As Minas de Salomão
Capitulo V
A NOSSA ENTRADA NO DESERTO
Tinhamos morto nove elephantes. Dois longos dias levámos a serrar-lhe os dentes e a enterral-os com cuidado debaixo d’uma arvore enorme, que destacava isoladamente na vasta planicie, e formava um «signal» inesquecivel. Era um esplendido lote de marfim! Só os dentes do «Patriarcha» pesavam (tanto quanto pude avaliar) uns cento e setenta arrateis!
O pobre Khiva, esse, sepultámol-o ao pé da collina, com uma azagaia ao lado, para se defender dos Espiritos Malignos na sua difficil jornada para o Paraiso zulú. Ao romper do terceiro dia levantámos o acampamento--todos nós fazendo votos no silencio da nossa alma para que nos fosse dado voltar um dia! Eu, mentalmente, accrescentava:--«voltar e desenterrar este rico marfim!»
Depois d’uma fatigante marcha, cortada d’esses episodios africanos que todos os Africanistas experimentam, chegámos emfim á aringa de Sitanda, ao pé do rio Lukanga. Ahi era verdadeiramente o nosso «ponto de partida». Ahi começariam as nossas miserias.
Perfeitamente me lembro do sitio, e da nossa chegada. Para a direita descia, transmalhada, uma pequena povoação de negros, com curraes de gado murados de pedra solta, e leiras de terra cultivada ao comprido da agua clara. Por traz da aldeia ondulavam grandes pradarias de herva alta, onde a caça abundante esvoaçava. E para a esquerda era o escuro, silencioso, infindavel deserto.
O nosso acampamento ficou junto d’esse riacho alegre que corria entre arbustos em flôr. Defronte erguia-se um outeiro pedregoso. Apenas erguemos as tendas, subi lá com o barão. Era aquelle o sitio, aquelle o outeiro onde eu vira, havia vinte annos, n’uma tarde como esta, a figura do pobre Silveira, com o seu grande casacão comprido, apparecer cambaleando, toda escura na vermelhidão do poente. Como então, o globo do sol afogueado descia já rente da terra--e os seus raios flexavam obliquamente aquelle deserto coberto de tojo baixo, sombrio, sem agua, sem vida, terrivelmente mudo, que matára o pobre portuguez, que nos ia talvez matar a nós. Ficámos olhando para elle em silencio. O ar era d’uma admiravel finura e transparencia; e longe, muito ao longe, podiamos distinguir, recortada no horisonte, pallidamente azulada e com laivos brancos de neve, a cordilheira de Suliman. Mostrei-as ao meu companheiro:
--A entrada das minas de Salomão lá está... Chegaremos nós lá?
N’esse instante senti alguem por traz de nós respirando: era Umbopa, que trepára tambem ao comoro, e considerava o deserto com pensativa gravidade. Vendo que eu reparára n’elle, deu um passo lento, depois outro mais lento. E dirigindo-se ao barão (a quem parecia ter-se affeiçoado), apontando com a sua grande azagaia para o lado dos montes:
--É para aquella terra além que tu vaes, Incubú?
Incubú é uma palavra do dialecto zulú, que significa «elephante», e que servia, ente os Cafres, para designar o nosso chefe. Estranhei a audacia d’Umbopa, e perguntei-lhe asperamente que tosca maneira era essa de fallar a seu amo... Que o negro dê uma alcunha negra ao patrão, por lhe ser mais facilmente pronunciavel que o nome--vá! Que a um como eu, pobre caçador que ganha o seu pão, o negro se dirija sempre pela alcunha negra--vá ainda! Mas que a atire á face d’um senhor, d’um fidalgo--isso não!
--Falla assim aos teus iguaes, gritei eu. Falla assim aos que comtigo comem da mesma gamella!
O Zulú teve uma risadinha dôce que me enfureceu.
--Que sabes tu, accrescentou elle, se eu não sou igual ao amo que sirvo? Elle pertence a uma grande casta, pelo olhar se vê logo: mas talvez eu pertença a uma casta maior! Pelo menos sou tão forte como elle, e posso com elle repartir o que tenho no coração. Sê pois a minha bôca, oh Macumazan! Dize as minhas palavras ao Incubú meu amo! E attende-as tu tambem, porque em mim só ha verdade!
Fiquei perfeitamente indignado. Nunca um Cafre me fallára n’aquelle tremendo tom! Mas, não sei porque, o maldito Zulú tinha a arte de me impressionar. Além d’isso sentia uma viva curiosidade... De sorte que lhe traduzi as palavras,--accrescentando que a creatura me parecia impudente e ousada.
O barão, porém, homem de excellente paciencia, voltou-se sorrindo para o Zulú:
--É para as montanhas que vou com effeito, Umbopa! Vou em procura d’um homem da minha raça, d’um irmão meu, que atravessou este deserto, e que eu supponho estar além!
O Zulú moveu lentamente a cabeça:
--Assim é, assim é... Encontrei um homem no caminho que me disse: Ha dois annos que um branco se metteu tambem ao deserto como nós, levando um só serviçal... Nunca mais voltaram...
--Quem te disse? Perguntei, vivamente. Porque te sahem só agora essas palavras? Onde te disseram?
Antes de Inyati, um homem que elle encontrára no caminho. Contára-lhe que o branco se parecia com o chefe Incubú, mas tinha a barba escura: e que ia seguido por um caçador bechuana chamado Jim.
--São elles! Exclamei. Não ha duvida! São elles! Jim conhecia eu bem....
O barão ficou pensativo.
--Se meu irmão tinha decidido atravessar o deserto, murmurou por fim, ou o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito não era da tempera d’elle. Ou não vive, ou está para lá das serras.
O Zulú, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos brilhantes, tornou muito gravemente:
--É uma longa jornada, Incubú.
--Quartelmar, diga-lhe que não ha jornada que o homem não possa emprehender, replicou o barão (que evidentemente estimava e considerava aquelle singular Zulú). Nada ha que o homem não possa fazer; nem desertos que não possa atravessar, nem montanhas que não possa subir, se puzer n’isso alma e vontade. O essencial é contarmos a vida por coisa nenhuma, alegremente promptos a conserval-a ou a perdel-a, segundo Deus ordenar.
Quando o Zulú comprehendeu, toda a face se lhe illuminou:
--Grandes palavras, meu pai Incubú! Grandes, soberbas palavras que enchem bem a bôca d’um forte! Que é a vida, na verdade? É a semente da herva que o vento sopra aqui e além. Ás vezes cae em boa terra e fructifica; outras vezes, na rocha dura e definha... O homem nasce para morrer. Mais tarde ou mais cedo, que importa? É sempre a morte. Eu por mim irei comtigo, Incubú! Irei por montanha e deserto, e ser-te-hei sempre fiel...
Parou. E subitamente rompeu n’uma d’essas rajadas de poesia, frequentes nos Zulús, que tanto surprehendem os que pela primeira vez as testemunham, e que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de geração em geração, mostram que se a raça não é intelligente, é pelo menos imaginativa.
--Que é a vida (exclamava Umbopa, abrindo os braços, n’aquelle tom cantado que os Zulús tomam n’esses momentos de exaltação). Que é a vida? Dizei-me, oh brancos, vós que sabeis os segredos d’este mundo, e do mundo das estrellas que brilha por cima, e do outro mundo que está para além das estrellas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me o segredo da vida! D’onde vem ella, para onde vai?... Não podeis, não sabeis! Escutai então! Nós sahimos da treva, e para a treva marchamos. Como um passaro acossado pela tormenta, nós sahimos do fundo da escuridão: durante um momento passamos, e as azas brilham-nos á luz das fogueiras: depois, de novo e para sempre mergulhamos na treva! A vida é o pyrilampo que fulgura de noite e de dia é negro! É o halito dos rebanhos no ar de inverno! É a sombra que corre sobre a relva, e que desapparece ao poente!...
Calára-se, com os braços ainda abertos, o olhar perdido nas alturas.
--És um homem bem singular, Umbopa! Exclamou o barão, que o escutára assombrado.
O outro pareceu acordar, sorriu:
--Creio que nos assemelhamos, Incubú. Talvez eu tambem vá procurando um irmão entre as gentes que estão para lá das montanhas.
Olhei para Umbopa, com o sobr’olho franzido.
--Que gentes? Que sabes tu das gentes que vivem para lá das montanhas?
--Pouco, Macumazan, muito pouco. Ha para além uma terra de feitiços, de jardins, de gente valente... Ha tambem uma grande estrada branca, toda de pedra. Assim ouvi. Mas de que vale dizer? Quem lá chegar, lá verá!
Aquelle homem evidentemente sabia alguma coisa que não queria revelar. Elle decerto percebeu a minha desconfiança--porque acudiu, espalmando as mãos:
--Não te arreceies, Macumazan! Não te arreceies! Não abro covas para que tu cáias dentro. Se chegarmos a atravessar o deserto, eu te contarei o que sei. Mas a Morte está lá com uma lança, á nossa espera. Melhor te fôra, Macumazan, voltar aos teus elephantes... Fallei o que tinha a fallar.
E meneando a azagaia á maneira de saudação, desceu o comoro, recolheu ao acampamento--onde d’ahi a instantes o encontrámos limpando uma carabina, attento, calado, como qualquer servo cafre vasio de pensamento e vontade.
--Homem extraordinario! Murmurou o barão.
--Extraordinario de mais! Não gósto nada d’aquelles mysterios... Mas, emfim, nós estamos mettidos n’uma aventura phantastica, e um Zulú mysterioso de mais ou de menos--não tira nem põe!
Na manhã seguinte começámos os preparativos para a marcha. Era impossivel naturalmente levar comnosco, através do deserto, todo o pesado armamento, e as cantinas. Fomos portanto forçados (depois de debandar os carregadores) a confiar tudo a um velho cafre, um atroz sacripante, que possuia alli uma aringa consideravel. Bem penoso me era abandonar as nossas magnificas armas á mercê d’aquelle velho malandro--cujos olhos se fixavam já nos nossos bens com um fulgor de cubiça e rapina. Tomei por isso as minhas precauções.
Comecei por carregar as espingardas. Depois declarei ao bandido, n’um tom cavo, que aquelles canos estavam enfeitiçados--e que se elle lhes tocasse «alli» (mostrei o gatilho), os demonios fugiriam de dentro despedindo um raio! Immediatamente (como eu calculára), o Cafre puxou o gatilho a uma carabina «Express». E o raio partiu. Partiu, com tanta felicidade, que matou uma vacca que pastava pacificamente a distancia, á beira d’agua--e atirou o velho de pernas ao ar, com a inesperada força do recúo. O pavor do malandro foi indizivel. Tremia todo, dava pulos em volta da vacca morta (que depois, mais tranquillo e com toda a impudencia, queria que eu lhe pagasse), olhava para o céo, olhava para o chão... Por fim rompeu aos berros:
--Tirem esses demonios que estoiram! Ponham-os lá em cima, sobre o colmo!... Ai, que não fica vivo um de nós!
Apenas elle serenou, continuei a minha predica. Affirmei-lhe, com olhares esgazeados, que se ao voltarmos, uma só arma d’aquellas faltasse, eu, que possuia as artes dos brancos, o mataria a elle e a toda a sua gente por meio de bruxarias sangrentas: e que se nós morressemos e elle tentasse apoderar-se do que era nosso, eu voltaria em espirito perseguil-o, puxar-lhe de noite pelos pés, tornar-lhe o gado bravo, dessorar-lhe o leito fresco, seccar-lhe a semente na terra,--e fazer a vida na aringa tão dura e terrivel que seus proprios filhos o amaldiçoariam... Emfim, dei-lhe uma idéa razoavel do Inferno, com horrores ineditos. O velho malandro, espavorido, jurou que olharia pelas nossas armas como se fossem os ossos de seu pai! Era um patife infinitamente supersticioso.
Em seguida combinámos o que nós cinco--o barão, o capitão John, eu, Umbopa e Venvogel--deviamos levar comnosco através do deserto. Muito calculámos, muito experimentámos. Não lográmos chegar a um peso menor de quarenta arrateis por homem. E havia escassamente o necessario! Eis aqui o que conduziamos:
Cinco espingardas--com a competente munição (quatrocentas cargas);
Tres rewolvers;
Cinco cantis d’agua, de cinco quartilhos cada um;
Cinco mantas;
Vinte e cinco arrateis de biltong-- que é uma especie de carne sêcca;
Dez arrateis de contas de vidro para presentes aos indigenas;
Navalhas, phosphoros, um compasso, um filtro d’algibeira, uma enxó, uma garrafa de cognac, tabaco--e os fatos que tinhamos no corpo.
Era tudo: e era pouco, como necessidade e conforto, n’uma semelhante empreza! Ainda assim peso consideravel para cinco homens acarretarem, por um sol terrivel, através d’um deserto esteril!
Depois, com immensas difficuldades, persuadimos tres negros da aldeola a acompanharem-nos durante vinte milhas, levando cada um ás costas uma larga cabaça d’agua fresca. O meu fim era podermos encher de novo os cantis, depois da primeira noite de marcha (porque decidiramos partir na frescura da noite). Os negros, a quem eu contára que iamos caçar o abestruz, não acreditaram: tinham por certo que morreriamos de sêde e de fome no grande sertão: elles proprios temiam a morte e os demonios que vagam no deserto: e só consentiram em nos seguir, a troco de tres facas de matto e d’uma manta vermelha.
Durante todo esse dia descançámos e dormimos. Ao pôr do sol celebrámos um grandioso jantar, de caça, de carne fresca e de chá--«o ultimo chá, observou John com melancolia, que naturalmente beberiamos por longos e longos mezes». Depois, apetrechadas as mochilas, esperámos que nascesse a lua. Perto das nove horas subiu ella, em toda a sua serena e pensativa gloria, inundando de luz branca e vaga todo o immenso deserto, que parecia tão mudo, solemne, impenetravel e virgem de pégadas humanas como o claro firmamento que por cima resplandecia. Com a lua que se erguia nos erguemos nós tambem. Tudo estava prompto, os negros de cajado na mão:--e todavia hesitavamos ainda, como o fraco homem hesita sempre perante o Irrevogavel. Lembro-me bem. Adiante de nós alguns passos, Umbopa, de azagaia na mão, com a carabina a tiracollo, olhava fixamente para o deserto: atraz de nós, n’um grupo, Venvogel, com os tres negros que levavam as cabaças d’agua, esperavam, direitos e mudos: e nós tres, os homens brancos, muito juntos, sentiamos bater forte o coração.
De repente, o barão tirou devagar o chapéo. E com profunda emoção:
--Amigos, vamos começar uma das mais estranhas jornadas que homens têm ousado tentar. O que será de nós, não sei: mas, para bem ou para mal, juntos estamos, juntos nos encontraremos sempre! E agora, antes de partir, ergamos o pensamento para Aquelle que tudo póde!
Escondeu a face entre as mãos, ficou immovel. O capitão John e eu baixámos tambem a cabeça, com reverencia, com humildade. Eu por mim, confesso, nunca fui homem de orações. Caçadores de elephantes, na dura vida d’Africa, raro se lembram de fallar a Deus. Em todo o caso, n’aquelle momento, rezei. Rezei com fervor; e senti-me depois mais alegre e mais leve. Creio que o capitão (religioso no fundo, apesar de praguejar medonhamente) tambem rezou. O barão esse era homem de piedade e crença... Quando destapou o rosto, olhou em redor, ergueu o braço,--e com um bello ar de resolução e de esperança:
--Prompto?... Larga!
Os bordões resoaram na terra dura,--e largámos.
Para nos guiar no deserto tinhamos apenas as distantes montanhas de Suliman, e o roteiro que o velho D. José da Silveira traçára no pedaço de camisa. Cada um de nós trazia na algibeira uma cópia d’esse mappa rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido riscadas por um homem meio morto, ha trezentos annos--era bem certa a sua utilidade? A nossa salvação, n’aquella jornada, seria encontrar a lagôa, ou poça de agua salobra que o velho fidalgo portuguez marcára a meio caminho entre a aldeia d’onde partiramos e as serras de Suliman. Se a não achassemos, tinhamos certa a morte, uma morte terrivel, a morte pela sêde. E, para mim, as probabilidades de descobrir uma lagôa de tres ou quatro metros n’aquella vastidão de areia e tojo, parecia-me minima, infinitesima. Mesmo suppondo que o Portuguez a marcára com exactidão--quem nos afiançava que n’esses trezentos annos ella não seccára ou não fôra coberta pelas areias movediças?
Era n’isto que eu pensava--emquanto silenciosamente, como sombras, iamos marchando sob o luar silencioso. O caminho não era facil: o tojo denso e espinhoso retardava-nos o passo: a areia mettia-se nos sapatos, e cada meia hora deviamos parar para os esvasiar: e, apesar da noite não estar quente, havia no ar alguma coisa de pesado e de espesso, que amollentava. Mas o que sobretudo nos opprimia era a solidão, o silencio--o infinito, terrivel silencio. John ainda tentou assobiar uma cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho de teus dôces olhos, parecia lugubre n’aquella severa immensidade. O engraçado homem emmudeceu. E seguimos n’uma fila muda através do matto mudo.
Perto da meia noite, sobreveio uma aventura que nos assustou--e depois nos divertiu immensamente. John, como marinheiro, levava a bussola, e marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro--John desapparece! Ao mesmo tempo rompia em torno de nós uma balburdia medonha de roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo--e vemos fórmas, como garupas, galopando através do tojo, entre rolos d’areia. Os negros atiraram-se ao chão, gritando que eram «demonios acordados»! Eu proprio e o barão ficámos surprezos:--e o nosso assombro cresceu quando avistámos John, apparentemente montado n’um potro, fugindo aos galões para o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento mais--e vêmol-o sacudir os braços no ar, e de novo desapparecer, no matto baixo, com um baque tremendo. Corremos para elle e percebemos o caso estranho: tinhamos ido cahir no meio d’um rebanho de zebras adormecidas: John estatelára-se exactamente sobre as costas d’uma, enorme: e o bicho, pulando espavorido, abalára com o nosso amigo nas ancas. Felizmente não se magoára no tombo final: fomos dar com elle sentado na areia, de monoculo firmemente cravado no olho, aturdido, indignado--mas intacto de pelle e osso.
Depois d’isto marchámos socegadamente até perto das duas horas da noite. Fizemos então uma paragem, bebemos uns goles d’agua (não muitos, nem largos, porque a agua passava a ser preciosa), e ao fim de trinta minutos de descanço recomeçámos a caminhar para diante, para diante sempre, até que o nascente se tingiu de laivos de rosa. Vimos as estrellas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se ao rez do horisonte, a lua declinar mais livida que um cirio, longos raios de luz varar e colorir de fogo os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se d’uma tremula refracção d’ouro--e ser dia!
Não parámos apesar de já cansados--pela certeza de que bem cedo o sol, nado e alto, nos impediria de dar um passo unico, sob o seu torrido esplendor. Com effeito, ás seis horas já ardia! Por felicidade avistámos então na planicie um montão de rochas. Para lá nos arrastámos, exhaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra pousada sobre grossos blocos fazia como um telheiro, cuja sombra cahia sobre um pedaço d’areia fina. Abrigo providencial! Alli nos aninhámos: e, depois de beber alguns goles d’agua bem contados e de comer uma lasca de biltong, adormecemos deliciosamente.
Ás tres horas acordámos. Os carregadores que tinham trazido as cabaças já se preparavam para voltar á sua aringa. De sorte que absorvemos uma farta tarraçada d’agua, enchemos de novo os cantis, e distribuimos pelos homens as facas de matto promettidas. D’ahi a instantes vimol-os (não sem uma vaga melancolia) voltar costas ao deserto e romper a marcha para o lado da sua aldeia, para o lado da frescura e da agua!
Ás quatro e meia mettemos de novo a caminho. A cada passo tudo de redor se parecia alargar em silencio e desolação. Ao principio ainda avistavamos, aqui e além, entre o matto, um abestruz. Depois, nem mesmo reptis topavamos na planicie arenosa. A nossa unica companhia era a mosca, a mosca ordinaria e caseira... Digno e veneravel animal! Em qualquer logar em que o homem penetre, deserto, montanha, caverna--a mosca lá está. Foi este decerto o primeiro dos sêres vivos que surgiu sobre a terra. Já havia moscas para pousar no nariz de Adão. O derradeiro homem ha de morrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno á face. E talvez haja moscas no Paraiso.
Ao sol-posto parámos, esperando que nascesse a lua. Mais bella e serena que nunca surgiu ella ás dez horas--e toda a noite, sob o seu calmo e pensativo brilho, na mudez da vastidão, caminhámos, caminhámos... O sol nado pôz um termo á valente marcha. Sorvemos por conta uns goles d’agua dos cantis, atirámo-nos para cima da areia, e alli nos tomou o somno a todos quatro simultaneamente. Não havia necessidade que um velasse. Nada tinhamos a recear, nem de homem nem de fera, n’aquella immensidade despovoada. D’esta vez porém nenhuma rocha nos abrigava--e ás sete horas acordámos sob o sol faiscante, com a sensação que deve experimentar um bife de lombo achatado sobre a grelha. Estavamos sendo fritos! O sol por cima, a areia por baixo, seccavam-nos o sangue nas veias. Todos nos erguemos, de salto, quasi sem respiração.
--Santo Deus! Murmurou o barão, sacudindo os enxames de moscas.
--Póde-se chamar a isto calor! Gemeu do lado o capitão, que arquejava.
Podia-se chamar, na verdade. E eram apenas sete horas! Em toda a vasta extensão nem um abrigo! Só matto rasteiro--e por cima uma vibração radiante, tão viva e intensa que viamos tremer o ar.
--Que se ha de fazer? Exclamou o barão. É impossivel aguentar isto!
Olhámos uns para os outros, estupidamente.
--Se abrissemos uma cova? Lembrou John. Podiamos metter-nos dentro e cobrir-nos com tojo... É uma idéa.
Não brilhante! Mas era a unica:--de modo que, já com a enxó, já com as mãos, passámos a abrir uma cova do tamanho aproximado d’uma larga cama. Cortámos uma porção de matto; e alli nos sepultámos, collados como sardinhas n’uma caixa, todos quatro, o barão, John, eu e Umbopa,--porque Venvogel, como Hottentote, não sentia os ardores do sol. Foi elle que nos cobriu de matto. Realmente, assim, estavamos ao abrigo dos raios perpendiculares do sol:--mas que pavorosa ardencia a d’aquella fossa, em que cada torrão, junto do corpo, era como uma braza viva! Não comprehendo como nos desenterrámos vivos. Dormir, impossivel! Jaziamos estendidos, hirtos, sem ter já que suar, quasi cortidos, arquejando anciosamente. Só possuiamos o consolo de humedecer de vez em quando os beiços com uma gota d’agua muito medida! Esta avara medição da agua era o tormento maior. A cada instante necessitavamos recalcar a furiosa tentação de sorver d’um só trago os quatro cantis. Mas quê! Se a agua faltasse--breve viria a morte!
Tudo tem um fim n’este mundo, diz a Sabedoria oriental, comtanto que se possa esperar. Esperámos: a horrivel, interminavel manhã passou: e pelas tres horas preferimos encontrar a morte, andando (se a morte tinha de vir) a ser por ella lentamente envolvidos n’aquelle infame buraco. Reconfortámo-nos com um curto sorvo á nossa agua,--que diminuia terrivelmente, e subira já á temperatura do sangue. E com um esforço rompemos de novo através da planicie flammejante.
Tinhamos transposto umas dezesete leguas de ermo. Ora no roteiro do velho D. José da Silveira, a total extensão do deserto estava fixada em quarenta leguas; e a famosa poça de agua salobra vinha marcada a meio do deserto. A esse tempo, portanto, deviamos estar a umas tres leguas da agua--se a agua existia! Em toda a tarde, porém, fizemos pouco mais d’uma milha por hora. Ao pôr do sol parámos á espera da lua. Deixei-me cahir para o chão, como um morto, cerrei os olhos. Mas d’ahi a um instante Umbopa fez-me erguer e notar, á distancia de oito ou nove milhas, uma especie de outeiro redondo e liso que se erguia abruptamente na planicie rasa. Não parecia uma elevação natural de terreno, na sua semelhança estranha com uma metade de laranja. Quando me tornei a deitar adormeci logo, murmurando: «Que será?...»
Ao romper da lua de novo partimos, já alquebrados de cansaço e de sêde. O andar franco e firme acabára para nós. Era agora um arrastar de passos quasi cambaleantes, com paragens bruscas de meia em meia hora, em que cahiamos para cima da areia, sem força, de coração desmaiado. Nem animo nos restava para conversar. Até ahi ainda gracejavamos, heroicamente. John sobretudo--jovial camarada! Mas agora! Nem voz tinhamos para gemer!
Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e d’alma, chegámos ao pé do comoro estranho. Era uma especie de duna d’areia, escura, lisa, atarracada, da altura d’uns trinta metros, e cobrindo na base duas geiras de terreno. Parámos. E desesperados com a sêde, sorvemos o resto da agua. Tinhamos meio quartilho por bôca! Podiamos ter emborcado um almude!
Cada um em silencio se estendeu para dormir. Eu fechava os olhos, resvalava já dôcemente no esquecimento e no sonho, quando ouvi Umbopa ao meu lado murmurar para si proprio em zulú:--O que é a vida! Se ámanhã não achamos agua, a lua ao nascer encontra aqui quatro mortos... Vida, sombra que passa! Vida, murmurio que finda!
Apesar do calor senti um arripio. Pois tanta era a fadiga, que confrontado por esta probabilidade (uma agonia de sêde n’um deserto d’areia!), adormeci profundamente.
Eram quatro da manhã quando acordei. E bruscamente entrou commigo a tortura da sêde! Estivera todo o tempo sonhando que passeava á beira d’um regato d’agua, muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes arvores de fructas... Quando me ergui esfreguei a face com ambas as mãos; mãos e face pareceram-me mais sêccas e duras do que coiro; e as palpebras e os beiços estavam tão pegados, tão collados, que tive de os descerrar á força com os dedos, como se os unisse uma colla forte. A madrugada ainda vinha longe; mas não reinava no ar a natural frescura matutina, antes uma espessura molle e morna intoleravelmente pesada. Os outros dormiam... Fiquei callado, olhando em redor a desolada solidão. E pouco a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murmurio fresco do regato que corria, o ramalhar da verdura, pios d’aves, e toda uma sensação de paz, de sombra, de abundancia, que me fazia sorrir sósinho n’um immenso contentamento... Ao mesmo tempo tinha a certeza do deserto e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei!
Voltei a mim, quando os outros em redor se começaram a mexer, erguendo-se devagar sobre o cotovêlo, esfregando como eu as faces resequidas, separando á força como eu os labios sem saliva e mirrados. Já rompia a claridade. Apenas acordados todos, e conscientes, começámos a fallar da nossa situação--que era sombriamente desesperada. Não nos restava uma gota d’agua! Voltámos os cantis para baixo, chupámos-lhes os gargalos. Mais sêccos que ossos! O capitão John, que guardára a garrafa de cognac, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento olhar.--Mas o barão arrancou-lh’a das mãos. Beber alcool, n’aquelle estado?... Era a morte.
--Mortos estamos nós (murmurou o capitão encolhendo os hombros) se d’aqui á noite não achamos agua!
--Se o roteiro do Portuguez estivesse exacto, disse eu suspirando, a poça d’agua devia apparecer por aqui, algures... Foi n’esta altura exactamente que elle a achou...
Os outros nem responderam. Realmente nenhum de nós tinha já confiança no roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a poça existisse--como encontrar n’essa immensidão o sitio exacto e preciso onde ella estaria, mais pequena e perdida do que uma moeda de prata n’uma praia d’areia? Só por um «bamburrio»! Ou só se ella jazesse junto d’accidente do terreno, que, pela sua especial saliencia na vasta planicie, inevitavelmente attrahisse os olhares e os passos.
A claridade ia crescendo; e quando assim estavamos, lançando conjecturas, n’esta terrivel anciedade--reparei que o nosso Hottentote Venvogel andava a distancia, com os olhos no chão, lentamente, como quem procura um rasto... De repente parou, soltou um grito, com o braço espetado para a terra.
--Que é? Exclamámos todos.
E corremos alvoroçadamente.
--Pégadas de corço! Bradou elle em triumpho, apontando para o chão.
--E então?
--Corços nunca andam longe d’agua!
--É verdade! Gritei eu. E louvado por isso seja Deus!
Foi como se renascessemos á vida. Não era ainda a agua--mas a esperança d’ella, para breve! E n’uma crise afflictiva como a nossa, uma esperança, por mais vaga e tenue, vale sobretudo pela coragem de que enche logo a alma.
Venvogel no emtanto começára a andar em redor, com o nariz erguido (o seu largo nariz mais chato que o d’um bull-dog), sorvendo o ar quente, farejando.
--Cheiro agua! Dizia elle, cheiro agua!
E nós todos atraz d’elle, farejando tambem, quasi já viamos a agua--sabendo bem que estes Hottentotes, como todos os selvagens, possuem um faro maravilhoso. Mas n’esse instante os grandes raios do sol que nascia bateram-nos o rosto. E olhando, descobrimos uma tão grandiosa paizagem, que por um momento esquecemos a agua e os tormentos da sêde!
Diante de nós, a umas dez ou doze leguas, rebrilhando como prata nos primeiros raios do dia, erguiam-se os dois enormes montes que o portuguez chamára os «Seios de Sabá»; e de cada lado d’elles, estendendo-se sem fim, durante centenares de milhas, a vasta cordilheira de Suliman! Não é possivel transmittir, no verbo humano, a incomparavel grandeza e belleza d’aquelle quadro de montanha!
Alli estavam as duas enormes serras que não têm iguaes na Africa, nem creio que no resto do mundo, medindo pelo menos mais de quinze mil pés d’altura, emergindo da cordilheira infinita--brancas, mudas, de portentosa solemnidade, enchendo o céo até acima das nuvens. E o que esmagava a alma, era a assombrosa estructura. A cordilheira estendia-se como um muro disforme de granito, d’altura de mil pés: as duas serras formavam como os dois torreões d’uma porta, perdidos nas profundidades: a parte da serra que separava os dois montes, sendo talhada a pique, lisa e rigorosamente horisontal no alto, reproduzia a configuração d’uma porta prodigiosa:--e o aspecto todo era como o d’uma muralha cercando uma cidade fabulosa de sonho ou de lenda!
Bem justamente chamára o velho fidalgo portuguez aos dois montes «Seios de Sabá»! Tinham com effeito a fórma perfeita de dois peitos de mulher: as suas vastas faldas iam subindo da planicie, n’uma curva dôce e tumida, parecendo áquella distancia formosamente redondas e lisas: e no cimo de cada uma, um immenso outeiro sobreposto, todo coberto de neve, semelhava exactissimamente a ponta, o bico d’um peito. Prodigiosa estructura! Se a Terra, como pretendia a antiga Mythologia, é uma mulher, a enorme Cybele--ahi estavam decerto os seus peitos uberrimos! Mas á minha imaginação (nunca muito inventiva, mas perturbada e excitada n’esse momento pela fraqueza) aquillo tudo se afigurava uma muralha estupenda, cercando e defendendo uma região de infinito mysterio; e a cada instante me parecia que a porta de granito ia rolar, abrir-se com fragor, e desvendar algum segredo secular--o segredo talvez da Terra d’Africa! E o mais extraordinario foi que, emquanto assim contemplavamos assombrados, começaram a subir, a agglomerar-se em torno aos dois montes lentas e estranhas nevoas e nuvens, como para esconder aos nossos olhos mortaes a magestade d’aquelle ádito, que uma vontade divina nos deixára por um momento entrever. D’ahi a pouco os «Seios de Sabá» estavam envolvidos de todo, resguardados sob o mystico véo--através do qual só podiamos distinguir agora as suas linhas, formidavelmente espectraes!... Depois, mais tarde, descobrimos que esses montes, em tudo singulares, estavam ordinariamente velados por esta curiosa nevoa, como por uma cortina de Sacrario. Só a certas horas, ao romper do sol, a cortina se descerrava, como n’uma celebração, desvendando aos homens a maravilha sem par.
Passada a violenta surpreza, de novo nos considerámos com a mesma anciosa interrogação--«que fazer?» Venvogel insistia, convencido, que lhe cheirava a agua:--mas debalde buscavamos, trilhavamos o terreno em redor, esquadrinhavamos através do matto. Nada! Só a areia ondulando, com manchas de matagal. Démos a volta toda ao singular outeiro onde pararamos de noite. Avançámos para os lados, em todas as direcções do vento, com attentos e lentos passos, e olhos sôfregos que furavam a terra. Nada! Nenhum vestigio d’uma nascente, d’uma poça, d’um charco. Só areia, arido tojo.
--Idiota! Gritei eu desesperado com o Hottentote. Não ha, nunca houve aqui agua!
N’aquella aspera, arida immensidade não parecia, com effeito, haver possibilidade, nem sequer verosimilhança d’agua... E quanto tempo de resto poderia durar alli uma «poça salobra», como a que encontrára o velho fidalgo, sem ser chupada pelo sol ardente ou atulhada pelas areias movediças?
No emtanto Venvogel, o Hottentote, continuava a farejar, com as ventas erguidas e abertas:
--Eu sinto o cheiro d’agua, patrão. Sinto-a no ar!--No ar não duvido. Ha agua que farte nas nuvens! Tambem não duvido que venha a cahir. Mas ha de ser para nos lavar os esqueletos!
O barão no emtanto cofiava a barba pensativamente:
--E todavia, murmurava elle, por aqui a encontrou o velho portuguez! O sitio é este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exacto, na linha direita de norte a sul, da aringa de Sitanda ás Serras. É aqui. Aqui esteve agua!
Sim, mas ha trezentos annos! Em tres seculos muita agua brota e sécca! Quem nos afiançava de resto a exactidão do portuguez, esvaído de fome, meio delirado, no começo da sua agonia? Já não era pequena estranheza que elle a tivesse encontrado, n’esta deserta immensidade, justamente quando d’ella lhe dependia a vida!... A não ser que para ella fosse attrahido insensivelmente e naturalmente por algum accidente de terreno, muito saliente e muito visivel de longe--como um bosque, uma collina... Uma collina!
E quando eu assim pensava, eis que o barão grita, como echoando o meu pensamento:
--No alto da collina! Talvez a agua esteja no alto da collina!
--Tolice! Acudiu o capitão encolhendo os hombros. Agua no topo d’uma collina! Onde se viu isso?
--Procuremos! Disse eu, com um bater de coração que era todo de esperança.
Trepámos anciosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. De repente estaca, com os braços no ar:
--Nanzie manzie! (agua aqui!)
Pulámos para junto d’elle:--e com effeito, mesmo no topo da collina, n’uma cova redonda como uma taça, lá estava agua, agua escura, agua lôbrega--mas agua! Agua! Agua! Gritavamos de puro gozo. E n’um momento, estirados de barriga no chão, com as faces na poça, sorviamos deliciosamente a grandes e rapidos sorvos aquelle liquido desappetitoso, que tão bem imitava agua. Céos! O que bebemos! E mal findámos de beber, arrancámos o fato, saltámos para o charco, e, sentados n’elle, ficámos horas a embeber-nos de frescura através da pelle--da nossa pobre pelle mais dura e mais sêcca que um pergaminho secular.
Quando nos erguemos, refrigerados e saciados, cahimos sobre a carne sêcca. Comemos a fartar. Uma longa cachimbada por cima completou aquella hora de consolação. E o somno que nos tomou até ao meio dia, deitados junto da poça e da sua humidade, foi profundo e bemdito!
Todo a quelle dia tardámos junto da agua, bebendo d’ella, mergulhando n’ella, olhando para ella--e dando louvores sem conta ao velho fidalgo que tão exactamente a marcára no mappa. Por fim, tendo enchido d’agua os estomagos e os cantis, continuámos a marcha, mais animados e ageis, ao erguer da lua cheia. Fizemos vinte e cinco milhas n’essa noite. Não tornámos a encontrar agua. Mas seguiamos confiados, com a certeza de a achar, abundante e fresca, nas faldas das serras. Quando o sol se ergueu e desfez as nevoas, avistámos de novo a cordilheira e os dois «Seios de Sabá» (agora afastados de nós apenas vinte milhas) tomando o céo com a sua magestade sublime. Essas vinte milhas cobrimol-as durante a noite. E ao outro alvorecer pisámos emfim as primeiras ladeiras do seio esquerdo de Sabá!
Com amargo espanto não encontrámos agua, e a nossa já ia findando! Não havia agora esperança de topar nascentes antes de chegarmos á linha de neve, que branquejava lá longe, no alto da serra: e já a sêde nos começava outra vez a torturar. Desconsoladamente fomos arrastando os passos por sobre o torrido chão de lava que formava a base do monte. Caminhada atroz! Pelas onze horas da manhã, apesar de curtos repousos, estavamos exhaustos--por causa sobretudo dos ladrilhos de lava asperos e rugosos que nos magoavam horrivelmente os pés. De sorte que, descobrindo a umas trezentas jardas acima grossos pedregulhos de lava, decidimos descançar umas fartas horas á sua sombra providencial. Para lá nos empurrámos, por lá nos abrigámos. E não foi pequena surpreza (se ainda nos restava a faculdade de experimentar surprezas!) avistar a pequena distancia, n’um planalto formando terraço sobre um barranco, uma extensa e fresca tira de verduras. Evidentemente a lava decompondo-se formára alli um chão de terra, onde as sementes trazidas por passaros tinham alastrado e verdejado... Démos, porém, pouca attenção a essas hervagens, porque não havia lá nem fructo nem agua--e de relva só Nabuchodonosor se conseguiu alimentar. Alli ficámos pois, estirados á sombra dos pedregulhos, sem força no corpo e sem esperança n’alma, pensando que nunca homens de senso se tinham arriscado a mais esteril, mais absurda aventura! Umbopa no emtanto, depois de considerar algum tempo em silencio a leira de verduras, caminhára para lá lentamente. E qual não é o meu assombro ao vêr aquelle individuo, ordinariamente tão composto e grave, romper em pulos phreneticos, brandindo na mão o quer que fosse de verde! Arremettemos para elle, na esperança anciosa de agua descoberta.
--É agua, Umbopa? Gritava eu pulando por sobre a lava.
--Agua e sustento, Macumazan! Exclamava elle agitando no ar a coisa verde, com effusivo triumpho.
Percebi emfim o que era. Era um melão! Tinhamos dado n’um meloal, um enorme meloal bravo, com milhares de melões, a cahir de maduros!
--Melões! Uivei eu para os companheiros que corriam atraz.
--Melões! Melões! Foi o berro victorioso que resoou nas quebradas.
N’um momento, cada um de nós tinha os dentes cravados n’um melão, sôfregamente. Comemos alli, entre todos, uns trinta melões; e apesar de mediocres creio que nunca nada na vida me soube tão deliciosamente. Mas o melão não alimenta--e refrescada a sêde não tardou a fome, mais intensa e aguda. Conservavamos ainda o biltong, a carne sêcca; mas já nos enjoava atrozmente: e além d’isso deviamos poupal-a com avaro cuidado, pela incerteza de encontrar outras provisões na longa ascensão da serra.
N’esse dia, porém, estavamos «em sorte decididamente», como disse John. Lançando os olhos para o deserto, emquanto conversavamos sobre esta terrivel evidencia, a fome--vi de repente uns oito ou dez grandes passaros voando em direcção a nós, lentamente.
--Atire, patrão, atire! Exclamou baixo o nosso servo hottentote, acaçapando-se immediatamente no chão.
Os outros agacharam-se tambem, para que, confundidos com a côr da lava, não fossemos avistados pelos passaros. Era um bando de enormes betardas, que no seu vôo direito e alto deviam passar a umas cincoentas jardas por cima das nossas cabeças. Tomei uma carabina Winchester, e esperei acocorado. Quando o bando vinha perto, ergui-me, com um grito e um salto. Assustados, os passaros juntaram-se todos precipitadamente em montão; e atirando á massa escura, pude facilmente abater um soberbo bicho, que pesava pelo menos vinte arrateis. Dentro de meia hora ardia uma fogueira de talos sêccos de melão: e o bicho aloirava em cima. Foi um banquete! Comemos aquella betarda toda, fóra carcassa e bico!
N’essa noite continuámos a ascensão do monte, á luz da lua, carregados de melões para a sêde. Á maneira que subiamos, o ar esfriava consoladoramente. Ao clarear do dia estavamos a umas doze milhas da linha de neve. Encontrámos mais melões: e a agua emfim, louvado Deus, já não nos inquietava, porque bem cedo penetrariamos nas regiões do gelo. No emtanto era immenso o nosso pasmo de não encontrar nascentes, quedas d’agua, um riacho corrente; porque decerto no verão as neves, derretendo, deviam encher d’agua aquellas encostas. Por onde corria a agua pois, para onde se sumia a agua? Só mais tarde descobrimos que (por uma causa ainda hoje para mim incomprehensivel) toda a agua, em riacho ou em queda, descia pela vertente norte da serra.
A subida cada vez se tornava mais aspera e custosa. Apenas faziamos uma milha por hora. A carne sêcca acabára. Melões, nenhuns mais encontrámos. O frio augmentava quasi a cada passada--o que nos permittia certamente caminhar de dia, mas nos regelava de noite terrivelmente! Havia agora muitas horas que não comiamos. A serra subia, subia diante de nós, cada vez mais desolada, mais núa de verdura ou vida. Os nossos momentos de repouso passavam n’um silencio sombrio e cheio de desesperança. Eu por mim ia já tão debilitado e confuso, que, d’esses tres dias que nos levou a ascensão da serra, não me recordo com bastante nitidez--e só poderia reconstruil-os pelos apontamentos do meu Diario. Na nota com data de 22 de maio encontro isto:--«Partimos ao nascer do sol. Vamos meio desmaiados de fraqueza. Só quatro milhas andadas. Comemos os pedaços de neve que começámos a encontrar. Frio intenso. Cada um de nós bebe uma gota de cognac. Para dormir amontoamo-nos uns sobre os outros: nem assim conservamos calor. Estamos verdadeiramente soffrendo de fome. Julguei que Venvogel, o nosso Hottentote, ia morrer esta noite».--Tudo isto é já terrivel. Mas o seguinte apontamento, datado de 23 de maio, recorda soffrimentos mais vivos:--«Estamos n’uma situação medonha. A não ser que encontremos que comer hoje, o nosso fim está proximo. O cognac acabou. Venvogel, que como todos os Hottentotes não póde aguentar frio, parece perdido. As ancias agudas da fome passaram. O que eu sinto (e os outros dizem que sentem o mesmo) é uma especie de adormecimento, de torpor no estomago. Estamos ao nivel da grande escarpa, que eu chamo a porta, o colossal muro de terra, lava e rocha, que liga os dois seios de Sabá. Para traz de nós estende-se o deserto que atravessamos... Para que o atravessamos nós?» Logo abaixo d’estas linhas ha outra, escripta decerto n’um dos momentos em que paravamos:--«Deus se amerceie de nós, que chegou o nosso fim!»
Esta linha não tem data, mas sem duvida foi traçada no dia 24. Depois os apontamentos falham; mas eu muito bem me recordo dos successos n’esse estranho dia. Iamos então caminhando através da neve, com paragens incessantes, impostas pela incomparavel fadiga. Tudo em redor era radiantemente, indescriptivelmente branco. E esta absoluta brancura, sob o absoluto silencio, tornava-se tanto mais desoladora, quanto evidenciava a ausencia de vida--e a impossibilidade de achar que comer, fosse animal ou planta. Quasi ao pôr do sol chegámos junto da «ponta do seio», d’essa enorme collina de neve dura, que, pousada no topo da montanha (da montanha que reproduzia a fórma perfeita d’um seio), parecia ella propria o bico d’esse peito descommunal. Apesar de exhaustos, prendemo-nos um instante na admiração d’aquelle esplendido cume de monte--mais esplendido ainda pela luz vermelha e côr de rosa em que os raios do sol poente o envolviam, dando-lhe um tom de carne, d’uma carne sobrenatural que de si irradiasse luz. Mas a admiração não podia durar em homens collocados como nós, a tão extrema visinhança da morte. O nosso mal era sobretudo o frio. Bem comidos, estimulados por um vinho generoso, ainda poderiamos aguentar a pavorosa temperatura d’aquellas neves eternas. Mas assim, moribundos de fome,--como resistir á noite que vinha cahindo? Quando o sol nos faltasse, como viveriamos, a menos de encontrar um abrigo? Abrigo!... Onde estava elle, n’essa branca e lisa vastidão de neve?
--A cova de que falla o portuguez, no papel, deve ser por aqui, murmurou o capitão John.
Pobre John! Tinha os olhos (como os outros, como eu decerto) encovados, esgazeados, rebrilhantes de febre, sobre a lividez da face hirsuta. Considerei um momento o pobre amigo encolhendo os hombros:
--Cova! Se tal cova existe... Na cova estamos nós, ou á beira d’ella.
O barão, porém, agora acreditava firmemente na escrupulosa exactidão do velho D. José da Silveira. «Se elle a achou (argumentava o barão, e com razão) é que essa cova está situada de tal sorte, tão saliente e tão visivel, que não póde deixar de attrahir os olhos, e logo os passos de quem fôr trepando a serra».
--Ainda a encontramos, e antes do sol posto! Affirmou elle com um grande gesto de esperança.
--Se a não encontramos (foi a minha consoladora replica) e a noite vier sobre nós, assim desabrigados, é o fim da nossa aventura. Em todo o caso, real ou metaphoricamente, é a cova!
Durante dez ou doze minutos arrastámos os passos n’um silencio mortal. Umbopa ia adiante, com os hombros abafados na manta curta, e um cinto de couro muito apertado, arrochado em volta da cinta «para encolher a fome». Eu seguia atraz, quasi vergado em dois. De repente tropecei n’elle que parára, e que me agarrou pelo braço:
--Macumazan, acolá! Exclamou surdamente, apontando com o cajado.
O que elle apontava era a linha abrupta onde começava, subindo, a primeira encosta do «bico do peito». E ahi na brancura da neve destacava uma mancha preta.
--É a caverna! Exclamou Umbopa.
Talvez fosse! Parecia, com effeito, a abertura negra d’um buraco. Para lá endireitámos os passos. E na realidade encontrámos uma gruta, de entrada baixa e lôbrega, que bem podia ser a que o velho D. José da Silveira marcára no seu roteiro. Em todo o caso alli estava um abrigo. E bemdito era o seu encontro--porque (como succede n’estas latitudes) o sol sumiu-se subitamente, e logo atraz d’elle, de golpe, sem crepusculo, sem gradação, a noite cahiu, gelada e negra. Enfiámos bem depressa para dentro da caverna, como animaes acossados. Aconchegámo-nos uns contra os outros, sentados no chão, costas com costas. E alli ficámos na treva, mudos, tiritando e procurando esquecer no somno a nossa extrema miseria. Mas o frio, intenso de mais, não nos consentia dormir. Estou convencido que n’aquella altura o thermometro marcaria regularmente quatorze ou quinze graus abaixo de zero! E era esta temperatura que tinhamos de affrontar, de todo alquebrados de fadiga, meio inanimados de fome!
Pois alli estivemos em montão, encolhidos uns nos outros, durante a infindavel noite, sentindo a cada instante, através do corpo, começos de congelação ora n’um pé, ora nos dedos, ora na orelha. Debalde nos apertavamos! Para quê! Nenhum tinha em si calor bastante para communicar á carcassa alheia. Ás vezes um conseguia dormitar durante momentos, mas para acordar logo em sobresalto, recomeçar a tremer. De resto, n’aquellas condições, o somno que se prolongasse--decerto se tornaria eterno. Foi uma noite angustiosa! Eu por mim creio que me conservei vivo por um violentissimo e teimosissimo esforço da vontade.
Um pouco antes da madrugada, Venvogel, o nosso pobre Hottentote, cujos dentes toda a noite tinham batido como castanholas, chamou baixo por mim, deu um pequeno suspiro, e ficou profundamente socegado, como se tivesse adormecido. As costas d’elle pousavam contra as minhas costas. Pareceu-me que as sentia pouco a pouco arrefecer. Por fim tornaram-se positivamente como uma grande pedra de gelo que me regelava. Duas vezes as repelli. Duas vezes a pedra se abateu sobre mim, mais fria. O ar no emtanto clareava. Á entrada da cova foi apparecendo como uma nevoa luminosa, feita da refracção do sol sobre a neve. Uma luz mais viva e fixa estendeu para dentro a sua brancura--e olhando então para traz descobri que o pobre Hottentote estava morto! Decerto morrera quando o ouvi suspirar. Pobre Venvogel! Não admirava que lhe tivesse sentido as costas cada vez mais frias, mais frias... A sua miseria findára. Alli estava agora, na mesma postura, com as mãos apertadas em torno dos joelhos, a cabeça cahida para baixo, gelado. Todos nos erguemos de salto, com horror. Já a esse tempo o dia penetrára na caverna, n’uma luz mortiça e vaga. De repente, ao meu lado, resoou um grito. Volto a cabeça, vivamente. E vejo--vejo ao fundo da gruta, que não tinha mais de quatro metros, uma fórma, uma figura humana, sentada n’uma pedra, com a cabeça toda descahida sobre o peito, os braços hirtos e pendentes para o chão! Aproximei-me mais, aterrado. E percebi que era tambem um morto. Peor ainda, percebi que era um branco!
Os nossos nervos, desorganisados já, não puderam com esta nova e brusca emoção. Tropeçando uns nos outros, largámos desesperadamente a fugir para fóra da caverna.
Mas depois, fóra, na plena luz, olhámos uns para os outros--envergonhados.
--Vou vêr outra vez, exclamou o barão terrivelmente pallido. Talvez a figura que vimos seja a de meu irmão.
Era possivel. E um por um, n’um silencio apavorado, atraz do barão, tornámos a penetrar na gruta. Ao principio, deslumbrados pela grande luz exterior e pela alvura da neve, nada distinguiamos na penumbra concava. Por fim a estranha, horrivel figura destacou, surgiu na sombra. Avançámos para ella. O barão ajoelhou, espreitou a face morta, teve um suspiro de allivio:
--Não, graças a Deus, não é elle!
Fui tambem olhar. Não, nem remotamente se parecia com esse sujeito chamado Neville, que eu encontrára em Bamanguato. O cadaver era o d’um homem alto, de meia idade, com feições aquilinas, cabello já grisalho, e longos bigodes negros. A pelle, perfeitamente amarella, estava toda esticada sobre os ossos. Não tinha fato, a não ser uns restos de meias altas, de lã, até aos joelhos. Do pescoço, preso por uma correntesinha, pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros hirtos se lhe tinham petrificado.
--Quem poderá ser? Murmurei, assombrado.
O capitão John contemplava a figura pensativamente.
--Tenho uma idéa... Não póde ser senão elle! É o velho fidalgo! É D. José da Silveira!
Eu e o barão soltámos o mesmo grito de incredulidade:
--Impossivel! Ha trezentos annos!
Mas o capitão tinha as suas razões, e decisivas. N’uma temperatura como a da cova, que é a d’uma geleira, um corpo morto póde perfeitamente conservar-se trezentos annos--e mesmo tres mil... Essa temperatura de quinze a dezesete graus abaixo de zero nunca alli mudava; nenhum raio de sol entrára jámais n’aquella cova voltada para noroeste: não havia animaes que alli penetrassem e que destruissem o corpo. Que importavam tres seculos? A carne de açougue que vem da Nova-Zelandia para Londres dentro das geleiras artificiaes está fresca ao fim de trinta dias; e conservada em iguaes condições, não se deterioraria ao fim de trinta seculos. Naturalmente o escravo (de quem elle falla no papel) quando o encontrou morto, tirou-lhe o fato, não se deu ao trabalho de o enterrar, e abalou...
--E olhai! Accrescentou o capitão apanhando uma especie de osso da fórma d’um lapis, e aguçado, que jazia no chão, ao lado. Aqui está com que elle desenhou o mappa! Tirou sangue do braço, escreveu com esta ponta de osso!
Passámos o osso de mão em mão, em silencio, esquecendo as nossas proprias miserias no espanto d’aquelle encontro. Já não podia haver duvida. Alli estava elle pois, sentado n’uma pedra, frio e duro como ella, o homem cujo derradeiro escripto, traçado havia mais de trezentos annos, nos trouxera ao logar mesmo onde elle o escrevera--para o encontrar a elle proprio, na mesma attitude em que com seu sangue riscava o roteiro que d’além-tumulo nos guiava! Incomparavel maravilha! Alli tinha eu na mão a rude penna com que elle traçára essas linhas! E parecia que ante mim pouco a pouco resurgiam visiveis, redivivos, os momentos passados ha tres seculos:--o heroico fidalgo, morto de frio e de fome, procurando revelar ao seu Rei o segredo immenso que descobrira; a camisa rasgada, a veia aberta; as linhas tremulas anciosamente lançadas; a penna informe escorregando-lhe da mão; a treva da noite enchendo a cova; o derradeiro beijo pousado no crucifixo; um pensamento dado ainda aos seus, á terra d’onde partira n’um galeão, ao Rei que servia com indomada fé; por fim a morte, o lento e sereno resvalar para a morte, n’aquelle immenso silencio e na immensa solidão!
Por vezes mesmo, olhando para elle, parecia-me reconhecer as aquilinas e energicas feições do seu descendente, o pobre Silveira, que me morrera nos braços. Talvez imaginação. Em todo o caso elle alli estava, o primeiro, o antepassado, esse de quem o seu remoto neto me fallára, estendendo os olhos já embaciados para os distantes seios de Sabá. Alli estava; e provavelmente lá está ainda, lá estará, através dos seculos que hão de vir, para espantar outros aventurosos homens como nós, se jámais houver outros que cheguem a penetrar na sua espantosa e solitaria tumba!
--Vamos embora! Exclamou o barão, muito pallido.
Mas parou. E apontando para o corpo de Venvogel, que ficára na mesma postura, com os joelhos á bôca, os braços apertados em volta dos joelhos:
--Dêmos uma companhia ao pobre morto, para dormir n’este esquecimento.
Erguemos então o cadaver de Venvogel e collocámol-o sentado na pedra, junto do do velho fidalgo portuguez. Depois o barão quebrou a corrente que pendia do pescoço de D. José da Silveira, e guardou o crucifixo no seio. Eu proprio tomei o osso em fórma de lapis. Aqui o tenho ao meu lado, emquanto estas linhas escrevo. Ás vezes assigno com elle o meu nome.
Finalmente tendo-os deixado lado a lado, o altivo fidalgo d’outras eras e o pobre servo hottentote, a passar a sua eterna vigilia entre essas eternas neves, sahimos da caverna para a luz esplendida--e retomámos em fila o nosso triste caminho, pensando que bem cedo estariamos como elles, gelados e hirtos, n’um barranco da serra.
Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegámos emfim á extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o «bico do peito». E foi uma grande emoção. Por baixo de nós, adiante de nós, estava (devia estar) emfim essa região mysteriosa para além das serras, que nós vinhamos demandando:--mas toda ella se occultava sob um denso nevoeiro. Alli ficámos pois repousando, esperando. Pouco a pouco, as camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistámos então um pendor da serra, muito dôce e todo coberto de neve. Depois outras camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos famintos uma campina de herva verde, um regato correndo através, e á beira d’agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes que nos pareceram antilopes.
A nossa alegria--foi como a d’uma resurreição. Caça! Alli estava caça para comer, e deliciosa! Era a salvação, era a vida! A difficuldade era caçar--essa caça!... Lembro-me que no nosso immenso alvoroço tivemos uma rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula--se deviamos aproximar-nos da caça ou fazer fogo d’alli, se deviamos usar as carabinas Winchester ou a «Express»! Indecisão terrivel--porque de acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o rebanho. E a carabina «Express», apesar d’um alcance inferior, era preferivel--porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam algum dos antilopes.
Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que, alegria sem par!--vemos um dos animaes por terra esperneando furiosamente. Berrámos de puro gozo. Estavamos salvos! Salvos! De fome já não morriamos! Corremos aos trambulhões pela neve abaixo:--e em poucos momentos tinhamos nas mãos os figados e o coração do animal, quentes e fumegando!
Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a caça?
--Gente faminta não tem exigencias! Gritou excitadamente o capitão John. A ella, e crúa!
Não restava outra solução--e não nos pareceu repugnante. Arrefecemos as visceras na neve, lavámol-as na agua corrente--e devorámol-as com voracidade! Parece horrivel:--mas confesso que aquella carne crúa me soube divinamente! D’ahi a um quarto de hora, que mudança! Voltára-nos a vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim sentia positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias!
O barão apertou as mãos, e disse simplesmente:--Louvado seja Deus por isto!
Ficámos olhando uns para os outros, muito tempo, sem falla, n’um sorriso mudo. E não havia em nós outra sensação--senão a de estarmos salvos, de estarmos vivos! Por fim adormecemos, envoltos dôcemente no sol, que subia macio e tepido. Quando acordámos, e esfregámos os olhos, o nevoeiro desapparecera. Toda a vasta região em baixo nos appareceu n’um relance. Demos um grande ah, lento e maravilhado! Nunca eu vira (nem outra vez verei!) terra mais deslumbrante! Mudo ainda, tonto da fadiga e da fome passada, parecia-me que morrera, que chegára ao Paraiso, e que o Senhor nos ia apparecer!
Estavamos no planalto d’um dos «Seios de Sabá», com um dos «bicos do peito» erguendo-se por traz de nós até ás nuvens, sublime e brilhante de neve. Logo por baixo desciam os vastos pendores da serra, n’uma profundidade de cinco mil pés; e para além das derradeiras faldas, a perder de vista, eram leguas e leguas d’uma terra esplendidamente fertil, de adoravel belleza. Viamol-a desdobrada ante nós como um immenso mappa em relevo; e os seus encantos differentes, assim abrangidos n’um relance, davam a impressão d’um paraiso resumido onde Deus prodigamente tivesse reunido as suas obras melhores. Escassamente se póde detalhar uma paizagem tão formosa e vária. Aqui alastrava-se uma vasta mancha de floresta; além um rio ondulava com vivos brilhos d’aço novo; para diante longas pradarias tapetavam o sólo de verde tenro e claro; mais longe era um lago que brilhava, grandes rebanhos que pastavam, ou uma collina onde a agua viva borbulhava e faiscava entre as rochas. As culturas abundavam, ricamente coloridas. A cada instante entre pomares e regatos avistavamos aldeias graciosas, com as cabanas coroadas por um tecto de colmo agudo. De tudo se elevava uma sensação prodigiosa de vida, de fartura, de paz. No horisonte surgiam picos de serras remotas, cobertas de neves. E um sol radiante derramava illimitadamente a alegria do seu fulgor d’ouro.
Duas coisas nos impressionaram. Primeiramente, que aquella região tão rica estivesse pelo menos cinco mil pés acima do nivel do deserto. E depois que toda a agua da serra corresse de sul para norte, do lado opposto ao sertão, indo unir-se ao magnifico rio que se perdia no horisonte azulado.
Nenhum de nós fallava, arrobados na contemplação d’aquella incomparavel natureza. Por fim o barão estendeu o braço:
--Ha uma estrada marcada no mappa, com o nome de estrada de Salomão, não é verdade? Pois lá está, além, para a direita...
E com effeito, para a direita, nos primeiros declives da serra, abaixo dos nossos pés, branquejava uma grande estrada! Tinhamos já perdido toda a faculdade de admirar. E a nenhum de nós pareceu estranho, que, no topo d’uma montanha, no centro d’Africa, a centos de leguas de toda a sciencia e civilisação, houvesse uma estrada, com as proporções e grandeza d’uma velha via romana, branca como neve, talhada sobre os abysmos.
--O melhor é descermos, disse simplesmente o capitão John.
A estrada ficava (como disse) á nossa direita, surgindo por traz de grossas penedias que se amontoavam no primeiro pendor da serra. Cortámos para lá, devagar, ora através de grandes espaços de neve, ora por sobre montes de lava. Quando dobrámos por fim as penedias, avistámol-a de repente em baixo, a algumas jardas. Era magnifica, toda cortada na rocha viva, e admiravelmente conservada! Mas, coisa extraordinaria, parecia começar alli, ao meio da serra, bruscamente. Continuámos a descida alvoroçados, pozemos emfim os pés sobre as suas fortes lages. Olhámos, explorámos em redor. A estranha via findava com effeito alli, na serra, entre umas rochas de lava entremeadas de neve!
--Extraordinario! Exclamou o barão. Porque começa esta estrada assim, ou porque acaba assim, de repente, no meio da serra?
Abanei a cabeça, em perfeita ignorancia.
--Parece-me que percebo, disse o capitão coçando o queixo. Esta estrada é simplesmente maravilhosa! Não acaba aqui. Antigamente galgava a cordilheira e seguia pelo deserto. Mas a parte que galgava a serra para além, foi coberta por montões de lava, n’alguma erupção: e a parte que cortava o deserto foi invadida pelas areias movediças. Não póde ser senão isto.
Talvez fosse. Em todo o caso largámos os passos por sobre essa surprehendente estrada que tinha o nome de Salomão. Esta suave descida por uma magnifica calçada, com as forças restauradas, e a abundancia a esperar-nos em baixo, nos ferteis campos cheios de gado,--era bem differente da subida pela neve acima, extenuados de fome e de fadiga, e com a afflictiva incerteza do que estaria para além. Na verdade, se não fosse a triste lembrança do pobre Venvogel e da sinistra cova, onde elle espectralmente ficára ao lado do velho fidalgo d’outras eras, poderiamos cantar de pura alegria. A cada milha que andavamos o ar cada vez se tornava mais macio e tepido:--e a região em torno parecia crescer para nós, a transbordar de abundancia e belleza. A estrada, essa, era positivamente portentosa. Affirmava o barão que tinha semelhanças com a estrada do Saint-Gothard sobre os Alpes. Eu por mim não vira maravilha maior! N’um certo sitio abria-se uma ravina medonha, d’uns trezentos pés de largura, d’uma profundidade de mais de cem pés: pois este abysmo estava vadeado por um colossal aqueducto, com arcos para a passagem das torrentes, sobre o qual a estrada seguia com soberba segurança. N’outros sitios cortada em zig-zags na rocha, contornava pavorosos precipicios, com parapeitos que a defendiam e formavam balcões sobre o abysmo. Mais adiante, perfurava um monte de rocha com um tunnel de trintas jardas.
Nas paredes d’este tunnel corriam singulares relevos representando guerreiros com cotas de malha, que retesavam arcos, guiavam carros de combate. Havia mesmo uma grande scena de batalha, com lanças em confusão, e captivos acorrentados.
--Tudo isto é obra egypcia, dizia o barão parando a cada instante. Tudo isto eu vi nos templos do alto Egypto. O nome da estrada virá de Salomão. Mas estas esculpturas são das mãos de egypcios.
Pela uma hora da tarde tinhamos descido a montanha até ás faldas baixas onde começava o arvoredo. Ao principio eram apenas raros arbustos silvestres. Depois a estrada penetrava n’um bosque de olmos, uns olmos cujas folhas brilham como prata, e que eu suppunha só existirem no Cabo.
--Estamos ao menos em terra de lenha! Exclamou enthusiasmado o capitão John. Vamos parar, e cozinhar um jantar. Eu por mim já digeri aquella carne crúa... Reentremos solemnemente na civilisação!
Todos com effeito tinhamos fome; e deixando a estrada, fomos em direcção a um regato que brilhava a distancia entre arvores e relvas. Bem depressa fizemos um fogo de ramos sêccos; e, cortando succulentos bifes do lombo da antilope que trouxeramos comnosco, assamol-os na ponta de espetos de pau, á velha maneira dos cafres. Ao fim do delicioso repasto accendemos os cachimbos--e estirados á sombra das frescas arvores, gozamos emfim, depois de tão longos e duros dias, um repouso perfeito.
O logar era adoravel. O regato, muito frio e muito puro, cantava sobre seixos que reluziam. As margens verdejavam, cobertas de fetos esplendidos entremeados com plumas de aspargos silvestres. Aqui e além cresciam tufos de flores. Uma brisa tépida e macia como velludo susurrava nas folhas dos olmos. Bandos de rolas arrulhavam meigamente. E de ramo em ramo faiscavam as azas de passaros mais brilhantes que joias.
Nenhum fallava, no enlevo d’aquella paz e d’aquella doçura. E por muito tempo nenhum de nós se moveu--até que o capitão John, surgindo de repente nú do leito espesso de fetos onde se enterrára, correu para o riacho, e mergulhou n’um longo e ruidoso banho. Deitado de costas, n’um bem-estar indizivel, occupei-me então a observar aquelle homem admiravel, que, apenas se achava n’uma região d’ordem, retomava os seus complicados habitos de asseio e de elegancia. Depois do banho, o nosso excellente amigo revestiu a camisa de flanella; e sentando-se á beira do regato, rompeu a lavar os seus collarinhos de gutta-percha. Finda esta barrela sacudiu, escovou, esticou as calças, o collete, o jaquetão, dobrou tudo cuidadosamente, e poz-lhe por cima pedras para acamar e desfazer os vincos. Em seguida, profundamente concentrado, passou ás botas, que esfregou com uma mão cheia de feto, e depois besuntou com gordura de antilope (que pozera de lado) até lhes dar uma apparencia comparativamente lustrosa e decente. Tendo-as examinado com cuidado, de monoculo fixo e cabeça á banda, encetou outras e mais delicadas operações. D’um pequeno sacco que trazia na mochila tirou um espelhinho e examinou cuidadosamente dentes, olhos, cabellos, barba--a barba já grossa d’oito dias. Este exame parecia humilhal-o, porque abanava a cabeça com desconsolação e tédio. Começou então pelas unhas que aparou e poliu; depois seguiu ao cabello que acamou e apartou... Mas de repente, com uma idéa, calçou as botas que puzera ao lado; e assim, de botas, com as pernas núas, e em camisa de flanella, ergueu-se para ir pendurar o espelhinho n’um ramo d’arvore. O arranjo não provou satisfatoriamente, porque voltou para a beira do regato, e com custo e arte equilibrou o espelho n’uma folha grossa de feto. Tornou logo a metter a mão no sacco e tirou uma navalha de barba... «Santo Deus! Pensei eu erguendo-me no cotovêlo, o homem irá fazer a barba?» Ia. Tomando outra vez o pedaço de gordura de antilope com que ensebára as botas, lavou-a escrupulosamente no regato, esfregou com ella desesperadamente a face e o queixo, e principiou a rapar o pêllo aspero de dez dias. Era porém uma operação difficil, porque cada movimento da navalha vinha acompanhado d’um angustioso gemido. Por fim conseguiu escanhoar a face esquerda e metade do queixo. Grande suspiro de allivio! E ia atacar a outra face--quando, de repente, vi uma coisa passar e lampejar por cima da cabeça.
John deu um pulo, com uma praga. Ergui-me tambem de salto--e na mesma margem do regato, a distancia d’uns trinta passos, dei com os olhos n’um bando de homens. Era uma gente de grande estatura, immensamente robusta, e côr de cobre.
Alguns d’elles traziam aos hombros pelles de leopardo, e na cabeça umas corôas de altas pennas, negras, direitas, que ondulavam na brisa. Em frente do bando, um rapaz d’uns dezesete annos conservava ainda o braço erguido e o corpo inclinado, na attitude graciosa d’uma estatua que eu vira no Cabo, um Ephebo grego que lança um dardo.
Evidentemente a coisa que passára e brilhára era um dardo--e fôra o moço airoso que o arremessára.
Quasi immediatamente, um velho, de ar erecto e marcial, sahiu d’entre o grupo, e, agarrando o braço do rapaz, fallou-lhe baixo como se o avisasse. Em seguida todos avançaram para nós.
O barão, John e Umbopa tinham logo agarrado e apontado as carabinas. Os homens todavia continuavam avançando, devagar, em grupo. Percebi logo que nunca tinham visto espingardas, pelo modo como affrontavam assim tranquillamente os tres canos erguidos. --Baixem as armas! Gritei aos outros.
Tinha comprehendido tambem que a nossa segurança entre essa gente selvagem dependia toda de conciliação e de ardil. Apenas pois os companheiros baixaram as armas, caminhei lentamente para o velho.
--Bem vindo! Exclamei em Zulú, ao acaso, sem saber que idioma entenderiam aquelles homens.
Com surpreza minha, o velho comprehendeu. E respondeu logo, não em Zulú, mas n’um outro dialecto, tão parecido com o Zulú, que Umbopa e eu o percebemos perfeitamente:
--Bem vindo!
Como viemos a saber depois, a lingua d’este povo era uma fórma antiquada da lingua Zulú--e estando para o Zulú do sul como o inglez do tempo dos Tudores está para o inglez polido do seculo XIX. No emtanto o velho avançára outro passo, erguendo a mão.
--D’onde vindes? Continuou elle. Quem sois? Porque tendes tres de vós as faces brancas, e o outro a pelle como nós e como os filhos de nossas mães?
E apontava para Umbopa--que na realidade, pela figura, pela côr, pelas feições, era muito semelhante áquelles homens formidaveis. Eu então repeti a saudação ao velho. E, muito espaçadamente, para que elle apanhasse bem o meu Zulú:
--Somos gente d’outros sitios, vimos em boa paz, e este homem é nosso servo.
O velho abanou lentamente a cabeça, ornada de immensas plumas negras que ondulavam.
--Mentes! A gente d’outros sitios não póde atravessar as montanhas, nem o deserto sem agua onde toda a vida acaba. Mas não importa que mintas... Se sois estranhos e vindes d’outros sitios, tendes de morrer, porque não é permittido a ninguem entrar na terra dos Kakuanas. É a vontade do nosso rei. Preparai-vos pois para morrer, oh gentes!
Fiquei um pouco perturbado--tanto mais que vi alguns dos selvagens levarem logo a mão ao cinto d’onde lhes pendiam umas armas em fórma de pesadas navalhas.
--Que diz esse malandro? Perguntou o capitão, percebendo o meu embaraço.
--Diz simplesmente que nos vai retalhar á faca.
--Santo Deus! Murmurou o nosso amigo.
E, como era seu costume, em frente d’um perigo ou d’uma crise, passou nervosamente a mão pelo queixo e pelos beiços. Alguma coisa decerto lhe succedeu então á dentadura postiça (que momentos antes tirára para lavar e que tornára a pôr), porque n’um relance lhe vi os dentes todos de fóra, e logo sumidos para dentro! Não percebi bem o caso. Mas qual é o meu espanto quando os Kakuanas soltam um grito de terror, e recuam para traz, em tropel!
--Que foi? Exclamei.
--Foram os dentes! Acudiu o barão, excitadamente. Os selvagens viram-lhe os dentes a mover-se... Tira-os de todo, John, tira-os de todo. Talvez os assustes.
O capitão promptamente comprehendeu, passou a mão devagar por sobre a bôca, e escamotou a dentadura. Os Kakuanas no emtanto, n’uma ancia de curiosidade, avançavam de novo, com os olhos arregalados para John. E foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a mão, com solemnidade:
--Quem é este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto, as pernas núas, cabello só em metade da cara, e um grande olho que reluz? Quem é elle que faz mexer assim á vontade os dentes para dentro e para fóra da bôca?
--Abra a bôca, John! Murmurei eu baixo para o capitão.
John arreganhou os beiços, e exhibiu duas gengivas muito vermelhas, desdentadas como as d’um recemnascido. Entre os selvagens passou um susurro d’espanto.
--Onde estão os dentes? Ainda agora tinha dentes! Exclamavam elles, entre si, com gestos apavorados.
Então John deu um movimento vagaroso á cabeça, passou a mão pela bôca com soberana indifferença, e desfranzindo de novo os beiços--mostrou duas esplendidas filas de dentes, muito fortes, muito sãos, que rebrilhavam.
No mesmo instante o rapaz que despedira o dardo arremessou-se para o chão, com gritos espavoridos. Todo o bando tapava as faces com as mãos, n’um terror. E o velho, que parecia o mais resoluto, tremia tanto, e tão encolhido, que lhe batiam os joelhos um contra o outro.
Só quem conhece selvagens e a mobilidade d’aquellas imaginações infantis póde comprehender como subitamente, em cada um d’elles, ao desejo de nos matar ia já succedendo o impulso de nos adorar... Quando o velho tornou a levantar a voz, foi muito humildemente e n’uma postura de supplica:
--Vós sois Espiritos! Bem vejo que sois Espiritos, oh gentes! Nunca houve homem nascido de mulher que tivesse só cabello n’um lado da cara, e um olho redondo e transparente, e dentes que se derretem e de repente crescem outra vez... Vós sois Espiritos. Perdoai-nos, senhores, perdoai-nos!
Aproveitei logo esta esplendida occasião. E estendendo o braço, com soberba magnanimidade:
--Estaes perdoados.
Era porém necessario, para nossa salvação, que deslumbrassemos e inteiramente nos apoderassemos d’aquellas almas ferozes e simples. E para isso, n’Africa (como n’outras partes) o mais prompto instrumento é o sobrenatural. Não hesitei portanto (com vergonha o confesso) em me attribuir, a mim e aos meus companheiros, uma origem divina! De resto, com o negro da Africa Central, que pela primeira vez vê o branco, e assiste a alguns dos milagres que o branco póde realisar com os pequenos recursos da sua pequena civilisação, este procedimento é o mais seguro e o mais humano. O selvagem fica desde logo (pelo menos por algum tempo) contido dentro do respeito, absolutamente razoavel e tratavel; e assim, poupando ao negro as traições, os brancos poupam a si proprios as represalias.
Ergui pois a mão, e disse, com vagar e magestade:
--Já que vos perdoei, porque sois ignorantes, condescendo tambem em vos dizer quem somos. Somos Espiritos! Vivemos além, por cima das nuvens, n’uma d’aquellas estrellas que vós vêdes de noite brilhar. E viemos visitar esta terra, mas em paz e para alegria de todos!
Entre os indigenas correram grandes ah! ah! Lentos e maravilhados.
Eu prosegui, mais grave:
--Nós conhecemos todos os reis e todas as gentes. E eu, que sou a voz dos outros, conheço todas as linguas.
--A nossa bem mal! Arriscou com timidez o velho guerreiro.
Dardejei-lhe um olhar chammejante que o estarreceu. E gritei logo, para fazer uma diversão brusca áquella observação tão justa e perigosa:
--Viemos em paz, é certo! Mas fomos recebidos em guerra. E talvez devessemos castigar já o ultraje feito por esse moço, que sem provocação atirou uma faca ao Espirito divino cujos dentes de repente nascem e cahem.
--Oh não! Meu senhor! Gritou n’uma anciosa supplica o velho guerreiro. Poupai-o! Poupai-o, que é o filho do nosso rei! Eu sou seu tio, que o ajudei a crear. Só eu respondo por cada gota do sangue que lhe gira nas veias!... Oh meu senhor, a clemencia vai bem aos Espiritos!
Affectei não comprehender a angustiosa prece,--e tornei, com superior indifferença:
--As nossas maneiras de castigar são simples e terriveis. N’um instante ides vêr... Tu, escravo que nos segues (e aqui encarei para Umbopa), dá-me a arma de feitiços que troveja.
Umbopa, que assistira absolutamente impassivel e serio a todas as minhas affirmações de divindade, e que (Zulú intelligente, afeito aos brancos e ás suas manhas) lhe percebera o alcance--estendeu-me uma carabina Winchester, com humilissima reverencia.
Justamente n’esse instante avistei, para além do riacho, a umas setenta jardas de distancia, um pequeno antilope, immovel sobre um montão de rochas.
--Vêdes aquelle gamo? Exclamei eu para os selvagens. Julgaes possivel que um simples homem, nascido do ventre da mulher, o mate d’aqui d’onde estou, só com fazer estalar um pequeno trovão?
--Não é possivel! Murmurou recuando o velho guerreiro. Não é possivel para homem nascido do ventre da mulher!
--Ides vêr.
Apontei. Bum! E subitamente o gamo, dando um pulo furioso no ar, tombou morto, immovel, estatelado nas pedras.
Um fundo murmurio de assombro, de terror, passou entre os Kakuanas... Eu accrescentei simplesmente:
--Ahi está. E se tendes fome, podeis ir buscar aquelle gamo!
O velho fez um signal. Dois homens correndo trouxeram a caça. E amontoados em volta d’ella, todos em silencio (n’um silencio que era religioso pelo pavor que continha), ficaram contemplando boqui-abertos o buraco da bala que lhe acertára entre os hombros.
--Se não estaes satisfeitos, volvi eu ainda, se em vez d’um gamo me quereis vêr matar um homem, que um de vós se colloque além sobre as pedras ou mais longe, e o raio irá ter com elle.
Houve um movimento geral dos Kakuanas, recuando e protestando.
--Não! Não! Gritaram alguns. Acreditámos, acreditámos... Não vale a pena gastar feitiços com nós outros, que acreditámos e que somos amigos!
O velho guerreiro interveio, com alacridade:
--Assim é! Nós somos amigos. E para que nos conheçaes bem, oh almas das estrellas, que trovejaes e mataes tão de longe, sabei que eu sou Infandós, filho de Kafa, antigo rei dos Kakuanas. Este moço é Scragga, filho de Tuala, nosso rei! Tuala, o homem de mil mulheres, senhor dos Kakuanas, terror dos seus inimigos, sentinella da Grande-Estrada, sabedor das artes negras, chefe de cem mil guerreiros, Tuala o supremo, Tuala o d’um-só-olho...
--Basta, interrompi sobranceiramente. Leva-nos então ao rei Tuala. Porque, nas nossas jornadas pelo mundo, nós só fallamos a reis!
--Certamente, meu senhor, certamente... Mas nós andavamos caçando n’estes sitios, e estamos a tres dias de jornada da aringa do rei. São tres dias que tendes de caminhar.
--Caminharemos. Escuta tu, porém, Infandós, e tu, Scragga, filho de Tuala! Se por acaso tentardes no caminho armar-nos uma traição, ou se essa idéa vos atravessar sequer a cabeça, nós, que tudo adivinhámos, tomaremos de vós tal vingança que fará ainda estremecer os filhos de vossos filhos. Aquelle cujo olho reluz, e cujos dentes vão e vêm, incendiará todas as vossas searas com a chamma do seu olho, e despedaçará todas as vossas carnes com as pontas das suas presas! E nós faremos resoar os canos que trovejam d’uma maneira que será pavorosa! Toda a agua seccará. Todo o gado morrerá. E os espiritos maus virão, á nossa voz, dispersar os vossos ossos... E agora a caminho.
Esta tremenda falla era quasi superflua--porque os nossos novos amigos acreditavam superabundantemente nos nossos poderes sobrenaturaes. Ainda assim o velho Infandós saudou-nos com uma reverencia mais funda e mais servil, repetindo tres vezes estas palavras: Krum! Krum! Krum! Como depois soubemos, é esta a maneira kakuana de saudar o rei. Corresponde ao Bayète! Dos Zulús.
Depois o velho atirou um gesto aos seus, que immediatamente carregaram ás costas as nossas mochilas, cantinas, mantas e outras miudezas--excepto as espingardas, de que elles se afastavam em grandes voltas e com olhares de terror.
Um d’elles lançou mão ao fato do capitão John, ainda cuidadosamente dobrado á beira d’agua. O excellente John deu logo um pulo para as calças. E rompeu então uma immensa altercação.
--Não, meu senhor, gritava Infandós, não consentirei que o meu senhor carregue com essas coisas!
--Mas é que eu quero pôr as calças! Berrava John.
--Todos somos aqui seus escravos para servir e carregar...
--Mas as calças...
--Meu senhor!...
--Larga as calças, malandro!
Tive de intervir, suffocado de riso.
--Escute, John. O caso é mais serio do que parece. Um dos motivos do terror que estamos inspirando é a sua luneta, a sua cara meia barbada e meia rapada, os seus dentes postiços, e essas pernas brancas á mostra... Tudo isso espanta as imaginações de selvagens. E se o amigo quer que não nos percam o medo, é necessario continuar a apparecer-lhes n’essa figura. Se o amigo lhes surgir ámanhã d’outro modo, tomam-nos por impostores, e a nossa vida não vale mais um pataco. Assim o viram n’esta terra, assim n’ella tem de ficar.
John, inquieto, hesitante, voltou os olhos para o barão:
--O amigo Quartelmar tem razão, affirmou o barão. E dá graças a Deus que já estavas de botas, e que a temperatura é tão dôce.
John teve um suspiro de furiosa resignação. E, durante a nossa estada na terra dos Kakuanas, foi assim que John se mostrou sempre e praticou notaveis feitos--de botas, de pernas núas, com uma metade da cara rapada, outra coberta de barba, e a fralda voando ao vento!