Ao Sul de Lugar Nenhum

Charles Bukowski · Capítulo 23 de 28

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Ao Sul de Lugar Nenhum

Matador

 

 

Ronnie ia encontrar os dois homens no bar alemão, no distrito de Silverlake. Eram sete e quinze da noite. Ficou lá sentado, bebendo cerveja preta, sozinho em sua mesa. A garçonete era loira, um belo traseiro, e seus peitos pareciam prestes a saltar para fora da blusa.

Ronnie gostava de loiras. Era como esquiar no gelo e esquiar em patins. As loiras eram como esquiar no gelo, o resto era como esquiar de patins. As loiras chegavam mesmo a ter um cheiro diferente. Mas mulheres significavam problema e para ele os problemas frequentemente superavam os prazeres. Em outras palavras, o preço a ser pago era muito alto.

Ainda assim um homem precisava de uma mulher de vez em quando, no pior dos casos, apenas para provar que conseguia arranjar uma. O sexo era secundário. Não era um mundo para os apaixonados, nunca seria.

Sete e vinte. Ele acenou para que lhe trouxessem outra cerveja. Ela veio sorrindo, carregando a cerveja na frente de seus peitos. Assim era difícil não gostar dela.

– Você gosta de trabalhar aqui? – ele perguntou.

– Oh, sim, conheço muitos homens.

– Homens legais?

– Os legais e também os do outro tipo.

– Como consegue distingui-los?

– Só de olhar já consigo dizer a diferença.

– E de que tipo eu sou?

– Ah – ela riu –, dos legais, é claro.

– Agora você fez por merecer sua gorjeta – disse Ronnie.

Sete e vinte e cinco. O combinado era às sete. Então ele levantou os olhos. Era Curt. Curt tinha um sujeito com ele. Eles vieram até a mesa em que Ronnie estava e se sentaram. Curt acenou pedindo um jarro.

– Os Rams não valem merda nenhuma – disse Curt. – Já perdi umas quinhentas pratas neles só nessa temporada.

– Acha que é o fim de Prothro?

– Sim, está tudo acabado para ele – disse Curt. – Oh, esse é Bill. Bill, esse é Ronnie.

Apertaram as mãos. A garçonete chegou com o jarro de cerveja.

– Senhores – disse Ronnie –, essa é Kathy.

– Opa – disse Bill.

– Opa – disse Curt.

A garçonete riu e se afastou rebolando.

– A cerveja é boa – disse Ronnie. – Estou aqui desde as sete horas esperando. Já deveria saber.

– Não vá beber demais – disse Curt.

– Ele é confiável? – perguntou Bill.

– Tem as melhores referências – disse Curt.

– Olhe – disse Bill –, não quero nada de gracinhas. É a minha grana.

– Como vou saber que você não é um tira? – perguntou Ronnie.

– Como vou saber que você não vai fugir com os 2.500 dólares?

– Três mil.

– Curt falou em dois e meio.

– Acabei de subir o preço. Não gosto do seu jeito.

– Também não fui muito com a sua cara. Tenho uma boa oportunidade de cancelar tudo.

– Não vai cancelar. Vocês nunca cancelam.

– Você faz isso regularmente?

– Sim. E você?

– Tudo bem, senhores – disse Curt –, não me importo com a quantia que vocês vão acertar. Quero o meu dinheiro pelo contato.

– Você é o sortudo, Curt – disse Bill.

– É... – disse Ronnie.

– Cada homem se especializa em alguma coisa – disse Curt, acendendo um cigarro.

– Curt, como sei que esse sujeito não vai fugir com os três mil?

– Ele não vai, se fugir, está fora dos negócios. E esse é o único tipo de trabalho que ele sabe fazer.

– Isso é horrível – disse Bill.

– O que tem de horrível nisso? Você precisa dele, não precisa?

– Bem, sim.

– Outras pessoas precisam dele também. Dizem que cada homem é bom em alguma coisa. Ele é bom nisso.

Alguém colocou algum trocado no jukebox e eles ficaram lá sentados, ouvindo música e bebendo cerveja.

– Realmente gostaria de foder aquela loira – disse Ronnie. – Queria meter meu pau nela por umas cinco ou seis horas.

– Eu também meteria ferro nela – disse Curt –, se possível.

– Vamos pedir outro jarro – disse Bill. – Estou nervoso.

– Não há nada com o que se preocupar – disse Curt.

Ele acenou para a garçonete pedindo outro jarro de cerveja.

– Aqueles quinhentos que apostei nos Rams, vou recuperá-los em Santa Anita. Eles abrem no dia 26 de dezembro. Estarei lá.

– O Shoe correrá na inauguração? – perguntou Bill.

– Não tenho lido os jornais. Imagino que sim. Ele não pode abandonar. Está em seu sangue.

– Longden abandonou – disse Ronnie.

– Bem, ele tinha que largar tudo, tinham que amarrá-lo na sela.

– Ele ganhou sua última corrida.

– Só porque Campus puxou o outro cavalo.

– Não acho que você possa acertar nos cavalos – disse Bill.

– Um homem inteligente pode fazer qualquer coisa, desde que se dedique – disse Curt. – Nunca trabalhei um único dia na vida.

– Pois é – disse Ronnie –, mas eu tenho trabalho pra essa noite.

– E certifique-se de que será bem feito, meu chapa – disse Curt.

– Sempre faço um bom trabalho.

Estavam quietos e ficaram sentados bebendo cerveja. Então Ronnie disse:

– Tudo bem, onde está a porra do dinheiro?

– Você vai receber, vai receber – disse Bill. – Por sorte eu trouxe quinhentos dólares a mais.

– Quero o dinheiro agora. Todo o dinheiro.

– Dê-lhe o dinheiro, Bill, e aproveite para já dar a minha parte também.

O dinheiro estava todo em notas de cem. Bill contou o dinheiro embaixo da mesa. Ronnie recebeu sua parte primeiro. Depois Curt recebeu a que lhe cabia. Eles conferiram. Tudo certo.

– Onde é o trabalho? – perguntou Ronnie.

– Tome aqui – disse Bill, entregando-lhe um envelope. – O endereço e a chave estão aí dentro.

– É muito longe?

– Trinta minutos. Pegue a autoestrada Ventura.

– Posso lhe perguntar uma coisa?

– Claro.

– Por quê?

– Por quê?

– Sim, por quê?

– Isso importa?

– Não.

– Então por que perguntar?

– Acho que me passei na cerveja.

– Talvez seja melhor você ir – disse Curt.

– Só mais um jarro de cerveja – disse Ronnie.

– Não – disse Curt –, vá logo.

– Bem, merda, tudo bem.

Ronnie deu a volta na mesa, levantou, caminhou para a saída. Curt e Bill ficaram ali sentados olhando para ele. Ele saiu. Noite. Estrelas. Lua. Trânsito. Seu carro. Ele destrancou a porta, entrou e partiu.

Ronnie verificou a rua cuidadosamente e o endereço com mais cuidado ainda. Estacionou a um quarteirão e meio de distância, passando o endereço, e voltou caminhando. A chave entrou na fechadura. Ele abriu e entrou. Havia uma televisão ligada na sala da frente. Ele caminhou pelo tapete.

– Bill? – alguém perguntou.

Ele ouviu a voz. Ela estava no banheiro.

– Bill? – ela disse novamente.

Ele empurrou a porta e lá estava ela sentada na banheira, muito loira, muito branca, jovem. Ela gritou.

Ele pôs as mãos em sua garganta e a empurrou para baixo até mergulhá-la na água. As mangas de sua camisa estavam encharcadas. Ela chutava e lutava violentamente. A coisa ficou tão feia que ele teve que entrar na banheira com ela de roupa e tudo. Teve que segurá-la. Finalmente ela ficou parada e ele a soltou.

As roupas de Bill não serviam muito bem nele, mas pelo menos estavam secas. A carteira estava molhada, mas ele a guardou assim mesmo. Então saiu de lá, caminhou um quarteirão e meio até seu carro e partiu.