As Minas de Salomão
Capitulo XV
NAS ENTRANHAS DA TERRA
Não me é possivel descrever com exactidão as agonias d’aquella noite. E ainda assim a divina Misericordia permittiu que dormissemos a espaços. Mas o brusco acordar, a cada instante, era pungente. Por mim, o que mais me torturava era o silencio. Um silencio tenebroso, tangivel, absoluto,--o silencio d’uma sepultura cavada nas profundidades rocheas do globo, e onde todas as artilherias troando, e as trovoadas do céo estalando, não poderiam fazer chegar a menor vibração de som, fosse elle ao menos tão leve como um leve zumbir de mosca... E então, acordado, a monstruosa ironia da nossa situação ainda mais me acabrunhava. Em torno de nós jaziam riquezas incontaveis, bastantes para pagar as dividas de muitos estados, construir frotas de couraçados, erguer palacios todos feitos de ouro, saciar todas as fomes, satisfazer todas as imaginações... E de que nos serviam? Uma pouca de pedra bruta sem valor, mas que nós não podiamos quebrar com as nossas mãos, tornavam-nas inuteis, tão sem valor como a propria pedra! Uma arca inteira de diamantes dariamos nós com infinito prazer por um pouco de pão, ou por outra cabaça d’agua. Mais! Dariamos todas as arcas de diamantes pelo privilegio de morrer de repente, sem sentir, sem soffrer! Na verdade, o que é a riqueza? Sonho, estupida illusão!
--John, disse o barão, do seu canto, n’um dos momentos em que eu assim pensava, quantos phosphoros te restam?
--Oito.
--Accende um, vê as horas.
A chamma quasi nos deslumbrou depois da intensa treva. Eram cinco horas no meu relogio. A alvorada estaria agora clareando as alturas da serra! A brisa espalharia o aroma do rosmaninho em flôr! Os soldados d’Infandós começariam agora a mexer-se nas suas mantas, junto das fogueiras apagadas--e as nascentes d’agua, junto d’elles, cantariam de rocha em rocha. De assim pensar, as lagrimas humedeceram-me os olhos.
--Era melhor comermos alguma coisa, suggeriu o barão.
--Para que? Exclamou John. Quanto mais depressa acabarmos com isto, melhor!
--Emquanto Deus permitte a vida, é que permitte a esperança! Respondeu o barão gravemente.
Repartimos uma pouca de carne sêcca e d’agua. Emquanto comiamos, um de nós lembrou que nos avisinhassemos da porta, e gritassemos com toda a força, porque talvez Infandós, andando já na caverna á nossa procura, ouvisse o remoto som das nossas vozes. John, que, como marinheiro, tinha o habito de gritar, desceu o corredor ás apalpadellas, e começou a berrar furiosamente. Nunca decerto ouvi uivos iguaes: mas foram tão inefficazes como um murmurio de insecto. O resultado unico foi que John voltou com a garganta resequida, e teve de chupar um trago da pouca agua que restava. Gritar só nos fazia sêde. Desistimos d’esse esforço inutil.
De sorte que nos agachamos de novo junto dos cofres cheios de diamantes, n’aquella horrivel inacção que era um dos nossos maiores tormentos. E eu então cedi ao desespero. Deixei cahir a cabeça no hombro do barão, e desatei a chorar. Do outro lado o pobre John soluçava tambem.
Grande alma, e corajosa, e dôce, era a do barão. Se nós fossemos duas creancinhas assustadas, e elle a nossa mãe, não nos teria animado e consolado com maior carinho. Esquecendo a sua propria sorte, fez tudo para nos serenar, contando casos de homens que se tinham encontrado em lances terrivelmente iguaes, e que milagrosamente tinham escapado. Depois levava-nos a considerar que, no fim de tudo, nós estavamos simplesmente chegando áquelle fim a que todos têm de chegar, que tudo em breve acabaria, e que a morte por inanição é suave (o que não é verdade). E emfim, com um modo differente, pedia-nos que nos abandonassemos á misericordia de Deus, e lhe rogassemos, na nossa miseria, um olhar dos seus olhos piedosos. Natureza adoravel, a d’este homem! Quanta serenidade, e quanta força! Eu por mim acolhia-me a elle como a um grande refugio. E por sua exhortação, rezei e serenei.
Assim passou o dia (se tal treva se póde chamar dia), até que accendi outro phosphoro, olhei o relogio. Eram sete horas! Pensamos então em comer.
E quando estavamos dividindo a carne sêcca, occorreu-me de repente uma idéa estranha:
--Porque é, disse eu, que o ar aqui se conserva tão fresco? É um pouco espesso, mas é fresco.
--Santo Deus! Exclamou John erguendo-se com um pulo. Nunca pensei n’isso! Com effeito é fresco... Não póde vir de fóra pela porta de pedra, porque reparei perfeitamente que ella gira dentro de quelhas... Tem de vir de outro sitio. Se não houvesse uma corrente d’ar, deviamos ficar suffocados, quando aqui entramos hontem... Agora mesmo deviamo-nos sentir abafados. Evidentemente o ar é renovado. Vamos a vêr!
Ainda elle não findára, já nós andavamos, de gatas, ás apalpadellas, na escuridão, procurando sofregamente qualquer indicação de buraco ou fenda, por onde entrasse ar. Houve um momento em que pousei a mão no quer que fosse de gelado. Era a face da pobre Fulata, já rigida.
Durante uma hora ou mais, passamos assim apalpando todos os cantos, até que o barão e eu desistimos, esfalfados, e todos pisados de ter constantemente batido com a cabeça nos muros, nos dentes de elephante, e nas esquinas das arcas. Mas John continuou, sem perder a esperança, declarando que «era melhor aquillo que pensar na morte, de braços cruzados».
De repente, teve uma exclamação:
--Oh rapazes! Aqui! Vinde cá.
Com que precipitação corremos para o canto d’onde elle fallára!
--Quartelmar, ponha aqui a mão, onde está a minha. Ahi. Que sente?
--Parece-me que sinto um fio d’ar.
--Agora ouça!
Ergueu-se, e bateu com o pé no chão. Uma immensa esperança relampejou-nos n’alma. A lage soava ôco.
Com as mãos a tremer accendi um phosphoro. Estavamos n’um recanto, de que ainda não suspeitaramos--e aos nossos pés, na lage que pisavamos, e como encrustada n’ella, havia uma grossa argola de pedra. Não tivemos uma palavra, na immensa excitação que de nós se apoderou. John tinha uma navalha, com um d’esses ganchos que servem para extrahir pedras pequenas das ferraduras dos cavallos. Ajoelhou e começou a raspar com o gancho, em torno da argola. Raspou, raspou--até que conseguiu introduzir a ponta do gancho sob a argola, levantal-a pouco a pouco, pôl-a a prumo. Depois deitou-lhe as mãos, e puxou desesperadamente. Nada se moveu.
--Deixai-me vêr a mim! Exclamei com impaciencia.
Agarrei, pondo toda a minha força no puxão contínuo e intenso. Escalavrei as mãos. A pedra não se moveu. Depois foi o barão. Sentiamol-o gemer. A pedra não se moveu.
De novo John se atirou de joelhos, e com o gancho da navalha raspou em redor a frincha por onde nós sentiamos como um debil halito de ar. Em seguida tirou um grosso lenço de sêda que lhe envolvia o pescoço, e passou-o na argola.
--Agora, barão! Mãos ao lenço, e puxar até rebentar! Quartelmar, agarre o barão pela cinta, e puxem ambos quando eu disser... Um, dois, vá!
Em silencio, com os dentes rilhados, puxámos, puxámos--até que eu sentia rangerem os ossos do barão. Era elle que fazia o esforço maior, com os seus enormes braços de ferro. E foi elle que sentiu a pedra mexer...
--Agora! Agora! Está cedendo! Mais! Ála, ála! Héh!
Um estalo, uma rajada brusca d’ar, e rolámos estatelados no chão, com a pedra por cima de nós. Fôra a immensa força do barão que fizera o prodigio. Que grande coisa, a força!
--Um phosphoro, Quartelmar! Exclamou elle, erguendo-se ainda arquejante.
Accendi o phosphoro. E, louvado Deus! Vimos diante de nós os primeiros degraus d’uma escada de pedra!
--E agora? Perguntou John.
--Descer! E confiar em Deus!
--Esperai! Gritou o barão. Quartelmar, veja se apalpa e acha o resto da comida e da agua. Quem sabe onde iremos parar?
Achei logo as provisões, que estavam junto da arca de pedra, cheia de diamantes. E já enfiára o cesto no braço, quando pensei nos diamantes... Porque não? Quem sabe? Talvez por mercê divina, achassemos uma sahida! Não fazia mal nenhum, á cautela, metter um punhado de diamantes na algibeira!... Se chegassemos a sahir d’aquella horrivel cova, não teriam sido ao menos inuteis todas as nossas angustias. Um punhado de diamantes nada pesava! E ao acaso, mergulhei a mão na arca e comecei a encher todos os bolsos da minha rabona. Depois atulhei as algibeiras das pantalonas. Já abalava, quando voltei ainda, com uma idéa, á arca onde estavam as pedras mais graúdas. E encafuei uma enorme mão cheia d’elles para dentro da algibeira do peito. O contacto vivo d’aquellas riquezas fez-me pensar nos outros.
--Oh rapazes! Não quereis levar uns poucos de diamantes? Eu enchi as algibeiras.
--Diabos levem os diamantes, disse do canto o barão, impaciente. Até me faz nauseas a idéa de diamantes! É marchar, é marchar!
Emquanto ao amigo John, esse nem respondeu. Creio que estava de joelhos, junto do corpo de Fulata, dando o ultimo adeus áquella que por elle morrera!
Quando nos achamos juntos do alçapão, já o barão descera o primeiro degrau.
--Eu vou adiante, segui devagar.
--Cuidado, gritei eu! Póde haver por baixo algum medonho buraco. Vá tenteando... Mão encostada sempre á parede...
O barão desceu contando os degraus. Quando chegára a «quinze» parou.
--É um corredor, gritou elle debaixo. Descei!
Quando chegámos ao fundo, accendi um dos dois phosphoros que nos restavam. Á luz que elle deu, vimos um pequeno espaço, onde se encontravam em angulo recto dois tunneis muito estreitos. O phosphoro morreu, queimando-me os dedos. E ficámos n’uma horrivel hesitação! Qual dos tunneis seguir? John então lembrou-se que a chamma do phosphoro se inclinára para a banda do tunnel da esquerda. Portanto o ar vinha pelo tunnel da direita. Era por esse que deviamos caminhar, demandando o lado do ar.
Aceitámos a idéa. E apalpando sempre a parede, não arriscando um passo sem tentear o sólo, seguimos n’esta nova e incerta aventura. Ao fim d’um quarto de hora de marcha lenta, esbarrámos n’um muro. Era outro tunnel transversal, por onde continuámos cosidos com o muro. Depois d’esse topámos outro, que o cruzava em angulo agudo. Depois havia outro, mais largo. E assim durante horas. Estavamos n’um labyrintho de rocha viva. Para que tivessem servido outr’ora estas innumeraveis passagens subterraneas, não sei dizer--mas tinham a apparencia de galerias de mina.
Finalmente parámos, esfalfados, com a esperança meia perdida. Comemos os restos das provisões, bebemos os derradeiros goles d’agua. Tinhamos escapado de morrer nas trevas d’uma cova de diamantes--para vir talvez morrer nas trevas d’uma mina vasia...
Quando assim estavamos sentados no chão, encostados ao muro, n’um infinito desalento--eu julguei ouvir um som, debil e vago, como a distancia. Avisei os outros, escutámos sem respirar. E todos muito claramente distinguimos um som. Era muito tenue, muito remoto,--mas era um som, um som murmurante e contínuo.
--Santo Deus! Exclamou John. É agua a correr! Tenho a certeza que é agua a correr.
N’um instante estavamos de pé, caminhando para o som. A cada passo o sentiamos mais distincto, mais claro, na immensa mudez do tunnel. Sempre para diante, sempre para diante! O som ia crescendo. Por fim era um ruido forte, o ruido d’uma corrente d’agua. Mas como podia haver agua corrente n’estas entranhas da terra?... E todavia, com certeza, alli perto corria agua com força. John, marchando adiante, jurava que lhe percebia já a humidade e o cheiro.
--Devagar, John, devagar! Gritou o barão. Devemos estar perto...
De repente um baque n’agua, um grito de John! Tinha cahido.
--John! John! Onde estás? Berrámos, perdidos de terror. Falla! Falla!
Que allivio, quando a voz d’elle nos veio de longe, suffocada.
--Salvo. Agarrei-me a uma pedra! Accendei um phosphoro para eu vêr onde estaes!
Raspei o meu ultimo phosphoro. Á sua luz tremula vimos aos nossos pés uma immensa massa d’agua, correndo com grande força. Que largura tinha não percebemos... Mas a distancia distinguimos a fórma vaga do nosso companheiro, pendurado d’um penedo agudo.
--Preparai para me agarrar, gritou elle de lá. Vou nadar para ahi!
Outro baque, uma grande lucta de braços batendo a agua. Depois junto de nós um resfolegar ancioso. E por fim uma exclamação do barão, que agarrára o nosso amigo pelas mãos, o puxára para dentro do tunnel, a escorrer.
--Irra! Balbuciava John, offegando. Estive por um fio. É uma corrente furiosa e parece-me que não tem fundo.
Evidentemente, d’este lado nada conseguiamos. De sorte que, depois de John descançar, de bebermos á farta d’aquella agua que era deliciosa, e de lavarmos a cara, deixámos as margens d’aquelle tenebroso rio, e retrocedemos ao comprido do tunnel, com John adiante, tiritando e pingando. Depois de andarmos um quarto de hora--chegámos a outro tunnel, que se inclinava para a direita e parecia mais largo.
--Seguimos este, disse o barão inteiramente desalentado. Todos elles são iguaes. O melhor é andarmos, andarmos, até cahir ahi para um canto, sem poder mais, á espera da morte.
Durante muito, muito tempo, mudos, em fila, arrastámos os passos na treva, atraz do barão, cujas fortes pernas já frouxeavam.
De repente esbarrámos com elle--que estacára, como attonito.
--Quartelmar! Exclamou elle, agarrando-me convulsivamente o braço. Eu estou a delirar ou aquillo além é luz?
Arregalámos desesperadamente os olhos. E com effeito, lá ao longe, ao fundo do tunnel, vimos uma pallida, vaga mancha de claridade, pouco maior do que um vidro de janella! Com outro alento de esperança estugamos o passo. Momentos depois toda a duvida cessára, deliciosamente. Era luz--uma desmaiada mancha de luz! Tropeçavamos uns contra os outros na nossa anciedade. Mais viva, cada vez mais viva a luz! Por fim, um ar fresco bateu-nos a face!... Mas de repente o tunnel estreitou. Caminhamos curvados. Depois estreitou mais. Gatinhamos, de mãos no chão. E estreitou ainda, como uma toca de raposa. Fomos de rastos. Mas a rocha findára. Era terra, terra friavel, que se esboroava... Um empuxão, um gemido, e o barão furou, e John furou, e eu furei--e sobre as nossas cabeças luziam as bemditas estrellas, e na nossa face batia uma aragem dôce!
De repente faltou-nos o chão, e todos tres, á uma, rolámos, de escantilhão, por um declive abaixo, de terra molle e humida, entre capim e tojo... Agarrei uma coisa e parei. Estonteado, coberto de lôdo, berrei pelos outros, desesperadamente. Um brado em resposta veio de baixo, d’uma terra chã onde o barão fôra parar. Resvalei até lá, e fui encontrar o nosso amigo atordoado, sem folego, mas intacto. Gritámos então por John. E uns olás arquejantes guiaram-nos ao sitio onde uma raiz de arvore, em que ainda estava acavallado, o detivera no desesperado tombo.
Sentámo-nos então todos tres na relva--e vendo-nos fóra da funebre caverna, salvos, sãos, a respirar outra vez o ar da terra, a emoção foi tão forte que começámos a chorar de alegria. Seguramente fôra Deus misericordioso que nos guiára por aquelle tunnel, para aquelle buraco, que era a porta da Vida! E agora, a manhã que julgavamos nunca mais vêr, estava roseando o topo dos montes.
Á sua luz bemdita vimos então que nos achavamos no fundo, ou quasi no fundo, d’aquella immensa cova circular que fôra outr’ora a mina de Diamantes. Lá no alto, já podiamos distinguir as confusas fórmas dos tres colossos. Sem duvida aquelles corredores por onde tinhamos vagueado, tão angustiosamente, communicavam outr’ora com as Diamanteiras. E emquanto ao tenebroso rio... Mas que nos importava agora o rio? A luz do dia clareava. Estavamos envolvidos na luz do dia! Só isto era essencial e dôce de saber!
Não podiamos deixar todavia de pasmar para as nossas figuras. Escaveirados, esgazeados, rotos, cheios de pisaduras, com camadas de pó e de lama, sangue nas mãos e sangue nas faces--eramos, na verdade, tres espantalhos medonhos. Mas não havia a pensar em nos sacudirmos ou nos ageitarmos. Aquelle fundo da cova, humido e regelado, era perigoso para corpos como os nossos tão exhaustos. De sorte que começámos, com lentos e custosos passos, a trepar as ladeiras ingremes, através da greda azulada, agarrando-nos ás raizes, e agarrando-nos ao tojo, n’um esforço ultimo que nos esvaía. Ao fim d’uma hora estava terminada a façanha--e os nossos pés tremulos pisavam outra vez a estrada de Salomão. A umas cem jardas adiante brilhava uma fogueira junto de cabanas, e em volta d’ella estavam homens. Para lá caminhámos, amparando-nos uns aos outros, e parando, meio desmaiados, a cada passo incerto. De repente um dos homens que se aquecia ao lume ergueu-se, avistou-nos--e atirou-se de bruços ao chão, tremendo, gritando de medo.
--Infandós, Infandós, somos nós, teus amigos!
Elle levantou a cabeça, depois o corpo. Por fim correu para nós, com os olhos esbugalhados, e ainda tremendo todo:
--Oh meus senhores! Sois vós! Sois vós! Voltaes do fundo dos mortos!... Voltaes do fundo dos mortos!...
E o velho guerreiro, abraçando-se ao barão pelos joelhos, rompeu a soluçar de alegria.