Artefatos digitais para mobilização da sociedade civil: perspectivas para avanço da democracia

Dos vinte réis aos vinte centavos: o papel das redes sociais e movimentos coletivos no Brasil

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Dos vinte réis aos vinte

 

centavos: o papel das redes

 

sociais e movimentos coletivos

 

no Brasil

 

José Antonio Gomes de Pinha, Ingrid Winkler, Júlio César Andrade de Abreu, Fabiano Maury Raupp

 

Introdução

 

Este artigo versa sobre as manifestações de protesto ocorridas no Brasil a partir de junho de 2013 (daqui para frente, chamadas de junho/13) e a dois outros momentos onde ocorreram manifestações populares: o movimento Fora Sarney (FS), na versão transcorrida em Salvador em 2009 e a longínqua Revolta do Vintém (RV), que explodiu no final de 1879 e começo de 1880, última década do Império. Nos dois primeiros casos, o artigo bosqueja o papel das tecnologias digitais com ênfase nas redes sociais. O objetivo do artigo é entender não só como estas ocorreram, mas também o seu, digamos, “making of”, como os participantes foram mobilizados em tempos de prevalência de recursos digitais, a saber, as chamadas redes sociais, no caso em que se aplicam. De imediato faz-se necessário perguntar o que teriam em comum esses movimentos, ainda mais quanto a esta última, levando em conta que já se passou bem mais do que um século entre a Revolta do Vintém e os outros dois acontecimentos aqui contemplados.

Podemos assim notar diferentes correlações entre estes três

eventos, que indicamos na Figura 1. O que tem de comum entre a

RV e as manifestações de junho/13 (área 3 na Figura 1) é a luta contra o aumento das passagens do transporte público, esse é o liame entre a RV e o Junho/13. A título de curiosidade, o número “20” também esteve presente em ambas as manifestações. Enquanto os “20 centavos” foi o estopim das manifestações de Junho/13, os “vinte réis”, ou seja, um vintém, motivaram a RV. Por sua vez, o que existe de comum entre o FS e o junho/13 (área 2, na

Figura 1) é o uso intensivo de recursos digitais, não constando na agenda a contestação do aumento das passagens de transporte público. Uma outra diferença ainda tem que ser apontada entre esses dois momentos. O FS primava pelo combate à corrupção entronizada na figura do Senador José Sarney e uma tentativa de cassação de seu mandato em curso naquela época no Congresso, enquanto as manifestações mais recentes partiram da questão da tarifa do transporte, mas logo desembocaram em um grande continente de demandas diversificadas, emergindo, com primazia, a luta contra a corrupção e insatisfação com as prioridades governamentais (sobretudo, as obras da Copa do Mundo de futebol no Brasil) e o próprio desempenho governamental. Poder-se-ia afirmar que o FS era mais focado no combate à corrupção e a uma das figuras emblemáticas do fenômeno, o senador Sarney, enquanto a pauta de junho/13 era mais dispersa e difusa, mas também passando a conter o combate à corrupção. Já a RV e o FS

(área 1, na figura) não guardam semelhanças, além de serem manifestações populares contra desmandos governamentais que prejudicaram diretamente a população (aumento de tributos e corrupção). Seus contextos, motivações e características são bem distintos, mas, ainda assim, nos dão uma interessante dimensão para análise e contraste neste trabalho.

Figura 1 - Correlações entre os eventos RV, FS e junho/13

 

Fonte: elaborado pelos próprios autores.

 

Se não existem grandes diferenças de contexto entre o FS de 2009 e as manifestações de junho/13, as diferenças entre o contexto da RV e as mais recentes (2009 e 2013) são, obviamente, imensas. O que se pode perceber é que existem aproximações e distanciamentos entre os três movimentos, sem embargo do tempo transcorrido entre o movimento do final do Império e os mais recentes. Em outras palavras, mesmo passados mais de 130 anos da RV ainda é possível aprender com aquele fenômeno para entender os dias de hoje e até mesmo o futuro próximo.

Metodologicamente, iremos começar pelos movimentos mais recentes, pois são os que mobilizam mais e que estão no foco dos pesquisadores e observadores da cena política nacional. Os dois outros movimentos considerados serão contraponto ao que ocorre contemporaneamente.

Antes de iniciarmos a apresentação e reflexão dos acontecimentos iniciados em junho de 2013, é de bom alvitre fazer algumas considerações que nos levam a relativizar a importância e magnitude dos mesmos, ainda que não passe pela cabeça de ninguém negar a importância e impacto dessas ocorrências (que evidentemente ainda não podem ser sentidos em toda sua extensão, ainda que tenham reverberado ao longo de 2014). Assim, uma primeira consideração ou alerta a ser feito se refere ao fato de certa interpretação de ineditismo desses movimentos recentes. Este alerta tem dois braços. O primeiro aponta que esses movimentos recentes são precedidos de outros tais, como o próprio FS e outros de maior porte e impacto, como o dos Caras Pintadas (1992), e o maior de todos ocorrido no Brasil, o movimento das Diretas-Já (1984). Dessa juntada podemos extrair que o Brasil se move de forma espasmódica em relação a movimentos sociais de grande porte e consequências. Se o Diretas-Já foi derrotado, o Caras Pintadas contribuiu decisivamente para o impeachment do presidente Collor, objetivo do movimento. O segundo braço repousa na constatação de um sem número de movimentos, rebeliões, revoltas e protestos que ocorrem molecularmente no país, tanto no meio urbano como no meio rural, e que, em geral, não conseguem chegar ao proscênio porque se localizam na periferia das cidades de um modo geral. As motivações dessas manifestações são as mais diversas: revolta por morte de algum morador em comunidades por atropelamento, no qual a demanda normalmente reivindicada é a construção de passarelas sobre as estradas, revolta por ação da polícia matando algum/a morador/a da comunidade, revolta por falta de segurança pública, de educação, saúde etc. Ainda revolta por desocupação de conjuntos habitacionais ou reintegração de posse de alguma área ocupada, invadida. Muitas dessas manifestações contêm elementos fortes de violência, tais como fechamento de ruas, construção de barricadas com queima de pneus, árvores e lixo. Essas manifestações só não ganham maior expressão porque acontecem, em geral, na periferia, onde as carências da população saltam aos olhos e tem um caráter mais de explosão, revolta não se sustentando no tempo. O que queremos enfatizar com essa apresentação é que o povo, principalmente na periferia, tem uma posição praticamente ativa, se não durante o tempo todo, pelo menos com uma frequência que normalmente não é percebida. O que se deseja enfatizar é que não estamos exatamente frente a uma sociedade completamente passiva que não esboça nenhuma reação. A sociedade reage, sim, mas, em geral, de forma tópica, sem maior estruturação e organização e sem continuidade.

Por outro lado, quando o movimento ocorre em uma área central e/ou nobre, passa a chamar a atenção, e mais ainda se é realizado não por periféricos, mas por pessoas mais bem situadas na escala social. No caso específico do detonador dos movimentos mais recentes, vale notar que havia toda uma pretérita construção de luta contra o aumento das passagens dos ônibus com as explosões da Revolta do Buzu em Salvador (2003) e também da Revolta das Catracas em Florianópolis (2004). Em outras palavras, o Movimento do Passe Livre (MPL) não surgiu do nada, não aconteceu de uma hora para outra, veio de uma construção histórica de luta no segmento do transporte público.

A compreensão dos movimentos de junho/13 pode ser buscada em duas fontes fundamentalmente. Uma primeira consiste nos escritos feitos no calor dos acontecimentos, normalmente respirando muito otimismo aliado a ineditismo e surpresa com os acontecimentos. Uma segunda fonte encontra-se em documentos produzidos um pouco além desses primeiros momentos quando os movimentos haviam refluído quando o distanciamento já possibilitava uma visão mais realista, menos otimista e contemplando os desdobramentos que se produziram ao longo do tempo e dentro do movimento. Neste artigo, recorreremos a essas duas fontes.

Nada melhor do que começar exatamente expondo o pensamento do MPL. No calor dos acontecimentos, o MPL produz um texto que pode ser encarado como um manifesto onde descreve, de maneira sucinta e direta, sua trajetória e teleologia, contribuição central ao entendimento de todo esse processo. O projeto do MPL (2013, p. 13-15) é ambicioso, partindo do princípio de que “[…] o transporte é ordenado de cima para baixo, segundo os imperativos da circulação do valor”. Na luta contra a exclusão urbana é que “[…] se forjou o Movimento Passe Livre”. O documento registra o que é sobejamente conhecido: que para compreender o processo que levou às “revoltas de junho de 2013”, é necessário recuar no tempo, pelo menos até a chamada “Revolta do Buzu”, ocorrida em Salvador, em 2003, como resposta ao aumento das passagens dos ônibus. As estimativas de participação indicam 40 mil pessoas a partir de “[…] estudantes secundaristas” com um modelo de organização “[…] afastado dos modelos hierarquizados”. Esta experiência ganhou reconhecimento nacional estourando no ano seguinte, 2004, em Florianópolis gerando protestos que “[…] forçaram o poder público a revogar o aumento e serviram de base para a fundação do MPL no ano seguinte”. Pode-se perceber assim que quando os eventos de junho de 2013 ocorreram a partir de São Paulo, o MPL já amealhava uma experiência de oito anos.

O MPL surge como um movimento social “[…] horizontal e apartidário, cujos coletivos locais, federados, não se submetem a qualquer organização central”. As deliberações são tomadas “[…] de baixo, por todos, em espaços que não possuem dirigentes, nem respondem a qualquer instância externa superior”. Para o Movimento, “[…] a maior parte da população explorada nos ônibus” não tem dinheiro suficiente para a condução além dos deslocamentos “[…] entre a casa, na periferia, e o trabalho, no centro”. O Movimento ainda explica que a inserção dos trabalhadores na “reapropriação do espaço urbano” vem a superar “[…] a bandeira do MPL em seus primeiros anos, que era o passe livre estudantil”. Enquanto estratégia, o MPL entende que a cidade é “[…] usada como arma para sua própria retomada” ao promover o bloqueio de “um mero cruzamento” que compromete toda a circulação, devido ao fato da predominância do transporte individual nas vias. Na percepção do Movimento, foi isto que ocorreu em São Paulo em junho/13 e que levou o prefeito a revogar o aumento da passagem em vinte centavos (e o governador a não implantar o aumento no metrô e nos trens). E esta medida propagou-se “[…] em mais de cem cidades do país” quando “[…] as pessoas deslocaram momentaneamente – e com impactos duradouros – o controle político da gestão do transporte”. O documento se encerra com a afirmação de que essas “[…] mobilizações sempre foram muito mais amplas que o Movimento Passe Livre – que jamais se pretendeu dono de qualquer uma delas – e eclodiram, por vezes, em cidades e regiões onde nunca houve atividade do movimento”. A partir dessas mobilizações de junho/13, “[…] milhares continuam nas ruas em diversas cidades, defendendo agora a implementação da tarifa zero”. (MARICATO et al., 2013, p. 16-17)

O movimento em si pode ser visto como tendo pelo menos quatro fases: 1) as manifestações iniciais, notadamente em São Paulo, com a presença de um número relativamente pequeno de participantes; 2) a reação da polícia, marcada por extrema violência, o que resultou, talvez ao contrário do esperado, em um fortalecimento dos movimentos e seu espalhamento para outras cidades do país; 3) o recuo das autoridades, cancelando o aumento previsto do transporte público bem como o recuo da ação violenta da polícia, o que gerou mais um fortalecimento das manifestações: 4) a entrada em cena dos Black blocs o que provocou, não de imediato, mas no curto prazo, a retirada do MPL e de manifestantes, esvaziando as manifestações. A esse respeito vale a pena resgatar uma expressão lembrada por Umberto Eco ao comentar a participação da juventude na vida política, qual seja, “[…] todos nascemos incendiários e morremos bombeiros”. (ECO, 2008) Incendiários e bombeiros são figuras metafóricas, mas aplicando esse pensamento aos eventos de junho/13, pode-se perceber que quando chegaram os verdadeiros incendiários nas manifestações, os Black blocs, jovens incendiários metafóricos, tentaram dissuadir este grupo do uso da violência. Assim, foram bombeiros ainda jovens, mostrando que a raiz dos protestos tinha, em geral, um caráter pacifista.

 

Referencial teórico

 

O referencial teórico deste artigo possui duas vertentes: uma que examina a questão dos movimentos em si, com ênfase nas chamadas jornadas de junho/13, e nas possibilidades de uso das redes sociais para ensejar uma nova forma de fazer política nas condições contemporâneas.

 

Internet, as redes sociais e a Política no Brasil

Começando por esta última, uma questão central que a Internet e, principalmente, as redes sociais têm suscitado é até que ponto todas essas ferramentas podem mudar a forma tradicional de fazer política por parte da sociedade civil, gerando um upgrade e, assim, mudando o quadro político existente? Não resta dúvida de que a Internet e as redes reúnem condições intrínsecas de promover uma participação maior da sociedade e por suas facilidades de contato, funcionamento permanente e on-line, mobilizar mais pessoas, trazê-las mais para perto, ainda que no mundo digital. Por outro lado, outras questões têm que ser levantadas sobre a política em si. Assim, cabe perguntar: se uma sociedade civil não se mobiliza pelos canais convencionais e tradicionais, produzindo uma participação política mais ativa, será que iria, agora, ao usar os recursos da comunicação digital, gerar uma sociedade mais ativa politicamente? (PINHO, 2011) Participar nas redes sociais é suficiente para produzir mudanças mais efetivas e concretas na esfera política? Ou seria esta fase uma primeira para gerar resultados mais efetivos?

Não há como desmerecer a utilização de recursos digitais na esfera política, tais como urna eletrônica, a possibilidade de fazer petições on-line, envio de mensagens eletrônicas para parlamentares, governantes e setores do Estado, estabelecimento de fóruns para debate de questões políticas. Todas essas, entre outras, representam ações possíveis por conta do meio digital.

Mas, nesta sociedade fundamentalmente digital, estariam esgotadas, superadas as formas mais tradicionais de fazer política? Ao que tudo indica, ainda estamos naquela situação de lusco-fusco da mudança de um padrão tecnológico para outro, mas isto não quer dizer que o antigo padrão não tenha mais espaço. Essa questão ainda comporta uma outra preocupação que conspira contra o caráter democrático das redes face ao caráter elitista, dominante das mídias tradicionais. Assim, a possibilidade dos grupos mais instruídos e com acesso mais fácil às redes monopolizarem movimentos na rede pode produzir uma participação ainda elitista. Este artigo, ao examinar três movimentos distintos, objetiva lançar luz para a busca de respostas para esses questionamentos.

Laymert Garcia dos Santos (2003) pontua que “[…] a tecnologização da sociedade é intensa” observando-se uma centralidade da tecnologia. O autor relembra Lênin que definia o comunismo como os sovietes acrescidos da eletricidade e questiona como seria com a busca do socialismo atual: “Será que podemos substituir a eletricidade pela internet, e os sovietes pelas comunidades de base e achar que encaminhamos a questão?” Para fundamentar não uma resposta, mas uma reflexão, vê a questão de uma forma bem complexa, pois seria “[…] ingênuo acharmos que a internet é um território livre, que vamos conseguir fazer uma revolução usando a internet”. Por outro lado, não nega “[…] o aspecto democrático de circulação da informação que existe na internet e as conexões que ela possibilita” visualizando que “[…] existem brechas dentro dos sistemas” que devem ser aproveitadas, mas devendo-se lembrar que a internet é uma tecnologia nova e que “[…] o capital está começando a colonizá-la agora”. Assim, no momento em que houver “[…] uma grande capilaridade nos países industrializados, quando a vida for impossível sem a internet, então aí é que vai começar a regulação da internet”. (SANTOS, 2003, p. 17, 74-75)

Relembra o autor que as tecnologias anteriores foram apresentadas como democráticas, como parte do mito do progresso, mas apresenta sua discordância com o fato de que as novas tecnologias sejam todas para o bem, como não acredita que “[…] os indivíduos sejam todos iguais” constatando diferenças entre um operador do Primeiro Mundo e do Brasil devido às desigualdades educacionais existentes. Como choque de realidade, expõe que “[…] o fato de existir uma rede não significa que ela é necessariamente democrática”. (SANTOS, 2003, p. 76)

Isto posto, o próprio Santos coloca-se como “[…] mais realista do que catastrofista”. Bernardo Kucinskyi, por sua vez, assume uma posição oposta ao entender a revolução da comunicação como “libertária”, exemplificando que com a possibilidade de se produzir um jornal com 3 ou 4 mil reais e assim, a pessoa “[…] libertou-se do capital”. Em seu entender, a atual revolução tecnológica vai na direção oposta da revolução industrial do século XVIII que com a máquina transformou cada trabalhador dependente do dono dos bens de produção. Discorda de Santos ao entender que não existe uma propensão ao capital se apropriar de tudo, como no caso das músicas na internet com a produção caseira de CDs. Kucinski defende que as tecnologias modernas “[…] libertam as pessoas dos sistemas”, gerando “a autonomia do indivíduo na comunicação”, apontando como natureza dessas tecnologias a “[…] interatividade e custo baixíssimo”. Ressalta como importante o fato que as novas tecnologias “[…] parecem ter nascido com as novas gerações: está no sangue delas”. Converge com Santos, por sua vez, ao constatar a necessidade de “[…] um novo nível de escolaridade”. As novas tecnologias potencializaram as capacidades do produtor intelectual, ressaltando os milhões de acessos diários à internet, bem como “[…] ações de protesto”, que aumentam cada vez mais, não se sabendo “[…] aonde isso vai parar” e nem se tendo “[…] a dimensão exata disso”. Em suma, “[…] essas tecnologias abrem uma nova possibilidade de libertação. Nós só temos que saber com usá-las”. (SANTOS, 2003, p. 54-55, 70, 78, 80, 82)

Alguns comentários parecem pertinentes a partir dessas observações. Não resta dúvida de que muito do que Kucinskyi aponta é verdade, mas não se sente o peso de fazer política de uma forma diferente e efetiva em suas observações. Passados já mais de dez anos dessas reflexões ainda parece que a obra não está terminada (talvez esteja apenas começando) e não seja possível já extrair posições definitivas a respeito da mudança da forma de fazer política, apesar de toda a parafernália de artefatos tecnológicos, até porque a tecnologia muda muito rapidamente, disponibilizando mais opções aos usuários (cidadãos?), enquanto que a política se move na velocidade tradicional. (PINHO, 2008)

Na linha de argumento de Kucinskyi (2003) Sorj (2003, p. 49, 57), posiciona que “[…] a Internet é relacionada a uma nova forma de fazer política, dissociada ou à margem do Estado, pelo fortalecimento das redes da sociedade civil”, ponderando, no entanto, que não existam, até o momento, “[…] elementos suficientes que confirmem qualquer suposição sobre o impacto da Internet na política”, convergindo com o dito acima. Os novos recursos digitais podem promover uma transformação radical da democracia representativa em democracia plebiscitária, a partir do aumento da participação dos cidadãos nas decisões dos governos, através do voto eletrônico. Indo um pouco além, a internet permite “[…] radicalizar a democracia, criando um novo espaço público construído em torno de uma sociedade civil que se organizará à margem do Estado”. Por outro lado, vendo a questão de um prisma pessimista, “[…] a nova sociabilidade virtual destrói as bases da interação que permite a construção do espaço público e aumenta a capacidade de controle da população pelo Estado”. Nesta corrente, “[…] a internet destrói as relações face a face, que seria a única fonte de comunicação capaz de gerar grupos sólidos e estáveis, com memória histórica (no lugar do mundo atemporal da internet), que seria a única base possível de sustentação de uma vida pública e de ação política constante”. Nesse contexto, a própria tecnologia cria condições para o controle crescente do Estado e das empresas sobre os cidadãos. Escrevendo um pouco antes, Agre (1997, p. 114) assevera que a internet “[…] oferece a esperança de uma sociedade mais democrática. Através da promoção de uma forma descentralizada de mobilização social, diz-se que a internet pode nos ajudar a renovar nossas instituições e nos libertar de nossos legados autoritários”. No entanto, o próprio autor reduz esta expectativa ao ponderar que a internet “[…] detém essas possibilidades, mas elas não são absolutamente inevitáveis”. Mas que isso, pode se transformar em “instrumento de opressão” e de centralização do poder. Em outras palavras, acreditar piamente que a internet vai resolver nossos problemas de democracia é acreditar que se trata de uma luta tecnológica e não uma de luta política.

É interessante nos voltarmos para esta literatura produzida há mais de dez anos e ver quais promessas e expectativas se concretizarem. Apesar do aumento vertiginoso dos artefatos tecnológicos (ainda não havia as redes sociais digitais naquela época), e ainda sobre o aumento da participação nas redes, parece que os reflexos na política e na forma de fazer política não se alteraram substancialmente no caso do Brasil. As estruturas tradicionais e conservadoras da política no Brasil se mantêm sólidas frente aos avanços das tecnologias digitais e do uso delas. A literatura acima exposta levanta as questões referentes à participação digital versus a participação face a face. O raciocínio não é nem uma, nem outra, não é uma ou outra, mas sim uma e outra. Há o momento para a atividade digital, mas também há o momento de ir para a rua. Por mais incendiárias que sejam as mensagens, a troca de informações, é muito diferente queimar pneu na rede e queimar pneu na rua.

Ao se constatar que as redes virtuais “[…] se multiplicaram e mudaram o funcionamento das organizações piramidais” ainda se “[…] está longe de fazê-las desaparecer”, dado que “a criação das redes virtuais não elimina a materialidade do mundo […]”. Assim, ainda que “[…] a internet desterritorializa no sentido de permitir intercâmbios em escala global, os espaços territoriais continuam a ser tão importantes, ou mais do que nunca […]”. (SORJ, 2003, 55-56) Nesse contexto, as comunidades virtuais devem ser vistas como agregadas sociais que surgem no âmbito da internet quando uma quantidade suficiente de pessoas leva adiante essas discussões públicas durante um tempo suficiente, com suficientes sentimentos humanos para formar redes de relações pessoais no espaço cibernético. (RHEINGOLD, 1996) Para Castells (1999, p. 385) a comunidade virtual, é uma rede eletrônica de comunicação interativa autodefinida, organizada em torno de um interesse ou finalidade compartilhados, embora algumas vezes a própria comunicação se transforme no objetivo. Mamede-Neves e outros (2005) detectam a existência de um afogamento caótico em dados e de um fogo cruzado das imagens, cujo caos atinge a toda a sociedade, fazendo com que, muitas vezes, os adultos pensem em recuar, posição da qual a juventude, pela sua própria constituição, parece não ter medo. Todas essas reflexões nos levam a pensar que as gerações mais jovens, os nativos digitais, podem estar entendendo que tudo acontece nas redes, ou grande parte nas redes. Assim, a política também seria feita e decidida nas redes. Não é de se estranhar a predominância de muitos cartazes dizendo algo como: “[…] saímos da rede, estamos na rua”, ou mesmo convocações do tipo: “sai do sofá, vem pras ruas”.

 

Redes Sociais, ruas e o junho/13

Um primeiro ponto a salientar é que esses movimentos pegaram os analistas políticos de surpresa, havendo várias demonstrações da dificuldade de entender teoricamente o que estava acontecendo dado o ineditismo dos movimentos, principalmente quando teóricos tentavam exarar algum entendimento sobre os movimentos no calor dos acontecimentos. E à medida que os movimentos iam tendo seu rumo alterado, maiores dificuldades de compreensão teórica emergiam. Isso em grande parte se dava devido à pluralidade dos atores envolvidos e da posição absolutamente diferenciada e desconhecida dos padrões tradicionais, assumida pelo MPL. Como mencionado acima, podemos agrupar os escritos sobre os movimentos em dois grandes blocos, aqueles produzidos no calor dos acontecimentos ou pouco tempo depois e os produzidos alguns meses depois, quando o movimento já havia refluído (ou mudado de característica) e havia já algum, ainda que pequeno, distanciamento temporal.

Castells, que acompanha a realidade brasileira há algum tempo, se manifesta no mês seguinte aos acontecimentos (julho/13), quando na verdade ainda estavam em marcha, não escrevendo mais do que quatro páginas sobre os eventos em um posfácio de um livro sobre a chamada primavera árabe, os chamados indignados bem como os movimentos occupy. Castells capta alguns elementos essenciais de todo esse processo. Começa afirmando que “Aconteceu também no Brasil. Sem que ninguém esperasse”. Ainda acrescenta ao seu lote de surpresas: “Sem líderes. Sem partidos nem sindicatos em sua organização. Sem apoio da mídia. Espontaneamente”. A maior parte desse diagnóstico é praticamente concordância geral, mas o “espontaneamente” não reconhece todos os esforços e tentativas feitas pelo MPL em momentos pretéritos. Ainda nota que os direitos humanos não estão sendo respeitados e isto ocorre fundamentalmente devido à uma classe política que estaria agindo basicamente na defesa de seus interesses. Generaliza dizendo que é um processo mundial, pois “[…] a democracia tem sido sequestrada por profissionais da política” que emitem a mensagem que “[…] a política é coisa dos políticos, não dos cidadãos”. (CASTELLS, 2013, p. 182)

O autor ainda associa os movimentos, como de fato ocorreu, à realização da Copa do Mundo de futebol que “[…] converteu-se num negócio mafioso de corrupção em grande escala” envolvendo setores privados e públicos, “[…] utilizando em boa medida fundos públicos sem controle de contas”. O autor ainda busca a explicação para os movimentos no modelo de desenvolvimento do País, fazendo críticas à política de educação, saúde, ambiente, expressando que os movimentos se formaram de “forma confusa, raivosa e otimista”, gerando uma “consciência de milhares de pessoas” que se conectavam tanto nas redes como nas ruas. Por outro lado, “[…] o mais significativo do movimento brasileiro até o momento tem sido a resposta das instituições políticas”, observando que “[…] a classe política em sua grande maioria rechaçou o movimento como demagógico e irresponsável”, sublinhando a violência como os governos de São Paulo, “tucano”, e do DF, petista, reprimiram os movimentos. Em sua percepção, foi a primeira vez que a mais alta autoridade do país, a presidente, declarou que “[…] tinha a obrigação de escutar a voz das ruas” legitimando os movimentos e fazendo com que as autoridades locais anulassem os aumentos das tarifas de transporte. Realça também que a presidente “[…] prometeu uma série de medidas (até o momento, apenas promessas), relativas a um grande investimento público em educação, saúde e transporte”. (CASTELLS, 2013, p. 183-184)

Aqui reside o problema, a dificuldade de análises feitas enquanto a História está sendo escrita, sem qualquer desfecho mais concreto passível de visualização, ainda que o autor diga que são apenas promessas. Ainda percebe o autor como “mais relevante” a reforma política que possa combater a corrupção e a criação de “[…] um sistema eleitoral mais representativo e fórmulas de participação cidadã que limitem a partidocracia”. Passado um ano e meio dos acontecimentos, pode-se constatar que a resposta veio apenas na forma da suspensão dos aumentos caindo as promessas no vazio, salvando-se apenas, e de forma muito criticada e passível de conflitos, o programa “mais médicos” na área de saúde. A visão favorável de Castells à presidente é estampada quando visualiza uma “[…] profunda inquietude da classe política ante a possibilidade de aliança entre um movimento social autônomo e uma Presidência democrática e democratizante”. Novamente, essa expectativa não se confirmou possivelmente porque as premissas para sua ocorrência sejam falsas. Mas o autor também toma suas cautelas ao entender que “[…] o movimento tampouco confia na presidenta” e assim, “[…] o resultado dessa inovadora interação entre a política nas ruas e a política nas instituições é, no momento em que escrevo este texto, julho de 2013, uma questão em aberto”, abrindo o autor a possibilidade de que “[…] novamente se aborte a vontade de mudança das instituições políticas” (CASTELLS, 2013, p. 185), o que afinal aconteceu, mais uma vez.

O livro Cidades Rebeldes pode ser considerado um empreendimento ousado, pois lançado no mês seguinte aos eventos de junho/13! Os artigos que tratam do Brasil remetem, em geral, a um engajamento substanciado em quadros mais estruturais para entender o fenômeno, tais como o capitalismo, a acumulação, o papel das cidades, a exclusão. Para a encarregada de fazer a Apresentação do livro, as manifestações podem ser pensadas como “um terremoto” que veio a perturbar “[…] a ordem de um país que parece viver uma espécie de vertigem benfazeja de prosperidade e paz”. Esses movimentos fizeram “[…]emergir não uma, mas uma infinidade de agendas mal resolvidas, contradições e paradoxos. Mas, sobretudo – e isso é o mais importante –, fez renascer entre nós a utopia”. Ao encerrar a apresentação dos artigos, a autora assevera que “[…] a voz das ruas não é uníssona. Trata-se de um concerto dissonante, múltiplo, com elementos progressistas e de liberdade, mas também de conservadorismo e brutalidade, aliás, presente na própria sociedade brasileira”. (ROLNIK, 2013, p. 8, 12)

No mesmo livro, Maricato e colaboradores (2013, p. 19, 26), por sua vez, diz que quem acompanha a realidade das cidades brasileiras “[…] não estranhou as manifestações que impactaram o país”, pontuando, no entanto, que o fato dos manifestantes serem formados por jovens predominantemente de classe média “[…] exija uma explicação um pouco mais elaborada”, o que efetivamente não é feito. Em seu entender, “[…] é impossível dissociar as principais razões, objetivas e subjetivas desses protestos, da condição dessas cidades”. Em seguida, a autora discorre sobre as condições de exclusão das cidades e a deterioração das condições de vida, principalmente dos setores populares, encaixando essa discussão nos parâmetros da hegemonia neoliberal. Finaliza clamando pela reforma política como “[…] primeiro item necessário à política urbana”.

No mesmo pacote, Carlos Vainer (2013, p. 36, 39) identifica que todos “[…] foram pegos de surpresa pelas manifestações de massa que mudaram a face e o cotidiano de nossas cidades em junho”. Argumenta que os movimentos dominantes nas quase duas décadas anteriores eram movimentos sociais rurais, enquanto as lutas urbanas mostravam muita fragmentação e dispersão e que havia muita dificuldade de unificação dessas lutas. Mao dizia que uma fagulha pode incendiar uma pradaria, pois esta “[…]estava seca, pronta para incendiar-se” sendo, agora, a pradaria as nossas cidades. Para o autor, existe uma “conexão estreita entre os protestos em curso” e os “maciços investimentos” ligados à Copa de 2014 e aos Jogos Olímpicos de 2016. Vendo a questão de ponto de vista mais estrutural, associam-se a cidade e o planejamento no contexto da valorização do capital e da lógica neoliberal, na qual predomina o mercado, o que se expressa no fato de remoções forçadas para a periferia deixando a cidade livre para os mega eventos, “[…] periferias distantes, a duas, três ou quatro horas dos locais de trabalho, a custos monetários absurdos e condições de transporte precaríssimas”, como também se verá na análise da RV. Assim, dado esse “[…] contexto, o surpreendente não é a explosão, mas que ela tenha tardado tanto”.

Iasi (2013, p. 41-44) também vai assentar sua compreensão do fenômeno em fundações mais estruturais sobre a sociedade contemporânea, o capitalismo recorrendo à Freud, Sartre, Luckács e outros para fundamentar sua análise. Assim, as contradições urbanas são vividas pelas pessoas na “[…] forma de uma serialidade, isto é, presas em seus casulos individuais”, não formando um grupo e sim “[…] um coletivo serial no qual prevalece a indiferença mútua”. A sociabilidade criada historicamente na sociedade burguesa se apresenta como “[…] realidade à qual temos de nos submeter, reprimindo nossos impulsos”. Trazendo esse sintético, mas denso, referencial para o fenômeno em tela, ao perceber que houve aumento da passagem do ônibus, “[…] o indivíduo serializado pode reagir de duas formas: aceitar, porque “a vida é assim, fazer o quê?” ou reclamar, pois “[…] a vida não deveria ser assim – e pagar”. Em outras palavras, “[…] os indivíduos vivem a revolta ou buscam a adaptação no interior da serialidade”. O papel da ideologia, nesta construção é central, pois “Adaptado ou revoltado, o indivíduo serializado segue sua vida subsumido ao real. A ideologia é a forma da subjetividade que permite dar sentido a essa subordinação”.

Além da ideologia, outra mediação é a luta, que é “mais complexa”, se corporificando nos movimentos sociais, nos sindicatos, partidos de esquerda, havendo a sensação de que “[…] são sempre uma minoria os que lutam”. A essa altura, o autor chama a atenção para o fato de que, ao contrário do que alguns pensam, “[…] o problema não é somente uma questão de organização e comunicação”, identificando a existência de um “[…] atual culto fetichizado dos meios”, que explicaria a “[…] explosão de insatisfação popular ocorrida Brasil afora em junho de 2013 que teria sido determinada pelo uso de novos meios convocativos, com as redes sociais na internet”. (IASI, 2013, p. 44) Este presente artigo subscreve completamente esta visão, colocar a tecnologia em primeiro plano é colocar o carro na frente dos bois, é confundir meios com fins, conforme já apontou Pinho (2008). Iasi (2013, p. 44-46), evidentemente, não diminui a importância dos meios e das formas de comunicação, mas alerta que “[…] o problema é de outra natureza” constituindo-se “[…] um diálogo entre dois segmentos da classe trabalhadora que estão em momentos diferentes do processo de consciência”. Assim, quando os jovens do MPL “vão para as ruas” e tanto o Prefeito de São Paulo quanto o Governador de São Paulo recusam o corte do aumento das passagens e este último mobiliza as forças da Polícia, era de se esperar uma “volta à normalidade” havendo uma “[…] confiança na passividade imposta aos movimentos sociais” por parte do governo federal. Porém, “[…] a repressão aos jovens e à prepotência dos governantes funcionaram como catalisador das contradições que germinavam sob a aparência de que tudo corria bem em nosso país”. Assim, “[…] o dique da ideologia não foi capaz de contê-la” [a vida que transbordava]. O autor ainda registra que os “[…] patéticos pactos propostos pela presidente Dilma” correspondiam a uma estratégia de que “tudo deve continuar como estava”.

Ao examinar como é que os movimentos mudaram de escala quantitativa, Peschanski (2013, p. 59) faz uma importante diferenciação para entender os movimentos de junho/13, qual seja, esses protestos não começaram “[…] “contra” algo, mas como uma expressão coletiva “a favor” de algo”, no caso a recusa encabeçada pelo MPL ao aumento de 20 centavos na passagem. Para Secco (2013, p. 72, 74, grifo do autor) as jornadas de junho pareciam “um enigma”. Ao constatar o aumento brutal de manifestantes nas ruas, entende-se que, a princípio, havia “[…] a pauta popular, organizada de baixo pra cima” trazendo a questão da tarifa do transporte, ao que se somou, em seguida, uma “pauta de massa” vinda de cima para baixo, onde ocorre uma crítica aos políticos consubstanciada em um emaranhado de demandas. Secco também traz a questão das formas de comunicação para a compreensão dos movimentos. Afirma que, apesar de “[…] a maioria dos jovens manifestantes usar a internet para combinar os protestos, os temas continuam sendo produzidos pelos monopólios de comunicação”. Assim, “A internet é também um espaço de interação entre indivíduos, mediada pelo mercado de consumo e vigiada pela ‘inteligência dos governos’”. [ênfase no original] Esta interdependência entre internet e imprensa (ou mídia em geral) ficará concreta ao se examinar o movimento Fora Sarney, adiante. Secco aponta ainda uma guinada no movimento quando, a partir do momento que a violência passou a fazer parte das manifestações, ocorreu uma “[…] queda abrupta do número de manifestantes”, o que o leva a atribuir que o movimento que tinha no seu início um caráter “[…] apartidário se tornava, então, antipartidário”.

Venício de Lima (2013, p. 90) também toca na questão do uso das redes para a mobilização. Sendo a maior parte dos participantes formada por jovens e estando “conectados” pelas redes e não estando representados e nem encontrando expressão através da “velha mídia”, esses jovens “ainda dependem dela para alcançar visibilidade pública, isto é, para serem incluídos no espaço formador da opinião pública”. Isto se deve ao fato de que a mídia, principalmente a televisão, “[ainda] controla e detém o monopólio de ‘tornar as coisas públicas’”. Além de dar visibilidade, ela é indispensável para ‘realimentar’ o processo e permitir sua própria continuidade”, o que também será visualizado no FS.

Uma tendência para a construção de um entendimento teórico se apoiou na citação dos movimentos anteriores mais significativos da sociedade brasileira, o Diretas-Já e o movimento dos “caras pintadas”, mas ressalvando-se que eram momentos, situações e movimentos, muito diferentes dos protestos de 2013. Neste caso, emerge uma clareza que se estava frente a um novo animal político. De qualquer forma, é bom aprender algo mais estrutural com, pelo menos, os “caras pintadas” por ter em comum com o movimento mais recente o fato de ter tido uma predominância de juventude. Escrevendo anos antes das recentes manifestações de rua, José de Souza Martins (2011, p. 95, 96, 98) lembra que, no processo que pleiteava o impeachment de Collor, “[…] a população só tardiamente foi às ruas e, mesmo assim, quem o foi era notoriamente uma bem definida categoria de jovens estudantes, os chamados ‘caras pintadas’”. O autor mostra que a tradição brasileira assenta-se no mecanismo da troca de favor. A relutância da população em ir às ruas para apoiar as investigações parlamentares contra Collor explica-se pelo fato de que a população “[…] não podia ver ilegalidade no que lhe era, aparentemente, legítimo. Legitimado, além do mais, pela tradição da política de troca de favores”. Assim, o ir para a rua pode ser visto mais como exceção do que como regra na realidade brasileira. As manifestações de rua foram fundamentais para aprofundar as investigações, produzindo “[…] uma nova realidade política baseada numa espécie de dupla e contraditória legitimidade: a legitimidade do voto e a legitimidade da rua”. É possível também identificar uma forte contradição pois, no caso da cidade da cidade de São Paulo, a população que foi às ruas pedir a cassação de Collor, ou a que não foi impedir a cassação do presidente, na eleição seguinte “[…] elegeu um político submetido a reiteradas acusações de corrupção”. Não há como negar essa afirmação, mas esta deve ser levada como uma figura de retórica, pois seria preciso identificar quem foi às ruas pedir a cassação do presidente e quem votou no suspeito candidato a prefeito, pois não são o mesmo grupo. Os que vão às ruas, no caso do pedido de impeachment de Collor podem ser vistos como uma “[…] espécie de multidão iluminista, que vislumbra o conflito entre a impessoalidade do poder e o uso pessoal do poder, condenando este último”. Acreditamos que este diagnóstico, entendimento da questão, pode, em grande parte, ser aplicado às manifestações de 2013.

Recorrendo ainda a Souza Martins (2013), passados seis meses do encerramento das manifestações, o autor faz uma pertinente diferenciação entre movimentos sociais e manifestações coletivas. Embora não os conceitue, parece possível inferir como movimentos sociais os movimentos tradicionais, enquanto que manifestações coletivas são aquelas que “[…] dão voz e visibilidade à maioria silenciosa”. Complementa o autor que, no regime militar, emergiu um sujeito político com “[…] demandas tópicas que incluíam reformas sociais”, enquanto que no “decênio do petismo” germina, em silêncio, um outro sujeito político, de caráter “claramente antipartidário” que reflete o “descrédito da política”. Ao identificar que sendo manifestações de classe média, a educação já não entra na pauta (ver abaixo), “[…] mas se motiva na educação para o protesto”. O autor faz uma importante diferenciação observável nos protestos, “[…] o protagonismo do manifestante contra o do militante”. É oportuno lembrar que houve uma recusa à participação de partidos com suas bandeiras, indicando não só recusa por parte dos manifestantes das estruturas partidárias como também a percepção da captura instrumental dos movimentos por parte dos partidos políticos, coisa que os manifestantes queriam evitar.

Michael Löwy (2013), que também tem sido um importante observador da cena política brasileira, em pronunciamento ao final de 2013, portanto já um tanto distante do calor dos acontecimentos, registra que, por morar em Paris, não acompanhou as “[…] jornadas de junho in loco”. Em sua primeira vinda pós-manifestações iniciais, sentiu ainda “uma agitação no ar” que eram novos capítulos “desse longo junho”. Para ele, os 20 centavos foram “a faísca” e, como “a pólvora estava seca”, aconteceu que “[…] as chamas se alastraram rapidamente”. Interessante notar que o autor observa que “[…] o movimento explodiu quando as pessoas deixaram de ficar só no Twitter e no Facebook, saíram do sofá e foram à rua, essa coisa antiga”. Aqui cabe um parêntesis. Como este artigo persegue também o objetivo de confrontar experiências nas quais essas tecnologias digitais não existiam e as atuais com a disponibilidade de uso intenso dessas tecnologias, então cabe perguntar onde ficavam antes as pessoas que tinham um engajamento político já que não existiam essas tecnologias. Pode parecer uma questão prosaica, mas, na forma colocada, parece que existem dois momentos de mobilização política: no sofá, no Twitter e no “Face” e, depois, na rua. Obviamente, antes da internet, as pessoas se mobilizavam, discutiam, debatiam e iam para as ruas.

Voltando à Löwy (2013), a ida às ruas provocou um “terremoto” que não era só pelos 20 centavos, isto, apenas simbolizava “[…] um sentimento profundo de injustiça social, de insatisfação com os rumos administrativos das cidades, de indignação com a ordem das coisas no mundo”. Em seu entender, a luta pelo passe livre mexe em questões estruturais que “[…] o transporte público deve ser público e gratuito, isto é, não deve ser um negócio”. Assim, a luta pelo transporte gratuito carrega uma proposta de que outra realidade é possível, em seu olhar. Observa ainda o autor que “[…] à repressão brutal da polícia” em São Paulo e Rio, aos estudantes juntaram-se outros setores da sociedade que também “foram às ruas”. O autor ainda registra que outras questões começaram a “pipocar”, “[…] muito justas, mas diversas: o dinheiro esbanjado nos estádios da Copa, a precariedade nos campos de saúde e da educação, os políticos corruptos, e assim por diante”. Sintetiza assim o autor suas observações que as jornadas produziram “[…] duas ideias emancipadoras. Primeiro, a importância do serviço público para a sociedade. Segundo, se quiser seus direitos, o povo precisa ir às ruas”. Detendo-nos neste último, parece ser possível extrair que Twitter e Face não fazem a revolução, ao que tudo indica o teatro de operações ainda é a rua, o locus concreto e não virtual.

Marco Aurélio Nogueira (2013, p. 19-20) se manifesta na introdução de um livro seu sobre os movimentos em setembro de 2013, ou seja, bem pouco tempo depois dos protestos de junho e seus desdobramentos. Em seu entender, as razões da “efervescência” das massas estão inscritas “[…] na realidade do capitalismo globalizado, na história nacional e na conjuntura política”. Os protestos se voltaram contra “[…] as deficiências do sistema de prestação de serviços públicos”. A briga não se deu pelos vinte centavos, “[…] mas por muito mais, talvez por quase tudo”. A luta foi estruturada ignorando “[…] parlamentares, sindicatos e partidos políticos” ocorrendo de “modo espontâneo e improvisado”, dirigia-se com clareza “[…] contra o governo representativo tal qual estruturado no Brasil” se voltando contra “[…] todos os governos: contra o sistema político, seus atores, seus procedimentos e sua cultura”. Os protestos questionaram o sistema que se expressa “[…] na conduta dos políticos, dos partidos e dos governantes”, que leva ao “[…] enriquecimento de certos atores e à disseminação de ilícitos de todo tipo”.

A crise que se apresenta “[…] é mais que crise política: é crise de um sistema perverso”, crise esta que “não surgiu de repente”, mas foi se aprofundando tanto no plano federal como nos Estados (para não mencionar os municípios) que são marcados por “[…] falhas graves e desempenho medíocre” onde a corrupção “cresceu ininterruptamente”. Esse sistema aprofundou o fosso entre “[…] a miséria de boa parte da população e os gastos desnecessários, o desperdício e o uso suntuoso de recursos públicos pela elite política e administrativa” dos três poderes. (NOGUEIRA, 2013, p. 21)

No entender de Nogueira (2013, p. 22-23), essa “perversão sistêmica” acentuou-se durante o período em que o PT assume o poder federal. Lembra o autor que este partido marcou a história política brasileira “em sentido positivo” ajudando a mudar “a face social do país”, fazendo a inclusão social. Porém, enquanto “ator político” acabou se comprometendo, “sujou as mãos”, acabou organizando “[…] coalizões à direita e a operar o velho jogo político que antes condenava” bem como se distanciou da sociedade civil. Ainda que tenha encertado políticas de combate à miséria, “[…] combinaram assistencialismo paternalista e direitos de cidadania”, o que veio a produzir “[…] efeitos sociais importantes, mas que não modificou a estrutura do país”. Nos passos de Gramsci, ao invés de construir um “[…] projeto de hegemonia, organizaram um projeto de poder”. Como os governos petistas reproduziram “[…] as bases do clientelismo, do patrimonialismo e da corrupção” este fato atuou como “combustível adicional de frustração e indignação” que acabou por aumentar com a percepção dos “[…] gastos exorbitantes e sem critérios claros, o enriquecimento dos dirigentes políticos”, entre outros aspectos.

Como os partidos políticos “[…] pesam pouco na organização de consensos sociais”, Nogueira (2013, p. 23) percebe que tem “[…] uma revolução em marcha, mas ela não é nem a dos trabalhadores e nem a das classes médias”. Entende tratar-se de “[…] uma revolução sem revolução, a sociedade ultrapassando o sistema político e pondo em xeque o que está instituído”. O que o autor constrói pode parecer um paradoxo, mas como vários autores pontuaram que era de difícil compreensão o que havia acontecido, parece que um paradoxo, ou um aparente paradoxo pode servir para entender os acontecimentos. É essa também a posição do autor em tela ao afirmar que tudo emergiu “[…] de uma só vez. Daí, talvez, a dificuldade para que se compreenda o que se passou. É que o país ficara diferente e não se havia dado conta disso”.

Ainda outro ponto merece destaque na formulação do autor quando aponta que os eventos ocorreram com “[…] tendências ‘niilistas’ pré-políticas”, advertindo não fazer sentido “romantizar os protestos, vê-los como sendo o anúncio de uma democracia revitalizada e ignorar que eles foram uma ‘terra de ninguém’, aberta ao protagonismo genérico de muitos grupos e indivíduos”. Refreia ainda os espíritos mais otimistas ao afirmar que “As ruas brasileiras têm baixo poder de agenda”, mas “[…] seu efeito positivo não pode ser desprezado. A vida política não será mais a mesma, ainda que demore para mudar”. (NOGUEIRA, 2013, p. 24) O autor põe, assim, o freio naqueles que esperavam mudanças repentinas e automáticas, falando até em revolução.

André Singer (2013, p. 23, grifo do autor), por sua vez, entende que em junho/13 houve “um tremor de terra”, mas longe de “um terremoto”, dado que “[…] relações de classe e propriedade não estiveram diretamente no centro das manifestações”. Evidentemente, isto não fazia parte do menu, e dificilmente tem pertinência na realidade das reações da sociedade brasileira. Mesmo escrevendo alguns (poucos) meses depois do evento estabelece que “[…] nunca restou nítido o que estava acontecendo”.

Singer (2013, p. 23-24) enfatiza que não dá para imaginar, “seriamente”, estar acontecendo “[…] uma tentativa de revolução”. Parece que se valoriza muito a ideia de que qualquer movimentação da sociedade seja uma revolução. Os eventos cumpriram três fases: na primeira, uma “[…] fração pequena, embora valorosa, da classe média” realizou as mobilizações em São Paulo com objetivo da redução das passagens do transporte público. As manifestações foram engrossando o número de manifestantes até que a violência policial se manifestou. Na segunda etapa dos movimentos, houve uma incorporação de maior número de manifestantes quando “[…] outras frações da sociedade entram espontaneamente em cena”, ao mesmo tempo em que ficam “vagas as suas demandas”. As demandas são embasadas em críticas à falta de educação, saúde, moradia e contra os gastos com a Copa das Confederações, contra a corrupção, bem como à classe política e aos partidos, registra Singer.

Quando a Copa das Confederações começa, São Paulo “[…] perde centralidade, com o protagonismo passando as praças onde haveria jogos”, sendo que no Rio, as manifestações “[…] adquirem certo sabor de sublevação popular”. Na terceira etapa, que vai do dia 21 de junho até o final do mês, “[…] o movimento se fragmenta em mobilizações parciais com objetivos específicos” (SINGER, 2013, p. 24, 26) e pontuais. Refletindo sobre os acontecimentos, Singer (2013. p. 27-28) observa que o tema “[…] deverá ser alvo ainda de muita pesquisa” e assim estabelece algumas hipóteses, construídas “quase no calor da hora”, detendo-se em dois aspectos: “[…] a composição social e as ideologias que se cruzaram nas ruas”. Quanto ao primeiro aspecto, defende que a composição social continha tanto uma “classe média tradicional” junto ao “novo proletariado”, formado por trabalhadores jovens com carteira assinada, mas em situação de “[…] baixa remuneração, alta rotatividade e más condições de trabalho”. A composição era predominantemente de jovens somados a jovens adultos e também com alta escolaridade. Os dados também mostram que se detectava nas ruas “[…] uma mínima parcela de baixa escolaridade, denotando a virtual ausência da base da pirâmide social brasileira nas manifestações”.

Mais que isso, os dados revelam uma grande participação de universitários, atingindo, no caso de São Paulo, quase 80% do contingente dos manifestantes. Quando se acrescenta os estudantes de nível médio, as manifestações teriam assumido “[…] fortes tintas de classe média tradicional”. Porém, ao se inserir os dados de renda, verificase que metade dos manifestantes estavam no grupo de baixa renda (menos que 5 salários mínimos), indicando que cerca de metade dos manifestantes pertenciam à “[…] metade de baixo da estratificação por ocupações” revelando que “[…] o novo proletariado ou precariado, conforme sugerido por alguns autores, foi para as ruas”. (SINGER, 2013, p. 29, 31)

Ao se fundamentar em todos os dados de pesquisa disponíveis, Singer sugere que “a melhor imagem” para retratar a composição social dos manifestantes, seja a de “[…] dois blocos relativamente equivalentes, formados por jovens e jovens adultos de classe média e outro por pessoas da mesma faixa etária, mas pertencentes à metade inferior da estrutura social brasileira, sendo estes com menos escolaridade média”. (SINGER, 2013, p. 31)

É oportuno notar que a palavra é usada no plural, manifestações, foram várias. E entendemos que à medida que as novas manifestações iam ocorrendo ia também atraindo outros segmentos sociais. Como as pesquisas não aconteceram nas primeiras manifestações, até porque não se sabia o vulto que iam tomar, fica-se mais com aquelas acontecidas após as primeiras rodadas. Mas, é certo, que tendo sido as manifestações convocadas pelo MPL, a composição inicial seria fundamentalmente de jovens e estudantes. Ao se engrossar a fileira dos manifestantes nas rodadas subsequentes, Singer (2013, p. 34) defende que “[…] o que havia sido um movimento da nova esquerda passou a ser um arco-íris, em que ficaram juntos desde a extrema-esquerda até a extrema-direita”, predominando cartazes contra a corrupção e a cobrança de impostos e, ainda, críticas aos gastos com a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Em suma, Singer (2013, p. 36) entende que, talvez, de uma maneira um tanto simplificada ou reducionista, “[…] a direita trouxe para a segunda fase das manifestações o problema da corrupção e a esquerda, o das iníquas condições da vida urbana”, mas registrando que “[…] o realmente novo foi a atuação do centro, o qual teve a vantagem de poder assumir uma e outra bandeira, bradando simultaneamente contra os gastos públicos privatizados pelo capital e contra a corrupção”.

Vale ainda trazer o registro feito por André Singer (2013, p. 33) sobre o perfil do MPL, quando de uma entrevista dada ao Programa Roda Viva da TV Cultura-SP por dois representantes do MPL apenas expressaram o “[…] que se poderia chamar de ‘mandato imperativo’: só disseram o que a ‘assembleia’ os autorizava a dizer”, recusando-se a falar de suas vidas pessoais, “[…] abstendo-se de aproveitar a oportunidade para projetar-se como liderança individual, pronta para ser absorvida e tragada pelo star system”, ou seja, afastaram-se da política tradicional de exploração do papel das lideranças.

Uma das contribuições de Maria da Glória Gohn (2013) se dá cerca de um mês depois dos eventos entendidos como expressando “[…] estados de indignação face à conjuntura política nacional”. A autora formula a questão fundamental: “[…] porque uma grande massa da população aderiu aos protestos”? Em seu entender, os “prováveis motivos”, indo além da questão da tarifa, estão localizados, nos “[…] gastos altíssimos com estádios da Copa, megaeventos e uso do dinheiro público em eventos promocionais, a má qualidade dos serviços públicos, especialmente transportes, educação e saúde” e, ainda, entre outros, “inflação, denúncias de corrupção” ao lado de “[…] sentimento de impunidade, sistema político arcaico, criminalização dos movimentos sociais” e ainda outros. Assim, a ideia de um “[…] Brasil tudo azul, para o senso comum de seu povo em geral, era uma construção irreal”. Observa ainda a autora que com a violência empregada pela Política, “[…] este ‘povo’ saiu às ruas e mais uma vez demonstrou que a cordialidade do brasileiro tem limites”.

Buscando caracterizar os movimentos, os vê como “[…] uma nova forma de movimento social composta predominantemente por jovens, escolarizados, predominância de camadas médias, conectados por e em redes digitais, organizados horizontalmente e de forma autônoma”. Essas características fazem com que se tornem “[…] críticos das formas tradicionais da política”, “[…] especialmente os partidos e os sindicatos”. O movimento, convocado pelas redes sociais, “[…] acontece ‘em se fazendo’ e não via grandes planos de organizações com coordenações verticalizadas”, tornando-se “[…] laboratórios de experimentações de novas formas de operar a política”. (GOHN, 2013)

Em termos da formação dos manifestantes, entende a autora que “[…] poucos têm trajetórias de militância e experiências associativas anteriores. Participam de coletivos, mas preservam valores individualizantes, que é diferente de individualista”. Também localiza nestes “[…] uma profunda falta de confiança em toda forma de política e categoria de políticos”, desejando “[…] outro país onde a ética e política andem juntas”. Como não se sentem representados pelo sistema político existente, “[…] detecta-se também uma crise de representação social desses grupos e uma crise de legitimidade das instituições públicas”. (GOHN, 2013)

Continuar: parte 2 de 2