Agonia da fome

Maria do Carmo de Freitas · Capítulo 7 de 9 · parte 2/3

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Agonia da fome

A fome caminha no bairro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

eu me viro, sou é retada mesmo pra segurar essa barra. Não

tenho nem tempo pra ficar sentindo frescura, tenho problema

demais.

[...]

E essa gente que anda direto atrás de mim... (vem um longo

silêncio, os olhos se enchem de lágrimas) deixe pra lá (silêncio

novamente, e a voz adquire um tom baixo). Infelizmente, eu não

posso abrir tudo senão você sai daqui correndo.

Sobre as imagens simbólicas da fome, a informante se contrapõe:

O povo está na ignorância e por isso acredita nessas coisas. As

pessoas precisam ficar imaginando essas coisas, porque pra

muita gente não tem jeito de melhorar a vida, aí ficam

inventando esse negócio de mulher, espírito. Mãe falava isso,

mas eu nunca acreditei. Mas eu respeito (Sílvia).

Ao relativizar, ela acolhe o crédulo em sua indagação. A perspectiva colocada é a de uma desconstrução, quando deixa de lado a forma ficcional da fome, não reproduzindo o mal-estar demonstrado por Elza, Tiêta e outras mulheres, incorporando outro sentido de fome, o oposto. Por um momento, Sílvia questiona a racionalidade do real e a visão naturalista de mundo com o estranhamento da fome em seu próprio corpo, mas não em seu mundo, seu bairro. Esse contraste torna-se mais evidente em outras narrativas de outros informantes, ao transitarem no real e no imaginado, numa clara mistura de crenças e indagações.

A fala de Sílvia, em estilo crítico, propaga-se num realismo que se constitui no inverso ou no diferente de outros observados, mesmo que haja alguma semelhança. Para ela, a fome continua fundada nas condições sociais, mas os sentidos pessoais são outros. Ela se refugia na reflexão interpretativa, para evitar as sensações de medo da fome. Ao constituir tal conduta, também se dá conta do sentido de agonia, quando o filho some. A situação de carência material, que enfrenta com um salário mínimo para sustentar seus filhos, é uma angústia de fome associada à angústia de ver seu filho viciado em crack.

Para ela, os sentidos de fome são também os sentidos de outras faltas e não só a de alimentos, como a falta de amor e união naquelas pessoas crédulas, com “ilusões” sobre a fome.

A compreensão da fome encerra um recorte de sua experiência frente ao mundo, quando diz que sabe “se virar” para comer. Por isso, assumese como uma pessoa que não é “frouxa” e, ao contrário, considera-se “retada pra segurar essa barra”, essa vida de fome. Mas, num momento, quando o silêncio corta sua fala, emudecida, teme algo.

Meses depois, pude interpretar porque ela não podia “abrir tudo” da sua vida. O silêncio viria a desvelar o dilema de participar ou não como traficante de crack. Ela se afasta para escolher a única estratégia que conhece para sair rapidamente da comida paupérrima que oferecia aos seus filhos. O reconhecimento da incerteza de mudar a vida privilegiava o silêncio da narrativa, conotando a precária alimentação como uma opção. Por essa razão, ela era enfática quando afirmava que: “pra ficar nessa é preciso ser muito retada mesmo”.

Como mostrei antes, no capítulo anterior, a despeito da escolha de Sílvia, há uma revelação do conflito: continuar enfrentando-se com fome ou ir a busca de uma ação social, intencionada para contrapor-se a esse problema. Com a tomada da decisão, a fome passa a ter novos significados. O medo de sentir fome é transformado no medo de ser presa ou morta, e conseqüentemente, seus filhos ficarem abandonados e ainda mais famintos. O temor permanece como uma disposição, revestida em outro disfarce, pois ela reconhece que a fartura de iogurtes e carnes não é permanente. Também entra em conflito com seu novo discurso sobre a droga, quando já não consegue sustentar os antigos valores em que se ancorava para resistir ao comércio das drogas. Deixou de ser retada, para sentir-se submissa e alimentar os filhos:

Como é que eu podia viver daquele jeito? Não dava mais,

agüentei até onde eu pude. Tive de me virar como muita gente

faz, deixo o coração pra lá e passo (a droga) morrendo de

medo. Não quero nada pra mim, é pros meninos, que tão tudo

se acabando de fome, você sabe.

[...]

A coisa que me deixa triste é que eu estou passando isso pra

os rapazinhos que nem meu filho. Isso me dói, porque eu sei o

que é um sofrimento pra mãe dele. Mas se não for eu que

vendo, vai ser outra pessoa, aí me conformo (Sílvia).

A droga que provocou a destruição de seu marido e de seu filho, vem resolver a fome imediata, mas traz outros problemas: a perseguição e a subordinação aos novos parceiros dessa atividade, e o medo de ser flagrada pela polícia. A compreensão do fenômeno da fome será finalmente incorporada a uma ação que muda a vida da unidade doméstica. Esse é o caso referido no capítulo anterior, que trata do drama da mulher que entra no narcotráfico para alimentar sua família e assumir “...o inferno, que virou esse lugar, onde ninguém se salva [...] Está todo mundo aqui abandonado por Deus”.

Eu não quero ficar como muitas aí, com os filhos tudo doente,

tuberculoso, e enchendo a cabeça de besteira (chora).

Desculpe, eu quero mesmo é ver meus filhos tudo direitinho,

estudando e de barriga cheia (Sílvia).

Os significantes da fome são apresentados como representações aportadas em elementos concretos das condições sócio-econômicas. Logo, as interpretações construídas pela linguagem vêm definir a fome, na experiência bruta, terra a terra, pela dificuldade de acesso aos alimentos. Mas também se constrói com vôos de imaginação, uma pluralidade de sentidos naturais desse cotidiano, cuja percepção não tem racionalidade e repousa no terreno da intersubjetividade.

Há algo de concreto na expectativa que o sujeito cria em si mesmo, enquanto narra o que aconteceu com outras pessoas, e o que poderia ter acontecido consigo. Ou quando fala da possibilidade real de ser invadido pela figuração de uma fome alheia. São os sentidos convertidos na consciência a coexistir com o corpo, numa trama que mescla a realidade dos fatos à invenção de uma imagem que ameaça.

Por entre as linhas, as frases, interditadas por silêncios, confirma a necessidade de estranhamento da fome, justificado pelo signo de negação de um sentido atraente ao corpo. Dessa oposição aparente, os interditos são como idiomas simbólicos na superfície da tela do bairro e dos mundos. Ainda que as pessoas se expressem sob a forma de símbolos, há, no interior desses, um duplo sentido verbal e não verbal, como se observa a seguir, quando analiso outras metáforas da fome. Os sentidos apresentados são, então, construções culturais que tendem a velar (desvelando) a realidade.

De todo modo, a cria expressa em várias falas, surge da aparente debilidade consciente do sujeito frente ao mundo. As imagens são formadas a partir de uma conduta imposta pelo mundo, para explicar a existência e compreender, na experiência, a reprodução de uma identidade subjetiva e objetivamente reconhecível. Imagens que nascem como uma produção cultural dentro do processo social, numa visão sentida e interpretada junto ao contexto em que é formada.

A idéia de um ente fora do ser é uma manifestação expressa da imaginação. Não se trata de uma aparência física do ente, apenas, mas dos significados que este pode ter para a unidade doméstica, o bairro, o mundo.

O ato de interpretar a fome como uma imagem, é, para o sujeito, uma manifestação comungada ao medo, vez que “todo mundo aqui sente, mas não gostam de dizer, porque tem medo dela (fome)” (Elza). A reação justifica a criação de um ente que testemunha o cotidiano, para além da consciência ou da racionalidade.

Nessa transcendência, a elucidação particular dos sentidos de fome é válida para o ser, conquanto sejam esses os sentidos provisórios na instância da objetivação, mas permanentes na pré-reflexão. Para Sartre (Op.cit.:35-36), são as “regiões separadas” no mesmo ser, com sentidos igualmente separados, que fazem conexão com as relações que as unem.

Os sentidos expressos de uma fome tipificada agem como uma operação mental inversa ao curso da ação real. Ao evocar a fome de modo objetivo, com sintomas no corpo, o indivíduo se posiciona e entende seu mundo, como uma tomada de sua consciência. Nessa clara visão do fenômeno, ninguém consegue ver, mas sente. E não se vê, porque o sujeito não pode conceber a fome em sua visão. Mas, na subjetividade, pode representá-la objetivamente para-si, distintamente de representála em si mesmo. Se ele pudesse ver sua criação, isso poderia afetar a sua vontade de criar, significando o fim da contemplação ou a própria morte. Em outras palavras, o sujeito, ao sentir a fraqueza do corpo pela falta ou pelo medo da falta de comida, cria imagens para entender seu mundo. Os seguintes enunciados mostram diversos sentidos de fome:

Ela chegou na casa de fulana e eu escutei quando ela bateu na

porta com força, cheguei a acordar. Ela (a fulana) estava

acabada depois que mataram o marido dela no beco (Elza).

A gente sente ela querendo se chegar. O corpo fica fraco,

parece que não se agüenta mais (Das Dores).

A menina de uma mulher que vive lá embaixo estava de mês,

bem fraquinha, só chorando. Aí a peste quis pegar a bichinha,

porque ela só pega quando a gente está bem fraca, sem nada

(Tiêta).

Eu escutei ela e fiquei quieta, esperando ela passar. Demorou

um tempinho, aí ela foi embora da minha porta (Conceição).

Tem gente que sente até o cheiro dela. Um cheiro ruim quando

ela está perto [...] Um fedor de podre (Val).

O cheiro da fome é o sentido da aproximação da morte, antecipada pela fragilidade do ser nesse lugar de fome. Como vemos mais adiante em outras revelações.

Da fragilidade do ser lembro Cida; mendiga, sem companheiro, obesa e alcoólatra. Tem cinco filhos menores, e conta que, quando conseguiu alugar um quarto durante três meses, sentiu a presença da entidade fome em sua porta, exatamente no dia em que não tinha dinheiro para pagar o aluguel. Suas crianças são todas menores e sobrevivem da mendicância. É considerada pelos vizinhos como uma mãe irresponsável porque não cuida de seus filhos. “Os meninos dela só vivem sujos, tudo parecendo uns porcos, por isso Josival deixou dela, eu só deixo ela dormir aqui porque tenho pena dos meninos” (Tiêta).

Os meninos estavam chorando, e eu nervosa, com a cabeça

doida, sem saber o que fazer, vendo a hora de voltar pra rua

[...]. Eu saí pra pedir a um e a outro e fiz um dinheiro, me aliviei

[...]. Ela (fome) veio depois, mas não pegou ninguém meu, por

causa da minha valentia. Eu fui tomando força e se ela voltar eu

enfrento (Cida).

Sem apossar-se do sentido alheio, cada um cria uma possível representação, a fundir-se com as sensações corporais (nervoso, arrepios, agonia etc.) e aos outros sentidos (situações outras do cotidiano, já mencionadas). Trata-se, pois, de significâncias de propriedades pessoais e interligadas aos processos comuns de seus pares semelhantes. No enunciado acima, a informante procura, na manifestação da imagem de sua fome, reconduzi-la como sua propriedade, a qual é significada junto à falta de dinheiro para pagar o aluguel da casa. Ao agir, ela tenta se libertar, provisoriamente, do que de fato teme: seu mundo mesmo.

A fome se revela nas faces em pavor dos informantes, que gemem e parecem engasgar suas falas. No mesmo palco, “tudo que se fala se escuta” (Elza). Por isso, fala-se sobre a comida num tom baixo. Tanto “ela” (fome) pode escutar como “outros” também, porque as paredes não se tornam surdas para o ente criado e nem para os outros encarnados na realidade do bairro.

A “criatura” fome parece-se com gente, tem pernas, uma face nem sempre visível, ou não reconhecível, “é doida, amalucada”,

perversa4 . Habita fora do corpo do sujeito, percorre as ruas dos bairros pobres e pode ser pressentida. Separada do corpo do seu ser, pode ser percebida de perto, e sua presença aterroriza, semelhante ao demônio. É algo terrífico, exibido para ser vivido. O sentido tem um físico, que convive no mundo cotidiano e que se desloca do automatismo para o espaço da reflexibilidade e cognição, quando apropriada por aquele que a chama, porque está frágil. É nesse instante do chamamento que se dá o lampejo da consciência, que faz arrepiar o corpo, doer o peito, as pernas, a “boca” do estômago. O encontro face a face com o imaginado torna-se real, e sua objetividade o corpo expressa.

O sentido remove-se de dentro do corpo, para ocultar-se na superfície da conotação, através da qual as sensações adquirem as formas dadas. A expressão de assombro de algumas mulheres soma-se às narrativas em cenas de tensão, com conteúdos expressos por sinais corporais. E Bernadete expressa: “Estou sentindo, sentindo, é ela” ou “Ói só meu braço todo arrepiado, ui”. Essas expressões aludem a características significantes, indicando conexões entre contexto e fala. Ela salienta os olhos, como se buscasse ver mais do que o medo lhe impõe. Outras apresentam fisionomias diversas, ao tocar no tema: contorcem sobrancelhas, que se cerram, movimentam a cabeça em sinal de negação etc.

Nessa semiologia da fome, não estão em jogo apenas os gestos, nem a impressão de uma visão, mas o tom das vozes, o receio da pronunciar a palavra fome e os sentidos recorrentes. Os significados da fome não se encontram fincados na coisa ou ente, ou imagem, mas no mundo. A trama de significados é o próprio mundo.

Embora a fala não seja capaz de dizer todo o sentido, significa que o sujeito fala com outros signos e assinalam suas próprias identidades no contexto em que vivem, quando se referem que “ela só anda por aqui, no meio de gente pobre”, “ela mora é aqui”, situando-a no tempo e no lugar ontológico, a “ilusão” de suas realidades. E, cada um liga seu ser histórico ao conjunto de sua realidade.

As expressões extralingüísticas se somam às lingüísticas, num ato que consiste em juntar detalhes, incidentes da história de vida, o momento presente e uma pluri-sensorialidade de mensagens (maus cheiros, arrepios, zumbidos), a formar unidades reflexivas e estéticas da condição faminta. Dessa maneira, a “coisa” não interrompe seu curso quando o sujeito se considera frágil ou fortalecido, pois a fome está sempre presente, ora mais próxima, ora menos, numa seqüência lógica que pode enfraquecer ou não o espírito, e até quando o corpo “não se agüenta mais, e aí se acaba” (Tiêta).

A procura de proteção contra tantas ameaças envolve o faminto no processo de aceitação de si mesmo, para que se sinta capaz de afastar-se dessas imagens de fome, mesmo que estejam inevitavelmente inseridas em seu mundo. Para isso, a religiosidade cumpre um papel importante:

Eu andava aperreada com meu marido sem trabalho, e eu

também. Aí eu fui ao terreiro pra ver se eu estava enfeitiçada,

porque não conseguia trabalho. Minha Mãe Dinda, lá de Cosme

de Faria, me disse que eu tinha que fazer uma obrigação, que

eu estava muito carregada, que eu não entendia nada do

mundo. Disse que eu tinha que ter consciência das coisas.

Tava boba, tinha uns 20 e tantos anos, mas era besta. Aí fui

fazendo as obrigações de Xangô, um banho, uns bozó nos

matos, e fui ficando mais calma, fui entendendo as coisas, a

inveja, a obsessão, a feitiçaria. Fui entendendo os olhos das

pessoas. Quando a pessoa olha pra gente com raiva, com

inveja, com medo, com tesão. O tesão eu senti no olho de

Nego, ele querendo me comer toda (ri). Mas aí é outra coisa.

Não é aquela coisa horrível.

Com essa coisa de olhado não pode se brincar. Tem gente aqui

que secou as carnes todinha só com o olhado de outra pessoa.

Isso aí dessa mulher (fome) que anda assustando a gente,

existe mesmo, mas ela às vezes está dentro de outra pessoa e

dá em olhado, em inveja, por isso fui entendendo as coisas. Fui

abrindo meus caminhos, consegui um emprego e nunca mais

abandonei meu caboclo. Não tem criatura do mal que entre na

minha casa [...] Essa coisa de obrigação a gente não pode

dizer. Cada um tem uma obrigação, mas não pode falar pra não

quebrar a força da gente (Bernadete).

No interior da vida doméstica, as expressões simbólicas alusivas ao significado da fome estão conectadas a outras situações aflitivas. Sobre isso, Bernadete coloca seus problemas na mesma cena dialógica com outras entidades divinas. Os ritos conferem, no Candomblé, o oferecimento da comida para um santo específico, as limpezas do corpo, entre outras obrigações, e, conseqüentemente, a obtenção da proteção do corpo.

Tudo pra mim é o caboclo quem resolve. É caboclo de azeite,

das forças de azeite, por isso ele é forte, vence de tudo. Ele é

menino Erê, mas chama de caboclo também, depende do lugar,

é igual, é o protetor das crianças, dos fraquinhos, dos pobres.

Quando falta comida, a pessoa vê um vulto. Aquele vulto de

mulher. Dizem que ela tem uma boca aberta cheia de dente, eu

nem gosto de ficar falando, ela anda como uma doida, com um

vestido vermelho comprido, sem sapato, de pé no chão, com os

cabelos doidos, corre, corre, com as pernas secas, igual a cipó

e tem um fedor de côcô, de mijo, quando passa.

Eu não vi, mas já senti o fedor dela e me arrepiei toda, um dia

que eu estava deitada sem poder dormir, a menina chorando, aí

eu vi a porta se sacudindo, parecendo que era um vento. Eu fui

ver se era a vizinha, quando eu cheguei perto senti um arrepio.

Fiquei com medo. Me deu uma agonia por aqui tudo (passa as

mãos no peito). Voltei e me abracei com minha filha. Era o mal,

era ela (fome) que estava querendo entrar na casa pra pegar a

gente dormindo.

Ela pega a gente quando a gente está na inocência. [...] Eu

fiquei a noite toda acordada. O leite do peito pingava, pingava.

Eu com medo de se acabar. Tinha pouco, mais era a comida da

menina [...] A gente acordada é difícil dela entrar. Fiquei

pensando o que eu ia fazer amanhã pra botar uma comida

dentro de casa.

Se a casa tiver sem nada pra comer, ela aparece. E no outro

dia o leite (do peito) foi indo e secou [...] Foi meu caboclo quem

disse. Ele é a minha salvação. Ele me avisa das coisas. Depois

que eu comecei a conversar com ele minha vida ficou melhor

[...] Nunca mais senti a presença dela nem aqui nem na rua [...]

Lá no terreiro, que é lugar de conversar, aqui não. (Bernadete).

Neste mesmo cenário, o “leite do peito pingava” depois “foi indo e secou”: sensações que sinalizam o reconhecimento da fome. Um estágio em que a informante domina de olhos abertos. Nessa identificação, ela interpreta o significante como uma condição transitória, que afeta seu corpo, assusta-a e pode afetar a filha. A ação de planejar a provisão de algum alimento para o dia seguinte é o instrumento imediato que a informante encontra para se reconciliar e finalizar esse episódio ameaçador. Sozinha, não consegue dominar a ameaça permanente, e, por isso, busca apoiar-se na companhia dos personagens santos de sua religião. Ainda que não haja um santo específico para curar ou evitar a fome, dentro do Candomblé, todos os problemas podem ser resolvidos a depender da força do santo, que empurra o sujeito a acreditar em si mesmo. Essa caracterização irá responder ao progresso, contra qualquer malignidade incorporada.

Dos cinco sentidos do corpo humano, quatro estão presentes nas sensações de fome, como: olfato (cheiro de fezes e urina); tato (“o braço se arrepia quando ela chega perto”), visão (“vê um vulto”); audição (se escuta quanto ela “bate na porta”). Quanto ao sentido do gosto, o mais importante para o ato de comer, ocorre um silêncio. Não há alusão nem ilusão. A sensação de fome não passa pelo sentido do gosto, pois ninguém expressa a lembrança de algo que comeu. Quando a fome (ente) se aproxima, a casa e o corpo estão vazios de alimentos. E a ausência do sentido do gosto, em relação à fome é uma espécie de defesa ou uma anestesia da boca para reduzir o sofrimento.

Segundo D. Lêda, uma mãe-de-santo que vive temporariamente no bairro:

A fome nunca é doença, é uma coisa da vida dos pobres e

pode ser afastada da gente, com o esforço que a pessoa faz

pra viver. O que vai depender da proteção dos santos da

pessoa. Mas é muito difícil se afastar da gente (Lêda).

A tarefa de banir o mal, qualquer que seja, está no acordo com os santos, feito através da mensagem do jogo dos búzios, num ritual onde a mãe-de-santo intermedia o bem e o mal e confere a indicação da cura. Para o Candomblé, a fome pode ser evitada a partir do combate às forças do mal, e um dos recursos é o oferecimento das “obrigações” aos santos, como uma estratégia de purificar-se de qualquer malignidade.

Ao envolver-se na religiosidade, o sujeito passa a significar a fome como uma entidade maligna, num entendimento que imprime ao cotidiano o caráter de uma existência que se reproduz junto às crenças. A importância da crença no sobrenatural está na possibilidade de explicar seus problemas e situar-se em relação ao que não compreende, ou tornar compreensível o incompreensível. Não são, portanto, meras superstições, mas produções onde ele se reconhece como produtor de interpretações da sua realidade. Ou seja, são aquilo que significam para ele. Assim, essas verdades fazem o indivíduo se sentir verdadeiro em seu mundo, para agir contra o que atormenta.

Nas diversas experiências, os valores morais estão embutidos nas construções conceptivas do viver, oferecendo aos sujeitos um sentido para capacitá-los a enfrentar todas as situações, sobretudo o mal da fome.

Os motivos que atraem o fenômeno da fome são variados. “Depois que meu marido arrumou outra [...] fui sentindo uma fraqueza, umas coisas estranhas pelas pernas, pela cabeça, um arrepio e quase a peste entrou na minha casa” (Regina). Nesse caso, a mulher desperta sua fragilidade a partir da ausência de seu companheiro e também do trabalho de terreiro que sua rival fazia para afastá-la definitivamente dele. Na sua percepção, o abalo do habitual motiva a aproximação de uma “peste que derruba a pessoa” quando esta se entrega ao sofrimento do desafeto. O que denominou de peste é mais tarde substituído por cão, quando participante de uma igreja neopentecostal.

Sobre isso, registro de antemão, que os moradores que participam da unidade religiosa, conforme minha observação preliminar, concebem as formulações metafóricas da fome, atribuíndo-as a entes demoníacos, pela evocação imediata da palavra fome:

Isso (fome), chama o bicho (faz sinais de dedos na cabeça

imitando chifres do demônio) e vem pra cima da pessoa, na

hora. Tem gente que se modifica todo bem na hora que chama.

Não presta não, é o cão que se veste de mulher pra acabar

com a pessoa. Aí o Senhor fica junto de nós e não deixa. Ele

quer que a gente, primeiro, se acostume com o que a gente

tem, sem ficar pensando no que não pode ter. Depois, a gente

tem de se esforçar, e se acostumar com as coisas, aí ele ajuda

a ter mais (Regina).

Com o fato de ter sido abandonada e amaldiçoada pela rival, a informante justifica novos significados para a fome, numa representação que se torna familiar, porque habita o terreno do real e encontra uma correspondência direta com a religião que abraça.

Para ela e outras, alguns sentidos não devem ser percebidos, e só a prece pode livrá-las das percepções involuntárias de fome. Suas respostas encontram eco na fé “do poder de Deus”; não o Deus morto, mas a divindade viva, capaz de manter-se em diálogo com o sujeito para banir qualquer tipo de sofrimento. É nesse sentido que a cabeça esquentada se resfria com a presença de Deus, e as pernas em dor se libertam para subir as escadas do bairro “sem sentir cansaço” etc. Como uma “misericórdia”, a prece corresponde à busca da força do sujeito, resultando em alegrias e valorização social, nesse mesmo terreno em que se sente condenado e aprisionado, donde aceita em silêncio sua própria fome como um destino dado por Deus.

Ainda assim, a busca de uma verdade fundadora do fenômeno da fome tem outras interpretações opostas, como revela uma mulher, indignada com a perda do emprego de seu filho:

Eu tenho uma estrutura da porra. Tenho temor de Deus. Um

Deus vivo. Aqui está morrendo gente toda semana. Tudo

matado. Estão se matando uns os outros, tudo isso por causa

do desemprego desse país e eu estou aqui firme. Entram na

droga porque não tem emprego. Sou consciente politicamente,

espiritualmente, em tudo. A gente vê os erros lá de cima, e não

pode fazer nada. Quem mais conhece o que o povo está

vivendo é quem vive aqui, quem é povo. E esse governo não

conhece nada. Só estão pensando no salário deles.

[...]

E agora eu com dois netos mais e o pai deles desempregado.

Um nasceu agora e outro na semana passada, de uma trepada

errada que meu filho deu numa menina. Os dois são de baixo

peso, porque as mulheres não comiam. O povo daqui está na

droga porque não tem emprego, as moças e rapazes daqui,

tudo jovem, tudo envolvido. Ainda bem que meus filhos só

fazem filhos, mas não entraram na droga.

Quase entraram, mas Deus foi forte pra mim. Eu rezo muito.

Estou muito chateada porque muitos estão nessa situação. Aqui

tem todo dia tem um estirado de manhã aqui no chão da rua.

Tão se matando pra conseguir comer melhor.

[...]

O governo não pensa. O governo é uma máquina. Uma

máquina como outras máquinas. Não tem sentimento. Eu estou

falando da desigualdade das pessoas, das coisas. É gente com

carro de ar condicionado e gente que vive desse jeito que você

está vendo aqui. Gente que não tem oportunidade de viver com

um salário pra o sustento da família. O governo não vê a

questão da criança, a questão do adolescente, a questão da

droga. Cadê um projeto para tirar essas crianças da droga ?

Não tem. Isso corta o coração da gente. O governo quer que o

povo viva na ignorância, pra votar neles. A gente aqui só tem

Deus e mais ninguém. Desculpe o desabafo (Renilda).

No enunciado, a informante dá prioridade ao real sobre a “ilusão”, trazendo outros significantes associados ao fenômeno. Nesse plano, a coisa, descrita antes, perde a autoridade quando a informante rompe a tradição que sustenta a fome aportada na esfera da subjetividade. A autenticidade da condição faminta, ao privilegiar a questão social e econômica no contexto particular, gera sentidos diferentes dos mencionados por outros informantes, ainda que haja alguns pontos em comum, que se constituem na afirmação da fome no outro em contraste com a negação de sua própria fome. Para essa informante, o fenômeno se encontra contraído pelo outro e, misteriosamente, fora de seu corpo. Contudo, não há, para ela, a necessidade de criar alegorias para sustentar as explicações do fenômeno.

Outro viés é o caráter direto de sua interpretação sobre a fome, condicionada à perda do emprego do filho, e trazendo como efeito o baixo peso das crianças. Mas essa não é a interpretação dada por outros informantes, que revelam não importar a constituição física para expressar a condição de faminto. Ou, mais precisamente, a perda do peso corporal está associada à natureza da pessoa: “.... a pessoa é mofina porque já nasceu assim” (Elza), “... é da natureza, ficar pequeno, não ter muita carne no corpo, tudo come igual, só quem come mais aqui, você já sabe, (traficantes), porque tem mais dinheiro que a gente e pode comer de tudo” (Bernadete). Para outras, o baixo peso da criança reflete a fraqueza da mãe ou do pai, que contaminaram o filho com suas “preocupações”.

A possibilidade de vir a ser faminto, gordo ou magro, é um dado da natureza, que diferencia a pessoa em sua essência. A diferença não está na aparência do corpo, mas no modo de ser da pessoa. Ainda que a fome não transpareça no corpo, ela está no ser e de forma definitiva. A natureza do faminto manifesta a singularidade da compreensão da fome, no tempo e no lugar de seu corpo, mas também, o cuidado com ele. Nessa tarefa, a fé redefine a existência. Sobre esse aspecto, as semelhanças no interior dos diversos enunciados estão em objetivar a imaginação na fé. Essa substância invisível simboliza, para muitas pessoas do bairro, o preenchimento do vazio das políticas sociais. A entidade divina é a única que se imagina ter acesso. Será, então, a fé em Deus que poderá assegurar a ausência de fome na família, e o afastamento dos filhos dos esquemas da violência do bairro. Outra vez, a religiosidade passa a ornamentar a única representação possível de uma linguagem mágica e reconhecida, para criar o que a autora do enunciado acima, chama de “estrutura espiritual” do corpo para continuar suportando sua existência nas condições sociais em que vive.

 

Ela vem do inferno que é a casa dela

Diante do vestíbulo do Inferno, na estreita passagem que leva à sombria morada, habitam espectros assustadores. Foi lá que a Dor, o Luto, os Remorsos torturantes, as pálidas Doenças, a triste Velhice, o Terror, a Fome, má conselheira, a vergonhosa Indigência, a Fadiga, o Esgotamento, a Morte, elegeram domicílio [...]. Numa palavra, tudo que há de importuno na vida era tido como uma produção da Noite. A Fome, divindade, é filha da Noite [...]. Era representada sob o aspecto de uma mulher macilenta, pálida, abatida, de uma magreza extrema, com têmporas cavas, a pele da fronte seca e esticada, os olhos apagados, enfiados no crânio, as faces lívidas, os braços descarnados assim como as mãos, que tinha amarradas atrás das costas [...] É representada com os traços de uma mulher pálida, inquieta, mal vestida, respingando num campo já ceifado (COMMELIN, P., 1997: 3-4, 185, 369).

Para os moradores do Péla,

Ela vem do inferno que é a casa dela [...] Não deixa a gente

caminhar. [...] Isso aqui nas pernas foi o dedo dela, misturado

com muita inveja. Estou aqui pagando nesse inferno, o que eu

não fiz (Raimunda)5 .

Ela derruba a gente aí cadê força pra andar, pra procurar uma

coisinha pra dá pros fio. Entendeu? A gente pobrezinha não

pode cair. Tem que se levantar. Ela gosta de derrubar (Val).

Tem gente, muita gente aqui derrubada. Sem coragem, sem

acreditar, sem nada no peito. Não tem coragem de viver. Aí

quando a pessoa fica assim é porque ela já está tomando conta

e vem pra descarnar o corpo. E por que é que isso acontece?

Porque não tem trabalho. Não tem salário (Tiêta).

O inferno é o bairro, a morada da fome, essa que fragiliza o ser, sugandolhe as forças, esvaziando o peito, secando o leite materno, inchando as pernas etc. Em muitas falas, “Ela é uma coisa que entra pra descarnar o corpo [...] quando a pessoa está largada”. Esses enunciados estão co-presentes e são concebidos numa variedade de composições cênicas envolventes, gerados do interior de cada experiência. A idéia central é a tomada da força do sujeito quando ele se abandona à própria sorte, ou no inferno em que vive.

O conjunto de significantes vem mostrar fragmentos da complexa interpretação da fome fenomênica, em que a vivência joga na tônica da pluralidade dos sentidos, a síntese que os sujeitos constroem. Do ciclo narrativo, então, abrem-se construções de estilos individuais, apoiados no mundo público (real) e imaginado (o inferno e a fome).

Na tentativa de fechar algumas constatações, observo que das metáforas de fome a habitar o lugar, há uma figura animada com a boca cheia de dentes, ávida para devorar, porque tem fome também. A personagem figurada é a “dona do inferno”, e o faminto a atrai e vice-versa. Nessa disputa, os sentidos dos visionários se relacionam à configuração imagética e ativa, silenciosamente presente em um ente feminino. Nessa evocação, o gênero humano mais responsável pela organização da casa e, sobretudo, pela provisão de comida, passa a ser representado como fome e demônio. Imagens noturnas, como já visto, e de uma tradição mítica. A noite é a referência do lugar da liberdade do corpo, sobretudo para a mulher que, ao sentir-se livre dos afazeres domésticos, pode entregar-se à própria imaginação.

De noite a gente está mais distraída, fica pensando nas coisas

e as vezes pensa pro mal (Elza).

De noite a gente fica tentando adivinhar as coisas, dá vontade

de sair por aí, largar tudo, depois voltar (ri) (Sílvia).

Eu fico cansada de ter que botar comida pra ele (marido), ouvir

reclamação, vendo ele fazer brutalidade comigo e com os

meninos, fazer ignorância, diz coisa, palavrão, me chama de

puta, cadela (Das Dores).

Acho que é por isso que a mulher sofre e se revolta, aí quando

chega de noite ela (mulher) fica pensando besteira, largar tudo,

essas coisa (Lêda).

Ela (fome) é uma mulher doida, que vem chegando, vem

chegando pra perto. Um espírito. Aí a pessoa fica enfeitiçada

por ela, ela aí toma conta, é assim [...] Aí tem mulher que fica

possuída. Se entrega toda, fica largada. Não sei porque. Só sei

que é uma mulher e anda mais de noite, pelas ruas. Tem gente

que vê, mas eu nunca vi essa bicha (Tiêta).

Eu não sei porque é mulher. Vá ver que é porque é mais doida

que homem. Eu não vi não, mas nunca deixei ela chegar perto

de minha casa (Lêda).

Deve de ser porque mulher não tem vergonha de catar do lixo e

nenhuma mulher quer ver os filhos pedindo, pedindo sem ter

pra dar [...] Tem a mulher de carne que é igual à gente, e a

outra (fome) (Bernadete).

A mulher tem muito mais coragem porque é mãe. A mulher

decide tudo. Ela é a dona de casa, ela vai na rua batalhar, ela

assume coisas, como eu que faço feira, decido e dirijo a casa, e

muitas como eu que providencia as coisas pra comer na casa.

São as mulheres que vão catar comida no lixo, porque o

homem não agüenta (Renilda).

Porque homem é frouxo (Tiêta).

Eles têm mais medo de ficar maluco do que a mulher (Regina).

Ele já tem problema demais na cabeça e deixa essas coisas pra

gente (Lêda).

Nas falas, a mulher imaginada fome e a real, não se distanciam e nem se confundem. Nessa relação, há uma cumplicidade e uma correspondência com a comunidade. Mas, diferentemente da mulher, o homem que crê nessa metáfora sente um distanciamento ainda que mantenha alguma comunicação:

Eu acredito. Dizem que ela (criatura-fome) existe mesmo. Pode

ser Exu, pode ser um espírito [...] Os homens daqui tudo

acredita, mas não gostam de ficar falando nela [...] se sente

mal. As mulheres é que mais vê isso (fome) aqui dentro (no

bairro) (Antônio).

É uma mulher doida. Um espírito, e todo mundo sabe disso,

mas só quem está muito acabado na vida é que vê. Aqui em

casa só ela (a esposa) que sente quando ela (fome) está por

perto, porque ela (a esposa) sente mais as coisas do que eu. Aí

a gente reza, acende uma vela, mas eu acho que a fé dela é

mais forte do que a minha. Ela (fome) aparece mais de noite

porque esses espíritos ruins gostam do escuro. Com a luz do

dia é difícil de aparecer. Quando a criança fica doente, piora de

noite, quando a gente tem uma preocupação, piora de noite,

então de noite tudo fica mais forte (Augusto).

Ao falar sobre essa metáfora, Val foi tomada por sentimentos de medo:

Depois que eu falei daquilo não pude dormir de noite. Me

lembrei do tempo que não tinha nada (Val).

Antes mesmo de abordar os efeitos da fome, lembro-me que, para ela, a noite representa o tempo em que voltava de madrugada do trabalho, para manter os filhos, desde que foi abandonada pelo primeiro marido. A partir dessa perda afetiva, iniciam-se signos de um mal estar noturno, num processo que inaugura uma ação direta no corpo e um modo de sofrimento, apontado como sendo à noite o momento em que “entra de tudo no corpo”. A expressão vem situar os medos e restaurar a imaginação. Os aspectos que caracterizam a essencialidade do mundo social de Val exigem dela a aceitação da insônia ou da vigília noturna para confrontar seus medos. Enquanto narrava, deslocava-se do presente em direção ao passado, e parecia ocultar o que lhe era proibido falar: o contexto da droga, do qual seus filhos tomam parte. Tratava de preservar a unidade familiar, explicando, mais tarde, que foram as dificuldades da sobrevivência que motivaram seus filhos (sem escolaridade, emprego e dinheiro) a assumirem essa atividade. Com tal estratégia para solucionar os problemas básicos, a fome deixa de pertencer ao plano concreto, físico, e transforma-se num fantasma, num vulto presente, particularmente na noite. Antes, uma realidade concreta de falta de alimentos; depois, surgem os aspectos subjetivados da fome.

Passados alguns meses da prisão de dois de seus filhos, ela me convida a fazer outra confidência e abre a interpretação sobre a “fome que nem droga”, ou vice-versa. Fala em tom baixo, inclinando a cabeça, olhando para a porta, insinuando o receio de alguém a escutar:

Esse negócio de falar de comida é que nem droga, a pessoa

sente sede de fumar, igual quem bebe. É a mesma coisa [...]

Agora a comida, se faltar, a pessoa se vira, porque acha até no

chão, e a droga se faltar é fogo. [...] O que eu queria te dizer é

de minha vida muito difícil, esses meninos me dão muita dor de

cabeça. Você sabe que eles vendem [...] e minha fia (filha)

nova, (13 anos) já está nesse negócio também. E essas coisas

de comer pouquinho eu não tenho mais problema, mas se eu

ficar falando, o problema aparece do nada.

[...]

Eu escutei ela no outro dia que conversei mais você. A fera

(fome) gosta de ficar perto de mim de noite. Ela anda toda

arreganhada, arreliando da gente (Val).

A voz e os olhos em pavor, constituem uma cena de um tecido de variadas sensações. O enunciado inscreve a fera imaginada para construir sua frase mais significativa. “Quando você tiver aqui de noite eu te mostro como eu fico, não consigo pregar um olho, se eu der um cochilo estou perdida, ela vem e me pega”. Corpo e sentido não se separam e reúne-se na trama para o enredo da significação de sua fome.

Falar de outras coisas significa afastar-se de palavras que suscitam a insônia e a fome. A não referência ao fenômeno traz, indiretamente, o que a informante quer significar, sob as ruínas do sentido literal que ela tenta anular, para viver e poder dormir.

Em geral, os processos narrativos ocorrem num tempo aparentemente linear, fixam episódios de sentidos e toda uma seqüência de eventos, em que o sujeito limita a fala e encontra, na esfera da subjetividade, sua maior expressão. Noto, com isso, que, nos enunciados, há uma inversão do tempo para os sentidos, que podem ser re-significados no presente, denotando a sensação de uma fome que é permanente, e não apenas como um acontecimento do passado.

Também os sentidos expressos não se esgotam ao findar um enunciado. Foi o que percebi na narrativa dessa informante. Após falar sobre o tema, Val passou a recorrer à interpretação de vários sentidos, trazendo novas interpretações e reconfigurações sobre a fome. Antes, era o medo da “fera”; depois, a fera é ressignificada em sentidos. Ou a fome passa a ocupar um segundo sentido: a ameaça e a perseguição. Os sinais percebidos, num primeiro momento, intermediaram outros, e, sem um estágio conclusivo, a teia dos sentidos entre os medos e a fome propriamente no corpo, apresentam uma relação específica e temporalizante, assegurando a imaginação produtora da informante.

No despertar para a reflexão sobre o tema, esse suscitou o retorno da insônia da mulher, segundo ela, um fenômeno esquecido desde a prisão de seus dois filhos mais velhos, há vários meses.

Eu sinto muito forte as coisas, sinto mais que minha filha, acho

que ela nem acredita, é nova, não entende direito. Também,

depois que os meninos foram tirar uma licença (presos) nunca

mais ninguém veio na minha porta perturbar.

Tem uns aí que só vive pra atrapalhar a vida dos outros. Eu não

tenho nada que eles querem (silêncio, choro). Vamos

conversar de coisa boa, que faz bem pro coração (põe a mão

no peito), falar dessa coisa doida (fome) é horrível, perturba

todo mundo daqui (Val).

O texto apresenta os medos relacionados à fome, e, de algo não explícito, o que sugere ser uma ameaça da polícia e/ou do bandido. Nessa trama narrada com muitos véus e que não separa a realidade da figuração construída, a metáfora da fome está latente no mesmo espaço. Um ente não adormecido, que se subentende invisível e que vem de fora para atrapalhar a vida da informante e de todos do lugar. Nessa tensão, os sentidos estão referidos em diferentes campos e associam-se com pertinência entre idealidade e realidade, ainda que separados na visão da autora, que, de olhos abertos, não dorme e teme no íntimo, um confronto com a fera. A mulher evoca a consciência do seu eu e a realidade exterior a si mesma, mediante percepções manifestas. Uma autognosis apreendida pelas dificuldades postas no mundo cotidiano e significadas no medo da perda da consciência, e, por isso, para vigiar-se, não se pode dormir.

A fome e a insônia são as filhas da noite. Numa cumplicidade que se dá na superfície do corpo, a insônia não se opõe à fome, centra a autora no seu mundo para justificar um caminho em direção ao passado, e continuar reinterpretando e compreendendo sua existência faminta. Assim, o passado continua a habitar o presente e se revela na insônia. É a natureza do ser que responde ao medo de sentir-se sem forças para enfrentar esses temores previsíveis. Estaria a informante implorando a aparição da criatura noturna, para fazer sentido e semelhança aos outros significantes da sua condição social ? A necessidade dessa mulher é a de trazer à luz ou ao dia, uma nitidez da realidade sentida dentro e fora do corpo. Tal interpretação vincula-se a uma apreensão em contínua relacionalidade do corpo com o contexto, no qual as manifestações da vontade divina novamente parecem influenciar as explicações sobre a fome.

A fome se alicerça na existência e exige sensações e representações para servirem de vigas para sustentar o mundo real. Nesse aspecto, a insônia da informante é real, concreta e inserida como um mal-estar no processo social em que vive. Sobre isso, Renilda acredita que os problemas de Val são os seus filhos, traficantes perigosos que atraíram a ira de outros bandidos e, por isso, a sua casa foi por várias vezes invadida pela polícia. A situação de Val guarda semelhanças com a de Elza, tornando objetivos e explícitos os temores de uma visão fantasmagórica de fome, quando seus filhos são presos. Uma diferença entre elas está na presença de insônia, que impõe outros significados subjetivos ao fenômeno, em meio à ameaça policial. Mesmo que uma tenha condições de comprar alimentos e a outra sobreviva do lixo, a fome se manifesta como uma figura imaginada e esconde-se na origem ontológica de cada ser, para contribuir e recuperar a compreensão específica de seus mundos.

Em cada situação particular, qualquer que seja o motivo para a configuração criada, a fome existe dentro de um estilo próprio de ver o mundo. As visões, como uma construção da cultura, formam uma cena monológica entre o ser e sua criação, para caracterizar e ordenar o mundo social.

Assim, insônias, dores, cansaços etc. aparecem para centrar os indivíduos em seu espaço social, intensamente vivido, e justificar a criação de um lugar na imaginação para continuar reinterpretando e compreendendo-se como seres inseparáveis da fome.

Ela (a fome) aparece:

Quando não tem nada pra beliscar, ela entra. A gente vai

secando por dentro. As pernas vão se acabando que nem as

dela. Vai tomando conta, dando uma moleza, uma falta de

vontade de fazer as coisas [...] (Bernadete).

As pessoas vivem e observam a própria existência por entre as vilas e ruelas do bairro, ora apavoradas com as imagens da fome que as ameaçam dentro e fora das suas moradas, ora sentem-se protegidas por outras forças sobrenaturais. Mas, é sempre perigoso fazer qualquer acordo à noite com o mundo exterior, porque o que está fora, ainda que familiar e previsível, será sempre aceito como estranho, o qual pode ferir ou macular as crenças.

Como um símbolo, a fome introduz uma relação de duplo sentido na conduta, cuja interpretação regulamenta. Do mesmo modo, compreender um rito para afastar o mal é situá-lo no conjunto das convenções que formam a trama simbólica da cultura. No bairro, a fome é presenciada num tempo que não se esgota, no domínio do corpo faminto:

É aqui que o bicho pega. É um menino pedindo coisa, é outro

pedindo, só falto pirar, aí eu dou logo um esporro neles, mando

dormir, e me dá uma agonia, vou pedir pra quem ? (Isa).

O corpo fica todo esmorecido, aí eu sei que ela pode bater aqui,

eu sinto (Val).

O corpo pára para escutar o eu. Uma informante se apavora com a falta de alimentos para os filhos que choram, e outra sente a presença de uma divindade. Em oposição, ambas estão numa cena que, de um lado, exige uma criação, uma imagem e, de outro, a mulher sente desespero em não atender aos filhos.

As mãos tapam olhos ou ouvidos, os gestos se repetem seguidas vezes em várias pessoas de origens diferentes e nas distintas unidades domésticas. São percebidas imagens: ora é uma “bicha” ou uma “fera”, que se quer dizer demônio, um animal com “rabo e chifres”, ora se fala de “uma mulher-espírito” ou de um espírito que chega como um “vento”.

A fome configura-se então como um “vulto”, um fenômeno da superfície, acolhido no colo da viúva sem filhos ou atraído para “caminhar” no obscuro da noite. As trevas escondem a face e dificultam a identificação que se recolhe na sensação do corpo a ser atingido. Designa a ameaça de um ente diabólico, que não tem piedade, e torna-se a idealidade do sentido de morte. Um testemunho complexo, dado que o sensitivo não foge nem dorme, e aguarda. Espera acontecer, estarrecido no imaginado. O eu coexistente se ocupa na criação de uma imagem que representa um extra-ser humanizado em fera, que é o sentido de fome e que também faz referência ao filho que chega em casa drogado e enfurecido.

Resumo essas observações afirmando que o estado de coisas para as dimensões do sentido da fome está entre o eu do personagem sensitivo e a imagem da fome quando dotada de semelhança humana. É a subordinação do corpo ao modelo mítico, a derivação do interior do ser, numa internalidade que identifica a idéia fundada na semelhança, numa espécie de reprodução de si mesmos. Nesse aspecto, a entidade humanizada é o sentido humano de fome, representada para assemelhar-se ao fenômeno. A diferença entre real e imaginado corresponde a uma estratégia de o sujeito se pensar na dificuldade, de reconhecer-se no ente criado.

Continuar: parte 3 de 3