Boa Noite a Todos

Edney Silvestre · Capítulo 4 de 7 · parte 2/2

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Boa Noite a Todos

A Novela que Deu Origem à Peça

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Hände, laßt von allem Tun,

Stirn, vergiß du alles Denken…

Não era um filme. Ouvi quando… Quando eu era casada? Pela primeira vez? Com o americano herdeiro das lojas de artigos de pesca? Eram lojas de artigos de pesca? Nunca fui lá. Ao estado onde a família dele tinha a rede de lojas. Idaho. Ou seria Iowa? Utah? Eles têm tantos estados, mais de… trinta. Mais de… Muitos. Com nomes estranhos. Dakota. Arkansas. Winsconsin. Delaware. Oregon. Nebraska. As lojas eram em Nebraska? Eram num estado onde os americanos gostam de pescar. Nebraska ou Oklahoma. Não. As lojas eram no Kansas. Mas tampouco fui ao Kansas.

Uma casa de formas simplórias passa girando por sua mente, dentro do cone de um furacão. A imagem é tosca, em preto e branco. Nem mesmo registra do que se trata, porém se ouve dizendo, alto, “You are no longer in Kansas, Dorothy.”

Por que você disse isso, Maggie?

Isso o quê?

“You are no longer in Kansas, Dorothy.”

Eu não disse isso.

Acabou de dizer, Maggie.

Não posso ter dito porque nem sei onde fica. Nunca fui. Nem ao Kansas, nem à Holanda.

Sim, foi.

Sim. Fui. Claro que fui. Fui para lá solteira. Para a Holanda.

Solteira?

Entre o primeiro casamento e o casamento com Henri. Henri? Não. Estou me confundindo outra vez. Harry era o nome do americano herdeiro da rede de lojas de artigos de dez cents. Meu primeiro marido. Harry alguma-coisa III. Harry The Third. Como se fosse um nobre. Ignorante, seguro de si como todo ignorante. E belo. Louro, dourado, alto. Ele e eu ouvimos. E vimos. Era uma soprano. Uma mezzosoprano? A canção era em alemão. Naquela época eu falava alemão.

Alle meine Sinne nun

Wollen sich in Schlummer senken…

Como se chama aquela sala de concertos em Amsterdã, aquela com ótima acústica? Pleyel? Salle Pleyel? Onde fica a sala Pleyel? Não é em Amsterdã. Claro que não. É na outra cidade. Na cidade que tem a… Mas foi lá que eu ouvi essa canção. Em Amsterdã. Esses nomes eu ainda lembro. Amsterdã. Lisboa. Madri. Barcelona. Nova York. Istambul. Berlim. Munique. Viena. Viena? Foi em Viena? Talvez tenha ouvido em Londres?

As ruas de Londres e as ruas de Amsterdã se fundem no arremedo parisiense à volta dela, em lembranças sem cor e sem foco. Todos os carros são pretos. Os ônibus, todos os ônibus, mesmo os de dois andares, são pretos. As ruas são pretas. Os guarda-chuvas são pretos, os transeuntes todos se vestem de preto, pretos são os postes, monumentos, pombos, placas, portas, apenas o céu é menos preto. Cinza. Mais escuro que cinza. Não lhe ocorre como denominar a cor mais escura que o cinza, ainda que pense no material cilíndrico existente dentro dos lápis.

Agora seria um bom momento para acender um cigarro. Fumar e lembrar.

Você nunca fumou, Maggie.

Um pouco. Vez por outra. Todos fumavam. Meus maridos fumavam. Henri fumava. Harry fumava. PR fumava.

Harry fumava?

Sim. Nosso apartamento em Londres tinha muitos cinzeiros. E caixas de prata cheias de cigarros. Cigarreiras. De prata. E de marfim. Creio. Não as quis quando nos separamos. Sempre olhei para a frente, não me interessou, nunca me interessou pensar no que deixei para trás em Londres. Pouco me lembro de Londres. Em verdade, não tenho memória de coisa alguma de Londres. Meu pequeno conversível era vermelho ou prata? Preto? Verde? Onde ficava o pub preferido de papai? Quantas vezes fui e voltei do Brasil com minha lovely muamba? Hum… Palavra estranha, essa: muamba. Muamba. Muamba. O que é que a baiana tem… É uma música, isso. Essa frase é de uma música. Minha babá cantava para mim. O que é que a baiana… Muamba. Muamba. Lovely muamba. “Quando você se requebrar, caia por cima de mim, caia por cima de mim, caia por cima de mim…”

Imóvel, de pé entre as duas malas, de costas para as janelas, Maggie olha para as mãos. As unhas estão manicuradas, cobertas por esmalte transparente. Nos dedos, nenhuma joia, porque já não mais as tem. Também cuidou dos pés, depilou-se, tingiu os cabelos, fez limpeza de pele. Quer estar com bom aspecto quando a encontrarem. Fará uma maquiagem suave, mais carregada apenas nos olhos, marcados com lápis marrom-escuro, esfumaçado nos cantos. Sem cílios postiços. Não precisava deles. Sempre teve belos cílios, naturalmente recurvados, de fios longos e grossos. Passaria neles tão somente um pouco de rímel. Destacará o desenho ondulado dos lábios com o mesmo rouge à lèvres vermelho-claro que utiliza há mais de vinte anos. Pincéis, lápis, batom, pó compacto, tudo está em sua nécessaire de couro, a mesma que a acompanhou em tantas viagens, por tantos anos, até esta. A última.

Tanta coisa lembro, mas não sei o que é. Nomes, vozes, músicas, frases. Um homem baixo, feio, negro canta “Hey there, you with stars in your eyes, love never made a fool of you, you used to be… Used to be… so…”. Também me recordo de quatro ou cinco rapazes, todos vestindo casacas brancas, num palco, diante de um microfone, cantando “They asked me how I knew my true love was true…” Rita Tushingham. Quem era Rita Tushingham? O que era “A taste of honey”? “Lovely Rita, meter maid, may I enquire you discreetly…” Quem era Rita Pavone? Fruit cake. Christmas cake. “Please please me oh yeah”. Daffodil. O que significa? Forsythia? Georgy Girl? Lynn. Lynn e Vanessa, quem são? Quem eram? “I can’t get no, I can’t get no satisfaction”. Blow up… O que é tudo isso? O que é cada uma dessas coisas?

Mantém-se imóvel no centro daquela imitação de interior parisiense. Olha em volta. Por um brevíssimo instante não reconhece onde está. Logo retorna. Não sabe se a sensação de ridículo é pela caricatura que a rodeia, por si mesma, ou por ambos. Ou tudo.

Continua imóvel.

O apartamento do meu pai, a casa de minha irmã, as mãos de meu cunhado, as axilas do meu cunhado, o hálito do meu cunhado, a língua do meu cunhado, a rua de Roma onde vivi com Henri, a rua de Paris onde vivi com Henri, o nome inglês das flores, daquela primeira flor, que surge quando ainda há neve no solo… Esqueci. Sei que eu soube. Sabia. Mas esqueci. Venho esquecendo. Eu sei de tudo que existiu, que vi, que senti, mas onde estão as imagens, os nomes, as vozes, as cores, o sabor, o cheiro delas?

Harry. Não Henri. O belo americano louro, alto e dourado era Harry. Harry alguma-coisa III. Eu o vi e sabia, soube imediatamente que… Eu atravessei o salão da casa fria, sem aquecimento e sem os móveis vendidos para novos-ricos americanos como os pais dele, estendi a mão e lhe disse: Olá, você deve ser Mitchell York.

Mitchell York era… Um tenor? Um ator? Um roqueiro? Um… Um… O sol de York. O filho de York. Do que estou falando?

Vai até a cama, senta-se. Pega a bolsa. Abre-a. Não sabe por que a abriu. Fecha-a. Coloca de novo no mesmo lugar onde a deixara ao chegar ao quarto. Ainda tem os óculos escuros em uma das mãos. Pega a bolsa, abre-a, coloca os óculos dentro, fecha-a, recoloca-a onde estivera. Cruza as mãos sobre o colo.

Minhas pastilhas estão se apagando. Não são pastilhas. São… São… Estão se apagando. Uma a uma. Cada vez mais rápido. Como se estivessem desenhadas em areia e o vento as… O vento as… O vento faz que elas se… Elas se…

Descruza as mãos, pega a bolsa, abre-a, tira de lá os óculos. Não sabe o que fazer com eles.

Não são pastilhas.

Fecha a bolsa, põe a seu lado.

Eu estou sumindo. Desapareço. A escuridão me toma. Não. A noite… me invade. Me toma. A… O véu. A falta de luz. A escuridão. Mais que isso. Mais que escuridão. A… O negror. Mais que o negror. O… A… As…Trevas.

Um arrepio a atravessa.

Não. Não é escuro. É pálido. Claro. Branco. O branco que vai tomando tudo.

Levanta-se.

Não deixarei. Antes de sumir totalmente, parto.

O que necessito está aqui, nessas malas. Daqui deste mesmo lugar onde minha vida começou. Sei que foi aqui. Mesmo sem me lembrar direito, sei que foi aqui. Tenho certeza de que foi. Vivemos aqui desde que nasci. Na casa de meu avô. Enquanto minha mãe permanecia no quarto, trancada, quieta, no escuro. Meu pai já tinha ido para Londres. E ela vivia na escuridão. E silêncio. Não podíamos fazer barulho. Os barulhos a machucavam. São como agulhas finas e compridas entrando pelos ouvidos para dentro da cabeça da sua mãe, as enfermeiras diziam. Eu aprendi a ficar quieta. Meu irmão, não. Ele, não. Por isso o levaram. Sérgio foi levado para a casa de… uma tia? Madrinha? Antes de mim. Antes de me tirarem dessa casa. Não tive culpa. Não fiz barulho. Nunca fiz.

O quarto tinha sido o escritório do avô. As estantes de madeira, já sem livros, ainda estavam lá. O leito ficava ao fundo, à esquerda. Havia uma enfermeira sentada ao lado da cabeceira. Assim ela se lembra. Ou acha que lembra. Conseguiu abrir a porta e ver apenas uma vez ou duas. Era difícil perceber os contornos ali dentro. Pelas janelas fechadas, cobertas por cortinas espessas, não passava claridade. Havia uma única luz, fraca, sobre um móvel baixo e estreito, num abajur que servira para as leituras do avô, na quina oposta à cama. A enfermeira percebeu-a junto à porta apenas entreaberta. Fez sinal para que saísse. Maggie fechou a porta. Foi a última vez que viu a mãe. Ou acredita que viu.

Era cedo, ainda, quando me retiraram da casa, na mesma manhã em que a ambulância levou o corpo de minha mãe, foi, sim, estou quase certa de que talvez tenha sido no dia, talvez manhã, talvez tarde, em que a ambulância chegou, e os enfermeiros, ou um enfermeiro, mas ela, mamãe, tinha uma enfermeira dela, própria, duas, uma durante o dia, outra durante a noite, sempre vigilantes, porém um dia se distraíram, então eles chegaram, os enfermeiros da ambulância, e foram ao andar de cima. Ou ao quarto dos fundos. Mas já era tarde.

Nun der Tag mich müd gemacht,

Soll mein sehnliches Verlangen…

Quantos anos eu tinha? Quatro? Menos? Mais? Para onde me levaram? Eu percebi alguma coisa? Fui ao velório? Ao enterro? Não. Talvez. Sim. Não. Não fui ao velório nem ao sepultamento.

Fui levada para a casa de alguém, vizinho, parente, não sei, não tenho certeza, e lá me deixaram por um tempo. Dias. Semanas? Dias, semanas, como uma menina de quatro anos pode saber o que são dias ou semanas? Ou meses? Fiquei lá, onde haviam me deixado, para onde alguém me levou, talvez minha babá, até que… Depois meu pai veio me buscar e me levou para Londres. Não. Ele não veio me buscar. Meu avô me levou.

O avião era imenso, imenso, imenso, isso é tudo que lembra. Sentaram-na em uma poltrona enorme, azul ou cinza, ou azul com pequenas estampas cinza, ou cinza com pequenas estampas azuis, isso ela acredita que lembra. Suas pernas cabiam inteiras no assento. Ninguém a acompanhava — mas disso ela não se lembra. Tampouco de não ter dormido sequer um minuto durante as doze horas do voo transatlântico. Nem que passou boa parte das doze horas de olhos fechados, fingindo dormir, imóvel, ante a insistência impaciente da aeromoça para que adormecesse. Sem fazer barulho. Ela sabia bem como não fazer nenhum barulho.

Nun der Tag mich müd gemacht,

Soll mein sehnliches Verlangen…

Não era uma soprano sueca. Era americana. Tenho certeza de que era uma cantora americana. Embora as palavras fossem em alemão. Eu entendia o que ela cantava. Eu falava bem alemão naquela época. Que época? Quando vivi em Viena? Quando estava casada com Henri? Se eu sabia o significado das palavras que a soprano cantava, por que não sei mais? O que… Lembrei! Era uma cantora negra! Americana. Uma soprano americana. Mezzosoprano. Famosa. Chamava-se… Chamava-se…

Nun der Tag mich müd gemacht,

Soll mein sehnliches Verlangen…

Freundlich die gestirnte Nacht

Wie ein müdes Kind empfangen…

Nomes. Primeiro comecei a esquecer nomes. Achei normal. Todo mundo esquece nomes. No meu caso então… Tanta tanta gente eu conheci. Não seria mesmo possível me lembrar de todos os nomes, todos os rostos, todos os sobrenomes, todos os títulos, todas as situações, todos os países. Eu os perdi. The art of losing isn’t hard to master. Quem escreveu isso foi aquela poetisa americana gordota casada com aquela brasileira que criou o aterro do Flamengo, aquela mulher de cabelos curtos, acho que eram curtos, aquela mulher de uma família amiga da família da minha mãe, aquela dona de uma casa na serra, a mesma mulher que… Ela se chamava… Ela se chamava…

Não percebe que permanece de pé, imóvel, quieta, com os óculos na mão. Coloca-os no rosto. Tira-os, segura-os, logo os pendura no decote da camisa. Cruza os braços. Sente-se impaciente como se aguardasse alguém atrasado. A canção alemã continua ressoando em sua cabeça. E duas palavras que não reconhece. Lied. Lieder.

Primeiro esqueci nomes, depois foram os objetos, como… Ou objetos foi antes. Perdia. Perdi. Chaves, carteira, canetas, batons, óculos de leitura, cartões de crédito, papéis, rímel, anéis, chaves, celular, documentos, papéis, rímel, óculos, chaves, carteira com dinheiro e documentos, cheques de viagem, cartões de embarque, óculos, canetas, celular, batom, pó compacto, rímel… Será que trouxe tudo? Minha maquiagem, minha escova de cabelos, está tudo aqui?

Maggie vai até a mala maior, pega-a com facilidade, está leve, tem apenas uma peça de roupa e seus complementos.

Põe a mala sobre a cama, abre-a.

Retira a primeira das folhas de papel de seda que separam os itens. Pega, com delicadeza, o vestido comprido, de tecido vaporoso, carmim. Estende-o cuidadosamente sobre a cama. Abaixo da segunda folha está um xale, também carmim, também de musselina, que é estendido junto ao traje de gala. Desdobra, em seguida, as várias folhas que enrolam um par de luvas longas, brancas, que deposita ao lado do vestido. Finalmente pega, no fundo da mala, dois sacos contendo um par de sapatos de bico fino, forrados em cetim da mesma cor do vestido longo. Os saltos são muito altos. Ainda assim, sua cabeça ficava pouco acima dos ombros de Harry.

Quando entramos no hall do teatro, antes do recital daquelas canções alemãs, todos os rostos se viraram. Todos nos olharam. Um homem grande, louro, dourado, ao lado da morena esguia, exótica, altiva, quase uma sósia de Jackie Kennedy, esvoaçante em meu belo vestido de musselina carmim. Éramos a encarnação da beleza. Não. Harry era a encarnação da beleza. Eu não era bonita. Não no sentido clássico da palavra. Eu era jovem.

Fecha a mala vazia, coloca-a de volta ao lado da menor. Caminha até o banheiro. Atrás da porta há dois roupões de toalha branca, bordados com a logomarca do hotel, pendurados em cabides. Pega o menor deles. Leva até a poltrona de veludo marrom, onde o deixa sobre o braço. Olha em volta. Concentra sua atenção nas malas. Na mala maior. Por que mesmo?, ela se pergunta. Tenta se lembrar. Não lhe ocorre. Vai até a mala, leva-a à cama, abre-a. Está vazia. O que buscava ali? Precisava de alguma coisa que guardara ali? Talvez não buscasse nada, conclui. Talvez quisesse apenas confirmar que havia retirado dali tudo o que necessitava.

Fecha a mala vazia, coloca-a de volta ao lado da menor. Caminha até o banheiro. Atrás da porta há apenas um roupão de toalha branca, bordado com a logomarca do hotel, pendurado em um cabide. O outro cabide está vazio. Retira o roupão do cabide, leva até a poltrona de veludo marrom. Vê que já havia outro, idêntico, apenas um pouco menor, sobre o braço da mesma poltrona. Joga o maior por cima. Senta-se. Tira os sapatos. Levanta-se, vai até o guarda-roupa, abre-o, retira dois cabides, um para a camisa, outro para as calças, coloca-os sobre o assento da poltrona em frente, cor de mostarda. Tira o suéter, deixa-o sobre o encosto da poltrona marrom, desamarra o nó da camisa, abre os botões, pensa que a comprou em… em… Nova York? Quando? Olha a etiqueta. Lê Made in Italy. Não reconhece a marca. Não importa. Nada importa. Pendura a camisa em um dos cabides. Desamarra a echarpe que utiliza como cinto, deixa-a em cima dos roupões. Volta ao banheiro. Na bancada de mármore branco da pia, confere as pequenas embalagens de plástico dos produtos de higiene. Separa a de sais de banho. Abre as torneiras da banheira, controla-as até obter a temperatura que deseja. Deixa a banheira enchendo.

Há um cabide vazio sobre a poltrona de veludo mostarda. Não entende por quê. Ela o pega e pendura no guarda-roupa, junto ao cabide onde está a camisa branca. Olha, de relance, a etiqueta. Made in Italy. Não reconhece a marca. Onde a terá comprado? Não importa. Percebe que está sem sapatos. Calça-os. Caminha até a segunda mala, a mala menor, deposita-a sobre o banco ao pé da cama, abre-a. Há três livros dentro e uma nécessaire de couro, da mesma marca da bolsa que trouxera, estampada com as mesmas iniciais do fabricante francês. Abre o fecho ecler. Despeja o conteúdo sobre a colcha matelassê: um bastão de rímel, um batom, outro batom, um frasco de base, uma embalagem de pó compacto, um pincel, um lápis de olho, um pente, uma caneta, um par de óculos de leitura.

Ah, então era ali que estavam seus óculos de leitura. Por isso não os encontrara.

Coloca tudo de volta na nécessaire, menos os óculos de leitura, deixados sobre o banco, leva-a até a cabeceira da cama. Dispõe cada objeto lado a lado, em cima do travesseiro mais próximo. Volta à mala, retira os livros.

Um a um, ela os sobrepõe na mesa de cabeceira. Nos últimos quatro anos, Maggie os carregou por todos os diversos, involuntários quartos de hóspedes em que foi acolhida. O exemplar lido e relido de Ariel, de Silvia Plath, sobre os Sonetos completos, de Florbela Espanca, com inúmeros poemas assinalados por pequenas dobras no canto de páginas, os dois em cima de um livrinho de menos de vinte folhas amareladas, desbeiçadas, amassadas, rabiscadas com lápis de cor, cera, canetas, manchadas pelo tempo e por líquidos, a capa escondida sob um papel grosso, uma capa de papel almaço tal como sua babá lhe ensinara a fazer, e que ela substituía vez por outra, um tanto para esconder a capa, mas especialmente para proteger o livrinho que a acompanhava desde que embarcara naquele avião da Varig com destino a Londres, muitos, muitos, muitos anos atrás.

Estou de volta.

Vai até o banco ao pé da cama, forrado com imitação de couro preto, capitonê, fecha a mala. Vira-se. Mira, longamente, a mobília à volta. A mistura de imitações de estilos, tecidos, ornamentos, texturas e cores é tal que seria divertido, se não resultasse em uma feiura tão desproporcional. As mesas de cabeceira, quase art nouveau, quase Segundo Império, a incomodam particularmente. São demasiado altas, descomedidamente douradas, excessivamente recurvadas, anemicamente estreitas. Sobre elas, os livros pareciam adendos bisonhos.

Retira-os de lá e os deixa, apartados, ao pé da cama.

Vai ao travesseiro, pega o lápis de olho, a base, o pó compacto, os dois batons, o blush e o rímel, leva-os ao banheiro e os arruma, na mesma ordem anterior, agora sobre a bancada da pia, junto às miniembalagens de xampu, creme rinse, enxágue bucal e hidratante.

Hände, laßt von allem Tun,

Stirn, vergiß du alles Denken,

Alle meine Sinne nun

Wollen sich in Schlummer senken.

Por que me lembro de uma canção se não conheço o significado dela?, Maggie se pergunta. O que permanece em nós, ela se pergunta, sem perceber que o faz mesmo que não saibamos o que somos? Por quanto tempo ainda existirei na memória das pessoas?, ela se pergunta, sem esperança. Alguém se lembrará de mim?, ela se pergunta, em descontrolada esperança. Quem se lembrará de mim?, ela se pergunta ainda, sentindo-se tola. A criança que for a primeira a me ver estatelada na calçada, ela se lembrará de mim, como eu me lembro da ambulância chegando para buscar o corpo de minha mãe? Minha babá se lembra de mim? A babá da criança que for a primeira a me ver estatelada na calçada se lembrará de mim? O taxista que estiver passando na avenida em frente ao hotel e testemunhar meu voo, sem entender ou acreditar, e que no dia seguinte comentará com os colegas do ponto de táxi, segurando o jornal com minha foto, eu vi a hora em que ela pulou, ele dirá, e acrescentará, talvez, ela gritou, ou dirá, ela caiu em silêncio, ou dirá, ela caiu sorrindo, ou dirá o que mais imaginar, sem saber meu nome, nem de onde eu vim, nem que eu morei aqui, neste mesmo lugar de onde estou partindo, quando era criança até os… Quantos anos? Três? Quatro? Mais? Quantos anos tenho hoje? Mais do que gostaria. Mais do que consigo suportar.

Alle meine Sinne nun

Wollen sich in Schlummer senken…

Afundar no sonho! É isso que a canção diz, é isso, eu sei, eu sinto. É um convite ao sono. Não entendo exatamente o que as palavras significam, mas era isso. É isso. Mergulhar no sono. Afundar no sono. Quero descansar. Preciso descansar. Estou exausta.

Tem um sobressalto. Onde deixei o documento exigindo que meu corpo fosse cremado?, cogita, assustada. Apavora-a a possibilidade de não tê-lo trazido. Era mais um papel e poderia ser um dos tantos, junto a fotos, bilhetes, recortes de jornais, programas de teatro, notas, recibos, tíquetes, certificados que passara rasgando e jogando fora nos últimos dias. Nesses últimos dias. Nesses seus últimos dias.

Apressa-se de volta ao quarto.

Não encontra o documento dentro das malas.

Nem entre as páginas dos livros. Não o trouxera. Não o trouxera? Ela o destruíra? Estava distraída a tal ponto? Não é possível. Não é possível. Simplesmente não é possível, ela considera.

Anda de um lado para outro na suíte. Levanta almofadas, abre os roupões, olha embaixo da cama, dos travesseiros, da dobra da colcha, dentro do guarda-roupa, das gavetas das mesinhas de cabeceira, sob o capacho perto da porta de entrada. Nada. Novamente checa nas malas, nos livros, dentro dos livros, debaixo dos livros, na bolsa, quem sabe está em alguma parte não verificada, quem sabe não viu direito?

Nada, nenhum sinal do documento.

Para. Cruza os braços.

Não faz mal, ela se diz. Não importa. Nada mais lhe importa.

Uma solução lhe ocorre.

Vai até a escrivaninha, igualmente carregada de ornamentos dourados na madeira escura. Abre a gaveta. Encontra, tal como esperava, o papel e a caneta de que necessita. Deixará instruções escritas. Duas ou três linhas. Muito claras e objetivas.

Quero ser cremada e façam das minhas cinzas o que bem entenderem: basta escrever isso e assinar? Devo datar?

Não, decide. Não apenas algumas linhas. É preciso mais. Fará a declaração em formato de carta. Em tom racional. Razoável. Simples, direto, razoável. O tom de uma mulher em pleno domínio de suas capacidades mentais. Faculdades mentais. É assim que se diz: uma mulher em pleno domínio de suas faculdades mentais. O que tenho. Continuo tendo. Apenas estou perdendo os registros das pastilhas. Não. Não são pastilhas. A composição não é feita de pastilhas. Que importa?

Coloca a ponta da caneta sobre o papel de carta estampado com o nome e o endereço do hotel. O endereço que foi o da casa de seu avô. Sua casa.

A caneta não se move.

Eu não quero morrer. O que eu não quero, não vou permitir, é ir me apagando, pouco a pouco. Não apenas minha mente. Também meu corpo. Meu corpo começou a não me obedecer mais. Outro dia, de repente, meu intestino… Ah, meu Deus, que horror. Eu me… Toda. Fiquei… Que horror. Um fedor horrível. Tudo. Me borrei. Na roupa… Não controlei.

A caneta não se move.

Não foi só aquela vez. Não foi só uma vez. Nem apenas duas. Acontece. Vem acontecendo. De repente, eu… As pastilhas… Uma a uma.

A caneta não se move.

E porque ainda tenho lucidez, ao menos alguma lucidez, parto antes. Sem nenhuma acusação a ninguém, sem demonstrar rancores, nem melancolia. Adeus, apenas. Sem amargura. Sem terror. Nem pena.

A caneta não se move.

Uma carta com polidez e civilidade. É o que preciso conseguir escrever. Não apenas por educação, mas também para encontrar boa vontade naqueles que encontrarem meu corpo e contar com sua disposição em seguir minhas instruções.

Eu, ela consegue escrever, eu, Margareth…

A caneta para.

Não mencionará como devem vestir seu corpo. Preferia a camisa de algodão branco, as calças de linho cor de sorvete de baunilha e os sapatos bicolores de salto médio, talvez o suéter de caxemira sobre a camisa. Mas não anotará isso. Pareceria frívolo. Não quer deixar essa impressão. Tampouco quer caixão aberto. Para quê? Alguém que pretendesse lhe dar um último beijo, um beijo de despedida? Quem?

Amassa o papel. Pega outra folha.

Sou ridícula. Não haveria ninguém. Não haverá ninguém. Escreverei apenas palavras essenciais. Três ou quatro frases bastarão. Com uma de abertura. Neutra. Polida. Equilibrada. Sem dar margem a interpretações.

Boa noite a todos, ela escreve. E para, sem saber como continuar.

Boa noite a todos, ela lê.

A ponta da caneta continua parada sobre o papel.

Todos. Da vida inteira. Longa vida. Mais do que consigo lembrar. Mais do que consigo suportar. Mais do que…

A água na banheira!, lembra-se.

Corre, fecha as torneiras. Sente a temperatura.

Perfeita.

Tira os sapatos, despe-se, deixa as roupas caírem amontoadas no piso branco do banheiro. Enrola os cabelos em uma toalha. Não quer molhá-los. Evita se ver no espelho que cobre toda a parede acima da bancada da pia ao pegar o material de maquiagem. Há muito tempo evita se ver. Mesmo depois das intervenções de cirurgia plástica nos seios, na barriga, nos quadris. A mulher que ela havia sido acabou.

A mulher que fui acabou. Esta que resta… Tão menos. Tão… Sem brilho. Sem alegria. Tão… Sem nada.

Equilibra as embalagens da base, do batom, do pó compacto, do blush e do rímel, lado a lado, na borda da banheira. Entra nela. Senta-se. Afunda até o pescoço na água morna.

Uns me achavam parecida com Jackie. Era mesmo. Um tanto. Porém mais com aquela atriz canadense, creio que era canadense, de Ana dos mil dias. Jennifer? Jeanne? Geneviève? Até eu me achava parecida com ela. Numa festa em Londres, uma vez, nos confundiram. Essa atriz e eu. Geneviève. Ela era francesa. Talvez canadense. Franco-canadense. Ou inglesa. Tinha um sotaque britânico. Estávamos ambas em um baile. Em Londres. Em Londres? Não. Nunca fui a nenhum baile à fantasia em Londres. Em Londres eu vivia com Harry. E, antes, com papai e as duas mulheres ruivas, a mãe e a filha. Mary e Isabel. A festa em que encontrei essa Jeanne foi depois. Em Viena. Estávamos ambas, ela e eu, a atriz francesa, ou canadense, ela e eu, nós duas com fantasias de… de… Era um baile à fantasia no… Waldorf Astoria de Nova York? Em Monte Carlo? Em Washington? Quando? Com Henri? Foi numa festa à fantasia num palácio em Roma, onde Florinda morava. Quem é Florinda? Quem era Florinda? Por que esse nome me veio à cabeça? Os nomes me confundem. Nem sempre consigo me lembrar deles. Ou ligá-los a rostos. Onde eram esses lugares? Por que estou tentando me lembrar disso? Do que estou tentando me lembrar?

Despeja os sais na água. Imediatamente se dissolvem e desaparecem. Parece-lhe um mau agouro, ela tem um arrepio. Logo ri de si mesma. O que mais pode ser um mau agouro neste momento, lhe ocorre.

Bujold! Jeanne Bujold!… Esse era o nome da atriz que se parecia comigo.

Com quem eu me parecia. Jeanne Bujold. Ou Caroline. Era uma atriz inglesa. Por que estou pensando nela? Ana. Anna. Anne. Anne Bujold. Chamava-se Anne Bujold. Quem era? Como era a voz dela? O rosto dela? Os cabelos dela?

Tira as mãos de dentro da água. Observa cuidadosamente as unhas. Estão perfeitas. Levanta um pé, em seguida outro. As unhas dos pés estão pintadas da mesma cor das unhas das mãos. Um rosa-claro, quase imperceptível. Também perfeitas. Depilara-se, fizera limpeza de pele, pintara os cabelos. Estará com bom aspecto quando a encontrarem, pensa.

Estarei com bom aspecto quando encontrarem meu corpo.

Pega o vidro contendo o líquido que dá um tom uniforme e sedoso à sua pele. Passa a base por todo o rosto com os dedos, fecha o vidro, coloca-o de volta onde estava, mas ele tomba no tapete branco. Ela o deixa ali.

Abre a embalagem de pó compacto, utiliza uma esponja para espalhar seu conteúdo pelo rosto, sem se olhar no espelho. Fecha-a e a deixa cair junto ao vidro de base.

O pincel do blush é utilizado em seguida, muito levemente, apenas para dar um corado suave. Deixa que caia, também.

Abre o cilindro do rímel. Fica com uma parte em cada mão.

Não se move.

Sente-se mais e mais cansada a cada momento.

Encosta a cabeça na beirada da banheira.

No centro do teto branco há um círculo de metal dourado, de onde saem quatro holofotes também dourados, com partes descascadas, na ponta dos quais se veem lâmpadas de um branco opaco.

Não me lembro da voz da minha mãe. Não consigo, não consigo, por mais que tente, não consigo. Nem a do meu pai. Nenhuma voz. Nem os rostos. Como se fossem desenhos que alguém está apagando. O contrário das aquarelas. Eu gostava de fazer aquarelas. Quando o pincel toca o papel, o traço é definitivo. Permanente. A marca fica lá. Para sempre.

Não em mim. Não em minha memória.

Não saberia dizer a cor exata dos olhos de PR, ou como eram seus cabelos antes de começarem a rarear, nem recordar a comida favorita de Henri no café da manhã ou como era o ligeiro sotaque estrangeiro que carregava em todas as muitas línguas que falava com espantosa habilidade.

Entretanto de Harry… No entanto, de Harry…

A lâmpada do quarto holofote dourado, com partes descascadas, é transparente.

Harry era lindo, dourado… E xucro. Toda mulher gosta de um homem xucro. Dizemos que não, que preferimos os sensíveis, mas gostamos mesmo é de um bom e forte homem xucro. Harry era um bom, grande, forte e dourado homem xucro. E tosco. Bem tosco. Bem americano.

Harry foi o primeiro homem que eu eduquei, refinei e ensinei como avançar socialmente. O último foi PR. Henri, prenome que ele preferia ao Heinrich registrado em seu passaporte, vinha de uma tradicional família austríaca, daquelas que não tiveram problemas antes, nem durante, nem depois dos nazistas. Henri nunca precisou de minha ajuda.

É uma luminária banal e barata dos anos 1970, ela pensa. Deve estar nesse teto desde a construção do hotel, ela imagina. No banheiro não se deram ao trabalho de tentar lembrar o suposto ambiente parisiense do século passado, ela deduz. Não. Do século XIX. Início do século XX. Que importa?

Fecha os olhos.

Parte da educação de Harry foi musical. Eu o levava a concertos e recitais em toda cidade para onde viajávamos. Viajamos muito. Fomos a Viena, fomos a… Viena… Fomos a… A toda parte. Levei Harry aos melhores teatros de ópera e salas de concerto do mundo. Inclusive aquela que tem uma acústica famosa, em… Em Berlim Oriental. No que foi a Berlim Oriental.

A água da banheira esfriou um tanto. Maggie abre a torneira de água quente por alguns minutos, até sentir-se confortável novamente ali dentro.

Harry saía sempre no primeiro intervalo. E não voltava. Ficava tomando champanhe e fumando no foyer. Numa dessas viagens, tenho quase certeza, foi que ouvi pela primeira vez essa música. A música alemã.

Hände, laßt von allem Tun,

Stirn, vergiß du alles Denken…

Harry não ficava fumando no foyer.

Alle meine Sinne nun

Wollen sich in Schlummer senken…

Harry ficava no banheiro, se divertindo com outros rapazes.

“You are not in Kansas anymore, Dorothy”, alguém diz, novamente, num filme em preto e branco. É uma mulher gordota, jovem, metida num vestido xadrez apertado demais para alguém com sua silhueta. Ela tem um cãozinho branco e peludo no colo. Kansas. Kansas? Sim, Kansas, eram lá as lojas da família de Harry. E num outro estado próximo. Texas, Nebraska, algo assim. Por que todos os filmes de que se lembra são em preto e branco?

Abre os olhos. Alguns dos azulejos em frente têm tons de branco ligeiramente diferentes do restante da parede. Substituição barata, ela analisa. Deviam ter trocado todos, ela considera. Aliás, as paredes de um hotel como este, que se pretende luxuoso, ou pelo menos refinado, deveriam ser revestidas de mármore, pondera. Ou de granito, em último caso.

Descobri o que Harry ficava fazendo nos intervalos, não dei importância.

Fui criada na Inglaterra, onde os homens se divertem com seus criados, mordomos, jardineiros, motoristas… Inclusive os reis.

As brincadeiras de Harry com outros rapazes não atrapalhavam nosso casamento. Até o dia em que Harry se apaixonou por um desses rapazes dos banheiros de salas de concerto.

Montou um apartamento para ele.

Em Londres.

A apenas duas quadras de onde morávamos.

Harry passou a dormir, vez por outra, fora de casa. Nossos amigos ficaram sabendo. A situação foi se tornando constrangedora. Fui obrigada a tomar uma atitude. Confrontei Harry: ou esse rapaz, ou eu.

Ele preferiu o rapaz.

Senta-se na banheira. Os seios ficam acima do nível da água. Ela evita olhá-los. Casei com Heinrich pouco tempo depois de me separar de Harry, não tenho certeza de quanto tempo exatamente, em algum lugar da costa Amalfitana, em Ravello, ou em Capri, algum lugar pelo sul da Itália onde Heinrich, onde Henri possuía uma villa, ou teríamos ficados hospedados na mesma villa de amigos comuns, ou foi na Toscana que Henri e eu nos conhecemos algum tempo antes de nos casarmos, numa cerimônia pequena, íntima, talvez um ano depois de sermos apresentados, talvez menos de dois, e fui muito feliz, fui muito feliz com Henri, tão feliz quanto uma mulher pode ser, casada com um homem que não ama.

Henri produzia filmes baratos e lucrativos, estrelados por gladiadores halterofilistas, caubóis meridionais, atores de Hollywood falidos. Tínhamos apartamentos em Paris, em Madri, em… Em Roma, claro, porque muitos dos filmes de Henri eram rodados ali. Em Viena, também tínhamos um apartamento. Henri era austríaco. Nem tão belo, nem tão dourado quanto meu marido americano, porém… mais fácil de lidar. Porque eu não estava apaixonada por ele, como tinha sido por Harry. Nem um pouco apaixonada. Eu nem mesmo amava Heinrich, não amava Henri.

Nada é mais reassegurador para uma mulher do que ser casada com um homem que não ama.

Henri e eu vivemos juntos, em grande harmonia, por mais de dez anos. Mais de quinze. Até eu conhecer PR. Até transar com PR. Então, a harmonia acabou.

Eu não amava PR. Nunca amei. Mas era louca por ele. Louca. Loucamente louca por ele. Só pode estar louca, só pode ser absoluta e totalmente louca a mulher mais velha que se envolve com um corretor imobiliário mais jovem, sem dinheiro, tosco e xucro.

As duas palavras mágicas para mim.

Tosco.

Xucro.

Como Harry.

Não. Não como Harry.

Ninguém foi como Harry.

Ninguém.

Nunca.

Dobra as pernas, encosta o tronco nelas. Abraça-as.

Recentemente alguém me contou, não sei como eu soube, mas soube, fiquei sabendo, creio que alguém fez questão de me contar, maldosamente, cruelmente, perversamente, embora eu sempre evitasse saber notícias dele, mas sempre há alguém, que ouviu de alguém, que ouviu dizer que Harry…

Sem perceber, Maggie começa a se movimentar, delicadamente, para a frente e para trás, ao ritmo da canção trazida por lembranças inalcançáveis.

Hände, laßt von allem Tun,

Stirn, vergiß du alles Denken,

Alle meine Sinne nun

Wollen sich in Schlummer senken…

Harry morreu há três anos. O belo Harry dourado morreu na Califórnia, onde morava desde que voltou aos Estados Unidos, depois de nossa separação. Os pais lhe deixaram uma herança vultosa, acrescida ainda mais pelos generosos presentes — depósitos na conta bancária, carros, uma mansão nas colinas de Los Angeles, um apartamento em Downtown Manhattan, entre as coisas que eu sei, ainda que eu evitasse saber, por mais que eu evitasse saber — de um magnata da indústria de discos com quem manteve uma longa e tumultuosa relação, até o casamento desse tycoon com uma estilista nova-iorquina.

O belo Harry teve aquela doença horrível, que tantos rapazes tiveram, fez todos os tratamentos que sua fortuna permitiu, mas… Morreu com menos de cinquenta quilos. Um fiapo. Coitado.

Maggie se embala.

Harry está morto.

Meus pais estão mortos.

Meus amigos estão mortos.

Ou dementes.

Ou indiferentes.

Acabou.

Tudo acabou.

Levanta-se da banheira. Não encontra os roupões que havia visto atrás da porta. Acredita ter se enganado. Não há roupões, que absurdo, este hotel tão pretensioso nem roupões oferece, ela pensa.

Pega uma toalha, enrola-se nela, vai para o quarto. Deixa um rastro de pisadas molhadas no tapete. Sumirão em pouco tempo. Mau agouro. De novo.

Vê um papel de carta sobre o tampo da escrivaninha. Logo abaixo do nome e logotipo do hotel, há uma frase manuscrita. Reconhece a própria letra. As palavras que anotou, porém, não fazem sentido para ela. Boa noite a todos, está registrado, possivelmente com a caneta esferográfica ao lado do papel. Quando escreveu aquilo? Por quê? O que queria dizer com aquela frase? Quem seriam esses “todos”? A quem se referia?

Vira-se. Há dois roupões sobre o braço da poltrona de veludo próxima à escrivaninha. Pega um deles, veste-o, só então tira a toalha com que se cobrira. O roupão é grande demais. Despe-o, coloca o outro. É de bom tamanho. Amarra o cordão na cintura, faz um laço. Dobra as mangas. Ergue a gola. Desenrola a toalha que tem na cabeça, agita os cabelos, afofa-os, vai até o espelho. Fica surpresa com o que vê. Desvia o rosto. Não quer olhar. Mas não consegue evitar. Como quando se passa por um acidente numa estrada, lhe ocorre.

Não pode ter medo. Não pode ter medo. Não pode. Não agora. É tarde demais para ter medo.

Vira-se.

Encara-se.

O que sobra de nós, afinal, é isso?, ela pergunta silenciosamente ao reflexo no espelho. A sombra do que fomos? O arremedo do que fomos? A caricatura do que fomos?

Vai até as janelas. Abre-as. Aspira com alívio o olor que o vento traz do oceano. É um aroma familiar, repleto de lembranças a que não tem mais acesso, ainda assim reconfortantes.

Nasci aqui, ela pensa. Nasci na casa que existia aqui, ela se diz, com menos certeza do que gostaria.

Decide, sem perceber, não duvidar do que acha que se lembra. Doerá menos.

Era uma casa pequena, mas de muito bom gosto, onde eu vivia com meu pai e minha mãe. Eles eram bonitos, alegres, muito felizes. Amavam-se perdidamente. Fui muito feliz com meus pais nessa casa.

Dá as costas para o mar. A escuridão dentro da suíte a surpreende e inquieta. Não percebera que já era noite. Não há mais tempo.

Puxa a cadeira da escrivaninha até junto às janelas.

Vai até cada um dos abajures e os acende. Não ousaria admitir, mas sente quase uma alegria.

Sua hora chegou.

Ela nota o vestido carmim sobre a cama, o xale carmim ao lado do vestido, as longas luvas brancas sobre o vestido e o xale, os sapatos forrados da mesma cor, de bico fino e salto muito alto, ao pé da cama, e sente-se invadida por uma alegria juvenil.

Atravessei a sala fria e quase sem móveis daquela velha casa inglesa, estendi a mão para ele e perguntei, de onde você é? Daí, de todos os lugares, ele respondeu, com sotaque indisfarçavelmente americano. Meus amigos me chamam Maggie, eu disse. Como é seu nome, eu perguntei, e ele respondeu, Harry, meu nome é Harry. Você não é inglês, creio que eu disse. Rá, rá, ele riu: Claro que não, disse. Foi assim que começou. Numa casa no interior da Inglaterra. Numa tarde de sábado.

Retira da mala maior um corpete rosa-claro, sem alças, e uma embalagem com uma meia-calça de tom um pouco mais escuro do que sua pele.

Não me lembro para onde Harry e eu fomos, o que fizemos depois, só me lembro que desde aquele instante eu o amei. Eu o amei, amei, amei. Como jamais tinha amado alguém. Como nunca mais amei homem nenhum.

Tira o roupão, deixa-o sobre o banco, veste o corpete. É bem justo, aperta seu tronco, tem barbatanas que a obrigam a manter-se ereta.

Eu senti que tudo o que eu tinha feito, tudo o que eu tinha vivido, tudo fazia sentido porque, naquela tarde de sábado, eu o encontrei. Harry.

Senta-se na beirada da cama para vestir a meia-calça.

Eu senti como… Como se tivesse estado perdida a minha vida toda, como se toda a minha vida eu tivesse sido separada de Harry e, finalmente, naquela tarde de sábado, naquela casa no interior da Inglaterra, fria e com poucos móveis, eu o encontrei. Eu o reencontrei.

O vestido tem um zíper lateral, da blusa até a metade dos quadris, perfeitamente oculto pela habilidade das artesãs da alta-costura parisiense, que lhe permite entrar nele com facilidade e fechá-lo. Ela calça as luvas. Só então coloca o xale esvoaçante, apenas sobre o ombro direito. A outra ponta é enrolada em seu braço esquerdo, junto ao cotovelo.

Porque foi isso que aconteceu entre mim e Harry. Um reencontro. Um alívio. Finalmente, eu pensei. Finalmente. Por isso é que eu vivi até agora. Para encontrá-lo. Naquela tarde. Naquela casa. Naquele instante. E seria para sempre.

Calça os sapatos. Sente-se alta, triunfante. Vai até o espelho com a mesma segurança com que chegou para uma noite de gala no Lincoln Center tantos, tantos anos atrás, usando aquele mesmo vestido, aquele mesmo xale, aquelas mesmas luvas, aqueles mesmos sapatos.

Mira-se. Ajeita os cabelos. Faz um volteio. O tecido leve de seu traje de despedida flutua, delicado e tênue como a lembrança daquele momento, ou o que ela acredita que tenha sido aquele momento, trinta anos atrás, em Nova York. Sorri para si mesma no espelho. Então percebe, refletida no canto esquerdo, uma presença que a surpreende.

Harry, ela exclama, encantada com a figura do homem vestido de smoking, tal como naquela noite do recital de Jessye Norman, em algum outubro do século passado, sorrindo para ela tal como sorria em suas memórias, quando conseguia trazê-las de volta.

Harry, ela repete, feliz, à imagem do jovem alto, dourado, dentro do arremedo de salão parisiense em que se encontra.

Harry, repete mais uma vez, virando-se, Harry, me disseram que você tinha morrido, ela sussurra, receosa de magoá-lo com uma mentira tão mesquinha.

Dá uns poucos passos, aproximando-se do homem que só ela vê, e toca seu rosto, de leve, um tanto tímida.

Harry, você está vivo!… Que bom ver você. E logo hoje. Eu estava tão… Harry! Que bom, que bom ver você aqui. Você está tão bonito!… Tão… Tão exatamente como naquela tarde em que nos conhecemos! Esse rosto tão perfeito… Esse nariz reto, longo… A pele, Harry! Que pele macia a sua!… E os cabelos! Tão louros, tão… dourados!…

Ela encosta a cabeça no peito do homem que não está lá, abraça sua cintura. O conforto que sente é enorme.

Harry, Harry! Você não imagina o prazer em ver você assim, aqui, agora, neste momento. Harry… Harry, eu estava tão sozinha. Eu estava tão perdida. É um alívio tão grande ter você aqui, do meu lado, neste momento. Harry, Harry, Harry…

Afasta-se, para que ele a veja melhor.

Eu coloquei este vestido porque… Você se lembra deste vestido? Lembra mesmo? Daquela noite, onde foi aquela noite de gala? Isso, exato, foi no Lincoln Center! Ah, você acha que eu estava linda? Acha mesmo? Sim, exato, nós chegamos em uma limusine. Chegamos em uma limusine, atravessamos o pátio e, quando entramos no prédio do Metropolitan Opera, as pessoas paravam de conversar, simplesmente paravam de conversar quando nós passávamos. Sim, isso mesmo, elas cochichavam: quem são esses dois, como são lindos, como são belos, como são jovens e lindos e belos!…

Tudo é nítido, palpitante, real em seu delírio na suíte parisiense do hotel erguido em frente ao oceano.

Você se recorda, Harry, daquela soprano no palco do Metropolitan Opera? Lembra? Era uma soprano negra, majestosa, e ela cantava… Ouça, Harry! Você está ouvindo? Você também ouve?

Nun der Tag mich müd gemacht,

Soll mein sehnliches Verlangen…

Sim, era isso que ela cantava! Ah, me alegra tanto você também estar ouvindo. Eu adorava essas palavras. São de um poema de Hermann Hesse, “Beim Schlafengehen”, um poema lindo, musicado por Richard Strauss.

Ah, como eu me lembro, como me lembro claramente. Foi uma das quatro últimas canções compostas por Richard Strauss antes de morrer. Ele já estava muito doente quando compôs essa música. Eu traduzi as palavras para você, você lembra? Eu falava alemão tão bem…

Nun der Tag mich müd gemacht,

Soll mein sehnliches Verlangen

Freundlich die gestirnte Nacht

Wie ein müdes Kind empfangen…

Ela abraça novamente o homem que não está lá. Ainda junto dele traduz o poema que sabia de cor, escrito por um de seus autores favoritos. Tinha o livro em que o texto estava publicado. Sumira em uma de suas últimas, involuntárias mudanças.

“Ao fim do dia, exausta”, Maggie diz a Harry, como fizera tantas vezes com poemas de Silvia Plath e Florbela Espanca, “busco ardentemente o repouso na noite estrelada, como um amigo acolhe uma criança fatigada.”

Hände, laßt von allem Tun,

Stirn, vergiß du alles Denken,

Alle meine Sinne nun

Wollen sich in Schlummer senken…

“Mãos, cessem todo trabalho…”, Maggie prossegue, segura, cada palavra chegando sem tropeço. “Cérebro, afaste todo pensamento… Todos os meus sentidos querem afundar no sono…”

Outra vez se afasta. Quer ver de novo, tão próximo, tão pacificador, o rosto do homem que havia alterado para sempre seu destino, pelas mãos e pelo corpo de quem tomara rotas raras com as quais a maioria das pessoas pode apenas sonhar, sem jamais percorrê-las, sem sequer encontrá-las.

Und die Seele, unbewacht,

Will in freien Flügen schweben,

Um im Zauberkreis der Nacht

Tief und tausendfach zu Leben.

Como ele é belo, pensa, enquanto completa, ternamente, “E minha alma, livre, quer voar solta no espaço, pelos círculos mágicos da noite encantada, onde vai viver milhões de vidas…”

Esconde o rosto com as mãos.

Ah, não! Não me olhe, Harry!… Não estou bem esta noite, não me sinto… Essas últimas semanas foram difíceis e… esses últimos anos foram… Você continua tão jovem e bonito como sempre e eu… estou tão… estou tão abatida…

Maggie acredita que Harry tenha pegado suas mãos e as tirado de seu rosto. As palavras que acha que ouve enchem seus olhos de lágrimas.

Você não concorda, Harry? Não acha que estou abatida? Acha que estou igual estava naquela noite, em Nova York? Acha mesmo? Ah, Harry, você sempre tão gentil, tão doce…

Enxuga as lágrimas. Abre os braços, gira, mostrando a roupa, volta a encarar, agora sorrindo, o homem ao lado de quem deixara boquiabertos os espectadores daquela noite de gala no Metropolitan Opera House.

Viu que eu guardei o vestido? Você que me deu. Você me disse, lá em Paris, nós estávamos em Paris, passamos em frente à Maison Givenchy e você me disse: entre aí nesse costureiro e compre a roupa mais cara que ele tiver. Era este vestido aqui. Exatamente igual ao vestido que Audrey Hepburn usou naquele filme com Fred Astaire, aquele em que ela desce as escadas do Museu do Louvre.

Aquela noite em outubro, só um pouquinho fria de início de outono, em Nova York, ao lado de Harry, fora um dos momentos mais felizes de sua vida. Este momento, agora, nesta noite, aqui, na suíte do décimo quinto andar em frente ao mar negro, era outro.

Viu como eu me lembro de tudo, Harry? Me lembro de tudo, tudo, tudo. Eu me recordo de cada momento que você e eu passamos juntos. Que bom estarmos juntos, mais uma vez. Ouça! Ouça, Harry. É a mesma canção daquela noite.

Stirn, vergiß du alles Denken,

Alle meine Sinne nun

Wollen sich in Schlummer senken…

Quero adormecer em seus braços, Harry. Como antes. Quero fechar os olhos e não ter medo do mundo, como me sentia ao seu lado. Dormir sentindo o peso de sua mão em meu ventre, a sua respiração em meu pescoço, o perfume de canela do seu hálito. Quero ficar com você para sempre, Harry. Sempre. Nunca mais nos separaremos.

Und die Seele, unbewacht,

Will in freien Flügen schweben…

Estavam juntos. Finalmente. Era o encontro de sua vida e ela sabia disso, o que a fazia ainda mais feliz do que na noite de gala dedicada a Richard Strauss, em que desceram da limusine em frente ao Lincoln Center, provocando ohs e ahs de admiração, talvez de inveja, e ele, Harry — o cabelo ligeiramente caído na testa, desconcertantemente belo —, estava insuperavelmente elegante no smoking feito sob medida pelo alfaiate do pai de Maggie, em Savile Row — e ela, sublime, os lustrosos cabelos negros presos num coque que destacava seu rosto anguloso, semelhante ao de Jackie, porém mais jovem e mais… vibrante, isso, vibrante, estreando sua esvoaçante roupa carmim, criada especialmente para ela no ateliê de… Não! Não era um encontro, este, aqui, nesta suíte grotescamente suntuosa. Era um reencontro. Porque, sim, eles haviam se perdido de verdade, sim, se afastado, cada um em uma parte do mundo, sim, cada um atravessando seus infernos e suas aflições, sim, mas agora… Agora ele estava ali. Ela estava ali. E seria para sempre. Sempre.

Me dá a mão, ela pede.

“Um im Zauberkreis der Nacht, Tief und tausendfach zu Leben”, encerra a voz da mezzosoprano. As cordas e os sopros da orquestra prosseguem, em tom cada vez mais baixo, até desaparecerem. Agora só chegam ao quarto 1503 os ruídos longínquos dos carros no asfalto, o apito de um guarda de trânsito, uma buzina, uma onda que bate mais forte na praia vazia. Mas ela não escuta. Maggie ouve apenas a própria voz.

Vem, Harry, ela convida, estendendo a mão para o nada.

Vem, Harry, ela repete, sentindo a mão de Harry na sua. Vem! Vamos entrar nessa festa de gala e mostrar como somos jovens, como somos bonitos, como somos felizes, como temos todo o futuro à nossa frente.

Maggie caminha até a cadeira junto à janela.

Vem, Harry. Vamos. É nossa hora.