Bufo & Spallanzani

Rubem Fonseca · Capítulo 2 de 4 · parte 3/4

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Bufo & Spallanzani

Orelhas do Livro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

(*) Esses aparelhos são descritos com m aiores detalhes no m eu conto “O m orto vivo”, publicado no livro Dédalo.

Enquanto a Panam ericana se preparava, Clara Estrucho, um a m ulher de trinta anos, alta, m agra, perm anecia sentada num a cadeira da capela n° 5 do cem itério São João Batista, seu belo rosto im passível, enquanto velava o corpo do m arido. Não havia m ais ninguém na capela. Tanto Clara quanto Maurício eram brigados com as respectivas fam ílias e Clara fizera chegar ao conhecim ento dos parentes que não queria a presença de nenhum deles no enterro. A capela n° 5 estava vazia, m as da capela ao lado, onde era velado o corpo de um a j ovem que m orrera num desastre de m otocicleta, vinha o barulho de vozes, às vezes de risos, ou então de gritos de lam entação.

Às sete horas da noite a equipe m édica da Panam ericana chegou à capela. Junto com os m édicos, estavam o advogado de dona Clara, o doutor Ribeiroles e o doutor Zum bano, chefe do Departam ento de Investigações Sigilosas (DIS) da Panam ericana.

Os principais m em bros da equipe foram apresentados a dona Clara que, as m ãos apertadas ao longo do corpo, cum prim entou silenciosam ente, com a cabeça, cada um deles. Quando os aparelhos do doutor Pum s foram ligados a um a tom ada na parede, dona Clara disse: “Não quero que vilipendiem o corpo do m eu m arido”. O seu próprio advogado recordou-lhe de que fora ela quem solicitara o exam e, e que o uso daqueles aparelhos não seriam ultraj ante para o de cuj us. Eletrodos foram colocados na cabeça, no peito, nos braços e nas pernas do m orto. Durante m eia hora os m édicos, dirigidos pelo doutor Pum s, estudaram os gráficos feitos pelos vários aparelhos. Enquanto o exam e se realizava, um j ovem , m anifestam ente em briagado, entrou na capela e pediu que fizessem tam bém o exam e na sua noiva, a m otoqueira m orta. Após algum a confusão o rapaz foi retirado da capela e os exam es prosseguiram .

2

Eram quase onze horas quando term inaram . Para desconsolo de alguns exam inadores o defunto estava realm ente m orto, segundo a MOSSB. O doutor Ribeiroles com unicou ao advogado de dona Clara que lhe forneceria um a cópia do exam e realizado.

Saíram todos. Dona Clara ficou só. Havia um clim a de paz e tranqüilidade dentro da capela n° 5. Na capela ao lado, o velório continuava ruidoso, ainda m ais depois que alguém chegou com algum as garrafas de bebida. Eram três horas da m anhã, quando o noivo da m oça m orta no acidente disse para os outros, com voz pastosa: “A sebosa aí do lado está dando com ida para o defunto com um funil, venham ver”, m as evidentem ente ninguém acreditou e dona Clara foi deixada em paz.

Às sete e trinta da m anhã chegou à capela n° 5 um padre para fazer a encom endação do corpo, que consistiu num a rápida oração, pois o enterro estava m arcado para as sete horas e o padre se atrasara. O corpo foi colocado num a carreta que um coveiro em purrou até ao local da sepultura. Ninguém seguiu o féretro, apenas Clara Estrucho. Para falar a verdade, outra pessoa seguiu o caixão, um hom em j ovem , de paletó e gravata, que se escondia atrás das criptas para não ser visto. Este hom em ficou observando dissim uladam ente o enterro até que os coveiros term inaram de cim entar a laj e que fechou a cova. Este hom em era um investigador da Panam ericana. Este hom em cham ava-se Ivan Canabrava. Este hom em era eu.

Com o disse, eu era professor prim ário antes de entrar para a Panam ericana. Tam bém disse que deixei de ser professor por influência de Zilda, o que não é verdade absoluta. Eu ganhava um a m iséria com o professor, e odiava crianças (ainda odeio até hoj e). No tem po em que era professor, não existia, para m im , nada tão repugnante, tão irritante, tão chato, repulsivo, abom inável quanto um aluno de tenra idade. Tive vontade de m atar vários, antes de abandonar aquela nefária profissão.

Segui Clara Estrucho enquanto ela cam inhava, sem perder a pose, pelas alam edas do cem itério. Peguei um táxi e segui-a até onde m orava, na rua Redentor, com o eu j á sabia. Observei-a entrando no prédio. A m aneira dela andar, com o se tentasse dissim ular a beleza do corpo, m e perturbava. Eu ainda não despertara para o sexo, não passara sequer pelo estágio de apreciar

as

m ulheres

ostensivam ente

voluptuosas,

m as

inconscientem ente j á sabia que as m elhores m ulheres são essas que não requebram os quadris.

Voltei para a Panam ericana. Gom es, o m eu colega do setor de Investigações Sigilosas, estava, com o sem pre, a fazer palavras cruzadas.

“Gom es”, com ecei a dizer. Ia contar para ele que estava desconfiado de que havia algum a coisa de errado naquele seguro de um m ilhão de dólares. Ninguém faz um seguro desses e m orre m eses depois. Preferi calar a boca. Ainda não havia chegado o m om ento de abrir o j ogo. Disse apenas que teria de fazer um serviço externo naquela tarde. Havia decidido fazer um a visitinha a dona Clara Estrucho.

Voltei ao apartam ento da rua Redentor. O porteiro perguntou aonde eu ia.

“Ao apartam ento da dona Clara Estrucho.”

“Não tem ninguém ”, disse o porteiro.

“Com o não tem ninguém ?”

Eram três horas da tarde. Algum as horas antes eu a vira entrar naquele apartam ento.

“Está vazio. Mudaram .”

“Mas eu vi dona Clara entrando aqui hoj e.”

“Mudaram ”, repetiu o porteiro.

“Mas eu estou alugando o apartam ento. Dona Clara m e disse que ia m e esperar. Ela m e deu a chave e disse que ia m e esperar até as três horas.”

Olhei o relógio, tirei o m eu m olho de chaves do bolso.

“Ora, j á passam de três horas, acho que m e atrasei”, eu disse.

“Se o senhor tem as chaves, pode subir para ver o apartam ento. Eu não posso acom panhar o senhor, não posso deixar a portaria.”

O apartam ento era no quinto andar. Quinhentos e dois, fundos. Peguei o m eu estoj o de ferram entas e abri a porta. Abrir portas foi a única coisa útil que j am ais aprendi com o Gom es.

Entrei. O apartam ento era enorm e. Estava totalm ente vazio.

Não exatam ente. Havia um a estante na sala, sem livros, e um a lata de lixo cheia, na área de serviço. Peguei a lata de lixo e esvaziei o seu conteúdo no chão. Havia um a garrafa com um pouco de vinho francês Saint-Ém ilion, safra 1961, restos de queij o, um a caixa vazia do tranqüilizante Corax, um a caixa vazia do m oderador de apetite Moderex (ela devia tom ar o Moderex para perder a fom e, ficava nervosa e tom ava o Corax para se acalm ar), um invólucro plástico de pão de centeio, com algum as fatias dentro, um a plantinha com florezinhas redondas e um sapo, m orto.

Tirei de dentro do bolso o saco preto de plástico que sem pre carregava com igo e coloquei dentro tudo que encontrara na lata de lixo.

Ao sair, o porteiro olhou desconfiado para o saco preto que eu carregava, m as não m e interpelou.

“Oi, Zilda”, eu disse.

Zilda estava vendo a novela das sete e não respondeu.

Fui para o banheiro reexam inar o lixo de dona Clara Estrucho. O vinho fora bebido naquele dia, ainda não adquirira aquele gosto avinagrado de resto deixado dentro da garrafa. A plantinha parecia ter sido esprem ida com o se lhe tivessem tirado o caldo para fazer um refresco. Provei o queij o. Parecia de cabra.

“Que é isso? Com endo lixo?”

Era Zilda, que m e olhava da porta do banheiro.

“Não propriam ente. Estou investigando.”

“As coisas estavam m elhores quando você era professor prim ário”, ela disse.

“Sabe”, eu disse, ainda com o pedacinho de queij o na m ão,

“que um cliente deu um golpe de um m ilhão de dólares na Panam ericana? Quer dizer, deu m as não vai levar.”

“Quem devia dar um golpe de um m ilhão era você. O fusca enguiçou outra vez com igo no m eio da rua. Por que você não com pra a m erda de um carro decente?”

Quando Zilda com eçava a dizer nom e feio eu sabia que ia enfrentar m aus m om entos.

“Quando eu solucionar este caso a com panhia —”

“A com panhia, a com panhia, sem pre essa m aldita com panhia de m erda. Foda-se a com panhia.”

“Meu bem ”, eu disse estendendo a m ão.

“Não m e toque. Quando estou aborrecida não gosto que m e toquem . Ou larga o queij o ou com e ele de um a vez.”

Zilda deu um grito. Ela havia visto o sapo na borda da banheira. “Que é isso em cim a da m inha banheira?”

“É um sapo.” Tentei ser natural, com o se dissesse, é um a caixa de fósforos.

“Um sapo! Meu Deus, um sapo! Zilda, o desgraçado trouxe um sapo para casa!” Ela tinha o hábito de falar com ela m esm o, com o se fosse com outra pessoa.

“Ele está m orto”, eu disse.

“O infeliz trouxe um sapo para casa!”, gritou ela a plenos pulm ões.

“Olha os vizinhos”, pedi.

“Fodam -se os vizinhos”, disse Zilda, em voz m ais baixa. “Tira essa m erda daqui.”

Zilda fez um a careta nauseabunda e correu para a sala.

Coloquei o lixo de Clara Estrucho dentro do saco preto de plástico, inclusive o sapo, e j oguei tudo na lixeira. A plantinha eu escondi num a gaveta da m inha côm oda.

Zilda continuava vendo a novela.

“Pronto, m eu bem , j oguei tudo fora.”

“Vai lavar as m ãos, depois lim pa com álcool”, ordenou ela.

Fiz com o Zilda m andou.

“Um sapo, trazer um sapo m orto para casa, você j á viu coisa parecida, Zilda?” Ela ficou resm ungando enquanto eu, no quarto, pensava na m udança apressada de Clara Estrucho. Aquela casa toda lim pa de m óveis e obj etos m e parecia m uito suspeita. E o sapo?

O que significava aquele sapo?

Com o sem pre fazia no intervalo das novelas — eram várias novelas e Zilda via um a depois da outra —, ela veio ao quarto, dessa vez não para dizer que Patrícia era um a m ulher m entirosa e m esquinha, ou outra inform ação ligada à novela, m as para dizer:

“Hoj e vam os ao teatro.”

“Vam os ver o quê?”

“Macbeth, de Shakespeare. Estam os atrasados. Muda a cam isa e põe o terno escuro.” Novela na televisão podia ser vista de qualquer m aneira, m as teatro era outra coisa.

Lá fom os nós todo enfarpelados, m as, para irritação e constrangim ento m eu e de Zilda, a m aioria das pessoas estava de j eans. A peça, que eu via pela prim eira vez, não era m uito chata.

Quer dizer, o pedaço que eu vi, pois nós saím os antes do fim . A peça, com o todos sabem , tem reis e feiticeiras e lá para as tantas as feiticeiras estavam reunidas em volta de um caldeirão e um a delas j ogou um sapo dentro dele falando em veneno e em sono, coisas que m e fizeram trem er.

“O sapo”, gritei para Zilda, “os Estrucho fizeram um a feitiçaria!”

“Cala a boca”, disse Zilda.

“O sapo é a pista”, eu disse excitado.

“Psiu!”, soprou um suj eito atrás.

“O sapo vai m e levar lá”, eu disse.

Zilda levantou-se e foi saindo com um a careta feia que ela andava fazendo ultim am ente.

“O que foi, m eu bem ?”, perguntei na porta do teatro.

“O que foi m eu bem ? Seu débil m ental. Você fez aquele escândalo dentro do teatro e pergunta o que foi? E sabe quem estava atrás de nós? O doutor Paulo Marcílio. O m édico do sexto andar. Zilda, o que você está fazendo aqui, vivendo com um m aluco, pobre e que, além disso, nem casar com você casou?

Zilda, está na hora de você fazer algum a coisa.”

Ao chegarm os em casa, ela disse:

“Acabou, viu?”

Até que ela falou m acio. “Você é bonzinho, m as é m eio abobalhado, não leve a m al, abobalhado não, Zilda, isso é m uito forte. Você vive no m undo da lua, sonhando. Não devia ter deixado de ser professor prim ário da Prefeitura, há certas pessoas que precisam de um em preguinho garantido no governo e você é um a delas; você nunca vai subir na vida.”

Fiquei olhando ela fazer as m alas e praguej ar.

Antes de ela ir em bora perguntei: “Você quer ficar? Eu m e m udo e você fica, se for m elhor para você”.

Mas ela não respondeu, saiu com as m alas e pegou um táxi que havia cham ado pelo telefone. Eu a segui até à porta do prédio e acenei, m as Zilda não respondeu. Voltara a ficar bonita e isso aum entou a m inha tristeza.

No dia seguinte, liguei da Panam ericana para um a casa cham ada A Fauna Brasileira e perguntei se eles tinham sapos.

Não, não tinham . Me deram o telefone de outra casa e depois de vários telefonem as acabei conseguindo o telefone de um a Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio. O suj eito que atendeu o telefone, nesse lugar, tinha voz cavernosa. Pelo telefone, disse ele, não dava inform ações. “Passe aqui”, disse. O nom e dele era Cerezo.

“Igual ao j ogador de futebol?”, perguntei. A sede da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio ficava no Edifício Marquês do Herval, na avenida Rio Branco, esquina da Alm irante Barroso. Um a sala pequena, cheia de gravuras velhas na parede e um a estande de livros.

“Com o se escreve o nom e do j ogador de futebol?”, o velho perguntou. Tinha o rosto todo enrugado, com o se fosse a casca de um a árvore velha, e um a im ensa cabeleira branca de fios crespos.

“Não, não, m eu nom e é com ss, Ceresso”, ele disse e ficou m e olhando. Depois perguntou: “O senhor sabe o que é um anfíbio?”.

“Mais ou m enos”, eu disse.

“Diga um aí.”

“Um o quê?”

“Um anfíbio.”

“Sapo”, eu disse.

“Outro.”

“Jacaré.”

“Outro.”

“Tartaruga.”

“Outro.”

“Lagarto.”

“Outro.”

“Lagartixa.”

“Outro.”

“Foca.”

“Outro.”

“Leão-m arinho.”

“Outro.”

“Hipopótam o.”

“Outro.”

“Cobra.”

“O senhor não sabe coisa algum a sobre anfíbios”, disse o velho, com desgosto na voz.

“Subm arino”, gracej ei.

“Jacarés, tartarugas, lagartos e cobras são répteis, respectivam ente da ordem dos crocodilianos, dos quelônios e dos sáurios, os sáurios englobando os lacertílios, isto é, lagartos e lagartixas, entre outros, e os ofídios, ou serpentes. Todos respiram pelos pulm ões desde que nascem , ao contrário dos anfíbios.”

“Foca?”

“Foca é m am ífero, m eu senhor. Hipopótam o é m am ífero. E

tam bém o leão-m arinho. Os anfíbios são de três ordens: os gim nofiônios, conhecidos com o cecílias ou m inhocões, entre outros nom es; os

urodelos, conhecidos com o tritões e

salam andras; e os anuros ou batráquios, conhecidos com o rãs, sapos e pererecas. Apenas estes são anim ais anfíbios, anim ais que na prim eira fase da vida respiram o oxigênio dissolvido na água, através de brânquias e na idade adulta respiram o ar atm osférico através de pulm ões.”

Deixei o velho falar. Velhos não gostam de ser interrom pidos.

Os m oços tam bém não gostam , m as os m oços são m ais pacientes.

Afinal ele disse:

“O senhor m e disse ao telefone que queria m e falar de sapos e de seu uso por feiticeiros.”

Meu coração bateu rápido ao ouvir falar em feiticeiros.

“É um a longa história”, eu disse.

“Então com ece logo a contá-la, para não perderm os m ais tem po.”

Contei a Ceresso, resum idam ente, a m orte de Maurício Estrucho, as m inhas suspeitas, o encontro do sapo m orto e da plantinha esprem ida na lata de lixo.

Ceresso ouviu em silêncio a m inha história. Não totalm ente em silêncio, vez por outra ele grunhia um resm ungo que ora parecia de incredulidade e ora parecia de desdém .

“Venha aqui.” Ceresso levou-m e até a um a das paredes da sala onde havia quadros cobertos de figuras de sapos, rãs e pererecas. “Com qual desse aqui o indivíduo que encontrou se parecia? Aqui, aí não, isso aí são rãs, arre!” Creio que ele disse arre! ou então foi apenas um rosnado de cólera. Voltei m inha atenção para o quadro que m e apontava. “Vam os, com qual destes o seu sapo se parecia?”

“Era igual a esses dois aqui”, eu disse, depois de algum tem po, indicando dois sapos entre os m uitos representados no quadro.

“Esses dois aqui? Com o ele pode ser igual a esses dois aqui se esses dois aqui são sapos diferentes? É a m esm a coisa que dizer que a Clara Bow se parece com a Jean Harlow. Este aqui é um Bufo m arinus, m ais conhecido por cururu, que na língua nheengatu significa sapo grande. Por influência de Stradelli —isto, porém , é discutível —, outros naturalistas, com o Spix, d’Abbeville, Rohan, von Ihering, passaram a adotar com o nom e vulgar, para essa espécie de batráquio grande existente no Brasil, a denom inação cururu. Este outro é o Bufo paracnem is, vulgarm ente conhecido com o sapo-boi ou sapo-gigante. Mas eles são m uito diferentes. O paracnem is tem estas verrugas glandulares sobre a face interna da coxa, as quais, pressionadas, soltam um a secreção leitosa. As paratóides são m enores e m ais extensas. E ele chega a 22 centím etros de com prim ento, enquanto que o m arinus não ultrapassa dezoito. Mas eles são rigorosam ente iguais na sua grande utilidade para o hom em .”

Eu olhava perplexo para um e para outro sapo. Para m im , eram iguais.

“Então?”, disse o velho.

“Então o quê?”

“Seu sapo era o Bufo paracnem is ou o Bufo m arinus?”

“Não sei”, eu disse desconsolado.

“O senhor é dem asiado ignorante.”

“Não é vergonhoso deixar de saber algum a coisa.”

“Arre! O m aldito salvo-conduto de Cícero, tábua de salvação de todos os cretinos — nec m e pudet ut istos fateri nescire quid nesciam . Pois fique sabendo que o único verdadeiro pecado do hom em é a ignorância.”

O velho estava tão furioso que balançava a cabeça de um lado para o outro, com o se um enxam e de abelhas africanas tivesse entrado nos seus cabelos.

“Ponha-se daqui para fora”, disse o velho depois de dar um soco na parede.

“É este!” A Providência Divina m e ilum inara e de repente eu sabia, sem dúvidas, qual era o m eu sapo. “É este aqui”, eu disse, tocando com o dedo na gravura de um dos sapos.

“O Bufo m arinus?”

“O Bufo m arinus.”

“Hm , grr, rr”, grunhiu o velho, “só podia ser esse. É o que os feiticeiros gostam de usar.”

Quando Ceresso disse isso o m eu coração novam ente bateu apressado e tive vontade de m e aj oelhar no chão e beij ar seus pés calçados de botinas cam baias de elástico. Feiticeiros! A palavra soava com o se fosse um a m úsica acom panhada de tam bores.

“Feiticeiros, fale sobre os feiticeiros!”, pedi.

“Onde estará o m eu Marcgrave?” O velho fuçou durante algum tem po os livros que estavam na estante. Enquanto isso ia falando: “Na Historia naturalis brasiliae, que escreveu em 1648, Marcgrave j á falava no uso do veneno do Bufo m arinus pelos feiticeiros brasileiros. Mas isso é pré-história naturalista. Sobre esse assunto leia Lam arque Douy on, um pesquisador de Port-au-Prince que estudou os zum bis haitianos, leia os artigos de Wade Davis, no Journal of Ethnopharm acology e o seu livro A serpente e o arco-íris, leia o livro de E. Nobre Soares, Os bocors, e o livro de Akira Kobay ashi, A datura e seus efeitos zum bificantes. Com o você vê, eu fiz algum as pesquisas depois do seu telefonem a”.

“Onde posso encontrar esses livros?”

“Só tenho o Marcgrave, m as não sei onde está. O livro de Davis é encontrável. Creio que será difícil achar o m aterial do Douy on. De qualquer m aneira, tente na Biblioteca Nacional.

Quem sabe?”

“E a plantinha?”

“Que plantinha?”

Tirei do bolso o plástico com os restos vegetais que encontrara no lixo de dona Clara Estrucho.

“Será que é com ida de sapo?”, perguntei.

“Sapo não é vegetariano”, disse Ceresso. “Deixa isso aqui.

Vou ver o que é. Escreva o seu telefone neste papel.”

Saí da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio ligeiram ente desapontado e apreensivo. Em um certo m om ento eu tivera certeza de que Ceresso m e daria a pista para revelar todo o m istério da falsa m orte de Maurício Estrucho, naquele instante em que eu tivera ím petos de beij ar-lhe as botinas. Mas o velho m e m andara pesquisar na Biblioteca Nacional e agora estava eu ali, nas escadarias do prédio da avenida Rio Branco, lem brando-m e do tem po em que saía do Colégio Pedro II, na esquina da rua Marechal Floriano com Cam erino e cam inhava a pé por toda a avenida até chegar à Biblioteca. Não era fácil, naquele tem po, encontrar os livros que eu queria, nunca estavam no lugar, ou estavam sendo encadernados, ou sim plesm ente não existiam .

Depois de um a hora de pesquisas inúteis tive de parar, pois a Biblioteca ia fechar.

“Am anhã, quando chegar aqui, m e procura que eu o aj udo a procurar os livros”, disse um a m oça da Biblioteca. Era pálida, de cabelos castanhos, finos e lisos.

Quando ia saindo, lendo o papel com as anotações que fizera na Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio, tropecei num a m oça que estava sentada na escadaria. Se ela não m e segurasse eu teria rolado os degraus até a rua.

“Hei, zum bi, olha por onde você anda”, disse ela.

“Você falou zum bi?”, perguntei excitado.

“Falei, zum bi”, ela disse.

“Incrível, eu estava pensando nisso.”

“Nisso o quê?”

“Zum bis.”

“Pensou e virou um ”, disse ela.

Estava vestida com o um a riponga de antigam ente, saia com prida, cabelo eriçado, sandálias, bolsa de pano a tiracolo e tinha um cheiro gostoso de sovaco.

“Meu nom e é Minolta.”

“Tem um figurão da alta burguesia internacional que deu ao filho o nom e de Gram ofone RCA Victor.”

“Um belo nom e”, disse ela.

“Meu nom e é Ivan Canabrava.”

“Canabrava. Melhor que Gram ofone.”

“Você é estudante?”, perguntei.

“Estudante? Já estudei tudo que tinha de estudar. Agora invento. Sou poeta. E você? Estava fazendo o quê aqui na Biblioteca?”

“Pesquisando sobre feitiçaria.”

“Me am arro em feitiçaria”, disse Minolta.

Os funcionários da Biblioteca estavam saindo e a bibliotecária que dissera que ia m e aj udar ficou olhando para m im e para Minolta. Ri para ela, m as ela não respondeu.

“Que tal a gente tom ar um chopinho enquanto fala de feitiçaria?”, disse Minolta. “Mas você tem de pagar porque eu estou zerada.”

Por sugestão dela tom am os o ônibus na Cinelândia e saltam os na Glória. “Esta taberna tem um chope finíssim o”, disse Minolta.

Afinal acabam os não falando de feiticeiros. Minolta havia sido despej ada naquele dia. Estava pensando em ficar dorm indo nas escadas da Biblioteca, na proxim idade daquele m ontão de livros que lhe dava um a sensação de segurança. “Livro é um alto astral.”

“Não quer dorm ir lá em casa, até encontrar um lugar?”

“Depende. Não sei. Você está tentando desenvolver o seu lado fem inino?”

“O quê?”

“Cansei desses hom ens que estão tentando desenvolver o seu lado fem inino. Olhe bem para m im .”

Olhei para ela. Tinha um a m ancha na esclerótica, resultado de um a m anhã inteira de leitura na praia sob sol forte.

“Seu lado fem inino é inexpressivo, sem substância, desenraizado. Desista. Desenvolva o seu lado m asculino, que talvez dê algum a coisa”, sentenciou Minolta.

“Você não respondeu. Minha casa está às ordens.”

“Você tem m áquina de escrever? Só sei escrever a m áquina.”

“Tenho”, eu disse.

“Então está bem .”

“E as tuas coisas?”, perguntei.

“Minhas coisas estão aqui”, disse ela tocando com o dedo indicador no peito, do lado esquerdo, “e aqui.” Um a bolsa de tecido, parecendo artesanato índio, a tiracolo.

Logo que pusem os o pé em casa o telefone tocou. Eu estava no banheiro e Minolta atendeu.

Era Zilda.

“Quem foi essa m ulher que atendeu?”, perguntou Zilda.

“Foi Minolta.”

“Minolta? Isso é nom e de bicicleta”, disse Zilda.

“Ela disse que o nom e dela é esse”, eu disse.

“O que ela está fazendo aí?”

“Ela foi despej ada e vai ficar aqui até encontrar um lugar.”

“Viro as costas e você põe dentro de casa a prim eira cadela vira-lata que encontra na rua”, disse Zilda. Acho que ela esquecera que m e havia abandonado.

“Ela é um a boa m enina”, eu disse.

“Boa m enina! Boa pra quê? Seu idiota, você pensa que é m uito esperto m as qualquer vigarista ordinária enrola você. Põe essa vaca na rua, do contrário você nunca m ais m e vê.”

“Meu bem , não posso. Ela não tem para onde ir. Além disso, eu j á a convidei para ficar aqui, não posso voltar atrás.”

“Pode sim .”

“Não, não posso.”

“Então adeus. Adeus! Mas agora é para valer, seu cretino, debilóide, babaca.”

“Meu bem , não fala assim .”

“Vai para o inferno. Eu quero que você m orra!”, disse Zilda, desligando.

Zilda era m uito nervosa, m as não era m á pessoa. Ela não queria dizer nada daquilo, m as perdia a cabeça facilm ente e dizia coisas que não devia.

“Quem era?”, perguntou Minolta.

“A Zilda. Nós m orávam os j untos e ela brigou com igo e foi em bora e agora está zangada porque você está aqui. Mas am anhã

a raiva dela acaba.”

“Você gosta dela?”

“Gosto. Ela é m uito bonita. Vou te m ostrar um retrato dela.”

Mostrei-lhe o retrato de Zilda.

“Razoável”, disse Minolta.

“Em pessoa ela é m ais bonita.”

“Pode ser”, disse Minolta.

Minolta queria dorm ir na sala, m as eu insisti para que ela dorm isse no quarto. “Adoro dorm ir no sofá”, eu disse.

Acordei m uito cedo, com dores nas costas. Tom ei banho, fiz a barba. Fiz café, esquentei o leite, preparei a m esa do café. Bati na porta do quarto.

Minolta abriu a porta. Estava inteiram ente nua. Com a bolsa a tiracolo.

“O café está na m esa”, eu disse.

“Já vou”, ela disse.

“Põe um a roupa”, eu disse, voltando para a sala.

Tom am os café sem falar m uito.

“Vou trabalhar e estou aqui por volta de sete horas”, eu disse. “Fique à vontade. Tem café em pó, leite e frutas na geladeira. Deve ter m ais coisas.”

“Onde está a m áquina?”

Mostrei a ela o lugar onde estava a m áquina e um bloco grande de papel. Mostrei a ela, tam bém , onde estavam as toalhas lim pas de banho.

Cheguei na Panam ericana depois do Gom es.

“Tudo bem ?”, ele perguntou, m e olhando com o se eu tivesse a cabeça enfaixada por um a gaze m anchada de sangue.

“Tudo bem ”, eu disse.

“Tudo bem m esm o?”

Aj eitei o laço da gravata. “Tudo.”

Não havia nenhum a ordem de serviço sobre a m esa. Fui até a sala da secretária do doutor Zum bano, para dar bom dia à dona Duda. Ela sem pre m e punha a par das coisas que estavam acontecendo. Quando m udou o chefe do Jurídico e o doutor Ribeiroles foi nom eado, ela m e deu a notícia antes do Aviso Geral circular pela Panam ericana. Ela era m uito boazinha e sem pre m e dava um bom bom que tirava de um a caixa de dentro da gaveta na m esa.

“Quem m e dera ser igual a você”, disse dona Duda.

“Igual a m im ?”

“Você com e tudo, com e balas, bom bons, e está sem pre m agro e elegante.”

Botei o bom bom no bolso.

“Com a o seu bom bom ”, ela disse, tirando um para ela e devorando-o im ediatam ente. “Tudo bem com você?”, perguntou, engolindo outro bom bom .

“Tudo bem ”, eu disse.

“Você viu a novela ontem ?”

Eu odiava novelas. Odiava televisão. Odiava crianças. (Isso eu j á falei.) Mas não ia dizer isso para dona Duda.

Ela via três novelas, tal com o a Zilda, a partir do m om ento em que chegava em casa às sete da noite. Seu sonho era, quando se aposentasse, ver tam bém as várias novelas que passavam no horário diurno. Tam bém gostava de ver film es dublados. As vozes dos dubladores eram sem pre as m esm as e ela gostava disso.

Quando surgia um a voz nova — e isso era raro — ela reclam ava.

Chegou a escrever um a carta para a Rede Globo: “Não gostei da voz que colocaram no Burt Rey nolds no film e de quinta-feira. O

que aconteceu com a voz antiga? Quem dublava o Burt dublava o Lee Maj ors, o Hum phrey Bogart, o Clark Gable, o Telly Savalas, o Laurence Olivier e o xerife Lobo. Vê lá se vão substituí-lo tam bém nesses personagens. Duília Teixeira, secretária executiva”. Ela gostava de ouvir vozes fam iliares. Um a vez brigou com igo porque eu disse a ela que o Hum phrey Bogart, para possuir aquela voz rascante, fizera o sacrifício m ortal de desenvolver um câncer na laringe e quem fosse dublá-lo corretam ente devia, pelo m enos, sofrer do m esm o m al. Então, naquele dia, com endo m eu bom bom , eu perguntei a que novela dona Duda se referia, à das seis, das sete, das oito ou das dez.

“A das seis eu nunca vej o”, disse ela com um suspiro. “À das oito.”

“A das oito eu não vi”, safei-m e.

“Sabe quem m atou o diretor da com panhia, o doutor Max?”

“Não.”

“Gerard Vam prey. Mas eu j á sabia, havia lido na revista Am iga. O Gerard Vam prey, com aquela carinha de santo, foi quem m atou o doutor Max.” E dona Duda m e contou o capítulo inteiro.

Ou sej a, não havia novidades no gabinete do doutor Zum bano.

Voltei para a m inha sala, m inha e do Gom es, e notei que ele continuava m e olhando de m aneira esquisita.

“Você pode confiar em m im ”, disse ele depois de algum tem po. “Sou seu am igo.”

“Eu sei, eu sei”, eu disse, supondo que ele, de algum a form a, devia ter sabido das m inhas investigações sobre a falsa m orte de Maurício Estrucho. Mas não era isso. Apenas um a intriga de Zilda.

“A Zilda m e telefonou e disse que você teve um acesso de stress.”

Respirei aliviado.

“Um acesso de stress? Ela disse isso?”

“Não com essas palavras. Ela disse que você havia despirocado, estava doido, vendo sapos nas paredes, que com ia o resto dos vizinhos e que a expulsara de casa para receber um a vagabunda da zona.”

“Não é nada disso”, eu disse indignado.

“Você quer dizer que está tudo bem entre vocês?”

“Não está não. Ela saiu de casa, sim , m as por vontade própria.”

“Você quer dizer que não há nenhum a m oça em sua casa?”

Gom es aprendera a fazer interrogatórios no m anual am ericano A inquirição: sondagem e avaliação.

“Há sim . Mas, Gom es, você está por fora. Zilda brigou com igo — para falar a verdade por causa de um sapo, m as eu não estou vendo nenhum sapo pelas paredes, não se preocupe — e saiu de casa. No dia seguinte, ontem ” — era incrível, m as aquilo tudo havia acontecido na véspera — “eu encontrei essa m oça, ela estava sentada nas escadas da Biblioteca Nacional, o nom e dela é Minolta, isso m esm o, a m áquina fotográfica, e ela não tinha para onde ir e eu ofereci a m inha casa para ela passar a noite e ela dorm iu no quarto e eu no sofá da sala e possivelm ente ela nem está m ais lá em casa neste m om ento. Satisfeito? Se alguém está m aluco neste episódio todo é a Zilda.”

Gom es m ordeu os lábios e olhou para o chão.

“Está satisfeito?”, repeti.

Ele continuou m ordendo os lábios e coçou a ponta do nariz.

Não sei se ficou ou não convencido. De qualquer form a estava na hora de eu ir à Biblioteca Nacional, continuar as m inhas pesquisas.

“Se perguntarem por m im diz que fui fazer um trabalho externo.”

Gom es m exeu a cabeça, sem olhar para m im .

Na Biblioteca Nacional procurei a bibliotecária que se dispusera a m e aj udar. Cham ava-se Carm inha. Seus olhos eram tristes e cortaram o m eu coração. Ela conhecia o Ceresso, da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio, um freqüentador assíduo da Biblioteca Nacional.

“Qual é o seu interesse?”

“Experiências com venenos de sapos.”

“Ahn”, disse ela, e seus olhos pareceram ficar ainda m ais tristes. “Pensei que o seu interesse fosse a m úsica. Bobagem m inha. Sapos... Vej am os. Há algum a coisa especial que você queira, algum livro?”

“Quero ver tudo o que existir. Mas desde logo gostaria de ler estes aqui.” Dei a ela a lista com os nom es que o diretor da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio m e havia dado.

Carm inha m e conseguiu o Journal of Ethnopharm acology, com o artigo de Wade Davis, o livro do Kobay ashi e o de Nobre Soares.

Mergulhei na leitura daqueles fascinantes livros. “O sapo”, dizia Davis, “é um laboratório e um a usina quím ica, contendo, além de alucinógenos, poderosos anestésicos não-identificados, que afetam o coração e o sistem a nervoso.” As descobertas de Davis confirm avam as de Kobay ashi. O sapo teria um a substância igual à tetradoxina encontrada por Kobay ashi no baiacu ou sapo-do-m ar.

As pessoas sob a ação dessa substância ficariam com o m ortas do ponto de vista fisiológico, retendo apenas certas faculdades m entais, com o a m em ória. A esse estado cham avam de zum binism o. Enterrado ou fora da sepultura, o zum bi perm anecia com o m orto, dez horas, a m enos que continuasse sendo alim entado com um a m istura de veneno de sapo e determ inadas substâncias quím icas encontradas em algum as plantas, com o Py rethrum parthenium , num a proporção de 1 m g por 50 m g.

Então o estado cataléptico poderia ser prorrogado algum as vezes.

Os pesquisadores não sabiam quantas.

Fiquei tão excitado, depois de ler e anotar tudo isto, que disse para Carm inha:

“Eu tinha ou não tinha razão?”

“Se você m e disser do que se trata poderei responder.”

“Um suj eito pode parecer que está m orto e no entanto estar vivo.”

“E pode parecer que está vivo e no entanto estar m orto”, disse ela. Ela devia ter um problem a, pensei, coitadinha, tão m oça e tão branquinha e tão m agrinha e tão bonita.

“Você está triste?”, perguntei.

“Eu?”, disse ela, surpreendida. “Não havia pensado nisso.”

“Houve um a época na m inha vida em que eu vivia triste”, eu disse.

“Eu não vivo triste”, ela disse. “Apenas...”

“Apenas...”

“Eu não estou alegre. Há um a diferença.”

“Eu sei.”

“Tenho o m eu trabalho”, ela disse. “Gosto do m eu trabalho.”

“Eu sei.”

“Está na hora de fecharm os”, ela disse.

Eu ficara o dia inteiro na Biblioteca, nem pensara em alm oçar. Fui correndo até a Panam ericana, m as não havia m ais ninguém lá, apenas o pessoal da lim peza. Decidi ligar para a casa do m eu chefe, o doutor Zum bano. Atendeu um a m ulher dizendo para eu esperar um m om ento.

“Doutor Zum bano”, eu disse, “é o Canabrava.”

“Quem ?”

“O Canabrava, do escritório.”

“Sim , claro, Canabrava.”

“Descobri um a coisa im portante ligada ao seguro do senhor Maurício Estrucho.”

Zum bano ficou um m om ento em silêncio.

“E você não pode esperar até am anhã, para m e falar sobre isto no escritório?”

“Am anhã é sábado, não tem expediente.”

“Ah, sim , é m esm o, claro. Por que não segunda-feira?”

“Doutor Zum bano, é m uito im portante.”

“Não podem os fazer nada no sábado e no dom ingo, podem os? Além do m ais estou indo agora para a m inha casa em Petrópolis. Segunda-feira, está bem ? Logo cedinho, de m anhã.”

Minolta estava na cozinha do apartam ento. Havia m udado de roupa.

“Vigia o arroz. É integral. Você gosta de arroz integral? Estou escrevendo um poem a sobre o m ico-leão-dourado, esse que foi repatriado dos Estados Unidos.” Meteu a m ão na bolsa, que sem pre m antinha a tiracolo, e tirou um retrato. “Você j á viu pessoinha m ais bonita?” Era um m ico agarrado num galho de árvore. “Você conhece a história?”

“Arroz integral é aquele escuro?”

“É o único bom para a saúde. O outro só tem am ido, não vale nada. Mas esse m ico estava desaparecendo no Brasil, vivia aqui perto, em Silva Jardim , no estado do Rio, m as o desm atam ento estava acabando com ele. Então levaram alguns casais para os Estados Unidos e lá eles procriaram em cativeiro.

Agora eles estão voltando e o problem a é saber se eles saberão viver em liberdade.”

“É difícil viver em liberdade”, eu disse.

“O que você quer dizer com isso?” Minolta m e olhou desconfiada.

“Quero dizer que é difícil, apenas isso.”

“Você gosta de viver cerceado em sua liberdade, porque é m ais fácil, é isso?”

“Não. Eu gosto de viver em liberdade. Apenas é difícil, só isso.”

Ela ficou m e olhando algum tem po.

“Se é difícil para você, im agina para um m ico que cresceu num a j aula. Alim entado com o um prisioneiro, ele não aprendeu a procurar os alim entos, a se defender. Existem coisas venenosas na natureza, ainda que isso pareça absurdo. Os am bientalistas sugeriram então que as fêm eas e os filhotes repatriados fossem colocados em liberdade j untos com um m acho que tivesse crescido livre aqui, onde eles vão ser soltos, em Silva Jardim . Esse m acho — ou m achão? — ensinaria a fam ília a sobreviver. O que você acha?”

“Acho bom ”, eu disse. Minha cabeça estava longe. O único anim al que m e interessava era o sapo — além , é claro, de alguns racionais, com o dona Clara Estrucho.

“Me parece um a solução típica do pensam ento m achista. Por que não colocar os m achos repatriados e os filhotes com um a fêm ea selvagem daqui? A fêm ea tam bém sabe ensinar ou não sabe?”, disse Minolta.

“Deve ser para não separar a fêm ea dos filhotes”, eu disse.

“A fêm ea é sem pre prisioneira das convenções.”

“Eu entendo pouco de m icos. Mas por que não colocar a fam ília repatriada, inteira, pais e filhos, com um m acho, ou um a fêm ea local?”, eu disse.

“Os m icos são m onógam os, dizem os am bientalistas.

Entendeu o problem a?”

“Talvez os m achos adotem os filhos dos outros e as fêm eas não. De qualquer form a, pelo que você m e diz, um casal em igrante terá que ser separado, nesse esquem a, e tam bém um casal local”, eu disse.

“Vê com o a m onogam ia é um a coisa com plicada”, disse Minolta. “Acho que vou escrever um poem a sobre a m onogam ia.

Não encontrei o açúcar m ascavo. Você vigia o arroz, que eu vou dar um pulinho no Paraíso da Saúde, na Dias Ferreira.”

Minolta fez um j antar que constava do arroz integral, bife de soj a e chuchu cozido. Não sei onde foi que entrou o açúcar m ascavo.

“Está bom ?”, perguntou Minolta, com endo vigorosa e vagarosam ente.

Estava horrível. “Está bom ”, eu disse. Para que chatear a m oça?

Felizm ente, quando fom os viver escondidos em Iguaba, Minolta abandonou essa m ania de m acrobiótica e descobrim os os prazeres da m esa e da cam a — m as isso fica para depois.

O telefone tocou. Era Ceresso, da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio. “Aquele vegetal que o senhor m e trouxe...”

“Sim ?”

“Um am igo botânico exam inou-o para m im . Disse que aquelas folhas recortadas, as flores ovóides dispostas em espiguetas paniculadas, o fruto aquênio, indicam , sem dúvida, tratar-se de Py rethrum parthenium , um a planta da fam ília das com postas.”

“Doutor Ceresso, é um a substância tirada desse vegetal que, m isturada com o veneno do sapo, pode causar —”, gaguej ei.

“Eu sei”, ele m e cortou, “está no livro do Nobre Soares. Pode causar um estado de catalepsia profunda. Boa noite.” Desligou.

Minolta disse: “Vou dar um a volta. Me em presta a chave para eu não te acordar. Vou chegar tarde”. Eu m al ouvi o que ela disse, de tão nervoso e excitado. Estava quente, com febre.

Dorm i de m aneira interm itente. Creio que tive vários pesadelos — eu não lem brava deles quando acordava, m as sei que eram pesadelos, pelo suor na m inha fronte e pelo coração batendo. Felizm ente o dia raiou e eu saí da cam a, ou m elhor, do sofá, sentindo as m esm as dores nas costas.

Encostei o ouvido na porta do quarto. Eu vira Minolta chegar, bem tarde, m as fingira que estava dorm indo.

Fiz o café, torrei o pão, passei m anteiga no pão, cortei m am ão à francesa e bati na porta.

“O quê?”, ouvi. “Entra.”

Minolta acordava com a m esm a cara de quando ia para cam a. Zilda era m uito bonita m as de m anhã os olhos dela ficavam inchados. O rosto de Minolta estava lim po e loução, com o o de um a criança saudável.

“Põe um a roupa”, eu disse fechando a porta. Se dorm isse nu eu pegava um resfriado. Nem precisava ser todo nu, bastava não usar um a das peças, de cim a ou de baixo, para m e resfriar terrivelm ente, ainda que m e cobrisse com o lençol.

“Chega de m e dom inar”, disse Minolta saindo do quarto.

“Tive que m e vestir toda” — pusera um short curtinho e um a blusa sobre a pele — “neste dia de calor, apenas porque você quer ditar as regras.”

“Fiz o café”, eu disse.

“Só porque fez o café não pode m andar em m im .”

“Não quero m andar em você.”

“Todo hom em quer m andar na m ulher.”

“Eu não quero.”

“Mentira. Qual foi a razão que levou a m ulher que m orava com você a dar no pé?”

“Zilda?”

“Zilda. Já teve outras?”

“Não. Zilda é um a m ulher nervosa.”

“Diga: Zilda é um a m ulher doente. É assim que os hom ens destroem as m ulheres.”

“Não, Zilda não é um a m ulher doente.”

“Olha, essa Zilda não m e interessa.”

“Isso. Vam os falar dos m icos.”

“Tam bém não quero falar dos m icos.” Quem vê rosto não vê pesadelo. A noite dela não devia ter sido m uito boa, tam bém .

“Então tom a o café.”

“Não tem pão preto?”

“Infelizm ente não.”

Minolta pegou a torrada e deu um a dentadinha. Depois outra. E outra.

“Gostosa, esta torrada. Com o foi que você fez?”

“No forno. Usei um pão de dois dias, que cortei em fatiinhas fininhas transparentes.”

“Delícia. Mas pão branco faz m al, você sabe. Um a vez na vida, outra na m orte, no m áxim o.”

Chegando ao escritório na segunda-feira, coloquei as notas que fizera na Biblioteca Nacional sobre a m esa e com ecei a bater um relatório para o doutor Zum bano, chefe do Departam ento de Investigações Sigilosas da Panam ericana. Falei do sapo que encontrara na casa de dona Clara Estrucho, do Py rethrum parthenium , das pesquisas de Davis, Kobay ashi e Nobre Soares.

Apesar de interrom pido várias vezes — um a delas por Zilda, que disse ao telefone: “Àquela vagabunda não vai em bora?” (ela havia ligado para o apartam ento e Minolta atendera). “Bota aquela cadela im unda para fora, do contrário você nunca m ais m e vê” —

consegui escrever um relatório claro, conciso e fundam entado sobre o caso Maurício Estrucho, provando o m eu ponto de vista de que a Panam ericana havia sido vítim a de um a fraude. “A m ais m aquiavélica e ardilosa da história dos seguros, no Brasil”, term inava o m eu relatório.

O doutor Zum bano não m e recebeu.

“Ele está m uito ocupado”, disse dona Duda.

“Ele m e disse para procurá-lo hoj e de m anhã. Liguei para a casa dele na sexta-feira. É um assunto urgente.”

“Mas ele está m uito ocupado. Um assunto da diretoria.” Pela prim eira vez dona Duda não m e dava um bom bom do inesgotável estoque da sua gaveta. A m inha insistência a estaria incom odando?

“Então a senhora m e faz um favor. Entrega este relatório a ele. Não deixa ninguém ver não, por favor. Entrega na m ão dele.”

“Pode deixar.”

“É m uito im portante.”

“Pode deixar.”

“É m uito, m uito im portante.”

“Eu sei.”

“Entrega só a ele.”

“Já disse que não se preocupe.”

Entreguei a ela o relatório, esperei que o colocasse dentro da gaveta e saí, depois de sorrir para ela, o m eu sorriso m ais sim pático, com todos os dentes aparecendo. Ela não respondeu.

“Zilda acabou de ligar’’, disse Gom es, quando voltei para a sala.

“Entreguei um relatório ao doutor Zum bano sobre o caso Estrucho.”

“Ela disse que vai lá no apartam ento expulsar aquela m oça.”

Continuar: parte 4 de 4