As Minas de Salomão

H. Rider Haggard · Capítulo 7 de 18

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As Minas de Salomão

Capitulo VI

 

PENETRAMOS NO REINO DOS KAKUANAS

Toda essa tarde trilhamos a larga, magnifica estrada que seguia infindavelmente para o lado de noroeste. Alguns dos negros marchavam adiante (uns cem passos) como vedetas. Outros seguiam levando as nossas bagagens. Nós iamos no meio, entre Infandós e Scragga.

Pouco a pouco, Infandós e eu descahimos n’uma palestra familiar e amigavel. O velho era esperto e loquaz.

--Quem fez esta estrada, Infandós?

--Foi feita ha muito tempo, meu senhor. Ninguem sabe quando; nem mesmo uma mulher que tudo sabe, Gagula, que tem vivido através de gerações... Já ninguem póde fazer estradas assim... Mas o rei não consente que se desmanche, nem que lhe cresça a herva por cima.

--E ha quanto tempo vivem aqui os Kakuanas, Infandós?

--A nossa gente, meu senhor, veio para aqui de grandes terras que estão para além (indicava o Norte) ha mais de dez mil milhares de luas. Para baixo não puderam seguir, segundo diziam nossos avós, que o disseram a nossos paes, e segundo conta Gagula, a mulher que tudo sabe. Não puderam por causa das altas montanhas que estão em redor, e do deserto onde tudo morre. De modo que, como a terra era fertil, aqui assentaram; e tantos e tão fortes se tornaram que agora, quando Tuala, nosso rei, chama os seus regimentos, o chão treme todo com o seu peso, e até onde a vista alcança só se vêem plumas de guerreiros e lanças.

--Mas se a terra está murada de montanhas, e se não tendes visinhos, para que são tantos soldados?

--A terra está aberta para além (e indicava o Norte). E ás vezes descem de lá multidões, que não sabemos quem são, e que nós destruimos. Já correu a terça parte d’uma vida de homem desde a ultima guerra. Depois houve outra guerra, mas foi entre nós, irmão contra irmão.

--Como foi isso, Infandós?

Infandós começou então uma d’essas historias de pretendentes e de guerras dynasticas, que abundam em todos os continentes. O pae d’elle, Kapa, que era o rei dos Kakuanas, tivera por primeiros filhos, da primeira mulher (elle, Infandós, era filho d’uma concubina) dois gemeos. Ora a lei dos Kakuanas manda que de dois gemeos reaes o mais fraco seja sempre destruido. Mas a mãe, por piedade e amor, escondeu o gemeo mais fraco, que se chamava Tuala, e, ajudada por Gagula, educou-o em segredo n’uma caverna. Quando Kapa morreu, o gemeo mais velho, que se chamava Imotú, foi portanto rei; e logo depois teve da sua mulher favorita um filho por nome Ignosi. Ora por esse tempo passára a guerra com os povos do Norte: os campos não tinham sido semeados; veio uma fome; e havia grande miseria e dôr entre o povo, que, como uma fera esfaimada, rosnava, procurando com os olhos sangrentos alguma coisa em redor para despedaçar. Foi então que Gagula, a mulher que tudo sabe e que não morre, rompeu a dizer que os males todos provinham de que Imotú reinava sem ser rei. Imotú a esse tempo estava doente na sua cubata, com uma ferida. Começou a correr um clamor entre o povo. Por fim, Gagula um dia reune os soldados, vai buscar Tuala, o gemeo mais novo que ella e a mãe tinham escondido nas cavernas, apresenta-o ao povo, descobre-lhe a cinta, e mostra a marca real com que entre os Kakuanas os reis são marcados ao nascer--uma tatuagem representando uma cobra, que se enrosca em torno do ventre real, e vem reunir, sobre o umbigo real, a cabeça e o rabo. E ao mesmo tempo, Gagula gritava: «Eis o vosso verdadeiro rei, que eu salvei e que escondi, para elle vos vir salvar agora!» O povo, tonto de fome, ignorando a verdade, espantado com a evidencia da marca real, largou a bradar: «Este é o rei! Este é o rei!» Alguns sabiam bem que não--e que n’este só havia impostura. Mas n’esse momento, ouvindo os alaridos, o rei Imotú sae doente e tropego da sua cubata, com a mulher e com o filho que tinha tres annos, a saber porque vinham tantos brados e porque pediam elles «o rei!» Immediatamente Tuala, o irmão, corre para elle e crava-lhe uma faca no coração! E o povo, que as acções decididas e bruscas sempre fascinam, gritou logo: «Tuala é rei! Tuala provou que é rei!» Diante d’isto a pobre mulher de Imotú agarrou o filho, o seu Ignosi, e fugiu. Ainda appareceu, passados dias, n’uma aringa, pedindo de comer. Depois viram-na seguir para os lados dos montes e nunca mais voltou.

--De modo, observei eu interessado por esta pagina de historia negra, que Tuala não é o verdadeiro rei.

O velho respondeu com prudencia:

--Tuala, o grande, é rei. Mas se Ignosi vivesse ainda, só esse tinha o legitimo direito de reinar sobre os Kakuanas. A cobra sagrada foi-lhe marcada em torno da cinta. O rei é elle. Sómente decerto ha muito que Ignosi morreu...

Casualmente n’esse instante, voltando-me para fallar aos camaradas que marchavam atraz--esbarrei com Umbopa, que quasi me pisava os calcanhares, absorto n’aquella historia de Imotú e de Ignosi, com uma curiosidade, um interesse que lhe punham nos olhos um brilhar desusado, lhe davam a expressão de quem de repente lembra coisas vagas, remotas, semi-esquecidas, perturbadoras. N’essa occasião permaneci indifferente. Mas, depois, através da jornada, muitas vezes pensei n’aquella anciosa, esgazeada curiosidade do Zulú.

No emtanto já trilharamos algumas fortes milhas d’estrada. As montanhas de Sabá ficavam para traz envoltas nos seus mysticos véos de nevoa. E o paiz cada vez se offerecia mais formoso e mais rico.

Ao começo da tarde avistámos emfim uma grande povoação,--que, segundo Infandós nos declarou, pertencia ao seu commando militar e continha uma vasta guarnição. O velho guerreiro mandára mensageiros adiante, correndo, n’um passo de gazella, a annunciar a nossa vinda. E quando nos aproximámos da aldêa, descobrimos com effeito, sahindo das portas e marchando ao nosso encontro, densas companhias de soldados.

O barão tocou-me no braço, com um receio que «as coisas se apresentassem desagradavelmente». Infandós decerto comprehendeu, pelo tom, pelo franzir de sobrancelhas do barão, o sobresalto que o tomára (e a mim), porque acudiu anciosamente, com redobrada reverencia:

--Que os meus senhores não suspeitem de mim! Aquelle é um dos regimentos que eu commando! Mandei-o sahir e desfilar, para prestar as honras aos que vêm do mundo das estrellas...

Esbocei um gesto e um sorriso de soberana indifferença. Realmente estava bem inquieto!

A povoação ficava á direita da estrada, separada d’ella por um declive de terreno areado e bem pisado, onde o regimento se formára em parada. Havia alli talvez uns tres mil homens. E quando nos acercámos, podémos vêr com admiração e assombro, de que esplendida, de que formidavel raça eram estes guerreiros kakuanas! Nenhum media menos de seis pés d’altura; e todos eram veteranos de quarenta annos, ageis, experientes, prodigiosamente robustos, endurecidos por exercicios perpetuos. Sobre a cabeça todos traziam a corôa d’altas e pesadas plumas negras, sempre tremendo ao vento. Em volta da cinta pendia-lhes um saião feito de rabos de boi, muito juntos uns aos outros e brancos; e no braço esquerdo sustentavam escudos redondos de ferro, recobertos de couro pintado de branco. Por armas tinham uma azagaia semelhante á dos Zulús--e tres facas (uma no cinto, duas em presilhas no escudo), facas enormes que elles chamam tollas e que arremessam a distancias de cincoenta jardas e mais, com uma certeza terrivel.

As companhias conservavam-se mais immoveis que estatuas de bronze. Mas, á medida que iamos passando em frente d’ellas, cada official (que se distinguia por uma capa de pelle de leopardo) dava um signal: e os homens, brandindo a azagaia no ar, soltavam a saudação real, a grande voz: «krum! Krum! Krum!»

Assim penetrámos na povoação ao rumor de acclamações. A aldêa devia ter uma milha de circumferencia; e era defendida por um largo fosso e por uma alta estacada feita de troncos d’arvores. Na porta central, do lado da estrada, havia uma ponte levadiça.

Parecia uma aldêa admiravelmente bem ordenada. Ao centro, entre arvores, corria uma ampla, extensa rua, cortada em angulos rectos por outras mais estreitas, formando séries de quarteirões, cada um dos quaes alojava uma companhia. As cubatas, redondas, feitas d’uma grossa verga entrelaçada, findavam á maneira das dos Zulús por tectos de colmo em fórma de zimborio agudo: mas, differentes n’isto das dos Zulús, tinham uma porta, larga e facil, e eram cercadas por uma varanda, cujo chão de cal dura rebrilhava ao sol. Os dois lados da grande rua apinhavam-se de mulheres, que tinham corrido de todas as cubatas para nos admirar. Era uma bella raça de mulheres--altas, airosas, esplendidamente feitas, com o cabello mais ondeado que encarapinhado, as feições por vezes aquilinas, e os beiços sempre finos. Mas o que mais nos impressionou foi o seu ar grave e serio. Nem pasmo selvagem, nem risos, nem injurias, ao vêrem-nos desfilar, tão estranhos e differentes de todos os homens que até ahi tinham encontrado. Nem mesmo a singular figura de John lhes arrancou uma exclamação: apenas os largos olhos negros se lhes arregalavam para as pernas niveas do pobre amigo, que, roído de vergonha, praguejava baixo.

Quando chegámos ao centro da aldêa, Infandós parou em frente d’uma espaçosa e rica cubata, cercada de dependencias menores, entre arvoredo. E com palavras grandiosas, á maneira dos Zulús, offereceu-nos a hospitalidade:

--Aqui habitareis, meus senhores. E não tereis de apertar o ventre com fome! Em breve vos traremos mel, leite, uma ou duas vaccas, alguns carneiros. Não é muito, oh Espiritos! Mas é dado por corações, que se regosijam de vos vêr.

--Bem, bem, Infandós, murmurei eu. O que precisamos sobretudo é descançar, fatigados da nossa descida através dos espaços e dos reinos do ar...

A cubata era muito confortavel, com herva aromatica espalhada no chão, grandes pelles servindo de leitos, e vistosos cantaros para a agua. D’ahi a pouco, entre cantos e risos, appareceu á porta um bando de raparigas trazendo leite, mel em covilhetes, fructas em cestos:--e atraz dois rapazes seguiam, arrastando um vitello pelos cornos. Um dos rapazes, tirando a faca do cinto, matou o vitello de um golpe: e logo o outro, agil e destramente, o esfolou e retalhou.

Ajudado por uma das raparigas (que era extremamente bonita), Umbopa passou a cozer a carne n’uma panella de barro, sobre uma alegre fogueira accesa á porta da cubata: e nós mandamos convidar Infandós e Scragga para partilhar do nosso repasto. Quando entraram, notei que, para comer, se não encruzavam no chão á maneira dos Zulús--mas se sentavam em pequenos bancos, que abundavam na cubata encostados ás paredes. O jantar foi longo e affavel. O velho guerreiro todo elle exhibia doçura e respeito. Mas o rapaz Scragga parecia olhar para nós, e para cada um dos nossos gestos, com singular desconfiança. Talvez, ao vêr que nós comiamos, bebiamos, e tinhamos as necessidades de qualquer kakuana, começava a suspeitar da nossa origem divina. Não me agradou este sentimento, tão real e logico. Que nos poderia assegurar as vidas, perdidos entre aquellas turbas negras, senão o terror supersticioso?

Depois de jantar accendemos os cachimbos--o que encheu os nossos amigos d’espanto. Na terra dos Kakuanas, como na dos Zulús, a planta do tabaco cresce em abundancia--mas elles só a sabem usar torrada e sêcca, pulverisada. Só conhecem o rapé.

No emtanto conversamos a respeito da nossa jornada. Infandós já tudo organisára para que ella continuasse na madrugada seguinte, mandando adiante emissarios a prevenir Tuala da nossa chegada ao seu reino. Tuala estava então na sua grande cidade de Lú, preparando-se para a revista de tropas, a dança das flores, e «caça aos feiticeiros», que constituem a maior solemnidade religiosa e militar dos Kakuanas, na primeira semana de junho. E segundo affirmava Infandós, nós deviamos (a não ser que nos detivessem os rios transbordados) entrar as portas de Lú ao fim de dois dias de marcha.

Depois, como começavam a luzir as estrellas e a aldêa ia cahindo em silencio, os nossos amigos deixaram a cubata. E tres de nós atiraram-se logo para cima dos leitos de pelles, emquanto outro, com as carabinas carregadas, velava, no seu turno de sentinella, para prevenir as traições.

Mas essa primeira noite na terra dos Kakuanas foi muito calma e segura.