Breves palavras sobre a cultura da oliveira

Avelino Nunes d'Almeida · Capítulo 2 de 18

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Breves palavras sobre a cultura da oliveira

Capitulo I

 

Clima e solo

 

A—Clima

 

São por de mais notaveis as diversidades existentes nas especies vegetaes que habitam a superficie da terra.

Estas diversidades que se observam dentro da mesma propriedade e que augmentam de propriedade para propriedade e de um paiz para outro, accentuam-se extraordinariamente quando comparamos a flora de dois continentes.

A estructura, composição chimica do solo e o clima são as causas principaes d'esta accidentada vegetação.

Cada planta tem as suas exigencias especiaes, de cujo conhecimento resulta a determinação da zona de terreno em que cada especie encontra condições favoraveis de vida.

Conhecida a zona propria para a vida de cada planta, ou melhor, conhecidas as especies culturaes adaptaveis a uma determinada zona de terreno, poder-se-ha emprehender uma exploração agricola mais segura dos seus resultados do que se a completa ignorancia da geographia botanica nos obrigasse a emprehender ao acaso essa exploração.

Só um grande esforço, que acarretaria despezas enormes, pode permittir que se desvie uma planta do seu habitat natural, para, por processos artificiaes, obter d'ella eguaes productos.

É isto que se faz em varios paizes da Europa, como por exemplo em Inglaterra, onde em estufas apropriadas se força a videira a produzir. Depois, no mercado, a muita procura alliada á raridade do producto, remunerará condignamente o esforço e a despeza do industrial.{7}

Plantas ha que, mais modestas nas suas exigencias, podem vegetar nos sitios menos favorecidos pela natureza. São estas as plantas herbaceas expontaneas, as quaes se vêm vegetar em sitios onde é vedado o desenvolvimento ás plantas arboreas ou arbustivas.

Outras, porém, e n'este grupo entra uma grande parte das plantas cultivadas, não se contentando com as minguadas exigencias d'aquellas, tornam mais limitada a zona em que a vida lhes é favoravel.

As especies arboreas, pela sua constituição robusta e pelo seu grande desenvolvimento radicular, accommodam-se em sitios onde as culturas arvenses não poderiam ter logar.

O nosso paiz, pela sua accidentação e variedade da sua paizagem, está naturalmente indicado mais para aquellas do que para estas culturas.

A oliveira, arvore cuja cultura é tão remuneradora, aqui encontra condições muito favoraveis de vida.

As boas condições do nosso clima, alliadas á estructura do solo que lhe é propria, collocam-nos em condições de por toda a parte disseminarmos a sua cultura, augmentando a producção que até hoje tem sido muito diminuta.

A oliveira exige, para poder prosperar e produzir, uma temperatura branda e pouco variavel.

A area destinada á sua cultura vae, segundo Gasparin, até aos 46° de latitude N. e ao sul é limitada pelo Tropico.

Outros auctores, porém, limitam mais a area indicada por Gasparin.

De-Noisette, por exemplo, dá-lhe como zona propria a comprehendida entre 25° e 43° de latitude boreal. Para lá de 46° a oliveira cresce, mas é muito raro amadurecer os seus fructos; á medida que formos caminhando para o equador, esta arvore vae augmentando de volume, mas de 18° para baixo dá-se o mesmo caso que para cima de 46°.{8}

Os calores intensos e os frios excessivos prejudicam altamente a vida d'esta arvore; e não tanto os frios intensos como as mudanças bruscas de temperatura n'ella exercem a sua nefasta influencia.

Tem-se visto estas arvores supportarem, sem alteração sensivel nas suas funcções, uma temperatura de -16° C., ao passo que são accommettidas por uma morte rapida quando, depois de terem estado por algum tempo submettidas á temperatura de -5°, são banhadas rapidamente por um sol claro e intenso.

Procurar, portanto, os logares em que a temperatura seja pouco variavel, será pratica prudente e vantajosa.

Alguns querem até estabelecer a visinhança dos mares como unico solar onde esta preciosa arvore encontraria condições confortaveis de vida, por ser ahi onde a temperatura é mais estavel; a pratica, porém, destroe tal asserção, pois que no interior dos continentes ella se vê desenvolver e fructificar admiravelmente.

Para determinarmos se uma dada região é ou não propria para esta cultura, é de summa importancia o conhecimento das temperaturas maxima e minima; nunca nos devemos guiar só pelo conhecimento da sua temperatura media.

É sabido que para a completa maturação do fructo, a oliveira exige um total 3978° de calor; mas sitios ha em que esse numero de graus se obtem igualmente, embora as temperaturas extremas divirjam muito. Se considerarmos dois logares, n'um dos quaes as temperaturas minima e maxima sejam a e b, e no outro a-c e b+c, elles terão as mesmas temperaturas medias e comtudo pode ser impossivel a olivicultura no segundo e muito adaptada ao primeiro; depende isso simplesmente do valor de c.

Estes inconvenientes conseguem remediar-se procurando exposições em harmonia com o clima local.{9}

A exposição e inclinação do terreno são duas questões de summa importancia para este assumpto. Em um clima demasiadamente quente, pode convir uma exposição que seria prejudicial em outro que não tivesse a mesma propriedade.

No nosso paiz a exposição ao sul é a mais conveniente, a não ser n'um ou n'outro ponto em que o calor excessivo do verão e a pequena percentagem de humidade nos terrenos, aconselhem inclinação differente. Nos sitios onde são frequentes as geadas, nunca a exposição a Levante pode convir, porque a planta que durante a noite esteve submettida a um frio intenso, soffre muito ao receber rapidamente os matutinos raios solares. O desgelo seria rapido e a sua influencia na vida das cellulas prejudicial.

Em resumo, aconselharei a exposição ao meio dia, como a que mais geralmente convem, sendo muito para adoptar tambem a exposição ao poente.