As Drogas, as Pessoas e as Cidades
Primeira parada – O contexto latino-americano
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Primeira parada – O contexto
latino-americano
O que é a América Latina?
Esta definição é pauta de constantes debates que historicamente apresentam divergências quanto às possíveis categorias que abarcam o termo. Nesses debates, destacam-se polos que situam o termo ora de origem colonizadora, fazendo referência à condição de dominada e atribuindo certa incapacidade e atraso em relação às nações dominantes, e outrora como singular a partir da riqueza de suas diferenças culturais apontadas por teóricos e pensadores regionalistas (Souza, 2011).
A primeira aparição do termo gera controvérsias. Segundo Souza, o termo é francês, Amérique Latine, e foi utilizado para justificar o imperialismo francês na região do México em meados do século XIX. Ainda segundo o autor, esta terminologia foi parte de um “discurso “geoideológico” para uma suposta unidade linguística, cultural e racial dos povos latinos em contraposição aos germânicos, anglo-saxões e eslavos” (Souza, 2011, p.31). Porém, apesar da ênfase na origem francesa, o colombiano José Maria Torres de Caicedo (apud ibidem) utilizou o termo pela primeira vez em 1856 em poema intitulado “Las dos Américas”, em que na nona estrofe aparece:
Más aislados se encuentran, desunidos,
Esos pueblos nacidos para aliarse:
La unión es su deber, su ley amarse:
Igual origen tienen y misión;
La raza de la América Latina,
Al frente tiene la sajona raza,
Enemiga mortal que ya amenaza
Su libertad destruir y su pendón.
Em dados concretos, e de modo significativamente simplista, podemos situar a América Latina como o agrupamento de 33 nações (doze na América do Sul, sete na América Central e catorze no Caribe), somando cerca de 600 milhões de habitantes. Porém, apesar da enorme abrangência territorial e do leque de diversidade cultural e racial que abrange a região, os países da América Latina apresentam algumas características em comum no que tange ao processo histórico, político, econômico e social (Souza, 2011). Podemos apontar como uma dessas semelhanças o longo processo de colonização pautado por modos de exploração em relação às pessoas e ao solo, inicialmente pela relação metrópole colônia e posteriormente perpetuado como um rastro por meio de um colonialismo interno. Existem também posicionamentos que enaltecem a força local em defesa da região.
O fato é que desde a chegada dos europeus a região sofre influências políticas e econômicas diretas de outros países. A fim de exemplo, cito o curioso Tratado Vásquez-Saccio de 1972 entre Colômbia e Estados Unidos da América do Norte. No acordo, os Estados Unidos renunciam suas pretensões em relação ao arquipélago de San Andrés e Providencia no Mar do Caribe colombiano, cedendo as ilhas ao Governo Colombiano. Porém, em contrapartida, o acordo permite a pesca de empresas norte-americanas nessas águas agora colombianas. O saldo: lucro para capitalistas norte-americanos e a supressão do modo de vida tradicional local (Abello Vives, 2005). Como veremos, tal processo de dominação e espoliação em nada difere ao tocar os efeitos das políticas de drogas na América Latina.
Segundo Juan Gabriel Tokatlian, o debate internacional sobre as políticas de drogas restritivas iniciou em 1909, com a Comissão Internacional do Ópio de Shangai, Convenção do Ópio de Haya em 1912 e a Convenção do Ópio de Genebra em 1925. De acordo com o autor, nesse momento as decisões couberam aos países com posições econômicas centrais, e assim “a voz da periferia era insignificante e se entendia que as nações produtoras de substâncias psicoativas declaradas ilegais deveriam se adaptar às incipientes ‘regras do jogo’ em termos de luta contra o narcotráfico” (Tokatlian, 2017, p.17).
A primeira metade do século XX foi marcada pelos prejuízos decorrentes das duas grandes Guerras Mundiais, e as consequências das políticas de drogas coercitivas nos países chamados “subdesenvolvidos” não eram uma preocupação para as grandes potências mundiais. Segundo Tokatlian, na segunda metade do século XX, o momento pós-guerra evidenciou a hegemonia da influência dos Estados Unidos, que protagonizou diversos marcos internacionais: convenção única de 1961 sobre entorpecentes, convenção de 1971 sobre substâncias psicotrópicas e posteriormente a convenção de 1988 contra tráfico ilícito de entorpecentes e substâncias psicotrópicas. Ainda segundo Tokatlian (ibidem, p.19, tradução minha), “instalou-se e começou a estender-se assim a prática de ‘narcodiplomacia’, entendida como um tipo de relação em que o ator mais poderoso e influente (os Estados Unidos) logra exportar sua concepção de uma guerra contra as drogas a nações mais fracas ou subordinadas”.
Em 1971, a declaração do presidente dos Estado Unidos Richard Nixon colocou as drogas como “inimigo número 1” dos Estados Unidos. Seu argumento dividiu o mundo em dois lados: países produtores e países consumidores. Essa divisão oportunamente alocava a população consumidora norte-americana como vítima dos países produtores, como a Colômbia, por exemplo. Para os Estados Unidos, era preciso exterminar a produção estrangeira, extirpando a ameaça que vinha de fora. Com a criação do Drug Enforcement Administration (DEA) em 1974, essa pressão avançou rapidamente para o México, Caribe e Colômbia (Rodrigues; Labate apud Labate; Rodrigues, 2015). Adiante aprofundaremos algumas questões que ampliam o olhar sobre a jornada de guerra às drogas pautada pelos Estados Unidos e seus interesses submersos durante todo o século XX.
Confirma-se assim o início e validação de influência e sucessivas intervenções internacionais com múltiplas violações de direitos humanos em territórios latinos, pois as expectativas em relação ao modelo de cidade e a expansão econômica na região viam-se frustradas diante das condições desiguais da formação histórica local como consequência do colonialismo tão determinantes em toda América Latina (Carneiro apud Labate; Rodrigues, 2015, p.17). Cresciam as cidades e aumentava a pobreza, e intrínseca a isto a necessidade de se moldar a um padrão de comportamento adequado aos valores produtivos do sistema capitalista. As drogas em si não eram um problema, mas justificavam um problema criado a partir de juízos morais e estratégias de controle para interesses econômicos e geopolíticos. Labate e Rodrigues (2015, p.20, tradução minha) apontam: “A produção de leis respondeu a dinâmicas complexas construídas por níveis de discursos e práticas sociais que combinavam, por exemplo, sentimentos xenófobos, racismo, moralismo, preconceitos sociais, políticas de controle das populações urbanas e camponesas, interesses econômicos e regulação da atividade médica”.
Mas por que tanto interesse e ganância pelo controle do continente latino? As riquezas culturais e naturais certamente entram na conta, mas a conta não fecha sem a consideração de outras dinâmicas de mercado. Como veremos, produtos como o ouro e a cocaína são decisivos para essa dinâmica de comércio, e no mercado de drogas ilícitas a América Latina tem significativa participação, pois Colômbia, Peru e Bolívia historicamente despontam como maiores e únicos produtores globais de cocaína. O Paraguai, além de intermediar grande parte da cocaína de passagem para o Brasil, é o maior produtor de maconha da América do Sul (Garat, 2016). Segundo Guillermo Garat (2016), a soma de movimentações pelo mercado de maconha e cocaína do Paraguai em 2016 equipara-se às transações financeiras de seu principal produto exportado legalmente, a soja, no mesmo ano.
Os valores dos produtos geram interesses diversos. A economia ilegal das drogas se mistura com a legal em circuitos de corrupção por todo o continente, que vive permanentes ondas de violência e conflito, contando com alianças entre Estados e organizações criminosas. Nesse emaranhado, as ligações entre empresas multinacionais, latifundiários, drogas, traficantes, corrupção e violência irrigam as estruturas sociais e de poder de muitos países da região (ibidem).
As cidades e as pessoas latinas
Assim como definir o que configura a América Latina por sua vasta heterogeneidade cultural, é difícil também dizer o que são e como são suas cidades, mas é possível aferir que muitas delas cresceram demasiadamente entre os séculos XIX e XX sob o domínio de uma elite de imigrantes europeus, que com políticas importadas referenciavam modos de vida e planos urbanísticos das metrópoles europeias. Entretanto, esse ideal de cidade não considerou as especificidades locais de desigualdade carimbadas pela colonização de cunho escravocrata. Segundo o arquiteto e historiador Adrián Gorelik (2005, p.113),
assim como o balanço do processo imigratório, realizado pelos grupos dirigentes – diante de uma realidade que não parecia satisfazer aos anseios raciais, políticos e culturais daquele programa intelectual –, foi desolador, e também as cidades e as regiões afetadas por esse processo mudaram por completo, introduzindo novos problemas e novos programas. De modo que a consciência, muitas vezes trágica, dessa defasagem entre projeto e realidade é outra constante na história intelectual latino-americana.
Esta tensão entre vontade projetiva e existência real das cidades latinas em suas origens (ibidem) produziu uma ideia de desenvolvimento bastante duvidoso. De um lado, a elite preocupada com a perpetuação de sua condição de poder atribuído pelo capital e pela áurea simbólica de conquistadores; de outro, o surgimento de uma sociedade díspar em oportunidades e acessos. Essa distância obscureceu qualquer possibilidade de convivência com o diferente e com a vida comum que surgia no dia a dia das cidades latinas.
Contudo, esse abismo social não parecia relevante na época, pois o importante era acompanhar o movimento de mercado de exportações impulsionado pelas economias colonizadoras. Assim, durante todo o século XIX, muitas cidades latinas lançaram processos de ressignificação de suas imagens de “cidades coloniais”, iniciando ambiciosos planos de modernização em suas estruturas urbanas e sociais. A marca desse movimento foi a expansão de redes ferroviárias; afinal, naquela época a presença de imigrantes e de estações de trem cheias representava as veias do progresso industrial (Almandoz, 2002).
O filósofo e urbanista venezuelano, Arturo Almandoz, porém, aponta a desconexão da política urbana com a vida cotidiana na cidade. Mesmo após a independência da maioria dos países sul-americanos entre 1810 e 1825, as cidades latinas foram fortemente influenciadas pelas urbes europeias ocasionando transformações urbanas significativas no final do século XIX. Somente após a primeira Guerra Mundial, já no século XX, ocorreu uma mudança de eixo, quando as cidades dos Estados Unidos despontaram como principal referencial urbano a ser perseguido. Seguia assim a adaptação compulsória aos referenciais forasteiros. Segundo Almandoz (ibidem), a dependência econômica e cultural atrelada à aplicação de um urbanismo europeu na América persistiu com fortes transformações na cidade e no espaço urbano, que criaram desafios econômicos e sociais, submetendo a população latina às imposições de modelos culturais estrangeiros.
No início do século XX as cidades latinas passaram por processos de branqueamento da população com a chegada de muitos imigrantes italianos, espanhóis, portugueses e alemães, entre outros. Nessa época, as propostas de reurbanização baseavam-se na introdução de planos urbanísticos que inspirassem cidades modernas seguidas por grandes ações de saúde pública como as campanhas de vacinação em massa – um conjunto de práticas que criava contextos de radical exclusão. Segundo Labate e Rodrigues (2015, p.40, tradução minha), “esses programas modernizadores foram conduzidos de forma autoritária, deslocando os mais pobres das áreas valorizadas das cidades. Ao mesmo tempo, intensificaram-se as políticas de repressão seletiva dirigidas a negros, mestiços e pobres, acompanhando o ritmo da crescente urbanização do país”.
Portanto, paralelamente ao crescimento explosivo das cidades latinas, explodiram também processos de segregação e estigmatização na tentativa de delimitar contornos de uma cultura original e pura, negligenciando dinâmicas populares e ilícitas de sobrevivência, além de responsabilizar essas minorias pela deterioração urbana e consequente sentimento de insegurança (Figueiras, 2008). Foi assim que o desenvolvimento sob efeito do capitalismo globalizado trouxe consigo desde seu início, como parte intrínseca ao seu crescimento a qualquer custo, os fenômenos de grande desigualdade, miséria e pobreza.
Os desenhos das cidades capitalistas apresentaram uma cidade homogênea, higiênica, biológica, a partir do que pode ser lido como saudável sob determinado referencial, e assim naturalmente oprimiram qualquer tipo de diferença que poderia ser considerada uma ameaça. Para eliminar os incômodos para o ideal da máquina capitalista, são adotadas estratégias que podem ser facilmente relacionadas às formas de controle da população. Segundo Rodas e Arboleda (2016, p.86, tradução minha), “para alcançar esse controle, são criadas socialmente derivações sociolinguísticas, que permeiam constantemente as pessoas e criam nelas estigmas e categorias sob substantivos para nomear um lugar ou uma pessoa”.
No Brasil, na cidade de São Paulo por exemplo, podemos destacar como a figura do “noia” atribuída às pessoas em situação de rua que fazem uso de crack expressa uma síntese deliberada de um inimigo político criado, capaz de vulnerabilizar a relação entre os corpos e os espaços públicos, as subjetividades e os territórios. Em espaços em que ocorre uso de drogas, esse inimigo fabricado politicamente cria uma atmosfera parasitária que justifica intervenções do poder público para a perpetuação do controle e processos de exploração estrutural de parte da população.
Em contextos que concentram o uso de drogas ilícitas, como a Cracolândia em São Paulo, o antigo Cartucho/Bronx em Bogotá e a Calle Cúcuta em Medellín, a criação de imaginários sociais está associada ao papel da mídia que alastra um pânico generalizado, sendo capaz de antecipar a “violência vivida” para a noção de “violência presumida”. Como efeito, tal presunção torna-se justificativa para a intensificação de ações repressivas por parte das instituições de segurança e o fomento de grandes projetos urbanísticos de requalificação. Nesse processo, a cidade entra em uma atmosfera de “sociabilidade violenta”, produzindo instabilidade do vínculo civil entre as pessoas. Essa noção de “sociabilidade violenta”, segundo Luiz Antonio Machado da Silva na leitura de Beatriz Figueiras (2008, p.181), é um “contexto de exacerbação do individualismo, de transformação da força em mecanismo regulador das relações sociais, organizador de um complexo orgânico de práticas e rotinas cotidianas que transbordam a violência em forma de vida”.
Porém, nas cidades e nas ruas o que encontramos são as pessoas. Pessoas em situação de subordinação social, atravessadas por forças e estratégias totalitárias de controle e dominação impostas por parte da sociedade e administração “pública”. Coloco o público entre aspas pois é preciso destacar a condução de tal administração pautada por interesses particulares e movimentações financeiras em direção a lucros exponenciais. A cidade gira em torno de números, e os sujeitos que vivem a desigualdade experimentam condições de vida extremamente adversas.
Historicamente, parcelas da população de cidades da América do Sul sofrem pressões inconscientes de controle que atravessam a vida, a subjetividade e os sentimentos das pessoas. O psicólogo José Moura Gonçalves Filho (1998) aponta as “mensagens enigmáticas de rebaixamento” como elemento importante na execução da biopolítica das populações. Segundo o autor, por meio de processos históricos de subordinação e consequente opressão subjetiva, os sujeitos são invadidos por uma força que dificulta as chances de transformação da realidade. Podemos sinalizar esse processo de desigualdade nas relações como consequência da desigualdade de classes, resultado de desigualdade política – desigualdade que, com naturalidade, seleciona quem manda e quem obedece. Acompanho o professor Gonçalves Filho (ibidem, p.41), entendendo a desigualdade das relações quando “[…] o sentimento e a imaginação estão fincados numa situação real de rebaixamento. A situação imediata é sempre a situação mediada pela longa história de rebaixamento, submissão que se torna espontânea. Diríamos melhor: torna-se automática”.
Vale ressaltar que a desigualdade se apresenta como um dos problemas humanos mais enigmáticos, pois é “aquele cuja solução precede a de todos os outros” (ibidem, p.48). Há uma desigualdade que produz e reproduz relações de poder nas sobreposições das subjetividades, em que uma literalmente monta em cima da outra, apertando os sujeitos à submissão de uma realidade imposta por interesses oligárquicos. É uma humilhação que tem caráter devastador pela complexidade com que atua, e ainda segundo Gonçalves Filho (ibidem, p.44), o processo de violência e humilhação
[…] age destrutivamente pelos dois extremos do psiquismo. Comparece pelo lado dos enigmas que nos vem ferir, que infestam a subjetividade e nela se inscrevem como fonte de processos inconscientes, processos primários, pulsão e angústia. E comparece pelo lado da alavanca que vem em companhia dos outros, desmontando-a, roubando do humilhado o reconhecimento do outro, o reconhecimento de sua dignidade. Estes fatos externos-internos caracterizam assiduamente a psicologia do oprimido: desencadeiam afetos vertiginosos, “despencadores”, afetos sem nome – como qualificá-los? um susto? o medo? o pavor? tristeza? ódio? culpa? solidão? As formas deste desencadeamento podem variar: as lágrimas, o emudecimento, o endurecimento, o protesto confuso, a ação violenta e até o crime.
O Estado, formado por indivíduos que negam o reconhecimento da diferença do outro como riqueza da diversidade humana, é capturado pela lógica do capital e do poder, submetendo parte da população a “despencamentos” subjetivos. Assim, destina a essa parte da população considerada parasita – ou os “sem valor” – golpes e violações de direitos, justificados moralmente pela pobreza, pela cor da pele ou pelo uso de substâncias psicoativas. É uma violência arbitrária que amassa as pessoas pela angústia, reproduzindo essa marca para ou outros, para a comunidade e para si mesmos.
Estamos falando de experiências pessoais que se configuram como vítimas de um distante, porém paradoxalmente imbricado, mundo globalizado, no qual os ganhos das diversas movimentações financeiras internacionais estão nas mãos de poucos. Na América Latina, após a relação de exploração colonial, estende-se ao longo da história um colonialismo interno em que forças políticas e de mercado regionais, nacionais e internacionais apresentam a nítida pretensão de explorar e subtrair riquezas, sejam elas lícitas ou ilícitas, naturais ou não, atuando como engrenagens produtoras das mais variadas formas de desigualdade – em alguns países mais, em outros menos, mas podemos inferir esse padrão como característica do modo de exploração latina.
Este livro focaliza as realidades brasileira e colombiana, mas vale destacar experiências vividas em outros territórios latinos que foram atravessadas por sensações e compreensões que auxiliam o desenvolvimento da linha de raciocínio proposta. No final de 2018 a Venezuela apareceu no meio do percurso. Logo que cheguei na Colômbia com apoio do Programa Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) como etapa de desenvolvimento do projeto de doutorado, tive dificuldade para acessar o restante do apoio financeiro disponibilizado pela instituição. Depois de desgastante e inócua troca de e-mails com um banco no Brasil, questões burocráticas impuseram que para acessar a parte restante do auxílio financeiro, seria necessário ir até uma agência bancária em solo brasileiro. Avião? Preços exorbitantes impediam essa estratégia. A saída era ir por terra. Partindo de Bogotá, uma rápida olhada no mapa mostrava a cidade brasileira mais próxima: Pacaraima, noroeste de Roraima (RR), zona fronteiriça entre o Brasil e a província de Bolívar na Venezuela. Era para lá que eu tinha que ir.
A alternativa foi cruzar a Venezuela.
“Corazón de seda”
Mi dios, cuánta gente saliendo de ese país… Este hombre no se da cuenta de que ya no lo queremos más.
Sulia, 55 anos, em referência ao presidente
Nicolás Maduro. Moradora do estado de
Sucre, Venezuela, na fronteira indo visitar
filho que migrou ao Peru
Na Venezuela a situação está complicada há tempos. A fala de dona Sulia retrata a ingenuidade de parte da população em relação às intenções do governo de Nicolás Maduro. As frentes oposicionistas com apoio da política internacional também parecem não apresentar uma saída saudável para o país. Nesta disputa, a Venezuela amarga cada vez mais a desigualdade, o autoritarismo e a violência endereçada aos mais pobres. Podemos dizer ser uma radicalização da exploração contemporânea de forças do capital revestidas em jalecos de uma ideia de Estado totalmente equivocada e perversa. As complexas questões históricas, políticas e de dependência econômica que precedem o momento venezuelano não caberiam no foco deste estudo, mas o fato é que atualmente, a condição de vida das pessoas nesse pedaço da América Latina segue submetida às pressões colonialistas internas e externas.
Em meus primeiros minutos em território Venezuelano, na fila da imigração, fui duplamente alertado sobre os rumos da democracia do Estado autoritário agora governado por Nicolás Maduro. O primeiro alerta, metafórico: preso à parede do guichê da Polícia Nacional de imigração Venezuelana, uma placa com os dizeres “Aqui não se fala mal de Chávez”. O segundo, bastante concreto, me deixou em estado de alerta e apreensão durante os nove dias que estive no país: um rapaz da periferia de Caracas, chamado Rubén – um dos venezuelanos que tentava ganhar a vida na Colômbia e regressava para visita à sua terra natal –, me transmitiu a valiosa informação de que é “proibido” ter dólares na Venezuela. O “proibido” entre aspas de Rubén queria dizer que se a Guarda Nacional encontrasse dólares, ela extorquiria, principalmente de figuras estrangeiras como eu. Com alguns dólares na mochila, minha ingênua precaução de levá-los para alguma emergência ironicamente acabava de me colocar em risco. Rubén ainda acrescentou: “A Guarda Nacional é extremamente corrupta, são bandidos de uniforme” (Diário de campo, 23 nov. 2018).
Outros detalhes dessa experiência na Venezuela são palavras para outro texto, mas posso afirmar que o país se encontrava destroçado. Em um momento de extrema crise social, e afogado em uma inflação de 9.500% em 2019, foi comum ver muito dinheiro nas mãos das pessoas, mas, ironicamente, muito volume que não valia nada. O paradoxo da abundância insignificante. Infraestrutura básica abaixo do precário, afinal, “se o Estado abandonou, o povo abandona também”, me relatou um morador da Charallave, periferia sul de Caracas. O sentimento de insegurança e perigo de estar em uma sociedade desesperada por qualquer tipo de renda, fosse ou não por via legal, parecia ecoar no ar em todo canto da Venezuela. Ônibus velhos, muitas horas em viagens em pleno desconforto, comércios fechados e corrupção e intimidação da Guarda Nacional a todo instante. Trouxe na bagagem até mordida de cachorro na perna de madrugada. Foram nove dias, dez ônibus e um banho para cruzar a Venezuela. A falta de água acompanha o cotidiano. Apesar da insegurança que me asseguravam existir, andei sempre em grupo, e só assim foi possível enfrentar as muitas adversidades e reconhecer a solidariedade do povo venezuelano que pouco a recebe de volta.
Em outro trecho da viagem, em novembro de 2018, dentro do ônibus rumo a Valencia após uma hora de atraso em um sol estupidamente quente, uma confusão devido a uma família que levava muitas bolsas, sacolas de comida e malas no corredor central do ônibus chamou minha atenção. Curiosamente, o motorista alegava excesso de bagagem. Seria uma tentativa desconectada da realidade de formalização e controle em um sistema totalmente precário e informal? Os minutos seguintes me responderam quando o motorista cobrou uma quantia em dinheiro e após a família expressar não ter o valor exigido, o motorista confiscou uma sacola com dois sacos de arroz e salgadinhos – triste extorsão declarada; era lastimável como para qualquer lado sentia a ânsia por algum ganho, mesmo que a vítima fosse o próximo em condição parecida.
Ao meu lado sentou-se Ramírez, um rapaz de no máximo 45 anos, careca e com olhar vago. Me contou que antes do nascimento do segundo filho esteve por um tempo na cidade de Cúcuta, divisa com a Colômbia. Lá trabalhou como açougueiro, o ofício que disse dominar e no qual ter experiência, mas também já trabalhou com “pescado”, pois era preciso trabalhar e era o que tinha para fazer. Ramírez acrescentou que agora está vindo do “km 88”, a região de mineração legal e ilegal conhecida como Las Claritas, no meio da região de preservação repleta de belezas naturais conhecida por Gran Sabana. Ele acrescentou que após o nascimento do segundo filho, tentou a vida na mineração de ouro por ali durante um breve período de quatro meses. Apesar do olhar vago, se dizia animado por estar voltando para Maracay, cidade onde estavam a mulher, os filhos, sua mãe e os demais da família. Ramírez detalhava: “Meu primeiro filho é muito apegado a mim. Já o segundo, não tivemos muito tempo e não estávamos muito próximos. Fui à mina quando ele tinha três meses, vou voltar agora que ele tem sete”. Com o marear dos olhos ao dividir sua íntima história comigo em um ônibus velho e quente, Ramírez parecia determinado a querer ficar um tempo junto da família.
Sobre a vida na mineração ele não comemorava vantagens ou facilidades. “Além do cansaço, é um trabalho que se faz com os pés sempre molhados, e há cortes nos pés que só sangram depois de um tempo. É quando a ferida realmente dói.”. O rapaz discorreu sobre uma realidade dura e precária, mas que para ele de alguma forma valia a pena, apesar da incerteza de, nas suas palavras: “achar ouro ou não”. Na ocasião, suspeitei que o havia encontrado. Seu argumento de estar voltando para encontrar a família girava em torno de ter feito algum dinheiro durante os quatro meses que esteve na mina. Naquela noite nossa viagem foi interrompida por quatro fiscalizações da Guarda Nacional. Ramírez, com sábia movimentação neutra ao descer do ônibus, conseguiu driblar todas as vezes que os oficiais da Guarda Nacional revistassem suas roupas e mochila. Pela perspicácia, imaginei que poderia estar evitando as fiscalizações da Guarda Nacional. Ambos sabíamos o que aconteceria se encontrassem ouro escondido. Decidi ficar próximo de Ramírez e seguir seus movimentos, e assim também evitei revistas aos meus pertences já que ocultava aqueles dólares suados no sapato. Ao chegarmos a Maracay, ele se despediu de mim com um sorriso no rosto e se foi. Melancolicamente, senti que esse homem venezuelano, em uma dinâmica cíclica de pingar entre possibilidade de sustento para si e para sua família, expressava em seu olhar a certeza de uma vida incerta.
Essa foi uma breve apresentação de uma realidade recorrente na América Latina. Apesar da enorme abrangência territorial e do leque de diversidade cultural e racial que abrange a região, os países latinos apresentam algumas características em comum no que tange aos processos históricos, políticos e sociais de desigualdade e exploração (SOUZA, 2011). Podemos apontar como uma dessas semelhanças a colonização pautada por modos de exploração em relação às pessoas e ao solo. É importante considerar que no contexto venezuelano, a questão da dependência econômica é bastante particular, mas ainda assim, muitos aspectos da realidade venezuelana se mesclam intimamente com a história dos outros países do continente, que juntos enfrentam sistematicamente o ônus hereditário das estruturas políticas e relações de poder instauradas pelo colonialismo.
Os deslocamentos geográficos de Ramírez e Dona Sulia ilustram a busca por oportunidades que acendem a esperança de uma melhor condição de vida. Esse incessante trânsito é provocado por situações de mercado que literalmente avassalam os mais pobres. Nas zonas rurais, são as pessoas que assistem o assalto a suas montanhas e rios na trilha pelo ouro, a suas florestas pelo corte da madeira e a seus campos pela colheita dos arbustos de coca. Nas cidades, são os pobres desprovidos de acessos e direitos que também se tornam alvos de violência estatal de diferentes formas e sofrem o preconceito e o descaso generalizado da sociedade.
Essas consequências bastante carregadas são condições de vida que podem ser traduzidas pelo termo “humilhação social”, que certamente é expressa por um coletivo, por um grupo, pela sociedade. Entretanto, tais situações proporcionam sentimentos e sofrimentos diversos no âmbito individual das pessoas latinas.
Nas próximas páginas avançaremos para territórios colombianos e brasileiros. A trilha pela perseguição ao ouro venezuelano de Ramírez, gerada pela ilusória riqueza repentina, fará contato com outras riquezas latino-americanas.
Porém, antes de deixar a Venezuela, saudosamente narro o momento ao final do longo e desconfortável percurso de quinze
horas deitado no piso de uma Encava1 para cruzar o curto trecho de aproximadamente 325 km entre Puerto de La Cruz-Barcelona e Caracas. Recordo levantar-me para ver de longe a parafernália da maior refinaria de petróleo do país à beira do oceano no mar do Caribe. Assustava imaginar o contraste dos bilhões gerados pelo negócio do petróleo e a condição real de vida que eu observava em grande parte das pessoas. Próxima a mim, uma moça jovem que se despediu dolorosamente da família antes de partirmos de Caracas, ao me assistir deitado no chão, me ofereceu uma pequena almofadinha azul. Aceitei e agradeci. Salvou a viagem. A moça dormiu quase o tempo todo, quando não cantava algum hit de cumbia latina que tocava no ônibus, como “Corazón de seda”,
sucesso nas terras de bandeira amarela, azul e vermelha2 do sonho de Bolívar. Como dona Sulia, na epígrafe desta parte do texto, que de forma ingênua queria acreditar que Maduro não sabe de suas consequências ao povo, o coração da moça parecia macio como sua solidariedade para comigo, ao ter me oferecido um pouquinho,
que seja, de conforto (Figura 2).
Figura 2 – Deitado no piso da Encava, entre Caracas e
Puerto de La Cruz-Barcelona, Venezuela. Novembro de
2018.
Fonte: desenho elaborado pelo autor.
Confluências de rios de pó
Una libra de pescado bocochico puede valer mil pesos. Los gringos quieren comprar cincuenta o más por menos de mil pesos cada una. Mucha gente vende pescado así. Yo no! Si es así prefiero dejar el pez en el río.
Relato de um pescador do rio Atrato, Chocó,
Colômbia, abril de 2019
Após cruzar o rio Orinoco, principal curso de água da Venezuela, seguimos para as proximidades de outro rio, o Atrato, já em terras colombianas. Em uma jornada pelos caminhos da coca – que, assim como o ouro, é produto extremamente rentável e naturalmente se alia a dinâmicas de exploração e mercado pautadas pela reprodução de capital –, busquei também me aproximar e experimentar o interior de países latinos, interior que denuncia traços de desesperança econômica nas zonas rurais, que como veremos, desemboca em nítidas consequências sociais em contexto urbano.
Nos meus primeiros dias na Universidade de Medellín em janeiro de 2019, tomava um café enquanto dividia meus interesses de pesquisa com o professor Juan Camilo Vásquez Atehortúa, da Faculdade de Ciências Sociais. Camilo trabalha a temática da coprodução do conhecimento, e ao conversarmos sobre a questão das drogas e a redução de danos, o professor comentou que daria aulas na cidade de Quibdó em parceria com uma Universidade
local. Segundo ele, a cidade estava no departamento3 de Chocó, na Costa Pacífica, “o mais ‘esquecido’ pelo Estado colombiano”, ele dizia. Após minutos de conversa, Camilo me convidou para acompanhá-lo e disse que além de ser um local de natureza fascinante e com a maior concentração de pessoas afrodescendentes da Colômbia, a região apresenta também entre seus problemas sociais a questão das drogas. Situada às margens do rio Atrato, Quibdó tornou-se rota para tráfico de cocaína com acesso fluvial pela floresta em direção ao norte no mar do Caribe. “Dizem que se pode ver os barcos passando pelo rio de madrugada”, comentou o professor Camilo. A breve pesquisa que fiz naquela noite sobre Quibdó e o departamento de Chocó apontou também a presença da mineração de ouro. Infelizmente a agenda do professor Camilo e a minha não possibilitaram irmos juntos, mas felizmente não perdi a oportunidade de sentir Quibdó: fui sozinho.
No dia que cheguei a Quibdó, em abril de 2019, encontrei Chapita, uma mulher que conheci por meio do professor Hilderman Cardona Rodas da Universidade de Medellín. Ela é uma jovem ativista pelos direitos humanos e juventude, além de pautar a valorização da cultura afro na cidade. Antes de encontrá-la, Chapitah me passou por telefone complexas informações do trajeto para sua casa para que eu pudesse explicar aos rapazes de “mototáxi”. Ao localizar o endereço no mapa, vi que não era distante do centro, e informei Chapitah que iria caminhando. Ela enfaticamente alertou para não mostrar o celular para ver o mapa enquanto caminhava pelas ruas, pois disse que “o bairro aqui é perigoso”. Anotei as informações que ela havia passado e desenhei um pequeno e rústico mapa para me guiar até sua casa. Na varanda de sua casa Chapitah me contou das características afrodescendentes do departamento de Chocó, além de ressaltar que as estatísticas da população negra vêm diminuindo com o passar do tempo, pois além da mistura racial, existe “certa vergonha da população de se autodeclarar negra”. De fato, por ser um dos poucos brancos, me senti bastante observado em meio à juventude negra que improvisava incríveis passos de hip-hop no fim de tarde na praça da Igreja à beira do rio. Contrapondo o progressivo apagamento das origens culturais e raciais associada à ocupação escrava da região, atualmente em Quibdó existem algumas estratégias de valorização da cultura afro, como o bar-café Motete. Lá pude conhecer ao vivo esta canção da cantora local Marsh Waris:
Estoy en proceso de deconstrucción
de la historia que me han vendido, con ganas de conocer a fondo de dónde he venido… De mis ancestras, hombres y mujeres negras que han luchado por sus familias, que han luchado por sus tierras, también mucho que aprender de los indígenas todo esto para conocerme a mí misma.
Manifestación,
de una fémina, de una negra
Manifestación,
antirracista de una negra
“Manifestación”, de Marsh Waris, Quibdó-Chocó, Colômbia
De fato, o departamento de Chocó parece não ser uma prioridade para o Estado colombiano. No café-bar Motete, enquanto apreciava a música “Manifestación” de Marsh, folheei um zine local chamado “Norteño”, produzido pela Red Juvenil de Mujeres Chocoanas. O informativo abordava a estrutural falta de água encanada nos bairros da zona norte de Quibdó. Apesar da excessiva umidade no ar e dos índices pluviométricos abundantes na região, a luta pelo direito à água afirma-se presente na cidade.
Sobre a questão das drogas, Chapitah me contou que apesar de o departamento de Chocó apresentar algum cultivo de coca, na visão dela, o departamento é vítima principalmente das consequências sociais do narcotráfico, afinal não tem índices significativos de cultivo nem de uso de cocaína. Chapitah também recordava sua infância no povoado de Condoto, em um dos rios afluentes mais ao sul no Atrato. Lembrou que jogavam areia do fundo do rio para cima e brincavam de “chuva de ouro”, e dizia que “era uma coisa muito normal para a gente a relação com o ouro”. Chapitah lamentava, naquele momento, as trágicas deformações nos cursos dos rios causadas pelas enormes dragas que remexem seu leito e disse que “as comunidades locais já não reconhecem o curso dos rios”.
Observando a força do rio do malecón de Quibdó e as canoas motorizadas que iam e vinham carregadas de bananas, eu pensava no ouro e imaginava se os barcos que passavam em velocidade estariam transportando cocaína. Os barcos motorizados parecem conhecer bem o caminho dos rios. Entre esses movimentos e divagações, eu buscava realizar as associações entre a cocaína e o ouro que essa parte do mundo me convidava a fazer. Fui pego de surpresa quando uma menina se aproximou de mim e curiosamente perguntou: “Essas pulseiras no seu braço são de ouro?” Estranho. Nunca haviam me perguntado sobre o material das pulseiras de cobre e latão que carrego uma em cada pulso há mais de uma década. Ali, o ouro de fato permeia o imaginário.
O antropólogo Michael Taussig, atualmente professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, esteve parte de sua vida relacionado com a Universidad de Cauca, na cidade de Popayán, Colômbia. Nos anos 1970, e mais assiduamente entre 1990 e 2002, Taussig esteve inúmeras vezes em regiões próximas à Costa Pacífica colombiana com a intenção de escrever um livro sobre as pessoas e a mineração, e percebeu que à medida que a aparição do ouro diminuía, a presença da cocaína aumentava. Unir os mundos do Ouro e da Cocaína é narrar a história de pessoas exploradas que se sustentam em condições precárias de sobrevivência (Taussig, 2013). Há vidas precárias no meio de giros exorbitantes de capital atrelados ao produto final de sua mão de obra, mas os ganhos financeiros e a esperada ascensão social provenientes de sua comercialização certamente passam distantes das mãos e dos olhos.
Falar sobre cocaína pode ser também falar do “ouro branco”. Falar do ouro é também imaginar o reluzir amarelo do ouro em pó do fundo dos rios. Na América Latina, ouro é coca e coca é ouro. Taussig faz exuberante narrativa dessa aproximação em seu livro Mi museo de la cocaína (versão original em inglês de 2004). Nesse livro, o autor expõe a brilhante aproximação entre ouro e cocaína fazendo alusão ao mundialmente famoso Museo del Oro de Bogotá. Segundo o autor, a exaltação do fetiche pelo ouro do museu nega anos de exploração escrava em terras latino-americanas, assim como a miséria e demais consequências sociais dos tempos atuais relacionadas ainda hoje ao ouro e à cocaína. O autor acrescenta que se o ouro determinou a economia política da colônia no momento do Império, é a cocaína e a sua proibição imposta pelos Estados Unidos que produziram a Colômbia e seus problemas sociais do presente. Para Taussig, não abrir um debate franco sobre a cocaína atualmente é omitir a perversidade da realidade e perpetuar a hipócrita negação do Museo del Oro em relação à exploração escravocrata do minério dourado.
Quando estive no Museo del Oro de Bogotá no final de 2018, havia uma pequena seção fazendo referência à época da escravidão, que mencionava a desumanização dos povos africanos pela Coroa Espanhola, explicitando como escravos e escravas foram incessantemente trazidos para trabalhar nos recém-formados “distritos mineros”. O ouro movimentou a perversa travessia desses corpos pelo Atlântico, chegando a aproximadamente 4 milhões de
escravos importados entre 1500 e 1867.4
Apesar de o ouro ser legalizado, grande parte de sua movimentação acontece de forma ilegal e clandestina, tanto em sua extração nas minas quanto em sua circulação global pelo contrabando. Entre 2018 e 2019 dados oficiais do Governo Federal brasileiro apontam que o estado de Roraima, no norte do Brasil, exportou 194 quilos de ouro para a Índia sem sequer ter alguma mineradora operando legalmente no estado no período referente às exportações (Fellet, 2019). Curioso. É o tráfico. Com a coca também é assim – outros formatos, mas assim. Os dois produtos possuem seus negócios dominados por grandes e poderosas corporações: sejam os cartéis e organizações criminais do mercado das drogas ou as grandes mineradoras multinacionais como a canadense Gran Colombia Gold, maior mineradora atualmente escavando o subterrâneo colombiano, inclusive na região de Condoto citada por Chapitah.
Ouro e cocaína recebem apelidos derivados do seu brilho reluzente, e de formas distintas causam efeitos de fissura, ambição, excessos e poder. Ambos são disputados e valorizados a partir de sua porcentagem de pureza. Um e outro, desde a forma bruta até a comercializada, passam por processos químicos e térmicos em suas respectivas refinarias. Ambos poluem os rios: seja pelos químicos despejados pelos laboratórios de refinamento da cocaína, seja pelo mercúrio na separação e derretimento do ouro. Este e aquela guardam seus pontos e rotas centrais e estratégicas para a distribuição global. A cocaína, devido à origem botânica específica do arbusto de coca, tem como base os países andinos da América Latina. O ouro, espalhado pelo subterrâneo do planeta, possui sua maior movimentação comercial em Dubai, a perfeita localização central para viabilizar efetiva comercialização em todos os continentes. Ambos afirmam suas maiores cifras de exportação em negociações com seu maior comprador, os Estados Unidos da América do Norte (Tierra Digna; Melo, 2015). A dupla gera gigantescas e lucrativas transações financeiras, e atreladas a isso, as dinâmicas em torno da cadeia de produção e venda do ouro e da cocaína submergem-se em ondas de cobiça e corrupção. A busca pelo ouro e pela cocaína certamente envolve ganância e riscos, e a partir do momento de sua posse, ambos desaparecem fugazmente pelas forças do consumo.
Para Taussig, ouro e cocaína são fetiches que se apresentam mais como entidades espirituais do que como simples matéria mineral ou vegetal. É aí que estão suas “extrañas bellezas”, e como todo fetiche, podem criar armadilhas para a percepção e a compreensão humanas; afinal, representam aquilo que todos queremos, mas que sabemos profundamente que não devemos ter. Nas palavras de Taussig (2013, p.20, tradução minha), “não é uma filosofia da forma, mas da substância e da força – como o ouro, como a cocaína –, substâncias transgressoras, eu as chamo, cheias de todos os tipos de perigo que não podem fornecer muito ao mundo em termos de uma forma estável, mas muito, na verdade, em termos de exuberância e perturbação.
O pó que cega e as cegueiras do pó
De fato, essas duas substâncias compartilham alguma perturbação. Para Taussig o ouro é a mãe de todas as mercadorias. Será? É de se pensar ao considerarmos o movimento de “globalização” pautado por comércio e mercado, em que o ouro certamente possui caráter pioneiro junto com as especiarias e os “temperos da alma”, como as folhas de coca, por exemplo, que foram também transportadas pelo mundo na época das grandes navegações. Entretanto, temas como a mineração de ouro e o cultivo de coca devem considerar outras cosmologias, principalmente as das pessoas diretamente afetadas pelas transformações causadas no planeta como consequência das atividades humanas decorrentes do apetite capitalista. No caso da mineração do ouro, é de extrema relevância resgatar a visão de mundo de Davi Kopenawa do povo ianomâmi que vive próximo à fronteira da Venezuela.
Para Kopenawa e Albert, os “minérios, como chamam os brancos”, são fragmentos e lascas do céu, sol, lua e estrelas que caíram do “primeiro céu”, formando assim o esqueleto do planeta, dando sustentação e firmeza para a carne e a pele, que são o solo e as florestas. Na visão de Kopenawa, a parte mais profunda dos metais é maléfica e nociva aos seres humanos, pois é um metal extremamente duro que foi escondido justamente para proteger a humanidade. São substâncias quentes que enterradas nas profundezas regulam a temperatura do planeta e evitam possíveis desertificações: para ele, a desertificação cria solos vazios, locais onde os “brancos” já extraíram todo o minério. Segundo Kopenawa e Albert (2015, p.360), a extração massiva de ouro por meio de multinacionais estrangeiras coloca todos em risco, pois “se forem todas postas a descoberto, incendiarão a terra”: “Se os brancos um dia chegassem até o metal de Omama, a poderosa fumaça amarelada e seu sopro se espalharia por toda parte, como um veneno tão mortal quanto o que eles chamam de bomba atômica” (ibidem, p.359).
Está aí mais um elemento para considerar na avaliação de mudanças climáticas. Os autores ainda reforçam que quando Omama escondeu o ouro e os demais minérios nas profundezas da terra, disse aos homens: “tomem esses poucos pedaços para trabalhar em suas roças e não desejem mais! Guardarei o restante, que é perigoso! Ele agora pertencerá aos espíritos!” (ibidem, p.358). Os metais extraídos pela superfície, como o pó de ouro tradicionalmente extraído pelos povos tradicionais no leito dos rios, são inofensivos e garantem utilidade ao desenvolvimento humano. A preocupação de Kopenawa reside no seguinte:
Escavando tanto, os brancos vão acabar até arrancando as raízes do céu, que também são sustentadas pelo metal de Omama. Então ele vai se romper novamente e seremos aniquilados, até o último. Esses pensamentos me atormentam muito. Por isso levo em mim as palavras de Omama para defender nossa floresta. Os brancos não pensam nessas
coisas. Se o fizessem, não arrancariam da terra tudo o que podem, sem se preocupar. (ibidem, p.361)
Na tradição ianomâmi o ouro deve ser tratado com muito respeito. Os indígenas idosos e mais experientes coletavam o ouro em pó no fundo dos rios e faziam feitiçaria a partir de uma mistura capaz de cegar pessoas com quem tinham desavenças. Para Kopenawa, o poder mágico do ouro permanece ativo nos contextos urbanos. É preciso ter cuidado. Nas palavras do xamã:
Quando os brancos arrancam os minérios da terra, trituram-os com suas máquinas e depois os aquecem em suas fábricas. Ele então exala uma poeira fina, que se propaga como uma brisa invisível em suas cidades. É uma coisa de feitiçaria perigosa, que entra nos olhos e vai estragando a vista. Por isso tantas crianças dos brancos são obrigadas a prender os olhos atrás de cacos de vidro para ler seus desenhos de escrita. (ibidem, p.362)
A fumaça e a fuligem urbanas decorrente do derretimento do ouro e de combustíveis com base de petróleo nas cidades são chamadas de xawara, e certamente retornam para a floresta e contaminam também os indígenas. Especificamente, a retirada do amálgama do ouro por meio de seu derretimento é um processo necessário para seu refinamento. O vapor de mercúrio exalado é denominado por Kopenawa de “epidemia do ouro”, chamada de oru xawara, quando partículas de mercúrio são liberadas no ar. É representada pela “doença do céu”, que nas palavras do indígena, os “brancos chamam de poluição”. O minidocumentário da Revista VICE chamado “Envenenados por la fiebre del oro”, de 2016, apresenta a dramática consequência ambiental, social e de saúde proporcionada pela extração ilegal do ouro.
O filme retrata a enraizada utilização do mercúrio para separação manual do ouro pelos mineradores clandestinos. A técnica possibilita uma separação mais rápida e barata. Cai como uma luva para os problemas sociais da Colômbia. Quimicamente o veneno é o mercúrio, que mesmo com baixa exposição pode causar danos severos no sistema nervoso central. Os principais sintomas são tremedeira, perda da memória e impotência. Devido ao seu alto índice de contaminação, a técnica de utilização do mercúrio para separar o ouro foi banida nos Estados Unidos há mais de um século.
Na Colômbia é uma técnica comum na mineração ilegal que representa cerca de 80% de todo o ouro extraído no país. Segundo o filme da VICE, na floresta, onde não há intervenção humana, o nível de mercúrio é de cinco nanogramas por litro de ar; em cidades como Bogotá e Medellín, chega a 1.820 nanogramas. Nos povoados em que o médico trabalha e também em Quibdó, que possui oficinas fechadas de derretimento do ouro, o vapor de mercúrio chega a 400 mil nanogramas por litro de ar. A exposição é tremenda. Entretanto, apesar dos riscos, para os homens que estão nas minas, a busca pelo ouro pode gerar fissura. Quando iniciam um novo terreno e encontram algo acreditam que conseguirão mais e mais. Com a cocaína, o padrão de uso em determinados contextos apresenta fatores semelhantes. É o jogo da ilusão e a compulsão pela busca. A relação com o ouro também apresenta comportamentos que podemos nomear como “dependência” e que certamente também é determinada pelos contextos em que ocorre. É uma relação densa que por trilhas não tão distintas da cocaína também deve ser debate e preocupação social, ambiental e de saúde. O xamã insiste em alertar: “se continuarem seguindo esse mesmo caminho, é verdade, acabaremos todos morrendo. Isso já aconteceu com muitos outros habitantes da floresta nesta terra do Brasil, mas desta vez creio que nem mesmo os brancos vão sobreviver” (Kopenawa; Albert, 2015, p.372).
O que estamos fazendo com as florestas e as cidades?
O mercado da cocaína, acompanhado pelo cultivo do arbusto de coca, começou a aparecer na Costa Pacífica colombiana a partir de 1999. Durante os quatro dias que estive em Quibdó choveu em todos, e ironicamente os aparatos tecnológicos de controle via imagens de satélite fornecidos pelos Estados Unidos para auxiliar na erradicação dos cultivos ilícitos tornaram-se obsoletos diante da força natural das nuvens, chuva e umidade (Taussig, 2013). Atualmente, os quatro departamentos da Costa Pacífica (Nariño, Cauca, Valle e Chocó), onde se localiza Quibdó, apresentavam cultivos de coca registrados em 2018, que aparece em quase todos os departamentos colombianos (UNODC, 2019a). Apesar de Chocó não possuir extensas zonas de cultivo, as consequências sociais extrapolam as delimitações das plantações e se misturam com o cotidiano e a economia local.
Foi assim que ironicamente o avanço do mercado da coca-cocaína por essas terras trouxe algum progresso para a região historicamente ocupada por descendentes de escravos e colocada às margens das preocupações do governo colombiano. Em Quibdó são nítidas a precariedade e a miséria que o povo enfrenta no cotidiano. É paradoxal ver em todo canto lojas de “compra y venta de oro”, ao passo que meus olhos também observavam a vida urbana se apresentar com tantas necessidades e desafios. O Chocó é conhecido pela pouquíssima infraestrutura estatal, porém, paradoxalmente, a melhor oportunidade de trabalho estável na região é justamente trabalhar para o Estado. É uma dependência desonesta ilustrada pelo contrastante edifício de concreto do Banco de la República na praça da igreja de Quibdó, que aparentemente sem constrangimentos exibe seu insuficiente amparo à comunidade.
Observar essa robusta construção de concreto me fez ligar mais alguns pontos dos estudos de Taussig em relação ao ouro e à cocaína. Segundo Taussig (2013, p.182), foram os barcos com motores de duzentos cavalos, aqueles que vi rasgarem o rio Atrato em alta velocidade, que trouxeram algum progresso para a costa do Pacífico: “não haveria motores de duzentos cavalos sem a cocaína, e é a cocaína que permite que o cimento se levante nas ruas dos povoados da costa”. Como disse, a região é praticamente esquecida pelo Estado, e os barcos do narcotráfico colaboraram para que o pó de cimento se pulverizasse entres os povoados na construção de alguns casebres e igrejas nas beiras dos rios, os mesmos barcos que ziguezagueiam os rios transportando ouro e cocaína.
Segundo o relatório La Minería en Chocó, en clave de derechos, resultado de uma investigação sobre as alternativas para a crise
socioambiental territorial, foram a guerrilha 5 e os grupos
paramilitares6 que injetaram dinamismo econômico na região por meio dos cultivos de coca, colaborando para as comunidades locais investirem em maquinário para a prática da mineração clandestina (Tierra Digna; Melo, 2015). O nó é grande. O texto enfatiza essa junção fundamental para compreender o conflito armado e a mineração ilegal na Costa Pacífica. Essas duas economias, do ouro e da coca, se misturam com o sustento, com o desenvolvimento, com a violência e com o cotidiano dessas zonas pouco atendidas
pelas vontades políticas da Casa de Nariño7 (Figura 3).
Com as tentativas de erradicação dos cultivos de coca, cresceu o número de minas clandestinas como alternativa de renda para os campesinos. Essas minas ilegais muitas vezes são subordinadas aos grupos de guerrilha e paramilitares, que consequentemente financiam o tráfico de drogas e armas. O ciclo é vicioso: do ouro para a coca e da coca para o ouro. O cenário se complexifica desde o acordo de paz estabelecido com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em 2016. Desde então, muitos campesinos que abandonaram os cultivos ilícitos se encontram com dificuldades de substituir sua fonte de renda, reaparecendo na mineração clandestina como possibilidade econômica plausível. Além de ser mais barata e menos trabalhosa que o desmatamento e capina da roça para o plantio da coca, a mineração ilegal é mais barata para os patrões do tráfico. As pistas denotam que essas duas substâncias convivem juntas em uma relação pendular. Na brilhante análise de Taussig (2013, p.255):
Figura 3 – Apesar de o concreto ter chegado a algumas
casas das famílias mais abastadas, a maioria das residências
são de precária estrutura de madeira
Fonte: desenho elaborado pelo autor.
O que confere ao ouro e à cocaína seu status peculiar e privilegiado […] é a maneira como eles deslizam pela vida e pela morte através da sedução
e graças à transgressão. A morte persegue essas substâncias na mesma medida em que elas animam a vida, encantam e obrigam […] são o contágio emitido pela quebra de um tabu – um contágio que é material, espiritual e moral. Mas, então, você deve se perguntar: por que o tabu é quebrado tão repetidamente?
A resposta é com provocação subjetiva: as dinâmicas em volta dessas mercadorias, cocaína e ouro, desafiam todo e qualquer significado padrão de mercado, além de debocharem das convencionais leis de oferta e demanda. Elas impõem à economia complexidades “fantasmáticas desconhecidas pela economia convencional. São os luxos pelos quais as pessoas estão preparadas para ser enganadas” (ibidem, p.132, tradução minha), desesperançadas e soltas para colocarem-se em risco e extrapolar os contornos da cautela e do bom senso. Dessa forma, para Taussig (ibidem), não se pode “purificar” ou evitar a atração e repulsão que esses produtos suscitam e encarnam.
Entretanto, apesar de eu ter sentido a “energia do ouro” presente em todo instante em que estive em Quibdó, não foi fácil encontrá-lo. Busquei comprar ouro em estado bruto, mas só o encontrei elaborado, como joias, anéis etc. Com algumas indicações de Chapitah, entrei em mais de doze comércios de “compra y venta”, e curiosamente, quase todos automaticamente se precipitaram, concluindo que minha intenção era vender-lhes qualquer quantia irrisória de ouro. Parece que eu os surpreendia querendo na verdade comprar uma quantia irrisória. A compra de ouro bruto no varejo parece incomum. Segundo anotações de campo,
um fala que não tem e indica o outro. No fundo todos me dizem que não tem. Sinto a impressão de que estão evitando negociar comigo. Sinto uma sensação de risco, como se estivesse indo comprar ouro na “boca”. Creio que porque sou estrangeiro… além do mais, a economia por aqui parece girar muito em torno de minerações clandestinas, ilegalidade, suspeitas e receio. (Diário de campo, abr. 2019)
Com paciente insistência consegui comprar uma pequena porção de ouro bruto. Negociei quatro gramas de ouro em pó. Quatro gramas selecionadas pela atração do ímã que o separa dos outros metais. O ouro enfim apareceu. Sim, em pó como a cocaína. O preço? Aproximadamente R$30,00 o grama. Menos valorizado que um grama de cocaína em pó de boa qualidade no Brasil. Entretanto, como estrangeiro comprando ouro provavelmente ilegal, certamente minhas quatro gramas certamente também não são de boa qualidade.
Na noite de sábado saí para caminhar e sentir a noite quente de Quibdó. Onde há ouro, há festa, e nesse momento a cocaína também apareceu. Em pó, ela brilhava entre narizes nos bancos da praça da Zona Rosa, uma pequena concentração de bares e casas noturnas da cidade. Em pedra, na forma crack (basuco), observei de longe poucas pessoas fumando no cachimbo atrás da frondosa Catedral San Francisco de Asis à beira do rio. Sentado na praça da Zona Rosa ganhei a companhia de Jairo, um jovem local que se sentou ao meu lado também com sua cerveja nas mãos. Seus amigos, no banco ao lado, cheiravam cocaína sem muita discrição. Um deles me mostrou o recipiente em que a droga é distribuída em Quibdó. Um pequeno vidro delicado e esguio, aparentemente para amostras de perfumes. Enquanto eu conversava genericamente com Jairo sobre a questão das drogas na Colômbia, após alguns minutos percebi que seus amigos terminaram a sessão de uso. Um deles se interessou pela conversa e se juntou a nós, e ao perceber que eu estudo a temática das drogas me ofereceu o pequeno frasco vazio de vidro que estava a cocaína em pó. Aceitei, pois imediatamente me pareceu um ótimo recipiente para guardar meu recém adquirido ouro em pó.