As Minas de Salomão
Capitulo VIII
A GRANDE DANÇA
Já muito tarde, quasi de madrugada, Infandós appareceu, como promettera, com os chefes seus amigos, todos homens de porte marcial e decididos. A conferencia foi longa e curiosa. Ignosi, convidado a expôr a sua romantica historia e os seus direitos ao reino dos Kakuanas, começou por tirar a tanga em silencio e mostrar o emblema sagrado, a grande serpente tatuada na cinta. Cada chefe, um a um, tomava a lampada, e agachado examinava o signal com respeito; depois, em silencio, passava a lampada a outro.
Em seguida Ignosi, reatando a tanga, contou a sua vida estranha, desde a fuga com a mãe através do deserto. Os chefes permaneceram calados. Infandós, por seu turno, recordou os longos crimes de Tuala, retraçou as matanças d’essa noite de festa em que dois guerreiros valentes, de casas illustres, tinham sido trucidados só por possuirem grandes rebanhos que Scragga appetecia. Por fim fez um grande appello á razão e ao coração dos chefes, que só tinham a escolher entre o monstro que por avidez e capricho lhes arrancava a vida, ou o homem que lhes garantia a existencia feliz nas suas senzalas e a posse tranquilla dos seus gados. Mas, com espanto nosso, os chefes pareciam hesitantes e desconfiados.
Finalmente, um d’elles, homemzarrão possante, de carapinha branca, deu um passo, e declarou que a terra na verdade gemia sob a crueldade de Tuala, e que seu proprio irmão n’essa noite estava sendo pasto das hyenas...--Mas aquelle era um singular e confuso caso! E quem lhes afiançava que elles não ergueriam as suas lanças por um impostor? A guerra era certa. Muitos ficariam fieis a Tuala, porque mais se adora o sol que brilha, que o sol que ainda não nasceu. Necessitavam pois uma evidencia. E quem melhor lh’a poderia dar que os homens das estrellas, senhores das grandes artes magicas, que tinham trazido Ignosi ao paiz, e sabiam decerto os segredos?
--Se elle é o herdeiro legitimo, os homens que o trouxeram das estrellas que o provem, fazendo um grande milagre. Só assim o povo acreditará e tomará armas por elle!
--Mas a cobra, o emblema sagrado! Exclamei eu.
--Não basta. A cobra podia ser pintada no ventre já depois de elle ser homem... Necessitamos um milagre! O povo não se move, nem nós mesmos, sem um milagre!
Um milagre! A situação era terrivel e grotesca. Exigir-se um milagre a tres honestos e ingenuos mortaes, que nem sequer sabiam, como qualquer prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os honestos mortaes de fazer o milagre--ou de perder a vida!... Voltei-me para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risivel e perigoso lance.
--Parece-me que se póde arranjar, disse John, depois de um curto silencio. Peça a estes amigos que nos deixem sós, Quartelmar.
Abri a porta da cubata, os chefes sahiram. E apenas os passos morreram na sombra:
--Temos o eclipse! Exclamou o nosso admiravel John.
Era o eclipse que elle descobrira na vespera, folheando o almanach (o Livro de Bordo), e que n’esse dia, ás duas e quarenta minutos, devia ser visivel em toda a Africa.
--Ahi está o milagre! Affirmava John. É annunciar aos chefes que para lhes provar que Ignosi é o rei, e que devem pegar em armas por elle, nós faremos desapparecer o sol!
A idéa era esplendida. O unico receio é que o almanach estivesse errado.
--Não! É um almanach maritimo, não póde estar errado. Os eclipses são calculados mathematicamente. Não ha nada mais pontual que um eclipse... Durante meia hora, tres quartos de hora talvez, esta região toda ficará em trevas.
--Eu, por mim, disse o barão, parece-me que devemos arriscar o eclipse.
--Vá pelo eclipse!
Mandamos Umbopa buscar os chefes. Quando voltaram, cerrei a porta da cubata com um sombrio apparato de mysterio, e comecei por lhes declarar, magestosamente, que nós os homens das estrellas não gostavamos de alterar o curso natural das coisas e mergulhar o mundo em terror e confusão... Mas, como se tratava d’uma grande e santa causa, estavamos decididos a fazer um milagre.
--Escutai! Julgaes vós que um homem póde soprar sobre o sol, e apagal-o?
Os chefes olharam para mim, recuando com assombro.
--Não, murmurou um d’elles, não ha homem que o possa fazer! O sol é mais forte que toda a terra!
--Perfeitamente, conclui eu. Pois ámanhã, depois do meio dia, nós homens das estrellas apagaremos o sol durante uma hora, espalharemos trevas sobre a terra, e será o signal de que Ignosi é o verdadeiro rei dos Kakuanas e que o povo deve tomar armas por elle. Será bastante este milagre?
O chefe da carapinha branca abriu os braços para nós, esgazeado:
--Oh gentes das estrellas, senhores das grandes artes, esse milagre será mais que bastante!
--Bem. Tereis o milagre. Agora Infandós, que é experiente, diga o momento em que mais convem que nós apaguemos o sol.--Apagar o sol! Murmuravam os chefes entre si. A grande lampada! O pae de tudo, que brilha eternamente!
--Falla, Infandós!
--Meu senhor, é na verdade um milagre espantoso que vós prometteis! Mas emfim... O melhor momento é o da dança das Flôres, que ha de logo começar ao meio-dia. As mais lindas raparigas de Lú estão lá, para dançar. E aquella que Tuala achar mais linda de todas é, segundo o costume, morta por Scragga em sacrificio aos Silenciosos, as figuras de pedra que estão além na montanha vigiando. Que os meus senhores n’esse momento apaguem o sol, salvem a rapariga, e o povo acreditará!
--O povo na verdade acreditará! Exclamaram todos os chefes.
--A duas milhas de Lú, continuou Infandós, ha uma collina em fórma de meia lua, que é realmente uma fortaleza, onde estão aquartelados o meu regimento e tres outros que estes chefes commandam. Mas podemos arranjar de modo que ainda esta manhã cedo marchem para lá tres ou quatro regimentos dos mais fieis á minha vontade. E se os meus senhores apagarem com effeito o sol, eu poderei, a favor da escuridão, fazel-os sahir do terreiro real e da cidade, e leval-os para essa fortaleza, onde ficarão a salvo e d’onde começaremos a guerra contra o rei.
--Está entendido, resumi eu. Agora ide, que queremos dormir e depois combinar com os Espiritos!
Com longas reverencias, Infandós e os chefes deixaram a nossa aringa. O sol ia nado.
--Oh meus amigos, exclamou Ignosi, apenas elles partiram. É certo que podeis fazer esse milagre, ou estaveis vós ganhando tempo e soltando no ar palavras vãs?
--Parece-me que não nos ha de ser difficil, meu Umbopa, quero dizer, meu Ignosi, declarei eu sorrindo.
--É espantoso! Apagar o sol... E todavia sois inglezes, e o inglez tudo póde! Mas ah, se vós fizerdes isso por mim, o que não farei eu por vós?
--Uma coisa já tu nos podes prometter, Ignosi! Acudiu gravemente o barão. É, se chegares a ser rei com o nosso auxilio, acabar com as «farejadeiras de feitiços», com matanças como as d’esta noite, e não consentir que homem algum seja condemnado sem provas de crime, e sem ter sido julgado pelos doze mais velhos do logar.
Era o jury, santissimo Deus! Era a nobre instituição do jury, que este digno barão queria implantar no centro selvagem da Africa! Não ha senão um liberal inglez para estas esplendidas imposições de civilisação e de ordem. Com razão hesitou o astuto Ignosi! Com razão conservou longo tempo dois dedos sobre a testa, calculando. Por fim, n’um rasgo de generosidade ou de condescendencia:
--Os costumes dos pretos não se podem moldar pelos costumes dos brancos. Comtudo, uma coisa te prometto, Incubú! É que não haverá no meu reino, nem matanças de festa, nem execuções sem julgamento. Estás contente?
O barão apertou-lhe a mão em silencio.
D’ahi a pouco estavamos estendidos nos leitos de folhas sêccas, e profundamente dormimos, até que Ignosi nos acordou ás onze horas. O nosso primeiro cuidado foi instinctivamente correr fóra da cubata, olhar para o sol. Nunca esse divino astro me pareceu tão brilhante e tão seguro da sua luz. Nem um signal de eclipse! Uma radiancia firme, absoluta, que nenhum movimento dos corpos celestes parecia poder alterar!
--Pois, meu digno astro--murmurei eu, ousando interpellar directamente a fonte de toda a vida--se continuas assim, todo o dia, acabas, sem querer, com tres honrados homens!
Depois de almoçar, um solido e valente almoço que nos amparasse na crise imminente, revestimos as cótas de malha, afivelamos os cinturões de cartuchame, e de outros modos nos apetrechamos para a grande dança. E ao meio dia para lá voltamos os passos--que a inquietação interior e a certeza do perigo não permittiam que fossem nem bem alegres nem bem ligeiros!
O terreiro real offerecia n’essa manhã um aspecto bem diverso--e onde na vespera reinára o horror transbordava agora a graça. Em logar de fuscos e duros guerreiros, todo o espaço estava occupado por longas filas de raparigas kakuanas, escuras tambem é verdade, mas lindas, pelas fórmas, a expressão, a viçosa mocidade. Toilette, não tinham nenhuma--nem mesmo o panno, a tanga da Africa civilisada: mas salvavam esta encantadora deficiencia pelo franco luxo das flôres. Todas traziam na cabeça uma corôa de flôres; grinaldas de flôres, grandes como festões, envolviam-lhes a cinta; e cada uma segurava nas mãos uma palma verde e um lyrio branco. Nos escabellos de honra já estava o rei--acompanhado por Infandós, Scragga, guardas emplumados e a sinistra Gagula. Reconhecemos tambem, de pé, por traz d’elle, alguns dos chefes que n’essa noite tinham comnosco conspirado.
Tuala acolheu-nos com muita cordealidade ostensiva--dardejando ao mesmo tempo sobre Umbopa um olhar sangrento e mau.
--Bemvindos, homens das estrellas, bemvindos! Vêdes hoje aqui coisas diversas; mas não tão bellas, não tão bellas! Beijos e festas de mulheres são dôces; mas é mais dôce o brilho das lanças e o cheiro do sangue. Olhai em redor, gentes das estrellas: e se quizerdes casar n’esta terra, escolhei, escolhei... Podeis levar d’estas raparigas as melhores, e tantas quantas pedirem os vossos desejos.
O nosso John, extremamente sensivel e amoroso como todos os marinheiros, deu logo um passo, teve um sorriso, como se se preparasse a aceitar e a recrutar alli, para occupar o seu coração na terra dos Kakuanas, um serralhosinho de donzellas escuras. Mas eu, homem idoso e experiente, receiando as complicações do eterno feminino, apressei-me a recusar:
--Não, Tuala, obrigado! Os homens brancos que vêm das estrellas só se ligam ás mulheres brancas que estão nas estrellas...
Tuala riu:
--Está bem, está bem... Nós temos um proverbio kakuana que diz: «Aproveita a que está perto, porque com certeza a que está longe te engana!» Mas talvez seja d’outro modo nas estrellas... Sêde pois bemvindos, e comece a dança!
Um grande tam-tam resoou, acompanhado por finas flautas de cana em que tres mocinhos sopravam agachados no chão. As fileiras de raparigas avançaram, cantando um canto muito lento e dôce,--e fazendo ondular nas mãos as palmas e os lyrios. Era um grande bailado barbaro, infinitamente pittoresco. As raparigas ora saltavam brandamente sobre as pontas dos pés, n’uma graciosa languidez de gestos; ora, enlaçadas aos pares, redemoinhavam vivamente; ora, fileira contra fileira, simulavam uma batalha, tendo por armas os ramos de palma; ora, ajoelhando em reverencia, offertavam os lyrios ao rei. Depois eram grandes marchas bem ordenadas em que o canto tomava um tom triumphal; e logo uma alegre confusão, n’uma grulhada melodiosa, com um vivo saltar de corpos ageis--que espalhava pelo ar as petalas das flôres desfolhadas.
Por fim o bailado parou: e uma esplendida rapariga, de olhos radiantes, mais airosa que uma Diana caçadora, avançou devagar, e rompeu n’uma dança estranha, cheia de graça e de brilho, em que os movimentos tudo traduziam, desde os requebros fugidios da noiva timida até os pulos bravos da corça ciosa... Assim dançou longamente: os seus olhos cada vez mais rebrilhavam: a grinalda que lhe envolvia a cinta desfizera-se flôr a flôr; e todo o corpo adoravel lhe reluzia ao sol como um bronze humedecido. Por fim, cançada, sorrindo, recuou até ao grupo das bailadeiras onde ficou de olhos baixos, a refrescar-se com o seu ramo de lyrios. Veio então outra, muito alta, dançar; e outra depois, e muitas ainda, todas bellas e habeis;--mas nenhuma como a Diana caçadora tinha belleza, graça e consummada arte.
O rei ergueu a mão, o tam-tam cessou.
--Gentes das estrellas, disse elle, qual d’ellas achaes mais linda?
--A primeira, respondi eu irreflectidamente.
E logo me arrependi, lembrando o que annunciára Infandós--que a mais linda tinha de perecer, sacrificada aos idolos. Ao mesmo tempo deitei um olhar ao sol que continuava a refulgir com uma teima desesperadora.
Tuala no emtanto sorria:
--Os vossos olhos, gentes das estrellas, vêem então como os meus. A primeira é a mais bonita. E mau é para ella que tem de morrer!
--Tem de morrer! Echoou Gagula que parecera dormitar durante a festa, e acordava, já interessada, desde que presentia sangue e dôr.
--Morrer! Exclamei eu, sorrindo tambem, como se não acreditasse. Porque, oh rei? Ella dançou bem, a todos agradou. Além d’isso é moça e linda. Seria cruel e estranho recompensal-o com a morte.
A fera affectou uma sympathia, que, n’elle, arripiava:
--Tambem o lamento, mas é o costume do meu reinado. Os Silenciosos, que estão além na montanha vigiando, precisam receber o seu tributo. Ha uma prophecia do nosso povo que diz: «O rei, que no dia da grande dança não sacrificar aos Silenciosos a mais linda das donzellas, perecerá, e com elle a sua casa». Por não ter cumprido a ordem de «cima», cahiu meu irmão e em seu logar reino eu... Ide (voltando-se para os guardas), trazei a virgem! E tu, meu Scragga, aguça a lança!
Dois da guarda real marcharam para a pobre e dôce rapariga, que desfolhava nervosamente as pétalas do seu lyrio branco. De repente, e só então, ella pareceu comprehender a fatalidade que a perdia, por ser formosa e pura. Deu um grito, tentou fugir. Duas mãos fortes agarraram-na e trouxeram-na, toda em lagrimas e debatendo-se, para diante de Tuala.
--Que nome é o teu, linda moça? Ganiu a horrivel Gagula. Não respondes? Queres que o filho do rei tenha de erguer a lança, sem saber quem tu sejas?
A isto, Scragga deu um salto com sofreguidão, alçando a sua immensa azagaia. Vendo o ferro luzir, a pobre rapariga cessou toda a lucta entre as mãos fortes dos guardas. E com grandes lagrimas que lhe cahiam, ficou toda, toda a tremer.
O medonho Scragga teve uma risada bestial:
--Como ella treme, como ella treme diante da minha força!
--Ah canalha, se te apanho a geito! Rosnou o capitão, apertando na mão o rewolver.
No emtanto Gagula, com atroz zombaria, animava a desgraçada:
--Socega! Dize o teu nome. Vem, filha! Não temas!
--Oh mãe! Balbuciou a pobre creatura entre soluços, n’uma voz que desfallecia. Oh mãe! O meu nome é Fulata, e sou da casa de Suko. Mas porque hei de eu morrer, eu que não fiz mal nenhum?
--Tens de morrer, proseguiu a hedionda velha, para contentar os que vigiam além na montanha. Mais vale dormir de noite que trabalhar de dia. Mais vale estar quieta e morta que agitada e viva. E tu, filha ditosa da casa de Suko, vaes morrer ás mãos reaes do filho do nosso rei.
Olhei anciosamente para o sol. Nada! Um brilho impassivel, que achei quasi cruel!
No emtanto a pobre Fulata, apertando desesperadamente as mãos, supplicava, com gritos de angustia:
--Oh mãe, oh rei, não me deixeis morrer!... E eu tão nova! Pois nunca mais hei de vêr a aringa de meu pae? Nem embalar meus irmãos pequeninos? nem cuidar dos cordeiros doentes? E porque? Mandaram-me aqui para dançar e eu dancei! O meu noivo está lá fóra á minha espera! Minha mãe ficou sentada debaixo das machabelles até que eu volte para mugir as vaccas... E porque hei de eu morrer? Nunca fiz mal nenhum; e no terreiro da nossa casa deixava sempre cahir grãos de aveia para os passaros levarem aos ninhos...
Nas proprias faces dos guardas e dos chefes perfilados junto a Tuala se espalhava um ar de piedade. Muitas raparigas soluçavam baixo. E subitamente, o capitão John, sem se poder conter mais, arrancou o rewolver da cinta e fez um movimento tão saliente, de tão clara intervenção--que a rapariga viu, n’um relance comprehendeu... Desprendendo-se dos guardas, que a seguravam frouxamente, veio arrojar-se aos pés de John, abraçando-lhe as pernas núas:
--Oh pae branco, que vens das estrellas! Gritava ella. Deixa acolher-me á sombra da tua força... Salva-me d’estes homens, e de Gagula, a mãe que é tão cruel...
Tornei a olhar para o sol... E com um allivio, uma alegria tão intensa que ainda hoje o recordal-a me aquece o coração, vi uma linha de sombra, muito fina ainda, surgindo á orla do disco radiante!
--O eclipse! Gritei eu para os outros. John, conserve ahi a rapariga atraz! E armas na mão, rapazes!
Immediatamente, avancei para o rei:
--Tuala, exclamei com firmeza e arrogancia. Nós, gentes das estrellas, não podemos consentir n’esta maldade! Tal não será! Deixa que a rapariga volte para a sua morada!
Tuala ergueu-se com um pulo brusco de surpreza e de colera. E dos chefes, das agitadas filas de mulheres, subiu um murmurio que era de assombro, e talvez de esperança.
--Não consentis! Bramiu o rei, com o olho sangrento dardejando lume. E quem és tu, perro branco, para vir latir contra o leão na sua caverna? Tal não será! E como o podes tu impedir? Vai talvez a tua vontade prevalecer contra a minha força? Scragga, mata a creatura! E vós guardas, olá, agarrai esses homens!
Uma multidão de soldados surgiu, correndo, detraz da aringa real. O barão, Umbopa e o capitão (com Fulata agarrada a elle) vieram pôr-se ao meu lado de carabinas apontadas.
Outro olhar meu ao sol! A linha de sombra, lenta e gradualmente, avançava sobre o globo rutilante. Com esplendida confiança, ergui a mão, bradei:
--Parai! Nós, os filhos das estrellas, decidimos que a rapariga não morrerá! E se alguem ousar ir contra a nossa vontade, ou avançar contra nós um passo, nós, os magicos das grandes artes, apagaremos o sol e mergulharemos o mundo em trevas!
O effeito foi tremendo. Os soldados estacaram. E Scragga ficou diante de nós, com a lança erguida no ar, como uma figura de pedra. Mas Gagula erguera-se, sacudindo os braços com furor:
--Ouvi, ouvi o grande mentiroso, que diz que apaga o sol como um lume da terra! Pois que o faça, e a rapariga irá livre para a sua morada! Mas se o não fizer, oh rei, que elle morra com ella, e com elle morram os cães malditos que vêm latir contra ti!
Sem mais, ergui a mão solemnemente para o sol (movimento que logo imitaram John e o barão) e rompi a bradar. Não me lembro já das coisas absurdas que tumultuosamente atirei ao divino astro. Recitei-lhe versos de Shakespeare, pedaços da Biblia, proverbios, datas, nomes de firmas commerciaes que me acudiram, as ruas da cidade do Cabo,--que sei eu? Tudo o que me affluia aos labios, e que fosse em inglez, na lingua magica. Ousei mesmo espantosas familiaridades com o respeitavel centro do systema planetario. Gritava: «Anda-me assim, solzinho da minha alma! P’ra diante, valente! Deixa avançar essa rica sombra! Ah que estás um catita, meu astro! Mais, mais!...»
E o sol obedecia! A mancha escura, nitida e convexa, avançava, comia a luz immortal. Um grande susurro de terror agitava a multidão. Volvi então a fallar kakuana, livremente:
--Vê tu, oh rei! Vê tu, Gagula! Vêde vós, oh chefes! Mentem então os homens das estrellas? Quizestes a treva eterna, eil-a que vos vem tragar!... Oh sol, pae de tudo, reluzente e triumphante, retira a luz, some-te á nossa ordem, mata o mundo com escuridão e frio, e, que sem ti, parem para sempre estes corações crueis!... O sol vai morrer!
Gritos de terror resoavam já no terreiro. As mulheres, cahidas de joelhos, choravam, implorando misericordia. E o rei, calado, tremia.
Só Gagula resistia ao pavor:
--Vai passar, vai passar! Uivava ella. Eu já vi o sol assim. Ninguem o póde apagar. Ficai quietos! Socegai! A sombra vem e vai... Eu já vi, eu que sou a mais velha, e conheço os segredos!
Eu por mim animava os companheiros:
--Vá, rapazes! Já não sei que hei de dizer ao sol. Veja se se lembra de alguns versos, barão. Tudo serve, até pragas!
E John, admiravel marinheiro, rompeu então a praguejar. Foi sublime. Teve todas as pragas classicas,--e teve-as ineditas. Nem eu suppunha mesmo que a Humanidade possuisse, no seu vocabulario, uma tal riqueza de blasphemias! O que o Rei do Dia ouviu!
No emtanto a mancha negra alastrava. Estranhas, sinistras sombras fluctuavam no ar. Uma triste quietação descia sobre a terra. Todos os passaros se tinham calado. Ao longe os cães uivavam.
E a mancha crescia, crescia... A atmosphera tornára-se espessa. Já mal distinguiamos as faces crueis da gente real. Esmagadas de temor, as mulheres nem tugiam. Por fim John parou a torrente de invectivas. E o que restava do sol parecia uma luz agonisante.
--O sol morreu! Berrou de repente Scragga. Os bruxos das estrellas mataram o sol! Tudo vai morrer nas trevas!...
E fosse o delirio do medo ou da raiva, ergueu a azagaia, arremessou-a a toda a força contra o peito do barão. Mas a cóta de malha repelliu o ferro. E antes que elle podesse revibrar o golpe, o barão arrancára-lhe a lança das mãos e passou-lh’a através do coração. Com um uivo hediondo, Scragga tombou morto.
Quasi nada restava da luz. Era como se tudo acabasse conjuntamente, o sol, o mundo, e a descendencia do rei! N’um terror indizivel, a multidão de raparigas largou fugindo, em confusão e gritos, para as portas da aringa. Foi um panico estonteado. Os guardas, arrojando as armas, galgavam as estacadas. Os chefes, aos saltos por cima dos escabellos, desappareciam como lebres. E por fim, o proprio e ferocissimo rei, com Gagula atraz, arremetteram para as cubatas, ganindo n’um pavor vil. Uma debandada--que nos deixou sós, eu, os amigos, a pobre Fulata ainda agarrada a John, Infandós, os chefes que conspiravam, e o cadaver de Scragga.
--Chefes! Gritei eu. Eis o milagre que tinhamos promettido. Sabei agora que Ignosi é o rei unico e forte. O feitiço está trabalhando. Corramos para a cidadella que dissestes, emquanto a treva dura!
--Vinde! Exclamou Infandós, segurando-me pela mão. E vós todos segui! O dia é nosso!
Ao chegarmos á porta da aringa, a luz findou inteiramente.
Agarrados uns aos outros pelas mãos, com Fulata no meio, fomos tropeçando através da escuridão. Dentro das senzalas ouviamos gemidos de terror. E para o augmentar, lançavamos a espaços, através da treva, um lugubre brado de revolta e de guerra:
--Morte a Tuala!