Ao Sul de Lugar Nenhum

Charles Bukowski · Capítulo 10 de 28

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Ao Sul de Lugar Nenhum

Os assassinos

 

 

Harry acabara de sair da estiva e estava descendo a alameda em direção ao Pedro’s para tomar uma xícara de café de um níquel. Era muito cedo na manhã, mas lembrou que costumavam abrir às cinco. No Pedro’s era possível ficar sentado por algumas horas pagando apenas alguns centavos. Dava para pensar um pouco. Lembrar-se dos erros e dos acertos da vida.

Estavam abertos. A garota mexicana que lhe deu o café olhou-o como se ele fosse um ser humano. A pobrezinha conhecia a vida. Uma boa garota. Bem, uma garota suficientemente boa. Todas significavam problemas. Tudo era sinal de problemas. Lembrou-se de uma afirmação que tinha ouvido em algum lugar: Viver é um problema.

Harry sentou-se em uma das velhas mesas. O café estava bom. Trinta e oito anos de idade e ele estava acabado. Bebeu o café e lembrou onde tinha errado... ou acertado. Simplesmente se cansara... do jogo das seguradoras, dos pequenos escritórios e altas divisórias de vidro, dos clientes, simplesmente cansara de trair sua mulher, de se esfregar com secretárias no elevador e nos corredores, cansara das festas de Natal e das festas de Ano-Novo e dos aniversários, pagamentos de carros novos, móveis, luz, gás, água... todo o complexo sistema de necessidades.

Cansou-se e se demitiu, isso era tudo. O divórcio veio logo e também a bebida e subitamente estava fora de tudo aquilo. Não tinha nada e descobriu que não ter nada também era difícil. Era um outro tipo de fardo. Se ao menos existisse algum caminho mais suave entre esses dois. Parecia que um homem tinha apenas duas escolhas: acotovelar-se no jogo da ambição ou ser um mendigo.

Harry levantou os olhos e viu um homem que também tinha uma xícara de café de um níquel sentando à sua frente. Parecia recém-entrado nos quarenta. Estava mal vestido como Harry. Puxou um cigarro e olhou para Harry enquanto o acendia.

– Como vão as coisas?

– É uma boa pergunta – disse Harry.

– É... acho que sim.

Ficaram sentados bebendo o café.

– É de se perguntar como um homem vem parar num buraco destes.

– É... – disse Harry.

– Por sinal, se interessar, meu nome é William.

– Eu me chamo Harry.

– Você pode me chamar de Bill.

– Obrigado.

– Você tem a expressão de alguém que chegou ao fim de alguma coisa.

– Estou apenas cansado desta vida de mendigo, cansado até os ossos.

– Quer voltar para a sociedade, Harry?

– Não, isso não. Quero apenas sair dessa situação.

– Há o suicídio.

– Eu sei.

– Escute – disse Bill –, o que precisamos é de um pouco de dinheiro fácil para retomarmos o fôlego.

– Claro, mas como?

– Bem, é um pouco arriscado.

– Quão arriscado?

– Eu costumava roubar casas. Não é ruim. Seria legal ter um bom parceiro.

– Ok. Estou pronto para tentar qualquer coisa. Estou enjoado de feijão aguado, de rosquinhas da semana passada, dos missionários, as palestras sobre Deus, os roncos...

– Nosso problema é como chegar até um lugar em que possamos operar – disse Bill.

– Tenho alguns dólares.

– Tudo bem, me encontre perto da meia-noite. Tem um lápis?

– Não.

– Espere. Vou pedir um emprestado.

Bill voltou com o toco de um lápis. Pegou um guardanapo e escreveu.

– Tome o ônibus Beverly Hills e peça ao motorista para descer aqui. Então caminhe dois quarteirões na direção norte. Estarei esperando lá. Vai conseguir?

– Estarei lá.

– Você tem esposa? – Bill perguntou.

– Tinha – Harry respondeu.

Fazia frio naquela noite. Harry desceu do ônibus e caminhou dois quarteirões para o norte. Estava escuro, muito escuro. Bill estava em pé fumando um cigarro de palha. Ele não estava parado no meio da calçada, mas encostado contra um grande arbusto.

– Olá, Bill.

– Olá, Harry. Está pronto para começar sua nova e lucrativa carreira?

– Estou.

– Muito bem. Tenho explorado esta região. Acho que escolhi uma casa boa pra gente. Isolada. Fede a dinheiro. Está com medo?

– Não, não estou com medo.

– Isso é bom. Fique tranquilo e me siga.

Harry seguiu Bill pela calçada por um quarteirão e meio, então Bill atalhou por entre dois arbustos e por um grande gramado. Caminharam até os fundos da casa, uma mansão espetacular com dois andares. Bill parou diante da janela dos fundos. Cortou a tela com sua faca, depois ficou imóvel, a escutar. Tudo estava quieto como um cemitério. Bill ergueu a tela e a afastou. Ficou ali trabalhando na janela. Bill embromou por algum tempo, e então Harry começou a pensar: “Jesus. Estou com um amador, com algum tipo de louco.” Então a janela abriu e Bill entrou por ela. Harry podia ver sua bunda balançando enquanto se debatia para passar. “Isso é ridículo”, pensou. “Homens fazem esse tipo de coisa?”

– Venha – Bill sussurrou do lado de dentro.

Harry passou pela janela. Realmente a casa fedia a dinheiro e a lustra-móveis.

– Jesus. Bill. Agora estou com medo. Isso não faz nenhum sentido.

– Não fale tão alto. Você quer ou não quer se livrar daquele feijão aguado?

– Sim.

– Então seja homem.

Harry ficou parado em pé, enquanto Bill lentamente abria gavetas e colocava coisas em seus bolsos. Pareciam estar em uma sala de jantar. Bill estava colocando colheres e facas e garfos em seus bolsos. “Como vamos conseguir algum dinheiro por isso?”, pensou Harry.

Bill continuava a socar a prataria nos bolsos de seu casaco e então derrubou uma faca. O chão era duro, sem carpete, e o som foi alto e claro.

– Quem está aí?

Bill e Harry não responderam.

– Quem está aí?

– O que é, Seymour? – disse a voz de uma garota.

– Acho que ouvi algo. Alguma coisa me acordou.

– Ah, volte a dormir.

– Sério. Ouvi algo.

Harry ouviu um som de cama se mexendo e então o som de um homem caminhando. O homem passou pela porta e logo estava na sala de jantar com os dois. Ele usava pijamas, era um jovem de 26 ou 27 anos com um cavanhaque e cabelos longos.

– Muito bem, seus escrotos, o que estão fazendo na minha casa?

Bill virou-se para Harry.

– Entre no quarto. Pode ter um telefone lá. Não deixe a garota usá-lo. Vou tomar conta desse daqui.

Harry caminhou em direção ao quarto, achou a porta, entrou, viu uma loira jovem perto dos 23 anos, cabelos longos, vestindo uma camisola sensual, os seios soltos. Havia um telefone no criado mudo e ela não o estava usando. De súbito, ela levou o dorso da mão à boca. Estava sentada na cama.

– Não grite – disse Harry – ou eu mato você.

Permaneceu ali, olhando-a, pensando em sua própria esposa, mas nunca uma esposa como aquela. Harry começou a suar, sentiu-se tonto e encararam um ao outro.

Harry sentou na cama.

– Deixe minha esposa em paz ou eu mato você! – disse o jovem.

Bill acabara de trazê-lo para o quarto. Segurava-o com uma chave de braço e mantinha sua faca espetando as costas do sujeito.

– Ninguém irá machucar sua esposa, cara. Apenas nos conte onde está a porra da grana e iremos embora.

– Já disse. Tudo o que eu tenho está na minha carteira.

Bill apertou a chave de braço e forçou um pouco mais a faca. O sujeito tremeu.

– As joias – disse Bill. – Me mostre as joias.

– Estão lá em cima...

– Muito bem. Me leve até lá.

Harry observou Bill levá-lo para fora do quarto. Harry continuou encarando a garota e ela devolvia o mesmo olhar. Olhos azuis, e as pupilas estavam dilatadas de medo.

– Não grite – ele lhe disse – ou mato você, então é melhor você me ajudar!

Os lábios dela começaram a tremer. Estavam no tom mais pálido que o rosa pode assumir, e então os lábios dos dois estavam colados. Ele estava mal barbeado e sujo, rançoso, e ela era branca, um branco liso, delicado, tremendo. Ele segurou a cabeça da jovem nas mãos. Afastou-a e olhou-a nos olhos.

– Sua puta – ele disse. – Sua puta de merda!

Beijou-a novamente, com força. Caíram juntos na cama. Ele estava tirando os sapatos, segurando-a. Então foi tirando as calças e durante todo o tempo não deixou de segurá-la e beijá-la.

– Sua puta, sua puta de merda...

– Oh não! Jesus Cristo! Não! A minha esposa não, seus crápulas!

Harry não os ouvira entrar. O jovem soltou um berro. Então Harry ouviu um murmúrio. Levantou-se um pouco e olhou ao redor. O sujeito estava no chão com sua garganta cortada, o sangue esguichava de modo ritmado pelo chão.

– Você o matou! – disse Harry.

– Ele estava gritando.

– Não precisava matá-lo.

– Você não precisava estuprar a mulher.

– Não a estuprei, e você o matou.

Então ela começou a gritar. Harry colocou a mão sobre sua boca.

– O que vamos fazer? – perguntou.

– Vamos matá-la também. Ela é uma testemunha.

– Não posso matá-la – disse Harry.

– Eu mato – disse Bill.

– Mas não vamos desperdiçar a oportunidade.

– Então vá em frente, fode ela.

– Enfie algo na boca para ela não gritar.

– Já vou dar um jeito nisso – disse Bill.

Ele pegou um lenço da gaveta e enfiou na boca da mulher. Então rasgou a fronha do travesseiro em tiras e amarrou tudo de maneira que o lenço não pudesse sair.

– Ferro nela – disse Bill.

A garota não resistiu. Parecia estar em estado de choque.

Quando Harry acabou o serviço, Bill começou. Harry ficou olhando. Era isso. Era assim que funcionava no mundo inteiro. Quando um exército conquistador chegava, tomavam as mulheres. Eles eram os conquistadores.

Bill saiu de cima dela.

– Porra, foi muito bom.

– Escute, Bill, não vamos matá-la.

– Ela vai nos dedurar. É uma testemunha.

– Se lhe pouparmos a vida, ela não vai falar nada. Vai valer a pena para ela.

– Ela vai nos entregar para a polícia. Conheço a natureza humana. Ela vai nos entregar mais tarde.

– Seria de estranhar se ela não fizesse isso depois do que fizemos, não?

– Exatamente o que eu quero dizer – disse Bill. – Por que deixá-la viva então?

– Escute, vamos perguntar a ela. Vamos falar com ela. Vamos ver o que ela acha.

– Eu sei o que ela acha. Vou matá-la.

– Por favor, não a mate, Bill. Vamos mostrar alguma decência.

– Alguma decência? Agora? Tarde demais. Se ao menos você tivesse sido homem suficiente para manter seu maldito caralho fora da...

– Não a mate, Bill, não vou... suportar...

– Vire de costas.

– Bill, por favor...

– Já disse pra virar de costas!

Harry virou-se para o outro lado. Pareceu não haver nenhum som. Minutos passaram.

– Já terminou, Bill?

– Sim. Pode olhar.

– Não quero. Vamos embora. Vamos sair daqui.

Saíram pela mesma janela pela qual tinham entrado. A noite estava ainda mais fria. Foram pelo lado escuro da casa e atravessaram a cerca viva.

– Bill?

– Hein?

– Me sinto bem agora, como se não tivesse acontecido.

– Aconteceu.

Caminharam de volta para a parada de ônibus. Durante a noite, o intervalo entre os ônibus era maior, provavelmente teriam que esperar uma hora. Ficaram na parada e examinaram um ao outro procurando manchas de sangue e estranhamente não encontraram nada. Então enrolaram e acenderam dois cigarros.

Então subitamente Bill cuspiu o seu.

– Porra do caralho! Puta que pariu!

– Que foi, Bill?

– Esquecemos de pegar a carteira!

– Puta merda... – disse Harry.