As Minas de Salomão
Capitulo XVII
EMFIM!
E agora resta-me contar a maior maravilha d’esta maravilhosa jornada. Tão estranho, quasi inverosimil é, que, para não lhe augmentar o ar de romance que ella já de per si tem, preciso narral-a com a maxima brevidade e maxima simplicidade.
Foi isto. Na manhã seguinte, no oasis, andava eu passeando ao comprido d’uma fresca ribeira que o banha, quando de repente, n’um frondoso outeiro á sombra de figueiras, com a fachada voltada para a corrente--vejo uma confortavel cabana, construida á maneira cafre, mas com uma porta, uma porta de madeira, em vez do costumado buraco redondo. E quando eu estava pasmando para esta casota humana perdida n’um oasis do deserto, eis que a porta se abre, e apparece, coxeando, encostado a um pau, todo vestido de pelles, e com uma immensa barba até á cintura, um homem branco!
Ficámos a olhar esgazeadamente um para o outro. Justamente n’esse momento o barão e John appareceram. O homem crava os olhos em nós, com um ar quasi afflicto. De repente larga a correr, como um côxo póde correr, aos tropeções. Esbarra, rola no chão. O barão acode. Ergue o homem. E grita:
--Santo Deus! é meu irmão Jorge!
Quasi tenho vergonha de narrar este lance. Parece banalmente inventado pelos moldes do theatro antigo. Mas foi assim.
E ainda mais! Ao alvoroço do barão, ás exclamações que seguiram, outro homem sahiu da cabana, tambem vestido de pelles, com uma espingarda na mão. Ao dar com os olhos em mim larga a arma, leva as mãos á carapinha:
--Oh Macumazan! Oh Macumazan!... Não me conheces? Sou Jim. Sou Jim! Aquelle papel que tu me déste para o patrão perdi-o... Estamos aqui ha dois annos.
E o pobre Jim rojava-se no chão diante de mim, chorando e rindo, n’uma alegria furiosa.
Com effeito, havia dois annos que o irmão do barão e o seu servo Jim viviam n’aquelle oasis. Foi no nosso acampamento n’essa tarde que Jorge Curtis nos contou lentamente toda a sua historia. Dois annos antes partira da aringa de Sitanda, como nós, para atravessar o deserto, e procurar as minas de diamantes para além das montanhas. Por informação porém, que lhe deram uns caçadores de abestruzes que felizmente encontrára, tomou um caminho diverso, e bem melhor do que aquelle que seguira outr’ora o velho D. José da Silveira, e que nós seguiramos guiados pelo seu roteiro. Esse caminho era através do deserto, mas entremeado de oasis. Assim tinha chegado a este, o maior de todos, e estava junto das Montanhas de Salomão, quando lhe aconteceu uma grande desgraça. No dia mesmo em que aqui parára, estava sentado junto do rio, por baixo d’umas penedias, onde Jim, o servo, andava procurando o mel d’abelhas mansas. De repente, a um esforço qualquer que Jim fez em cima, um dos penedos rola e vem cahir sobre uma perna do pobre Jorge, esmigalhando-lh’a horrivelmente! Desde esse dia não pôde mais andar. E muito naturalmente preferiu ficar alli no oasis, onde tinha agua, caça e fructa--do que tentar atravessar de novo o deserto, onde inevitavelmente morreria.
E alli ficou dois annos, como um Robinson Crusoe. Havia justamente dias que decidira mandar Jim para traz, á aringa de Sitanda, a buscar soccorro. Mas quasi tinha a certeza que Jim não voltaria...
--E sois vós agora, que appareceis de repente. Justamente tu, irmão! E tu, meu bom John!... E o snr. Quartelmar, muito bem me lembro de o ter encontrado em Bamanguavo! É extraordinario! E foi tudo a misericordia de Deus!
N’essa noite tambem lhe contámos as nossas aventuras. Quando eu lhe mostrei um punhado de diamantes, o homem empallideceu de espanto:
--Santo Deus! Ao menos o que soffrestes não foi em vão! Emquanto que eu!...
Esta triste exclamação tornou-me pensativo. E desde logo decidi partilhar com elle um lote d’aquellas pedras, que a elle tinham trazido uma tão longa desgraça.
E aqui acaba esta historia. A nossa travessia do deserto foi extremamente trabalhosa. Não soffremos tanto da sêde, porque, segundo o novo roteiro indicado pelos caçadores de abestruzes, encontrámos a espaços pequenos e frescos oasis. Mas o pobre Jorge Curtis, que mal podia ainda usar a perna, necessitava constante amparo--e, por assim dizer, tivemos de o transportar através do deserto. Emfim attingimos a aringa de Sitanda, onde o velho sacripante, a quem deixaramos as nossas armas e bagagens, ficou indignado de nos vêr voltar, vivos e sãos, para as reclamar. E seis mezes depois estavamos jantando confortavelmente aqui, na minha casa em Durban, á sombra das laranjeiras.
Quando eu acabava justamente de escrever esta ultima pagina das nossas aventuras, vejo um cafre entrar pelo meu jardim, com cartas e jornaes na mão. É o correio da Inglaterra. E eis aqui uma carta do barão, que eu transcrevo, porque dá exactamente a conclusão da minha historia:
«Solar de Braley--
Yorkshire.
Meu caro Quartelmar.
Só algumas breves linhas para lhe dizer que meu irmão Jorge, John e
eu, chegámos a Inglaterra todos tres perfeitamente. Apenas deixámos o
paquete, em Southampton, partimos logo para Londres pelo primeiro
trem. Não imagina o Quartelmar que elegante nos appareceu logo na
manhã seguinte o nosso John! Mas parece-me que ainda pensa muito,
coitado, na pobre Fulata.
E agora emquanto a negocios. Levámos os diamantes aos melhores
joalheiros de Londres, aos Streeter. Quasi tenho vergonha de dizer em
quanto elles os avaluaram. É uma somma descommunal. Está claro que
elles não podem dizer com exactidão, porque nunca appareceram no
mercado pedras d’este tamanho em tal quantidade. Emquanto a
compral-os elles, está fóra de questão. Apesar de ser uma forte casa,
não poderia nunca reunir semelhantes sommas. Aconselharam-me que
os vendesse, em pequenos lotes, a differentes joalheiros, e devagar
para não inundar o mercado. Um d’esses lotes, o que o Quartelmar tão
generosamente reservou para meu irmão, estão elles todavia resolvidos
a comprar por cento e oitenta mil libras.
O que o Quartelmar deve fazer, agora que está tão rico, é vir para
Inglaterra, e comprar uma propriedade ao pé da minha. O melhor seria
vir immediatamente para passar commigo este natal. Tenho cá por essa
occasião o nosso John. A respeito de seu filho Henrique posso dizer que
está bom. Esteve aqui uns dias commigo a caçar. Gosto d’elle. Pregou-
me uma carga de chumbo n’uma perna, extrahiu elle proprio os
chumbos, e provou-me depois a vantagem de haver sempre em todas
as partidas de caça um estudante de medicina.
Venha pois, velho amigo, e creia-me sempre seu
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Hoje é sabbado. Ha um paquete para Inglaterra além de ámanhã. Creio, na realidade, que vou partir n’elle... Já tenho saudades do meu rapaz. E depois quero vigiar eu proprio a publicação d’estas memorias.
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