Bases da ortografia portuguesa

A. R. Gonçalves Viana · Capítulo 6 de 13

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Bases da ortografia portuguesa

Ii—dos Fonemas e Sua Representação por Letras Consoantes

esquecer ou de ser pôsto depois do contrato escrito e assinado, distinguir-se hão, pois: jurarão, juraram (jurárão); venderão,

venderam (vendêrão); prescindirão, prescindiram (prescindírão); etc.

 

Corolário.—Por êste motivo o ditongo ão, final átono de verbos, escrever-se ha idénticamente com am; e, por analojia, se escreverá

a sílaba final dos vocábulos terminados pelo ditongo átono êe com a grafia em. A acentuação gráfica de tais vocábulos obedece ao

princípio 5.º Ex.: honram, viajam, ordem, viajem, pôrem, alem (= álem, v. alar).

 

N.B. Pelo princípio 5.º bis devemos escrever e escrevemos:

porém, ninguém, também, além, etc.; deveríamos, todavia, usar da ortografia: porêe, ninguêe, tambêe, etc. Deixámos êste ponto para o

Congresso.

 

É aínda evidente que os plurais dêstes nomes seguem análogamente a regra dada para os plurais dos nomes em a, o, e;

assim: _ordens, viajens, (órdêes, viájêes).

 

8º Os vocábulos compostos teem na escrita a acentuação dos seus símplices respectivamente marcada em obediéncia aos

princípios que ficam expostos.

 

II—DOS FONEMAS E SUA REPRESENTAÇÃO POR LETRAS CONSOANTES

 

Dois princípios absolutos determinam a exclusão de consoante

inútil; e quatro ordens de outros factos decidem a adopção científica de representação de fonemas articulados. São estes factos:

a) valores dialectalmente confundidos: ch (= tch), ch (= x), x; s, ç;

s, z.

 

b) valores próximos confundidos pela falta de observação da articulação: s, x; g(a), g(ue, ui); g(e, i), j; c(a, o, u), qu.

 

c) valor exclusivamente de influência do fonema articulado sôbre

o fonema modulado precedente.

 

d) valores diferentes de um só símbolo gráfico: x, entre vogais.

 

II a.—EXCLUSÃO DE LETRAS CONSOANTES

 

1.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor de

fonema próprio. São eles th, ph, ch, respectivamente por t, f, q(u), c(a, o, u), c; bem assim y=i.

 

1.º bis. Póde manter-se k=q(u)=c(a, o, u) nas abreviaturas de

quilómetro=klm., etc. Devemos, porém, escrever por extenso: quilómetro[1], quilograma, etc.

 

2.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor. São

eles as consoantes dobradas ou grupos de consoantes não proferidas e sem influéncia na modulação antecedente, nem

necessidade por derivação manifesta de outro vocábulo existente em que haja de proferir-se cada uma das consoantes, como é Ejipto

de que se deriva ejípcio.

 

Exemplos de símbolos sem valor próprio em português:

 

th = t.—thermometro = termómetro; ether = éter; thio = tio.

ph = f.—ethnographia = etnografia; philtro = filtro.

 

ch = q(u).—chimica = química; machina = máquina; chimera =

quimera.

 

ch = c(a, o).—chorographia = corografia; mechanica = mecánica.

 

y = i.—lyrio = lírio; physica = física.

 

Consoantes dobradas:—agglomerar = aglomerar; prometter = prometer; commum = comum; Philippe = Filipe.

 

Grupo de consoantes:—Christo = Cristo; Demosthenes =

Demóstenes; Mattheus (que já se escreve, sem razão, Matheus) = Mateus; schola = escola; sciencia = ciéncia; phthisica = tísica.

 

Influência da consoante na modulação precedente:—Vejam-se

exemplos em c, páj. 11.

 

1.º Escólio.—Conservamos n dobrado, m dobrado, nos vocábulos derivados de outros, cuja inicial é n ou m, por meio das prepositivas

in, em, toda vez que a prepositiva significa dentro; e aínda nalguns poucos vocábulos em que n ou m influam na vogal i ou e. A nasal da

prepositiva com só a conservamos, por êste motivo, em connosco. Escrevemos, pois: immigrar, immerjir, emmalar, ennobrecer, innato,

etc.; comoção, comum, comutar, conexo, etc.

 

2.º Escólio.—Mantemos as representações gráficas das palatais ch, lh, nh, emquanto não houver símbolo único para cada uma

delas.

 

[1] A ortografia kilometro por chilometro dá ocasião a traduzir-

se «metro-de-burro» e não «mil-metros». Em grego kíllos significa

«burro», e chílioi significa «mil». Porque razão, pois, havemos de

escrever cirurgia, chimera, kilo, quando o c, o ch e o k

representam a mesma orijem ch, transcrição latina do χ, grego?

 

3.º Escólio.—Só ao Congresso compete tratar da exclusão ou conservação da aspirante h.

 

II b.—ADOPÇÃO DE LETRAS CONSOANTES

 

a)—1.º Escrevem-se com ch as sílabas que são proferidas com

palatal dura, segundo os dialectos, explosiva ou contínua: chave, chapeu, chuva; etc. A etimolojia e as línguas conjéneres determinam

que sigamos o exemplo dos nossos clássicos e de vários monumentos escritos usando-se da grafia ch.

 

2.º Escrevem-se com x (melhor seria ẋ) as sílabas cuja inicial

palatal é dura contínua: xacoco, xadrez, xarafim; enxárcia, enxada, enxêrga, enxérga, enxertia, enxaimel, enxame, enxúndia; rixa, roixo;

etc. Cf. d).

 

3.º Escrevem-se com s as sílabas cuja final é sibilante dura palatal e, esporádicamente, sibilante dura dental: mas; basta; foste;

démos, dêmos; bosques; português, portugueses; etc. A etimolojia, o dialecto transmontano e as línguas conjéneres determinam a

grafia s.

 

4.º Escrevem-se com s inicial, ou com ss entre vogais, as sílabas em que a sibilante dura é ou dental, ou supra-alveolar, conforme os

dialectos: saber, classe, diverso, sessão, conselho, sossêgo, sosségo, etc. Determinação histórica e comparação.

5.º Escrevem-se com ç, ou com c(e, i), inicial as sílabas em que a

sibilante é dental dura, e só é supra-alveolar nas partes do país onde não ha outra sibilante dura inicial: peço, ciéncia, concelho,

poço, doçura, preço, çapato, çarça, cárcere, etc. Determinação histórica e comparação.

 

6.º Escrevem-se com s entre duas vogais (uma final da sílaba a

que pertence a sibilante, outra final da sílaba precedente) as sílabas em que a sibilante é branda dental ou, segundo o dialecto, supra-

alveolar: posição, coser (consuere), precioso, preso (prehensum, cf. prezo), preciso, pêso, péso, etc. Determinação histórica e

comparação.

 

7.º Escrevem-se com z inicial as sílabas em que a sibilante é dental branda em todo o país, à excepção daqueles pontos em que

se não profere sibilante inicial senão supra-alveolar: azêdo, azédo, azebre, razão, cozer, prezo (cf. preso), etc. Determinação histórica e

comparação.

 

8.º Escrevem-se com z final os vocábulos que nos seus derivados são escritos com c (e, i) correspondente à sibilante final deles.

Assim o determina a etimolojia, evidente na derivação, e a pronúncia dialectal. Exemplos: infeliz, infelicidade; símplez,

símplices, simplicidade; ourívez, ourivezaria; etc.

 

Corolário.—Escrevem-se com z infixo os diminutivos e aumentativos zito, -zinho, -zão, etc., e os sufixos (derivados do

latino -itia) -eza, -ez; bem como os sufixos de verbos, -izar, e de nomes, -ização.

 

Escólio.—Os plurais dos nomes diminutivos formam-se do tema

do plural do nome fundamental e do plural do sufixo. Dão testemunho os dialectos. Assim, pois, escrevemos: homemzinho,

homemzinhos, não homensinhos; acçãozinha, acçõezinhas, não acçõesinhas; pãozinho, pãezinhos, não pãesinhos; mãozinha,

mãozinhas; aneizinhos; etc.

 

b)—1.º Adoptámos, pelo que fica dito em a) 3.º, a representação gráfica s para a sibilante palatal dura final de sílaba, que muitas

pessoas julgam ser absolutamente igual a x (ẋ).

 

2.º Por falta mais grave na observação se tem confundido as articulações g(a), g(ue, ui), j(a), j(e, i), e ainda c(a), q(ue, ui). Os

pontos articulatórios são diferentes. No congresso trataremos estes assuntos. Carecemos de caracteres próprios para distinguir na

escrita as articulações j(a), g(e, i), j(o, u), nas palavras Jacob, Jeremias, José, Jesus, Jutlandia, Jerusalem, geme, gemer, gentes,

gymnasio, Gil; etc.; e é certo que não podemos, tão pouco, distinguir Guilherme, guerra, garra, gume, causando estranheza invencível a

grafia Geremias, Gesus, e ficando aínda infiel gemer, geral, e sempre em contradição com uma pronúncia Gèrusalém ou

Jerusalém; tendo nós, pois, de escrever Jeremias, Jesus, adoptámos o símbolo j para os fonemas articulados das sílabas ja,

jo, ju, ge, gi, e por êste sistema gráfico evitamos também regra especial para a conjugação dos verbos em (-ger, gir) -jer, -jir.

 

Escólio.—É evidente (pelo que fica dito em b) 2.º) a necessidade

aínda existente de mantermos o modo de escrever gue, gui, nas sílabas terminadas na vogal palatal i ou e, precedida do fonema

gutural brando, mostrando-se pelo acento grave sôbre o u da prolação gùe, gùi, as silabizacões gu-e, gu-i, como fica dito em 4.º

de páj. 7.