Ao Sul de Lugar Nenhum

Charles Bukowski · Capítulo 16 de 28

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Ao Sul de Lugar Nenhum

Lembra de Pearl Harbor?

 

 

Tínhamos que ir ao pátio de exercícios duas vezes por dia, no meio da manhã e no meio da tarde. Não havia muito o que fazer. As amizades entre os homens eram baseadas principalmente naquilo que os havia colocado na prisão. Como meu companheiro de cela, Taylor, disse, os molestadores de crianças e os casos de atentado ao pudor estavam na parte mais baixa da sociedade carcerária, enquanto os grandes trapaceiros e os estelionatários estavam no topo.

Taylor não falava comigo no pátio de exercícios. Caminhava com um grande trapaceiro. Eu sentava sozinho. Alguns dos rapazes enrolavam uma camiseta para dar-lhe a forma de uma bola e jogavam com ela. Pareciam gostar disso. As instalações para o entretenimento dos internos não eram lá essas coisas.

Sentei por ali. Logo notei um amontoamento de homens. Era o jogo de dados. Levantei e fui até lá. Tinha pouco menos de um dólar em moedas. Observei alguns lances. O homem com os dados ganhou três rodadas seguidas. Senti que a sorte dele tinha acabado e o desafiei. Ele jogou os dados e perdeu. Ganhei 25 centavos.

Cada vez que alguém entrava numa maré de sorte, eu esperava até que imaginasse que sua maré tivesse recuado. Então apostava contra ele. Notei que os outros homens apostavam em todas as rodadas. Fiz seis apostas e ganhei cinco delas. Então nos fizeram marchar de volta para as nossas celas. Eu ganhara um dólar.

Na manhã seguinte, entrei no jogo mais cedo. Ganhei dois dólares e cinquenta centavos pela manhã e um dólar e 75 centavos à tarde. Quando o jogo acabou, um jovem veio até mim e disse:

– Parece que você está indo bem, senhor.

Dei ao garoto quinze centavos. Ele seguiu caminhando. Outro sujeito se aproximou de mim.

– Você deu algo para aquele filho da puta?

– Sim. Quinze centavos.

– Ele sempre ganha uma porcentagem da rodada. Não dê nada pra ele.

– Não tinha percebido.

– É. Ele ganha. A cada rodada, ele ganha um pouco.

– Vou observá-lo amanhã.

– Além disso, ele é um cretino, dos que estão aqui por atentado ao pudor. O negócio dele é mostrar o pau pras garotinhas.

– É – eu disse –, detesto esses otários.

A comida era muito ruim. Uma noite, depois da janta, mencionei ao Taylor que estava ganhando nos dados.

– Sabe – ele disse –, dá para comprar comida aqui, comida boa.

– Como?

– O cozinheiro aparece depois que apagam as luzes. A comida do diretor, a melhor. Sobremesa, tudo o que você quiser. O cozinheiro é bom. O diretor lhe deu o emprego por causa disso.

– Quanto sairia alguns jantares pra gente?

– Dê uns dez centavos pra ele. Não mais de quinze.

– Só isso?

– Se der mais, ele vai achar que você é um trouxa.

– Tudo bem. Quinze centavos.

Taylor combinou tudo. Na próxima noite, após apagarem as luzes, esperamos matando os percevejos da cama, um a um.

– Aquele cozinheiro matou dois homens. É um tremendo filho da puta, um tipo cruel. Matou um sujeito, cumpriu dez anos, saiu da prisão e dois ou três dias depois matou outro. Esta é uma prisão para crimes de penas curtas, mas o diretor o mantém aqui porque ele cozinha muito bem.

Ouvimos alguém se aproximando. Era o cozinheiro. Levantei e ele passou a comida pela grade. Caminhei até a mesa e depois voltei para a porta da cela. O filho da puta era enorme, assassino de dois homens. Dei-lhe quinze centavos.

– Obrigado, camarada, quer que eu volte amanhã à noite?

– Todas as noites.

Taylor e eu sentamos e comemos. Tudo estava em pratos. O café estava bom e quente, a carne, um rosbife, estava macia. Purê de batatas, ervilhas, biscoitos, molho de carne, manteiga e torta de maçã. Havia cinco anos que não comia tão bem.

– O cozinheiro estuprou um marinheiro outro dia. Deixou-o tão mal que o marinheiro não podia caminhar. Tiveram que hospitalizá-lo.

Enchi a boca de purê e ervilhas.

– Você não precisa se preocupar – disse Taylor. – Você é tão feio que ninguém o estupraria.

– Estava mais preocupado em conseguir um pouco de sexo.

– Bem, vou apontar os putos. Alguns têm dono e outros não.

– A comida está ótima.

– Porra, muito boa. Como eu ia dizendo, há dois tipos de putos por aqui. Os que chegam como putos e os que viram putos aqui dentro. Nunca tem putos suficientes para todo mundo, então os garotos têm que criar alguns extras para satisfazer suas necessidades.

– Isso está bem.

– Os que viraram putos na prisão são normalmente um pouco agressivos por causa das surras que levam. Resistem no começo.

– É mesmo?

– Sim. Até que decidem que é melhor viver como um puto do que morrer como virgem.

Terminamos nossa janta, fomos para nossos beliches, lutamos contra os percevejos e tentamos dormir.

Continuei a ganhar nos dados todos os dias. Apostava mais pesado e mesmo assim ganhava. A vida na prisão estava ficando cada vez melhor. Um dia me disseram para não ir ao pátio de exercícios. Dois agentes do FBI vieram me visitar. Fizeram algumas perguntas, então um deles disse:

– Nós o investigamos. Você não precisa ir a julgamento. Será levado ao centro de alistamento. Se o exército o aceitar, você entrará para o exército. Se o rejeitarem, voltará à vida civil.

– Quase gosto daqui, da prisão – eu disse.

– Sim, você parece estar se dando bem por aqui.

– Sem tensão – eu disse –, sem aluguel, sem contas, sem brigas com namoradas, sem impostos, sem placas de licença, sem despesas com comida, sem ressacas...

– Continue dando uma de espertinho, vamos dar um jeito em você.

– Ah, merda – eu disse. – Estou só brincando. Finjam que eu sou Bob Hope.

– Bob Hope é um bom americano.

– Eu também seria se tivesse aquela grana toda.

– Continue tagarelando. Podemos transformar sua vida num inferno.

Não respondi. Um dos sujeitos tinha uma maleta. Ele se levantou primeiro. O outro o seguiu e os dois saíram.

Deram a todos nós um saco com almoço para levar e nos colocaram em uma caminhonete. Estávamos em vinte ou 25. Os rapazes haviam acabado de tomar o café da manhã uma hora e meia atrás, mas todos já tinham o saco com o almoço. Não era ruim: um sanduíche com molho bolonhesa, um sanduíche com manteiga de amendoim e uma banana podre. Dei meu almoço para os outros. Estavam muito quietos. Nenhum deles fez piada. Olhavam reto para frente. A maioria deles eram negros ou pardos. E todos eram grandes.

Passei no teste físico, então fui ver o psiquiatra.

– Henry Chinaski?

– Sim.

– Sente-se.

Sentei.

– Você acredita na guerra?

– Não.

– Está disposto a ir a guerra?

– Sim.

Ele me olhou. Baixei o olhar para os meus pés. Ele parecia estar lendo um maço de papéis à sua frente. Demorou vários minutos. Quatro, cinco, seis, sete minutos. Então falou:

– Escute, darei uma festa na próxima quarta-feira à noite na minha casa. Irão médicos, advogados, artistas, escritores, atores, toda essa gente. Posso ver que você é um homem inteligente. Quero que vá a minha festa. Virá?

– Não.

Ele começou a escrever. Escreveu e escreveu e escreveu. Imaginei como ele sabia tanto sobre mim. Eu mesmo não sabia tanto sobre mim.

Deixei que continuasse escrevendo. Eu estava indiferente. Agora que eu não podia ir à guerra, eu quase queria ir à guerra. Ainda assim, ao mesmo tempo, estava contente por ficar de fora. O doutor acabou de escrever. Senti que os tinha enganado. Minha objeção à guerra não era que eu tinha que matar alguém ou ser morto sem motivo, isso quase não me importava. O que eu objetava era que me negassem o direito de sentar em uma pequena sala e passar fome e beber vinho barato e ficar viajando, à minha maneira, para meu prazer.

Não queria ser acordado por um sujeito com um clarim. Não queria dormir em barracas com um bando de garotos americanos saudáveis, loucos por sexo, amantes de futebol, bem-nutridos, metidos a espertos, punheteiros, assustados, rosados, amáveis peidorreiros, filhinhos da mamãe, modestos, jogadores de basquete com quem eu teria de fazer amizade, com quem eu teria de me embebedar nas folgas, que me contariam dúzias de piadas sujas, previsíveis e sem graça quando eu deitasse de costas. Não queria seus cobertores que pinicam ou seus uniformes que dão coceira nem a incômoda humanidade deles. Não queria cagar no mesmo lugar nem mijar no mesmo lugar ou compartilhar a mesma puta. Não queria ver as unhas dos pés deles nem ler as cartas que receberiam de casa. Não queria aquelas bundas balançando na minha frente com todos os rapazes ombro a ombro, não queria fazer amigos, não queria fazer inimigos, eu apenas não os queria, não queria isso nem aquilo nem coisa nenhuma. Matar ou ser morto quase não me importava.

Depois de esperar duas horas sentado em um banco duro, em um túnel escuro que mais parecia uma cloaca, com um vento frio que não parava de soprar, eles me deixaram ir e eu saí caminhando na direção norte. Parei para comprar um maço de cigarros. Entrei no primeiro bar, sentei, pedi um uísque com água, tirei o celofane do maço, puxei um cigarro, acendi, peguei aquela bebida na minha mão, bebi metade do copo, traguei a fumaça, olhei meu belo rosto no espelho. Parecia estranho estar livre. Parecia estranho poder caminhar em qualquer direção que eu quisesse.

Só para me divertir, levantei e caminhei até a privada. Mijei. Era outro banheiro horrível de bar. Quase vomitei por causa do fedor. Saí, pus uma moeda no jukebox, sentei e ouvi a última da seleção. O fato de ser a última não a fazia nem um pouco melhor. Os caras tinham a batida, mas não tinham alma. Mozart, Bach e Bee ainda os faziam ficar em maus lençóis. Eu ia sentir falta daqueles jogos de dados e da boa comida. Pedi outra bebida. Olhei ao redor do bar. Havia cinco homens no bar e nenhuma mulher. Eu estava de volta às ruas americanas.