Bufo & Spallanzani
Orelhas do Livro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
“O quê?”
“Ela não falou assim . Ela disse ‘vou botar aquela vigarista noj enta, piranha, pra fora a pontapés’.”
Peguei o telefone e disquei para casa. O telefone tocou m uito até que Minolta atendesse.
“Você interrom peu a m inha m editação transcendental”, ela disse.
“Passa a tranca na porta e não deixa ninguém entrar.
Principalm ente se for a Zilda.”
“Deixa com igo”, disse Minolta, desligando o telefone.
“Problem as, não é?”, disse Gom es, m e olhando enviesado.
“Não. Não. Tudo bem .”
“Penteie o cabelo”, disse Gom es.
“Preciso falar com o doutor Zum bano.”
“Mais um a razão para pentear o cabelo.”
“Não tenho pente.”
“Eu te em presto o m eu.” Gom es m e estendeu um pente preto, com dentes cinzentos de caspa. O paletó do Gom es estava sem pre cheio de caspa.
“Não, m uito obrigado.”
O doutor Zum bano estava saindo quando tentei falar com ele.
“Sobre o quê? Estou com pressa”, disse ele quando lhe perguntei se podia lhe dizer um a palavrinha. Dona Duda parecia apreensiva.
“O caso Estrucho. O senhor leu o m eu relatório?”
“Li. Li. Acabei de ler.”
“Acho que não podem os perder m ais tem po, aposto que se abrirm os aquela sepultura não encontrarem os ninguém lá dentro”, eu disse.
“As coisas não são tão sim ples assim , Canabrava”, disse Zum bano, m antendo um a certa distância de m im . “Preciso falar com o Ribeiroles. O assunto é delicado.”
“Doutor Zum bano, aquela sepultura está vazia. Não tem ninguém lá dentro. Eu não tenho dúvidas quanto a isso.”
“Não ter dúvidas é sem pre m uito perigoso”, disse Zum bano.
“E além do m ais, que provas nós tem os? Não se esqueceu do exam e feito pelos nossos m édicos? O hom em está m orto.”
“Ele estava num estado de catalepsia profunda.”
“Catalepsia profunda?”
“O senhor não leu o m eu relatório?”
“Li. Li o seu relatório. Sabe o que ele m e pareceu? Um desses relatos que querem provar a existência de discos voadores, ou a existência de extraterrestres.”
“Eu não acredito em disco voador.”
“Não parece.”
“E se os acionistas souberem que nada fizem os para defender os seus interesses, deixando que a com panhia sej a lesada em um m ilhão de dólares?”
O doutor Zum bano m e interrom peu:
“O senhor está m e am eaçando?”
É verdade. Eu estava am eaçando o doutor Zum bano.
Quando percebi isso senti-m e envergonhado. Eu não queria am eaçá-lo. Eu queria convencê-lo, talvez persuadi-lo a fazer o que eu achava m ais favorável aos interesses da com panhia. Mas não am eaçá-lo.
“Não, não estou am eaçando o senhor.”
“Não sej a tão convicto. Não existem verdades absolutas.”
“Eu sei. Mas existe a verdade sim ples, não existe?”
Zum bano fez um a cara pensativa.
“Se a verdade é relativa, a m entira é relativa... Vej a com o pensar é um a coisa instigante”, disse o doutor Zum bano. Tirou um caderninho do bolso. “Eu sem pre anoto as idéias que acredito serem im portantes, idéias que possam enriquecer m eu patrim ônio intelectual.” Anotou, repetindo em voz alta: “Se a verdade é relativa, a m entira é relativa”.
Esse aforism o é de Nietzsche, está em Assim falava Zaratustra, um dos livros m ais chatos que havia lido em m inha curta e m agra vida. Pensei em dizer isso ao doutor Zum bano, m as achei m elhor ficar calado.*
(*) Eu m e enganei. A frase de Nietzsche é: “Quem não sabe m entir não sabe o que é a verdade”.
“Então?”
“Então o quê?”
“O m eu relatório?”
“Aguarde, seu Canabrava. Enviei-o para o doutor Ribeiroles, preciso de um a opinião do Jurídico.”
Dito isto m e virou as costas, com um a expressão ostensiva de im paciência e irritação no rosto. E nos braços. Parecia, enquanto andava, afastar um m endigo que o tivesse agarrado pela m anga do paletó.
Cheguei em casa e encontrei Minolta à m esa da sala com telas, pincéis e tubos de tinta.
“Encontrei um a grana na gaveta e aproveitei para com prar estes bagulhos para pintura. Depois te pago. Estou pintando um quadro, Pesadelo num a m anhã de sol, m as não olha, eu não gosto que olhem os m eus quadros quando estou pintando. Ah, esteve aqui aquela cidadã.”
“Quem ?”
“A sua ex. Mulherzinha em pom bada. Mas tudo bem .”
Minolta voltou a pintar.
O telefone tocou.
Era Zilda.
“Seu verm e! Essa m egera do m angue quase m e m atou.
Estou cheia de m anchas roxas dos golpes que ela m e deu. Quero te avisar, carbúnculo fedorento, que estou indo dar queixa à polícia. O lugar dessa puta assassina é num a j aula.”
“Mas o que foi, Zilda?”
“O que foi, Zilda? Essa vadia psicopata faixa preta m e encheu de porrada. Ela m e disse que é cam peã de caratê, isso torna a agressão dela m ais grave. Vai apodrecer na prisão ou então vou lhe dar um tiro nos cornos.”
“Calm a, Zilda.”
“Ou você põe ela pra fora ou então eu vou aí com a polícia.
Vou a exam e de corpo de delito. Ela vai ver com quem foi que se m eteu. Você vai ver com quem foi que se m eteu.”
Ela fez m ais algum as am eaças e bateu o telefone na m inha cara.
Minolta, enquanto isso, pintava calm am ente a sua tela.
“Algum bode?”, perguntou Minolta.
“Ela disse que você bateu nela.”
“Ela é que queria bater em m im . Dei-lhe um chega pra lá.”
“Você é cam peã de caratê?”
Minolta riu.
“Eu disse isso para assustar aquela dona. Estava gritando m uito e eu disse pra calar a boca. Perguntou: ‘é você que vai m e fazer calar a boca, verm e?’. Eu botei as m ãos daquele j eito que a gente vê no cinem a e disse sou cam peã de caratê e parti pra cim a dela gritando say onara, a única coisa que sei em j aponês. Quando notei o que aconteceu, ela estava caída no chão, creio que escorregou, pois o golpe que dei nela, se é que se pode cham ar isso de golpe, não era m uito forte. Quer que eu m ostre para você?”
“O quê?”
“O golpe?”
“Não, m uito obrigado. A Zilda diz que vem aqui com a polícia.”
“Bafo.”
“Ela é um a m ulher encarniçada.”
“O que ela tem m uito é gogó. Manj o essas fricoteiras. Não vem que não tem . Com igo o buraco é m ais em baixo.”
“Esse pessoal da sua, quer dizer, os seus am igos, quer dizer
— que idade você tem ?”, perguntei.
“Quantos anos você m e dá?”
“Entre dezesseis e trinta”, eu disse.
“Acertou.”
“Esse pessoal da sua idade todo fala assim ?”
“Assim com o?”
“Essa m istura de gírias velhas e novas.”
“Às vezes, gosto de dizer coisas que a m inha avó dizia, com o isso do buraco, às vezes participo da invenção, outras curto um a frase do m inistro da Fazenda. Meu negócio é a polissem ia.”
“Você m e aj udaria a fazer um a pesquisa?”
“Depende”, disse ela.
“Depende de quê?”
“Prim eiro quero saber o que é. Não ponho m inha m ão em cum buca.”
“Eu vou tom ar um a substância para ver se entro em catalepsia.’’
Não falei dos m otivos que m e levaram a fazer aquilo, nem ela m e perguntou.
Telefonei para Ceresso, da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio.
“Doutor Ceresso, quem fala aqui é o Ivan Canabrava.
Lem bra-se de m im ?”
Ele lem brava. Perguntei se podia lhe pedir um favor. Ele ficou calado, pensei até que havia largado o telefone. “Pode”, disse ele afinal.
“Eu queria que o senhor m e arranj asse um sapo e um a quantidade de Py rethrum parthenium .”
“O que está pensando que eu sou? Um arm azém de pronta entrega de indivíduos da fauna e de com ponentes da flora universais? Tenho m ais o que fazer, rapaz.” Sua voz era áspera e irritada, m as ele não desligou.
“Doutor Ceresso, o senhor é a única pessoa no m undo que pode m e aj udar”, supliquei. “Por favor.”
“Estou m uito ocupado”, disse ele, agora apenas rabugento.
“Eu sei que o senhor está m uito ocupado, o senhor é um cientista im portante, dedicado a um a causa nobre que é a proteção dos anfíbios”, eu disse.
“Que sapo o senhor quer? O Bufo m arinus?
Confirm ei que era o Bufo m arinus; o sapo que eu identificara na parede do seu escritório.
“Olha rapaz, você está m e dando um trabalho m uito difícil, a fam ília das com postas é m uito grande. O Py rethrum parthenium pode estar na artem ísia, na losna, na arnica, na catinga-de-m ulata, na calêndula...”
Notei que Minolta arrancava a roupa e ficava só de calcinha.
“Está um calor dos diabos”, disse ela.
“... no cardo, na escarola, no carrapicho, na edelvais, evidentem ente no piretro...”
“Põe essa roupa”, disse eu fechando o bocal do telefone enquanto Ceresso recitava nom es de plantas da fam ília das com postas.
“Por quê? Você acha m eu corpo repugnante? Pelada eu enlouqueço você? Você fica chocado com a m inha nudez? Me dá um a razão para eu não ficar nua?”
“Bem ... Você pode pegar um resfriado.”
“Meu últim o resfriado foi há dez anos.”
“... aster, perpétua, dália...”
O corpo de Minolta até que não era repugnante. Os ossos talvez aparecessem m ais do que deviam , nas costelas e logo acim a do peito, o que era de se esperar considerando a dieta m acrobiótica. Seu traseiro era pequeno, redondo e m usculoso; as pernas
tam bém
eram
m usculosas,
com
quadríceps
surpreendentem ente volum osos e desenvolvidos. Senti um calor no corpo seguido por um calafrio.
“...tanaceto, cam om ila, chicória e m uitos outros”, disse Ceresso.
Os peitos de Minolta eram tam bém inesperados; daquela caixa de ossos proj etavam -se dois globos sólidos e em pinados, com o se estivessem estofados de silicone.
Perdi um pouco do que Ceresso dizia.
“Quando então o senhor pode m e dar isso?”
“Eu não disse que dentro de dois dias lhe arranj o tudo? Você é surdo, m enino?”
“É que o m eu telefone está com defeito”, eu disse.
Despedi-m e de Ceresso com agradecim entos pusilânim es e subservientes.
Vendo Minolta nua, pintando, lem brei-m e, não sei por quê, de Zilda. E se ela aparecesse de repente e visse Minolta nua andando pela casa? Im possível im aginar o que poderia acontecer.
“Se tocarem a cam painha não abre a porta”, eu disse, “deixa que eu abro.”
“Fiz um a salada de broto de bam bu para a gente com er no j antar”, disse Minolta.
Quando ela acabou de dizer isso a cam painha da porta tocou.
“Deixa que eu vej o.” Alarm ado, fui até a porta na ponta dos pés e olhei pelo olho m ágico. Um hom em e um a m ulher, com os rostos
desfigurados
pela
lente
do
visor,
sondavam
am eaçadoram ente com seus narizes deform ados enfiados na porta.
“Quem é?”, perguntou Minolta.
Voltei na ponta dos pés até onde ela estava, o coração batendo assustado.
“É um a gente sinistra”, m urm urei. “Devem ser da polícia.”
“E daí?”, disse Minolta,
“E daí?”, sem pre sussurrando, “deve ser coisa da Zilda. Não sei o que ela inventou. Você tem algum a coisa com você?”
“Algum a coisa com igo? Que coisa?”
A cam painha tocou de novo.
“Tóxico, bolinhas”, falei no ouvido dela.
“Tóxico? Isso j á era, ô cara, quem tá nessa agora é bancário, professor, hom em de açougue, burguês da zona sul. Deixa a polícia entrar.”
“E você pelada assim ? Pelo m enos põe um a roupa.”
Conduzi-a pelo braço até ao quarto. “Põe esse vestido”, eu disse dando a ela um vestido largão e com prido, aliás o único que ela possuía. Im paciente, Minolta enfiou o vestido pela cabeça enquanto cam inhava de volta para a sala.
A cam painha tocou novam ente.
Pelo visor contem plei novam ente as duas figuras sinistras. A m ulher pareceu dizer qualquer coisa com o “vam os arrom bar a porta”. “Eles iam arrom bar a porta!
“Eles vão arrom bar a porta”, eu disse para Minolta.
“Merda”, disse Minolta, largando o pincel. “Deixa que eu resolvo.”
Sem olhar pelo visor Minolta abriu a porta.
“Polícia, não é?”, disse ela, abraçando os dois recém -chegados. “Esse aqui é o Siri e essa é a Mariazinha. Eles fazem bij uterias e vendem na feira hippie.”
“Vendíam os. Fom os expulsos pela fiscalização. Agora vendem os na porta dos Correios, em Copacabana”, disse Mariazinha. “Mas tudo bem .”
“Eu não te falei que eles vinham j antar com a gente?”
“Não falou”, eu disse.
“Falei sim .”
“Então esqueci.”
“Esse é que é o —”, com eçou Mariazinha e parou.
“O o quê?”, perguntei.
“Pode dizer”, disse Minolta.
“O caretão?”, term inou Mariazinha.
“É”, disse Minolta.
“Sim pático”, disse Mariazinha.
“Não dá bola pra essas m ulheres não”, disse Siri.
“Ele disse que vocês iam arrom bar a porta”, disse Minolta.
“Nós?”, disseram os visitantes ao m esm o tem po, surpresos.
“Você não disse: vam os arrom bar a porta?”
“Eu? Eu disse: vam os em bora, ninguém abre a porta.”
“Quem tem m edo não vê nem ouve direito”, disse Siri.
“Vou te dar um presente”, disse Mariazinha. “Eu m esm a fiz.”
Me deu um cordão dourado com um berloque.
“Que bichinho é este?”
“É um tatu”, disse Siri.
“Põe”, disse Mariazinha.
Coloquei o cordão.
“Fiz um a salada de broto de bam bu pra gente”, disse Minolta.
“Nós trouxem os um requeij ão cearense que com pram os em São Cristóvão”, disse Siri.
Siri não era apelido, com o soube depois. Era o nom e dele m esm o. Apesar de tudo sim patizei logo com o casal. Depois do j antar ficam os conversando, até tarde. Àquela hora a condução rareava e eles m oravam em Santa Teresa, onde o transporte era difícil. Minolta convidou-os para dorm ir. “Vocês dorm em no quarto. Eu e o Ivan dorm im os na sala.” Eles não quiseram , m as insistim os, eram visita.
“Você dorm e no sofá, eu durm o no chão”, disse Minolta, depois que os visitantes haviam se instalado no quarto.
“Você dorm e no sofá, eu durm o no chão. Afinal sou o dono da casa”, eu disse.
Fizem os um a espécie de colchão com os cobertores. Na verdade, dorm ir no chão era m elhor do que dorm ir no sofá, com o com provei na m anhã seguinte ao acordar.*
(*) Neste fim de século, o sexo deixou de ser fruição para ser com unicação (ver Moravia), e com o tal não pode ser ignorado pelos escritores. Nos m eus livros, se um hom em e um a m ulher estão a sós e ela tira a roupa, algum a coisa acontece. Um a situação de indiferença com o a que ocorreu entre m im e Minolta seria im possível. Mas o fato é que aconteceu. Já disse que m inha satiríase dem orou a se m anifestar. Minolta fez de m im o que sou. Devo tudo a ela, acho que j á disse isso.
Os dois dias seguintes foram de penosa expectativa. Eu aguardava ansioso que Ceresso, da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio, desse notícias.
Enquanto
isso,
eu
trabalhava
norm alm ente
na
Panam ericana. Sabia que Zum bano não m e cham aria para conversar. Precisava colocá-lo frente a evidências irrefutáveis.
Mariazinha e Siri passaram a m orar no m eu apartam ento.
Estavam provisoriam ente na casa de am igos em Santa Teresa e aconteceu um problem a qualquer e tiveram que se m udar no dia seguinte ao que dorm iram na m inha casa. Candidam ente ocuparam m eu quarto, que afinal j á não era m eu e sim de Minolta. O arranj o daquele prim eiro dia foi m antido, Minolta dorm indo no sofá e eu no chão. Mas isso tudo não m e incom odava, eu só pensava na experiência que iria fazer tão logo recebesse o Bufo m arinus e o Py rethrum parthenium . Além do m ais, Mariazinha e Siri eram pessoas sim páticas, cuj a presença não m e incom odava. Na noite do dia em que se m udaram contei, para eles e para Minolta, o experim ento que pretendia realizar.
Ficaram interessadíssim os no que lhes contei. Perguntei se não queriam m e aj udar e, m ais do que isso, acom panhar o teste que eu faria e depois assinar, com o testem unhas, o relatório que eu pretendia preparar para Zum bano caso o resultado fosse positivo, com o eu esperava. Concordaram entusiasm ados. Mariazinha fez um a ressalva. “Eu só não quero pegar no sapo, tenho noj o.”
“Eu pego. Só tenho noj o de barata”, disse Minolta.
“Eu aj udo”, disse Siri.
Expliquei que ninguém precisava pegar no sapo. Eu m esm o tiraria o veneno das glândulas do anim al. Bastava fazer um a pequena pressão sobre as paratóides. O problem a era a quantidade de veneno que eu teria de usar. Com o m e dissera Ceresso, da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio, o veneno do Bufo m arinus era poderosíssim o e qualquer anim al inoculado com ele sofreria terríveis convulsões tônicas seguidas de m orte. O
próprio sapo era sensível à ação do seu veneno, perecendo com o os outros anim ais.
“Li, não sei onde, que se quiser im pedir que o seu nam orado chifre ou abandone você basta apenas m anter um sapo debaixo da cam a”, disse Minolta.
“Prefiro perder o nam orado”, disse Mariazinha.
Na Panam ericana eu evitava conversar com o Gom es. Não confiava nele, não apenas quanto aos assuntos da Com panhia m as tam bém porque tinha certeza de que ele m e espionava para Zilda. Ela não cum prira a am eaça de ir com a polícia à m inha casa, talvez estivesse tram ando algum a coisa ainda pior.
Afinal, Ceresso, da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio, m e telefonou.
“Tenho tudo o que você quer. Passe aqui na Associação.”
“Agora? Neste instante?” Tentei falar baixo para que o Gom es, na m esa ao lado, não ouvisse o que eu dizia. Mesm o assim ele m e olhou com orelhas aguçadas.
“Agora”, respondeu Ceresso.
“Já vou”, eu disse.
Vesti o paletó e j á ia saindo quando Gom es postou-se à m inha frente.
“Eu sou seu am igo”, disse Gom es.
“Estou com pressa, tenho um assunto urgente para ver.”
“Você tem agido de m aneira m uito estranha nos últim os dias. É algum a coisa? Pode confiar em m im .”
“Estou atrasado”, eu disse, rodeando Gom es e saindo da sala.
Peguei um táxi que m e levou até ao escritório da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio.
Ceresso m e esperava.
“Vej a o belo m acho que arranj ei para você”, disse Ceresso.
Era um sapo im enso, am arelo-esverdeado, o ventre cheio de m anchas pardas. Seu corpo inteiro estava coberto por glândulas papulosas, algum as encim adas por pontas córneas. Notei que o sapo, à m edida que eu o olhava, ia aum entando de tam anho, seu ventre inchando de m aneira assustadora.
“Essa espécie é m uito vaidosa”, disse Ceresso, “e este indivíduo, particularm ente, parece ainda m ais j actancioso do que a m édia. Vej a com o ele se enfuna de soberbia.”
“Não brinca! Esse bicho se considera bonito?”, perguntei.
“Na verdade ele pensa que você é um a cobra e está inchando para que você não possa engoli-lo facilm ente.” Havia um sorriso zom beteiro nos lábios (não eram exatam ente lábios, era apenas um risco fino entre o nariz e o queixo) de Ceresso.
Ceresso pegou um recipiente de vidro e com eçou a tirar o veneno das glândulas do sapo. “É preciso esprem er as glândulas com cuidado, do contrário a secreção pode ser expelida a m ais de cinqüenta centím etros de distância”, disse Ceresso. Ele apalpava o sapo, que se m antinha im óvel, com extrem o cuidado. Um a substância repugnante, com um odor forte que eu nunca sentira antes, se desprendeu do tegum ento do anim al. Com um pequeno bastonete de vidro, Ceresso colheu a secreção colocando-a no recipiente.
“Pronto”, disse Ceresso, “aqui está. Mas lem bre-se, cuidado com o que você vai fazer com isso.”
“Doutor Ceresso, eu j á lhe disse, quero desm ascarar um crim inoso, um estelionatário, um espertalhão. Estou a serviço do Bem .’’
“É o que tem m ais no Brasil, espertalhões, principalm ente no m undo científico”, disse Ceresso. “Mediocridades audaciosas que adquirem prestígio m ediante a apropriação dissim ulada e hábil da criatividade alheia. Ladrões! Pulhas! Calhordas!”
Ouvi pacientem ente as diatribes vociferadas por Ceresso. Ele estava certo, havia que pôr um term o a essa situação.
De posse do veneno do sapo e do Py rethrum parthenium corri para casa, para os m eus am igos, que iam m e aj udar, Minolta, Mariazinha e Siri.
“Meus am igos”, eu disse, “m eus irm ãos, agora chegou o m om ento. Um a proporção de 1 m g por 50 m g, conform e os autores consagrados.” Na hora não m e lem brei se seria o português, o j aponês, o am ericano ou lá quem fosse que determ inara esta proporção. Eu estava possuído por um a idéia fixa, disposto a m orrer por ela.
O m étodo seria este: eu tom aria a prim eira dose da beberagem e deitaria na cam a. Depois ficaria dez horas deitado e eles enfiariam por um funil outra dose pela m inha boca, tal com o Clara Estrucho fizera com o m arido. Então cham ariam um m édico. Depois m e fechariam , ou m elhor, envolveriam m inha cabeça num saco plástico, para im pedir m inha respiração (era im possível arranj ar um a sepultura no cem itério) durante m ais vinte e quatro horas. “Você pode m orrer, ô cara”, disse Minolta,
“m as se for para um a boa causa tudo bem .” Era um a boa causa desm ascarar dois m entirosos.
Antes de beber o líquido, Mariazinha m e fez tom ar um banho de descarrego. Colocou sal grosso num balde cheio de água quente, m e botou nu no boxe do banheiro e antes de j ogar a água salgada sobre m im proferiu a seguinte reza, que eu repeti: “Anj o da guarda, guias e protetores, derram ai vossas influências sobre m im , fazendo-m e possuidor de energia, fé e firm eza de pensam ento, que ao tom ar este banho eu sinta as vossas vibrações e as vossas bênçãos. Assim sej a”.
Eu não acreditava em m andingas, m as aquele banho deu-m e, não sei por quê, m ais confiança.
Deitei no chão. Não queria im pedir que Siri e Mariazinha fruíssem do conforto da cam a. Para o resultado da experiência tanto fazia que eu deitasse na cam a ou no chão. “Me dá isso para beber”, eu disse.
“Você tem m ãe?”, perguntou Mariazinha.
“Não sej a idiota”, eu disse.
“Sej a o que Deus quiser”, disse Siri.
“Merda”, disse Mariazinha, “você agora acredita em Deus?”
“Virou um negócio de bruxa”, disse Siri, “Deus está m etido em todas as bruxarias.”
“Você tem m ãe?”, repetiu Mariazinha.
“Por quê?”
“Se acontecer algum a coisa ruim sua m ãe gostaria de saber.”
“As m ães querem saber de tudo m enos das coisas ruins”, disse Siri. “Não chateia. Vam os lá, rapaz.”
Tom ei a beberagem .
“Está sentindo algum a coisa?”, perguntou Minolta.
“Por enquanto não.”
Eu não sentia coisa algum a. Talvez dem ore para fazer efeito, pensei. E apaguei.
Fui acordando aos poucos. Prim eiro voltou o olfato, um odor que eu conhecia m as não identifiquei logo (Era incenso indiano que Mariazinha havia queim ado.) Depois com ecei a ouvir ruídos, vozes abafadas, bulício de louça, um a buzina na rua. A visão ficou para o fim , m esm o porque eu m antive os olhos fechados enquanto voltava a sentir o m undo.
Os três, Minolta, Mariazinha e Siri estavam debruçados sobre m im , ansiosos.
“Você nos deu um susto dos diabos”, disse Siri.
“Você disse que ia parecer um m orto, nós estávam os preparados, m as m esm o assim ficam os preocupados.”
“Nunca vi um m orto m ais m orto do que você. Dava até vontade de enterrar”, disse Minolta.
“Cham aram o m édico?”, foi a prim eira coisa que eu disse.
“Cham am os. Está aqui o atestado de óbito. Ele exam inou você e deu o atestado.”
“Vocês fizeram com o eu m andei?”
“Seguim os tudo direitinho. Quando ele afirm ou que você tivera um enfarto fulm inante, eu disse, m e descabelando, que isso não era possível, que ele exam inasse novam ente, que você tinha um a saúde de ferro, que havia um caso na fam ília, de um tio que fora dado com o m orto e que no velório pulara do caixão assustando todo m undo.”
“Ele não acreditou na história do tio, vi pela cara dele, deve ter achado um a invenção da pobre viúva desesperada”, disse Mariazinha.
“Mas ele exam inou de novo.”
“Você gritava tanto.”
“Depois ele disse: ‘lam ento m uito m inha senhora, m as não há dúvida de que o seu m arido m orreu’. Aí m e deu um a vontade de rir e eu caí na gargalhada.”
“Ele desconfiou, nessa hora?”, perguntei.
“Nada. Me deu um as pílulas para tom ar. Deve ter achado que eu pirei. Joguei tudo na latrina. Vê só se eu vou tom ar pílulas.”
Peguei o m eu próprio atestado de óbito, que li com a agitação possível no estado sonolento em que m e encontrava. Eu tinha as provas que precisava para convencer Zum bano e os diretores da Panam ericana a abrirem a sepultura, onde se dizia que Maurício Estrucho estava enterrado, e constatarem que a m esm a estava vazia. Depois era só encontrar os coveiros envolvidos na tram a crim inosa e desm ascarar o casal trapaceiro.
Um a coisa engraçada: durante os dois dias em que eu estivera sob a ação da droga a m inha barba não crescera. Eu faço a barba todos os dias, de m anhã e à noite, fios duros eriçados escurecem e cobrem todo o m eu rosto. Muitas vezes, Zilda m andou-m e sair da cam a e fazer a barba, alegando que eu a estava arranhando. Mas naqueles dias — que estive sob o estado cataléptico — nem um único fio da m inha barba crescera.
Com o atestado de óbito no bolso fui para a Panam ericana.
“Que foi que aconteceu?”, perguntou Gom es. “Liguei todos estes dias para a sua casa e disseram que você estava viaj ando.”
“De certa m aneira é verdade”, eu disse.
“Não estou entendendo.”
“Preciso falar com o Zum bano”, eu disse.
“Calm a. Não faça bobagens. Eles acabam m andando você em bora.”
“Que m andem .”
Dona Duda não m e deu um bom bom . Recebeu-m e com frieza, dizendo: “O doutor Zum bano está ocupado”, antes que eu abrisse a boca.
“Mas eu preciso m uito falar com ele.”
“Im possível. Ele está ocupado, j á lhe disse.”
“Sinto m uito, dona Duda”, eu disse. Meti a m ão na porta da sala do doutor Zum bano e entrei.
O doutor Zum bano estava lendo o j ornal. Levantou-se surpreso, dobrando o j ornal.
“Eu disse que o senhor estava ocupado m as ele entrou assim m esm o”, disse dona Duda às m inhas costas.
“Saia”, disse Zum bano.
“Só saio depois do senhor m e ouvir”, eu disse.
“Então sairá à força. Cham e a segurança, dona Duda, para expulsar este dem ente da m inha sala.” Ele estava furioso, sua voz trem ia.
“Eu tenho aqui todas as provas da tram óia dos Estrucho.”
Tirei o atestado de óbito do bolso e sacudi-o na cara de Zum bano.
A atitude de Zum bano m udou subitam ente.
“Pode deixar, dona Duda. Vou conversar com o seu Canabrava.”
“O senhor não quer que eu cham e —”
“Não. Pode sair.” Noutro tom , para m im : “Sente-se, por favor, seu Canabrava, e conte tudo. Talvez o senhor tenha razão.”
Contei tudo para Zum bano. As m inhas suspeitas iniciais, as pesquisas que fizera na Biblioteca Nacional (“isso está no relatório que lhe entreguei”), a aj uda de Ceresso e finalm ente a experiência que fizera, provocando em m im m esm o o estado cataléptico que levara o m édico a supor que eu m orrera.
“Está aqui o atestado de óbito.”
“Hum ...”, disse ele lendo o atestado. “Muito interessante.
Olha, Canabrava, não fale a ninguém sobre isso, pode atrapalhar as investigações. Deixe o atestado com igo. Fez um belo trabalho. É
de gente com a sua inteligência e dedicação que a Panam ericana precisa. Vou propor um a prom oção para o senhor.”
“Muito obrigado.”
“Volte para a sua sala e não se esqueça: silêncio. Precisam os tom ar cuidado para que os estelionatários não sej am alertados.
Eles podem ter um cúm plice aqui dentro.”
Eu não havia pensado nisso. Não era um a possibilidade absurda. Afinal era m uito dinheiro envolvido. Quando cheguei à m inha sala, Gom es m e perguntou qual o assunto que eu fora conversar com o Zum bano. Desconversei dizendo que era coisa particular, sem im portância. Subitam ente passei a suspeitar de Gom es. Lem brei-m e de que ele, ultim am ente, andava m uito curioso, m e vigiando e fazendo perguntas estranhas.
“Não quer contar não conta”, disse Gom es, “eu sei que você está escondendo algum a coisa de m im , algum a coisa séria.”
Passei o dia sem fazer coisa algum a. Gom es foi cham ado à sala de Zum bano e depois saiu num a diligência. No fim do dia fui para casa. Contei para Minolta, Mariazinha e Siri o que acontecera. Depois liguei para o Ceresso, da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio, para lhe dizer que a sua aj uda fora valiosíssim a. Perguntei se ele não queria j antar na m inha casa, no sábado seguinte.
“Sou vegetariano”, ele disse.
“Nós tam bém . Quero que o senhor conheça m eus am igos Minolta, Mariazinha e Siri.”
Ceresso aceitou, dizendo que com pareceria.
“Hoj e esteve aqui um hom em fazendo perguntas. De onde ele era m esm o, Siri?”, disse Mariazinha.
“Do BNH.”
“Do BNH? Do Banco Nacional de Habitação?”
“Isso. Queria saber quantas pessoas m oravam na casa, nossa profissão, se tem os filhos. É para um levantam ento que eles estão fazendo sobre não sei o quê.”
“Um cara enrolado, confuso, verdadeiro bolha”, disse Minolta.
No dia seguinte cheguei à Panam ericana no horário de sem pre. Um pouco antes da hora de entrar, com o sem pre. A m anhã j á estava adiantada, Gom es ainda não aparecera, quando fui cham ado ao Departam ento de Pessoal.
Ao chegar lá tive um choque. Eu havia sido dem itido.
“Não é possível. Deve haver um engano.”
“Ordens da diretoria”, disse o funcionário do Departam ento de Pessoal. “Mandaram que eu fizesse as suas contas. Está tudo pronto.”
Não assinei os papéis. Corri até à sala de Zum bano. Havia um hom em da segurança na sala de dona Duda, lendo um j ornal.
A secretária fez um sinal para ele quando entrei na sala.
“Quero falar com o doutor Zum bano. Houve um engano e eu fui dem itido”, eu disse.
“O doutor Zum bano não está”, disse dona Duda.
“Ele não está”, disse o segurança, colocando-se na frente da porta.
De repente, veio à m inha m ente um a descoberta!
Zum bano devia fazer parte da quadrilha! Que idiota eu fora em não ter percebido isso desde o início. E dera a ele o atestado de óbito! Precisava ficar calm o, não adiantava fazer o j ogo deles.
Certam ente o doutor Ribeiroles, chefe do Jurídico, não estava envolvido na falcatrua. Eu precisava arranj ar outro atestado.
O m édico que dera o atestado cham ava-se Pedro M. Silva. O
consultório dele ficava na avenida Nossa Senhora de Copacabana, perto do cinem a Art Palácio. Ele havia sido escolhido na lista telefônica, por ter o consultório a pouca distância do m eu apartam ento, na rua Figueiredo de Magalhães, quase esquina da Dom ingos Ferreira (não se negaria a atender um doente tão perto) e tam bém por ser cardiologista. O m édico chegava às duas horas.
Telefonei para Minolta e pedi-lhe que fosse ao consultório e conseguisse um a cópia do atestado, alegando que havia perdido o prim eiro. Marquei com ela um encontro às duas e trinta na porta do cinem a.
Eram onze horas da m anhã. Eu tinha que gastar o tem po até a hora do encontro com Minolta. Resolvi visitar Ceresso, na Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio, no Edifício Marquês do Herval, na avenida Rio Branco, esquina da Alm irante Barroso.
Fui atendido por um a m ulher.
“O senhor não soube?”
“O quê?”
“O doutor Ceresso se m atou esta noite. Coitadinho.”
“Se m atou? O doutor Ceresso? Não é possível. Eu falei com ele ontem à noite, pelo telefone. Deve haver algum engano.” Eu não podia acreditar no que a m ulher m e havia dito.
“Ele pulou da j anela do apartam ento dele. De m adrugada.
Ele não andava bem , coitadinho, estava m uito doente, o senhor sabia?’’
Desci no elevador apinhado de gente, horrorizado, com vontade de gritar. Os bandidos haviam m atado o velhinho. Eu fora estúpido ao contar a Zum bano que Ceresso m e havia aj udado nas investigações. Possivelm ente m e m atariam tam bém . Eu tinha que fazer algum a coisa, rapidam ente. Ir à polícia? Falar com Ribeiroles? Prim eiro ir a Ribeiroles ou à polícia? Eu estava confuso. Prim eiro, o atestado de óbito, decidi. A essa altura Zum bano devia ter espalhado pela com panhia que eu era louco.
Dona Duda e Gom es corroborariam qualquer afirm ativa nesse sentido. Minha situação não era nada boa. Provavelm ente o suj eito que fora ao m eu apartam ento, dizendo que era do BNH, devia ser m em bro da gang.
Telefonei para casa m as ninguém atendia. Era um a hora e quinze m inutos.
Com o o tem po dem orava a passar! Meu encontro com Minolta, para apanhar a cópia do atestado, seria às duas e trinta.
Notei que estava falando sozinho dentro do ônibus que m e levava para Copacabana. Eu falava, entredentes: com o provar que Ceresso foi m orto? Prim eiro era preciso desm ascarar os crim inosos existentes dentro da própria Panam ericana, então eu teria credibilidade para exigir um a investigação da m orte do presidente da Associação Brasileira de Proteção ao Anfíbio.
Às duas e quarenta e cinco, Minolta apareceu na porta do Art Palácio. Já de longe, ao m e ver, ela com eçou a gesticular com exasperação, fazendo caretas.
“Conseguiu o atestado?”, perguntei, o coração apertado, sentindo que algum a coisa ruim havia acontecido.
“Não, o cara disse que não deu atestado nenhum em nom e de Ivan Canabrava, que não sabia quem era e quando engrossei cham ando ele de m entiroso m andou a enferm eira cham ar o Pinel.
Eu continuei chiando e a m ulher ligou para o Pinel dizendo que um a doente estava tendo um surto psicótico no consultório. Dei o fora, o que podia fazer?”
Então tive um a idéia lum inosa.
“Só nos resta um a coisa a fazer”, eu disse.
“O quê?”
Contei para Minolta o m eu plano.
“Que loucura”, disse Minolta.
“Você m e aj uda?”
“Aj udo, pode contar com igo. Onde a gente pode com prar essas coisas?”
“É só ver na lista telefônica.”
“Precisam os tam bém de um a saca grande.”
“Então vam os em bora que não tem os m uito tem po.”
Eram quatro e quinze quando chegam os ao cem itério São João Batista, carregando num a saca grande um a picareta de cabo curto, um a m arreta, um form ão e um a pá, tam bém de cabo curto.
“Você sabe onde o cara está enterrado?”, perguntou Minolta.
“Sei onde ele não está enterrado. Assisti ao falso enterro; a sepultura fica perto de um m ausoléu grande todo rococó, é fácil de achar.”
Meu plano era o seguinte. Eu arrom baria a sepultura e cham aria o adm inistrador do cem itério, os coveiros, cham aria a im prensa, polícia, o diabo, para que todos vissem a sepultura vazia. Criaria um escândalo de tais proporções que não poderia ser abafado, sairia até na TV e os crim inosos seriam afinal punidos.
Sobre o falso j azigo haviam colocado um a lousa de m árm ore negro onde estava escrito apenas Maurício Estrucho e as datas do seu nascim ento e da sua (fictícia) m orte.
“Você pega o form ão e a m arreta. Eu usarei a picareta.”
Aquele m aldito m árm ore! Estava tão cim entado que para sair teria que ser espedaçado. Evidentem ente aquela sepultura era para não ser aberta nunca m ais. Com ecei a bater furiosam ente com a picareta no m árm ore. Com o form ão e a m arreta Minolta fazia furos na superfície lisa da lápide. Aos poucos o m árm ore foi sendo estilhaçado e afinal conseguim os arrancá-lo, deixando aparecer a lage de cim ento que cobria a tum ba.
“Parem ! Parem !”, gritou um a voz.
A pouca distância estava um coveiro, que olhava para nós espantado. Corri para ele. Agarrei-o pelo braço. “Cala a boca”, eu disse, “fica quieto senão te m eto essa picareta na cabeça.” Eu precisava term inar de arrom bar aquele túm ulo.
“Socorro!”, gritou o coveiro, “socorro!” Devia ser um dos cúm plices da tram óia.
Com o grito do coveiro Minolta parou de trabalhar, sem saber o que fazer.
“Cala a boca”, eu disse, sacudindo o coveiro, um velho de cabelos grisalhos.
“Socorro”, gritou novam ente o coveiro, com voz débil.
Estávam os no m eio do cem itério, longe da rua, e ninguém parecia ter ouvido seus gritos.
“Cala a boca, por favor”, supliquei.
“Socorro, ladrões”, gritou o coveiro, com voz esganiçada.
Bati com a picareta, com toda a força, na cabeça do coveiro.
Ele caiu no chão com o rosto cheio de sangue.
“Ele está m orto?”, perguntou Minolta.
Ouvi um apito. Ao longe, do lado das capelas, alguns vultos corriam em nossa direção.
“Vam os em bora”, eu disse. Mas Minolta não se m exeu. “Ele está m orto?”, perguntou ela, ainda segurando na m ão a m arreta e o form ão. Agarrei-a pelo braço, puxei-a violentam ente e ela pareceu despertar de um transe e saiu correndo com igo em disparada pela porta principal. Fom os largando as ferram entas pela rua, form ão, picareta, tudo. Afinal conseguim os pegar um táxi. Fizem os nossa m ala, e enquanto Minolta dizia “vam os em bora, não há tem po a perder”, eu resolvi deixar um bilhete para Mariazinha e Siri. O tem po que perdi nisso acabou causando m inha prisão. No m om ento em que estávam os saindo do edifício um carro da polícia chegou. Gom es estava lá dentro. O que aconteceu depois eu tentei esquecer, m as às vezes volta em form a de pesadelo. Fui levado para um a delegacia, e depois para outra e finalm ente para ser exam inado no Manicôm io Judiciário. No Manicôm io Judiciário ficou claro que achavam , ou haviam sido pagos para achar, que eu estava louco. Isso m e deixou tão irritado que passei a m e com portar com o se fosse louco m esm o. Tive um a crise de paranóia, certo com o estava de que os m édicos faziam parte da conspiração. Passei a cham ar os m édicos de m afiosos sinistros, agredi um deles, tentei fugir da enferm aria. Cada vez m e afundava m ais. Percebi que eu ia passar o resto da m inha vida ali, indo de um m édico para o outro, até que finalm ente eu ficaria m aluco m esm o, ou m ataria alguém e aí j ustificaria a m inha reclusão. Enchi-m e de horror ao pensar nisso. Eu tento, hoj e, tirar da cabeça o que aconteceu e faço, sem pre, exercícios m nem ônicos especiais, não para lem brar, m as para esquecer tudo aquilo.
Falarei pouco sobre os dias em que estive preso naquele inferno horrendo, o Manicôm io Judiciário. Os hospícios com uns, onde os regulam entos são m enos rígidos, devem estar cheios de pessoas nessas condições. Um Manicôm io Judiciário é m uito pior.
Quantos inocentes, com o eu, que m atei o coveiro sem querer, estariam apodrecendo ali? Senti que eu ia ficar doido m esm o, depois de passar noites inteiras, não sei quantas, trem endo de febre, ouvindo vozes e com as esperanças perdidas. Eu estava com o o poeta do Paradise lost: So farewell Hope, and with Hope farewell Fear,/ Farewell Rem orse: all Good to m e is lost;/ Evil be thou m y Good.
Na m anhã desse dia, em que o m eu desespero chegara ao m áxim o, um guarda veio m e dizer que m inha irm ã e um padre haviam obtido licença para m e visitar. Eu estava deitado no estreito catre im undo do cubículo. Levantei-m e, surpreso.
“Ivan, m eu Ivan”, disse m inha irm ã m e abraçando. “Trouxe o padre João para você se confessar.”
“Deixe-nos a sós”, disse o padre, um hom em de barbas negras, para o guarda.
Quando o guarda saiu, Minolta disse: “Você vai em bora com igo”.
“Eu fico no teu lugar”, disse Siri tirando as barbas postiças e a batina de padre.
“Eles m atam você aqui neste inferno, não vou deixar você fazer isso por m im ”, eu disse.
Minolta m e explicou que Siri não era, com o eu, um louco violador de sepulturas. Eles haviam consultado um advogado e o crim e pelo qual Siri poderia vir a ser acusado era um a bobagem .
Os dois acabaram m e convencendo.
Passei por todas as portas com o m eu disfarce de padre consolando um a pobre j ovem infeliz que chorava tanto que ninguém olhava para m im . Foi um alívio para os guardas livrarem -se dos gritos de Minolta. Um deles chegou a m e segurar pelo braço (o que quase m e m atou de susto) dizendo: “leve logo essa m oça daqui, seu padre”.
Do m anicôm io fom os direto para a rodoviária. No banheiro da rodoviária vesti as roupas que Minolta carregava num a m aleta, tirei as barbas e botei-as j unto com a batina na m aleta. Pegam os um ônibus e fom os para um lugar na região dos lagos cham ado Iguaba.
Nesse lugar fiquei dez anos. Minolta sugeriu que eu m e tornasse um escritor e m e deu a idéia do m eu prim eiro livro.
Minolta levou o livro para o editor e conseguiu a publicação desse livro. Meu pseudônim o, Gustavo Flávio, foi escolhido num a hom enagem a Flaubert; naquela época, com o Flaubert, eu odiava as m ulheres. Hoj e eu teria hom enageado outro escritor. Minolta m e ensinou a am ar. Me ensinou a gostar de com er. Fazíam os am or várias vezes, todos os dias. Engordei trinta quilos. Fiquei fam oso.
Um dia Minolta chegou para m im e disse: “Acho que você pode voltar para o Rio. Ninguém m ais se lem bra de Ivan Canabrava”.
“Você vai com igo?”
“Não. Mas eu te am o e quero te ver sem pre. De seis em seis m eses vou te ver. Quero ficar aqui, nestas praias desertas, escrevendo m eus poem as. Sej a bom com as m ulheres.” Ela sabia que m e havia feito descobrir o prazer de am ar as m ulheres.
E de seis em seis m eses Minolta vem m e ver, nesses dez anos, desde que voltei para o Rio. Eu lhe conto m inhas aventuras.
A últim a foi o m eu rom ance com Delfina Delam are.
Voltando ao rom ance com Delfina, que deixei de contar para relem brar o m eu passado negro.
Depois da am eaça de Eugênio Delam are, passei dois dias preocupado até que li nas colunas dos j ornais que o casal Delam are em barcara para Paris.
“O resto você j á sabe, Delfina voltou antes, apareceu m orta et cetera. O m arido não m e preocupa tanto quanto esse j avert pé-de-chinelo, o tira Guedes.”
Isso eu disse a Minolta antes de ir a delegacia onde Guedes m e disse que um assaltante confessara ter assassinado Delfina.
Voltei da delegacia preocupado, com m edo que o tira Guedes descobrisse o m eu passado negro. Minolta m e tranqüilizou dizendo que isso seria im possível. Havia transcorrido m uito tem po etc.
“Estou m ais preocupada com essa coisa de você não conseguir escrever o Bufo & Spallanzani”, disse ela.
Foi então que surgiu a idéia de eu ir passar uns dias num lugar cham ado Refúgio do Pico do Gavião, na serra da Bocaina.
Não m e lem bro exatam ente quando.
“Talvez sej a bom você deixar um pouco o TRS-80. Você está viciado e isso não é bom . Um autor deve escrever em qualquer condição”, disse Minolta.