As Drogas, as Pessoas e as Cidades
Antes de zarpar
A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. […] perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas.
“Pai contra a mãe”, Machado de Assis
O conto da epígrafe, de Machado de Assis, foi escrito dezoito anos após o fim da escravidão no Brasil. O trecho aponta como as relações sociais expressam um jogo de poder econômico e racial histórico, e desde aquela época se mostra carregado de moralismo em relação ao uso de drogas. O resgate desse trecho inspira o desenvolvimento deste estudo, que apesar das diferenças do tempo, da conjuntura política e das substâncias psicoativas em questão, se depara atualmente com resquícios do processo colonialista de exploração no Brasil e na região latino-americana.
O interesse na escrita deste livro é fruto de uma trajetória de atuação. Como psicólogo, atuei entre 2004 e 2018 como redutor de danos junto a pessoas que fazem uso de crack na região da Luz, conhecida como Cracolândia, no centro da cidade de São Paulo, Brasil. Essa prática, junto à equipe do Centro de Convivência É de
Lei, 1 possibilitou a compreensão de diferentes formas de cuidado e atenção às pessoas que fazem uso de drogas em determinados territórios. A Redução de Riscos e Danos (RRD) é uma proposta de atenção e cuidado que não atua sob o imperativo da abstinência do uso de drogas como única alternativa de cuidado e parte do princípio de que o processo é construído conjuntamente com as pessoas que fazem uso de drogas. A RRD se destaca por apresentar um olhar mais realista sobre o fenômeno das drogas e por considerar a singularidade dos sujeitos e seus modos de vida atrelados ao contexto de uso. Na perspectiva da RRD, a escuta, o respeito e a aproximação junto às pessoas que usam drogas tornam-se fundamentais para a construção dos processos de cuidado.
Por atuar na rua, próximo às pessoas e aos espaços públicos que concentram consumo de drogas, a partir de 2013 passei a estudar mais a fundo os elementos que atravessam a interface saúde-ambiente, e essa aproximação apresentou questões que extrapolam as compreensões e noções tradicionais de perigo e cuidado. As drogas estão presentes em territórios como a Cracolândia, porém é necessário abrir o foco para além do uso de crack em si e considerar as variáveis contextuais na produção de determinados territórios. Estar atento às especificidades do contexto possibilitou compreensões mais amplas sobre os processos históricos, políticos e econômicos que delineiam as condições de formação e transformação de território e dos modos de vida em determinados espaços que concentram o uso de drogas no espaço público, principalmente em centros urbanos latinos.
Este texto deriva da pesquisa de doutorado (Calil, 2021)2 que realizei entre 2016 e 2021, e configura-se como uma exploração que coloca em diálogo áreas da saúde com as drogas, as pessoas e as cidades. Com olhar atento para além das drogas como temática central de análise, o que se busca é compreender as relações entre o espaço urbano e as pessoas que o habitam, com foco em territórios que apresentam uso público de crack (cocaína fumada). Esse tempero adicional é fundamental, pois a presença de substâncias psicoativas, por vezes ilícitas, torna-se elemento decisivo nas trajetórias dos lugares e nos processos de produzir, viver, pensar e repensar a cidade.
Assim, cenas públicas de uso de drogas são territórios específicos que apresentam negociações e dinâmicas particulares. Alinhado com Santos (2002) e segundo Martins (2016, p.27), vale apresentar a ideia de território “como um lugar dinamicamente ocupado, em configuração pelo uso que dele fazem os homens e mulheres em cada momento histórico […] como um complexo de relações econômico-sociais no qual os indivíduos constituem seu viver cotidiano”.
É importante sinalizar que as políticas de drogas vigentes nos países da América Latina se apresentam majoritariamente proibicionistas, criminalizando os sujeitos que fazem uso de drogas ilícitas, colocando-os como alvo do preconceito e do estigma no imaginário social. Espaços de consumo público de drogas geralmente possuem a característica de concentrar grande número de pessoas em situação de rua, de menor poder aquisitivo e composto em sua maioria por afrodescendentes. No Brasil, pesquisas recentes (Boiteux; Pádua, 2012) apontam como a política de drogas nacional é uma das responsáveis pelo aumento significativo no número de pessoas encarceradas no país, também em sua maioria composto por pessoas afrodescendentes.
A interface entre a cidade, as pessoas e as drogas atualmente se apresenta em destaque em cidades por todo o globo quando se busca revitalizar zonas centrais reconhecidas como degradadas, nas quais frequentemente as práticas ilegais, incluindo o uso de drogas ilícitas, sustentam as justificativas para a intervenção urbana. Muitos desses projetos urbanísticos pautam a revitalização sobre o argumento de viabilizarem moradias de melhor qualidade para a população. Mas como veremos ao longo do livro, essa não é a realidade vivida por muitos moradores das cidades apresentadas. A intenção de colocar em contato a realidade da Cracolândia paulistana com a de outras cidades surgiu em outubro de 2017. O local foi o Container da Cia de Teatro Mungunzá, em evento
promovido pelo Fórum Aberto Mundaréu da Luz, 3 justamente para discutir os avanços avassaladores de projetos urbanísticos de “requalificação” urbana em contexto latino.
Ali me percebi escutando e dialogando com David Villanueva e Alejandro Lanz acerca do que havia passado no território do Bronx, uma cena de consumo público de crack/basuco no centro de Bogotá, Colômbia. Após leitura prévia do informe (Tovar et al., 2017) publicado pelos pesquisadores colombianos, escutá-los me deixava estarrecido. Apesar de intuir diferenças significativas entre nossas realidades, surpreendentemente os processos urbanos soavam similares, e as primeiras palavras que digo são as seguintes: “me parece que uma das grandes diferenças é que nós estamos em São Paulo, e vocês, em Bogotá”. Os pontos de contato nas trajetórias do Bronx e da Cracolândia eram assustadores, e assim se deu a ponte com outros contextos latino-americanos. Em 2016, o Bronx sofreu diversas intervenções do Estado colombiano com o objetivo de extirpar a maior dinâmica em torno do uso de crack (basuco) no espaço público do centro de Bogotá. Na Cracolândia, em São Paulo, uma grande ação ocorreu em 2017. Não por acaso, a trajetória histórica dos bairros e as recentes intervenções estatais apresentam semelhanças em São Paulo e Bogotá. Além disso, investigar cenas públicas de uso de cocaína fumada em cidades brasileiras e colombianas me fez pensar nas aproximações entre estes dois países na rota global da cocaína, considerando a Colômbia como país produtor e o Brasil como segundo maior consumidor, e certamente intermediário no trânsito global dessa mercadoria.
Reitero outros estudos etnográficos (Rui et al., 2015; Adorno et al., 2013; Calil, 2015), que apresentam como as pessoas que frequentam a região conhecida por Cracolândia em São Paulo relatam terem vivenciado inúmeras rupturas e decepções em suas vidas, e que a partir desse marco iniciaram ou intensificaram o uso de drogas. A constante violência física e simbólica associada às recorrentes fragmentações pessoais agregam-se às fortes consequências da desigualdade política evidente nas classes de menor poder aquisitivo. Nesses contextos de uso de drogas no espaço público, convivemos com sujeitos que se agrupam sob a comunhão do isolamento, o que evidencia a indiferença e descaso da sociedade. São espaços preenchidos por vidas marcadas pela desigualdade social, econômica e política, além de submetidas cotidianamente à violência policial sob o discurso de acabar com o tráfico de drogas e “devolver a cidade para a comunidade”.
As realidades da Cracolândia paulistana e do Bronx bogotano apresentam similaridades inquietantes e disparam reflexões sobre as condições de vida das pessoas e o papel do Estado, além de nos questionar o que de fato se torna ameaça à vida nesses contextos. Nesses espaços, onde para além da precariedade estrutural, sanitária e social as vidas são atravessadas por violências físicas e simbólicas por parte da sociedade e poder público, qual a magnitude das possibilidades de risco?
Foi aí que a inquietude sobre os pontos em comum entre Bogotá e São Paulo me fizeram decidir pelo desenvolvimento deste texto. A proposta é discutir as relações entre as drogas, as pessoas e a cidade em contextos de consumo de drogas em espaços públicos urbanos a partir dos desdobramentos históricos, geográficos, econômicos e políticos. Assim, somam-se nesta discussão outros territórios na América Latina, mais especificamente por meio de aproximações com a realidade colombiana. Em São Paulo, Brasil, o espaço de estudo é a região da Luz conhecida como Cracolândia, no bairro dos Campos Elíseos/Luz. Na Colômbia, os focos de discussão são dois: Bogotá e Medellín. Apesar de este texto ter São Paulo, Bogotá e Medellín como eixo, a trajetória exploratória e compreensiva transitará também por outros territórios latinos.
Busco narrar vivências e trazer reflexões sobre as experiências vividas durante minhas estadias e passagens pelas cidades colombianas. Em Bogotá, parcerias com trabalhadores e instituições locais me colocaram em contato com os espaços e a realidade de consumo de crack na cidade. Em Medellín, a inserção em campo é mais complexa. Viver a atmosfera da cidade despertou um inesperado e denso apreço que resultou, acredito eu, em inovadora reflexão sobre “narcoestética” na academia brasileira. Muito deste apetite surgiu pela convivência e parceria com o professor Hilderman Cardona Rodas, da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Medellín.
Este livro é um giro pela América Latina. Um giro emaranhado entre experiências vividas em territórios entre o Brasil e a Colômbia em constante contato com referenciais teóricos que permeiam drogas, saúde pública, cuidado, risco, cidade, mercado, poder e, certamente, política. É um escrito na busca por traçar uma linha de raciocínio sobre o percorrer da coca desde o cultivo até os fluxos e forças que incidem na economia da cocaína fumada ao desembocar em contextos urbanos. Falar sobre o ciclo da coca-cocaína é falar sobre exploração, poder, tráfico, esperança, miséria, dor, violência, crack, prazer, cidade e dinheiro. Como veremos, na Cracolândia de São Paulo, no Bronx de Bogotá e na Calle Cúcuta de Medellín, o caminho traçado pela folha de coca até transformar-se em cocaína fumada consumida nesses centros urbanos é associado a fatores sociais, históricos, políticos e subjetivos que aqui serão levantados.
A jornada é narrada em quatro paradas. Cada parada percorre uma série de pontos que se interligam e pendulam entre teorias e narrativas que se utilizam da abordagem etnográfica na interface entre o neoliberalismo, a produção das cidades, as drogas e a América Latina. A primeira parada consiste em uma breve reflexão sobre as condições e modos de vida na realidade sul-americana, e paulatinamente adentramos o ciclo da coca-cocaína, passando desde as origens tradicionais da coca até as características e consequências do mercado internacional da substância e a produção de cenas de uso em contexto urbano. O objetivo da primeira etapa é situar a leitura com elementos importantes para a contextualização do tema que será desenvolvido ao longo do livro.
A segunda parada ilustra as realidades das cidades estudadas: Bogotá, São Paulo e Medellín. Essa parte inclui breves históricos de cada território e suas transformações urbanísticas atreladas às representações sociais da coca-cocaína. Entre São Paulo e Bogotá, as trajetórias urbanas se aproximam na consolidação local de espaços que concentram o consumo de crack/basuco no centro da cidade e se tornam alvos de projetos de requalificação urbana. Sobre Medellín, narro a perplexidade vivida sob o céu dessa cidade onde o conceito de narcoestética desavisadamente me provocou até eu de fato decidir encará-lo. Medellín tem um histórico recente fortemente marcado pela atuação do tráfico de drogas, produzindo uma cidade recortada entre representações ambíguas sobre as drogas, o poder, a cidadania e a violência.
A terceira parada visa aportar reflexões sobre as pessoas, as drogas e as cidades. A proposta é utilizar-se de referencial teórico em diálogo direto com os estudos de caso apresentados. A partir de uma análise crítica sobre o contexto neoliberal e a produção de territórios urbanos onde se territorializa a dinâmica em torno das drogas, problematizo a condução de projetos urbanísticos de requalificação urbana justificados pelas políticas de drogas e os limites e as possibilidades na garantia de direitos humanos nesses contextos.
Finalmente, a quarta parada arrisca-se a apresentar experiências que suscitam reflexões sobre a percepção do ambiente construído à nossa volta, com atenção especial para um leque de ideias que podem acolher situações de extrema vulnerabilidade em que o uso de drogas agrega especificidades significativas. Nessa parada, a proposta é vislumbrar possibilidades de interseção entre a perspectiva da redução de danos e a cidade, apresentando alternativas para a questão das drogas e o ambiente urbano. O objetivo é colocar a indagação sobre a possibilidade de uma cidade de fato cuidadora.
É esse o trajeto aqui apresentado, percorrendo alguns caminhos que entrelaçam a cocaína, o mercado, o consumo e as cidades. A utilização de narrativas no decorrer do texto é uma escolha consciente devido à inserção que tenho no campo da redução de danos na cidade de São Paulo e à oportunidade da bolsa sanduíche para permanecer seis meses estudando na Colômbia. A constante conexão com as experiências vividas é elemento importante na percepção e construção do raciocínio sobre o tema abordado. É um texto narrativo, acadêmico, etnográfico, autoetnográfico. As narrativas destacam acontecimentos relacionados aos temas abordados, e assim não seguem necessariamente uma cronologia.
Entretanto, debater sobre o efeito desse processo nestas cidades da América do Sul não nos torna – latinos – os únicos que somam os ônus da ideia de colonialismo. Essa relação de poder apresenta um conjunto de dimensões que interferem na produção das cidades, nas políticas urbanas e na vida de muitos citadinos nas mais variadas partes do globo. Sugiro que um dos elementos que nos diferencia das demais partes do planeta é justamente o ciclo da coca-cocaína. Esse arbusto nativo da região andina foi drasticamente ressignificado ao longo da história, desde seu uso tradicional até seu recente rumo contemporâneo: empurrado para ser fumado, na forma de crack, nas cidades.
Busco uma aproximação entre cenas públicas de uso de drogas em contexto urbano na América Latina, mais especificamente entre Brasil e Colômbia. O objetivo é aprofundar um resgate sócio-histórico-geográfico sobre os processos que produzem esses espaços, assim como as consequências físicas e subjetivas das pessoas que habitam esses territórios, sejam pessoas que usam drogas, moradores, comerciantes e/ou trabalhadores. Destaco que este estudo não pretende realizar uma comparação entre as cidades, muito menos um paralelo que as coloque lado a lado em suas semelhanças e diferenças, mas sim uma reflexão crítica entre os liames que aproximam essas cidades sob o tema das drogas, do urbanismo e do cuidado. Na intenção de aprofundar as investigações sobre relações de força explícita do Estado sobre esses corpos e subjetividades, lanço algumas questões que transitam ao longo do texto, para assim avançarmos para possíveis alternativas capazes de enfrentar os históricos processos de exploração no contexto latino-americano:
Qual o lugar social desses sujeitos marcados pelo preconceito racial, econômico e pela opressão estatal agravada pelo uso de drogas?
Podemos pensar nas políticas de drogas como um modo possível de sustentar uma dominação submersa em prol dos interesses do capital?
Quais relações estão em jogo no processo de humilhação social de uma população atingida pelo golpe de ser lançada à própria sorte como produto político de projetos urbanísticos, econômicos e imobiliários?
Em quais tipos de situações e humilhações as existências dessas pessoas são constantemente violentadas? Qual o papel do planejamento urbano na produção de situações risco?
Assim, a discussão aqui apresentada busca agregar os debates sobre direitos humanos, cidade, biopolítica, violência, política de drogas, cuidado e resistência, visando colocar sobre a mesa uma rede de relações dinâmicas que marcam corpos e subjetividades. Busco fazer uma análise da cidade e suas políticas a partir do dispositivo metodológico da biopolítica, em que confluem as heterotopias (Foucault, 1986 apud Rodas, Arboleda, 2016) e a heterogeneidade do humano e dos lugares ocupados, transitados e vividos. A aproximação entre territórios latino-americanos tem o objetivo de ampliar as percepções e as fontes de pesquisa ao nos colocar em contato com outras pessoas e outros espaços, que assim como na Cracolândia paulistana, sofrem as consequências das políticas de drogas e constantes intervenções coercitivas do Estado.
Ao considerarmos os variados modos de existência, seja em contextos rurais, seja em urbanos, as consequências e os possíveis riscos associados ao comércio e ao consumo de substâncias afetam diversas esferas da vida e do cotidiano das pessoas latinas. Dessa forma, abrem-se lacunas que requerem investigações na interface entre as áreas da Saúde e as Ciências Sociais e Humanas. Este texto tem o objetivo de nos aproximar dos elementos que perpassam a produção de contextos de uso de cocaína fumada (crack/basuco) nos espaços públicos e suas consequências em cidades latinas.
São modos de vida marcados pelo estigma muitas vezes associado à ilicitude de determinadas substâncias, e consequentemente atravessados por recorrentes episódios de violência por parte do Estado. Espaços que acolhem uma parcela da população que é estigmatizada e desqualificada no mesmo balaio, em que seus sentimentos, percepções e desejos são estancados como se perdessem a condição de cidadania. Intervenções estatais com o objetivo de “requalificar” essas zonas muitas vezes estão associadas a interesses políticos e econômicos justificados pela “guerra às drogas”, provocando violência física e simbólica nas subjetividades dos sujeitos.
Os elementos culturais do processo de dominação são fenômenos políticos, exercidos pela sociedade e pelo Estado, e os aspectos psicológicos atrelados à população que os vivencia, como suas percepções e sentimentos, podem apontar caminhos no enfrentamento de estruturas excludentes. A partir desses elementos, busca-se pensar em novos arranjos nas políticas de drogas, nas políticas urbanas e nas políticas de cuidado relacionadas ao uso de substâncias psicoativas. As drogas comumente pautam justificativas urgentes de intervenção, mascarando as reais questões que perpetuam modos de dominação, além de evidenciar consequências negativas na perspectiva de garantia de direitos humanos. Segundo Rodrigues e Labate (apud Labate; Rodrigues, 2015, p.30, tradução minha),
as drogas não são um problema em si, mas um problema construído como tal a partir de julgamentos morais, estratégias políticas para o governo das populações, interesses médico-sanitários, econômicos e geopolíticos.
Assim, este livro focaliza as pessoas e os vínculos sociais estabelecidos na cidade, pois os territórios que acolhem as cenas de uso de drogas certamente devem estar no centro da reflexão sobre o ambiente urbano. O professor Hilderman Cardona Rodas, com apoio de Juan David Arboleda (Rodas; Arboleda, 2016), aponta que para pensar a cidade deve-se sempre considerar a confluência de aspectos estruturados, geométricos e racionais, com elementos poéticos, de um ambiente livre e profundamente humanos com outras racionalidades que de fato afirmam a existência. Ou seja, nos contextos de uso de drogas em espaços públicos que permeiam esta investigação, é evidente a necessidade de atenção às pessoas e às formas de resistências dos corpos e dos lugares submetidos à aplicação de planos e projetos urbanísticos que giram em torno da vigilância e do controle de facetas da vida. Ainda segundo os autores, é necessário “compreender e interpretar as relações entre o humano e o espaço habitado na confluência entre dominação, controle e resistência na esfera socioespacial que a cidade evoca” (Rodas; Arboleda, 2016, p.84, tradução minha).
É necessário, então, debruçar-se sobre a problemática dos vínculos sociais nas metrópoles latino-americanas contemporâneas. As similaridades podem explicitar diferenças e estabelecer trocas frutíferas neste continente de tanta abastança. A produção deste texto pretende aprofundar o olhar e somar ao esforço pela busca de uma maior “compreensão e valorização de sociabilidades que apontam à (re)construção dos vínculos sociais de urbanidade” (Figueiras, 2008, p.187), para assim repensar arranjos para um futuro possível que considere a história, o contexto e a subjetividade das pessoas.
Perseguição de pistas
Saíamos pelas ruas […] vagando a esmo até muito longe e até horas tardias, procurando, entre as luzes e as sombras fantásticas da populosa cidade, as inumeráveis excitações mentais que a observação tranquila pode proporcionar.
Os assassinatos da Rua Morgue, Edgard Allan Poe, abril de 1841
Para a elaboração dessa investigação foram realizados trabalhos de campo em São Paulo, onde já atuo profissional e academicamente desde 2004, e também em Bogotá e Medellín na Colômbia. Para além de revisões bibliográficas, a exploração deu-se também a partir da contribuição da abordagem etnográfica. Nessa abordagem, pretende-se que o pesquisador entre em campo e passe a frequentar o espaço delimitado de investigação por um período de tempo.
A escolha pela contribuição etnográfica visa ampliar o contato com a cultura local, extravasando o simples acompanhamento dos movimentos de personagens do cotidiano, e também tornar aparentes as especificidades locais invisíveis (Magnani, Torres,1996). Essa forma de condução da investigação tem como premissa um desenraizamento pessoal, que busca em contato com o outro a construção de um diálogo legítimo por meio de um “mergulho profundo e prolongado na vida cotidiana desses outros que queremos apreender e compreender” (Uriarte, 2012). É importante ressaltar que o trabalho etnográfico desenvolvido, composto por texto e desenhos, não se caracteriza apenas como “método” de investigação, mas como uma categoria que dialoga com outros campos, inclusive com o campo teórico (Peirano, 2014).
Ainda segundo o antropólogo José Guilherme Cantor Magnani, “o que importa ao olhar antropológico não é apenas o reconhecimento e registro da diversidade cultural, nesse e em outros domínios das práticas culturais, mas também a busca do significado de tais comportamentos” (Magnani, Torres, 1996, p.18). Já Raikhel e Garriott (2013) apontam que o olhar etnográfico é mais que somente a experiência vivida, mas também todo o material produzido pela experiência, como “as relações, conhecimentos, tecnologias e afetos, como também os impactos recursivos da subjetividade”. Nesse sentido, as diferentes inserções temporais e institucionais realizadas em cada uma das cidades durante o desenvolvimento desta escrita resultaram em um material etnográfico bastante diverso. Assim, como destacado, não se trata de comparações, mas sim de análises a partir do que foi vivido e experimentado em cada território. O trabalho etnográfico realizado resultou em amplo diário de campo das experiências vividas, que ao longo do texto conversam, nem sempre amistosamente, com distintos referenciais teóricos.
A proposta é uma etnografia dos lugares, que busca fazer com que quem está longe da situação exposta possa sentir e refletir sobre os lugares experimentados. Nessa linha, o também antropólogo Rubens de Camargo Ferreira Adorno e colaboradores (2013, p.11) destacam como as etnografias são capazes de alimentar pesquisas que buscam, ao “reconhecer nos vínculos, dinâmicas e nos modos pelos quais processos macrossociais, políticos e econômicos se fazem presentes no cotidiano dos setores populares, e dessa forma alargar e complexificar a análise e a compreensão que toma aspecto central e problemático o uso de drogas”.
Além da intenção de aprofundar as compreensões sobre a justaposição entre as drogas e as pessoas em ambiente urbano, almejei experimentar as superficialidades cotidianas das cidades. Fazer ciência não é estar neutro, mas sim viver a realidade, e a escolha pelo caminho etnográfico se dá justamente por possibilitar percorrer o trivial, o dia a dia, o cotidiano. Para isso, o trabalho etnográfico de leitura das cidades de Bogotá e Medellín, enquanto estive na Colômbia por seis meses, também foi registrado e contabilizado em quilômetros em um aplicativo de dispositivo móvel. As saídas para os trabalhos de campo foram registradas pelos trajetos percorridos a pé. Em ambas as cidades, inicialmente houve percursos originários de informações disponibilizadas pela mídia ou por indicações de pessoas que residem e atuam nos respectivos contextos para localização das cenas de uso de crack no espaço público.
Nos dois meses que estive em Bogotá, entre novembro e dezembro de 2018, o estudo da urbe se deu por diferentes trajetos e territórios, somando 393 km. Em Medellín estive por quatro meses, de janeiro a início de maio, com alguns poucos dias na cidade de Quibdó. A ótima recepção na Universidade de Medellín, em Medellín, propiciou um cotidiano acadêmico bastante ativo, mas ainda assim foi possível percorrer 437km. Em São Paulo o vínculo com o território é mais duradouro e constante, o que inviabilizou esta atenção pelo detalhe de quilômetros percorridos em campo.
Em diálogo com o propósito apurador deste texto, compartilho a inteligente descrição no conto de Edgard Allan Poe intitulado “Os crimes da Rua Morgue”. O conto marca os primórdios do gênero policial na literatura moderna e narra a obstinada investigação de um duplo assassinato em uma suburbana rua de Paris. Poe nos brinda a brilhante perspectiva sobre a sagacidade e acuidade do olhar investigativo do detetive Auguste Dupin. Revela o conto:
Vidocq, por exemplo, era um excelente adivinhador, além de ser um homem persistente. Mas, não dispondo de uma inteligência educada, errava continuamente, devido à própria intensidade de suas investigações. Sua visão era prejudicada, por olhar muito de perto o objeto. Podia ver, talvez, dois ou três pontas com extraordinária clareza, mas, ao fazê-lo, perdia, necessariamente, a visão total do assunto. Aí está o defeito de se ser demasiado profundo. A verdade nem sempre se encontra no fundo de um poço. Na realidade, creio que aquilo que mais importa conhecer é, invariavelmente, superficial. A profundidade se encontra nos vales em que a procuramos, e não no cume das montanhas onde ela se acha. As maneiras e as fontes dessa espécie de erro têm um bom exemplo na contemplação dos corpos celestes. Dirigir a uma estrela um rápido olhar, examiná-la obliquamente, voltando para ela as partes exteriores da retina (mais suscetíveis às ligeiras impressões da luz que aos interiores), é contemplar a estrela de maneira diferente, é a apreciar melhor o seu brilho, brilho que diminui à medida que voltamos nossa visão em cheio para ela. Um número muito maior de raios incide sobre os olhos neste último caso, mas, no primeiro, se obtém uma receptividade mais apurada. Por meio de uma profundidade indevida, perturbamos e debilitamos os nossos pensamentos – e é possível fazer-se com que a própria Vênus se desvaneça no firmamento, se a fitarmos de maneira muito demorada, muito concentrada ou muito direta. (Poe, 2006, 29)
Utilizarei também desenhos como material coletado em campo. A proposta é articular o conhecimento acadêmico com o universo das histórias em quadrinhos por meio de metáforas visuais sobre as percepções e sensações do campo. Considero importante ressaltar o que compreendo por histórias em quadrinhos: apesar de sempre serem constituídas da composição entre texto e imagem, é importante que sempre apresentem uma narrativa, sem exceção (Chinen, 2011). É contar uma história a partir da mistura entre texto e desenho, uma “hibridação bem-sucedida da ilustração e prosa” (Eisner, 2010, p.2). Segundo Will Eisner (2010, p.1), um dos pioneiros da prática e teoria no tema,
as histórias em quadrinhos comunicam numa “linguagem” que se vale da experiência visual comum ao criador e ao público. É de esperar dos leitores modernos uma compreensão fácil da mistura imagem-palavra e da tradicional decodificação de texto. A história em quadrinhos pode ser chamada “leitura” num sentido mais amplo que o comumente aplicado ao termo.
O autor acrescenta a ampliação do ato de ler proposto por Tom Wolf em 1977. Wolf pensa a leitura de um modo mais genérico, como “uma forma de atividade de percepção. A leitura de palavras é uma manifestação dessa atividade; mas existem muitas outras leituras – de figuras, mapas, diagramas, circuitos, notas musicais […]” (Wolf, 1977 apud Eisner, 2010, p.2). Portanto, para a leitura de histórias em quadrinhos (HQ), é preciso habilidades interpretativas visuais e verbais, uma superposição mútua entre arte e literatura, o que faz com que Eisner (2010, p.2) considere que “a leitura da história em quadrinhos é um ato de percepção estética e de esforço intelectual”. Vale ressaltar que a proposta não é que os desenhos se tornem meras ilustrações que adornem o texto, mas que sejam, como diz a antropóloga Lilia Moriz Schwarcz (2014, p.393),
como documentos que, assim como os demais, constroem modelos e concepções. Não como reflexo, mas como produção de representações, costumes, percepções, e não como imagens fixas e presas a determinados temas ou contextos, mas como elementos que circulam, interpelam, negociam.
A antropóloga Karina Kuschnir realiza experiências inovadoras na ponte entre pesquisa e desenho e aponta que a utilização de desenhos como linguagem de investigação é capaz de contribuir na representação e produção de um conhecimento novo. Segundo Manfredo Massironi, o desenho é uma anotação gráfica capaz de descrever ou explicar um mundo de fenômenos, um “instrumento tão simples, mas, ao mesmo tempo, tão intrinsecamente elástico que permite a narração, dos mais diversos modos, da complexidade, e cada vez mais dilatável para cobrir a possibilidade expressiva” (Massironi, 2010, p.17 apud Kuschnir, 2014, p.28). Assim, a proposta da utilização de desenhos como registros de campo tem o objetivo de exercitar outros modos e temporalidades de reflexão, observação e absorção dos espaços, e assim fazer emergir novas camadas de informação, produzindo um material alimentado por imagens e significados na interação entre pesquisador e contexto (Kuschnir, 2014; Calil, 2016).
Em sua tese de doutorado que explora a produção de imagens sobre a Guerra do Paraguai, o pesquisador André Toral (2001, p.25) afirma: “a imagem plástica vai direto ao cérebro sem exigir intermediário verbal. Ou seja: nunca uma descrição vai poder dar conta de uma imagem. Completando o provérbio, eu diria que uma imagem não vale só por mil palavras, vale muitas outras coisas que as palavras não transmitem”.
O desenho valoriza as situações do cotidiano, e segundo Kamel (2006 apud Cabello et al., 2010, p.230), mais que ilustrações, a intenção é que as ilustrações estimulem o imaginário, permitam a abstração e auxiliem nas análises possibilitando uma maior combinação de interpretações dependendo de quem os observa, e a imagem “se comportar como uma privilegiada instância formadora de representações” (Schwarcz, 2014, p.393). Existe a necessidade de colocarmos os diferentes campos de pesquisa em diálogo com os desenhos e as narrativas gráficas, para assim garantirmos “soluções visuais inovadoras”, como colocou o professor Paulo Ramos (apud Chinen, 2011), e assim contribuir didaticamente para uma melhor formação deles.
A proposta deste livro é produzir uma contranarrativa sobre as relações entre as pessoas, as drogas e as cidades na região latina, e assim ocupar o espaço de embate frente às “monoculturas” do saber e das escalas pautadas por um modelo eurocêntrico íntimo das violências praticadas e reproduzidas historicamente no continente. Ampliar as possibilidades de aproximação, interpretação e análise das realidades latinas a partir de trocas e olhares internos ao continente é necessidade urgente para uma reinvenção da noção de Saúde Pública que considere e respeite as diferenças (Nunes;
Louvison, 2020) (Figura 1).
Com a apresentação e processos para o desenvolvimento deste texto devidamente enunciados, atrevo-me a dizer que este livro é mais que um documento acadêmico. O texto narra o que foi viver e sentir o tema de investigação em torno das drogas e do urbano na América Latina. É um testemunho construído por um compilado de situações que foram experenciadas, sentidas e percebidas pelo autor, e assim interpretadas e conectadas ao texto como análise de pesquisa – eu diria que este texto é um registro científico bastante pessoal.
A seguir, uma breve contextualização da América Latina e a utilização do termo. Em seguida, como exercício dessa aproximação entre realidades de São Paulo, Bogotá e Medellín, apresento panorama histórico dos territórios estudados, para assim iniciar o processo de análise sócio-histórica-geográfica, e posteriormente o desenvolvimento de reflexões e novas indagações sobre o tema.
Figura 1 – Mapa da América Latina invertido – provocação à
produção de uma contranarrativa, com sinalização da
aproximação Brasil-Colômbia
Fonte: desenho elaborado pelo autor.