Antropologia e nutrição: um diálogo possível
III – A Alimentação nos Espaços Privado e Público
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Parte III: A alimentação nos espaços
privado e público
9. Mudanças e permanências da
prática alimentar cotidiana de famílias
de trabalhadores
Ana Maria Canesqui
Analisa-se aqui a organização e a realização da prática alimentar cotidiana de famílias trabalhadoras urbanas, comparando-se os resultados de duas pesquisas feitas, respectivamente, no início da década de 1970, quando elas começaram a migrar do campo para a cidade, e, em 2002, após quase 30 anos de experiências de vida urbana acumuladas. O contexto macroeconômico do primeiro momento era inclusivo, com oferta de trabalho, crescimento, ganhos de produtividade, inflação e contenção salarial, e o segundo de exclusão, reestruturação produtiva, iniciada anteriormente, e crescente desemprego. Ambas as conjunturas afetavam as condições de sobrevivência e reprodução da classe trabalhadora, das quais a alimentação é componente fundamental.
Numa abordagem marxista, incorporada pelas ciências sociais no Brasil na década de 70, a prática de consumo individual se referia ao processo concreto de consumo, à apropriação privada de meios e objetos de consumo, imprescindíveis à recuperação da força de trabalho que opera na família como unidade de consumo, a forma típica de reprodução no sistema capitalista, resultando para os trabalhadores na produção da própria vida (Préteceille, 1975). Abordado desse ponto de vista, o consumo apenas preenche as necessidades sistêmicas, e a família se reduz ao lugar da recomposição e recuperação individual da capacidade de trabalho, com funções econômicas e ideológicas. Tanto é que para a visão economicista de Oliveira (1976) combinam-se na família a produção doméstica de valores de uso e a venda da força de trabalho. Para que uns compareçam cotidianamente no mercado de trabalho, outros fazem atividades que suportam o consumo final, sempre a cargo da mulher. Da mesma forma, as estratégias de sobrevivência analisadas daquele ponto de vista resultam da superexploração da força de trabalho, garantindo e sustentando a acumulação capitalista, e no plano ideológico obscurecem o antagonismo de classe e as relações da classe trabalhadora com o Estado, que foi visto como aparelho da classe dominante (Carvalho & Souza, 1980; Vianna, 1980).
Reações a esse reducionismo economicista nortearam estudos sobre as estratégias de sobrevivência na situação de classe que não abordaram o consumo alimentar. Todavia, eles elucidaram o significado e a importância da família com relação à sobrevivência e à reprodução dos trabalhadores (Bilac, 1978; Macedo, 1979; Fausto Neto, 1982), concedendo maior espaço à sua dinâmica e organização, sem reduzi-la apenas às funções para a economia, e no plano ideológico, à função de reproduzir as relações dominantes. Embora a família estivesse associada ao processo de produção e reprodução social, é importante considerá-la como unidade mediadora entre o indivíduo e a sociedade (Durhan, 1973). Portanto, um conjunto de estudiosos demonstrou que a provisão de meios de sobrevivência é sempre um esforço coletivo e compartilhado dos grupos domésticos, que comportam diferentes arranjos, variando a participação de seus membros no mercado de trabalho e na geração de renda para o consumo, que fazem sentido na maneira como estão estruturados.
A alimentação foi objeto de várias pesquisas etnográficas feitas na década de 70, enfocando a prática alimentar como componente do modo de vida, sua organização e realização pelos grupos domésticos, a divisão dos papéis conjugais, representações sobre o consumo alimentar, a alimentação e os alimentos apropriados, bem como os conhecimentos dietéticos do senso comum (Canesqui, 1976). A prática alimentar associada ao consumo dos alimentos foi estudada por Brandão (1981), por meio das representações das crenças e dos padrões sociais de uso e das restrições dos alimentos, configuradas na ideologia alimentar de lavradores urbanizados de Mossâmedes (Goiás), submetidos ao processo de mudanças nas relações de trabalho, transferindo-se do meio rural, de onde foram expulsos, para a cidade. Outros estudos exploraram os papéis familiares na provisão e no gerenciamento do consumo doméstico (Guimarães et al., 1979; Zaluar, 1982). Compreenderam a ideologia alimentar e as lógicas e regras que presidem as escolhas alimentares, que são matérias culturais, interferindo na moldagem das práticas alimentares dos segmentos de famílias de baixa renda urbanizadas. Etnografias igualmente importantes serão retomadas ao longo deste estudo e muitas delas foram tratadas no primeiro capítulo desta coletânea.
Outros autores consideraram a comida como uma linguagem que agrega representações, que fala da família, do homem como pai, da mulher como a mãe e dona-de-casa, sendo, portanto, repleta de simbolismo, presente nos hábitos de comer, que são verdadeiros textos (Woortmann, 1986). O autor fornece uma leitura dos hábitos, dos modos de comer e de prover e organizar o consumo alimentar doméstico como textos e discursos que reproduzem um modelo de família, indo dessa forma além da relação da alimentação com a reprodução e a sobrevivência material.
As abordagens antropológicas da alimentação contribuíram para ultrapassar o seu sentido meramente econômico e, sem negarem a sua importância para a sobrevivência e a reprodução social dos trabalhadores, mostram que ela é permeada pela cultura (crenças, normas, valores) e pela ideologia (formas de pensar socialmente produzidas) que cercam os usos, a seleção dos alimentos, a aprendizagem e a socialização do que comer, que fazem sentido e marcam identidades e particularidades dos grupos sociais. As práticas alimentares sofrem os efeitos da estruturação econômica e política da sociedade, refletem as desigualdades sociais, submetendo-se, no modo de vida urbano-industrial, a novas relações sociais, modos de consumo, de distribuição e uso dos alimentos (Goffton, 1986). E as idéias sobre os alimentos, as crenças nas suas propriedades, os efeitos que os acompanham envolvem valores sociais, noções de moralidade, comportamentos apropriados, relações entre distintos grupos de idade e gênero, permeando ainda, pela identidade social, relações com o corpo e o gosto.
O consumo não se restringe ao comportamento do consumidor, diante do qual os economistas assumem que os objetos são desejados por razões psicológicas. Tanto é que Douglas e Isherwood (1996) disseram que, para os antropólogos, os objetos são desejados para doações, troca e preenchimento de obrigações sociais, uma vez que o consumo, como parte do modo de vida, é marcado por uma série de rituais, gestos, pelo calendário, identidade, mostrando um padrão de sociedade – sem se restringir, exclusivamente, ao preenchimento de necessidades de subsistência ou aos dispositivos sistêmicos.
A inserção das práticas alimentares no modo de vida, como preferimos aqui, concede espaço à diversidade cultural e às múltiplas configurações culturais e ideológicas que compõem as sociedades complexas, as quais se expressam nos diferentes grupos sociais. Não estamos diante da homogeneidade do consumo e de sua redução ao atributo ideológico individualista; trata-se de analisar aquelas práticas de fatias de famílias de trabalhadores de baixa renda, que carregam e sofrem múltiplas influências culturais e ideológicas, e que o organizam como consumo coletivo, compartilhado pelo grupo doméstico, sendo a família a instituição que o medeia.
A análise da prática alimentar cotidiana não se restringe aos alimentos apropriados em si mesmos, mas aos seus usos e modos de consumo, que envolvem seleção e escolhas, quem consome, como são adquiridos e preparados, quando e por quem são consumidos, ocasiões e adequações de consumo, juntamente com regras, valores, normas, crenças e significados que acompanham o consumo alimentar e a própria alimentação, sempre carregados culturalmente.
Para a antropologia, o modo de vida é um acúmulo de conhecimentos e esquemas de ação e pensamento, passados de geração em geração, que consciente ou inconscientemente são utilizados a todo momento em que se come. Sendo as práticas alimentares constructos sociais, elas se relacionam às instituições sociais (familiares, econômicas, políticas, religiosas e outras) a partir do desenvolvimento histórico (Goffton, 1986) e, aqui, elas foram abordadas estritamente em relação à sua organização e realização pelos grupos domésticos. Aquelas práticas estão prenhes de recursos materiais comunicativos que as engendram e expressam valores e temas da sociedade e da própria cultura, em que por um lado reafirmam visões de mundo e crenças e, por outro, elas se recriam e se reelaboram permanentemente nas experiências vividas dos que as usam, expondo-se à interpretação de quem as estuda, na perspectiva antropológica aqui proposta. As informações reunidas em 2002, juntamente com as obtidas anteriormente (Canesqui, 1976), permitem comparar no tempo e, entre duas gerações, a prática alimentar cotidiana, perguntando-se sobre suas mudanças ou permanências.
O contexto das pesquisas e os grupos
domésticos estudados
A cidade de Paulínia, sede de município, situada na região de Campinas (SP), foi o local de realização de ambas as pesquisas. Ela sofreu os reflexos do ciclo expansivo da economia, da primeira década de 70, e da política dos governos militares de montagem do complexo petroquímico e da implantação de novas indústrias, que geraram novas oportunidades de trabalho. Atraiu a população migrante em massa, vinda da zona rural ou de pequenas cidades interioranas, mineiras e paulistas, principalmente, projetando, entre as suas aspirações, ‘melhorar de vida’ pelo aproveitamento das novas chances de trabalho e de rendimentos, como também pela ampliação do acesso aos bens de consumo e aos serviços de consumo coletivo (educação e saúde). Em 2002, a cidade estava entre as de médio porte, com expressivo crescimento demográfico nas últimas três décadas, tendo consolidado o pólo petroquímico, ao lado de numerosas atividades industriais, comerciais e de serviços, enquanto as atividades agrícolas se reduziram em relação às existentes na década de 1970, e o nível de emprego, submetido a flutuações, espelhava a reestruturação produtiva, iniciada na década
anterior, e o menor dinamismo da economia nacional. 1
Os grupos domésticos pesquisados habitavam o Núcleo Habitacional José Paulino Nogueira desde o inicio da década de 70, quando ingressaram no sistema de obtenção financiada da moradia, por meio da Cooperativa de Habitação Popular de Campinas (Cohab), identificando-se, na ocasião, como ‘pobres’, ‘moradores da popular’ e da ‘periferia’ da cidade, percebendo-se beneficiados pelo governo na obtenção da casa, a ser paga durante 25 anos. Após quase três décadas de expansão e reorganização do espaço urbano, refletidas na criação de novas ‘periferias’, afastadas para outros limites da cidade, em 2002 identificavam-se como moradores do ‘centro’ da cidade e, sempre nos limites do próprio grupo social, se viam ‘remediados’ e não ‘pobres’, como anteriormente.
Os critérios dessa nova auto-identificação remetiam à inserção espacial na cidade, ao alcance de um padrão superior de consumo, à propriedade da casa e aos graus percebidos de realização das aspirações e dos projetos anteriores de vida, postos desde a migração para a cidade, ainda que o grau de estabilidade financeira alcançado fosse sempre relativo, pelos constrangimentos macroeconômicos impostos. Anteriormente a cidade simbolizava o ‘progresso’, segundo as representações vigentes, e em 2002 estava ‘parada’ em função da redução das oportunidades de emprego, ainda que positivamente a vissem como ‘cidade rica’, ‘boa de morar’, pelo fato de concentrar infra-estrutura de serviços sociais públicos (de assistência social, educação e saúde), efetivamente ampliados e acessíveis no intervalo de tempo das duas pesquisas.
O grupo doméstico foi a unidade de coleta dos dados nas duas pesquisas, isto é, o agrupamento de pessoas unidas ou não por laços de parentesco ou afinidade, habitantes de um mesmo teto, compartilhando atividades, o orçamento doméstico e o próprio consumo. Nas 20 unidades domésticas pesquisadas (de 1973 a 1974) estavam trabalhadores manuais, com poucos anos de escolaridade ou analfabetos, ocupados principalmente na construção civil e, minoritariamente, no setor público local, nas indústrias e no comércio; mais eventualmente nas atividades rurais, como trabalhadores temporários. Os trabalhadores fabris qualificados e as mulheres ocupadas também eram mais escassos.
Para o estudo comparativo buscou-se, na segunda pesquisa, identificar por meio dos endereços dos domicílios os 20 grupos domésticos anteriormente estudados. Destes foram encontrados 13, e os sete restantes não mais ocupavam os domicílios identificados por vários motivos, como falecimento do casal, dispersão dos filhos, venda ou perda da casa por inadimplência com o órgão financiador, mudança de bairro ou da cidade, ignorando-se os paradeiros dos ocupantes originários. Para completar os 20 grupos domésticos, foram acrescentados sete ao segundo estudo. Estes foram selecionados por seus elos de parentesco de filiação com a primeira geração encontrada – aqui designados ‘nova geração’ –, os quais passavam pelas etapas iniciais ou em expansão dos ciclos de vida.
Os 13 grupos identificados pertenciam à primeira geração de migrantes, aqui designada ‘velha geração’, com acúmulo de experiência e inserção no modo de vida urbano e no próprio consumo. Quando entrevistados em 1973, esses grupos domésticos passavam pelas etapas iniciais ou em expansão do ciclo de vida. Em 2002, as 20 unidades foram estudadas no período de agosto a dezembro, e as pertencentes à velha geração estavam chefiadas por pensionistas e aposentados, com o casal passando pela etapa de envelhecimento do ciclo de vida doméstico, sendo mais raros os trabalhadores ativos, que geralmente completavam as aposentadorias fazendo serviços temporários no próprio domicílio ou fora dele, enquanto os trabalhadores ativos da nova geração se ocupavam nas atividades comerciais, no setor público e eventualmente no setor industrial. Entre eles estavam alguns pais de família desempregados e, igualmente em ambos os grupos, alguns jovens. A renda média familiar, que era de 2,5 salários mínimos em 1973, passou em 2002 para 6,9 salários mínimos, enquanto o tamanho médio da família reduziu-se de 5,6 pessoas para 4,2 e a média de trabalhadores ativos nos domicílios baixou de 2,3 para 1,5, nos respectivos anos.
Ambas as pesquisas foram etnográficas, valeram-se de entrevistas não estruturadas, feitas mediante aplicação do mesmo roteiro usado na primeira pesquisa, que permitiu a livre expressão dos informantes sobre os diferentes momentos de organização e realização da prática alimentar cotidiana. Foram feitas observações e usou-se o diário da alimentação das pessoas dos grupos domésticos, anotado durante uma semana (de segunda-feira a domingo), cujos registros, segundo Lesser, Huges e Marshall (1996), servem para identificar as compras e os alimentos consumidos, a composição dos cardápios, o consumo individual, as refeições feitas na casa ou fora, sem se preocupar com as quantidades consumidas. Fontes secundárias (dados censitários e bibliografia específica) foram utilizadas nos dois estudos.
Sendo a alimentação área de domínio feminino, as entrevistas foram feitas, em ambos os estudos, com mulheres casadas; algumas jovens solteiras, completadas com as realizadas com os pais de família e comerciantes, que se dispuseram para entrevista. A minha condição de gênero facilitou as entrevistas com as mulheres no assunto alimentação, que pertence à esfera de seu papel e atribuições na família, enquanto os homens casados prestaram informações sobre os aspectos que julgavam de sua responsabilidade: o trabalho, a obtenção de renda e o provimento da alimentação da família.
O fundo coletivo para o consumo e os arranjos
domésticos Ainda que os trabalhadores se realizem individualmente no mercado como força de trabalho, comandada ou não por relações capitalistas de produção, o grupo doméstico, no contexto urbano-industrial, é unidade de consumo, cooperando os seus membros na organização de um fundo coletivo comum, composto de salários, ganhos e aluguéis (tratados apenas na segunda pesquisa). Os grupos domésticos não são harmônicos, caracterizando-se por conflito, solidariedade, confronto entre necessidades individuais e coletivas, diferenças e hierarquia de gênero, idade e violência (Rocha, 2001).
A disponibilidade de dinheiro tanto dependia das características dos grupos domésticos, segundo idade, gênero, qualidade e quantidade da força de trabalho disponível, quanto da ação ou decisão de lançá-la no mercado de trabalho, permeada por valores associados ao próprio trabalho, a quem deve ou não trabalhar e ao sentido de sua contribuição ao consumo. Dependia também do comportamento do mercado de trabalho (formal e informal) e das políticas salariais, fixando remunerações para trabalhos simples e complexos. Não é objeto de análise aqui a relação família-trabalho, que foi feita por Montalli e Lopes (2002) e Montalli (2003), entre muitos outros.
A compressão do fundo para o consumo se dava nos grupos domésticos, que estavam na etapa inicial do ciclo de vida (sete entre os 20 na primeira pesquisa) e dependiam apenas dos salários do pai trabalhador. Outros grupos parcelados ou chefiados por mulheres e que foram excepcionalmente encontrados na primeira pesquisa (um, entre os 20) viviam dos salários da mulher trabalhadora. A renda familiar sempre se completava com o trabalho de algum filho, que desde a tenra idade realizava pequenos serviços no bairro, trazendo dinheiro para a alimentação, como forma de ‘ajuda’ à mãe. A mulher se mantinha no papel tradicional de dona-de-casa, esposa e mãe; a prole numerosa infante, juntamente com a baixa disponibilidade de creches e escolas maternais e as menores oportunidades de emprego feminino locais, a impedia de trabalhar mediante remuneração, embora o desejasse em função do consumo doméstico – ideologicamente, os papéis conjugais tradicionais.
As unidades domésticas, com filhos maiores e menores de 14 anos, passando pelas etapas de expansão ou amadurecida do ciclo de vida (seis entre as 20 entrevistadas) contavam com o dinheiro do pai trabalhador e os eventuais ganhos da mulher casada, juntamente com a participação dos filhos, na composição do orçamento doméstico. Uma parte do dinheiro ganho pelos filhos destinava-se às despesas de gás e eletricidade e a outra cobria suas próprias despesas com lazer, estudo e vestuário (item prioritário dos gastos dos jovens e fonte de tensão entre as próprias necessidades e as coletivas, do grupo doméstico). O dinheiro do pai era sempre destinado à alimentação.
Nos grupos domésticos, com os filhos maiores de 18 anos (sete entre os 20) passando pela etapa de envelhecimento do ciclo de vida, pai e filhos(as) geralmente trabalhavam mediante remuneração, enquanto a mulher casada preferia não trabalhar mediante remuneração ou realizar algum trabalho no próprio domicílio (costura, venda de cosméticos e o pequeno comércio). O pai cumpria o papel de provedor da alimentação e, devido ao maior número de pessoas no mercado de trabalho fabril, que garantia remunerações mais elevadas, esse grupo mantinha um padrão superior de consumo. Por essa razão seus componentes consideravam-se ‘bem de vida’, situando os ‘pobres’ e os ‘pobrezinhos’ nos limites inferiores da hierarquia social por eles definida, enquanto os ‘remediados’ ocupavam posições intermediárias.
Os grupos domésticos autodesignados ‘bem de vida’ e alguns ‘remediados’ admitiam ‘passar bem’, isto é, consumir maiores quantidades e variedade de alimentos, incluindo a carne, cuja presença ou ausência marca simbolicamente a abundância ou a privação alimentar, respectivamente. A redução da participação dos filhos no orçamento doméstico, devida à constituição de suas próprias famílias, afetava a estabilidade alcançada por aqueles grupos domésticos envelhecidos, no contexto da primeira pesquisa, situação agravada quando o pai era excluído dos benefícios previdenciários.
Em 2002 a alimentação deixou de competir com os demais itens e projetos de consumo nos grupos domésticos da antiga geração, passando pela etapa envelhecida do ciclo de vida, que julgavam possuir dinheiro suficiente para se alimentar e poupar um pouco, prestando auxílio a algum filho, finalidade precípua das poupanças acumuladas. Uma parte daqueles grupos (seis entre os 20) se compunha do casal idoso, com 50 anos ou mais, dependente da aposentadoria do pai de família. Eles se acompanhavam de algum filho adulto (solteiro ou separado) ou dos netos (adolescentes ou crianças sob sua guarda), completando-se o fundo coletivo com as contribuições dos residentes no domicílio e os eventuais aluguéis recebidos. O pequeno montante de dinheiro obtido pelo velho casal pelo cuidado de netos (filhos de alguma filha que pariu quando solteira e, após nova união, os deixou sob os cuidados de seus pais) valia menos como acréscimo monetário ao orçamento doméstico e mais pelo significado simbólico do cumprimento das obrigações maternas da filha com a sua própria prole.
Apenas em dois grupos domésticos estavam os casais (homens idosos, aposentados e viúvos da primeira união e novamente unidos a mulher mais jovem) e filhos adolescentes ou jovens (desempregados ou estudantes de cursos superiores), passando, portanto, pela etapa amadurecida do ciclo de vida doméstico. Nesse e nos demais grupos envelhecidos mencionados, o pai era provedor efetivo da alimentação, graças ao que se consideravam as ‘boas’ aposentadorias, obtidas do setor público municipal, da Petrobras ou dos tetos salariais mais elevados da Previdência Social, embora não dispensassem a contribuição monetária dos(as) filhos(as) adultos(as) eventualmente residentes, que se defrontavam com maiores dificuldades de encontrar trabalho ou de nele permanecer, na conjuntura macroeconômica da segunda pesquisa.
As mulheres casadas ou viúvas da antiga geração, embora valorizassem mais do que anteriormente o fato de a mulher casada trabalhar mediante remuneração, estavam afeitas à casa e à família, preferindo, como antes, realizar alguma atividade remunerada no próprio domicílio, proporcionando algum acréscimo ao orçamento.
As mulheres viúvas da antiga geração (cinco entre os 20 grupos estudados) raramente estavam sozinhas, acompanhando-se de algum(a) filho(a) ainda solteiro(a) ou separado(a) e eventualmente de irmão ou irmã aposentados, que compartilhavam com elas o orçamento doméstico e o seu gerenciamento, se mais idosas.
Embora as viúvas demandassem individualmente menos dinheiro para se manter, não dispensavam complementar a alimentação da família de um ou outro filho casado, que freqüentemente compartilhavam do almoço com elas. A situa-ção-limite da pobreza ou de desemprego dos filhos casados onerava substancialmente os orçamentos domésticos das mulheres viúvas, que se viam premidas pelas obrigações familiares a lhes prestarem apoio, especialmente quando eles passavam a etapa inicial do ciclo de vida doméstico.
As observações de Turmo (1995) se aplicam ao exemplo de uma das mulheres viúvas entrevistadas, mostrando que o compartilhamento da comida entre mãe e filhos do gênero masculino é mais complexo, sobretudo se jovens e recém-casados, cuja adaptação às práticas culinárias de aprendiz da jovem esposa é problemática à medida que ela lhes impõe regras e o gosto do que é bom para comer, não sem resistência, encoberta de amabilidade, da própria sogra. Manter-se independente das casas maternas ou paternas é aspiração permanente dos que formam o próprio núcleo conjugal, e o exemplo da mãe viúva que ainda dava de comer ao filho casado e aos netos não era exceção.
Ressentida, nossa entrevistada relatava a recusa da nora a compartilhar a casa com ela e sua mudança com o marido e filhos para um outro bairro. Demonstrava a sua divergência com os gostos alimentares da nora (comer verduras), a aquisição de alimentos processados e as permanentes preocupações com as dietas de emagrecimento. Tudo isso traduz novos valores diante do consumo, não apenas quanto ao que é considerado saudável, como o consumo das verduras, divulgado pelo saber nutricional erudito, quanto à praticidade dos alimentos processados e industrializados, segundo a divulgação pela mídia, bem como em relação às dissonâncias dos valores estéticos corporais entre a antiga e a nova geração. Vale acrescentar que a cozinha, quando compartilhada entre grupos domésticos estendidos, é sempre foco de conflito, por não comportar a autoridade simultânea de duas ou mais mulheres (Bilac, 1978; Woortmann, 1986).
Os grupos domésticos da nova geração (sete entre os 20 entrevistados) possuíam características comuns: eram nucleares ou parcelados (mulheres, chefes de família, separadas ou solteiras com filhos, em maior proporção do que antes), passando pela etapa inicial do ciclo de vida doméstico; tinham menor número de filhos, um ou dois no máximo, e nenhum interesse manifesto de procriar; as mulheres trabalhavam mediante remuneração, associadas ou não ao trabalho masculino; a casa era cedida pelos pais ou herdada, isentando-os desse gasto. O fundo para o consumo se comprimia mais nos grupos de trabalhadores manuais com vínculos instáveis de trabalho do que nos chefiados por trabalhadores manuais e vinculados formalmente ao mercado de trabalho no setor público, comércio ou nas indústrias e os autônomos.
A alimentação competia fortemente com as demais despesas naqueles grupos domésticos, cujos maridos desempregados transformavam a mulher em mantenedora efetiva, ainda que seus ganhos, obtidos como doméstica ou nos serviços comerciais, fossem reduzidos. O trabalho remunerado da mulher casada não abala ideologicamente a divisão sexual do trabalho que preside os papéis familiares, mantendo valorizado o papel masculino de provedor em torno do modelo conjugal das obrigações do casal diante da alimentação da família. Os baixos salários de que os(as) trabalhadores(as) manuais usufruíam compensavam-se parcialmente pelos benefícios sociais públicos e privados ou por aqueles ofertados pela política de alimentação aos trabalhadores, ampliada nos últimos 30 anos, completando-se mais com os apoios de parentes (pais, sogros ou irmãos) que dos vizinhos.
Em outros grupos da nova geração, os pais cumpriam o papel de provedor, sempre contando com o trabalho de suas esposas profissionalizadas (auxiliares de enfermagem ou professoras da rede básica), com vínculos estáveis de trabalho no setor público local, sendo possível cobrir a contento os gastos com a alimentação e as demais despesas. Ainda que estivesse garantida a moradia, aspiravam a mudar para outros bairros de classe média ou a reconstruir a residência, marcada simbolicamente desde a década de 70 como a ‘casa popular’, identificadora do ‘pobre’ no espaço urbano.
A nova geração de mulheres (profissionalizadas ou não) resistia menos ideologicamente ao fato de a mulher casada trabalhar mediante remuneração, não sendo o seu trabalho um meio de independência ou de afirmação profissional, mas de resposta ao consumo doméstico. Em 2002, somente aquelas da antiga geração e envelhecidas não trabalhavam mediante remuneração. A ampliação da participação da mulher na força de trabalho, como tendência crescente desde a década de 90, substituindo a força de trabalho jovem (Rocha, 2001; Montalli, 2003), também se refletia no contexto local. As mulheres trabalhadoras, com filhos ainda pequenos, estavam mais apoiadas pela oferta de creches e escolas maternais públicas, ampliada nos últimos 30 anos.
Uma parte da nova geração se percebia tão vulnerável e na condição de pobreza quanto aqueles grupos domésticos encontrados na década de 1970. Viam-se então mais privados das oportunidades e dos meios de sobrevivência, pelo desemprego e maior instabilidade do mercado de trabalho, cuja etapa recente de reestruturação produtiva impunha maior escassez de recursos aos pobres (Rocha, 2001), desfavorecendo o uso do trabalho dos filhos jovens, sempre substituídos pelo da mulher casada. Seja como valor moral para os pobres (Sarti, 1996), seja pela solidariedade e proteção (Goldani, 2002; Carvalho & Almeida, 2003), a família se mantém como âncora com a qual se pode contar, segundo admitido por todas as entrevistadas.
O desemprego mais freqüente dos jovens e dos pais de família daquela geração era pensado negativamente tanto pelos ônus financeiros acarretados e seus reflexos na redução do fundo para o consumo quanto pela dimensão moral de ameaça à honra masculina, garantida pelo trabalho, segundo Woortmann (1986) O depoimento de um pai de família desempregado, impedido de prover a família, trazia um tom ressentido:
… hoje me acho fraco e desanimado, pois estou desempregado. É ela quem trabalha; é o salário dela (…). É ela que faz os gastos e o orçamento (…). É ela, ela sabe o que precisa; é ela, porque é a dona da casa. Mas eu pago a minha conta, pago o supermercado (…), pago com cheque porque é mais seguro, [grifo meu]
As categorias ‘fraqueza’ e ‘desânimo’, mencionadas, não equivalem à debilidade física, mas ao enfraquecimento moral do homem impedido de ser provedor e efetivo trabalhador, embora ele preserve simbolicamente a sua dignidade, ao atribuir para si próprio, como chefe e pai de família, o débito com o supermercado, saldado efetivamente com o dinheiro ganho pela mulher. Esse dinheiro, na ideologia da família trabalhadora, é ajuda ao provedor, não cabendo à mulher substituí-lo nesse papel. Os valores e expectativas em torno do modelo conjugal das obrigações do casal perante a alimentação da família são mantidos, apesar das mudanças nas relações família e trabalho, segundo Montalli (2003), referindo-se às famílias trabalhadoras paulistanas.
Mulheres separadas ou sós, chefes de familia, por sua vez, não estão protegidas pelos mecanismos de solidariedade e proteção, associados ao modelo de família conjugal, e recebem salários menores do que os homens, devido às diferenças de gênero que marcam o mercado de trabalho (Oliveira, 1996). Por essa razão, os grupos domésticos encontrados nessa condição na segunda pesquisa estavam bastante vulneráveis, com os fundos coletivos para o consumo cobrindo primordialmente alimentação, água, eletricidade e despesas telefônicas, em detrimento dos demais gastos, completados com o apoio de parentes, das instituições locais ou da vizinhança, embora estes últimos estivessem menos disponíveis do que anteriormente. Disse uma das entrevistadas:
Antes, tinha muitas mulheres que viviam pedindo comida
emprestada. (…) passavam necessidade; os filhos não tinham o
que comer. Vinha na minha porta muita gente, era só chegar
com as compras, já vinha aquela vizinha me dizendo: olhe,
empresta um pouco de arroz, uma canequinha de feijão, e
assim ia. Aí eu falei para ela que meu marido não gostava, aí
ela parou de pedir. Pedia e não devolvia. Hoje não pedem
muito, tem uns que precisam. Lá embaixo mesmo tem uma
mulher que faz diálise no hospital, é cheia de filhos e o marido
tem outra. Esta a gente ajuda, reunimos na igreja e damos uma
ajuda para ela. Mas antes, tinha muita gente que precisava,
tinha muita criança pedindo, muita gente passando
necessidade. Eu mesma passei necessidade também, mas
graças a Deus não preciso mais ajuda de ninguém.
A geração mais velha, embora mantendo sólidos elos com a vizinhança, apontava, entre as mudanças percebidas, a menor disponibilidade de tempo das mulheres em geral para cultivar aqueles relacionamentos e a sua maior fragilidade em relação a 30 anos atrás. As diferenças de costumes, o ‘esnobismo’ de novos moradores, o tráfico de drogas e a crescente preocupação de ‘cada um com o próprio bem’, afrouxando o sentido da coletividade, eram explicações geralmente fornecidas pela nova geração, encobrindo a perda de intensidade daquelas relações no espaço do bairro.
Alimentação, papéis familiares e os projetos de
consumo
A alimentação mede a capacidade do pai como provedor e responsável por garantir os meios de sobrevivência da familia, e ser pai de família é fundamental para a sua realização como homem. Em contrapartida estão os deveres da mulher como mãe, dona-de-casa e principal responsável pelo controle e gerência do consumo doméstico (Canesqui, 1976; Bilac, 1978; Zaluar, 1982, 1985; Woortmann, 1984, 1986; Caldeira, 1984; Sarti, 1996), sempre feito pela rigorosa observância da regra de economizar, especialmente aplicada e seguida pelas mulheres entrevistadas na primeira pesquisa e pela geração mais velha da segunda pesquisa, flexibilizando-se um pouco na segunda geração mais abastada.
Trabalho e consumo são dois pólos complementares que perpassam as obrigações do casal. A privação alimentar, a possibilidade de passar fome, pela compressão dos salários recebidos, no contexto da primeira pesquisa, eram vividos como fracasso moral dos pais de família, que se obrigavam a trabalhar ao máximo (horas e trabalhos extras nos fins de semana; conversão das férias em dinheiro para saldar dívidas acumuladas), esforçando-se para se manterem respeitados e dignos perante a própria família e os outros. Em contrapartida, as mulheres casadas vivenciavam, como virtude moral, a observância da regra de economizar. Homens e mulheres, diante das dificuldades de alimentar a si próprios e a prole numerosa, viam ameaçadas as expectativas de ‘melhorar de vida’ postas desde quando migraram para a cidade.
Casa e comida eram os eixos principais do consumo, sobrevivência e identidade de famílias de trabalhadores, segundo reiteraram outras pesquisas similares da década de 70 (Marcier, 1979; Guimarães, 1979; Marin, 1979; Oliveira, 1979, entre outros autores), e os salários comprimidos impediam outros gastos, embora projetassem naquele momento e para o futuro a quitação da moradia, o estudo dos filhos, a obtenção de empregos mais bem remunerados e um padrão mais elevado de consumo, implicando superar a privação alimentar, apropriar-se de mais comida e ‘misturas’, especialmente a carne bovina, e ter acesso ao supermercado, libertando-se dos armazéns e das dívidas acumuladas.
Após 30 anos, as mulheres da geração mais velha, entrevistadas na segunda pesquisa, admitiam que a ‘vida melhorou’, permitindo comer ‘mais’ e ‘melhor’, o que se opõe à percepção generalizada do estado de privação anterior, quando se comia ‘pouco’ e ‘pior’ e segundo a entrada de dinheiro na casa. Laconicamente, e em voz baixa, rememoravam a ‘vida apertada’ anterior, permeada pela fome; com os filhos para criar, os baixos salários auferidos e as primeiras dificuldades da vida na cidade.
A ‘vida melhor’ era pensada, na segunda pesquisa, em relação à propriedade da casa; embora quitada, a posse não estava ainda legalmente formalizada. Somavam-se a essa avaliação positiva da condição de vida a apropriação dos bens de consumo duráveis acumulados na casa e a instrução dos filhos. A casa, além de ser investimento e propriedade (Durhan, 1973), é simbolicamente a contrapartida material da família (Woortmann, 1984; Sarti, 1996), e sua obtenção, desde o início da década de 1970, foi o ‘sonho’ acalentado pela política habitacional governamental e pelo valor que se atribui à propriedade e à família. Outros sinais da prosperidade se mediam pela presença do automóvel, ainda que velho; pelo acúmulo de móveis, eletrodomésticos, linhas telefônicas (posse recente e estímulo à sociabilidade) e por vezes do computador, usado pelos jovens em função de estudo, trabalho e informação; pelas reformas e ampliação da casa, construção de altos muros e da garagem, modificando a aparência externa, demarcando nitidamente a sua separação do espaço da rua.
A prosperidade era pensada pela antiga geração em relação aos filhos adultos, que constituíam suas próprias famílias, reproduzindo-se socialmente como trabalhadores manuais ou não; por aqueles que estudaram, valorizando-se mais os cursos técnicos para os homens e os de formação de professores para as mulheres, e mais recentemente, para ambos, os cursos universitários, freqüentados por vários jovens da segunda geração. O ‘sucesso dos filhos’ tornava-se, simbolicamente, retribuição ou compensação dos esforços do casal por tê-los educado, provido e cuidado. As mulheres computavam a seu favor a dedicação, o afeto e os cuidados materiais a eles dispensados: a ‘comida bem feita’, ‘a roupa limpa’, a ‘higiene e limpeza’ e a ‘assistência médica’, à qual tinham maior acesso do que na zona rural.
Condensa-se nos discursos a dimensão moral de prover e proteger a prole, seja da parte do homem, porque lhe coube garantir a sobrevivência física e moral da família, seja da parte da mulher, pelo cumprimento de seus papéis de mãe, esposa e dona-de-casa. A superação da fome, da desnutrição dos filhos, como outras dimensões da categoria ‘fraqueza’, era trunfo moral exibido nos discursos da antiga geração em relação às suas proles e expressão máxima do cuidado alimentar dispensado, uma vez que os tinham ‘fortes’ e ‘sadios’, o que significa também resistência e disposição para o trabalho. Pensar a robustez e o vigor dos filhos como sinais de saúde e de boas condições alimentares ainda fazia sentido para todas as mulheres entrevistadas de ambas as gerações, enquanto a ‘fraqueza’, na sua dimensão física associada à debilidade corporal, intercedida pela falta de alimentação, revela ou expressa, segundo ainda continuam pensando, a falta de cuidado das mães com a alimentação e a saúde da prole, ferindo portanto o dever moral de cuidar dela e caracterizando o descumprimento de suas obrigações.
Nem tudo é harmônico nos grupos estudados. As acusações das mulheres e seus conflitos com os maridos davam-se em torno do alcoolismo ou de outros comportamentos desaprovados, sempre computados do ponto de vista moral como ‘irresponsabilidade’ deles como pais e provedores, o que se agravava com os atos da violência masculina contra a mulher e os filhos, tornando problemático o convívio doméstico e, muito freqüentemente, acarretando a perda da autoridade paterna perante a família e as permanentes insatisfações das esposas, acumuladas durante suas vidas. Tudo isso se condensa em torno do alcoolismo, o qual acompanhou a vida de alguns homens da geração mais velha, encontrados na segunda pesquisa, e fora pacientemente suportado pelas mulheres da antiga geração em função da preservação do casamento e da família, segundo pensam; As mulheres da nova geração se revelavam em seus discursos menos disponíveis para aceitar aquela condição, evocando a possibilidade de se manter pelo trabalho remunerado, independentemente dos maridos, ainda que mantivessem, ideologicamente, o casamento e a família como valores importantes
A aquisição dos alimentos
As mulheres entrevistadas se punham como consumidoras, ao falarem das aquisições e dos locais de compra, dispondo de certo montante de dinheiro segundo as possibilidades do pai de família ou delas próprias, quando a sós e chefes de família. No início da década de 1970, a rede de abastecimento alimentar se reduzia a um supermercado, localizado no centro da cidade, de difícil acesso devido à distância do bairro e ao baixo nível de renda dos consumidores, dependentes basicamente do pequeno comércio abastecedor (armazéns, bares, quitandas, vendedores ambulantes e pequenos proprietários rurais). Pelo incentivo da política governamental de abastecimento foram criados novos supermercados nas cidades interioranas, o que foi fatal para os armazéns, que desapareceram de Paulínia nos últimos 30 anos, juntamente com o pequeno comércio pouco capitalizado (exceto os bares), embora os vendedores ambulantes, filiados a grandes redes atacadistas, ainda façam parte da paisagem do bairro, anunciando produtos como peixe, cestas básicas, ovos, frutas e verduras. O provimento destas últimas se completa com uma grande horta, pertencente a um antigo proprietário rural, situada perto do bairro, facilitando o acesso de seus moradores.