taxista. Ao ouvir do delegado que seus cães tinham sido sacrificados, foram necessários três policiais para segurá-lo. Após ser subjugado, aplicaram um sossega-leão nele e o levaram para a cela. Os funcionários estavam excitados, mas o que levou todos ao desatino, incluindo a imprensa, foi a chegada da criatura. Mal a vi entrar pelos fundos do prédio. Estava no interior de uma caixa onde não devia caber mais do que um cachorro médio, com tamanho suficiente talvez para comportar uma criança de dez anos. No entanto, era carregada com esforço por quatro policiais. A caixa servia para protegê-la da luz do dia, embora o sol ainda não tivesse saído. Havia sido encontrada depois de dias de procura em uma galeria lateral no fundo da gruta do zoológico. Estava ao lado do cadáver do leopardo-das-neves. O pessoal ficou meio frustrado pois ninguém conseguiu vê-la, trancada num quarto isolado cujas janelas de vidro foram pintadas de preto. Só fui dispensado do trabalho após toda essa balbúrdia e a chegada do escrivão do dia. De qualquer jeito eu não poderia continuar de plantão, precisava cuidar do velho. Não dava para confiar no funcionário boliviano e nos seus primos que deviam ter chegado à cidade na noite anterior, e que certamente dormiam entre as prateleiras da mercearia naquele exato instante. Como ainda faltava algum tempo para o sedativo perder o efeito e o velho acordar, decidi evitar o metrô e voltei a pé, atravessando os Campos Elíseos no meio da escuridão. Debaixo do pontilhão da Silva Pinto uns vultos saíam do meio do lixo esparramado no terreno baldio que ladeava a linha do trem. Bateu uma sensação de torpor que antes da insônia eu relacionava ao sono. Enfiei a mão no bolso interno da jaqueta para pegar o frasco de Inibex. Não estava lá. Repassei mentalmente todos os pontos da delegacia nos quais havia estado ao longo do plantão, da mesa do cafezinho ao banheiro, da sala do delegado à minha mesa. Não pude lembrar se tinha deixado o frasco em algum desses lugares. Bateu uma paranoia: e se um tira encontrasse o frasco de anfetamina entre as minhas coisas, por exemplo? O sono aumentou e enxerguei tudo turvo, os vultos que saíam da lixeira se multiplicaram, criaram braços e eu não sabia dizer se eram humanos. E quem saberia? Lembravam uma enorme mariposa de asas abertas. Eu precisava de dois Inibex naquela hora, acompanhados de uma dose de uísque. Apertei a passada, deixando o inseto para trás. Mas no meio do trajeto a paranoia comandou e voltei no rumo da delegacia. Os vultos criaram olhos que brilhavam no escuro. Dava para ver as chamas dos isqueiros acesos e o ruído dos cachimbos sendo chupados com avidez.

 

Quando cheguei à delegacia, a faxineira que varria a calçada perguntou se eu estava louco, o que fazia ali, e o seu pai, quem vai cuidar do infeliz etc. Não respondi e fui direto à escrivaninha, porém não encontrei o frasco. Vasculhei as lixeiras do toalete. Nada. Aproveitei que o delegado do turno da manhã ainda não havia chegado e dei uma olhada em sua sala, sem sucesso. No corredor o escrivão do dia, ainda com cara inchada de ressaca, disse para eu aproveitar que estava ali e ajudá-lo a registrar um bo de furto e outro de lesão corporal culposa e um svo de não sei o quê. Um pm me chamou de “escravão”, olha o escravão da noite aí, ele disse, vai dormir, escravão de polícia, vê se aproveita tua folga, neguinho. Devolvi um sorriso amarelo e caí fora. Aquele idiota não sabia da bravura dos guerreiros comanches. Na porta, perguntei à faxineira se ela tinha encontrado pelo piso um frasco de comprimidos, remédio para pressão alta, expliquei. Ela disse que não. O fedor dos cães envoltos em sacos pretos no estacionamento da delegacia estava insuportável. Perguntei se o pessoal do ccz não viria cremá-los. A faxineira ergueu os ombros. Tornei a ir embora. O sol saiu, o velho devia estar despertando. Os vultos do terreno baldio tinham sido desintegrados pela luz. No comecinho da manhã, o Bom Retiro volta à vida e é tomado pelos comerciantes coreanos que batem papo nas portas de suas lojas, enquanto os velhos judeus que restaram vão à sinagoga rezar para que em breve possam aumentar o preço do aluguel pago pelos coreanos, e as ruas então são ocupadas pelos bolivianos, por toda a população de Santa Cruz de la Sierra e La Paz juntas, que rezam para Ekeko lhes arranjar dinheiro fácil para retornarem ao seu país, mas na verdade só conseguem ser explorados pelos coreanos, que devem seus aluguéis aos judeus. Como nas cirandas, uns não olham para os outros. Devido talvez a um efeito das bolhas de sono que começavam a flutuar diante dos meus olhos, coreanos e bolivianos começaram a se multiplicar, e adolescentes coreanas de minissaia com livros escolares nos braços sumiam no buraco escuro do metrô, homens bolivianos com bebês de colo paravam nas esquinas enquanto suas mulheres trabalhavam nas oficinas clandestinas de costura dos velhos coreanos que escarravam nos meio-fios, bolhas de sono saíam dos bueiros, explodiam na minha cara que nem bolhas de sabão, bolhas de luz encobriam a esquina da Prates com a Três Rios, eu precisava de meus Inibex, será que o frasco estava esquecido lá em casa? Era bem provável, pois antes de seguir para o plantão eu tinha cochilado uns instantes abraçado ao bisonte na sala de estar, cheguei até a ter um princípio de sonho em que montava o bisonte e ele voava sobre o bairro e eu via lá embaixo a reunião dominical de judeus na antiga pletzel e podia ver minha mãe de braço dado com meu pai e com o dr. Glass e era de manhã e eles riam e cantavam a Internacional Socialista bem alto e a voz de minha mãe sobressaía à de todos, os homens e as mulheres se curvavam em torno dela e então um trinado agudo soltado por minha mãe causava uma pane no bisonte voador e ele despencava em meio à pletzel em cima de solidéus e quipás e estourava a cabeça das pessoas, que foram pegas desavisadas pois não contavam com outra presença aérea além da divina. Capacetes teriam sido mais eficazes que os quipás. Não dava para ter certeza se aquilo tinha acontecido de verdade, pois ando sonhando de olhos abertos há duas semanas. Quando vi, estava parado diante de casa. Os bolivianos como sempre tinham se atrasado para o serviço e não abriram as portas de correr da loja. Senti uma fisgada no peito. A luz da escadaria continuava acesa e tudo parecia normal. Outra, mais forte. Podia ser mais um ataque de paranoia ou só o começo de um infarto.

 

A porta de casa estava aberta e a chave do gancho foi esquecida na fechadura. O bisonte não fez nada para impedir a saída do velho, e pior — no chão sob sua barriga, cobrindo quase a totalidade do verde do tapete, havia um montinho de poeira de serragem —, estava sofrendo uma hemorragia intensa. Na cama do quarto os lençóis estavam revirados e só havia a marca de seu corpo sobre eles. O tecido estava frio. Procurei em todos os cômodos do apartamento. Na cozinha encontrei o frasco de anfetaminas: vazio, não restava um só comprimido para matar meu sono. Ao lado do frasco, um copo vazio. Procurei os comprimidos nas lixeiras e vestígios na superfície d’água da privada. Nenhum sinal. Parei diante do bisonte na sala e lhe perguntei bem baixinho o que devia fazer. Não respondeu, apesar de seus olhos estarem fixos em mim. Notei que a serragem sobre o tapete tinha aumentado, ele não estava nada bem. Nem cheguei a pagá-lo e já tinha dado cupim. Desci a escadaria sem me preocupar com o rangido dos degraus e a obra infinita de carpintaria dos cupins sob eles, pisando-os com força e fazendo todo o barulho possível até saltar na calçada. Ninguém me impediu de sair em busca do velho, mas por um segundo desejei que a velha surgisse no patamar e me alçasse pelas orelhas até os céus como castigo. As portas de correr continuavam baixadas, e não havia ninguém à vista a não ser o dono do bulgogi do outro lado da rua, um coreano mal-encarado que vendia cachorro assado para seus compatriotas. Aquele era o mesmo coreano de sempre ou seria outro? Podia ser seu filho, neto, sobrinho ou irmão pois são todos iguais. Eu sabia que ele não falava minha língua, mas atravessei a rua e insisti mesmo assim, perguntando aos berros pelo velho, só o coreano poderia tê-lo visto sair, você viu o meu pai sair, hein, seu coreano desgraçado, você viu um judeu velho descer aquela escadaria lá do outro lado da rua e sair por aí sozinho, hein, seu filho da puta? O coreano fez sinal com as mãos para que eu me acalmasse e apontou um sentido da rua com o indicador, dizendo na língua dele, vai, vai, o seu velho foi para a direita, mas como confiar em alguém que não fala minha língua, num homem que faz churrasco de cachorro e vende para os outros? Não tive outra saída. Contudo na esquina seguinte não havia rastros do velho, só uma multidão de coreanos e bolivianos e nenhum judeu, só adolescentes coreanas sorridentes com minissaias espalhafatosas e bolivianos de todos os tamanhos, bolivianos anões, bolivianos nanicos, bolivianos pequenos, bolivianos médios e parava por aí pois não há bolivianos maiores do que isso, mas eram muitos, além dos coreanos em suas lojas de roupas e confecções e nos seus restaurantes comendo seus banchans e seus cachorros assados, e nada do velho ou do dr. Glass e a pletzel havia se tornado um cruzamento de ruas qualquer, o bairro não cheirava mais a chametz sendo assado, mas a churrasco de cachorro, a bulgogis e a banchans, os comanches e os bisontes já estavam extintos, não moravam mais ali, estavam em suas reservas em Oklahoma e em Higienópolis, e o velho tinha desaparecido. Se ele havia tomado todo o conteúdo do frasco devia estar caído em algum beco por aí, não era possível que tivesse conseguido caminhar muito em sua condição, nem mesmo animado por quarenta comprimidos de Inibex, meu Deus, o velho devia estar morto ou quem sabe tinha sido recolhido a um ambulatório médico da prefeitura e agora expirava ao lado de pessoas silenciosas como ele, mendigos e indigentes que não sabiam nenhuma história de animal para contar ao velho enquanto seu coração explodia. Comecei a ouvir o ganido dos cachorros vivos nas churrasqueiras e pensei que o velho devia ter cansado de ouvir fábulas e de dormir e que por causa disso tomara o conteúdo inteiro do frasco de Inibex. Para despertar em vez de adormecer.

 

Ao dobrar na rua Talmud Thorá, vi o velho ao longe, diante de um casarão. A rua estava desocupada, tendo à vista apenas a sombra de uma vendedora no reflexo da vitrine comprida que sumia nos fundos de um magazine cujas luzes ainda pareciam apagadas. O pijama branco do velho era enfunado pelo vento que vinha da esquina próxima, e ele lembrava o mastro frouxo da bandeira de um navio prestes a partir. Qual seria o seu destino? Pensei que os sonâmbulos saem de noite, atravessam o dia a pé e acordam na noite seguinte. Assim, nunca sabem em que tempo estão, e os dias passam mais rápido para eles, de par em par. Caminhei devagar em sua direção de modo a não ser visto. Não queria assustá-lo, mas à medida que me aproximava podia perceber na sua expressão que nada mais o assustaria. Era o que diziam seus olhos e a boca arreganhada e ele arfava, movimentando o tronco no balanço da ventania. Mantinha os braços esticados para a frente numa tentativa inútil de alcançar algo que já lhe havia escapado entre os dedos. Lembrei de seus sumiços noturnos quando eu era criança. Onde iria naquela época? Mesmo esquecido, o velho às vezes costumava repetir algum hábito muito enraizado, era como se o cérebro dele tivesse trilhas batidas que gostasse de experimentar de novo, sempre os idênticos caminhos na floresta, sendo que as árvores que representavam o restante de seu conhecimento além do habitual eram encobertas pela neblina e aos poucos só restasse a trilha rotineira pela qual ele caminhava, mais nada, apenas o velho enveredando em meio ao vácuo da floresta submersa no esquecimento. Observei o casarão no qual ele concentrava sua atenção. Era um sobrado muito antigo que eu conhecia desde criança. Todos os moleques do Bom Retiro diziam que era mal-assombrado. Certa vez vi o dr. Glass saindo dele, devia ter acabado de atender algum paciente. De medo, ninguém ia muito até a Talmud Thorá, que então ainda se chamava Tocantins. Preferíamos dar a volta no quarteirão para desviar dali, pois naquela época a rua era recoberta por uns salgueiros-chorões tão lúgubres que choravam de verdade em noites de chuva. Senti a barriga gelar ao reconhecer na placa do casarão o número 905. Tratava-se do casarão investigado no “caso do passeio noturno”. Encontraram-no esvaziado, sem móveis ou objetos. Tinha uma faixa de segurança interditando o local. As portas e as janelas foram lacradas pela polícia. Na hora, não compreendi como deixei de relacionar o endereço tantas vezes citado nos autos — uma informação despida de significado pela rotina? — com aquele casarão. Tomei o braço do velho com cuidado. Como sempre, desde muito antes de a enfermidade surgir, quando eu não passava de um menino, ele olhou para mim sem me reconhecer, e voltou a fixar as janelas fechadas do sobrado. Procurava alguém do qual nem ele mais lembrava. Então o velho abriu a boca recoberta de saliva como se fosse revelar alguma verdade longamente escondida, soltando apenas um murmúrio oco, parecido ao ruído seco que o filamento de uma lâmpada faz ao se queimar.

 

Sempre me perguntei de onde veio a ideia de que uma vida inteira passa diante dos olhos dos moribundos. Afinal, quem é que voltou do Além para contar o que viu no instante da morte? A idade madura é uma sucessão de esquecimentos que se acentua conforme mais velhos ficamos, primeiro não sabemos onde guardamos a chave do automóvel, depois não temos a mínima lembrança de onde está enfiado o passaporte, e daí datas de pagamentos importantes e eventos aos quais não podemos faltar são esquecidas, a desaparição de objetos, a elisão de compromissos, de recordações que somem em alguma gaveta secreta ou então no vácuo da memória. Resta somente essa esperança que alimentamos dia a dia, a de que no instante final tudo será lembrado, para que enfim a gente possa partir levando a existência em sua integralidade, e não os retalhos e fiapos que nos acompanham nos últimos anos. O que acontecia ali diante dos olhos do velho era mais parecido com a abertura das comportas de um dique, aumentando ainda mais o silêncio no qual se encontrava desde o primeiro momento em que o percebi se desviar de mim na calçada, sem me reconhecer quando eu era criança, desde quando ele próprio surgiu na infância vindo de lugar nenhum, entre imigrantes judeus russos no convés do navio que saía de Bremen em direção a Santos, desde o princípio (pelo fato de ele quase não falar), já a partir daquele instante a verdade é que ninguém além do dr. Glass e de minha mãe jamais pôde saber se ele era louco ou não. Depois que o cineminha das lembranças repassou suas matinês e reprises, o velho teve uma síncope. Ali, caído no chão, as veias de seu pulso pareciam mais azuis do que nunca. Sua pele não havia sido tão branca em nenhum outro segundo como naquele. As veias a qualquer momento iriam explodir e tingir o mundo com um anil de céu estrelado, e os retalhos brancos cobririam a Terra numa nevasca imensa. Medi os batimentos cardíacos. Estava à beira de um infarto. Ergui-o no colo e ele pareceu mais leve. Recordar a vida inteira num instante, como observei nas confissões de criminosos, subtraiu seu peso. Num murmúrio, o velho pediu que o levasse dali. Hospital é pra quem tem tempo, disse, me leve pra casa. Carreguei-o através das ruas desertas do Bom Retiro. Não havia mais ninguém nelas além de nós. Aonde os bolivianos e coreanos tinham ido parar, voltaram para casa? Enquanto caminhava, observei os meus dedos em contato com a pele dele, notei a mancha suave e mais clara que fica no corpo quando os dedos diminuem a pressão, e éramos ambos brancos agora, não existia mais nenhum contraste entre nós nesse momento. Os olhos do velho caçavam animais nas nuvens e acho que ele de novo via as fachadas antigas dos prédios demolidos do Bom Retiro de sua juventude que se reerguiam por meio do seu olhar pela última vez.

 

Em frente à mercearia afinal encontramos o funcionário boliviano. Não estava sozinho. As portas de correr da loja continuavam fechadas, e diante delas havia uma família completa de bolivianos de todos os tamanhos e sexos, uma perfeita escadinha com um boliviano maior no centro, era o nosso boliviano, enfim eu o reconhecia, percebendo diferenças entre ele e os outros ali presentes, e uma chola boliviana com sua roupa típica, o chapeuzinho florido de lado na cabeça, atravessado em seu colo havia um bebê boliviano, creio que assim podemos chamá-lo, tão pequenino, envolto em panos coloridos e chupando um sabugo de milho todo babado, ao lado do casal havia quatro ou cinco bolivianos menores (eram incontáveis), cada rosto parecidíssimo um com o outro, e inclusive existia um traço característico muito evidente, pois todos sorriam para mim e para o velho, sorriam de legítima felicidade. Quer dizer que o nosso boliviano não era mesmo um só e a imagem deles ali parados pareceu um perfeito retrato familiar no qual ninguém desapareceu, ao contrário daquele retrato que estava dependurado na parede de nossa casa, e nele todos os papéis eram representados, a mãe, o pai, os filhos, e bem que o funcionário boliviano gostaria que eu os registrasse numa fotografia com suas malas de couro nas mãos, porém eu também tinha as mãos ocupadas e não pude aceitar a câmera fotográfica que ele estendeu enquanto agradecia em espanhol (e como fiquei surpreso ao entender o que dizia), gracias, ele disse, estoy muy contento, muchas gracias por todo, devido à generosidade do velho e ao trabalho na mercearia ele tinha conseguido reunir o dinheiro, la plata necesaria para pagar la deuda, a dívida que tinha com a capataz da oficina de costura que os trouxera ao bairro para trabajar, disse, e agora estavam quites e voltavam para sua terra, ao altiplano, a Santa Cruz de la Sierra, falou o boliviano todo sorridente, o ônibus nos aguarda, gracias, e havia sobrado algum dinheiro, bastante até, e ele, o nosso funcionário boliviano, o boliviano primeiro e único, pretendia montar uma fábrica processadora de batatas em sociedade com seus primos, tengo muchos primos, ele disse, muchísimos, todos iguales a mí, trabajadores, afirmou o boliviano, despedindo-se junto de sua família, uma escadinha completa, os filhos perfaziam um time de futebol de salão, inclusive o menorzinho deles vestia uma camisa da seleção brasileira e carregava uma bola de futebol, tchau, hasta luego, gracias, gracias. E foram embora. O boliviano, que não era dono de nada, tinha algo que eu nunca teria. Pensei na bênção que devia ser pertencer a uma família na qual todos se parecem entre si. Felisberto Aimara, ele disse que se chamava. De repente o boliviano tinha até nome.

 

Já na escadaria, pude ouvir repetidas vezes a campainha do telefone enquanto subíamos. Dívidas pareciam em vias de serem perdoadas, exceto, talvez, as relativas ao bisonte estacionado sobre o tapete da sala. Acomodei o velho em sua cama e, como o telefone ainda tocava com insistência, fui até o aparelho e o atendi. Pensei nos objetos que deixam de fazer sentido quando uma pessoa desaparece, nas cuecas de um morto atulhando o gaveteiro. Era a mesma voz grossa de antes, uma voz conhecida, quase íntima àquela altura. Falou que sabia da visita ao banco para esclarecer a questão da administradora. Que apreciava a atitude, porém o problema de certa forma, da pior talvez, como eu sabia, estava resolvido. No entanto, ainda desejava falar comigo. Para o devido encerramento dos negócios, ele disse. Expressava-se assim, como se fosse uma pessoa do século retrasado falando diretamente através da linha telefônica, num tom burocrático e com expressões antiquadas. Como se me conhecesse fazia muito tempo. Confirmei o endereço e marcamos um horário aquela tarde. O fantasma emoldurado de minha mãe na parede em frente refulgiu sob raios da luz matutina que invadiu o apartamento. Tudo na imagem, o espelho, o guarda-roupa, a quina da cama de casal ao fundo, a ponta da cortina de voile que invadia a margem da foto, acompanhou sua desaparição. Olhei ao redor o panorama da sala de casa em busca dos móveis e objetos que apareciam até havia pouco na fotografia coberta de luz, e então percebi, isso depois de observar com minúcia os detalhes do retrato ao longo de tantos anos, que o cômodo nela reproduzido não era o mesmo no qual eu estava. Sempre imaginei que após se casarem meus pais nunca viveram em outro lugar que não aquele apartamento. É possível que os objetos tivessem sido alterados, mas não a estrutura do aposento e a localização de suas janelas. Aquela foto havia sido feita em outro lugar. Então, conforme o raio de luz se movia e desviava e o quarto do retrato ressurgia, pude perceber na fotografia detalhes da janela ao fundo, os salgueiros-chorões, as árvores que choravam de verdade na Talmud Thorá quando a rua ainda se chamava Tocantins, como indicava a anotação no verso. Lembrei-me então da história que o dr. Glass tinha contado a respeito do sumiço temporário de meus pais no final da gestação de minha mãe, foi no último ano da Segunda Guerra, uma criança que nunca nasceu ou que o casal havia abandonado? As escapadelas noturnas do velho teriam a ver com esse segredo? Mas qual segredo, exatamente? A sucessão de tossidos que chegava do quarto nada esclarecia, só complicava tudo.

 

Eu devia ter dez ou onze anos. Foi na tarde em que ganhei do dr. Glass o livro sobre Quanah Parker e os comanches. Naquela manhã eu bati num colega de escola que me chamou de sarará. Um pouco antes de sair do consultório com minha mãe, ele me puxou pelo braço. Disse à velha (que na época não passava de uma linda moça negra) que tinha esquecido de medir minha altura e de aferir meu peso. Para a ficha clínica do menino, o doutor falou, essas crianças exageram nas bobagens que comem e quando voltam já passam dos dois metros de altura. É preciso acompanhá-los, ele disse. Na hora não compreendi o que pretendia, pois minhas medidas já haviam sido tiradas. Depois de fechar a porta outra vez, o dr. Glass me içou pelas axilas, pousando-me sobre o lençol cheiroso da maca, a mesma na qual ele se enforcaria quarenta anos depois. O dr. Glass piscou os olhos azuis sobre os quais cavalgavam duas grossas taturanas brancas e sem pedir licença começou a examinar detidamente minha pele, as axilas, detrás da nuca, o couro cabeludo, a virilha e o ânus, pô, o que me deixou muito envergonhado, e prosseguiu nas palmas dos pés e das mãos, na sujeirinha que ficava entre os dedos, ai, só sei que revirou meu corpo do avesso, e depois vieram as perguntas, muitas delas. O doutor queria saber se eu não sentia coceiras ou se às vezes, por exemplo, quando eu ficava uns dois dias sem tomar banho, pois bem, nessas ocasiões você não tem assim umas vermelhidões na pele dos braços ou nas costas, meu menino, não sente umas comichões e um desejo de arrancar a própria pele com a escova ou então de se enfiar num tonel cheio de ácido sulfúrico, não sente nada disso, meu bom garoto? Então eu apenas fazia ideia daquilo a que se referia, pois sabia que um inimigo do Batman tinha metade da cara derretida por ácido, mas não entendi bem o que o doutor pretendia dizer, e acredito que nem ao menos ele soubesse, pois logo após o exame pediu perdão, dizendo-se esgotado, é fogo, já que perdia noites nos ambulatórios do Desinfectório Central da rua Tenente Pena no combate a doenças contagiosas, ele disse, além disso acontecia uma epidemia de varíola que necessitava ser contida, e então o dr. Glass devolveu minhas roupas reafirmando seu cansaço, abotoou minha blusa, abriu a porta e me empurrou com delicadeza pelos ombros na direção de minha mãe, tchau, que se levantou com cara de preocupada. Ela vestia um conjunto azul-claro e luvas brancas cujo contraste deixava a pele do rosto que apoiava com as mãos ainda mais escura. Na saída o dr. Glass me deu o livro sobre os comanches, dizendo que naquelas páginas eu saberia tudo o que precisava saber sobre os peles-vermelhas, sobre os meus companheiros de bando.

 

Entre as perguntas que o dr. Glass fez naquela tarde estava uma na qual ele gostaria de saber o motivo de eu ter brigado na escola. Contei para ele que vinha andando na rua com um colega quando o velho apareceu na outra esquina. Apontei meu pai ao colega, falei assim mesmo, olha lá o meu pai vindo, ó como ele é grande e alto e forte. Mas o velho mudou de calçada ao me ver, e o meu colega disse que eu devia estar enganado, e que aquele não era o meu pai, não podia ser, pois nós dois não tínhamos a mesma cor. Foi então que ele me chamou de sarará e eu dei uma porrada nele e nós dois saímos rolando no chão. O dr. Glass então passou a mão enorme dele, a sua mão branca, nos meus cabelos vermelhos, grossos e pixaim. Ele me disse para eu não me preocupar com aquilo, que estava tudo bem e que eu deveria olhar para minha mãe e procurar ser feliz como ela era, quem sabe cantar como ela costumava cantar quando cozinhava, cantar com aquela voz linda que seduziu o velho de tal forma que ele se casou com ela sem ao menos levar em consideração o que a comunidade do bairro pensava sobre um judeu casar com uma brasileira, ainda por cima preta. Ele disse assim mesmo, ainda por cima preta, e eu não estava acostumado a me referir a minha mãe usando a cor da pele dela. O dr. Glass disse, não se envergonhe dos seus cabelos vermelhos e de sua pele preta, ele falou, e dê mesmo porrada em qualquer garoto que te falar bobagem sobre tua pele-vermelha, meu bravo guerreiro comanche, foi assim que ele disse. E depois ele explicou que a palavra sarará era muito bonita e que vinha dos índios, não dos comanches, mas dos tupis, sara’ra, e que queria dizer algo assim como um inseto noturno arruivado, uma variedade de mariposa de cor fulva. Foi então que eu descobri que a palavra fulva queria dizer vermelha e achei muito bonita, mariposa fulva, inseto noturno arruivado. Acho que nada pode me definir melhor. Tenho impressão que é isso o que sou, uma mariposa fulva. Um inseto noturno arruivado e negro. Um lemingue que se afoga no oceano. Um comanche cujos bisontes se lançaram no despenhadeiro.

 

A tosse alta seguida de engasgos a seco interrompeu o devaneio. Eu precisava aliviar a dor do velho. Embora a luz da manhã que entrava pela janela iluminasse o bisonte e o verde do tapete no qual suas patas se apoiavam, deixando a sala tão solar quanto uma pradaria texana, bem ali ao lado o quarto do velho estava mergulhado em penumbra e se alastrava pelo ambiente um cheiro de pomada, meias e urinol pedindo para ser esvaziado. Nasci dez anos após o sumiço de meus pais na época da primeira gravidez de minha mãe. Então os dois já tinham mais de quarenta anos, e quando adquiri a consciência necessária, a sensação era a de que meus pais poderiam ser meus avós, coisa que numa certa medida eles eram, pois nunca tive avós. Bem, talvez o dr. Glass equivalesse a um avô para mim, com seus presentes e sua atenção sempre que aparecia na mercearia ou quando nos encontrávamos nas esquinas do bairro. Devido a isso estranhei o fato de não ter me cumprimentado quando o vi de saída do casarão da rua Tocantins, atual rua Talmud Thorá. Foi na tarde seguinte à consulta. Tenho certeza de que ele me viu naquele dia, porém mesmo assim apertou o passo, sumindo na rua seguinte e deixando meu aceno perdido no ar. Pensei que o doutor estivesse aprontando das suas, pois já era viúvo. Anos depois, ao retornar de minha aventura sionista de coração partido, o dr. Glass pagou umas cervejas e disse que algum dia precisávamos conversar. Tinha uma história que permaneceu não contada com o seu suicídio. Desconfio que estava relacionada àquele casarão, onde um dia funcionou um puteiro. A tosse do velho parou. Na cama, permanecia de olhos fechados, e havia saliva seca em volta da boca até o queixo, cujos músculos relaxados e a arcada dentária inferior projetada para a frente deixavam adivinhar sua face de amanhã. Um ruído seco na sala chamou minha atenção e voltei até lá por um instante. Sobre o tapete verde, o bisonte começou a se movimentar, e sua corcova aos saltos fez com que sua cabeçorra meneasse para os lados, subindo e baixando com delicadeza: o bisonte galopava, animado pela luz solar projetada através da janela. Então da costura em sua barriga irrompeu uma grande quantidade de serragem triturada em pó pelos cupins, encobrindo a superfície verde do tapete, o couro do bisonte se repuxou todo numa vibração súbita, suas pernas arquearam, impedidas de suportar tamanha pressão, e o animal desabou, restando apenas a carcaça vazia que exibia as entranhas de onde saía toda espécie de insetos. O banquete da natureza havia terminado. Foi a segunda morte do bisonte, sua última extinção. O seu fim. Um pigarro do velho me chamou ao quarto. Ele estava de olhos bem abertos, fixados no teto. Então se voltou para mim e pediu que eu lhe contasse algumas histórias de animais. Conte a história sobre a desaparição dos bisontes, filho, ele disse, e repetiu, conte para mim o final daquela história de que você tanto gosta, meu filho. Imaginei-o partindo a galope sobre o bisonte, que afinal não serviu para o impedir de sair, mas para que afinal fugisse. Ele me chamou de filho — de filho.