Artefatos digitais para mobilização da sociedade civil: perspectivas para avanço da democracia
Transparência governamental eletrônica para Accountability
Transparência governamental
eletrônica para accountability
Maria Alexandra Cunha, Marco Antônio Carvalho Teixeira, Tatiane Ritta Coelho, Maria Camila Florêncio da Silva, Stefania Lapolla Cantoni
Introdução
A Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) tem sido apontada como potencializadora da transparência e accountabilty tanto pela literatura internacional como pela produção nacional. Neste texto, utilizamos a literatura e casos práticos para argumentar que o uso das TIC para transparência faz sentido quando leva à melhoria da accountability. Para construir a nossa argumentação, partimos da definição de “transparência” e “accountability” e investigamos como, nos textos de transparência, a accountability é referenciada e vice-versa, como aqueles que escrevem sobre accountability fazem uso do termo “transparência”. É certo que há um razoável entendimento de que os processos de transparência governamental podem ser melhorados com a utilização da TIC, mas não há consenso sobre isso. Na segunda parte do capítulo, as visões otimista e pessimista sobre a transparência refletem-se também no uso de tecnologia. Descrevemos as diferentes dimensões utilizadas para avaliar transparência em sites governamentais. Finalmente, a partir de casos práticos, problematizamos transparência e accountability e sugerimos que o uso das TIC para a transparência é importante quando conduz a melhoria dos mecanismos de accountability.
Transparência e accountability
A transparência e o direito de acesso à informação governamental são internacionalmente considerados como essenciais para várias funções da democracia, como participação e accountability. (BERTOT; JAEGER; GRIMES, 2012) De acordo com as Nações Unidas, os conceitos de integridade, transparência e accountability são reconhecidos pela maioria dos países membros como fundamentos essenciais no setor público. (ARMSTRONG, E., 2005)
Vários acadêmicos examinaram maneiras de como a internet mudou a comunicação entre governos e seus constituintes locais. (ARMSTRONG, C., 2011; BERTOT; JAEGER; GRIMES, 2012; GRIMMELIKHUIJSEN, 2009) Estes autores têm sugerido que quanto mais informações os governos disponibilizam, a confiança e a eficiência do governo tendem a ser mais positivas. A transparência governamental é importante (ARMSTRONG, C., 2011; BERTOT; JAEGER; GRIMES, 2012; MEIJER, 2003), mas não é de fácil abordagem, devido ao “nevoeiro” que envolve o conceito. Para Liem (2007), existe uma falta de definição do termo transparência, de um conceito comum, o que leva por vezes a análises realizadas em um nível bastante abstrato. A transparência é vista por vários autores como conceito amplo e de difícil descrição. (GRIMMELIKHUIJSEN, 2009; LOURENÇO et al., 2013; MICHENER; BERSCH, 2013; RELLY; SABHARWAL, 2009)
O Quadro 1 resume diversos conceitos de transparência encontrados na literatura. Pode-se tratar transparência como uma relação horizontal entre o governo e o cidadão, permitindo o que é melhor para todos. (GRIMMELIKHUIJSEN, 2009) Alguns autores associam transparência ao acesso ou à disponibilidade de informação. (ARMSTRONG, C., 2011; CERRILLO-I-MARTÍNEZ, 2011; CRUZ; ÁLVARO, 2012; DEL SOL, 2013; GRIMMELIKHUIJSEN, 2012; GRIMMELIKHUIJSEN et al., 2013; HALACHMI; GREILING, 2013; MEIJER; BANNISTER; GRIMMELIKHUIJSEN, 2011; PARAJULI, 2007; RIBEIRO; MATHEUS; VAZ, 2011; WELCH, 2012) Associam-na também à abertura das informações governamentais ao público externo ou à disponibilidade gratuita da informação.
Quadro 1 - Conceitos encontrados na literatura –
Transparência
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
Como um “transparência” Michener e conceito Amplo oferece um Bersch (2013)
conceito de “bem
ambivalente”, com
uma carga
normativa positiva.
Transparência é Grimmelikhuijsen
visto por políticos e (2009) alguns estudiosos
como uma
panaceia para
permitir ”boa
governação”.
A transparência é Relly e um conceito amplo Sabharwal […] “A (2009) transparência é a
condução dos
assuntos públicos
ao ar livre ou está
sujeito a escrutínio
público.”.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
Transparência é Lourenço et al.
um termo (2013) complexo, que
pode ser analisado
por meio de um
conjunto de
dicotomias, sendo
principal aquela
que ocorre entre o
evento e o
processo de
transparência.
Acesso à “Transparência” é Halachmi e informação usado livremente Greiling (2013)
como sinônimo de
várias ideias
relacionadas, tais
como a facilidade
de acesso à
informação em
vários níveis de
agregação.
A transparência é a Parajuli (2007) abertura dos
sistemas e
processos internos
para o público
externo.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
Transparência Del Sol (2013)
como o aumento
do fluxo de
informações
econômicas,
sociais e políticas,
confiáveis e
oportunas,
acessível a todos
os interessados.
Transparência é, Cerrillo-i-geralmente, Martínez (2011);
associada com a Cruz e Álvaro atividade (2012) desenvolvida pelas
autoridades
públicas para
prestar
informações aos
cidadãos.
Disponibidade Transparência Grimmelikhuijsen de informação refere-se ao grau (2012);
em que uma Grimmelikhuijsen
entidade fornece et al. (2013);
informações Meijer, Bannister
relevantes sobre e seus processos Grimmelikhuijsen
próprios de (2011); Welch
decisão, (2012) procedimentos,
funcionamento e
desempenho.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
A transparência é a Ribeiro, Matheus própria informação e Vaz (2011) disponível sobre a
agência
apresentada por
ela e a
interatividade; é a
facilidade com que
as informações
dispostas podem
ser acessadas
pelos cidadãos no
site governamental.
Transparência Cruz, Silva e dos
significa que a Santos (2009)
informação está
disponível
gratuitamente e
diretamente
acessível para
aqueles que serão
afetados pelas
decisões e que a
informação
suficiente é
fornecida em
formas e meios de
comunicação de
fácil compreensão.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
Disponibilidade de Armstrong registos públicos, o (2011) qual será
conhecido como o
nível de
transparência nas
operações do
governo e de
tomada de decisão.
Transparência é Halachmi e assumida ou Greiling (2013)
alegada a
aumentar com a
partilha mais ampla
e oportuna das
agendas propostas,
posições políticas e
disponibilidade de
dados antes de ser
tomada uma
decisão e a
publicação de atas
e demais atos
oficiais e
sequenciais de
uma decisão.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
Disponibilidade Transparência Meijer, Bannister
e controle pelo pode ser e cidadão direcionada para Grimmelikhuijsen
fora (governo (2011) observando
cidadãos), para
dentro (cidadãos
observando
governo), para
cima (subordinados
observando seus
supervisores) e
para baixo
(supervisores
observando
subordinados), ou
qualquer
combinação
desses.
Existe Halachmi e transparência Greiling (2013)
quando os
cidadãos têm mais
controle e formas
alternativas de
acesso aos dados
brutos e
influenciam o seu
nível de agregação.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
Transparência à luz Dawes (2010) das tendências
sociais mais
amplas sobre a
legitimidade,
confiança e
abertura. A
transparência
definida como a
falta de sigilo e
uma abertura ao
escrutínio público –
é tradicionalmente
considerada como
um meio para
reduzir a incerteza
e aumentar a
confiança do
público.
Transparência é Grimmelikhuijsen
vista como um e Welch (2012)
instrumento de
política de governo:
pelo fornecimento
de informações, o
governo facilita a
tomada de decisão
dos cidadãos. Em
segundo lugar, o
termo
transparência é dito
como sendo um
valor democrático.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
A transparência, Jacques, mesmo derivando Quintana e diretamente do Macagnan princípio (2013) constitucional da
publicidade, num
conceito mais
amplo, abrange a
evidenciação de
informações
confiáveis,
relevantes,
oportunas e
compreensíveis,
capazes de
subsidiar o
processo de
controle social pela
sociedade.
Transparência
requer mais do que
se apresentar
publicamente ou
ser visto por um
número cada vez
maior de pessoas.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
O processo de Armstrong transparência (2011) ocorre “quando as
organizações
promovem a
tomada de decisão
visível, éaberto
para a sugestão do
público, permite
que o público
escolha o máximo
de serviços e
trabalha em
cooperação com
outras
organizações para
fins públicos
comuns.
Disponibilidade Transparência é a Grimmelikhuijsen e disponibilidade de (2012); monitoramento informações sobre Grimmelikhuijsen
uma organização e Welch (2012);
ou ator que permite Grimmelikhuijsen que agentes et al. (2013); externos Meijer, Bannister
monitorem o e funcionamento Grimmelikhuijsen
interno, a (2011); Welch
realização dessa (2012), p18, p22
organização ou
ator.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
Refere-se à Grimmelikhuijsen
capacidade dos et al. (2013); indivíduos e grupos Bannister e fora da Grimmelikhuijsen
organização de (2011) monitorar as
atividades e
decisões tomadas
dentro da
organização.
Quanto à Ocorre em casos Bobbio (2000) indisponibilidade excepcionais em de que se justifica por transparência segredo de Estado
ou por segurança
da própria
sociedade.
Todavia, deve ser
em caráter de
exceção e não
como regra.
Passado o perigo,
a sociedade deve
tomar
conhecimento do
que ocorreu.
ATRIBUTO CONCEITO REFERÊNCIAS
Accountability Os termos Ribeiro, Matheus
accountability e e Vaz (2011) transparência estão
estreitamente
relacionados. A
diminuição da
opacidade
administrativa
propicia maior
possibilidade de
conhecimento do
cidadão sobre a res
publica.
Transparência Del Sol (2013); concentra-se em Grimmelikhuijsen accountability. Seja (2009); Halachmi qual for o caso, a e Greiling transparência é (2013); Meijer, sempre uma Bannister e condição Grimmelikhuijsen necessária como o (2011) primeiro passo no
processo de
prestação de
contas.
Há outros autores que percebem transparência quando ocorre a possibilidade de controle ou monitoramento das ações públicas por parte dos cidadãos. (DAWES, 2010; GRIMMELIKHUIJSEN et al., 2013; GRIMMELIKHUIJSEN; WELCH, 2012; HALACHMI; GREILING, 2013; JACQUES; QUINTANA; MACAGNAN, 2013; MEIJER; BANNISTER; GRIMMELIKHUIJSEN, 2011) Assim, a transparência acontece à medida em que uma entidade revela informações relevantes sobre o seu próprio processo decisório, procedimentos, funcionamento e desempenho, capazes de subsidiar o processo decisório do cidadão. (GRIMMELIKHUIJSEN et al., 2013; JACQUES; QUINTANA; MACAGNAN, 2013)
Também foram encontrados autores (por exemplo, ALVES; SOUZA, 2011; CRUZ; ÁLVARO, 2012; CRUZ; SILVA; SANTOS, 2009; FRANCO et al., 2014) que abordam em seus textos a transparência fiscal, ou seja, a “possibilidade do acompanhamento claro, transparente, da execução orçamentária e das finanças públicas” (CRUZ; ÁLVARO, 2012), muitas vezes se reportando à Lei de Responsabilidade Fiscal.
A partir do conjunto dos autores citados, delimita-se o conceito. Assim, neste capítulo, transparência refere-se ao grau de disponibilidade de informação sobre uma agência, que pode ser acessada por todos os cidadãos e que permita que estes possam controlar e monitorar o funcionamento desta agência.
Alguns autores associam transparência à accountability (por exemplo, BAIRRAL; SILVA, 2013; CHEN, 2012; DEL SOL, 2013; GRIMMELIKHUIJSEN, 2012; LOUREIRO; TEIXEIRA; PRADO, 2008; LOURENÇO et al., 2013; MARENGO; DIEHL, 2011; MEIJER, 2003; RAUPP; PINHO, 2011; RIBEIRO; MATHEUS; VAZ, 2011), sendo então accountability definida como a obrigação de os funcionários públicos informarem sobre o uso dos recursos públicos e responsabilização do governo ao público para atender aos objetivos de desempenho declarados. (ARMSTRONG, E., 2005; BEHN, 2001; BOVENS, 2007; WONG; WELCH, 2004 apud LOURENÇO et al., 2013) A “[…] responsabilidade democrática exige que os governos aumentem a transparência, divulgando mais informações para os cidadãos, promovendo o controle das despesas públicas e prevenção da corrupção e desperdício de recursos públicos”. (PINHO, 2008, p. 478) No entanto, “[…] a transparência é uma condição necessária, mas não suficiente, para assegurar uma maior accountability”. (DEL SOL, 2013; HALACHMI; GREILING, 2013)
Em 1990, Campos com o seu emblemático texto “Accountability: quando poderemos traduzi-la para o português?”, concluiu que a inexistência de palavra que traduza seu significado no dicionário português se dá pelo aspecto cultural da Administração Pública não ser accountable. Quase 20 anos depois, Pinho e Sacramento (2009) escrevem o texto “Accountability: já podemos traduzi-la para o português?” onde concluem que apesar dos avanços, ainda estamos muito longe de construir uma verdadeira cultura de accountability. De acordo com Medeiros, Crantschaninov e Silva (2013, p. 1344), o termo que ganhou força após a queda do regime militar “[…] circunda a literatura em companhia de expressões como controle social, participação e a própria democratização do Estado” e se mistura com conceitos e abordagens relacionadas a perspectivas e visões, nem sempre de uma forma correta. (ROCHA, 2011) Nem sempre, aliás, tais conceitos e abordagens ficam evidentes.
Com o fim de investigar a relação entre transparência e accountability, mais especificamente se transparência é elemento fundante deste, foi realizado um levantamento e análise da literatura nacional sobre accountability nos periódicos brasileiros classificados pela Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes) como A2, B1 e B2 em Administração. O que o levantamento evidenciou foi que dos 38 (trinta e oito artigos), 11 (onze) não conceituavam accountability. Dentre os demais 27 (vinte e sete), 13 (treze) pressupunham transparência como sendo parte de accountability, e os outros 14 (quatorze) se dividiam entre 9 (nove) que não pressupunham e 5 (cinco) em que não foi possível ter certeza justamente por utilizar expressões como “acesso à informação”, sem se referir ao termo. Disso se extrai que apenas 1/3 dos trabalhos pressupõem que transparência é um elemento de accountability. Nestes, “[…] a transparência trata da visibilidade dos atos praticados no setor público e evidencia o acesso às informações e sua compreensão”. (FONTES FILHO, NAVES, 2014, p. 9) Neste sentido, poderia ser considerada como “[…] a mais importante categoria da accountability como instrumento para avaliar o desempenho organizacional. Um requisito-chave para todas as outras. A transparência visa a mostrar a atuação das organizações e dos agentes públicos” (ROCHA, 2013, p. 72), “[…] uma condição sine qua non para o funcionamento dos mecanismos de responsabilização, já que, de fato, esses mecanismos de controle e fiscalização são fortemente condicionados pela transparência e pela visibilidade das ações do poder público”. (CENEVIVA, FARAH, 2012, p. 1000) Nos outros 2/3 dos trabalhos, a definição aparece vinculada à responsabilização ou prestação de contas e apenas 10 (dez) dos 38 (trinta e oito) definem o que é transparência. Isso não quer dizer, contudo, que o termo não se fizesse presente, pois, na maior parte deles, “transparência” é empregada como uma qualidade da administração ou sinônimo de acesso à informação.
Também investigou-se como accountability aparece nos textos de transparência. Como observado por Grimmelikhuijsen (2012), a transparência, que visa melhorar a accountability permite que terceiros acessem e controlem as ações do governo. A informação disponível, por sua vez, capacita os cidadãos e, portanto, torna o governo mais democrático e mais confiável. (GRIMMELIKHUIJSEN, 2012; MEIJER, 2009; PINHO; SACRAMENTO, 2004; RIBEIRO; MATHEUS; VAZ, 2011) De acordo com Raupp e Pinho (2011),
[…] a transparência governamental é uma condição sine qua non para o
funcionamento dos mecanismos de responsabilização, já que, de fato, esses
mecanismos de controle e fiscalização são extremamente condicionados
pela transparência e pela visibilidade das ações do poder público.
Neste sentido, a responsabilidade democrática exige que os governos aumentem a transparência, divulgando mais informações para os cidadãos, para que eles possam controlar as ações dos agentes públicos. (LOURENÇO et al., 2013)
Apesar da relação entre os conceitos, transparência e accountability não são sinônimos. (RIBEIRO; MATHEUS; VAZ, 2011) Deve notar-se que a transparência é uma condição necessária, mas não suficiente, para assegurar uma maior responsabilização pública (HALACHMI; GREILING, 2013), sendo o primeiro passo no processo de accountability. (MEIJER, 2003)
O papel da tecnologia para a
transparência
As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) oferecem novas maneiras de aumentar a transparência no governo. (HALACHMI; GREILING, 2013) As TIC permitem que governos armazenem e divulguem grandes quantidades de dados a um custo baixo (MEIJER, 2007, 2009), dando possibilidades aos cidadãos de inspecionar o que as agências estão fazendo quase em tempo real. Os websites são uma ferramenta importante para a transparência, permitindo que as organizações governamentais forneçam as informações pró-ativamente. (MEIJER, 2011) E as mídias sociais têm tido um efeito transformador sobre as maneiras pelas quais as pessoas interagem umas com as outras e com os governos, bem como nas maneiras pelas quais os governos podem promover a transparência. (BERTOT; JAEGER; GRIMES, 2012)
A transparência mediada pelas TIC visa melhorar a prestação de contas públicas, permite que terceiros acessem e fiscalizem as ações do governo. A melhor informação, por sua vez, capacita os cidadãos e, portanto, leva a governos mais democráticos e mais confiáveis. (GRIMMELIKHUIJSEN, 2012; MEIJER, 2009) Desta forma, o acesso à informação pode diminuir a assimetria entre a sociedade e o governo. (ANGÉLICO; ANTONIO, TEIXEIRA, 2012)
Quanto aos efeitos que a transparência pode trazer para a administração pública, pode-se dizer que há, em maior número, uma visão otimista, mas há registros de uma outra, pessimista. Embora a maioria dos autores reconheça que há muitos efeitos positivos de transparência, alguns outros chamam a atenção para alguns aspectos negativos.
Os “otimistas” abordam que uma maior transparência, que resulta de uma melhor utilização das TIC pode aumentar a confiança dos cidadãos, pode servir para limitar ou prevenir muitas oportunidades de comportamento corrupto (BERTOT; JAEGER; GRIMES, 2012), é um componente importante para a boa governança e pode aumentar a eficiência dos recursos, é essencial para a participação democrática, para precisão das informações do governo, e o fornecimento de informações para os públicos, empresas e jornalistas, entre outras funções essenciais na sociedade. (CULLIER; PIOTROWSKI, 2009; HOLMSTRÖM, 1979; MULGAN, 2007; QUINN, 2003; REYLEA, 2009; SHULER; JAEGER; BERTOT, 2010) Niklas Luhmann (2000) já declarou que a transparência é um primeiro passo necessário para restaurar a confiança dos cidadãos no governo. Ela cria uma cultura de abertura e isso proporciona efeitos positivos de confiança. (MEIJER; BANNISTER; GRIMMELIKHUIJSEN, 2011) A transparência aumenta a exposição das operações do governo ao escrutínio dos vários componentes do sistema político (MOON, 2002; TOLBERT; MOSSBERGER, 2006), aumentando o risco de ser pego. (DEL SOL, 2013) Os decisores políticos e estudiosos veem a transparência como um facilitador da boa governança (HOOD, 2006) porque ela estimula um melhor desempenho e aumenta a eficiência na alocação dos recursos. (DEL SOL, 2013; MEIJER, 2009) A transparência tornase uma ferramenta necessária para monitorar e avaliar o desempenho dos representantes e servidores públicos. Além disso, é um componente importante da boa governação e da qualidade institucional. (ACEMOGLU; JOHNSON; ROBINSON, 2002; KAUFMAN; KRAAY, 2002; WILLIAMSON, 2000) A transparência e o direito de acesso à informação do governo são considerados essenciais para a participação democrática. (BERTOT; JAEGER; GRIMES, 2010) Isto significa que, por meio do melhor entendimento das operações do governo que vem de uma maior transparência, os cidadãos poderão ter poderes para ter uma maior capacidade de influenciar as prioridades e procedimentos operacionais do governo. (HALACHMI; GREILING, 2013)
Por outro lado, os “pessimistas” assumem uma postura mais crítica e dizem que a transparência pode ocasionar a redução na eficiência administrativa e retardar as operações do governo devido à reduzida capacidade operacional que resulta do consumo de recursos escassos, aumentando os custos. (AIKINS; KRANE, 2012; HALACHMI; GREILING, 2013; LIEM, 2007) Ela pode ainda, comprometer “prestação de contas”, facilitando o jogo político e pode reduzir a legitimidade de um determinado governo. (BOVENS, 2007; HALACHMI; GREILING, 2013) Liem (2007) observa que “a maior objeção contra a transparência é que ela pode ocasionar a redução na eficiência administrativa.” Por exemplo, a transparência pode fazer tornar algumas ações administrativas mais eficazes, porém os mesmos esforços podem aumentar o custo marginal das operações do governo, principalmente quando há implicações nos recursos que são consumidos para alcançar a transparência. (HALACHMI; GREILING, 2013) Desta forma, a disponibilidade de informações poderiam tornar os procedimentos mais burocráticos em vez de aproximá-los dos cidadãos. (LIEM, 2007) Para Bovens (2005, p. 195), “[…] não há uma relação absoluta proporcional entre transparência e legitimidade”. Ainda segundo o autor, o aumento da transparência pode comprometer a accountability. O excesso de informação ou de muitos detalhes pode ser usado deliberadamente para intimidar e cercear o escrutínio público e a revelação de escândalos ou de algo que pode sugerir sua possível existência, pode ter o objetivo de reduzir a legitimidade de um determinado governo ou um arranjo de governança. (HALACHMI; GREILING, 2013) A transparência pode levar à desmistificação do governo, convidando a desafios desnecessários e reduzindo as ações do governo. (GRIMMELIKHUIJSEN, 2012) Para Dror (1999), a transparência é semelhante ao que os gregos chamavam de um fármaco, um material que cura apenas se tomado na dose certa.
Quando o foco é a investigação do uso de tecnologia da informação, à transparência geralmente está associada a dimensão de acessibilidade. Assim, são avaliadas questões tais como a receptividade do site à participação dos usuários, com materiais de treinamento (THORNTON; THORNTON, 2013) e ferramentas de suporte (i.e., mapa do site, ferramenta interna de busca), a capacidade de oferecer ajuda para facilitar o acesso às informações, as características que permitem ao usuário confiar no serviço prestado e facilitam o acesso a portadores de necessidades especiais e a funcionalidade estética e praticidade da distribuição das informações. (ALVES; SOUSA, 2011; MARENGO; DIEHL, 2011) Lourenço e colaboradores (2013) também incluem a visibilidade (como cada item torna-se visível no site) e o formato (ou apresentação) da informação. No que diz respeito aos “conteúdos” a serem tornados transparentes, na literatura nacional, a prestação de contas se materializa na divulgação da execução orçamentária, da gestão dos ativos e das dívidas do ente federativo de que se trate (CRUZ; ÁLVARO, 2012), nas publicações relacionadas a licitações e contratos (JACQUES; QUINTANA; MACAGNAN, 2013), assim como na divulgação do plano plurianual, da lei de diretrizes orçamentária e a lei orçamentária anual. (JACQUES; QUINTANA; MACAGNAN, 2013; MARENGO; DIEHL, 2011) Não só a publicação é suficiente, pois as atualizações, assim como os intervalos temporais da informação, também contam. Nesse sentido, Thornton e Thornton (2013) olha para o total de anos de dados históricos disponíveis, e Raupp e Pinho (2011) utilizam indicadores sobre a divulgação no prazo, parcial ou fora do prazo do conjunto de relatórios legais, assim como das suas versões simplificadas. A Associação Contas Abertas também avalia o quesito “Série Histórica e Frequência de Atualização” ao realizarem o índice de transparência dos estados e capitais brasileiras. Contudo, a transparência emerge como mais do que a questão contábil e financeira, pois órgãos transparentes também deveriam divulgar informações institucionais e outras mais gerais, entre elas: legislação (RAUPP; PINHO, 2011), informação sobre os representantes (CRUZ; ÁLVARO, 2012; JACQUES; QUINTANA; MACAGNAN, 2013), sobre os órgãos – estrutura, composição, funcionamento –, assim como da remuneração dos servidores e representantes. (JACQUES; QUINTANA; MACAGNAN, 2013) Finalmente, há autores que inserem o elemento interativo – ou até participativo – ao avaliarem a transparência. Raupp e Pinho (2011) e Jacques, Quintana e Macagnan (2013) olham para a existência de canais de contato (desde os mais básicos, como telefone, até os mais formais, como ouvidoria, passando por alguns mais interativos, como chats) assim como do monitoramento das ações dos usuários. Também, a possibilidade de oferecimento à população de instrumentos de participação no orçamento e em outros planos municipais.
Em síntese, a natureza ampla do conceito de transparência é bem elucidada em trechos de Jacques, Quintana e Macagnan (2013) e Cruz e Álvaro (2012), ao afirmarem que se procura prover o cidadão de informações claras e objetivas em áreas consideradas de maior interesse e cujas condições têm impacto direto na vida dos cidadãos: política tributária, administração, licitações e compras, segurança pública, educação, cultura, esporte e lazer, habitação e urbanismo, saúde, saneamento básico, gestão ambiental, atividades econômicas (indústria, comércio, serviços e agricultura), trabalho e transportes. Finalmente, a transparência também parece estar ligada aos dados abertos, pois as informações disponíveis, isto é, documentos, textos e relatórios, deveriam ser passíveis de download (RAUPP; PINHO, 2011), embora os dados abertos exijam outras características para serem considerados “abertos”.
A literatura internacional vai em igual direção à nacional no que diz respeito à caracterização e à avaliação da transparência. Há transparência da atividade governamental na publicação de agendas e atas de reuniões, assim como na publicação de informação financeiras, sobre funcionários, e sobre a comunidade. (ARMSTRONG, C., 2011) Ao abordar as dimensões e indicadores da transparência on-line, Frick (2008) contempla a natureza ampla do conceito ao propor cinco dimensões. “Informação” referir-se-ia ao fornecimento de informações detalhadas sobre as funções do governo e dos funcionários. “Participação” constituiria a segunda dimensão, sobre a interação com os cidadãos através de ferramentas on-line para consulta e participação. “Relatório”, diz respeito ao fornecimento de detalhes sobre decisões e ações de organizações do setor público, ou seja, da própria atividade pública pelos indicadores de desempenho. “Openness”, procuraria permitir que os usuários comparassem o desempenho do servidor público contra parâmetros pré-estabelecidos (arquivos dos discursos presidenciais, indicadores comparativos, indicadores sobre o plano do governo e seus objetivos específicos ao longo do tempo) e a última, “Accountability”, visa permitir que os usuários adotem algum mecanismo de controle – de recompensa ou punição – sobre os servidores públicos, através de mecanismos publicados para entrar em contato com os responsáveis de sites, da possibilidade de reclamar ou comentar sobre o desempenho dos empregados do governo e a presença de links de contato ou informações com o Provedor de Justiça.
Por fim, faz-se necessário estabelecer o processo que ligar Transparência à Accountability. Se considerarmos a existência de informações de fácil acesso e compreensão por parte dos cidadãos, e que estes, de posse delas, podem avaliar determinada situação ou processo decisório. Presume-se, também, que depois de ter analisado tais informações, esses cidadãos possam cobrar justificativas para os atos das autoridades públicas (responsabilidade) e, caso não se satisfaçam, prestarem queixa às instituições formais de controle em relação a algo que tenham identificado como desvio do padrão de comportamento esperado por parte do agente público.
Desse modo, tão importante quanto tornar disponível a informação de fácil compreensão para os cidadãos (dar transparência) é disponibilizar para a sociedade acesso às instituições de controle (accountability) para que o ciclo entre ambos se complete e, de fato, promova avanços substantivos da democracia ao possibilitar aos governados cobrar responsabilidade de seus governantes.
Referências
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