As Drogas, as Pessoas e as Cidades
Quarta parada – É possível uma cidade cuidadora?
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Quarta parada – É possível uma
cidade cuidadora?
Faz escuro mas eu canto.
“Madrugada Camponesa”, poema de Thiago de Mello, escritor
amazonense – o poeta da floresta
Pingelap
Uma pequena ilha embaralhada entre os arquipélagos da Micronésia me despertou o interesse pelo contexto, pelo ambiente e pelo lugar que habitamos. Em 1775, o agressivo tufão Lengkieki devastou os inúmeros atóis do Pacífico Sul, matando cerca de 90% da população local da pequena ilha de Pingelap. Os cultivos de taro (inhame) no centro da ilha foram encharcados pela tempestade, e nas semanas seguintes à tragédia, a falta de alimentos sacrificou grande parte dos sobreviventes. Antes do tufão, aproximadamente mil pessoas ocupavam a ilha, e após a tormenta e a fome, restaram pouquíssimos sobreviventes, que não passaram de duas dezenas. Nas gerações seguintes a população prosperou, e rapidamente alcançou os cem habitantes. Contudo, a procriação endogâmica entre os nativos teve como consequência a baixa variabilidade genética. Assim, características antes raras na população geral, como a acromatopsia congênita, isto é, o daltonismo total, passaram a se manifestar com mais frequência na população da ilha. Em geral, atualmente a ocorrência dessa peculiaridade é de menos de um caso a cada 30 mil pessoas. No final do século XX, mais de 5% da população não enxergava cores em Pingelap, em uma altíssima proporção de uma a cada doze pessoas (Sacks, 1997).
Pingelap surgiu quando fui surpreendido pela leitura do fascinante livro do médico e neurologista Oliver Sacks, A ilha dos daltônicos e a ilha das cicadáceas. Era 2004 e eu estava com 22 anos no início da faculdade de Psicologia. Estudava sobre os processos psiológicos básicos que me apresentavam os caminhos da percepção, e esses primeiros estudos me lembraram de que anos antes meu irmão e eu havíamos descoberto que tínhamos algum grau de daltonismo parcial. Esse mergulho na ilha dos daltônicos de Sacks me fez pensar por meses nas meninas e meninos de Pingelap que não podem brincar ao sol pois a claridade do ambiente cria fortes contrastes que ofuscam suas visões em tonalidades de cinza e brilhos intensos. No meu caso, pelas minhas lembranças, tenho alguma dificuldade na diferenciação entre tons de amarelo e verde claro, mas perceber e refletir que o mundo que eu enxergava e percebia era diferente do das demais pessoas de alguma forma me inquietava. Que efeitos o ambiente a minha volta proporcionava em mim? Como o mundo a meu redor influenciava minhas escolhas e ações?
Ler sobre a realidade de Pingelap ampliou em mim uma atenção às singularidades de cada um de nós e de como sentimos e percebemos o mundo, as coisas e o ambiente à nossa volta. Passei a refletir sobre as dificuldades que todas aquelas crianças daltônicas de Pingelap enfrentavam com a forte luminosidade do ambiente que as impedia de brincar ao sol, e como isso poderia gerar incômodos e exigir adaptações de acordo com as especificidades. Pensava sobre os próprios recursos do ambiente, como por exemplo as sombras dos numerosos e enormes pés de fruta-pão, que poderiam também proteger as crianças do intenso brilho solar. Que negociações são construídas entre nós e os lugares?
Essa via de mão dupla que temos com os lugares que habitamos coloca em evidência como nossa percepção é atravessada pelo ambiente, e também como o atravessamos com as muitas combinações sensoriais de que estamos munidos (Ingold, 2011). As possibilidades de troca entre nossas mentes e os meios são inestimáveis. Confrontando possíveis pensamentos reducionistas impostos pelas diferentes perspectivas entre as pessoas na relação entre nós e nosso entorno, Sacks (1997, p.45) brilhantemente narra o constrangimento de seu parceiro cientista na viagem a Pingelap ao perguntar a um nativo da ilha:
“Mas e quanto às bananas, por exemplo: vocês conseguem distinguir as amarelas das verdes?” […] A resposta de James foi andar até uma bananeira, voltar de lá com uma banana cuidadosamente escolhida, de casca verde brilhante e entregá-la a Bob. Bob a descascou, e a casca saiu fácil, para sua surpresa. Deu uma mordidinha cautelosa – e logo devorou o resto. “Como você vê, não nos baseamos apenas na cor […] olhamos, sentimos, cheiramos, sabemos – levamos tudo em consideração, e vocês só usam a cor!” (grifo do autor)
Em 2004, ao ler essa passagem do livro de Sacks em uma realidade bastante distinta, relacionei-a diretamente com a perspectiva da redução de riscos e danos que eu também havia descoberto havia pouco tempo, pois essa perspectiva considerava a importância de escutar a população local de determinado contexto. Como descrito na apresentação deste livro, para além da necessária escuta das pessoas em situação de rua que fazem uso de drogas, durante minha investigação de mestrado entre 2013 e 2015 (Calil, 2015), pude perceber como territórios que acolhem as pessoas em situação de rua e o consumo de drogas no espaço público podem tornar-se contextos urbanos bastante arriscados e desafiadores. Gostando ou não e conscientes disso ou não, somos constantemente afetados pelo espaço e o afetamos a partir de nossa trajetória, afinal, “os lugares nos geram sentimentos, direcionam nossos movimentos, nos fazem mudar de ideia, influenciam nossas decisões e, às vezes, até nos proporcionam experiências religiosas sublimes. A história de como as formas do ambiente construído exercem esses efeitos é anterior à civilização, mas permanece longe de ser completa” (Ellard, 2016, p.252, tradução minha).
Ambiente urbano
O templo Gobekli Tepe, na região que hoje conhecemos como sudeste da Turquia, é um dos pontos que marca o surgimento das aglomerações humanas (Ellard, 2016). A construção data de aproximadamente 12 mil anos atrás, em uma época em que ainda existia a cultura nômade e em que os caçadores-coletores por algum motivo se concentravam, mesmo que de passagem, em Gobekli Tepe. Provavelmente era um espaço para instigar o pensamento e a realização de cultos de devoções em momentos de peregrinação. O local representa o momento em que a espécie humana compreende sua finitude, e simboliza a força e perpetuação do ambiente construído em relação à nossa consciência da morte. Isto é, a preocupação e as intenções de uma construção duradoura no tempo para as gerações futuras tornou possível que esse tipo de “santuário” seguisse disponível para os que vieram depois (ibidem).
O psicólogo Collin Ellard (2016) nos traz interessantes reflexões sobre os sentidos e influências dos lugares que ocupamos, aproximando nossas características pessoais internas dos aspectos físicos do ambiente à nossa volta, ou seja, busca romper a visão separatista entre razão-emoção, corpo-mente. Assim, seja diante das pré-históricas estruturas de Gobekli Tepe, Pingelap ou das casas, ruas e edifícios de nossas cidades atuais, vale prestar atenção às influências que os entornos podem exercer sobre o que sentimos e pensamos. Segundo Ellard, a força dos lugares pode nos influenciar de variadas formas, e eles certamente podem nos proporcionar conforto e bem-estar, mas também podemos nos perder em labirintos de acaso e consumo, como cassinos ou shoppings centers, por exemplo (ibidem). Estes últimos ilustram as atrações compulsivas por lugares tentadores, capazes de “empurrarnos por el precipicio de la razón y llevarnos a una aparente locura” (ibidem, p.121). São as forças dos impérios comerciais dos lugares de consumo que aproximam aspectos dos shoppings, dos casinos e das “cracolândias” de cada cidade. Afinal, mantenho a pergunta: qual cidade não possui sua cracolândia?
Indago-me também sobre que tipo de ambiente estamos criando em nossas cidades? Não basta somente construir, edificar, expandir e densificar indiscriminadamente, mas sim refletir sobre o que fazer e como fazer em determinados espaços. Como vimos, espaços como a Cracolândia – São Paulo, o Cartucho/Bronx – Bogotá, e a Calle Cúcuta – Medellín acolheram e continuando acolhendo dinâmicas informais e populares que se distanciam da ideia de vazio urbano que caracteriza a noção simplista de decadência. Nesses espaços vale relativizar o que se nomeia “decadência”, pois tal movimento pode ser visto também como abertura de oportunidades para que outras pessoas com menor poder aquisitivo ocupem os centros das cidades (Branquinho, 2007). É certo que as decisões administrativas que foram tomadas não garantiram a dignidade e os direitos básicos das inúmeras pessoas que historicamente ocupam essas regiões, mas de longe esses locais apresentam o fantasmagórico esvaziamento urbano que assombra outras cidades, como por exemplo, o caso bastante emblemático de Detroit, nos Estados Unidos.
Entre 1950 e 2008 Detroit perdeu mais de 1 milhão de habitantes, aproximadamente 58% de sua população total. Mais da metade dos moradores se foram, e dos que ficaram, um terço vive em condições de pobreza (Glaeser, 2020). Suas fábricas automobilísticas autossuficientes limitaram a diversidade de outras indústrias, fazendo com que a cidade pouco dialogasse com outras dinâmicas de mercado, regiões e centros urbanos. A condição de monoindústria culminou em seu esgotamento criativo, estagnação e, por consequência, a deserção. Pela ótica do economista Edward Glaeser (ibidem, p.75, tradução minha), “quando uma cidade gera uma poderosa ideia destruidora de conhecimentos, ela está apenas preparando sua própria destruição”. Em Detroit ocorreu exatamente isso. Nos processos da linha de produção as pessoas tornaram-se produtos, assim como todos seus aparatos perceptivos e cognitivos, e essa alienação mecânica das pessoas resultou em que a “capacidade humana de prestar atenção também foi se convertendo em uma mercadoria” (Ellard, 2016, p.54, tradução minha). Essa venda barata da criatividade abafou a troca de conhecimentos e informação entre trabalhadores, e a cidade pagou o preço perdendo sua capacidade de se reinventar.
Contudo, o fracasso de Detroit iniciou ainda antes da crise da indústria automobilística, quando a luta por direitos sociais fez com que muitas empresas buscassem menores custos trabalhistas em outras cidades com leis sindicais mais brandas (Glaeser, 2020). A disputa empresarial por maiores lucros e a mudança para outras praças de produção foi minando as oportunidades de trabalho, e consequentemente fez com que as pessoas deixassem a cidade em busca de emprego. Assim, de fato, algumas localidades passaram a apresentar o temido vazio urbano.
Como vimos, esse nunca foi o caso dos pontos considerados decadentes nas cidades latinas que abordamos neste livro. As zonas centrais das cidades estudadas foram e seguem sendo altamente povoadas por grande diversidade de tipologias, pessoas e subjetividades. A partir das recentes transformações que sistematicamente expulsam as populações locais, torna-se importante a reflexão sobre e a preocupação com a produção dos lugares e as relações que são construídas em determinados espaços, que em constante movimento precisam de condições para garantir nossa sobrevivência e saúde mental. Será possível concebermos ambientes urbanos que acolham os pontos de fragilidades pessoais e sociais e cuidem das pessoas que os habitam?
Roger Ulrich (2006), professor de arquitetura e membro do Centro de Sistemas de Saúde e Design da Universidade do Texas, afirma que o cuidado com a arquitetura dos espaços de saúde colabora tanto para os pacientes quanto para as equipes técnicas. Segundo ele, alternativas em detalhes dos projetos, como a diminuição de ruído sonoro interno e a exposição à luz solar nas habitações, por exemplo, garantem diferenças significativas no bem-estar das pessoas. Uma pesquisa realizada por Ulrich comprovou que pacientes internados em um hospital que tinham a possibilidade de observar árvores e paisagens da janela de seus quartos apresentaram significativo avanço terapêutico, recuperando-se mais rapidamente e com utilização de doses menores de medicação. Assim, segundo Ulrich, a necessidade e a viabilidade são explícitas. Estudos apontam que a introdução de estratégias de cuidado no desenho arquitetônico dos dispositivos de saúde gera aumentos entre 3% e 5% nos custos totais do projeto de execução, e que esse custo adicional é recuperado em um ano de atividade do serviço (ibidem). Parece-me promissor ao falarmos de processos de cuidado e ambiente construído, mas os casos apresentados neste livro nos trazem as perguntas: Qual o custo da vida? Qual vida justifica os investimentos públicos?
É possível que nossa relação com os ambientes, sejam eles naturais ou construídos, seja constantemente gravada em nosso corpo, sistema nervoso e construção identitária. Dessa forma, nossa existência e movimentos pelos lugares podem gerar atração ou repulsa, influenciar nos níveis de estresse e inclusive interferir em nosso sistema imunológico (Ellard, 2016). Abrimos assim a reflexão sobre os efeitos da cidade em nossos corpos e mentes.
Urbanidade enferma
As cidades modernas podem gerar impactos relevantes nas vidas das pessoas. A estimativa de um vaso sanitário a cada mil pessoas em Bombaim, por exemplo, nos faz imaginar a grave questão sanitária e social de algumas cidades da Índia. Situações como essa fazem disparar os índices de diversas infecções, que colocam a tuberculose como uma das principais causas de morte da cidade (Glaeser, 2020). Mas não são somente as questões sanitárias e infecciosas que influenciam a saúde na vida urbana. O agito do ambiente urbano é recheado de luzes, sons, trânsito e poluição, além da tensão das relações na multidão de desconhecidos que se amontoam nos centros das cidades (Abbot, 2012; Ellard, 2016). Essa multiplicidade de estímulos pode proporcionar um significativo sintoma: o estresse urbano.
A psiquiatra Lilith Abrahamyan Empson e colaboradores (2019) confirmam a consistência de diversos estudos que apontam como o ambiente urbano pode desempenhar papel significativo no funcionamento de nossos corpos e mentes, desde a insuficiência de vitamina D até profundas diferenças subjetivas, assim como a possibilidade de facilitar o disparo de variados sofrimentos psíquicos (Golembiewski, 2016). Segundo as autoras, não “há nenhum outro lugar onde o design seja mais onipresente do que na cidade, onde literalmente cada pedaço de lixo carrega significado e potencialmente pode tornar-se um gatilho para o desencadeamento de outras ações” (Abrahamyan Empson et al., 2019, p.4, tradução minha).
Apesar da necessidade de mais estudos nessa área, pesquisas recentes apresentam um aumento de evidências que apontam uma maior incidência nas taxas de sofrimento psíquico em zonas urbanas em relação a ambientes rurais e naturais. De fato, como vimos também nos estudos de Ulrich, a natureza relaxa e reduz níveis de ansiedade e tensão corporal (Ellard, 2016). Assim, é nas cidades, nas estruturas sociais e econômicas de cada bairro e/ou região que podemos explorar os elementos importantes para decifrar as causas e consequências dessa sina urbana nada saudável (Allardyce; Boydell, 2006).
Contudo, essa informação não é novidade. Em 1939, os sociólogos Faris and Dunham constataram significativas diferenças nas taxas de esquizofrenia em diferentes bairros de Chicago. As taxas mais elevadas concentravam-se principalmente nos distritos que apresentavam conflitos étnico-raciais e “desorganização” social como o centro da cidade (Faris; Dunham, 1939). Pouco depois, nos anos 1950, as características do povoado de Roseto no estado da Pensilvânia nos Estados Unidos seguiram despertando reflexões importantes sobre o bem-estar e a qualidade de vida em ambiente urbano (Tizón, 2006).
Roseto era uma cidade composta por imigrantes italianos que mantinham as tradições de laços afetivos e trocas comunitárias. Misteriosamente, a pequena cidade apresentava índices significativamente inferiores de adoecimentos cardiovasculares em relação à média nacional do país. Já nos anos 1980, o avanço do mercado imobiliário e a nova ocupação da cidade por classes mais abastadas norte-americanas resultou na destituição dos vínculos tradicionais de vizinhança que existiam antigamente na cidade, e consequentemente a taxa de enfermidades se equiparou à média nacional. Apesar da melhora nos hábitos alimentares, e a considerável diminuição do uso de tabaco em relação aos anos 1950, na década de 1980 a coesão social do território havia se fragmentado, e a nova desigualdade social e a falta de senso comunitário despontaram como fatores de risco para diversas adoecimentos (ibidem). As relações comunitárias de vizinhança protegiam as pessoas de Roseto. Infelizmente, essa abordagem mais aguda sobre o social foi substituída por visões biológicas e individuais a partir da década de 1970, que passaram a enfatizar a esquizofrenia, por exemplo, como uma questão exlusivamente orgânica do cérebro, e assim os tratamentos e formas de prevenção passaram também a se restringir a estratégias biológicas.
A perspectiva biologicista alia-se à dualidade entre corpo e mente amplamente valorizada desde o século XVII. A atenção sobre o contexto é subestimada pela reprodução do jargão popular “mente sã, corpo são”, mas em realidade, nosso funcionamento psíquico é também produção de como nossos corpos reagem aos entornos em que estamos presentes e sempre suscetíveis (Golembiewski, 2016). Imprudentemente, a questão ambiental na produção de saúde foi colocada praticamente à parte da discussão até o final da década de 1990, quando estudos começaram a olhar para ambas as variáveis, biológica e social (Goldsmith; Holzer; Manderscheid, 1998). Apesar da sedimentada correlação genética para o desenvolvimento de algumas doenças, atualmente existe um consenso sobre a possibilidade de interação entre os contextos e os fatores biológicos (Abrahamyan Empson et al., 2019).
Como vimos na seção anterior, espaços como as cenas públicas de uso de drogas nas cidades, que são atravessados pelas violências da repressão policial e políticas urbanas, podem ser considerados espaços estressantes capazes de gerar níveis de ansiedade e estresse significativos. Segundo o psicólogo Colin Ellard (2016, p.146, tradução minha), “Nos ambientes construídos, as dificuldades surgem, por motivos diversos, quando não podemos reagir de forma eficaz às ameaças percebidas. Nesses casos, somos obrigados a viver em locais desconfortáveis e com alto grau de percepção de ameaça, o que dá origem a uma cascata de reações neurais e endocrinológicas que podem gerar patologias mentais ou deteriorar nossa saúde física”.
Apesar de avanços investigativos, o dualismo contextual-biológico persiste. Como veremos, uma atenção mais ampla para as questões sociais certamente exige transformações radicais na lógica de produção das cidades, das relações humanas e da saúde. Portanto, para além da necessidade de investimentos financeiros, muitas dificuldades surgem de entraves disparados por disputas e vaidades políticas.
Um estudo transversal sueco trabalhou questões subjetivas dos participantes e encontrou maiores taxas de esquizofrenia em espaços caracterizados pela criminalidade, estigma, medo e desorganização social (Logdberg et al., 2004), o que nos permite a associação com as dinâmicas informais dos territórios que acolhem as cenas públicas de uso de drogas. Estudos das psiquiatras Judith Allardyce e Jane Boydell (2006) apontam a necessidade de pesquisas que investiguem como determinados grupos são segregados ou integrados em determinadas regiões e comunidades, e também a necessidade de explorar as questões subjetivas sobre a experiência social, como a discriminação, por exemplo, que podem agravar situações de risco e intensificar sofrimentos na saúde mental.
Estudos recentes sobre reações emocionais associadas a imagens cerebrais em ambientes de estresse urbano abrem pistas nesse caminho de investigações (Lederbogen et al., 2011). A partir da compreensão universal de que o cérebro interage com o entorno, segundo um dos autores do estudo, “nada sobre saúde mental ficará claro a menos que possamos olhar para o meio ambiente”. Um dos autores do estudo, Andreas Meyer-Lindenberg, diretor do Instituto Central de Saúde Mental em Mannheim, na Alemanha, acrescenta que essas pesquisas podem auxiliar a melhorar o design das áreas urbanas e “fornecer uma base científica para um código de cidade” (ibidem). Ele enfatiza que reações físicas e psicológicas ao estresse são naturais e foram estratégias essenciais para garantir nossa sobrevivência frente aos riscos superados no percurso de nossa história; os problemas podem surgir quando essas reações ocorrem constantemente, a todo momento, como em relação aos inúmeros gatilhos disparados na vida urbana moderna. Historicamente, as cidades se configuram como polos econômicos e culturais e, felizmente, novas abordagens de profissionais da arquitetura acreditam que esse outro olhar da ciência sobre a vida urbana possa também permitir que as cidades sejam formadas por territórios de cuidado, ou “berços de saúde mental” (Abbot, 2012). Coloco “saúde mental” de fato como bem-estar, e não como sinônimo de doença, como é comumente relacionada.
Para isso, a correlação entre contexto e subjetividade precisa estreitar-se. Temos informações sobre as forças do ambiente urbano no comportamento humano e nos índices de adoecimento mental, mas seguimos sem saber quais são os elementos da cidade que causam tais fenômenos. Praticamente tudo no ambiente urbano é pensado e produzido por intenções humanas, e o reconhecimento de símbolos, ícones, mensagens, palavras e formas é característica intrínseca da atividade psíquica de nossa espécie.
Jan Golembiewski aponta que a amígdala é uma região do cérebro que compõe o sistema límbico, responsável pelas emoções e comportamentos sociais. Em pessoas que crescem nas cidades essa parte do cérebro é mais suscetível e sensível ao mundo desenhado e construído; afinal, é um mundo projetado para disparar respostas humanas, independentemente de quais sejam. Segundo Golembiewski (2016, p.165), “nas narrativas que cercam a existência urbana, é inteiramente esperado que haja uma maior propensão a identificar histórias que funcionem contra nós”. Isto é, nas cidades, estamos passíveis a reações criativas ou defensivas a determinados ambientes, e para apostar mais na criatividade do que na violência é preciso assumir responsabilidade pela produção de determinados espaços proporcionando ambientes que transbordem as intenções de funcionalidade e agreguem ideias na direção de conforto, qualidade e proteção.
Como vemos, existem relações nessa troca fluida entre nossas subjetividades e o contexto, mas ambas complexidades, a da mente humana e a do contexto urbano, tornam urgente o olhar cauteloso sobre esse tema. Sigo na esteira do psicólogo Colin Ellard, ao afirmar que a coesão da vizinhança ou sua ausência podem ser decisivas para os índices de sofrimento psíquico, e os fatores que podem auxiliar no controle das taxas de incidências de tais transtornos poderiam se alterar a partir de iniciativas no desenho urbano, pois segundo Ellard (2016, p.147, tradução minha), “as ferramentas para reduzir o custo mental que pagamos por viver em uma cidade poderiam estar nas mão de arquitetos e urbanistas”. Logicamente não somente nas mãos desses profissionais, mas certamente eles são aliados importantes no processo de produção do espaço urbano.
Dessa forma, cabe-nos abrir reflexões para que seja possível a invenção de novas formas de prevenção e cuidado em contato com a cidade. Faltam pesquisas. Por isso buscamos aqui uma reflexão capaz de não somente trazer mais qualidade às mentes e aos corpos que em nosso tempo habitam nossas cidades, mas também nos auxiliar a criar cidades mais adaptadas às necessidades humanas atuais e do futuro.
Mudança de chave
É fundamental uma mudança nos ângulos de visão para avançarmos no preenchimento das diversas lacunas existentes nas indagações sobre a influência do ambiente urbano em nossa subjetividade. Atualmente, em nosso mundo contemporâneo, os sofrimentos psíquicos se apresentam como grandes custos sociais e financeiros para as cidades, e vale destacar que a população urbana no planeta apresenta crescimento exponencial (Golembiewski, 2016).
Por um lado, os arquitetos e os gestores de nossas cidades parecem pouco atentos às implicações subjetivas que os desenhos, as construções e as políticas urbanas causam no ceŕebro e na vida das pessoas. Por outro, existe também pouca compreensão da sociedade sobre o papel dos projetistas e os possíveis impactos dos ambientes construídos em nossa subjetividade. Assim, seja por baixo engajamento dos técnicos do design urbano, pelos interesses econômicos do Estado ou pela ausência de interesse e conhecimento dos clientes contratantes e da população, assistimos às cidades crescendo por meio de projetos pouco comprometidos com as consequências que os contextos urbanos podem produzir (Ornstein, 2005).
Para inovar na produção do cuidado em contextos de altíssimos riscos e vulnerabilidades, é preciso fazer apostas em estratégias que apresentam baixíssimos riscos e altíssimos benefícios em potencial, mas para isso é necessário virar a chave. E essa mudança de chave implica estar com as pessoas e escutá-las.
Quais são as sensações, percepções e sentimentos que os movimentos urbanos nos provocam?
A ideia de mudança de chave me recorda de uma palestra do artista e médico Lula Wanderley em evento chamado Experiências poéticas e políticas do sensível organizado pelo Programa de Pós-graduação em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo em 2015. Ao ser chamado para proferir sua fala, Lula foi anunciado como médico psiquiatra. Porém, ao assumir o microfone, corrigiu o mestre de cerimônias do evento afirmando que era um artista plástico, e que se utilizava dos conhecimentos da medicina para auxiliar no cuidado das pessoas. Lula atuou como médico em hospitais psiquiátricos nos anos 1980 e argumentava sobre a utilização da arte e do processo criativo como forma de comunicação com as pessoas em sofrimento psíquico. Ele dizia que, primeiramente, é preciso se comunicar com as pessoas para assim avaliar a continuidade do projeto terapêutico, e consequentemente a utilização ou não de medicamentos etc. Nessa perspectiva, a arte, o processo criativo (para além do produto final) pode se configurar como potente ferramenta de comunicação na produção do cuidado. Comunicar antes de medicar: essa é a mudança de chave. A partir dessas reflexões que Lula Wanderley me trouxe, sigo cada vez mais com a convicção de que novas alternativas dependem de radicais mudanças de chave, seja nas relações de cuidado em relação às pessoas, seja no processo de produção dos espaços.
É urgente transpor os limites entre os procedimentos tecnicistas na produção de espaços funcionais e focalizar os olhares sobre as singularidades do contexto e das pessoas na produção de cidade. Somente assim abriremos fendas de compreensão dessa correlação entre a cidade e os fenômenos da saúde mental. Como destacado em estudos anteriores (Calil, 2015), é preciso deixar de compreender a urbanidade como um agregado de descritores estatísticos de determinada áreae passar a prestar atenção ao lugar urbano e suas sensibilidades cotidianas como um todo (Abrahamyan Empson et al., 2019).
É necessário fomentar uma ideia de urbanismo que extrapole o prescritivo que idealiza o entorno urbano com uma funcionalidade desejada. Precisamos pensar em como determinados contextos urbanos podem influenciar as condições psicológicas e subjetivas de seus ocupantes, para assim ser possível avançar para uma ideia de cidade que cuide das pessoas. Na perspectiva psicogeográfica de Colin Ellard (2016, p.137, tradução minha), a alternativa é produzir cidades para além de belas passarelas, vias funcionais ou bairros agitados: “se trata de um assunto de saúde pública, especialmente de saúde mental”.
Para além do aço, tijolo e concreto
A relação entre as pessoas e as formas construídas, como prédios, pontes e demais edificações, não possui limites. As construções podem representar verdadeiras obras de arte como as estreitas e rebuscadas passagens da escultura habitável CasaPueblo, no Uruguai, um complexo espontaneamente construído pelo artista uruguaio Carlos Páez Vilaró. Podem também se posicionar como manifestações políticas que promovam a ocupação popular como o Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp) de Lina Bo Bardi. E por incrível que pareça, podem gerar inclusive sentimentos de amor incondicional e produzir complicadas relações afetivas entre pessoas e determinadas estruturas, como a sueca Eija Riita-Eklaaf, que declarou publicamente seu amor pelo muro de Berlim, e Erika Eiffel, que adotou esse nome após casar-se
com a torre em 2007 e adotar o nome de casamento.1
A proposta deste capítulo é pensar nas cidades que queremos. Porém, longe de ser como a cidade Celebration, no Condado de Osceola, Flórida, Estados Unidos, criada pela Walt Disney Company em 1996 – sim, uma cidade criada pela Disney. O projeto esbanja perfeccionismo nas ruas e idealiza a utopia da vida perfeita, literalmente o American way of life (modo de vida tradicional norte-americano), e apesar de sofrer duras críticas pela total perda de autenticidade, possui seus pequenos pontos aproveitáveis (Ellard, 2016). Quando a cidade foi criada pela companhia, acompanhou totalmente a lógica do Mercado imobiliário, e o único “direito” garantido à população foi conversar com um agente imobiliário para talvez poder comprar algum dos imóveis disponibilizados.
Segundo brochura oficial de divulgação de Celebration, o discurso utópico apelava para as características do projeto, que eram atemporais “na medida em que incorpora sensibilidades e civilidades veneradas em seu design […] moderno, pois incorpora necessidades contemporâneas”, além de buscar “gerar um senso de
lugar entre seus residentes”. 2 Pautava a possibilidade de uma vida social ativa, em que o desenho urbano foi planejado para privilegiar o deslocamento a pé entre as casas e comércios. Portanto, as garagens dos automóveis curiosamente ficam no interior das quadras, reservando as ruas em frente às casas somente para pedestres – um dos poucos pontos a meu ver interessantes no planejamento doutrinador de Celebration.
Paradoxalmente, muitos dos moradores eram funcionários da Disney, e tinham que se deslocar via automóvel aos seus trabalhos. Em 30 de dezembro de 1996, os apartamentos prontos mais baratos estavam na faixa de 209 mil dólares, as demais casas perto dos 500
mil, e as mansões na faixa de 1 milhão e 100 mil dólares3 (segundo brochura que enfatizava idealização fantasiosa com uma fonte de água com três arcos). O censo dos Estados Unidos da América do Norte de 2010 apontava 7.427 residentes na cidade. Pelo jeito, muitas pessoas aceitaram e até desejaram viver na artificialidade de Celebration. Mas deixando o caráter excludente da fonte de três arcos à parte, pensemos em nossas prioridades.
Atualmente, o conceito de cidades inteligentes vem despertando interesse por todo o mundo. Mas o que de fato caracteriza uma cidade inteligente? É comum vermos experiências que priorizam a eficiência energética atrelada à produção renovável, o uso da tecnologia para facilitar e otimizar a vida cotidiana e a adequada destinação de resíduos. A cidade de Songdo, por exemplo, na Coreia do Sul, desde 2004 vem crescendo rapidamente sob uma lógica totalmente planejada e organizada. O poder público local
assume sua intenção de torná-la “perfeita cidade modelo” 4 que possa proporcionar mudanças globais na gestão das cidades. A
avançada cidade-laboratório de Masdar,5 nos Emirados Árabes, e a
modesta City Laguna,6 no município de São Gonçalo do Amarante, no Ceará brasileiro, seguem a mesma lógica. Mesmo bastante distantes da maioria das cidades latinas – que muitas vezes sequer possuem sistema de saneamento básico – tais argumentos de otimização tecnológica, por exemplo, podem soar assustadores ao nos remeterem à ideia de uma padronização de vida e dos comportamentos humanos.
Essas alternativas são experiências interessantes e louváveis, mas partem do princípio de que muitos dos problemas urbanos são os mesmos nas diferentes partes do planeta, e oferecer um sistema genérico padrão às complexidades infinitas dos lugares não dialoga com a cultura, história e personalidade de cada território (Ellard, 2016). Assim, espero que Songdo, na Coreia do Sul, jamais seja um modelo de cidade global. Na atual era da “globalização”, circulamos mercadorias e informação a velocidade inimagináveis, mas em contrapartida pode ocorrer uma padronização das formas de pensar e produzir as cidades. Corremos o risco de suprimir as autenticidades locais e produzir heteronomias urbanas sob a ideia das “cidades genéricas” trazidas por Koolhaas (2004), destituídas de costumes e identidade, e repetidamente se homogeneizando pelo globo (ibidem; Koolhass; Mau, 1995).
A cidade de Dubai, por exemplo, apesar de diferenciar-se por sua essência puramente neoliberal em uma sociedade altamente hierarquizada, possui 80% de sua população composta por imigrantes. A sustentação de uma identidade em cidades criadas para os negócios, como Dubai, ou para a pesquisa, como Masdar, de fato se torna um desafio. Compreendendo as intenções e finalidades da fabricação de Dubai, é realmente esperado um projeto genérico e altamente funcional. Mas essa não é a realidade de São Paulo, Bogotá, Medellín e de nenhuma outra cidade latino-americana. Nossa subjetividade não é global, e não queremos cair na armadilha das cidades genéricas que podem nos transformar em sociedades e culturas genéricas. Não somos genéricos, muito menos padronizados. Recordo meu orientador, o professor Rubens Adorno, dizer-me diversas vezes que a existência humana é por natureza diversa, e é exatamente essa a maior riqueza da humanidade, e respeitar e zelar pela diferença pode ser o caminho para uma sociedade mais saudável e sustentável.
É possível uma cidade que cuida?
Qual o tecido emocional dos lugares? Entornos construídos podem influenciar nos sentimentos de solidariedade ou individualismo e prédios e vizinhanças podem influir no que sentimos em relação aos outros, ou seja, a organização do espaço a nossa volta é determinante em nossa existência e relações cotidianas. A resposta para a pergunta que nomeia este subtema é que sim, é possível. Mas para isso, é preciso virar a chave e inaugurar a ocupação de terrenos intermediários entre as criatividades estéticas do repertório arquitetônico e as realidades subjetivas das pessoas, e certamente considerar o lugar em que estão situadas, composto por suas histórias e culturas locais (Ellard, 2016). Mas como chegar a essa terceira via?
O psicólogo Colin Ellard dá algumas indicações. Estudos contemporâneos sobre o urbanismo apontam que “uma simples mudança da aparência e da estrutura física dos três metros inferiores da fachada de um edifício influencia de forma espetacular no uso que se dá a uma cidade” (ibidem, p.126, tradução minha). De fato, o gradiente de cores da fachada de alguns prédios da projetada e inteligente cidade Masdar nos Emirados Árabes reflete a luz e proporciona um ambiente mais fresco em meio ao ambiente desértico de Abu Dhabi. Exemplos urbanísticos de Estocolmo ou Melbourne apresentam códigos urbanos que determinam que toda nova construção deve apresentar um desenho que se encaixe ao dos demais prédios vizinhos – um diálogo importante para a paisagem urbana. Podemos pensar nas diretrizes de construções de baixo porte, lugares públicos flexíveis e zonas verdes. Mas para uma cidade que de fato cuide de todos e todas é preciso mais.
O acesso à água e saneamento é básico. Todos sabemos disso, desde os achados de John Snow ao localizar a fonte de disseminação da cólera em um poço de Londres em 1854 (Glaeser, 2020). Snow traçou a geografia da doença e constatou que a
disseminação estava ocorrendo por meio da água contaminada. 7 Com essa descoberta sabemos que a questão da água é primordial para a manutenção da saúde humana nas cidades. Snow e o contexto urbano produziram esse conhecimento, e é dever da cidade garantir acesso à água potável para a população. A descoberta de Snow ilustra brilhantemente as ocasiões em que a cidade produz suas próprias inovações autoprotetoras (ibidem). Mas com a população em situação de rua nunca foi assim.
Lembro diversas ocasiões no Largo Coração de Jesus em São Paulo quando as pessoas em situação de rua não podiam entrar na praça para utilizar a torneira e o bebedouro, devido à repressão moral e controle policial na entrada do Largo. Recordo-me também do bueiro entupido e da água parada na esquina da Rua Helvetia com a Dino Bueno que assim ficou por pelo menos seis meses, na região dos Campos Elíseos na Cracolândia em São Paulo. O nível da água aumentava, ficou verde escuro e exalava um cheiro forte horrível. A violência com a população estava literalmente escancarada na esquina, pelo descaso em relação à água. O problema persistiu durante todo o verão entre 2016 e 2017, de novembro a abril, e só foi resolvido após diversas denúncias que fizemos pelo É de Lei, durante os trabalhos de campo semanais.
Uma prática concreta, e que nitidamente resultava em melhoria na qualidade de vida pontual das pessoas, foi uma que aprendi quando trabalhei junto às parceiras e parceiros do Projeto Oficinas. Esse projeto foi uma experiência executada pelo Cedeca Interlagos em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo entre 2014 e 2016, e compunha as iniciativas do projeto De Braços Abertos promovido pela gestão de Fernando Haddad entre 2013 e 2016. No Oficinas, nossa preocupação extrapolou os protocolos esperados pelos profissionais vinculados aos serviços de saúde e da assistência social. Na saúde, a garantia de direitos passa por acesso aos serviços, tratamento, curativos; na assistência social, a vagas em centros de acolhida, documentação e benefícios. No Oficinas, a premissa era a garantia de todos os direitos.
Lembro de pessoas na rua puxarem a pele de seus braços e me mostrarem como demorava para retomar a forma natural de seu corpo. A causa? Desidratação: a falta de água no organismo diminui a elasticidade da pele. É um exame clínico básico para analisar níveis de desidratação. Estar na rua e realizar uma prática na perspectiva de garantia de direitos permitiu a invenção e a elaboração de novas práticas de cuidado, uma delas, a distribuição de água como insumo de prevenção. A prática consistia em estar na rua com galões de água e distribuir mais de setenta litros em menos de duas horas. Tentávamos organizar a distribuição em filas que cresciam de pessoas sedentas demanda por água. Durante a fila, conhecíamos as pessoas e criávamos laços, além de proporcionarmos hidratação em uma realidade em que o acesso à água não é nada público. Com o fim do Projeto Oficinas em 2016, o Centro de Convivência incorporou a água ao seu leque de insumos para produção do cuidado entre 2017 e 2018. As filas e a média de setenta litros em menos de duas horas seguiam no fluxo.
Na Colômbia, pude acompanhar iniciativa similar ofertada pela Fundación Procrear no distrito de Santa Fe em Bogotá em dezembro de 2018. Em frente à esquina redonda da Procrear, na calçada, me chamou a atenção o dispositivo que possuíam para aproximar as pessoas: um enorme balde de cinquenta litros cheio de água. Ao lado, uma cumbuca com sabão. As pessoas se aproximavam e lavavam as mãos, os rostos, os braços, as nucas, os sapatos e por aí vai. Seja para hidratação ou para assegurar alguma higiene pessoal, a água é indispensável. A provisão de água tratada e a higiene pessoal são há tempos reconhecidas como ferramentas extremamente eficientes no controle de inúmeras enfermidades. As duas iniciativas observadas, seja em São Paulo, seja em Bogotá, promovem a garantia básica da água em territórios altamente vulnerabilizados. Paradoxalmente, as duas são ofertadas por organizações da sociedade civil, ou seja, nenhuma delas é legitimada como política pública oferecida pelo Estado. A garantia de água potável gratuita e acesso a dispositivos de higiene pessoal deveriam ser obrigações do poder público em qualquer meio urbano. Entretanto, na cidade do Rio de Janeiro temos uma experiência importante de ressaltar: o projeto Redes da Maré literalmente construiu um banheiro público em um terreno público do Complexo da Maré em uma zona que concentra pessoas em situação de rua e que fazem uso de drogas. Narram relatos locais:
Construir um banheiro em uma favela habitada por pessoas que usam drogas se tornou um símbolo da redução da violência na área; um símbolo de negociações com líderes criminosos; e um reconhecimento do direito aos serviços para pessoas que fazem uso de drogas e de sua aceitação como vizinhos por outros moradores da favela. (Gabriel, 2019 apud Krupanski; Evans, 2020)
Em relação às questões sociais desencadeadas por processos de desigualdade política e econômica, acompanhamos uma variedade de políticas públicas executadas em direções opostas à possibilidade de uma cidade cuidadora. A terapeuta ocupacional Isabela Umbuzeiro Valent (2019, p.180-1), que investiga a possibilidade de práticas coletivas na produção de políticas de cuidado, traz rica reflexão sobre o direcionamento das políticas realizadas:
[…] ao invés de criarmos coletivamente políticas que produzam sistemas de apoio para qualquer pessoa lidar com os riscos e vulnerabilidades próprios da vida, estamos fortalecendo um mercado de seguros individualizados que geram a sensação de uma proteção que não passa da expropriação de saberes e recursos comuns que deveriam ser acessíveis a todos nós. Essa racionalidade opera capilarmente, modulando nossa forma de agir no mundo e de lidar com a vulnerabilidade. É no espaço da mesopolítica que é possível realizar mudanças nas formas de conectar com o outro e o meio, e de agir coletivamente, de realizar, portanto, intervenções políticas capazes de apoiar e liberar o agir, atribuindo responsabilidades e produzindo autonomia e comunidade.