Ao Sul de Lugar Nenhum

Charles Bukowski · Capítulo 24 de 28

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Ao Sul de Lugar Nenhum

Foi isso que matou Dylan Thomas

 

Entro no avião com minha namorada, o técnico de som, o câmera e o produtor. A câmera está ligada. O técnico de som tinha prendido microfones de lapela em minha namorada e em mim. Estou a caminho de São Francisco para fazer uma leitura de poesia. Sou Henry Chinaski, poeta. Sou profundo, sou magnífico. Caralho. Bem, sim, sou um cara do caralho.

O Canal Quinze está pensando em fazer um documentário sobre mim. Estou vestindo uma camisa nova e limpa, e minha namorada está vibrante, magnífica, recém-entrada nos trinta. Ela esculpe, escreve e faz amor maravilhosamente bem. A câmera esbarra em meu rosto. Finjo que não está ali. Os passageiros observam, a aeromoça sorri, a terra é roubada dos índios, Tom Mix está morto e eu tive um belo café da manhã.

Mas não consigo deixar de pensar nos anos em quartos solitários, quando as únicas pessoas que batiam à minha porta eram as senhorias cobrando o aluguel atrasado ou o FBI. Vivia com ratos e camundongos e vinho, meu sangue escorria pelas paredes em um mundo que não conseguia compreender e ainda não compreendo. Em vez de levar a vida que eles levavam, eu passava fome. Fugia para dentro de minha própria mente e me escondia. Fechava todas as cortinas e ficava olhando para o teto. Quando saía, era para ir a um bar onde eu mendigava por bebida, andava a esmo, apanhava nos becos de homens bem-alimentados e confiantes, de homens idiotas e com vidas confortáveis. Bem, ganhei algumas lutas, mas só porque era louco. Fiquei anos sem mulher, vivia de manteiga de amendoim e pão amanhecido e batatas cozidas. Eu era o idiota, o estúpido, o louco. Queria escrever, mas a máquina de escrever estava sempre penhorada. Então eu desistia e bebia...

O avião decolou e a câmera continuou gravando. Minha namorada e eu conversávamos. As bebidas chegavam. Eu tinha poesia e uma bela mulher.

A vida estava melhorando. Mas as armadilhas, Chinaski, cuidado com as armadilhas. Você lutou uma longa batalha para submeter o mundo à sua vontade. Não deixe que um pouco de adulação e uma câmera de cinema o derrubem dessa posição. Lembre-se do que disse Jeffers: “Até mesmo os homens mais fortes podem ser pegos em armadilhas, como Deus, na vez em que caminhou sobre a Terra”.

Bem, você não é Deus, Chinaski, relaxe e beba outro copo. Talvez deva dizer algo profundo para o técnico de som? Não, deixe-o trabalhar. Deixe todos trabalharem. Eles que estão fazendo o filme. Veja o tamanho das nuvens. Você está voando com executivos da IBM, da Texaco, da...

Está andando com o inimigo.

No elevador do aeroporto um homem me pergunta:

– O que são todas essas câmeras? O que está acontecendo?

– Sou um poeta – eu lhe digo.

– Um poeta? – ele pergunta. – Qual o seu nome?

– Garcia Lorca – respondo...

Bem, em North Beach as coisas são diferentes. Eles são jovens e vestem jeans e ficam por ali, apenas esperando. Sou velho. Onde estão os

jovens de vinte anos atrás? Onde está Joltin’ Joe[3]? Essa coisa toda. Bem, eu estava em São Francisco trinta anos atrás e evitava North Beach. Agora estou caminhando justamente por aqui. Vejo minha cara nos pôsteres por toda a parte. Cuidado, velho, a armadilha está pronta. Eles querem seu sangue.

Minha namorada e eu caminhamos com Marionetti. Bem, aqui estamos nós caminhando por aí com Marionetti. É bom estar com Marionetti, ele tem olhos muito gentis e as jovens o param na rua para falar com ele. Agora, creio, poderia ficar em São Francisco... mas sou muito inteligente para isso, para mim, é melhor voltar para Los Angeles, a metralhadora já está montada na janela da frente do casarão. Eles podem ter conquistado Deus, mas Chinaski recebe seus conselhos do diabo.

Marionetti vai embora e lá está uma cafeteria beatnick. Nunca estive em uma. Estou em uma cafeteria beatnick. Minha namorada e eu pedimos o melhor... a xícara de sessenta centavos. Grande coisa. Não vale o preço. Os garotos ficam sentados, bebericando seus cafés e esperando que a vida aconteça. Não vai acontecer.

Atravessamos a rua e entramos em uma cafeteria italiana. Marionetti está de volta com o seu amigo do San Francisco Chronicle, que escreveu, em sua coluna, que eu era o melhor contista que tinha surgido desde Hemingway. Digo-lhe que está errado. Não sei quem é o melhor contista desde Hemingway, mas não é Henry Chinaski. Sou muito descuidado. Não me esforço tanto quanto deveria. Estou cansado.

O vinho sobe a cabeça. Vinho ruim. A atendente traz uma sopa, salada, uma tigela de raviólis. Outra garrafa de vinho ruim. Estamos já muito estufados para comer o prato principal. A conversa está solta. Não nos esforçamos para ser brilhantes. Talvez não possamos ser. Saímos.

Caminho atrás deles enquanto seguimos colina acima. Caminho com minha bela namorada. Começo a vomitar. Vinho tinto ruim. Salada. Sopa. Raviólis. Sempre vomito antes de uma leitura. É um bom sinal. A lâmina está afiada. A faca está em meu estômago enquanto subo a colina.

Eles nos colocam em uma sala, nos deixam algumas garrafas de cerveja. Olho para os meus poemas. Estou apavorado. Vomito na pia, vomito no banheiro, vomito no chão. Estou pronto.

O maior público desde Yevtushenko[4]... Caminho pelo palco. Fodão. Chinaski é fodão. Há uma geladeira cheia de cervejas atrás de mim. Espicho o braço e pego uma. Sento e começo a ler. Eles pagaram dois dólares pelo ingresso. Pessoas bacanas, essas daí. Alguns, no entanto, são bastante hostis desde o começo. Um terço deles me odeia, um terço me ama, o outro terço não sabe por que, raios, está ali. Tenho alguns poemas que sei que aumentarão o ódio. É bom ter hostilidade, mantém a cabeça relaxada.

– Laura Day poderia se levantar? Poderia o meu amor ficar de pé, por favor?

Ela se levanta acenando com os braços.

Começo a ficar mais interessado na cerveja do que na poesia. Falo entre os poemas, palavras banais e secas, monótonas. Sou Humphrey Bogart. Sou Hemingway. Sou foda.

– Leia os poemas, Chinaski! – gritam eles.

Eles estão certos, vocês sabem. Tento me ater aos poemas. Mas passo também bastante tempo abrindo e fechando a porta da geladeira atrás de mim. Isso facilita o trabalho e eles já pagaram. Certa vez me contaram que John Cage subiu no palco, comeu uma maçã e saiu, ele recebeu mil dólares por isso. Imaginei que tinha ainda algumas cervejas para beber.

Bem, por fim terminou. Eles deram a volta. Autógrafos. Vieram de Oregon, Los Angeles, Washington. Algumas garotinhas bem bonitas também. Foi isso que matou Dylan Thomas.

Voltei lá para cima, para minha sala, bebendo cerveja e falando com Laura e Joe Krysiak. Lá embaixo, eles batem à porta.

– Chinaski! Chinaski!

Joe desce para mandá-los embora. Sou um astro de rock. Finalmente desço e deixo uns poucos entrarem. Conheço alguns deles. Poetas famintos. Editores de pequenas revistas. Alguns dos que entram, eu não conheço. Tudo bem, tudo bem... tranque a porta!

Bebemos. Bebemos. Bebemos. Al Masantic cai no banheiro e abre o topo da cabeça. Um poeta muito bom, aquele Al.

Bem, todos estão falando. Não passa de outra bebedeira. Então o editor de uma pequena revista começa a bater em um veado. Não gosto disso. Tento separá-los. Uma janela está quebrada. Empurro-os escada abaixo. Empurro todo mundo pela escada, exceto Laura. A festa acabou. Bem, não exatamente. Laura e eu discutimos. Meu amor e eu estamos discutindo. Ela tem um temperamento forte e eu não fico atrás. Só para variar, estamos brigando por nada. Digo a ela que suma dali. Ela some.

Acordo horas depois e ela está em pé no meio do quarto. Salto da cama e a xingo. Ela está partindo pra cima de mim.

– Vou matar você, seu filho da puta!

Estou bêbado. Ela está em cima de mim no chão da cozinha. Minha cara está sangrando. Ela morde o meu braço e abre um buraco. Não quero morrer. Não quero morrer! Foda-se a paixão! Corro para a cozinha e derramo meia garrafa de iodo sobre meu braço. Ela está jogando minhas bermudas e camisas para fora de sua mala, pegando sua passagem de avião. Ela está seguindo o seu rumo outra vez. Terminamos tudo para sempre, outra vez. Volto para a cama e escuto seus saltos descendo a colina.

No avião de volta, a câmera está gravando. Aqueles sujeitos do Canal Quinze vão descobrir sobre a minha vida. A câmera dá um zoom no buraco em meu braço. Na minha mão, trago um copo de uísque. Dose dupla.

– Senhores – digo –, não há como acertar as coisas com as mulheres. Absolutamente não há como.

Todos balançam a cabeça em consentimento. O técnico de som assente com a cabeça, o câmera assente com a cabeça, o produtor assente com a cabeça. Alguns dos passageiros assentem com a cabeça. Bebo muito durante todo o trajeto de volta, saboreando meu pesar, como dizem. O que pode um poeta sem o sofrimento? O poeta precisa de sofrimento tanto quanto de sua máquina de escrever.

Claro, vou para o bar do aeroporto. Teria ido para lá de qualquer maneira. A câmera me segue. Os sujeitos no bar olham ao redor, erguem suas bebidas e falam de como é impossível fazer as coisas funcionarem com as mulheres.

Pela leitura, recebi quatrocentos dólares.

– Para que esse negócio da câmera? – pergunta o sujeito ao meu lado.

– Sou um poeta – respondo.

– Um poeta? – ele pergunta. – Qual o seu nome?

– Dylan Thomas.

Ergo meu copo, esvazio-o de uma só vez, olho diretamente em frente. Estou de partida.