Bufo & Spallanzani

Rubem Fonseca · Capítulo 2 de 4 · parte 2/4

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Bufo & Spallanzani

Orelhas do Livro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

“Agradeço tudo o que o senhor tem feito por nós”, disse Eugênio Delam are, com um a espécie de sorriso triste. “Im agine o m eu sofrim ento, m inha surpresa terrível ao voltar de viagem e descobrir que m inha m ulher havia se suicidado e estava j ogada num a im unda gaveta de necrotério. É um m om ento de profunda tristeza o que estou vivendo, éram os m uito unidos, não tem os parentes, éram os só nós dois... É um a desgraça que não posso repartir com ninguém , que não quero dividir com ninguém ...

Sem pre fom os pessoas m uito recatadas, sem pre levam os um a vida m uito discreta...” Eugênio passou os dedos sobre os olhos secos.

“Sua esposa não se m atou. Ela foi assassinada.”

“O quê?” Eugênio Delam are levantou-se do banco, surpreso.

“Assassinada”, repetiu Guedes.

“Não é possível!” Eugênio voltou a sentar-se; a cor dourada do rosto havia desaparecido. “Mas m e disseram que ela havia se m atado. O próprio secretário de Segurança falou com igo.”

“Provavelm ente o secretário ainda não havia visto os laudos do m édico legista e do perito”, disse Guedes.

“Houve algum a violência... sevícias sexuais, coisas assim ?”

“Não. Ela m orreu de um tiro no coração. O assassino não tocou no corpo dela. Nada foi roubado. O revólver estava na m ão dela. Foi tudo isso que nos levou a supor, erradam ente, que se tratava de um suicídio.”

“A polícia prendeu alguém ? Suspeita de alguém ?” Delam are j á se controlara.

“Não deu tem po. Só descobrim os que não foi suicídio hoj e.”

Delam are olhou Guedes nos olhos. “Esta é um a cidade m uito violenta”, sua voz agora era a de um hom em de negócios, “eu sem pre disse a ela que tom asse m uito cuidado, m as ela não m e ouvia, saía sozinha dirigindo seu autom óvel... Mas nunca pensei que viesse a ser assaltada, com o aconteceu.”

“Não creio que ela tenha sido assaltada”, disse Guedes.

“Claro que foi assaltada.”

“Acho que o senhor não entendeu o que eu disse. Nada foi roubado.”

“Você não entendeu o que eu disse. Eu acho que ela foi assaltada, entendeu? Não quero escândalos. E o que im porta se quem a m atou foi um louco ou um ladrão? Ela está m orta, não vai voltar a viver se descobrirm os isso.” Outro tom de voz: “Por favor, inspetor... Com o é m esm o o seu nom e?”.

“Guedes.”

“Inspetor

Guedes,

eu

saberei

dem onstrar

o

m eu

agradecim ento... O que eu lhe peço é m uito pouco, m as a m inha gratidão será grande.”

Guedes ficou em silêncio, que Delam are interpretou com o aquiescência ao que acabara de dizer. “Vou lhe explicar o que eu quero que você faça. Prepare tudo, esses laudos, esses registros, os papéis, essa tralha toda, para que não reste dúvida de que m inha m ulher foi assassinada por um assaltante. Não se preocupe se algum superior quiser criar problem as, sou am igo do secretário de Segurança. E de gente m ais alta.”

Eugênio Delam are enfiou a m ão no bolso, tirou um talão de cheques, apoiou-o na coxa e preencheu um cheque. Estendeu-o para Guedes. “Isto é apenas a prim eira parte.”

Houve um m om ento de silêncio e im obilidade, Delam are com o cheque na m ão estendida, Guedes olhando para ele, am bos com fisionom ias calm as e inescrutáveis.

“Eu podia acusá-lo pelo crim e de corrupção ativa”, disse Guedes, pegando o cheque de Delam are, “m as não vou fazê-lo porque o senhor talvez estej a transtornado com a m orte de sua m ulher e não sabe o que faz.”

Guedes j ogou o cheque no chão.

Eugênio Delam are abaixou-se e apanhou o cheque. “Pense bem ”, disse Delam are, “você viu a quantia que eu escrevi no cheque? Você não ganha isto em dez anos no seu trabalho infecto.

E é a prim eira parte, porra! Pega isso, anda!” Delam are tentou enfiar o cheque na m ão de Guedes. O tira pegou o cheque e rasgou-o, j ogando os pedaços no chão.

“Outra coisa”, disse Guedes, “o seu m otorista, ou guarda-costas, está usando um a arm a privativa das Forças Arm adas, o que é proibido por lei. Vou deixar passar isso tam bém . O senhor receberá um a intim ação para com parecer à delegacia a fim de prestar declarações.”

Guedes cam inhou pelo j ardim em direção à porta de saída.

Ouviu Delam are dizer às suas costas “não sej a burro!”. O copeiro abriu a porta e o tira saiu. Voltara a suar m uito. Desceu a Lopes Quintas apressadam ente, pegou um ônibus na rua Jardim Botânico e saltou na Afrânio de Melo Franco. O dia estava term inado. Era sexta-feira e o posto de gasolina que ficava na esquina da Ataulfo de Paiva estava cheio de carros sendo abastecidos.

“Onde você andou? O Ferreira procurou por você o dia inteiro”, disse o delegado de plantão.

“Estava fazendo um a diligência.”

O doutor Ferreira saíra, deixando recado para que Guedes lhe telefonasse à noite. Alguns j ornalistas haviam estado na delegacia fazendo perguntas sobre o “suicídio” de Delfina Delam are, m as nenhum a inform ação lhes havia sido dada.

“Vai querer um cafezinho?”

Era a negra Marlene, com a sua garrafa térm ica e a cesta de bolinhos de m ilho. Ela sem pre aparecia na delegacia àquela hora.

Guedes tom ou um cafezinho e com prou dois bolinhos de m ilho, que colocou num grande envelope pardo usado. Guedes, de tanto com er em botequins ordinários, perdera o prazer de com er. Ele raram ente usava a pequena cozinha do seu apartam ento, para evitar que aparecessem baratas. Detestava baratas e o velho prédio em que vivia, apesar de periodicam ente dedetizado, estava sem pre cheio desses insetos.

Eram nove horas da noite quando apanhou o envelope pardo com os bolinhos de m ilho e foi de ônibus para casa. Antes ele havia ligado para o delegado Ferreira e para o diretor do Instituto de Crim inalística, que era seu am igo.

“Guedes, não m e crie problem as, por favor. O chefe ligou e disse que o secretário está m uito aborrecido. Parece que você anda exorbitando de suas funções. O chefe chegou a dizer que vai enquadrá-lo por violência arbitrária. Eu não quero ser transferido para deus-m e-livre, você quer?”, disse o delegado.

Guedes contou o encontro que tivera com Eugênio Delam are.

“Você acha que foi ele quem m atou a m ulher?”

“Ele não estava aqui no dia em que ela foi assassinada, chegou da Europa no dia seguinte. Chequei na Federal.”

“Então não chateie o hom em , está bem ?”

O diretor do Instituto de Crim inalística era inim igo do secretário de Segurança, que queria substituí-lo no cargo para nom ear um parente.

“Aquele covarde corrupto m andou o chefe ligar para m im para que eu m udasse o laudo, colocando vestígios de pólvora na m ão da m ulher. Filho da puta. Eu disse que j á havia m andado o laudo para a delegacia, m as ainda não m andei. Um portador vai te entregar o laudo em m ãos, am anhã bem cedinho. Faça um adendo rápido ao registro, quero ver eles sum irem com o Registro de Ocorrências.”

A conversa com o diretor do Instituto deixou Guedes preocupado. Ao chegar em casa o tira tom ou um banho e depois com eu os bolinhos de m ilho, tom ando cuidado para não deixar nenhum a m igalha para as baratas. Depois deitou-se na cam a, de cueca e paletó de pij am a e pegou Os am antes. Mas depois de ler algum as páginas apenas, o tira dorm iu. Meu livro funcionava com o um soporífero para ele. Guedes não era o m eu leitor ideal.

Meus livros devem ser lidos com sofreguidão, sem interrupção, principalm ente Os am antes.

4

Eugênio Delam are havia dito que não se incom odava se o crim e tivesse sido com etido por um assaltante ou por um psicopata, afinal a m ulher dele j á estava m orta. A proposta que lhe fizera, de arm ar as coisas de m aneira que a m orte da m ulher fosse oficialm ente atribuída a um assalto, podia ser im oral e ilegal, m as não significava necessariam ente que Delam are estivesse envolvido na m orte da m ulher. Qualquer burguês, que não precisava ser um m ilionário fam oso, cuj a m ulher tivesse sido encontrada m orta dentro do autom óvel, preferiria a versão do assalto, em prim eiro lugar, e a do suicídio, em segundo. Havendo um assassino era aconselhável que o seu m otivo fosse o roubo, ou então um a ação randôm ica de um psicopata desconhecido.

Guedes pensava no assunto dessa form a, enquanto fazia a barba. Ele não encarava o hom icídio com o um a reversão atávica, um a característica rem ota do ser hum ano, que reaparecia episodicam ente não se sabia por quê. Ele via hom icídios quase que diariam ente, com etidos por pessoas de todos os tipos, pobres e ricos, fortes e fracos, analfabetos e doutores, e acreditava que o hom em sem pre fora e continuava sendo um anim al violento, m atador, por prazer, do seu sem elhante e de outras criaturas vivas. Qualquer pessoa poderia ter m atado Delfina, m as não fora um ladrão nem um psicopata, essa certeza ele tinha. Quem então a assassinara? Um a m ulher j ovem , rica e bonita pode ser m orta por ciúm es, por invej a, por despeito, por rancor, por interesses pecuniários. Seu assassino pode ser o m arido, o am ante, um parente, o corretor financeiro, um am igo ou am iga, e, é claro, o m ordom o. Guedes não brincava quando incluía o m ordom o, ele aliás não possuía m uito senso de hum or; por m ordom o ele queria dizer qualquer em pregado ou em pregada.

Naquele dia o delegado Ferreira chegou m ais cedo à 14ª.

Pediu para ver o Registro de Ocorrências e verificou que havia um adendo ao prim eiro registro da m orte de Delfina Delam are com os resultados dos exam es do IML e do Instituto de Crim inalística. O

hom icídio estava caracterizado.

Ferreira m andou cham ar Guedes.

“Que bode a m orte dessa m ulher”, disse Ferreira. “Com o foi m esm o a sua conversa com o m arido?”

Guedes contou novam ente o diálogo que tivera com Eugênio Delam are.

“Não entendo esse com portam ento dele”, disse Ferreira.

Guedes passou a tarde na Biblioteca Nacional lendo edições de O Globo e do Jornal do Brasil.

Mais tarde estava novam ente batendo à m inha porta, vestido com o seu blusão ensebado.

Fui logo dizendo, “seu Guedes, estou m uito ocupado escrevendo um livro, Bufo & Spallanzani, acho que lhe falei sobre isso, e vou viaj ar, tenho que tom ar algum as providências antes...”.

“É coisa m uito rápida”, disse o tira, “é sobre dona Delfina, aquela senhora da sociedade que apareceu m orta dentro do carro.”

Abri novam ente a porta para ele entrar. Fom os para a biblioteca.

“Ela foi assassinada”, disse Guedes.

“Assassinada? Mas ainda ontem o senhor m e disse que ela havia se m atado.”

“Engano nosso. Foi assassinada.”

“Já prenderam o crim inoso?”

“Ainda não.”

“Sabem quem foi?”

Guedes ficou calado. Passou o dedo na testa, de ponta a ponta, e lim pou no blusão.

“Afinal o que o senhor quer de m im ? Já lhe disse que estou m uito ocupado.”

“Não creio que a curiosidade sej a um a coisa m aligna num policial. É o nosso trabalho.” Estava se referindo à nossa conversa do dia anterior.

“Talvez o trabalho policial sej a m aligno”, eu disse.

“É possível”, disse o tira, “m as alguém tem que fazê-lo.”

“E afinal?”

“Bem ”, ele disse, lim pando a testa novam ente, “suspeito que dona Delfina tinha um am ante. Com o o senhor anda nesse m eio talvez tivesse ouvido algum a coisa.”

“Um am ante? Absurdo. Dona Delfina era um a senhora de m oral inatacável.”

“O senhor disse num dos seus livros que a fidelidade é um conceito burguês e que a honra de um a m ulher nada tem a ver com o seu com portam ento sexual.”

“Em que livro eu disse isso?”

“Em Os am antes.”

“O senhor leu Os am antes?”

“Estou lendo.”

“Vou lhe dizer um a coisa: o ponto de vista, a opinião, as crenças, as presunções, os valores, as inclinações, as obsessões, as concepções et cetera dos personagens, m esm o os principais, m esm o na prim eira pessoa, com o é o caso de Os am antes, não são necessariam ente os m esm os do autor. Muitas vezes o autor pensa exatam ente o oposto do seu personagem .”

“Gustavo Flávio é o seu verdadeiro nom e?”

O que saberia ele do m eu passado? O m eu trabalho na Panam ericana de Seguros? O m eu internam ento e fuga do Manicôm io Judiciário? Olhei bem o seu rosto m agro, os olhos am arelos; o que saberia ele?

“Nós, os escritores, gostam os de usar pseudônim os.

Stendhal cham ava-se Marie-Henri Bey le; o nom e verdadeiro de Mark Twain era Sam uel Langhorne Clem ens; Molière era o criptônim o de Jean-Baptiste Poquelin. George Eliot não era George nem Eliot nem hom em , era um a m ulher de nom e Mary Ann Evans. Sabe qual era o nom e do Voltaire? François-Marie Arouet. William Sidney Porter se escondia sob o nom e falso de O. Henry.”

(Por m otivos parecidos com os m eus, m as isso eu não disse ao tira.) “Isso é um segredo literário, ha, ha!”

Guedes não insistiu, m as o m eu nervosism o aum entou.

Enfiei as m ãos nos bolsos. O tira passou novam ente a m ão na testa.

“Vou ligar o ar refrigerado”, eu disse.

“Não precisa.”

“Eu tam bém estou sentindo calor. Tenho um aparelho que refrigera o apartam ento inteiro”, eu disse, indo em direção à copa, onde ficava o closet com o aparelho. O tira veio atrás de m im .

“Quem era a m elhor am iga dela?”

“A m elhor am iga de quem ?”

“Dona Delfina.”

“Não tenho a m enor idéia. Nem sei se ela tinha um a m elhor am iga.”

“Toda m ulher tem um a m elhor am iga. A dela era Denise Albuquerque”, disse o tira.

“O senhor sabe m ais do que eu. Que diabo, este aparelho parece estar com defeito. Com o é que o senhor sabe quem era a m elhor am iga de dona Delfina?”

“A vida dos grã-finos está toda nas colunas sociais; quer dizer, toda m enos o lado podre. Essa senhora está viaj ando, m as soube que deve chegar por estes dias. Eu pretendo conversar com ela.”

Voltam os para a m inha biblioteca. Guedes ficou olhando para os livros, com o se tentasse ler os títulos nas lom badas.

“O senhor não tem m ais nada a m e dizer?”

“O quê, por exem plo?”

“O senhor conhece o m arido dela?”

“Não conheço. O que m ais? Eu estou m uito ocupado, j á lhe disse que estou ocupado, eu não sou funcionário público com o o senhor, só ganho se trabalhar, m eu livro novo, Bufo & Spallanzani, está m uito atrasado, enfim , sinto m uito m as sou obrigado a pedir que sej a breve e obj etivo.”

Guedes enfiou a m ão no bolso e tirou um papel.

“Leia isso”, disse ele.

Era um a carta. Escrita à m ão.

Querida Delfina. Depois que você foi em bora fiquei pensando na conversa que tivem os aqui em Paris. Acho um a loucura o que você pretende fazer. Não existe ninguém que tenha se separado do m arido nessas condições. Todas elas, e não preciso dizer os nom es, você sabe quem são, ao se separarem levaram um a boa parte do bolo, ficaram m ilionárias e m uitas não passavam de putinhas ordinárias corneando os m aridos com Deus e todo m undo. Elas aprenderam com Jacqueline Onassis a lidar com os hom ens, você deve fazer o m esm o. Abrir m ão de tudo é um a burrice, um a insensatez, e nem o Eugênio m erece essa consideração, tendo tratado você com o sem pre tratou. Aliás ele tem tanto dinheiro que por m ais que você tire dele não lhe fará falta. E esse hom em , esse escritor, m erece esse sacrifício? Não faça nada precipitado. Achei você m uito nervosa, m uito tensa, você não estava bem , desculpe a franqueza. Estou m andando esta revista sobre porcelana de Sèvres, estive na fábrica um a m anhã inteira, vendo com o se faz a porcelana, um a coisa sensacional. Por hoj e é só. Estou em barcando de volta no dia 15, não faça nada antes da m inha chegada.

Muitos beij inhos, Denise.

Sentei-m e no sofá do escritório. Guedes continuou de pé.

“O envelope, com a revista e a carta, estava registrado e por qualquer m otivo não foi entregue pelo correio, que apenas enviou um aviso, que estava na bolsa de dona Delfina. Fui ao correio e apanhei o envelope”, explicou Guedes.

Reli a carta. O tira j á devia saber do m eu envolvim ento com Delfina quando veio m e ver pela prim eira vez. Ficou m e vendo m entir; além de sagaz era m alicioso. E eu pensando que a m inha relação com Delfina era um segredo. Não existem segredos, alguém sem pre conta para o m elhor am igo e por aí afora. No fim um tira de m erda acaba sabendo tam bém .

Devolvi a carta para Guedes que a colocou cuidadosam ente no bolso do blusão.

“O senhor j á conhecia o conteúdo da carta quando veio m e ver pela prim eira vez?”

Não. Apanhei a carta hoj e. Eu havia esquecido o aviso do correio dentro do m eu bolso. Acho que estou ficando velho.

Então?”

“Sim , eu e dona Delfina tínham os um a relação íntim a. Não lhe disse isso antes por m otivos óbvios, para proteger a reputação de um a senhora. Além do m ais não aj udaria na elucidação do suicídio ou hom icídio, qualquer que fosse o caso.”

“Qual foi a últim a vez em que esteve com ela?”

“Na véspera da sua m orte. Conversam os sobre o que o m édico lhe dissera sobre a gravidade da sua doença. Por isso a notícia do suicídio não m e surpreendeu. Ela estava m uito deprim ida.”

“Onde foi essa conversa?”

“Na casa dela. Ela acabara de retornar de um a viagem à Europa.”

“Há quanto tem po vocês m antinham esse caso?”

“Eu a am ava.”

“Sim ; há quanto tem po?”

“Uns seis m eses, m ais ou m enos.”

“Ela queria abandonar o m arido para casar com o senhor?”

“Isto foi aventado.”

“Há a possibilidade de ela ter tido, na m esm a ocasião, outro envolvim ento sentim ental, além do que teve com o senhor?”

“Não. Im possível.”

“O senhor j á havia visto, ou viu naquele dia, um revólver niquelado com dona Delfina?”

“Ela não tinha revólver. Talvez o m arido tivesse, não sei.

Nunca a vi com arm a algum a. Ela m orria de m edo de arm as.”

“Sabe qual é o nosso problem a?”, perguntou Guedes. Fez um a pausa. “O nosso problem a é que dona Delfina não foi assassinada por um assaltante. Um assaltante teria levado o autom óvel, que vale um a fortuna; teria levado o revólver, o relógio de ouro, os anéis, os cartões de crédito; um assaltante teria agido de m odo totalm ente diferente. Não foi um assaltante.”

Fiquei calado.

“Duas pessoas se enquadram , tendo em vista as circunstâncias, com o possíveis autores do crim e.” Guedes falava com um a voz neutra, com o se estivesse discutindo o enredo de um rom ance. “Um a delas é o m arido. Mas o m arido não estava no Brasil no dia em que ela foi m orta.”

“Ele podia ter m andado m atá-la”, eu disse. “Ele sabia do m eu envolvim ento com ela.”

“Ah, sabia? Interessante... Eu j á havia pensado nisso, na possibilidade de ele ser o m andante, m as nesse caso o assassino teria feito tudo para parecer que o crim e fora um assalto, levando os obj etos de valor da m orta. E um assassino profissional não usa um 22 e se usasse não o deixaria no local. Não, não foi o m arido, nem ninguém a m ando do m arido.”

Então ficam os um longo tem po em silêncio.

“Não quer saber quem é a outra pessoa?”

“Quem é?”

“O senhor.”

“Eu!?” Levantei-m e furioso. “Agora chega, vá-se em bora”, gritei, “o senhor não tem direito de invadir m inha casa para m e caluniar.”

5

“Desculpe tirar você da sua m editação, m eu bem , m as eu precisava falar com alguém , depois que aquele tira saiu. Quando gritei m andando-o sair da m inha casa ele ficou m e olhando calm am ente, m e analisando, depois cam inhou pensativo até a porta, nem atem orizado nem triunfante, e m e aconselhou a procurar um advogado.

“Você sabia que m adam e X era Delfina? Então por que m e deixou fazer aquele ridículo m istério? Não; nós com binam os que eu contaria m inha vida sexual com as m ulheres que tive ou tenho, m as que a identidade delas não seria revelada. Satisfaríam os assim a sua curiosidade libidinosa e a m inha lascívia verbal. Aliás posso até estar inventando essas histórias todas para dar vazão à nossa lubricidade. Contar detalhes do m eu am or com Delfina é um a form a de não esquecê-la. Não vou esquecê-la nunca, com o tam bém não vou esquecer você. Mas entre nós as coisas são diferentes, quando nos conhecem os você tinha dezesseis anos, se não fosse você, Gustavo Flávio não existiria.

“Defoe, Swift, Balzac — posso ficar falando um tem po enorm e de escritores que se deram m al investindo o seu dinheiro, ou especulando de um a m aneira ou de outra, erradam ente. Posso ser colocado nessa com panhia. Quando conheci Delfina m inha situação financeira degringolara. O banco onde havia aplicado o m eu dinheiro quebrara, e o seu presidente, um patife que chegou a ser cogitado para m inistro da Fazenda, fugira do Brasil, tendo antes subtraído do banco 250 m ilhões de dólares que depositou num a conta secreta na Suíça. Até hoj e está desaparecido e j á nem se fala m ais nele. Fiquei sem um tostão, m as, com o Balzac, não m udei o m eu padrão de vida. Passei a pedir advances cada vez m ais altos, aos m eus editores aqui e no exterior. Não lhe contei isso antes para não preocupar você. Meu últim o livro, Os am antes, conquanto tenha tido um a excelente repercussão crítica, foi um fracasso de vendas com parado aos m eus outros rom ances. Parece que o público não estava preparado para um a história de am or entre um a cega e um surdo-m udo. ‘Aleij ões, estropiados, incapacitados em geral não funcionam bem num a história de am or’, disse m inha agente literária, ‘o últim o que deu certo foi o Corcunda de Notre-Dam e.’ Meu novo rom ance não saía da elucubração. Norm alm ente, com o você sabe m elhor do que ninguém , construo o livro na m inha m ente, enquanto vou tom ando nota de detalhes, vinhetas, cenas, situações. Mas Bufo & Spallanzani estava e está atolado. Eu com ecei a escrevê-lo quando conheci Delfina. Pela prim eira vez na m inha vida um a relação am orosa interferiu no m eu trabalho. Estar apaixonado, ou até m esm o apenas interessado num a m ulher sem pre m e estim ulou m uito a escrever, você sabe disso. Mas eu passei a ficar desligado do m eu trabalho, dando razão a Flaubert. O pior é que eu j á recebera vários advances pelo Bufo & Spallanzani e devia um a alta som a à m inha agência em Barcelona.

“Um dia Delfina chegou para m im e disse que não queria continuar se encontrando com igo às escondidas. Eu sabia que um dia ela ia dizer aquilo, m esm o assim fiquei apavorado. ‘Vou deixar o m eu m arido’, ela disse, ‘quero viver abertam ente com você. Não tenho filhos, não farem os ninguém sofrer, não creio que Eugênio se im porte m uito’. Estávam os na cam a. Delfina, que estava nua, colocou as duas m ãos sob a nuca, espreguiçou seu corpo m aravilhoso, e com eçou a falar dos seus planos. Enquanto isso eu constatava, m ais um a vez, a razão pela qual as m ulheres, por m ais deslum brantes que sej am , acabam sem pre se tornando m açantes para aqueles que as am am . Você, não, você é um a m ulher m uito especial, diferente de todas as que conheci. As outras, devido a um a espécie de decência burguesa, aliada a um convencionalism o hipócrita, acabam sem pre subordinando a paixão à etiqueta. Eu representava para Delfina, ou havia representado, um a fantasia que brotara do fastio do seu casam ento de seis anos. Agora ela queria m e tornar real, queria fazer de m im um m arido. ‘Vam os fazer um a longa viagem , nós dois, para onde você quiser’, ela disse. Eu respondi que não queria sair do Brasil, que precisava escrever Bufo & Spallanzani, nada havia de pior para um livro do que um a viagem . Ela disse que o livro nem havia sido iniciado, que eu poderia escrever na viagem , que iríam os de navio, que ela faria a ponta nos m eus lápis. Você j á viu lápis no m eu apartam ento, um único, você não sabe que eu escrevo num com putador?, perguntei. Na verdade ela não podia saber, desde que a conhecera eu nunca m ais escrevera coisa algum a. Enquanto conversávam os, naquele dia, m e dei conta disso, que pela prim eira vez na m inha vida eu parara um longo tem po de escrever e tudo por causa de um a m ulher. Delfina queria abandonar Eugênio im ediatam ente, antes de irem para Paris, com o faziam a cada dois anos, e onde ficariam seis m eses.

“Ela disse que não agüentava ficar seis m eses m ais com o m arido, m esm o que fosse em Paris, principalm ente em Paris, não agüentaria viver longe de m im tanto tem po, não queria m ais viver furtivam ente et cetera. Devíam os pensar um pouco m ais, eu disse.

‘Pensar, pensar, você não faz outra coisa’, disse ela, o que a rigor não era verdade. O que um escritor m enos faz é pensar, brinquei.

Ela disse que eu a estava deixando nervosa, que não dorm ia à noite, que perdera o apetite e aquilo era devido à duplicidade, à m entira, a ter de ir para a cam a com o m arido que não am ava, o que podia ser raro m as era horrível do m esm o j eito. ‘Isso vai acabar m e m atando’, disse ela. Confesso duas coisas. Prim eiro, eu não queria casar com Delfina Delam are, apesar de am á-la m uito.

Segundo, eu nem m esm o queria que ela abandonasse o m arido.

Delfina acostum ara-se a ser um a m ulher rica e certam ente a separação de Eugênio seria um intem pestivo gesto rom ântico, que a deixaria sem um tostão. Devíam os pensar um pouco m ais, eu disse, pela segunda ou terceira vez. Ela saiu da cam a e sentou-se nua, em frente ao espelho, e cuidadosam ente, m eticulosam ente, pintou o rosto, com o um a atriz que estivesse se m aquiando para entrar em cena. Tentei, novam ente atraído pela beleza do seu corpo, agora que ela estava em silêncio, levá-la outra vez para a cam a, m as Delfina m e repeliu. “Vou contar tudo ao Eugênio’, ela disse. Respondi que era um a loucura, um gesto insensato e bruto, pois iria ferir o m arido inutilm ente. ‘Enganá-lo é feri-lo ainda m ais’, disse ela. Você j á viu coisa m ais exasperante e burra do que um a m ulher rom ântica? Vam os pensar um pouco m ais, repeti. Ela m e disse que eu parecia um papagaio e foi-se em bora, com um a estranha expressão no rosto. Ela não vai com eter essa im prudência, pensei. Realm ente, no dia seguinte, à hora de costum e, Delfina voltou ao m eu apartam ento. Estava m uito pálida e parecia ter em agrecido de um dia para o outro, com o se isso fosse possível, em agrecido m uito, quero dizer. Fom os para a cam a e no m om ento do orgasm o o rosto dela se m olhou de lágrim as.

‘Falei com Eugênio. Jurei a ele que não ia m ais m e encontrar com você. Eugênio m e perdoou’, disse ela. ‘Eugênio pediu-m e que fosse viaj ar com ele. Adeus.’

“Em seguida ela foi viaj ar com o m arido. Ela não sabia que estava com um a doença incurável, nenhum de nós sabia, eu, ela e o m arido. Depois que ela saiu sentei-m e à frente do com putador para escrever, m as logo desisti. Não sou de ficar transpirando. Sei que a inspiração existe, qualquer puta velha com o eu que j á escreveu m ais de vinte livros, em pouco m ais de dez anos, sabe que o nosso trabalho é braçal, exige força física, viço. Com ecei a achar que eu havia secado, Hem ingway deu um tiro de 12 na abóbada palatina por isso. Naquele dia, depois que Delfina saiu, fui a um restaurante e m e em paturrei de com ida e depois telefonei para um a conhecida e m eti-m e entre as pernas dela. Mas não deixei de pensar em Delfina um m ísero segundo.

“No

dia

seguinte

eu

estava

em

casa

pensando

sim ultaneam ente em Delfina e no Bufo & Spallanzani quando a cam painha tocou. Aquela era a hora em que Delfina costum ava chegar, um a hora da tarde. Senti o m eu coração bater alegrem ente. Sabia que ela não faria a loucura de rom per com igo e contar tudo ao m arido. Corri para a porta e lá estava ele, reconheci-o im ediatam ente pelos retratos dos j ornais e revistas, o rosto bonito queim ado de sol, o nariz reto, o queixo forte. Apenas era m ais baixo do que eu supunha, m as tam bém eu sem pre o via, nas fotos, m ontado num cavalo. E os seus olhos eram azuis.

“‘Gustavo Flávio?’, ele perguntou. Aquiesci. Ele botou a m ão no m eu peito e m e em purrou. Não sou nenhum peso-pena, peso m ais de cem quilos, m as ele tinha m uita força no braço, além da força m oral do corno bravo, e o seu em puxo m e tirou do cam inho quase m e j ogando no chão. Entrou na sala e disse, de dedo em riste, ‘se você procurar m inha m ulher novam ente eu vou m atá-lo, m as não vou suj ar m inhas m ãos em você, seu porco noj ento, vou m andar cortar os seus culhões e deixar você sangrar até m orrer’.

Eu não disse nada. À m inha frente estava um m arido enganado, usando o seu direito de espernear. Mas depois que foi em bora senti que aquilo não era um a am eaça vã, um desabafo de chifrudo. Havia um a veracidade sinistra na advertência. Aquele era um hom em perigoso. Tinha dinheiro e disposição para contratar um m onte de assassinos profissionais.

“Passei dois dias preocupado, até que li nas colunas dos j ornais que o casal Delam are em barcara para Paris. O resto você j á sabe. Delfina voltou antes, apareceu m orta et cetera. O m arido por enquanto não m e preocupa tanto quanto esse j avert pé-de-chinelo, o tira Guedes.

“O caso de Delfina é um dos m ais interessantes, e provavelm ente o m ais instigante e intrigante assassinato que ocorreu nos últim os tem pos aqui no Brasil. Existem nele aspectos que o fazem charm oso e agradável à leitura, pois é um crim e m isterioso que ocorre num a classe social onde ações violentas raram ente

acontecem ,

e

depois

porque

os

personagens

coadj uvantes e outras m ortes violentas aj udam a torná-lo ainda m ais palatável. Mas eu estou m uito envolvido para poder escrever sobre isso, principalm ente porque eu am ava Delfina, e as grandes histórias de am or vividas por nós escritores raram ente são escritas. As histórias de am or que podem ser contadas são as m edíocres.”

6

Dois dias depois que Guedes saiu da m inha casa recebi um a intim ação da 14ª Delegacia de Polícia para ir depor. O dia m arcado para o m eu depoim ento era a véspera da m inha ida para o Refúgio do Pico do Gavião, um lugar de difícil acesso na serra da Bocaina. Para chegar lá eu teria que ir até a um lugar cham ado Pereiras, um vilarej o no sopé da m ontanha e, depois de percorrer certa distância, creio que de ônibus, eu pegaria um trator para o Refúgio, pois o cam inho era tão íngrem e e acidentado que nenhum a outra viatura poderia percorrê-lo. Conversei com Minolta e ela achou um a boa idéia. Ela ia voltar para Iguaba depois de passar dez dias com igo no Rio (m as não no m eu apartam ento, conform e o nosso arranj o) e acreditava que Bufo & Spallanzani talvez precisasse de um tratam ento heróico, um a rotina inteiram ente nova: eu m e afastaria de todas as m ulheres, abandonaria o TRS-80, recolher-m e-ia a um a fazenda isolada, com um a m áquina de escrever. A notificação da polícia, porém , talvez atrapalhasse tudo.

Telefonei para o m eu advogado, o doutor Martins.

“Gustavo”, ele disse, “eu posso ir com você, m as sou especialista em direito autoral. Nada entendo de direito crim inal, se eu achar que a coisa é com plicada vam os ter que cham ar outro advogado.”

Eu disse a ele que não queria outro advogado.

Na hora m arcada chegam os à delegacia, um prédio de um pavim ento, pequeno e suj o. Martins entregou a intim ação a um suj eito em m angas de cam isa atrás de um a m esa, que ficava num cercado de m adeira, num a sala espaçosa. O suj eito m andou que esperássem os. Uns quinze m inutos depois um a porta, onde estava escrito Cartório, se abriu, e um suj eito gordo, de óculos, segurando na m ão um papel, que logo vi ser a m inha intim ação, veio em nossa direção e perguntou:

“Gustavo Flávio?”

“Sou eu.”

“O senhor está dispensado”, ele disse.

“Com o que eu estou dispensado? Recebi um a intim ação —”

“Vam os em bora”, cortou Martins, m e puxando pelo braço. “O

cara não disse que você está dispensado?”

“Quero saber se tenho de voltar outro dia, afinal, qual a razão de m e cham arem aqui —”

“Vam os em bora”, Martins m e cortou novam ente. Ele não se sentia m uito bem naquele am biente. Acho que era a prim eira vez que entrava num a delegacia.

“Não precisa voltar m ais aqui não”, disse o escrivão que ficara ao lado, ouvindo m inha conversa com o advogado.

“Por que não preciso voltar m ais aqui?”

“É m elhor perguntar ao inspetor Guedes. Foi ele que m andou intim ar e depois disse para dispensar.”

“Gostaria de falar com ele”, eu disse. Martins, que até então m antinha-se agarrado ao m eu braço, largou-m e com um suspiro de irritação resignada.

“Vou ver se ele pode vir falar com o senhor”, disse o escrivão.

Foram m ais quinze ou vinte m inutos. Enquanto Guedes não vinha, eu disse ao Martins: “Se você quiser pode ir em bora”.

“Não vou deixar você sozinho aqui”, disse ele.

“Eles disseram que não querem m ais nada com igo. Não há perigo.”

“É m elhor eu ficar”, ele disse, olhando em torno com desgosto. “Sabe de um a coisa? Eu não seria advogado crim inal nem que fosse para não m orrer de fom e.”

“Estou vendo”, eu disse.

Guedes estava com o seu uniform e, o blusão seboso e a cam isa encardida de colarinho aberto.

“Eu tenho que lhe dar um a explicação”, disse ele. “O senhor pode esperar m ais cinco m inutos? Estou term inando um trabalho.”

“Cinco m inutos m esm o? Sou advogado dele, eu —”

“O senhor não precisa ficar”, disse Guedes, afastando-se.

“Deve estar no m eio de um a tortura, foi dar m ais uns choques elétricos em algum pobre diabo”, disse Martins.

“Se você quer ir em bora”, insisti, “pode ir.”

“Claro que não”, disse ele indignado.

Um m ulato com um revólver na cintura, m enos de cinco m inutos depois, apareceu na sala e perguntou: “Quem é Gustavo Flávio aí?”.

Fom os levados à sala do inspetor Guedes. Um a m esa de m adeira, cheia de m arcas de café derram ado, alguns papéis e um dicionário Aurélio m édio. Guedes estava sentado e fez um sinal para ocuparm os as duas cadeiras à frente da m esa.

“Ontem ”, disse Guedes quando nos sentam os e o m ulato arm ado se retirara, “um a ronda da Vigilância prendeu, assaltando um a padaria, um indivíduo cham ado Agenor da Silva, fugitivo da Ilha Grande. Ao chegar à delegacia ele confessou que assassinara.

um a m ulher num Mercedes há uns dez dias num a rua do Jardim Botânico. Eu o trouxe aqui para o nosso xadrez. A princípio não acreditei na sua história. Sua confissão fora espontânea e isso é m uito raro.”

O advogado deu um olhar significativo para m im , com o quem diz, confissão só vale, na polícia, quando é obtida m ediante tortura.

“Ele tam bém não sabia explicar m uito bem por que levara o carro para a rua Diam antina. Disse que não conhecia aquela parte da cidade e pensou que poderia ir por aquele cam inho até à floresta da Tij uca, onde pretendia violentar a m ulher, depois de roubá-la. Ao ver que a rua Diam antina não tinha saída ele ficou nervoso e nesse instante a m ulher com eçou a gritar. Para fazê-la calar-se, atirou nela. Por que estava com um 22? É m ais fácil de esconder, respondeu ele. Por que não roubou m ais nada? Ficou com m edo que alguém tivesse ouvido o tiro e teve tem po apenas de pegar a cigarreira de ouro da m ulher. Ele ainda estava com a cigarreira quando foi preso e não soube explicar por que ainda não a vendera para um intruj ão. O m arido de dona Delfina confirm a que a cigarreira era dela. Som os obrigados a indiciar esse indivíduo, apesar de alguns pontos obscuros precisarem ser elucidados. O seu depoim ento”, o tira olhou para m im , “não é m ais necessário. Obrigado por sua colaboração.”

“Vam os em bora, Gustavo”, disse Martins.

Guedes nos levou até à porta. Ali m e segurou pelo braço.

“Eu sei”, ele com eçou e calou-se. Ele ia dizer um a coisa, porém m udou de idéia. Disse “boa tarde”. Mas pelo seu olhar eu tive a im pressão que ele ia dizer: eu sei o seu nom e verdadeiro, conheço o seu passado negro.

II

MEU PASSADO NEGRO

1

Aos vinte anos de idade eu não era esse sátiro e esse glutão que sou hoj e. Era um hom em m agro, frugal e virgem . E tam bém não pensava em tornar-m e um escritor. Gostava m uito de ler, m as não de escrever. Era um m odesto e m edíocre professor prim ário.

Então conheci Zilda, que m e levou para a cam a e ficou m orando no m eu apartam ento. Foi m inha prim eira experiência sexual, um a coisa m uito sem graça. Nem sei com o fui m orar com Zilda. A visão do corpo fem inino não m e atraía, a proxim idade do sexo fem inino m e assustava, quando eu ia para cam a com a Zilda eu evitava olhar para a sua vagina, cuj o odor, m esm o se ela tivesse acabado de tom ar banho, m e repugnava.

Zilda era um a m ulher am biciosa e m e convenceu a deixar o m eu em prego de professor prim ário e a ir ganhar m ais num a com panhia de seguros, onde ela conhecia um suj eito cham ado Gom es. Foi assim que fui trabalhar na Panam ericana de Seguros, onde m e envolvi num a aventura que acabou m udando inteiram ente a m inha vida.

Eu trabalhava há pouco na Panam ericana quando, num a tarde de verão, um hom em de trinta e quatro anos entrou na sede da com panhia, na avenida Graça Aranha, e disse ao corretor que o atendeu que queria fazer um seguro de vida. Com o era um seguro m uito alto, o m aior até então feito pela Panam ericana, o senhor Estrucho foi subm etido a um cuidadoso exam e m édico que constatou a sua ótim a saúde. Sua proposta foi aceita. Durante m eses

o

senhor

Estrucho

pagou

pontualm ente

suas

m ensalidades, até que veio a falecer. Um advogado, que representava os interesses da viúva, dona Clara Estrucho, com pareceu à Panam ericana e disse que desej ava que os m édicos da com panhia fizessem um exam e post-m ortem no falecido, a fim de estabelecer de m aneira irrefutável sua m orte por causas naturais, pois não desej ava delongas no pagam ento do seguro.

O chefe do Departam ento Jurídico da Panam ericana cham ava-se Carlos Ribeiroles. Um suj eito cauteloso, com o todos os advogados. Ele se reuniu com os seus principais auxiliares para exam inar o assunto. Ao receber o telefonem a, depois a visita do advogado de dona Clara Estrucho, a prim eira reação do doutor Ribeiroles fora não realizar o exam e post-m ortem . Ribeiroles não gostava de fazer coisas pressionado, com o todos os advogados; a atividade j urídica tinha com o fundam entos, prim eiro a Razão e depois a Moral, e a Razão era o m esm o que o Bom Senso, assim com o a Moral era o m esm o que a Justiça. Nem um a nem outra j ustificavam aquele insólito exam e. A m orte, fosse ou não suspeita, devia obedecer aos procedim entos legais.

“Acho que devíam os tentar obter um a autorização j udicial para fazer um a autópsia e não um exam e superficial com o desej a o representante do segurado”, disse um j ovem advogado.

Ribeiroles encarou-o com o se ele tivesse dito um a heresia.

Pegou um a ficha à sua frente e leu: “Maurício Estrucho, capitalista, fazendeiro, trinta e quatro anos, filho de Curzio Estrucho e Cam ila Estrucho, casado com Clara Estrucho, nascida Espinhal, As fam ílias Estrucho e Espinhal, além de possuírem grandes fazendas em São Paulo, Mato Grosso e Goiás, onde produzem café, soj a, m ilho e açúcar, possuem usinas de álcool e outras indústrias e interesses com erciais no Brasil e no exterior, controlados pela holding Estrucho & Espinhal. Essas inform ações são do nosso Departam ento de Investigações Sigilosas. O senhor acha, doutor (os advogados, com o os m édicos, são form ais uns com os outros quando se hostilizam ), que tem os base para desconfiar de fraude, ou de crim e ainda pior, neste caso?”.

“Todo m undo sabe aqui no Rio que o senhor Maurício Estrucho era um estróina”, disse o j ovem advogado.

“Estróina? Esse não é um term o j urídico...”, escarneceu Ribeiroles.

“Um pródigo, conhecido pela m aneira extravagante com que gastava dinheiro”, insistiu o j ovem .

“O senhor acha que isto j ustifica não apenas a nossa suspeita, porém m ais do que isto, o aj uizam ento tem erário da m esm a? Um a autópsia só pode ser realizada em caso de acidente ou m orte crim inosa, ou suspeita de sê-lo. Existe o atestado de óbito passado por um m édico dos m ais em inentes e respeitados, o doutor Albuquerque Gom es, que afirm a que o senhor Maurício Estrucho m orreu de m orte natural, enfarto do m iocárdio. Isso não pode ser descartado, levianam ente.”

Os dois advogados discutiram algum tem po. A petição do advogado de dona Clara Estrucho pedia que o exam e fosse feito sem que se vilipendiasse o cadáver, tendo em vista a religião do casal, o que fortalecia a posição do advogado chefe: “Um m ilhão de dólares não vale o risco da Panam ericana se cobrir de ridículo e de opróbrio”, disse ele. Os outros advogados que participavam da reunião tom aram o partido do chefe, j ustificando seu apoio com a retórica am bígua que os j uriconsultos costum am usar.

Foi decidido afinal que a Panam ericana faria o exam e.

Ribeiroles estava tranqüilo quanto à decisão tom ada, devido a um a conversa que tivera com o doutor Gervásio Pum s, chefe do Serviço Médico da Panam ericana, inventor de um a técnica conhecida com o MOSSB, Mensuração Orgânica de Sistem as Sem ióticos Biológicos, usada para m edir a rigidez física e m ental dos indivíduos. A MOSSB analisava os ritm os alfa e beta das ondas cerebrais, as funções involuntárias do corpo (com o batim entos cardíacos, pressão sangüínea, contrações do aparelho digestivo) e finalm ente a rigidez e consistência da m usculatura fibrosa, da pele e dos ossos. A MOSSB usava basicam ente cinco aparelhos inventados pelo doutor Pum s para fazer essas m ensurações. O

ETG, eletrotranscardiógrafo, que avaliava os batim entos cardíacos e a velocidade da passagem do sangue pelo coração; o EMAD, eletrom iógrafo de ação dupla, que determ inava a atividade elétrica e a tensão dos m úsculos; o DG, derm ogalvanôm etro, para calcular a resistência da pele; o EOG, eletrosteógrafo, para ponderar a resistência e a dureza dos ossos; finalm ente o EPROG, eletroprosencefalógrafo, capaz de m edir correntes elétricas do com plexo R (reptiliano), do sistem a lím bico e do neocórtex. A MOSSB, sendo capaz de registrar e analisar, com o nenhum a outra técnica pesquisatória, os sinais vitais do organism o, podia tam bém , da m esm a form a, pesquisar os sinais de m orte. *

Continuar: parte 3 de 4