Breves palavras sobre a cultura da oliveira
B—Solo
Quanto á inclinação, é preferível a meia encosta porque n'ella se somma maior numero de graus de calor do que nos terrenos de planicie, se os considerarmos collocados nas mesmas condições de altitude, latitude e composição.
A pratica tem provado que, embora as oliveiras vegetem e fructifiquem perfeitamente nas planicies, o azeite extraindo dos seus fructos é mais grosso, de peior qualidade, e que estes no acto da expremidura desprendem muito mais almofeira do que os fructos provenientes de oliveiras cultivadas nas encostas.
Não ha vantagem em cultivar a oliveira em terrenos demasiadamente inclinados, porque ahi são impossiveis as lavouras mechanicas, tendo este trabalho de ser feito a braço, o que augmenta muito a despeza.
A este inconveniente junta-se ainda o da terra ser arrastada da parte superior para o fundo da encosta, resultando d'aqui que o solo se vae tornando{10} cada vez menos profundo á medida que vamos subindo na encosta.
Este inconveniente observa-se facilmente pelo simples aspecto da plantação. As arvores da base alcançam maior e mais rapido desenvolvimento graças á espessura do solo, successivamente augmentado pela terra deslocada da parte superior.
O sr. D. José de Hidalgo Tablada dá como limite de inclinação para as terras trabalhadas com arado a inclinação de 6%. Para maiores inclinações convirá fazer a cultura em sucalcos.
B—Solo
A oliveira é tida como uma planta que vegeta em todos os terrenos qualquer que seja a sua contextura ou a sua composição chimica.
Effectivamente ella vive por toda a parte povoando terrenos da mais differente structura, e ainda n'aquelles em que muitas outras arvores não encontram condições favoraveis, ella se mostra com aspecto regular. Muitas vezes os maus tratos dos homens e a sua exposição aos frios e aos ventos fortes são-lhe mais prejudiciaes do que as más qualidades do terreno.
Então essas arvores cuja resistencia ás más qualidades do terreno, só por si, não conseguiram destruir, cede, embora lentamente, á combinação d'ellas com os maleficios provenientes da velhice e dos maus tractos, e o seu tronco, minado internamente pela alteração dos seus tecidos, vae desapparecendo, apresentando-se frequentemente reduzido a uma debil parede formada apenas pela casca e pelas primeiras camadas do alburno.
A custo este debil tronco vae mantendo em equilibrio o decrepito individuo, até que um dia o vento ou qualquer outro agente se encarregue de o prostrar por uma vez.
Este tronco ao desapparecer não arrasta comsigo{11} as ultimas manifestações de vida do individuo de que fazia parte.
Dentro em pouco, da parte mais superficial das suas raizes, e da sua toiça ver-se-hão surgir novos rebentos que o virão substituir.
Estes casos que são muito frequentes mesmo nos peiores terrenos não significam que seja indiferente destinar este ou aquelle terreno á cultura d'esta arvore.
Embora possa viver em toda a area que lhe foi destinada ella tem comtudo, dentro d'essa area, preferencia por determinados terrenos, e á sua boa vegetação e sobre tudo á qualidade e quantidade do fructo importa muito a escolha do solo destinado ao olival.
Os terrenos francos e soltos permeaveis e medianamente ferteis, fundos e frescos são os que mais lhe convêm. Prejudicam-a bestante os terrenos humidos e os demasiadamente seccos.
São os terrenos calcareo-silico-argillosos os que melhor satisfazem a estas condições. Prestam-se muito a esta cultura os terrenos pedregosos onde ella encontre terra bastante para o desenvolvimento das suas raizes no principio da sua vida.
De grande importancia n'esta questão é a qualidade do sub-solo; este pode tornar muitas vezes impossivel a cultura d'um terreno cujas boas qualidades de solo parecessem as mais proprias para a vida vegetal.
Os terrenos de sub-solo impermeavel são muito desfavoraveis á cultura da oliveira a não ser que sejam submettidos a uma drenagem. Este inconveniente trazido ao terreno pela impermeabilidade do seu sub-solo é em parte attenuado nos terrenos inclinados porque n'elles é menor a infiltração das aguas e mais facil o seu escorrimento á superfície do seu sub-solo.
Quanto ás condições chimicas do terreno, é d'ellas{12} que mais depende a vegetação e producção da oliveira assim, como o rendimento e qualidade do azeite. O augmento de producção de uma dada planta consegue-se muitas vezes pelo augmento na terra de um só dos elementos indispensaveis á vida vegetal; outras vezes, e pelo mesmo processo, se pode fazer reviver uma cultura que a muitos o seu aspecto poderia fazer imaginar perdida.
Das analyses feitas por varios chimicos sabe-se que a oliveira apresenta no seu todo, quantidades elevadas de cal, potassa e acido phosphorico. Ora, como é indubitavelmente do terreno que a planta extrahe todos estes principios, necessario se torna que elles se encontrem nos terrenos destinados a essa cultura. Os nossos terrenos são bastante ricos em acido phosphorico dispensando-nos por isso de nos preoccuparmos muito com elle. O que convem é attender mais ás percentagens de cal e de potassa por serem estes corpos os de mais incerta existencia no terreno.
São-lhe muito favoraveis os terrenos vulcanicos, graniticos, schistosos e sobre tudo os calcareos.
N'estes ultimos vegeta a oliveira admiravelmente mas o seu azeite é muito gordo. É nos terrenos de fraca tenacidade, onde as oliveiras dão os oleos mais finos; nos de grés os azeites são de mediana qualidade; e nos schistosos e graniticos a oliveira produz fructos de que exsuda o azeite mais superior.