A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves
7. O escrivão: Animália
Animália
O cheiro de carne queimada invade o 77o dp. O pessoal do Centro de Controle de Zoonoses decidiu incinerar os cães ali mesmo no estacionamento, pois já haviam apodrecido. A vizinhança do bairro deve estar chateada por não ter sido convidada para o churrasco. Pelos berros do taxista em sua cela é possível perceber que ele também não está feliz. Os idiotas atearam fogo aos cadáveres sem retirá-los dos sacos pretos, e a fumaça tóxica do plástico invadiu todo o interior do prédio. O taxista aumenta o berreiro. Está desesperado com o sacrifício dos cães. Reage como se tivessem matado seus próprios filhos. A faxineira sacode a cabeça para os lados em desconsolo. Os policiais aproveitaram e saíram para produzir mais fumaça, que tragam lá fora neste instante, enquanto com a mão livre coçam o saco uns aos outros. As mãos estão desocupadas, pois não têm mais a quem perseguir. Nos próximos dias, viciados que ocupavam a Cracolândia até serem expulsos pela polícia se esparramarão pelos outros bairros. Assim que os virem, os moradores irão requisitar à polícia a retirada dos noias de suas ruas limpas. Só assim poderão passear em paz com suas crianças encoleiradas pelas esquinas. Daí os noias voltarão para cá. E os policiais irão às ruas. O velho jogo de gato e rato vai ser restabelecido. Por algum tempo todos vão dormir felizes, menos eu, que não durmo há duas semanas, talvez mais, e os cavalos, que continuarão a ser montados. Cumpro minha rotina de mariposa fulva, de inseto noturno e ruivo. Verifico se existe alguém por perto, estou sozinho. A faxineira também saiu, então aproveito e engulo mais dois Inibex com auxílio do uísque escondido na gaveta da escrivaninha. Não posso dormir, e nem conseguiria. Preciso esperar a manhã chegar. O dia nascer, como dizem, apesar de que este será um dia natimorto. A fumaça preta da cremação dos cães torna impossível continuar no interior do distrito, então saio para dar uma volta na quadra, enquanto o delegado de plantão toma alguma providência. Na rua, observo os morcegos da árvore em frente e os jornalistas cochilando nos carros e na calçada diante do prédio. Ao vê-los, listo na cabeça alguns animais de hábitos noturnos que acabam de ser mencionados pela veterinária na entrevista da tv, felinos como o gato-do-mato, o maracajá, a jaguatirica, a suçuarana, a onça-pintada, o gato-palheiro e o lobo-guará, o jupará, a coruja, a mãe-da-lua, esses morcegos aí, as rãs e os sapos, os repórteres, o gambá, um mão-pelada, um outro mão-pelada, cinco ou seis mãos-peladas, vários mãos-peladas, o urso pardo, que além de ser notívago é solitário, o jacaré e a jiboia, os camundongos e os ratos e essas ratazanas aqui do bairro, os tatus, as hienas, o urso-de-óculos, que deve passar suas noites lendo, os escorpiões, as aranhas, as chinchilas e lontras, as baratas, mas estas costumo ver de dia, provavelmente na hora em que estão indo para a cama, e o cachorro-do-mato, e como deve ser chato ter insônia no mato onde não há nada para fazer, nem para um cachorro e os tigres, os tamanduás-bandeiras, os hipopótamos, os furões e as fuinhas, os ursos polares, quem diria, que não têm culpa de viver num lugar onde a noite dura seis meses, e as mariposas fulvas, as preguiças e os policiais, os bolivianos e os coreanos, os rabinos, os escrivães de polícia e as prostitutas e seus cafetões, as cantoras de boate, os viciados em crack, os taxistas, e os rottweilers do taxista, mas estes já eram, as enfermeiras, todos os entregadores de mercado, as mães e os pais, todos tão estranhos quanto o ornitorrinco, e os insetos noturnos arruivados e o leopardo-das-neves, mas este também está morto e agora voltou ao cume das Montanhas Douradas do Altai. Esses são os animais de hábitos noturnos do Nocturama do zoológico da cidade, deste zoológico aqui, ou costumavam ser. Vinte minutos após sair, quando retorno de meu passeio, o desastre que eu aguardava ocorreu como previsto. Enquanto policiais fumavam e contavam piadas e o pessoal do ccz consertava o serviço porco feito pelos lixeiros ao atear fogo aos cães, enterrando-os, o taxista se suicidou em sua cela. Enforcou-se com um cinto. Ninguém faz ideia de como o tal cinto foi parar na cela, já que os presos não podem entrar com eles, mas eu faço — se faço. E se todos observassem agora as minhas calças frouxas quase caindo, também fariam.
Hoje, pela primeira vez nos últimos meses, saí de noite do apartamento da rua Guarani para vir ao trabalho sem expectativa de voltar. Não vai ser mais necessário. De manhã, fechei os olhos de meu pai e de tarde compareci, como combinado, ao escritório da Administradora de Recursos Humanos Rosenberg S. A. O endereço fica a meras cinco quadras de casa, numa sobreloja na rua da Graça que conheço desde garoto pois passei em sua frente centenas de vezes, na época do colégio. É um prédio baixo de dois andares, típico do Bom Retiro de outros tempos. Está decadente e sua marquise ameaça achatar pedestres na calçada em dias de chuva. No piso térreo existia um armarinho no qual minha mãe costumava comprar aviamentos e novelos de lã, que depois passou a ser a pequena confecção de um judeu, daí a barbearia do napolitano que deu lugar ao alfaiate sírio, que morreu de diabetes, e então sua porta de correr ficou cerrada durante alguns anos (parece que o filho não pagava os impostos), até reabrir transformado nessa lanchonete frequentada por nordestinos que trabalham na construção civil no bairro. Ao observar a parede da frente do prédio, tive a certeza de que se descascasse com a unha sua pintura a óleo de cor verde, conseguiria ver as tintas anteriores, e encontraria algum rabisco que fiz ao voltar da escola numa manhã de quarenta anos atrás. Apesar de conhecer o predinho, nunca havia percebido o letreiro de metal acima da escada lateral, indicando o nome da administradora em português e hebraico. Ao subir as escadas sapateando, pensei se as baratas não teriam hábitos vespertinos em vez de noturnos. Ou então todas sofriam de insônia igual a mim, pois pareciam bem acordadas. Como a porta do escritório se encontrava entreaberta, empurrei-a sem aviso. Na salinha minúscula de paredes recobertas por lambris e apólices emolduradas, dois velhinhos haredis de ternos pretos cofiavam barbas e olhavam para mim com expressão curiosa e nenhum espanto. Deviam ter a idade de meu pai e do dr. Glass, um pouco mais novos quem sabe, embora não lembrasse de tê-los visto anteriormente pela região. Estenderam para o meu lado uma cadeira cujo estofo de napa furado permitia fazer a autópsia de suas entranhas de espuma, me convidando a sentar. Antes que falassem qualquer palavra, entretanto, anunciei as novidades: meu pai estava morto desde aquela manhã e eu não pretendia, na verdade nem podia, arcar com suas dívidas. Mesmo assim eu gostaria de saber quais eram as transferências e depósitos atrasados aos quais eles se referiram nos telefonemas. De novo sem fazer alarde, o mais alto — reconheci sua voz rouca assim que abriu a boca — disse que eu não devia me preocupar, pois os problemas estavam solucionados. De maneira indesejável, porém solucionados, falou, dando pêsames. Não sei como, já sabiam da notícia. Ele então contou que a Administradora Rosenberg — tratava-se dos irmãos Rosenberg em pessoa — cuidou dos recursos humanos necessitados por minha família nos últimos sessenta e sete anos. Desde o final da Segunda Guerra, disse o irmão Rosenberg mais alto, enquanto o irmão Rosenberg baixinho nos observava em silêncio. É muito tempo, mas dito assim, “cuidar dos recursos”, parece indicar que o serviço era difícil, o que não é verdade, ele prosseguiu, ou que era muito importante, o que creio estar mais próximo da realidade, pois era, sim, um serviço essencial que infelizmente não é mais, pois aquilo que o demandava não requer mais nossa atenção, e sim a sua atenção agora, já que voltou aos cuidados da família, às suas mãos. O irmão Rosenberg baixinho então se afastou do batente da porta do banheiro onde se encostava, empertigou-se, ganhando uns dois centímetros a mais de altura, e emendou que a responsabilidade da empresa administradora era selecionar recursos humanos com os conhecimentos necessários, ou seja, profissionais, para administrar o imóvel da rua Talmud Thorá pertencente ao velho e, o mais importante de tudo, cuidar com zelo da inquilina do no 905. Também explicou que os irmãos Rosenberg tinham entre suas qualidades a discrição, e que sempre se referiram à moradora do imóvel como “a inquilina do no 905” entre si, ou então “a inquilina da Tocantins” e, depois de a rua mudar de nome, “a inquilina da Talmud Thorá”, para que, num possível descuido, alguma outra forma de descrevê-la, talvez indiscreta, não despertasse a atenção de curiosos ou de estranhos ou mesmo de vizinhos do casarão. Nos últimos sessenta e sete anos os irmãos Rosenberg fizeram o impossível e o miraculoso para cuidar das necessidades da inquilina do no 905, contratando primeiro governantas e depois enfermeiras, conforme o tempo passou e os cuidados médicos com ela se tornaram mais sensíveis. Também atendiam a emergências, e acompanharam o dr. Glass, o saudoso dr. Glass, em suas consultas periódicas e em outras situações inesperadas, em emergências que às vezes aconteciam. Agora, com o falecimento do doutor, não tinham mais como fazer isso. Mas o que se tornou preocupante foi que, com a prostração do velho nos últimos tempos, as transferências bancárias cessaram por completo. Durante alguns meses os irmãos Rosenberg usaram de recursos próprios para pagar os honorários da enfermeira contratada, e, o mais importante, depositaram o valor necessário para a manutenção da casa, mantimentos etc. No entanto chegou o dia em que não puderam mais continuar a investir pessoalmente naquilo, pois o dinheiro, que era curto, acabou. Não sabiam como as duas conseguiram se manter desde então até a noite do passeio noturno no zoológico, mas eu sabia, ou suspeitava, pois o jovem entregador vinha sendo acusado pelo padrinho, o proprietário do mercado coreano, de não dar baixa nos produtos que entregava à sra. X — o rapaz andou ajudando as moradoras do casarão da rua Talmud Thorá. Então o irmão Rosenberg mais alto retomou a palavra, esclarecendo que compreendia que a enfermidade do velho atingiu um ponto no qual ele não tinha mais consciência de suas obrigações com a inquilina do no 905, impedindo-o de realizar os pagamentos necessários. Toda aquela história era um terrível engano do destino, falou o irmão Rosenberg baixinho, um equívoco sem igual, já que desde o nascimento a expectativa de vida da inquilina do no 905 não passava de alguns meses, no entanto ela já passava dos sessenta e sete anos, sessenta e sete, quem poderia dizer que alguém tão doente poderia viver tanto? Durante muitos anos, após o prostíbulo fechar e adquirir o imóvel, o velho a visitou todas as noites, você ainda era uma criança nessa época, mas não a sua mãe, a sua mãe nunca a visitou. O velho deu aulas para ela, mobiliou a casa, povoou-a de prateleiras com livros e com o passar dos anos e a consequente recusa do destino em realizar o seu trabalho, nos incumbiu de contratar as governantas necessárias. No início elas duravam pouco tempo, não se adaptavam aos hábitos notívagos exigidos pela condição da inquilina do no 905, e só a partir daí, do cansaço e dos problemas decorrentes dessa rotatividade indesejada, contratamos profissionais gabaritadas. Acredito que o alto custo dessas profissionais debilitou as finanças do negócio de seu pai, disse o irmão Rosenberg mais alto. A enfermeira atual é a mais cara de todas as que aceitaram o serviço, e a de melhor currículo, nunca chegamos a compreender o que a motivou a aceitá-lo. Com o passar dos anos, o velho não visitou mais a inquilina do no 905. Havia duas décadas que ele não punha os pés no casarão. Durante alguns minutos os dois irmãos permaneceram em silêncio. Pareciam acompanhar minha assimilação daquilo tudo que tinham acabado de contar. O forte odor de ureia que vinha do banheiro e o chulé centenário que as meias dos velhos irmãos exalavam me deram tontura. Então o irmão Rosenberg mais alto falou que só naquele momento — pela minha expressão de espanto — eles percebiam que eu nada sabia daquele segredo familiar. Mas era compreensível, quando nasci os meus pais já estavam velhos e aquela era uma história muito antiga, mais uma história triste da Segunda Guerra, uma história de outros tempos, de tempos que já não existem mais, de um Bom Retiro que tinha virado fumaça, e além disso o velho nunca foi de falar muito nem de revelar seus segredos.
O insone é um sujeito que é despejado com violência de sua cama quentinha e jogado num deserto frio e iluminado. Não pertence à noite nem ao dia, mas ao limiar, está no meio do caminho. Sob a luz do dia, é levado à loucura, pois caminhar ao sol turva a visão e causa alucinações. A luz, em vez de clarear, torna difusos os contornos daquilo que não é percebido muito bem. Do mesmo modo que a luz afeta o retrato familiar antigo que ficou tempo demais exposto à luz solar e perdeu seus pigmentos. O passado não deixa de ser uma soma de distorções e de mal-entendidos, semelhante à pintura da parede da lanchonete no andar térreo da Administradora de Recursos Humanos Rosenberg S. A., cores encobertas por outras cores sem lixamentos prévios que são encobertas por novas cores. No entanto a cor original da parede permanece ali debaixo, oculta sob camadas que se seguiram a ela, ainda respirando, viva. Diante dos olhares meio incrédulos dos pedreiros que bebem calmamente sua cerveja no balcão da lanchonete, enfiei a unha do polegar na pintura da parede e fui raspando a tinta verde, e a atendente detrás da caixa registradora não pareceu nada feliz com isso. Sob a tinta verde descascada encontrei uma cor cinzenta, depois outra amarela, e branca, e um verde mais claro, novamente amarelo e então o azul de minha infância, aquele mesmo azul de quando eu passava por ali vindo do colégio, quarenta anos atrás, sem desconfiar de como a vida pode ser complicada se não nos ativermos ao tédio dos animais, às nossas vidas monótonas, se não suportarmos a solidão diante da tv ligada. Ainda estava ali, debaixo de todas as tintas posteriores a ela. Não suportar a inação é o início de nossa desgraça. Acima de todas as cores vem o sol, batendo de chapa na parede, subtraindo formas, desaparecendo com tudo, deixando a realidade indefinida. Quando os comanches de Quanah Parker retornaram ao Texas, vindos de sua reserva em Oklahoma, se depararam apenas com um cartão-postal de seu próprio passado, assim pareciam as pradarias texanas recobertas de ossadas dos bisontes mortos pelos caçadores brancos, um postal enviado por algum inimigo irônico de outras eras, pois as Grandes Planícies não passavam então de um retrato esmaecido no corredor. Na área descascada da pintura na parede eu buscava uma janela para o Bom Retiro da época da Segunda Guerra, quem sabe a passagem através do tempo na qual pudesse arranjar explicações com o dr. Glass e com a minha mãe morta, até ser afugentado por pedreiros incitados pela atendente que estava detrás do balcão da lanchonete. Após quase ser linchado por destruir a nova pintura da fachada, voltei à rua Guarani e soube de imediato que nunca mais abriria as portas de correr daquela mercearia. Elas ficariam ali, fechadas, e aquilo que estava no interior da loja, a caixa registradora, a banqueta côncava esculpida pelos fundilhos das calças do velho ao longo de sessenta e cinco anos nela sentado, as flâmulas amareladas do clube trotskista da José Paulino, do Yugent Club e um pôster do time do Corinthians de 1977 com Basílio sorridente, as prateleiras empoeiradas com uns poucos produtos e inclusive o gato e sua sarna, tudo permaneceria para sempre ali guardado como o relicário de um tempo que não existe mais. Talvez, algum dia, a banqueta soltasse um murmúrio baixo em sua lembrança, e as marcas nas tábuas de madeira do piso se recordassem de seus passos. Subi a escada, cruzei os restos mortais do bisonte na sala (os cupins eram os únicos vitoriosos daquela batalha campal sobre o tapete), e entrei no quarto do velho. Para minha tristeza ele continuava imóvel, na mesma posição que eu o havia deixado ao sair. Não se movera nem um só centímetro. Deitei na cama ao seu lado, estiquei meu braço e comparei a cor de nossa pele. Não eram iguais. A dele ficava cada vez mais branca, irrigada por afluentes azuis, muito finos. A minha permanecia escura e opaca, e não era possível ver através dela nenhum vestígio de sangue correndo. Quase negra. Não éramos nem ao menos parecidos. A pele de uma mariposa fulva. Comparei nossos fios de cabelo, os dele branquíssimos, os meus vermelhos, grossos e enrolados como os de um inseto noturno arruivado. Muito diferentes. Sobre o criado-mudo ao lado da cama havia uma xícara de chá pela metade. Observei o leve tremor na superfície do líquido, uma vibração quase imperceptível causada pelos ônibus e carros que passavam lá embaixo, e não pela manada de bisontes se lançando ao vazio do abismo no final da rua, suicidando-se no despenhadeiro, afogando-se no meio do Atlântico como os lemingues da Noruega. E percebi que aquele movimento mínimo no líquido do fundo da xícara em cujo reflexo nossa casa tremia também podia ser o fim da Atlântida, o fim do meu mundo. A extinção dele.
Não durmo há duas semanas. Ou seriam três? Na delegacia, a fumaceira se dissipou e o cadáver do taxista foi removido para o Instituto Médico Legal. O cheiro de carne queimada, porém, ainda impregna o ambiente. A criatura continua na sala dos fundos. Dentre as testemunhas, o entregador menor de idade foi dispensado com a retirada das acusações de furto pelo dono do mercado, seu padrinho, e com a chegada de sua tia do interior. Os pais nem apareceram, de tão envergonhados. Não imagino castigo maior do que o olhar com que a tia o recebeu na saída, tão sentido que incluía cada semana, dia, hora, minuto e segundo de uma condenação a prisão perpétua. Devido ao suicídio do taxista, a sra. X foi algemada em sua cela por segurança e depois conduzida até minha sala. Aí está o monstro disfarçado, usa a máscara cansada de uma velha senhora. Neste ambiente de proporções humanas parece ínfimo, menor que uma barata. Observa a movimentação da delegacia como se nada aqui lhe fosse alheio. A sra. X reza como se Deus ainda estivesse disposto a compreender as palavras de inseto que ela tem a lhe dizer. Funcionários da delegacia se movem em câmera lenta diante do sofá onde ela está, ao lado do bebedouro e da cafeteira que solta sua borra costumeira, emprestando ao ambiente uma atmosfera de anteontem, de cansaço e finitude que nem o fedor de churrasco de cachorro pode superar. Para a sra. X, os funcionários estamos grudados a uma teia de aranha. Não finge espanto com nada disso. Está aprisionada agora, mas é como se tivesse estado desde o nascimento. Faz tempo demais que transcrevo depoimentos de criminosos. Eu já devia ter me demitido. Preciso dormir. Aí estão os monstros. Sempre iguais, nunca os mesmos. Enquanto os demais se mexem, permanecem imóveis como a aranha à espreita. Pensam, e seus pensamentos são aquilo de mais secreto que há no mundo. Chegou a hora de retirar suas máscaras.
O testemunho do jovem entregador do mercado coreano se revelou fundamental, pois foi o único a comprovar a versão oferecida pela sra. X de que o casarão da rua Talmud Thorá, no 905, estava realmente mobiliado. Contudo, ao ser averiguado por policiais na manhã seguinte aos eventos do Nocturama, verificou-se que o mesmo tinha sido esvaziado durante a noite. No endereço não foram encontrados vestígios da criatura ou qualquer comprovação de sua passagem. Também não existem registros imobiliários e bancários que permitam rastrear a empresa que o administrava ou o proprietário. Os irmãos Rosenberg fizeram bem o seu trabalho. Suponho que a venda dos móveis os ajude a tapar o rombo dos gastos inesperados. De acordo com os depoimentos do taxista, nas circunstâncias em que a viu pela última vez, a criatura estava próxima à jaula do leopardo-das-neves. O animal, segundo o taxista, estava sob as patas traseiras diante das grades. Os dois se encaravam. A criatura então emitiu um ronquido grave que aos poucos foi aumentando até ficar tão alto a ponto de afligir os rottweilers, que caíram em profunda prostração, ganindo e se contorcendo de dor. Sem sair do lugar, a criatura provocou certa modulação, como se afinasse um instrumento interno, e daquela massa sonora indiscernível o taxista reconheceu aos poucos uma melodia tênue que se moldou nota a nota, ficando mais clara, e percebeu que ela estava cantando. Em conformidade ao restante de seu depoimento, o taxista afirmou que aquela foi a apoteose de sua composição musical, calando-se a partir daí. Agora não tem nada a dizer, pois está morto. Apesar do discurso confuso, a sra. X testemunhou de modo semelhante, acrescentando que, ao ouvir a voz da criatura, o leopardo-das-neves se dobrou sobre as duas patas que lhe restavam e se deitou no chão diante dela. Nesse momento a chuva que naquela noite causou estragos por toda a cidade se intensificou, e soaram trovões e relâmpagos. A depoente nada mais ouviu após um grande clarão. Quando voltou a si, a criatura e o leopardo-das-neves tinham desaparecido. Em sua confissão, a criminosa afirmou não compreender como a pobre criatura sobreviveu às doses de potássio que lhe ministrou, contrariamente ao que acontecera às suas vítimas anteriores. Conforme os rumos da investigação permitem supor, e a Interpol tem nos auxiliado nisso, o número de vítimas da sra. X ultrapassa duas dezenas. De acordo com a polícia britânica, os pacientes terminais do hospital de Manchester no qual operou a Enfermeira da Morte (assim a imprensa a chama) foram assassinados por meio de ingestão oral de líquidos corrosivos utilizados em limpeza misturados ao potássio. A sra. X também não entende como a criatura pôde produzir som tão melodioso ao final do passeio noturno, pois não tinha mais língua. Enquanto dormia em seu colo no interior do abrigo, por vários momentos a sra. X chegou a pensar que ela já estivesse morta desde muito antes, quando a conheceu em sua primeira noite de trabalho no casarão. Ao ser recolhida à cela, a sra. X desejava apenas voltar a viver de dia. Somente assim suas mãos talvez deixem de tremer. A primeira claridade ilumina os papéis sobre a escrivaninha, queima a pele fulva de meus braços. O dia surge. Saio da sala e entro no corredor que leva ao quarto dos fundos, onde está a criatura. Paro em frente à porta cerrada e controlo a mão que segura a chave. Na escuridão do interior, sinto um forte odor de flores que inunda todo o ambiente. Caminho como um cego que subitamente voltou a ver até as janelas pintadas de preto e as abro uma a uma, deixando a luz do sol entrar, e então eu falo, olhe pela janela, irmã, olhe para fora, minha irmãzinha, e escute aqui na Terra a música, a música humana.
Você terminou A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves
Joca Reiners Terron
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