Ao Sul de Lugar Nenhum

Charles Bukowski · Capítulo 14 de 28

Páginas do PDF

Ao Sul de Lugar Nenhum

Algo sobre uma bandeira vietcongue

 

 

O deserto assava sob o sol do verão. Red pulou de seu vagão enquanto o trem parava, logo antes do parque ferroviário. Cagou atrás de umas pequenas pedras ao norte, limpou a bunda com algumas folhas. Depois caminhou uns cinquenta metros, sentou-se à sombra, atrás de outra pedra e enrolou um cigarro. Viu os hippies caminhando em sua direção. Dois sujeitos e uma garota. Haviam pulado do trem no parque e estavam caminhando de volta.

Um dos sujeitos carregava uma bandeira vietcongue. Os sujeitos pareciam moles e inofensivos. A garota tinha um belo e largo traseiro, quase rasgava sua calça jeans. Era loira e tinha um caso grave de acne. Red esperou até que se aproximassem dele.

– Heil Hitler! – ele disse.

Os hippies riram.

– Para onde vocês estão indo? – Red perguntou.

– Estamos tentando chegar a Denver. Acho que vamos conseguir.

– Bem – disse Red –, vão ter de esperar um pouco. Vou ter de usar a garota de vocês.

– O que você quer dizer?

– Vocês me ouviram.

Red agarrou a garota. Com uma mão segurando o cabelo dela e a outra pegando sua bunda, ele a beijou. O mais alto dos sujeitos pegou Red pelo ombro.

– Espere um minuto...

Red se virou e pôs o sujeito no chão com um soco curto de esquerda. Um soco no estômago. O sujeito ficou no chão, respirando com dificuldade. Red olhou para o sujeito que estava com a bandeira vietcongue e disse:

– Se você não quer se machucar, me deixe em paz.

– Vamos – disse para a garota –, vá para trás daquelas pedras.

– Não, não vou fazer nada – ela disse. – Não vou!

Red puxou seu canivete e apertou o botão. A lâmina estava contra o nariz dela, pressionando para baixo.

– Como você acha que ficaria sem nariz?

Ela não respondeu.

– Vou cortá-lo fora – ele disse sorrindo maliciosamente.

– Escute – disse o sujeito com a bandeira –, você não vai se safar dessa.

– Venha, garotinha – disse Red, empurrando-a para as pedras.

Red e a garota desapareceram atrás das pedras. O sujeito com a bandeira ajudou seu amigo a se levantar. Ficaram lá parados. Ficaram parados por alguns minutos.

– Ele está fodendo a Sally. O que podemos fazer? Ele está fodendo a Sally agora mesmo.

– O que podemos fazer? Ele é um louco.

– Acho que deveríamos fazer algo.

– Sally deve estar pensando que nós somos uns merdas.

– Nós somos. Estamos em dois. Podíamos ter dado um jeito nele.

– Ele tinha uma faca.

– Não tem importância. Podíamos ter dado um jeito.

– Me sinto miserável.

– Como você acha que Sally está se sentindo? Ele está trepando com ela.

Ficaram parados e esperaram. O mais alto dos dois, o que havia levado o soco, se chamava Leo. O outro, Dale. Estava quente no sol enquanto esperavam.

– Temos dois cigarros ainda – disse Dale –, devemos fumar?

– Como, raios, podemos fumar sabendo o que está acontecendo atrás daquelas pedras?

– Tem razão. Meu Deus, por que está demorando tanto?

– Deus, não sei. Você acha que ele está matando ela?

– Estou ficando preocupado.

– Talvez. Melhor darmos uma olhada.

– Ok, mas tenha cuidado.

Leo caminhou em direção às pedras. Havia um pequeno morro com algum mato. Ele rastejou morro acima e espiou por trás do mato. Red estava fodendo Sally. Leo ficou olhando. Parecia não ter fim. Red continuava e continuava. Leo rastejou descendo o morro e caminhou até Dale e ficou em pé ao lado dele.

– Acho que ela está bem – ele disse.

Eles esperaram.

Finalmente Red e Sally saíram de trás das pedras. Caminharam até eles.

– Obrigado, irmãos – disse Red –, ela é muito gostosa.

– Apodreça no inferno! – disse Leo.

Red riu.

– Paz! Paz!

Mostrou o símbolo da paz com os dedos.

– Bem, acho que já vou seguir o meu caminho...

Red enrolou um cigarro rapidamente, sorrindo enquanto o lambia. Então acendeu, tragou e se afastou em direção ao norte, mantendo-se à sombra.

– Vamos fazer o resto do caminho pegando carona – disse Dale. – Vagões não são nada seguros.

– A autoestrada para o oeste – disse Leo. – Vamos.

Começaram a caminhar em direção ao oeste.

– Cristo – disse Sally –, mal posso caminhar! Ele é um animal!

Leo e Dale não disseram nada.

– Tomara que eu não fique grávida – disse Sally.

– Sally – disse Leo –, sinto muito...

– Ah, cale a boca!

Caminharam. O entardecer estava chegando e o calor do deserto estava diminuindo.

– Odeio os homens! – disse Sally.

Uma lebre saltou de trás de um arbusto e Leo e Dale se assustaram enquanto a lebre corria para longe.

– Um coelho – disse Leo. – Um coelho.

– O coelho assustou vocês, não é, rapazes?

– Bem, depois do que aconteceu, estamos um pouco assustados.

– Vocês estão assustados? E eu? Escutem, vamos sentar um minuto. Estou cansada.

Havia um pedaço de sombra e Sally sentou entre eles.

– Sabem, apesar... – ela disse.

– O quê?

– Não foi tão ruim. Considerando estritamente o sexo, quero dizer. Ele realmente me fodeu. Considerando estritamente o sexo, foi bem significativo.

– O quê? – disse Dale.

– Quero dizer, moralmente eu o odeio. O filho da puta devia levar um tiro. É um cachorro, um porco. Mas considerando estritamente o sexo, foi bastante...

Eles ficaram ali sentados sem dizer nada. Então tiraram os dois cigarros e fumaram, passando um para o outro.

– Queria que tivéssemos alguma droga – disse Leo.

– Deus, eu sabia que vocês iam dizer isso – disse Sally. – Vocês quase não existem.

– Talvez você se sentisse melhor se a gente estuprasse você? – perguntou Leo.

– Não seja idiota.

– Acha que não conseguiríamos estuprar você?

– Eu devia ter ido com ele. Vocês não são nada.

– Então agora você gosta dele? – perguntou Dale.

– Esqueça! – disse Sally. – Vamos para a estrada tentar descolar uma carona.

– Posso bater em você – disse Leo. – Posso fazer você chorar.

– Posso ficar olhando? – perguntou Dale rindo.

– Não haverá nada para olhar – disse Sally. – Vamos. Vamos embora.

Levantaram-se e caminharam para a estrada. Foi uma caminhada de dez minutos. Quando chegaram lá, Sally ficou na estrada com o dedão para cima. Leo e Dale ficaram escondidos. Haviam esquecido a bandeira vietcongue. Deixaram-na perto do parque ferroviário. Estava sobre a terra, perto dos trilhos dos trens. A guerra continuava. Sete formigas vermelhas das grandes caminhavam por cima da bandeira.