As Drogas, as Pessoas e as Cidades
Segunda parada – Reflexos da travessia Brasil – Colômbia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Segunda parada – Reflexos da
travessia Brasil – Colômbia
Bogotá – recorrente drama da capital
colombiana
A implosão do El Cartucho e o nascer do Bronx
El Cartucho fue creado por todos, lo hicimos todos como sociedad al cerrar los ojos ante lo que sucedía allí y expresar: “por fortuna lo que sucede en el Cartucho no ocurre frente a mi tranquilo hogar”.
Morris e Garzón
O Cartucho e posteriormente o Bronx são desdobramentos históricos do bairro bogotano de Santa Inés, um bairro que também surgiu em um contexto de devoção de um povo. Segundo o livro El Cartucho, publicado pela Secretaría de Integración Social de Bogotá e organizado por Ingrid Morris e Germán Garzón (2010, p.20), “por volta de 1600 essa área era um subúrbio. Em 1645 foi construída a igreja que levaria como brasão o nome da santa e se encarregaria de vigiar esta parte da cidade que foi rapidamente povoada e urbanizada”. Assim surgiu a igreja de Santa Inés, que dava nome ao bairro. Em 1663, ao norte da atualmente extinta igreja, em San Victorino, surgiu o primeiro açougue público, e consequentemente a concentração de venda de outros produtos. O bairro situava-se próximo à plaza de mercado, e essa localização estratégica fez com que o lugar se tornasse sinônimo de “confluência de uma grande quantidade de viajantes, comerciantes e migrantes do território nacional” (Morris, 2011 apud Idipron, 2017, p.169, tradução minha).
Na segunda metade do século XVIII, como consequência da política de extermínio em terras indígenas, ocorreu a chegada de muitos imigrantes na cidade de Santa Fe (atual Bogotá). O bairro – que crescia rapidamente e chegou a contar com mais de vinte igrejas, sendo a da Santa Inés a maior – surgiu em uma sociedade “que vivía al borde de la santificación” (ibidem, p.20). De fato, a história de fundação do bairro apresenta lendas que fazem referência a duas santas. A mais famosa, Santa Inés de Montepulciano, nasceu em 1274 e fundou um convento. A outra santa, polêmica, recusou-se a entregar-se a um homem forçadamente, traindo tradições da época. Condenada, foi exposta nua e executada em praça pública. Antes de ser executada disse: “Pereça este corpo que pode ser amado por olhos que eu detesto” (Morris; Garzón, 2010, p.20).
As referências originárias às santas se confluem na realidade local: ao associar a aura de proteção divina ao bairro de uma delas ou pela característica mártir como consequência de opressão e violência expressada pela outra. Em Bogotá, a Plaza Los Mártires exibe monumento em homenagem aos mártires que lutaram por autonomia na Guerra dos Mil Dias, na passagem do século XIX para o XX, em frente à Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Curiosamente, em São Paulo, a Paróquia Sagrado Coração de Jesus também é ponto de referência histórico e cristão no território. Porém, em São Paulo, o largo não simboliza a resistência e a opressão, mas sim a antiga aristocracia que ocupava a região no fim do século XIX.
Em Bogotá, em 1792 já se calculava haver pelo menos quinhentas pessoas em situação de rua na cidade, os chamados, grosseiramente, de “pordioseros” (pordeuseiros em português), representando aproximadamente 2,5% da população local da cidade de Santa Fe (ibidem). Com a construção de um hospício (termo utilizado na época) próximo às igrejas, cabia a elas realizar as primeiras estratégias de “limpeza social”, um papel importante na época devido à constante pressão exercida pela elite vinda da Europa.
Como muitas cidades latino-americanas, Bogotá passou por transformações vertiginosas de uma economia colonial-agrária-republicana para uma capitalista-industrial na segunda metade do século XIX e início do século XX (Rodas; Arboleda, 2016). Durante o século XX, Bogotá experimentou estrondosa explosão demográfica. Em 1900, eram 110 mil habitantes; em 1930 já passavam dos 330 mil (Almandoz, 2002). Logo depois, em apenas três décadas, entre 1940 e 1970, Bogotá passou de 360 mil habitantes para 2,54 milhões (Figueiras, 2008).
Assim, durante o século XIX, o bairro de característica colonial passou a vivenciar mudanças substanciais com a chegada de novos e variados comércios (ibidem, p.25). No início do século XIX, alguns meios dos setores de comunicação, como o jornal El Cachaco em 1833, já faziam referências negativas às pessoas em situação de rua de Bogotá. As ruas, e certamente a vida nas ruas, eram vistas pela classe dominante e pela população geral como um local perigoso, sujo e repleto de pecados. Ainda nesse período, o poder local implantou uma política de exclusão para os “cidadãos das ruas”: fecharam chicherías (bares locais), limparam as esquinas e proibiram espetáculos nas ruas e demais locais públicos, uma política da época inevitavelmente marcada pelo classismo e divisão social (Morris; Garzón, 2010, p.25).
Em 1894, a construção da estrada de ferro e da estação de trem La Sabana, consolidou a característica de acolher inúmeros imigrantes que chegavam de outras regiões do país. Esse fluxo definitivamente determinou a transformação do bairro, e a partir dessa época ocorreram muitas reformas urbanas entre 1919 e 1925. Entre as reformas, a construção da Av. Jimenes com a canalização do rio San Francisco que ofereceu um ar de renovação e modernidade para a área, atraindo a acomodação de pessoas com alto poder aquisitivo. Assim, em Santa Inés passou a viver a nata da aristocracia bogotana.
Entretanto, em meados do século XIX, já existia ao sul da plaza de mercado a Calle del Cartucho, onde muitas pessoas já sobreviviam do trabalho de reciclagem. Nos lixos se buscavam vidros de perfume María Farina, que eram enchidos com perfume adulterado para ser vendidos nos novos bairros ricos ao norte (Chapinero, Teusaquillo etc). Contudo, as garrafas de vidro encontradas nas ruas do Cartucho também tinham outra finalidade:
As garrafas também eram recicladas para embalar o licor produzido em pequenos alambiques caseiros. O produto ficou famoso pela qualidade, que competia em consumo com a aguardente das receitas da
Cundinamarca. Outros preferiam algo mais forte e bebiam “pipo”, uma mistura de aguardente de “chiviao” com refrigerante e gasolina, e assim, aqueles que se reuniram em torno deste coquetel, contribuíram com seu hábito ruinoso para mudar a paisagem do bairro de Santa Inês. (ibidem, p.33, tradução minha)
No mesmo período, início do século XX, muitos campesinos continuavam migrando para a capital e se instalando aos arredores da estação de trem e próximos à Calle del Cartucho, marcando as primeiras transformações urbanas. Como vemos, já no século XIX o bairro acolhia dinâmicas de sobrevivência de pessoas marginalizadas do sistema formal da produção de capital. Somando-se a essa dinâmica, entre os novos moradores que chegavam, diversas famílias ricas e poderosas de outras regiões da Colômbia – como as famílias Boyacá, Los Llanos e Santander – também se instalaram na região. Eram famílias que exerciam poder e controle de certos mercados, por vezes à margem de regulações legais. Segundo os registros de Morris e Garzón (ibidem), existem informações de que foi uma dessas famílias que introduziu o basuco no bairro, provocando mudanças significativas em sua trajetória.
Nos anos 1940 ocorreu a construção da Avenida Caracas, nos 1950 a Carrera Décima, e assim o bairro foi ficando escondido entre os fluxos intensos das vias rodoviárias. Na perspectiva norte-sul, a Calle 6 e a Av. Jimenez fecham o cerco; no eixo Leste-Oeste, a Av. Caracas e a Carrera Décima circunscrevem os limites, e assim,
asfixiam urbanisticamente o bairro de Santa Inés (Figura 6). A construção da Carrera Décima é vista como responsável por romper em dois o centro da cidade, além de ocasionar a demolição da antiga Igreja de Santa Inés.
Figura 6 – Sinalização de avenidas que isolaram o Cartucho,
criando um enclave de informalidade no centro de Bogotá
Fonte: Google, sinalização pelo autor.
Para a paisagem, a demolição da igreja de Santa Inés em fevereiro de 1957 teve impactos relevantes. A proteção do território outorgada à santa e à igreja por mais de trezentos anos desapareceu em pedaços de entulho esquecidos pelo tempo. Porém, segundo relatos populares da época, foi a partir da demolição da igreja que realmente “O bairro começou a se deteriorar. Isso foi como uma maldição pelo sacrilégio cometido” (ibidem, p.38, tradução minha). Urbanisticamente, o sumiço da igreja e a aparição da Carrera Décima como uma fronteira simbólica isolaram o bairro do resto da cidade, desembocando em paulatina deterioração urbana e social. O sufocamento do bairro entre as avenidas permitiu novas formas de sobrevivência, sendo muitas delas associadas às atividades ilegais, como o contrabando, a fabricação de bebidas alcoólicas artesanais, a venda de objetos roubados e, obviamente, o comércio de drogas. Como veremos a seguir, essa é uma atividade determinante na trajetória do Cartucho (Idipron, 2017).
Na segunda metade do século XX, os avanços tecnológicos impulsionaram progressos nas formas de comunicação, intensificando os meios e as possibilidades de contrabando. O desemprego crescente produziu grupos de pessoas e vendedores ambulantes que se estabeleceram próximos às grandes avenidas nas bordas do Cartucho. Nas décadas de 1960 e 1970 cresceu a presença de jovens em situação de rua, iniciando a formação das primeiras pandillas – termo usado para se referir a gangues – formadas pelos gamines – pessoas em situação de rua envolvidas com o uso de drogas.
Desde o século XIX, a separação “voluntária” de vagabundos e bêbados do centro da cidade vem alimentando inexoravelmente o imaginário de uma pequena quadra do bairro de Santa Inês, aquela rua sinuosa apropriada para esconderijo de criminosos ou para atividades ilegais estava levando o nome “El Cartucho” entre os habitantes da capital, um nome que eles evitavam pronunciar para não profanar seus lábios. Era a rua do diabo, e segundo as piedosas senhoras: “Quem sabe o que as coisas que aconteciam lá!” (Morris; Garzón, 2010, p.38, tradução minha).
Complementando a grande movimentação da estação de trem, nos anos 1950 e 1960, o bairro transformou sua identidade residencial para um setor comercial, acolhendo o comércio das empresas de transportes e inclusive o terminal de ônibus da capital colombiana. No bairro de Santa Inés se encontravam 18 das 24 empresas de transporte da cidade. A grande movimentação de migrantes e imigrantes aumentou drasticamente a população dessa zona, e naturalmente o uso do espaço urbano. As casas tornaram-se pensões e diversos outros tipos de comércios surgiram para satisfazer as necessidades desse novo tipo populacional (Rosero, 2013, p.7).
Porém, com a construção do novo Terminal de Transportes Salitre, a aproximadamente dez quilômetros de distância à noroeste do centro, as empresas de ônibus intermunicipais abandonaram esse setor da cidade, e como consequência os antigos e vazios estabelecimentos comerciais se tornaram pontos de venda de objetos roubados e outras funcionalidades informais. A dinâmica local atuava como um ímã para migrantes e imigrantes, e a chegada e fixação de pessoas do campo para a cidade permanecia a todo vapor. Como produto de uma guerra não declarada nas zonas rurais do país, ocorreu o resultado de ondas de pobreza dentro do contexto urbano bogotano. Novamente segundo Morris e Garzón (2010), grande parte dos migrantes que chegavam era pobre, e quando chegavam buscavam alguma possibilidade de moradia no centro – La favorita, La Estanzuela, Santa Bárbara, Las cruces, enfim, Santa Inés e El Cartucho –, e as drogas passaram a permear o cotidiano. Relatos da época resgatam que “os transeuntes manifestavam certo aborrecimento por ver tantas pessoas estranhas que povoavam as ruas; indesejáveis e crianças vivendo nas ruas foram mudando a aparência e o comportamento social do bairro. O álcool adulterado e a inalação de vapores de gasolina eram remédios para acalmar a fome” (ibidem, p.45).
Na década de 1960 cresceu o comércio de drogas. Existem histórias dessa época de que seis oficiais da Polícia Nacional chegaram das planícies orientais com um carregamento de maconha direto para o Cartucho (ibidem; Idipron, 2017) e que, a partir daí, aos poucos foram criando pontos de venda na região. Esse evento, segundo alguns pesquisadores, foi uma das primeiras experiências de tráfico de drogas na região e pode ser considerado um marco no surgimento da maior “biqueira da Colômbia” (Idipron, 2017). Logo depois, instalaram-se diversos grupos de natureza criminal, que a partir da venda de drogas instauraram regimes locais pautados pela violência. Além disso, coube à gangue Los Llaneros a fama de anos depois ter iniciado a venda de crack/basuco na região nos anos 1980 (Morris; Garzón, 2010). Assim, com o aumento do leque de opções de substâncias na boca, a disputa por pontos de venda naturalmente fez a violência aumentar dramaticamente no território.
Nesse ponto, as famílias com maior poder aquisitivo já tinham migrado para bairros nobres da zona norte de Bogotá, principalmente após a revolta política de 1948, conhecida como bogotazo, quando a elite literalmente fugiu da região central (Suárez, 2012). Muitos dos prédios administrativos já haviam mudado para o Centro de Administración Nacional (CAN) na avenida Eldorado. A cidade expandia-se e apresentava diversos pontos centrais em diferentes localidades. O velho centro, em Santa Inés, foi esquecido, passou a ser pouco visitado, ao passo que longe dos olhos sociais, as dinâmicas coloquiais se enraizavam e “parecia que a cidade já não necessitava essa parte de seu corpo e abandonou-a à própria sorte” (ibidem, p.70, tradução minha’).
A prática de pequenos crimes como forma de sobrevivência no centro iniciou uma onda de preocupação da sociedade e também política em relação à segurança pública. Nos anos 1970, uma prática bastante peculiar e irresponsável chama a atenção: as “campañas de higiene”. O poder público determinou que estava proibido dormir nas ruas no centro de Bogotá, e quem fosse encontrado descumprindo a regra era levado para a Calle del Cartucho. O Cartucho tornou-se depósito e sinônimo de delinquência. Sabe-se que essa prática de fato ocorreu, porém permanecem misteriosos os responsáveis legais pela introdução desse método, pois relatos dizem que eram ordens “vinda de cima”, sem haver alguma formalidade e muito menos legalidade nessa ação (Tovar et al., 2017).
Assim, a zona de El Cartucho foi se configurando como o espaço urbano que acolheu pessoas que eram vítimas de preconceitos, estigmas e que sofriam com a falta de oportunidades em outros espaços da cidade e do país. Junto com camponeses, chegavam também sujeitos egressos do sistema penitenciário, militares sozinhos e demais personagens que davam contornos a novos formatos de convivência e cotidianidade. Incessantemente chegavam
[…] os sem família, os sem futuro, os que perderam a esperança de encontrar um trabalho digno, os drogados, os loucos, os fugitivos, os sem-abrigo e os que nunca têm para onde ir. Atrás deles vinham os cafetões, os narcotraficantes, os vendedores de armas, de órgãos, de pessoas, falsificadores, os que cobravam propina dos criminosos e todos os outros negociantes da ilegalidade. (Morris; Garzón, 2010, p.50, tradução minha)
As ruas estreitas e apertadas favoreciam práticas ilegais. A venda de maconha e medicamentos chamados pepas (Valium) tornaram-se extremamente comuns a partir dos anos 1970. Nessa época muitos dos carroceiros que faziam trabalho de reciclagem eram muitas vezes recompensados com pequenas doses de maconha para uso pessoal ou para pequena venda no varejo (Góngora; Suárez, 2008). Com o passar dos anos, as ruas passaram a estar sempre cheias pela consolidação do comércio informal, e os casarões e prédios abandonados convertiam-se em locais propícios para o consumo e venda de drogas, prostituição, tráfico de armas e demais atividades delituosas. A ingestão de gasolina e álcool adulterado tornou-se solução comum para minimizar a fome, e segundo María José Rosero (2013, p.9, tradução minha), é nesse momento que “este setor populacional começava a mudar seu aspecto físico e seu comportamento na sociedade”. Agregou-se assim definitivamente um marco moral ao contexto do Cartucho.
Dessa forma, El Cartucho foi se tornando o epicentro e síntese de uma economia subterrânea, apresentando-se como sintoma de uma grave problemática social que se escancarava em Bogotá, mas que também se descortinava em outras partes do país. Nessa época, os meios de comunicação começaram a pautar a realidade do El Cartucho, mas essa visibilidade pouco tinha efeito em transformações sociais reais, pois os protagonistas e mais prejudicados com a dinâmica estavam confinados nesse território, e eram genericamente chamados pela mídia de “descartáveis”, fossem carroceiros, pessoas em situação de rua, pessoas que usam drogas, migrantes ou traficantes, entre outros (Morris; Garzón, 2010).
O termo “descartáveis”, surge no começo dos anos 1990, quando um acontecimento choca os cidadãos colombianos: vigilantes universitários das cidades de Pereira e Barranquilla assinaram quase quinze pessoas em situação de rua com o objetivo de vender os cadáveres para pesquisas de estudantes de medicina do ensino público. No julgamento de um dos guardas acusados, ele disse algo como: “Qual é o problema, se essas pessoas eram só ‘descartáveis’?” (ibidem, p.56, tradução minha). Como desgraça, o termo se espalhou pela população: em pouco tempo estava na boca do povo. Por meio de uma palavra, o estigma e o preconceito solidificaram-se em fundações largas e espessas, fortalecendo a ideia colonial da necessidade de “limpeza social”.
Assim, dentre os fatores que ocasionaram a degradação urbana e social do bairro de Santa Inés, podemos destacar a dinâmica em torno da migração e das empresas de transportes, a construção das grandes avenidas, a introdução do contrabando como forma de obtenção de renda, o uso de drogas e a estigmatização, entre outros. Porém, é a saída de moradores tradicionais e abastados para outros bairros da cidade que se destaca também como um dos motivos disparadores das transformações no território. Com isso, as antigas residências foram se tornando “inquilinatos” e sedimentando modos de moradias populares e informais. O bairro tornou-se um local de trânsito e também possibilidade de “ficar para estabelecer uma vida em torno de muitas pessoas que neste país(Colômbia) tinham em comum a necessidade de sobreviver” (Idipron, 2017, p.170, tradução minha). Iniciou-se a possibilidade de aluguel de quartos por algumas horas, dinâmica característica atrelada ao consumo de drogas, e com isso, uma reconfiguração profunda na vida e no cotidiano local. Como apontam Morris e Garzón (2010, p.71, tradução minha):
e não foi para menos: a expansão excessiva do basuco mudou radicalmente a percepção e a atmosfera da rua. A dependência obrigava as pessoas a continuar consumindo e fazia com que os cortiços se tornassem residências que vendiam momentos de sonhos, ou ofereciam
um serviço coletivo para dormir ou “soprar”1 basuco entre vários no mesmo cômodo.
Diferentes padrões de vida e moradia são características-chave desses territórios. O crescimento de ambulantes e a venda de materiais roubados consolidaram dinâmicas de informalidade no dia a dia. Os imóveis resistiam abandonados, as pessoas tomavam as calçadas, as ruas aos poucos passaram a estar obstruídas para passagem de veículos, “e a barbárie se apoderava das misérias e pobrezas de toda índole” (ibidem, p.72). Em um dos auges da dinâmica em torno da informalidade, da violência e de descumprimento de qualquer institucionalidade (Idipron, 2017), surgiu no linguajar popular a referência ao famigerado “contêiner”.
A enorme caçamba de ferro que repousava na esquina da Calle Novena era o contêiner e simbolizou a representação da violência no Cartucho. Muito além de sua função inicial original como depósito de lixo, coube também ao contêiner receber os corpos das vítimas da violência no local (ibidem). O temor circulava pelas ruas, e a mensagem que transmitia o poder da informalidade da violência na boca era clara: “exílio ou morte” (ibidem, p.171).
Em 1998, a Estrategia de Intervención Social (EIS) estimou que uma população de aproximadamente 12 mil pessoas habitava o Cartucho (Morris; Garzón, 2010, p.43). Já o III Censo setorial de habitantes de la calle en Bogotá de Idipron em 2001 apontou 10.477 pessoas em situação de rua na capital, sendo que 3.312 (31,6%) ainda permaneciam na localidade de Santa Fe, região central onde existia o Cartucho (Góngora; Suárez, 2008, p.110; Rosero, 2013,
p.10) (Figura 7).
Figura 7 – Metáfora gráfica sobre a trajetória do Cartucho em
Bogotá
Fonte: desenho elaborado pelo autor.
“ 2 La ciudad autoconsumible ”
Nos anos 1980, inúmeras famílias originárias do campo continuavam chegando a Bogotá, e o envolvimento com o tráfico de drogas na região do Cartucho apresentava-se como rara e rentável oportunidade. A chegada do crack/basuco foi determinante para mudanças rápidas e radicais no território, legitimando as intenções de intervenção por parte do poder público local. Entretanto, apesar da proximidade e do destaque em relação às folhas de coca e à produção de cocaína, o basuco não é originário da Colômbia. Relatos apontam que a primeira versão vista pela região foi no Peru, sob o nome de pistol, quando misturavam pasta-base de cocaína com tabaco. Ao descobrirem que a base de coca também era psicoativa e mais potente quando fumada, batizou-se o basuco. Na Colômbia chegou pelo Sul, pela região de Cauca, e logo se alastrou por todo o país colombiano. Em Bogotá o consumo de basuco sedimentou-se, e não somente nos estratos sociais mais baixos da sociedade. Segundo Morris e Garzón (2010, p.78, tradução minha),
Os clubes de basuqueros cresceram como grama, casas elegantes localizadas em setores discretos, preferencialmente residenciais, que atendiam exclusivamente aos sócios: altos executivos, empresários e outras pessoas que viam nesse hobby um passatempo divertido, o que não era diferente de uma típica reunião social de amigos ou empresários.
[…] Esta prática se espalhou e em 1985, informou o jornal 3 El Tiempo , mais de três milhões de pessoas no país disseram ter consumido basuco, mais de 15% da população, segundo os dados oficiais
Esse curioso registro sobre uso de crack/basuco pela elite colombiana em meados dos anos 1980 retrata a amplitude que a substância alcançou dentro da sociedade, mas certamente em um contexto de uso mais seguro, protegido e privado, longe dos olhos desinformados da sociedade e das investidas ávidas da polícia e do estigma reproduzido pelos meios de comunicação. Estes últimos, por sua vez, colocavam em pauta o debate sobre o consumo de basuco às vistas do povo, nas ruas, pelos pobres, e assim o Cartucho ganhou protagonismo no imaginário social. O que era o Cartucho nesse cenário?
Um espaço urbano que prestava serviços necessários a alguns cidadãos. A cidade consumiu Cartucho […] Bogotá foi se consumindo e também foi construindo El Cartucho, em um tecido histórico de três a quatro séculos. Um território fruto de uma sociedade indiferente, tornou-se uma espécie de hospital que funcionava sem médicos, um muro de Berlim, separando
norte e sul; Oeste do Leste, um paraíso de ilegalidade onde nem os próprios criminosos estavam a salvo. (ibidem, p.79, tradução minha)
Durante os anos 1980, a região do Cartucho no antigo bairro de Santa Inés se transformou literalmente em um “refúgio de pobres” (Tovar et al., 2017). O cotidiano era permeado de pessoas em situação de rua, recicladores e um ativo comércio ilegal, também fomentado pela histórica venda de substâncias psicoativas, principalmente a maconha. Era um ponto privilegiado para o ancoramento e crescimento do mercado de cocaína e crack. O aumento do comércio de substâncias psicoativas proporcionou uma disputa desse mercado entre grupos rivais, e mais uma vez um aumento significativo nos episódios de violência. Em 1997, um estudo realizado pela Câmara de Comércio de Bogotá teve como foco de atenção o setor do Cartucho e apresentou o território como um habitat da população em situação de rua, caracterizada pelo consumo frequente de entorpecentes, especialmente crack, o que colocava esses indivíduos “às margens da estrutura da sociedade formal” (Suárez, 2012, p.148, tradução minha). Como vemos, os resultados dessa pesquisa colocavam o uso de basuco como elemento que proporcionava unidade e certa identidade à população do Cartucho.
Outro estudo realizado nesse período pela Prefeitura de Bogotá produziu um mapa cartográfico do medo na capital colombiana. Novecentas pessoas de diferentes estratos sociais e de distintos bairros de Bogotá foram entrevistadas, e os contornos da zona que apresentava maior destaque no “ranking do medo” eram quatro grandes avenidas do centro da cidade que demarcavam as fronteiras do Cartucho: a Avenida Caracas, a Carrera 7ª, a Avenida
6ª e a Calle 13 (Figura 5). Segundo o antropólogo Carlos José Suárez (ibidem, p.150), durante a década de 1990, ultrapassar essas fronteiras implicava “adentrar-se no mundo do medo e do terror, do incontrolável e do caótico no coração de Bogotá”. Assim, o discurso sobre Bogotá passou a construir um imaginário como umas das cidades mais perigosas do mundo no final do século XX.
De fato, em 1998, a região do Cartucho foi reconhecida pelo Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos lugares mais perigosos da América Latina (Morris Rincón, 2011 apud Tovar et al., 2017). Entretanto, vale problematizarmos essas concepções sobre esse território: são visões reducionistas de todo um espectro de diferentes momentos e histórias de vida dentro de um contexto como o Cartucho, além de incutir na sociedade a noção de que esses espaços devem ser de qualquer maneira extirpados. Segundo Suárez (2012), podemos analisar a apresentação desses dados e diagnósticos concomitantes à execução de um plano de renovação urbana no local como estratégia disciplinar exercida pelo poder público, que prioriza a movimentação de capital e anula a complexidade do contexto e as trajetórias e características individuais das pessoas. Assim, a cidade foi se autoconsumindo por diferentes vias. No início do século XX, a informalidade pautou a constituição do Cartucho; já na transição para o século XXI, a capital colombiana se engasga e se engole com sabor de lucratividade. Em 1998, deu-se o pontapé inicial nas intervenções estatais para acabar com o Cartucho.
A rota legislativa: realização do projeto de
intervenção urbana
Ainda em 1998, o então prefeito Enrique Peñalosa anunciou o Decreto 880 (Bogotá, 1998) que redigia o programa de renovação urbana para os bairros San Bernardo, Santa Inês e arredores como solução ao problema da violência e da presença dos moradores de rua no centro histórico de Bogotá. O objetivo era claro: acabar com o Cartucho – e para isso a renovação do centro apresentava como argumentos a necessidade de recuperar o valor comercial da região e do espaço público, além de acabar com a presença de vendedores informais nas ruas. O decreto se justificou na ideia da “deterioração urbana” e apresentava como objetivo melhorar a imagem da cidade internacionalmente (Suárez, 2012).
Apesar das pesquisas e da constatação evidente da presença de milhares de pessoas, inclusive de pessoas em situação de rua, curiosamente o decreto afirmava que a região se apresentava como “vazio humano”, além de estar “fora de uso”, ou melhor, “fora dos circuitos legais de mercado” (ibidem, p.153). Em 1999, o poder local anunciou o Acordo 33, viabilizando o início das demolições das primeiras 28 casas do Cartucho. Em seguida, com o Decreto 619 de 2000 (Bogotá, 2000) foi promulgado o Plano de Ordenamento Territorial (POT) para a cidade de Bogotá, que vigora até os dias atuais. O POT foi o movimento final para colocar o Cartucho em xeque e, nas palavras de Suárez (ibidem, p.154), efetivar a “consolidação legal e projetiva dos pressupostos contidos anteriormente no Decreto 880 para a renovação do centro histórico da cidade de Bogotá”. O plano evidenciava claramente que seu principal objetivo era econômico, pois apresentava a intenção de criar um arranjo adequadamente organizado do território para aproveitar as vantagens de sua localização e assim atrair investidores na presumida competitividade internacional das cidades (ibidem).
Um aspecto interessante de ressaltarmos sobre o POT é sua curiosa flexibilidade. Segundo o Decreto 619 de 2000, o plano previa o desenvolvimento urbano “superando as regulamentações urbanísticas como único instrumento orientador para a construção do território” (Decreto 619 de 2000, tradução minha), ou seja, as mudanças no espaço também estavam pautadas pela lógica de possíveis oportunidades que surgissem, explicitando a alta capacidade de adequação às forças globais de mercado. Assim, como na região da Luz em São Paulo, o projeto iniciou sua execução estando aberto e incompleto, permitindo constante revisões, avaliações e oportunas adaptações. A empresa responsável pela transformação concreta e física em Bogotá foi a Empresa de Renovación Urbana (ERU), que rapidamente começou intervenções de infraestrutura, serviços, vias e espaços públicos estimulada por investimentos de capitais privados (ibidem).
Em entrevista de Enrique Peñalosa cedida à Angel Beccassino (2000) no fim de seu primeiro mandato, entre 1998 e 2000, Peñalosa indicou algumas diretrizes do plano de renovação com o discurso de “desencartuchar el Cartucho”. Ele evocava explicitamente a extinção e a intenção de atrair novos investimentos e negócios para o setor. Para isso, os investimentos se concentrariam na criação e renovação de espaços públicos (Parque
Tercer Milenio)4 e estabelecimento de polos de comércio e escritórios de órgãos públicos ao redor do parque, com todo o setor interligado por grandes eixos rodoviários com sistemas de transporte de massa à disposição (Suárez, 2012; Beccassino, 2000). Paralelamente ao discurso executivo sobre as obras e transformações urbanas, o projeto apresentava diretrizes de intervenção social para a população afetada, alegando “promover a equidade territorial para garantir plenamente a oferta de bens e serviços para todos os cidadãos” (Suárez, 2012, p.155). Peñalosa reproduzia publicamente tais argumentos apresentando o cinismo da gestão pública, pois discursava sobre ideais de integrar a cidade, e segundo suas próprias palavras, era necessário fazer com que
[…] as pessoas voltam para o centro e espero que um dia isso se torne a zona rosa da cidade, o lugar onde os restaurantes, cafés, o que você diz sobre Madrid… É preciso que pessoas de todos os estratos venham ao centro e permaneçam, que vivam o entorno, que se misturem com outras pessoas, porque isso é como uma sociedade de gueto. (Becassino, 2000, p.221, tradução minha)
Entretanto, a referência à cidade de Madri, situada no contexto europeu, aponta pouco conhecimento e legitimação da realidade local de Bogotá. Nas ruas, a ideia obtusa de integração se mostrava mais próxima a episódios de segregação e violência, e consequentemente diversas violações de direitos humanos praticadas pelo poder público. Os objetivos do programa de renovação urbana não incluíram a população que frequentava o bairro, excluindo residentes, comerciantes e também a população em situação de rua local.
Nesse cenário de ampla e radical transformação do tecido urbano, salta aos olhos a ausência de alternativas sólidas de atenção e moradia para as mais de uma dezena de milhares de pessoas removidas do Cartucho, sejam as que viviam de modo informal em imóveis em ruínas ou as que estavam em situação de rua. Quando questionado sobre a população em situação de rua, Peñalosa desconsiderou o respeito aos direitos humanos e categoricamente apresentou disposição ao uso da coerção e da força repressiva “de manera avasaladora” no trato à essa população. Tal estratégia foi justificada para intimidar qualquer margem de resistência ou reação por parte das forças locais, fossem ou não elas criminosas (ibidem). Nas palavras do próprio prefeito:
[…] penso que para resolver isso de uma vez por todas seria preciso poder levar essas pessoas à força para alguns lugares, para algumas fazendas nas planicies, por ali, desintoxica-las, tratá-las bem e ajudá-las, ensiná-las a plantar mandioca, algo. Mas não podemos, porque direitos humanos e tal. Isso é muito complicado. Podemos pressioná-los, apertá-los… mas só isso. (Peñalosa apud Beccassino, 2000, p.196, tradução minha)
No início dos anos 2000, com as demolições já em curso, o cotidiano do Cartucho se tornava cada vez mais denso, inclusive entre as pessoas em situação de rua e as equipes de demolição. Com o contínuo processo de sumiço do território, grandes grupos de pessoas se diluíram em grupos menores e se dispersaram pela cidade, enquanto atravessavam a sensação de perda de identidade e de pertencimento à algum lugar (Idipron, 2017). Segundo registro do Idipron (2017, p.190), “os sujeitos que construíram um reconhecimento naquele espaço, ainda que baseado na violência, perderam seu papel e seu ‘nome’, pois se configuravam apenas dentro das dinâmicas particulares daquele contexto”. Dessa forma, podemos assinalar esse fenômeno como ato de violência simbólica, ao passo que esses cidadãos são desconsiderados em sua trajetória, e na gestão, administração e transformação de seu habitat de existência e pertencimento.
O Decreto 880 argumentava abertamente sobre parâmetros de desenvolvimento econômico, renovação urbana, utilização do solo, espaços públicos, setorização pública e privada, além de apontar possíveis benefícios e ganhos para a cidade, porém muito pouco (ou quase nada) sobre as questões sociais e sobre as estratégias e ações destinadas à população frequentadora e residente do bairro. Em transformações urbanas em que a população local é objeto de extrema precariedade, considerar as condições sociais, econômicas e de saúde dela deveria ser prioridade estatal com o objetivo de equiparar ou diminuir desigualdades. Entretanto, a única menção do Decreto sobre estratégias de intervenção social apontava a “atenção das pessoas no grau mais alto de emergência social, em condições de indigência, drogadição, doentes, crianças, mulheres e idosos, que por suas características particulares necessitam de uma intervenção assistencial” (Decreto 880 de 1998, tradução minha). Ou seja, não se estruturaram políticas públicas de habitação, saúde e assistenciais suficientes para atender essa população (Rosero, 2013, p.3). As pessoas em situação de rua acompanhadas de diversos outros personagens do cotidiano do Cartucho foram lançadas à própria sorte, ou melhor dizendo, penalizadas pelo azar que lhes foi imposto. Estima-se que no início dos anos 2000, aproximadamente 3 mil pessoas em situação de rua que habitavam o setor espalharam-se pelos bairros vizinhos do centro de Bogotá (Suárez, 2012).
As demolições seguiam, o projeto avançava, e permanecia a inquietação: para renovar o centro era necessário apagar a história e derrubar completamente aqueles dezesseis quarteirões históricos que formavam o Cartucho no centro de Bogotá? As justificativas para a estratégia de “terra arrasada” foram basicamente duas: que a deterioração dos imóveis era tanta que a demolição de um implicaria a estrutura dos demais ao redor, e que havia uma necessidade de espaços públicos no centro. A decisão estética pela destruição total era justificada pelo discurso de dupla degradação, arquitetônica e moral, e embasava conjuntamente a intervenção (ibidem).
Assim como as pessoas que habitavam aquele lugar foram consideradas “descartáveis”, lamentavelmente a memória do bairro de Santa Inés também foi sujeita a descarte. Como resultado, foram removidas 1.350 famílias, das quais 73% viviam em um único quarto; 1.240 empreendedores individuais ou familiares; 4 mil moradores, grande parte inquilinos de baixa renda; 2.248 pessoas em situação de rua e 3.600 empregados e comerciantes (Morris; Garzón, 2010). Assim, como saldo do decreto 880, houve demolições de 680 imóveis e a desapropriação de mais de 12 mil pessoas que habitavam a região do Cartucho. E no espaço extirpado pela demolição das dezesseis quadras da região, consumou-se a construção do Parque Tercer Milenio (PTM).
Fato: o que houve de “concreto” e a ilusão do
Parque Tercer Milenio
Como vimos, por considerar a região como um fator de risco, o plano de renovação urbana visou eliminar completamente a zona do Cartucho e no local criar o Parque Tercer Milenio (PTM). O parque era a estratégia para recuperação urbana, social e de segurança, visando gerar uma mudança profunda na forma de ocupação do espaço.
Inaugurado no ano 2005, a Prefeitura de Bogotá apresentou seu novo espaço público com nome otimista e prometedor. De fato, o parque é enorme, repousa em uma área total de 16,5 hectares que acomodaria aproximadamente dezoito campos de futebol (Suárez, 2012). Apesar de se propor como uma área verde de tamanho considerável no centro da cidade, vale a reflexão dos objetivos e métodos empregados em sua realização.
A advogada Maria José Rosero faz uma interessante reflexão sobre a proporcionalidade das ações do plano de renovação urbana no âmbito da garantia de direitos. Ela investiga especificamente a garantia (ou falta dela) da segurança humana, analisando a proporção e a necessidade da adoção dessa medida por parte do poder público local. Para compreendê-la, levantaremos brevemente as bases desse conceito que passou a ser difundido a partir de 1994 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em seu informe sobre desenvolvimento humano. O Estado, como forma de governo das cidades latinas atuais, deveria ser a instituição dotada de estratégias para alcançar a garantia de direitos de todos seus cidadãos, assim como protegê-los de possíveis ameaças (Rosero, 2013, p.12).
O quesito de “segurança” da população é então responsabilidade do Estado, mas vale considerar que a ideia de “segurança” não é um conceito universal, muito menos estático, e “varia segundo o objeto que é a causa de proteção, de acordo com o desenvolvimento das sociedades e corresponde ao avanço ideológico de cada povo” (ibidem, p.12, tradução minha). O conceito amplia-se de acordo com cada contexto, mas em termos gerais, podemos chegar a uma direção, e a ideia de prezar pela segurança das pessoas pode ser descrita assim:
Um conceito verdadeiramente amplo e abrangente de segurança para os habitantes deve incluir não apenas a tranquilidade de não ser vítima de atos criminosos, mas também a de viver em um Estado de Direito constitucional e de participar dos benefícios do desenvolvimento em termos saúde., educação, habitação, lazer e todas as áreas de bem-estar social. O conceito é o de desenvolvimento humano sustentável, que tem como princípio a equidade. (González Pacheco, 2010, p.6 apud Rosero, 2013, p.13, tradução minha)
Essa definição sobre a noção de segurança, mesmo ampla, abre caminho para a promoção do conceito de segurança humana promovido a partir de 1994, que busca proteger os sujeitos e grupos sociais de possíveis intervenções e forças coercitivas de caráter estatal em locais que apresentam problemáticas sociais e econômicas de pobreza extrema, a proliferação de doenças, o comércio ilegal ou o uso de drogas, entre outros fatores (Rosero, 2013, p.13). Somado a essa diretriz geral, destacamos o propósito do conceito de segurança humana ao visar garantir proteção “contra alterações súbitas e dolorosas da vida cotidiana, seja em casa, no trabalho ou na comunidade” (PNUD, 1994, p.3, tradução minha). Nesses termos, a devastação do Cartucho soa criminosa.
A aplicação do conceito de segurança humana visa à promoção de equilíbrio social em que todos possam gozar dos elementos mínimos de qualidade de vida, e consequentemente, de participação política. Na perseguição desse ideal, o PNUD aponta sete categorias que seriam obstáculo ou ameaça ao seu alcance: inseguranças econômicas, alimentar, de saúde, do meio ambiente, pessoal, comunitária e política (ibidem, p.28). Porém, se a insegurança econômica está prejudicada, como em uma reação em cadeia todas as outras categorias são afetadas, podendo inclusive desencadear a autoconservação por meio de atividades delinquentes. A Organização dos Estados Americanos (OEA) estabelece a miséria como ameaça à seguridade humana, reforçando que a pobreza e a exclusão social de amplos segmentos populacionais comprometem o exercício da democracia e fragilizam a segurança dos Estados nacionais (Organización de los Estados Americanos, 2003 apud Rosero, 2013, p.17).
Como descrito, a zona do Cartucho passou a ser um local que representava o medo, a marginalidade e a insegurança. Nesse sentido, dentre as sete categorias visadas pelo conceito de segurança humana, o plano de renovação urbana claramente visava reestruturar a região, acabar com dinâmicas produtoras de medo, dissipar o sentimento de perigo e promover a reocupação desse espaço, assim garantindo “segurança comunitária” (Rosero, 2013, p.18). Para analisar a proporcionalidade da introdução do Parque Tercer Milenio, Maria José Rosero (ibidem) faz uma interessante reflexão sobre as interposições e limites de cada direito, assim como da viabilidade de intromissão entre eles sem ferir o núcleo essencial de cada um: a ideia não é sobrepor um direito sobre outro, mas buscar convivência harmônica entre diferentes tipos de garantias.
Assim, surge a questão: a proteção do direito à “segurança comunitária”, respaldada legalmente pelo Decreto 880 de 1998 e
outros documentos normativos,5 com o estabelecimento do Parque Tercer Milenio, é maior ou menor que os direitos das pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social que ocupavam o setor? Na arena formada pela intervenção urbana vemos que as estratégias adotadas colocam em conflito de interesses a proteção de múltiplos e diversificados direitos. Vale ressaltar que o estabelecimento do Parque Tercer Milenio fere o princípio de “vida digna”, que, como direito fundamental, visa “garantir que a pessoa não se converta em um instrumento de outros fins, objetivos, propósitos ou interesses”, um direito que “protege a pessoa, contra toda forma de degradação que comprometa não só a condição física mas sobretudo seu valor intrínseco” (Guzmán Gaviria; Hoyos Patiño; Cuervo Martínez, 2009, p.27 apud Rosero, 2013, p.21, tradução minha).
Um fator determinante para a análise desse conflito de interesses na proteção de diferentes direitos é o subprincípio da “necessidade” na linguagem jurídica. Acredito haver consenso acerca da necessidade de uma transformação na realidade do Cartucho, mas isso não exime a problematização da forma como esse projeto foi e tem sido realizado. Havia outras opções de intervenção ou essa era a única possível? Esse é o ponto-chave dessa análise nos argumentos de Rosero. No Cartucho, a ausência de políticas sociais, habitacionais e de saúde dignas que acompanhassem o processo fez com que tragicamente o cenário se configurasse como um campo de incessantes violações de direitos humanos fundamentais, inclusive a intromissão e violência ao princípio de “vida digna”. Segundo Rosero (2013, p.22, tradução minha),
[…] na medida em que os direitos mencionados para a população em situação de indigência são prejudicados não de forma parcial, mas completamente, continuando e perpetuando as condições deploráveis em que se encontravam, e a isso devemos acrescentar mais uma circunstância agravante, eles foram evacuados e deslocados do lugar que construíram para si, fugiram para lugares incertos, sem nenhum tipo de abrigo ou proteção, “mais de um ficou sem família”, sem lar, sem sua sociabilidade.
Outros autores argumentam que “acabaram exilados em sua própria cidade, órfãos de um bairro ou uma rua que chegou a ser parte substancial de suas vidas, como é a pele” (Morris; Garzón, 2010, p.118, tradução minha)
Em resumo, a preservação do princípio da ideia de segurança comunitária apresentada pela Prefeitura de Bogotá não justifica a violação do direito à vida digna de todas as pessoas que ocupavam o Cartucho. Fica evidente que para além dos efeitos locais derivados de processos econômicos globais, o surgimento de espaços marginalizados, seja nas bordas, seja no centro das cidades, também é responsabilidade de gestões públicas e suas tomadas de decisões administrativas. No caso da introdução do Decreto 880 de 1998 e a criação do Parque Tercer Milenio, é possível ver a execução de uma política apressada, com planejamento raso para a solução de fatores evidentemente sociais históricos e complexos por meio de transformações estéticas e de embelezamento urbano.
Na esfera da proteção de direitos, o resultado configura-se como um duplo fracasso. Para além de perpetuar violações de direitos fundamentais às pessoas em situação de rua e de baixo poder aquisitivo, a criação do Parque Tercer Milenio não cumpriu o objetivo de resgatar o vínculo do espaço público com a sociedade. Além de ser exageradamente planejado, com pouca diversidade de flora e consequentemente de fauna, o parque apresenta grandes áreas de concreto. A frieza de sua estética se associa a relato de ex-frequentador do Cartucho, que no documentário de nome Cartucho
(2017) do diretor Andrés Chaves, diz (Figura 8):
Figura 8 – Metáfora visual do Parque Tercer Milenio inspirada
pelo filme Cartucho, de Andrés Chaves (2017)
Fonte: desenho elaborado pelo autor.
A relação de indiferença e fama duvidosa que a comunidade sente atualmente em relação ao parque de forma alguma simboliza o resgate de vitalidade esperado para o centro. O relato no documentário de Andrés Chaves relaciona a ampla alameda de concreto para pedestres no centro do parque com o símbolo metafórico de “maior cemitério de Bogotá” devido às violências associadas à história e agravada pelas intervenções. Em trabalho etnográfico na região, presenciei algumas vezes a banda do exército colombiano ensaiando nesse espaço, num ato simbólico de reinstalação da ordem. Exibindo um projeto estético que se afasta de qualquer organicidade e possibilita visão panorâmica dos espaços e frequentadores, o parque proporciona o exercício do “domínio visual sobre as ações e, portanto, um mais eficiente policiamento dos comportamentos” (Suárez, 2012, p.165).
O parque nasceu a partir de normativas legais impostas pela administração pública e consequentemente é esvaziado de identificação e significados construídos socialmente a partir dos usos e percepções das pessoas em relação a ele, característica esta que deveria ser essencial na elaboração de espaços públicos (Herrera De la Hoz, 2011, p.113 apud Rosero, 2013, p.23). Portanto, segundo Suárez (2012), o PTM ilustra um modelo de intervenção urbana que substitui o caos pela disciplina do espaço, o degradado pela ordem, e assim, o que deveria por essência ser um espaço público tornou-se um espaço de controle.
Se um dos objetivos iniciais do Decreto 880 de 1998 com o plano de renovação urbanística era melhorar a imagem da cidade internacionalmente, essa experiência mostra ao mundo como a cidade de Bogotá perdeu a oportunidade de maximizar a confluência de diferentes direitos na proteção e desenvolvimento social (Rosero, 2013). Em vez disso, colocou-os em disputa, e essa anulação e violação de direitos favoreceu a proteção dos interesses de alguns setores privilegiados da sociedade e do mercado. Como resultado da intervenção urbana, a própria cidade evidenciou que a intervenção não ofereceu respostas suficientes para a problemática do setor. Afinal, não existiu oferta de acolhimento/moradia estável e definitiva para todas as pessoas que foram forçadamente removidas.
Mesmo contendo estratégias de “desmarginalização” estipuladas no decreto de 1998, as contradições não demoraram para aparecer. Com o sumiço do Cartucho, milhares de pessoas em situação de rua passaram a andar pelos arredores do centro de Bogotá. Com pouca receptividade solidária da população geral, poucos foram os que conseguiram acolhimento em suas tragédias individuais da perda do local coletivo, de raiz e pertencimento representado pela dinâmica do Cartucho. Não por acaso, mas de forma bastante esperada e natural, as pessoas começaram a se juntar por proteção, afeto e possibilidades. Buscaram nos arredores um local como o anterior, um local em que “tudo seja permitido e nada julgado” (ibidem, p.11).
Entre 2005 e 2006, logo após a inauguração do Parque Tercer Milenio, a Secretaria de governo de Bogotá realizou o estudo Diagnóstico de Seguridad y Convivencia que apontou as localidades mais atingidas pela expulsão das pessoas em situação de rua do antigo Cartucho. Foram três: Candelaria, Santa Fe e Los Mártires, todas vizinhas ao extinto território (Suárez, 2012, p.158). Essas foram as primeiras constatações oficiais da existência do Bronx, assim como a zona de Cinco Huecos, concentrações de uso de crack/basuco que mantinham proximidade com a estação de trem La Sabana a poucos metros do PTM. Permaneceu a dinâmica itinerante pela região, e assim consolidou-se a dinâmica conhecida por Bronx, a poucas quadras do finado Cartucho. Essa nova configuração, somada à existente prostituição consolidada também no setor de Santa Fe, declara essa localidade como zona de tolerância no centro de Bogotá, status que permanece até os dias atuais.
O apêndice do Bronx
Se o objetivo era apagar do alcance visual o cenário de precariedade, marginalização, pobreza, uso e comércio de drogas, violência e prostituição, entre outras atividades informais e ilícitas no centro da cidade, a intervenção no Cartucho foi um fracasso. Como produto, forçou a aparição do Parque Tercer Milenio, além da consolidação de nova cena de uso de drogas, a dinâmica que passou a ser conhecida por Bronx, ou la “L”, a aproximadamente duzentos metros de distância – um espaço menor se comparado com a amplitude geográfica que constituía o Cartucho, mas, certamente, igualmente capaz de disparar intensas preocupações e reflexões sobre a vida urbana.
O arquiteto Carlos Niño, na reportagem Viaje al infierno, aponta que para compreendermos as realidades de espaços como Bronx e Cartucho, é preciso atentar-se à época da cidade colonial, e principalmente às atividades de comércio nessas zonas. Niño aponta como em meados do século XIX o mercado mais importante de Bogotá situava-se na praça Bolívar, que por problemas de salubridade, delinquência e congestionamento foi transferido em 1864 para a Plaza de la Concepción, e posteriormente, em 1953, mudou novamente para a Plaza España, vizinha ao Bronx. Ainda segundo o arquiteto, por mais que o mercado de Bogotá não tenha permanecido nessa zona, “é um comércio que deixa consequências nessas regiões, o grande tráfego de pessoas e o agito se transformam em lugares ideais para as atividades ilícitas” (Niño, 2016).
A realidade do Bronx era complexa. Reportagens da época estimam que o local, composto pela intersecção de três ruas, chegou a acolher aproximadamente 3 mil pessoas em situação de rua e passou a ser conhecido internacionalmente como núcleo de organização do tráfico de drogas e a maior olla (boca) da Colômbia. Reportagens de 2016 (Semana, 2016) narram alguns dos infelizes sequestros de estrangeiros que se aproximaram por ingênua curiosidade do narcoturismo e tornaram-se moeda de troca da ganância criminosa. De fato, a realidade do Cartucho se reconsolidava no Bronx, e os holofotes internacionais sublinhavam a irresponsabilidade das autoridades colombianas.
Não demorou para o início dos trâmites políticos e burocráticos para mais uma intervenção urbana, agora no Bronx. Em maio de 2007 foi aprovado pelo Conselho Nacional de Política Econômica e Social (Conpes) do Departamento Nacional de Planejamento (DNP), apoiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), um novo programa de revitalização do centro de Bogotá (Suárez, 2012, p.161). O documento apresentava a região do Bronx e Cinco Huecos como as “oportunidades” da vez para a renovação urbana, e previa “apoiar o desenvolvimento social e econômico interrompendo a cadeia de deterioração, melhorando as atuais condições de vida e habitabilidade do setor, gerando a permanência de seus habitantes e novas alternativas para novos habitantes ” (Decreto 492, 2007 apud ibidem, p.164, tradução minha). Já em 2007, o Decreto 492 validou as inúmeras remoções forçadas que viriam a ocorrer quase uma década depois em 2016.
É importante prestarmos atenção ao fato de que o caminho legislativo para a intervenção no Bronx apresentou mudanças significativas no discurso em relação à destruição do Cartucho. Nos anos 1990, os documentos que justificaram a intervenção no Cartucho baseavam-se em descrições detalhadas das condições de vida e problemáticas sociais atribuídas às pessoas em situação de rua. Em 2007, os documentos progressivamente passaram a ocultar tais particularidades e a apontar as possibilidades econômicas que as intervenções poderiam atrair. Assim, passou a justificar-se em argumentos cada vez mais genéricos, porém propositivos na direção do desenvolvimento turístico e econômico do setor (Suárez, 2012): marcas de um neoliberalismo avassalador. Uma das proposições para a região do Bronx foi a criação da “cidade-saúde”, um megaprojeto que inclusive proporcionou a ampliação do Aeroporto de Bogotá junto a avanços de mobilidade entre o aeroporto e o centro. Inesperadamente, o projeto vendia a esperança de que o turismo médico fosse uma das novas vocações da cidade (Fidalgo; Suárez; Vallejo, 2010).