Baixada Santista: uma análise geoambiental

Cenira Maria Lupinacci da Cunha · Capítulo 5 de 12

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Baixada Santista: uma análise geoambiental

4. Santos

 

Renê Lepiani Dias1 2 , Pedro Henrique Bacc, Regina Célia de Oliveira

Introdução

A zona costeira brasileira abriga grande biodiversidade ao longo do litoral, possuindo importante valor ambiental. Apresenta, em sua configuração, diferentes ecossistemas que se alternam entre mangues, praias, campos de dunas, estuários, além de outros ambientes, com significativa riqueza natural, muitos destes representados por Áreas de Preservação Permanente (APPs), o que exige uma ordenação nos processos de uso, ocupação, gestão e controle do território.

A ação antrópica nas regiões costeiras ocorre de forma constante ao longo da existência do homem. Desde as primeiras civilizações, a proximidade com os mares atraiu as populações devido à disponibilidade dos recursos continentais e marinhos, além de proporcionar trocas comerciais com outros povos. Dessa forma, essas áreas sempre foram transformadas pelo uso antrópico, apresentando diversos limites para ocupação.

A crescente ocupação do espaço costeiro e sua utilização econômica, cuja somatória tende a provocar alterações da natureza, levando à degradação da paisagem e dos ecossistemas, vem despertando na sociedade a convicção da necessidade de, por meio da pesquisa científica e ações de gerenciamento, monitoramento e educação ambiental, encontrar uma situação de equilíbrio entre uso e preservação do meio ambiente (Muehe, 1998).

Independentemente do nível técnico alcançado pelos estudos dos processos geomorfológicos litorâneos e sua contribuição para o equacionamento dos problemas ambientais, estes assumiram caráter emergencial em locais com processo de urbanização acelerada.

Nessa perspectiva, uma das ferramentas de ordenação do território é o planejamento ambiental, cujo objetivo primordial é a busca pelo crescimento e desenvolvimento sustentáveis. Neles, o desenvolvimento socioeconômico é visto como parte importante de algo mais amplo, que envolve a natureza e suas potencialidades, mas também suas fragilidades (Ross, 2001).

Ross (1994) argumenta em favor do desenvolvimento do planejamento físico-territorial nas perspectivas socioeconômica e ambiental, considerando a potencialidade dos recursos naturais, além da fragilidade dos ambientes em virtude das modificações antrópicas.

Assim, o zoneamento geoambiental deve partir de uma metodologia baseada na compreensão da dinâmica e das características físico-naturais e socioeconômicas, integrando as diversas disciplinas científicas por meio da síntese do conhecimento acerca da realidade pesquisada.

Logo, o zoneamento geoambiental torna-se uma ferramenta eficaz, desde que seja implementado, executado e fiscalizado pelo poder público, no processo contemporâneo e futuro de construção/reconstrução do espaço.

Nesse contexto, diversas discussões acadêmicas têm focalizado leituras especializadas sobre a complexidade do meio físico assistido nas áreas de domínio litorâneo no território nacional, sobretudo aquelas vinculadas à área de ocorrência do Planalto Atlântico e da Planície Costeira no Estado de São Paulo. A variada composição geológica associada ao fator climático e às influências oceânicas e continentais atribuiu à paisagem mecanismos diversos de elaboração de formas.

Desse modo, faz-se necessária a realização de estudos específicos dessas áreas com o intuito de minimizar os impactos ambientais, uma vez que a ocupação acaba sendo iminente em virtude da localização estratégica, tornando indispensável a organização dos estudos.

Na execução de estudos voltados ao planejamento ambiental, pode-se aplicar diversas metodologias, o que, segundo Guerra e Marçal (2006), deve ser feito de maneira holística e integrada, capaz de avaliar a degradação crescente dos recursos naturais, como também diagnosticar e analisar as características e o funcionamento dos elementos que compõem os sistemas ambientais (físicos, sociais e econômicos).

Para Ross (2006), o entendimento integrado dos elementos consiste em obter um conjunto de informações, elaborado e organizado de forma a gerar um conteúdo básico, a fim de desenvolver um planejamento para determinado território, para promover o desenvolvimento econômico e social em bases sustentáveis.

Com o desenvolvimento de pesquisas aplicadas em áreas litorâneas visando ao planejamento territorial, há a necessidade de estudar regiões de grande complexidade físico-natural e com processo de intensa ocupação antrópica, como é o caso da Baixada Santista,

mais especificamente do município de Santos (Figura 4.1).

Figura 4.1. Localização geográfica do Município de Santos

 

Fonte: Adaptado IBGE (2013).

No caso de Santos, a proximidade de São Paulo e a existência do maior porto do país estabeleceram uma dinâmica de ocupação rápida e intensa. Apresenta-se como cidade de grande proporção, com mais de 410 mil habitantes (IBGE, 2010), gerando graves problemas, tanto para o funcionamento dos sistemas naturais, quanto para a população, devido à ocupação desordenada e sem planejamento ao longo do tempo.

Nesse sentido, é necessária a organização de trabalhos específicos que auxiliem no planejamento das regiões litorâneas, como é o caso do mapeamento físico-territorial, da análise e discussão de atributos morfométricos, morfológicos ou sedimentológicos, podendo representar a dinâmica dos processos de formação do relevo dessas áreas, auxiliando assim o zoneamento e planejamento territorial (Ross, 1994).

Estudos de zoneamento geombiental têm se revelado, ao longo dos últimos anos, importantes instrumentos disciplinadores na tomada de decisões, ao considerar a complexidade das relações físico-ambientais que encerram as atividades humanas. Sendo assim, passa-se a atender às necessidades de ordenamento territorial considerando os diversos níveis de fragilidade ambiental.

Assim, o objetivo deste trabalho é a proposta de um Zoneamento Geoambiental para o município de Santos, a partir da identificação e do mapeamento das feições geomorfológicas, processos e morfologia observados na área de estudo, levando-se em consideração a interferência antrópica, por meio do uso e da ocupação das terras.

 

Materiais e métodos

Dada a complexidade das análises e interpretações dos elementos que compõem o sistema voltado ao entendimento das organizações espaciais, a fundamentação teórica metodológica deste trabalho baseia-se na Teoria Geral dos Sistemas.

Para Vicente e Perez Filho (2003), o paradigma sistêmico, nos estudos geográficos, insere-se na própria necessidade de reflexão sobre a apreensão analítica ambiental através da evolução e interação de seus componentes naturais e antrópicos, resultando em organizações espaçotemporais.

Tricart (1977) referiu-se ao valor da abordagem na teoria dos sistemas como um instrumento lógico de que dispomos para estudar os problemas do meio, porque fornece condições de uma visão de conjunto do aspecto dinâmico da paisagem.

Morin (1977) define sistema como sendo a inter-relação de elementos que constituem uma entidade ou unidade global organizada. Segundo o autor, tal concepção comporta três características principais: os elementos, a unidade constituída por esses elementos em inter-relação e a organização.

Segundo Perez Filho (2007), a Teoria Geral dos Sistemas objetiva analisar a natureza dos sistemas e as inter-relações entre suas partes e componentes, bem como destas com o todo. Importante mencionar que os sistemas abertos não atuam de modo isolado, mas interagem através de fluxos de matéria e energia, que se constituem nas suas forças de funcionamento, interagindo com outros sistemas inseridos em um sistema maior.

Desse modo, a abordagem sistêmica possibilita a representação e discussão da realidade através de um conjunto de sistemas interligados em diferentes escalas e complexidades distintas que, de forma agrupada e dependente, interagem uns com os outros, formando e estabelecendo uma hierarquia de sistemas a partir de uma rede de conexões.

Um conceito fundamental nos estudos que aplicam a Teoria Geral dos Sistemas é a concepção de Geossistema, inicialmente apresentada por Sochava no início da década de 1960. O Geossistema é definido como “formações naturais” (Sochava, 1977, p.6) que obedecem à dinâmica dos fluxos de matéria e energia inerentes aos sistemas abertos que, conjuntamente com os inputs, formam um modelo global de apreensão da paisagem, sem deixar de considerar as ações antrópicas como interferências isonômicas, na sua integração com o meio natural e na formação e evolução da paisagem.

Embora os Geossistemas sejam fenômenos naturais, os Sistemas Antrópicos influenciam sua estrutura e peculiaridades espaciais, que devem ser levadas em consideração durante o seu estudo. As ditas paisagens antropogênicas nada mais são do que estados variáveis de primitivos Geossistemas, podendo ser relacionados à esfera de estudo da dinâmica da paisagem (Sochava, 1978).

A proposta apresentada por Sochava (1977 e 1978) busca o entendimento da paisagem a partir dos estudos de Geossistema, nos quais cada categoria dele encontra-se pontuada em determinado local. De acordo com o autor, a natureza dos Geossistemas passa a ser compreendida não apenas pelos seus componentes, e sim, pelas conexões entre eles, não se restringindo à morfologia da paisagem e suas subdivisões, mas priorizando a análise de sua dinâmica, estrutura funcional e conexões.

Já segundo Bertrand (1971), o Geossistema é entendido como uma categoria concreta do espaço, composta pela ação antrópica, pela exploração biológica e pelo potencial ecológico. Vicente e Perez Filho (2003) afirmam que o autor reduziu essa perspectiva devido à dificuldade de sua aplicação, colocando-a como um modelo teórico da paisagem, uma ideia condizente com os primeiros enunciados de Sochava (1977).

Bertrand e Sochava enfrentaram o desafio da amplitude do objeto da Geografia na tentativa de modelização de um sistema de apreensão da relação Sociedade x Natureza na sua expressão espacial, ou seja, um sistema que conseguisse conectar todos os elementos da geoesfera terrestre, que fosse geral em sua escala de aplicação e, ao mesmo tempo, específico, por representar um tipo de sistema aberto (Vicente; Perez Filho, 2003).

Vicente e Perez Filho (2003) analisam o Geossistema como meio natural, sendo a ação antrópica inputs que provocam mudanças sobre esse ambiente. Desse modo, reconhecem o Geossistema como estrutura natural e a ação antrópica como um dos agentes de “desequilíbrio”, que influenciam na compreensão da dinâmica da natureza.

Para Ross (2006), a classificação dos Geossistemas deve levar em consideração o entendimento de seu caráter dinâmico, pois qualquer sistema se encontra num determinado estado de funcionamento no qual as estruturas primitivas, as mudanças de estado e as funções de determinado componente tornam-se fundamentais para seu entendimento e classificação.

Desse modo, dentre as diversas formas de elaborar um planejamento ambiental visando ao estudo integrado do território, o zoneamento geoambiental, por meio da delimitação de unidades de paisagens, apresenta-se como método bastante completo por levar em consideração a paisagem como elemento fundamental de análise do meio, destacando-se, assim, o método proposto por Ross (1990).

Assim, aponta-se a necessidade de elaborar uma análise integrada dos componentes naturais, bem como do uso que a sociedade faz deles. Os estudos integrados de determinado território pressupõem o entendimento da dinâmica de funcionamento do ambiente natural, tendo ou não intervenção humana.

O método proposto por Ross (1990) adota a teoria geral dos sistemas como suporte teórico metodológico para o desenvolvimento do zoneamento geoambiental. Segundo o autor citado:

Os diferentes ambientes naturais encontrados na superfície da

Terra, decorrentes das diferentes relações de troca de energia e

matéria entre os componentes, são denominados na concepção

da teoria geral dos sistemas como ecossistemas ou

Geossistemas. As relações de troca energética, absolutamente

interdependentes, não permitem, por exemplo, o entendimento

da dinâmica e da gênese dos solos sem que se conheça o

clima, o relevo, a litologia e seus respectivos arranjos

estruturais […]. (Ross, 1990, p.54)

Assim, a elaboração de um zoneamento geoambiental deve adotar uma metodologia de trabalho baseada na compreensão das características e da dinâmica do ambiente natural e do meio socioeconômico. Não se deve analisar o meio ambiente sem levar em consideração o fator antropogênico (Ross, 1990).

Ross (1990) propõe uma metodologia baseada na análise de fragilidade do relevo, sendo desenvolvida por meio do levantamento, da organização e da elaboração de cartas temáticas capazes de promover uma leitura da paisagem, exigindo, assim, a organização cartográfica dos dados referentes à geomorfologia, geologia, pedologia, índices de dissecação do relevo, dados pluviométricos e uso da terra. Para estudos de áreas com escalas maiores que 1:50.000, devem-se analisar também formas de vertentes e classes de declividade.

Para Ross, a escolha da análise de cada elemento apresentado possui um significado específico para a avaliação da fragilidade de determinado ambiente:

Assim os estudos dos solos prestam-se por um lado à avaliação

da potencialidade agrícola e de outro subsidia a análise de

fragilidade do ambiente face às ações antrópicas ligadas a

agropecuária. Os levantamentos geológicos são básicos para o

entendimento da relação relevo/solo/rocha, as informações

climáticas, sobretudo as de chuva (intensidade, volume,

duração), também se prestam tanto para análise da

potencialidade agrícola como para avaliação da fragilidade

natural dos ambientes, a rugosidade topográfica do relevo

(índice de dissecação) e declividades das vertentes bem como

levantamentos dos tipos de Uso da Terra […] possibilitam

chegar a um diagnóstico das diferentes categorias hierárquicas

da fragilidade dos ambientes naturais. (Ross, 1990, p.66)

Para a elaboração de cada carta temática, devem ser hierarquizadas cinco classes de fragilidade: Muito Baixa, Baixa, Média, Alta e Muito Alta. Após a composição de todas as cartas para o estudo do meio natural e social, Ross (1990) propõe associar a fragilidade encontrada numa determinada área apresentada a algarismos numéricos que representam o grau de fragilidade.

A relação desses algarismos estabelecidos nas cartas temáticas desenvolvidas resultaria num conjunto de números que determinaria o produto final, a Carta de Unidades de Fragilidade Potencial. Essa carta consiste na síntese das informações obtidas nas cartas temáticas. Com a sobreposição das informações das cartas, é possível identificar áreas que apresentam graus de fragilidade semelhantes, podendo, por meio de nomenclatura numérica, selecionar e agrupar áreas homólogas.

Este trabalho, a partir da metodologia proposta por Ross (1990), foi dividido em três etapas operacionais.

A primeira, representada pela Fase de Organização, consistiu na definição do objetivo e na delimitação da área de estudo, considerando a escala a ser adotada (1:50.000) para o desenvolvimento deste trabalho. Nessa fase foi levantado todo material cartográfico disponível, como cartas topográficas, geológicas, pedológicas, imagens orbitais e não orbitais, fotografias aéreas, materiais fundamentais para elaboração da documentação cartográfica.

Já a segunda etapa, denominada Fase de Inventário, elaborou o levantamento do quadro natural e socioeconômico da área de estudo, buscando o detalhamento da dinâmica de funcionamento do meio com a intervenção antrópica.

A terceira Fase de Análise e Diagnóstico correspondeu à etapa de definição dos parâmetros que conduziriam a elaboração do material cartográfico preliminar e final, visando à construção de acervo cartográfico do meio físico, subsidiando a discussão da dinâmica de funcionamento dos sistemas ambientais relacionados ao uso e à ocupação das terras.

A correlação e a análise da documentação cartográfica preliminar possibilitaram a construção de diagnóstico e produção do mapeamento-síntese, exemplificado na carta de Fragilidade Potencial e Instabilidade.

A proposta estabelece um modelo de representação do relevo por meio da hierarquização dos atributos identificados na paisagem, partindo da estruturação, passando pela morfologia e morfometria, relacionando posteriormente esses atributos com geologia, clima e cobertura vegetal, produzindo um quadro de informações fundamental para o planejamento ambiental a partir do zoneamento geoambiental proposto.

 

Resultados e discussões

O município de Santos é dividido em dois grandes domínios geológicos e geomorfológicos: Serrania Costeira, em geral constituída por rochas do embasamento cristalino, com idades Pré-cambrianas a Paleozoicas, porém com importantes manifestações ígneas Mesozoicas (Almeida, 1964); e Planície Costeira, definida pelo IPT (1981) com Baixadas Litorâneas, constituídas predominantemente por depósitos sedimentares Cenozoicos.

Na primeira unidade, destacam-se as subunidades morfoesculturais Escarpa/Serra do Mar e Morros Litorâneos, apresentando variação altimétrica de 20 a 1.000 metros e declividades superiores a 30%

(Figuras 4.2 e 4.3). Nestas, a drenagem apresenta padrão dentrítico, adaptado às direções de falhas e fraturas, conduzindo uma adaptação natural. Os solos dominantes são Cambissolos Litólicos, apresentando também afloramentos rochosos. Em relação à litologia, encontram-se granitos, migmatitos, gnaisses e micaxistos.

Figura 4.2. Carta Hipsométrica

 

Fonte: Dias (2009).

Figura 4.3. Carta de Declividade

 

Fonte: Dias (2009).

Por ser uma unidade com formas de dissecação muito intensas

(Figura 4.4 e 4.5), com vales de grande entalhamento, alta densidade de drenagem e vertentes inclinadas, essa área apresenta nível de fragilidade potencial muito alto, estando sujeita a processos erosivos plúvio-fluviais agressivos e movimentos de massas espontâneos e induzidos.

Outros compartimentos presentes são os Morros Residuais, mostrando que, no passado, o Planalto Atlântico possuía uma área maior que a atual (IPT, 1981).

Figura 4.4. Carta Dissecação Horizontal

 

Fonte: Bacci (2009).

Figura 4.5. Carta Dissecação Vertical

 

Fonte: Bacci (2009).

Já na unidade Morfoestrutural das Bacias Sedimentares Cenozoicas, o município encontra-se situado na unidade Morfoescultural das Planícies Litorâneas Santistas, apresentando baixa altitude (máximo de 20 metros), solos hidromórficos, declividade muito pequena (inferior a 2%) e, a respeito da litologia, encontram-se sedimentos marinhos e fluviais inconsolidados

(Figuras 4.5 e 4.6). Essas áreas constituem-se basicamente por formas de relevo tipo planície, terraços marinhos e campos de dunas.

Figura 4.6. Carta Pedológica

 

Fonte: Bacci (2009).

Esse conjunto de formas decorre de uma complexidade de processos morfogenéticos, nos quais as interações de atividades construtivas e destrutivas das águas oceânicas ao longo da faixa litorânea se confrontam com as influências das águas continentais, também construtoras e destruidoras de formas e depósitos eólicos, que exercem importante papel de remobilização dos sedimentos marinhos (IPT, 1981).

Figura 4.7. Carta Geológica

 

Fonte: Dias (2009).

Devido à inconsolidação dos sedimentos e da baixa declividade, essa unidade torna-se susceptível naturalmente a inundações e acomodações do terreno, sendo, portanto, área de grande fragilidade.

Já nas Planícies de Mangues, a interação entre as águas oceânicas e continentais proporciona um ambiente único para a formação e o desenvolvimento de espécies animais e vegetais extremamente importantes para a sustentação do ecossistema. Dessa forma, qualquer desequilíbrio ambiental gera impactos diretos, tornando o ecossistema extremamente frágil, tanto em relação ao meio físico, quanto ao biótico.

Para Almeida (1964), as Baixadas Litorâneas Paulistas compreendem áreas restritas de planícies mais ou menos isoladas, ou seja, dispostas em áreas descontínuas à beira-mar, não ultrapassando 70 metros de altitude. Essas áreas desenvolvem-se sobre um pacote de sedimentos quaternário de espessura variada, que obedece ao mesmo padrão de distribuição em toda a costa paulista (IPT, 1981).

A área do município está distribuída entre insular e continental. Duas dinâmicas naturais de formação de relevo muito distintas podem ser identificadas: uma associada a áreas de morros situadas na porção continental, com ações denudacionais, e outra a áreas de planície encontradas na região insular e no continente no contato com a serra, com ações mais deposicionais.

As áreas de morros caracterizam-se por apresentar intensa ação do intemperismo químico e físico. O primeiro devido principalmente à intensa umidade associada a altos índices pluviométricos, e o segundo em virtude da grande variação altimétrica, da quantidade de rios muito entalhados e do alto grau de inclinação das vertentes.

As vertentes podem ser divididas em três tipos: vertentes convexas com características de processos de lavagem da superfície do terreno e de erosão a partir do impacto da chuva, caracterizando-se como áreas dispersoras de água e material. Já vertentes côncavas estão associadas tanto à erosão do terreno como à deposição causada pelo acúmulo de água e sedimentos, sendo caracterizadas como áreas receptoras. E vertentes retilíneas, que ocupam a parte central mais íngreme do perfil, formando paredões abruptos de relevo acentuado, com rocha resistente ao intemperismo, ou então áreas do perfil, com encostas controladas por processos típicos de baixa declividade.

Para Ross (1990), as vertentes podem ser identificadas e classificadas por seus diversos setores, que indicam determinadas características genéticas. Podem ser: Topos convexos (Tc), que caracterizam segmentos de vertente correspondentes a topos convexizados, ocupando posição cimeira nos divisores de água; Vertentes convexas (Vcl), que representam segmentos de vertentes muito convexos com declividades superiores a 30%;Vertentes convexas (Vc), que representam relevo de tipologia convexo com declividades entre 20% e 30%; Vertentes côncavas (Vce), que caracterizam segmentos do relevo de tipologia côncava; Patamares convexizados (Pc), que são superfícies aplanadas que interrompem a continuidade da vertente com topos convexos de curvatura plana; Colos (Cl), que representam depressões numa linha de cristas no topo da serra; e Costão rochoso (Cr).

Nas áreas de planície encontram-se feições dos tipos de praias, restingas e planícies, e podem ser classificadas em quatro tipos: Praias (Pr), que são zonas planas, formadas pelo acúmulo de areia; Restingas (Re), que representam planícies originadas pela incorporação de cordões de areia depositados pelo oceano; Planície flúvio-marinha (Pf), com terrenos areno-vasosos sendo influenciados pela maré e pela dinâmica fluvial (mangue); e Planície mista, que são áreas de planície flúvio-marinha que sofreram processos de colmatação, sedimentação marinha e fluvial (Ross, 1990).

Considerando a dinâmica natural do município com duas áreas de funcionamento e de formação do relevo muito distintas e os conceitos de Unidades Morfoestruturais e Morfoesculturais desenvolvidos por Ross e Moroz (1997), a área de estudo pode ser dividida em três Unidades Estruturais: Cinturão Orogênico do Atlântico, Bacia Sedimentar Cenozoica e Formações do Quaternário Continental, conforme Carta de Compartimentação Geomorfológica

elaborada por Dias (2009) (Figura 4.8).

Figura 4.8. Carta de Compartimentação Geomorfológica

 

Fonte: Organização dos autores.

Essa compartimentação do relevo propiciou melhor visualização dos aspectos físicos do município por meio das análises morfológica, morfogenética e morfométrica de cada compartimento identificado e suas subunidades.

A região serrana, definida como unidade Morfoestrutural Cinturão Orogênico do Atlântico, tem sua formação ligada a movimentos tectônicos datados do Pré-Cambriano, sendo formada por dobras e falhas na estrutura litológica, constituída basicamente por rochas cristalinas. Nessa unidade encontra-se grande variação altimétrica (200 a 1.000 metros), com altos índices de declividade (>30%). A drenagem é dendrítica e bem entalhada, seguindo a direção de falhas e fraturas da estrutura geológica.

Pelo fato de essa unidade apresentar características de relevo denudacional, foram identificados altos índices de dissecação do relevo, tanto índices de dissecação horizontal em virtude da pequena distância entre o canal fluvial e o divisor de águas, quanto de dissecação vertical associado à declividade acentuada nas sub-bacias. Em relação à morfometria, predominam encostas com vertentes convexas e retilíneas, podendo ser encontradas áreas de patamar convexizado e, em direção ao interior da serra, topos convexos favorecendo a dispersão de águas para os canais fluviais que apresentam vales em forma de V. Nas áreas de contato entre Serra do Mar e Bacia Sedimentar Cenozoica observam-se encostas festonadas, ora apresentando vertentes convexas ora côncavas.

A compartimentação geomorfológica dessa unidade morfoestrutural foi dividida em cinco unidades morfoesculturais: Escarpas da Bacia do Rio Quilombo, Planalto Atlântico, Escarpas Festonadas, Escarpas da Bacia do Rio Jurubatuba e Morros Residuais.

As Escarpas da Bacia do Rio Quilombo, situadas a oeste do município de Santos, apresentam grande variação altimétrica, entre 200 e 1.000 metros de altitude, em pequeno espaço entre talvegue e linha cumeada, sendo identificados altos índices de declividade (superiores a 30%). A drenagem apresenta-se bem entalhada, com vales em forma de V, geralmente sendo rios de primeira ordem, podendo chegar até quarta ordem, tendo como característica grande energia de transporte devido ao grande desnível altimétrico em

poucos quilômetros de extensão (Figura 4.9). A cobertura vegetal é

de Floresta Ombrófila (Mata Atlântica), ainda preservada (Figura

4.10). As vertentes são na maioria convexas e retilíneas, podendo encontrar topos convexos nas áreas de maior altimetria, caracterizando-se como relevo de alta energia, onde prevalece o escoamento superficial, sendo naturalmente susceptível a escorregamento de massa e queda de blocos.

Figura 4.9. Carta Hierarquia de Drenagem

 

Fonte: Bacci (2009).

Figura 4.10. Carta de Cobertura Vegetal

 

Fonte: Bacci (2009).

A unidade Escarpas da Bacia do Rio Jurubatuba situa-se na região central continental do município de Santos, apresentando variação altimétrica entre 100 e 900 metros. Nessa unidade há predominância de rios de primeira ordem que se direcionam para o canal principal de quarta ordem (Rio Jurubatuba), vales são bem entalhados em forma de V e assimétricos. As vertentes são convexas e retilíneas, podendo ser encontradas, em menor quantidade, vertentes côncavas. As rochas dessa unidade possuem origem pré-cambrianas e formação superficial cristalina.

A unidade Planalto Atlântico encontra-se ao norte e nordeste do município, sendo caracterizada por região de topos convexos, representando o divisor de águas das bacias encontradas na área de estudo. A drenagem é predominantemente de rios de primeira ordem, caracterizando-se como área de nascentes. A declividade supera 20%, com altimetria variando de 800 a 1.100 metros, e a geologia é representada por rochas pré-cambrianas tendo como formação superficial rochas cristalinas. Nessa unidade, os índices de dissecação variam devido à menor quantidade de canais fluviais. Os índices de dissecação horizontal variam, com rampas atingindo 100 a 800 metros de comprimento. Já nos índices de dissecação vertical observa-se a predominância de valores superiores a 60 metros de altura.

As Escarpas Festonadas encontram-se a sudeste da área continental com contato direto com a zona de planície. Essa unidade ora invade a área de planície, ora recua, com vertentes côncavas e convexas. A drenagem apresenta predominantemente rios de primeira ordem, seguindo em direção à zona de planície. A altimetria varia de 100 a 800 metros e apresenta declividade superior a 30%. As rochas possuem origem pré-cambriana e a formação superficial é de rochas cristalinas.

Por último, a Unidade dos Morros Residuais situa-se na porção sul da área continental e no centro da parte insular, seguindo o alinhamento da Serra do Mar, demonstrando processo de recuo da escarpa pelo encaixe da drenagem e erosão fluvial.

A altimetria varia de 0 a 200 metros, com declividades acima de 12%, havendo predomínio das declividades superiores a 30%. Nessa unidade, as formas de vertentes são predominantemente côncavas e a drenagem é representada, na parte continental, por rios de primeira ordem e, na parte insular, de segunda ordem. Os vales são entalhados e apresentam altos índices de dissecação horizontal, com distância não superior a 400 metros, e índices de dissecação vertical superiores a 40 metros. A geologia é representada por rochas pré-cambrianas, tendo como formação superficial rochas cristalinas, cujo uso e ocupação constitui-se no Parque Estadual da Serra do Mar, e em algumas áreas agrícolas, além das áreas urbana e industrial.

A Unidade Morfoestrutural da Bacia Sedimentar Cenozoica apresenta áreas com processos de acumulação de sedimentos com origem fluvial ou costeira. Inserida nessa unidade morfoestrutural encontra-se a unidade Morfoescultural Terraços Marinhos, representada por baixas declividades (geralmente inferiores a 2%) e que apresenta baixa altimetria, chegando até 20 metros. Essa unidade está geneticamente relacionada com as interações oceano-continente por meio da variação do nível do mar. O uso e a ocupação das terras estão associados a atividades industriais, algumas áreas de agricultura e propriedades rurais. Os índices de dissecação vertical do relevo são considerados baixos em virtude da pouca variação altimétrica e declividade da área, já o índice de dissecação horizontal varia de rampas com 100 a 800 metros de comprimento, conforme a densidade de drenagem.

Por último, a Unidade Morfoescultural Formações do Quaternário Continental apresenta áreas de acumulação recente de sedimentos de origem flúvio-marinha, coluvionar e fluvial. Essa estrutura foi dividida em duas unidades morfoesculturais: Planície Fluvial e Zona de Acumulação.

A Planície Fluvial é encontrada ao longo do canal de drenagem dos principais rios que passam pelo município de Santos, no caso Rio Jurubatuba e Rio Quilombo, sendo áreas de acúmulo de sedimentos, caracterizadas por depósitos fluviais recentes.

A Unidade Morfoescultural Zona de Acumulação foi dividida em duas subunidades: Mangues e Áreas de Colúvios. Na primeira, uma parte encontra-se entre a região insular e continental do município, e a sudeste, associada a desembocaduras de rios e canais estuarinos. Apresenta terrenos de baixa altitude com declividade inferior a 2%, sendo praticamente horizontal e solo do tipo Gleissolo. Está associada a interações das ações fluviais e das ações oceânicas, por meio da oscilação das marés, tendo sedimentos geralmente argilosos e vegetação hidromórfica. A drenagem apresenta padrão difuso e meândrico, com rios de primeira a quarta ordens. Nessa unidade, os índices de dissecação do relevo são baixos, devido à baixa declividade e altimetria.

Por último, as Áreas de Colúvio situam-se no contato das escarpas da Serra do Mar e dos depósitos continentais ao longo dos dois principais rios (Quilombo e Jurubatuba) e também entre as escarpas e os depósitos flúvio-marinhos, ao sul da área continental. Estão localizadas nas bases das vertentes, associadas a deslizamentos de massa e corridas de lama provenientes da serra, caracterizadas por possuir heterogeneidade de material.

Nessa perspectiva, Bacci (2009) elaborou a Carta de Fragilidade

Potencial do Município de Santos (Figura 4.11), na qual as unidades de fragilidade, considerando a metodologia proposta por Ross (1990), foram representadas a partir da correlação de três variáveis: formas do relevo, índices de declividade e de dissecação. Para estabelecer as unidades, utilizou-se, inicialmente, a carta de compartimentação do relevo como base, sendo definidas nove unidades. Estas foram identificadas por meio da morfogênese e morfologia, sendo quatro de formação denudacional e cinco de formação de agradação. Tais unidades seguiram padronização das formas e processos atuantes na gênese e estruturação.

Figura 4.11. Carta de Fragilidade Potencial do Município de Santos

 

Fonte: Bacci (2009).

Após a delimitação das nove unidades, foram definidos segmentos de vertentes por meio de dois parâmetros para área denudacional: índice de declividade e morfologia do relevo; e, para área de agradação, um parâmetro: o tipo de sedimento.

Para cada segmento de vertente foram introduzidos seis atributos, como determina o modelo de representação de relevo proposto por Ross (1990), para delimitação e caracterização das unidades de fragilidade potencial, sendo: altimetria, litologia, cobertura vegetal e tipos de uso dominante, clima, solos e processos morfodinâmicos; a soma dos atributos representa os índices de instabilidade, conforme Carta de Instabilidade do Município de Santos, elaborada por Bacci

(2009) (Figura 4.12).

Figura 4.12. Carta de Instabilidade do Município de Santos

 

Fonte: Bacci (2009).

Dentro da zona denudacional encontra-se a unidade do Planalto Atlântico definida como região de topos, e que possui declividade média (20% a 30%), segmentos de vertentes de topo convexo e algumas vertentes convexas. Na região predomina a Floresta Ombrófila, sendo uma vegetação relacionada a regiões úmidas com densa cobertura vegetal.

Devido à característica do relevo de topos, essa região apresenta índices de fragilidade entre médio e muito forte, caracterizando-se como naturalmente frágil. Apesar da fragilidade potencialmente alta, a região tem como uso o Parque Estadual da Serra do Mar, sendo uma área de conservação, não havendo forte interação antrópica, a não ser pelo trecho das rodovias Imigrantes e Anchieta.

A unidade Escarpas do Rio Quilombo e Escarpas do Rio Jurubatuba apresentam dinâmicas naturais semelhantes, tendo cobertura vegetal de Floresta Ombrófila Densa. Predominam solos do tipo Cambissolos pouco desenvolvidos, com horizonte B incipiente.

Essas unidades estão inseridas nas bacias hidrográficas dos rios Quilombo e Jurubatuba. Apresentam declividades altas (30% a 40%), associadas a vertentes convexas e retilíneas, possibilitando ocorrência de movimentos de massa, principalmente escorregamentos de material e queda de blocos. Encontram-se patamares convexizados e zonas de topos convexos ao longo do divisor de águas. Apesar da conservação da mata nativa, o índice de fragilidade está entre forte e muito forte em virtude da inclinação do terreno e dos índices de dissecação do relevo. Essas áreas apresentam os maiores índices de fragilidade potencial, mesmo pertencendo ao Parque Estadual da Serra do Mar.

A Unidade Escarpas Festonadas apresenta três tipos de vertente em alternância. Ora predominam vertentes côncavas e convexas associadas ao fator litológico, devido à resistência dos materiais encontrados, ora vertentes retilíneas associadas a afloramentos rochosos; além das vertentes, identificam-se áreas de topos convexos. Os solos são Cambissolos que possuem características de serem rasos e suscetíveis à erosão. O índice de declividade é alto (30% a 40%) e a variação altimétrica fica entre 20 e 800 metros. O índice de fragilidade varia entre forte e muito forte, principalmente associado à declividade do terreno e ao índice de dissecação vertical, prevalecendo a altura da rampa acima de 100 metros.

A Unidade Morros Litorâneos está inserida na zona de planície e é caracterizada como um relevo residual. Esses morros foram divididos em dois grupos, um composto por pequenos morros residuais na planície continental e outro localizado na parte insular.

Os morros localizados na parte continental foram classificados somente como morros residuais devido à impossibilidade de classificação das formas de vertente. Esses morros não ultrapassam 100 metros de altitude e apresentam declividade entre 30% e 40%, com cobertura vegetal de Floresta Ombrófila densa de terras baixas, apresentando índices de fragilidade médios.

Os morros da parte insular apresentam, nas áreas de vertentes retilíneas, declividade alta, entre 30% e 40%, com índice de fragilidade entre forte e muito forte. Encontra-se também área de topos convexizados com declividade entre 12% e 20%, com índice de fragilidade forte. Além da grande fragilidade natural, nessa região houve a substituição da mata nativa pela ocupação urbana, modificando as características naturais de escoamento e infiltração, alterando as condições do sistema.

Dentro da zona de agradação encontra-se a Unidade Terraço Marinho, na área continental do município, apresentando declividades entre 0% e 5%, não ultrapassando os 30 metros de altitude. É caracterizada por relevo de baixa energia, prevalecendo a deposição de sedimentos. A cobertura vegetal predominante é restinga com árvores de pequeno a médio porte. O índice de fragilidade é considerado fraco ou muito fraco, porém a interferência antrópica pode resultar na alteração imediata do funcionamento do sistema, como desestabilização dos sedimentos arenosos que são naturalmente friáveis.

A Unidade Depósito Flúvio-Marinho apresenta-se como área plana, sofrendo influência da variação das marés. Possui vegetação característica que se desenvolve na confluência das águas salgadas com as dos rios, denominada água salobra, cuja vegetação é de baixo porte com sistema de raízes radicular e aérea, estabelecida sobre solos do tipo Gleissolo. O sedimento é inconsolidado e composto basicamente por argila, devido à baixa energia de relevo, que permitiu a seleção dos grãos. O índice de fragilidade potencial é fraco; contudo, em relação ao índice de instabilidade potencial, é médio, sendo agravado pela ocupação antrópica.

A Unidade de Planície Fluvial encontrada às margens dos rios Quilombo e Jurubatuba apresenta declividade média entre 5% e 12%, com sedimentos de origem fluvial transportados pelo rio principal e seus afluentes, composta basicamente por areia e silte, cuja formação data do Quaternário. A cobertura vegetal é a Floresta Ombrófila densa de terras baixas e solos Gleissolos e hidromórficos. A fragilidade potencial dessa unidade é média. Em relação ao uso e à ocupação das terras verifica-se o Parque Estadual da Serra do Mar.

Por último, encontra-se a zona de depósito dividida em duas unidades: depósitos coluvionares e mistos. Rampa de colúvio descreve formas de fundo de vale suavemente inclinadas associadas a depósitos coluvionares. Estes se caracterizam por acumulação na base da escarpa, resultante do processo de erosão em lençol com escoamento superficial ou por ação gravitacional. Nessa unidade a declividade é média (20% a 30%), com grande heterogeneidade de material, cuja fragilidade potencial é de forte a muito forte.

Os depósitos mistos são áreas onde não foi possível estabelecer diferenciação entre as rampas de colúvio e a planície fluvial, sendo uma zona de transição com características semelhantes aos depósitos coluvionares.

 

Considerações finais

Logo, o zoneamento geoambiental, como ferramenta de planejamento integrado, aparece como uma solução possível para o ordenamento do uso racional dos recursos, garantindo a manutenção da biodiversidade, dos processos naturais e dos serviços ambientais ecossistêmicos.

Na região em que se apresenta ocupação antrópica, foi observada grande intervenção na dinâmica da paisagem. Em alguns locais, essa intervenção modificou os processos geomorfológicos, intensificando os processos erosivos e a degradação do meio ambiente.

A proposta de zoneamento geoambiental de Ross (1990) é baseada na construção de material-síntese, organizado a partir de processo de descrição e associação da dinâmica da paisagem, por meio da elaboração de documentos cartográficos e inter-relação com parâmetros geomorfológicos, pedológicos, geológicos, climáticos, de cobertura vegetal e uso da terra.

Nesse contexto, a análise física da paisagem parte de uma ordem taxonômica que define a escala a partir da qual são pontuados os parâmetros para execução do zoneamento geoambiental. Essa análise é realizada por meio dos índices de dissecação do relevo produzidos em pequenas escalas, pela observação das formas de vertente e declividade, enfatizando a importância do mapeamento geomorfológico como base para o zoneamento elaborado.

Nessa perspectiva, o método proposto por Ross (1990) sugere a produção de uma matriz de índices de dissecação relacionando dois parâmetros: distância interfluvial e grau de entalhamento dos canais de drenagem, gerando uma matriz variando de 11 até 55, na qual o primeiro índice representa fragilidade fraca e o segundo fragilidade muito forte.

Um ponto relevante na proposta de Ross (1990) é o intenso processo de levantamento de dados, sendo estes morfométricos, morfológicos, morfogenéticos e geológicos. Essa quantidade de informação enriquece a discussão da dinâmica da paisagem, permitindo maior detalhamento e representatividade da área de estudo.

Bacci (2009) aponta que houve dificuldade na síntese de todo o material, pois diversas informações se sobrepõem, dificultando a leitura desses parâmetros. Além disso, a proposta de legenda da metodologia, a qual se baseia na representação das formas de vertentes em conjunto com o índice de declividade e de fragilidade, acarreta uma poluição visual do mapa-síntese, dificultando a leitura deste.

Outro problema encontrado, segundo Bacci (2009), foi que na área de estudo há discrepância entre as duas principais unidades geomorfológicas. A região serrana apresenta inúmeras formas de vertentes em correlação a diversos índices de dissecação e declividade, contrapondo-se à região de planície, que apresenta grande homogeneidade de formas, acarretando um mapa-síntese extremamente carregado de informações na área serrana e vazio na planície.

Logo, o método proposto por Ross (1990), principalmente devido ao detalhamento minucioso da paisagem por meio de levantamentos cartográficos e estudos da área, apresenta boa representação da dinâmica da paisagem, podendo ser usado para auxiliar no planejamento ambiental, visando à elaboração de zoneamento geoambiental, além de estabelecer parâmetros para identificar o grau de fragilidade da área, tanto com interferência antrópica como para áreas sem ação do homem.

Contudo, o método apresenta dificuldades quando posto em prática em locais de grande diferença de relevo, como no caso do município de Santos, privilegiando uma área com grande número de informações em detrimento da outra. Além disso, a escala adotada pode não representar qualitativamente áreas de dinâmicas diferentes, sendo necessária mudança de escala para não perder ou distorcer informações, para solução e visualização de problemas pontuais.

 

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp – Processo n.07/53645-8.

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1 Doutorando em Geografia, Departamento de Geografia, Instituto de Geociências – Universidade Estadual de Campinas.

renelepiani@ige.unicamp.br.

2 Mestre em Geografia, Departamento de Geografia, Instituto de Geociências – Universidade Estadual de Campinas.